Saque e Voleio

Arquivo : política

Sobre Copa Davis e competências
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

O fim de semana do confronto entre Equador e Brasil chega ao fim com o resultado mais provável. Vitória brasileira garantida no sábado, com Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e a dupla mineira vencendo. Foi, no entanto, um duelo mais interessante e divertido (dependendo da sua torcida) do que o imaginado. O mérito – ou a culpa – disso é de Thomaz Bellucci, que complicou um jogo não tão duro e quase acabou superado por Emilio Gómez, número 272 do mundo.

O Equador, claro, teve seus méritos. Dono de uma equipe muito mais fraca, com Roberto Quiroz (#232) como número 1, o país fez o dever de casa. Colocou os jogos na altitude de Ambato, 2.500m acima do nível do mar, e nivelou os confrontos por baixo. Ainda que levado em conta o bom histórico de Bellucci em condições semelhantes, era mesmo o melhor a se fazer.

Não dá para dizer que os donos da casa erraram. O nível foi tão para baixo que Bellucci se empolgou na sexta-feira e cavou um buraco enorme depois de abrir 2 sets a 0 contra Gómez. O equatoriano virou o jogo e chegou a ter uma quebra de frente no quinto set. Para a sorte de Bellucci, Gómez nunca foi (ainda?) o tal futuro top 50 que um dia venderam na TV brasileira (coisas que o pachequismo tenta empurrar goela abaixo do espectador para justificar escolhas erradas de parceiros de negócios). Emilio sentiu os nervos, perdeu a vantagem num game com duas duplas faltas e um erro não forçado e voltou a perder o saque antes de um tie-break decisivo: 6/2, 6/4, 6/7(1), 4/6 e 6/4.

Pessimismo meu? Nem tanto. Gómez saiu da quadra dizendo que nem fez uma ótima partida e que se tivesse ganhado, não seria por mérito de seu tênis. Bellucci, por sua vez, afirmou que a experiência fez diferença, reconheceu que Gómez sentiu os nervos no quinto set e concluiu que o rival lhe “permitiu ganhar a partida”. Ambas parecem declarações bastante conscientes sobre o que aconteceu em quadra.

Thiago Monteiro era um ponto de interrogação maior. Jogou em Quito duas vezes na vida e perdeu ambas. E nenhuma outra apresentação em tanta altitude em toda a carreira. Bom para Quiroz, que conseguiu equilibrar um jogo que, em outras condições, seria muito mais favorável ao brasileiro. Mesmo assim, o cearense foi melhor nos momentos importantes: 6/7(6), 7/6(0), 6/3 e 7/6(7).

Com 2 a 0 no sábado, restava à dupla fechar o caixão. Bruno Soares e Marcelo Melo, que raramente decepcionam juntos, fizeram 6/3, 6/4 e 6/3 em 1h38min sobre Gonzalo Escobar e Roberto Quiroz. Sem drama. Brasil de volta ao playoff.

Coisas que eu acho que acho:

– Em Ambato, a delegação brasileira contou com a presença de Luís Eduardo Nunes, presidente da federação paraibana de tênis, que exerceu a função de “auxiliar da delegação”, segundo a assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

– Segundo a CBT, Nunes foi a Ambato pagando de seu próprio bolso – sem pedir nada à entidade. No entanto, como o chefe da delegação, Eduardo Frick, não conseguia tratar de todas questões logísticas necessárias por conta própria, Nunes foi agregado ao time, ganhando uniforme, participando de eventos oficiais, sentando no banco junto com a equipe durante as partidas e até comemorando a vitória dentro de quadra. Nunes participou até do teatrinho dos jogadores, “fantasiado” de Lampião (é ele no centro da imagem abaixo).

– Estranha o fato de Frick, recém-contratado, não ter competência para cuidar da logística de uma equipe de Copa Davis. Paulo Moriguti, seu antecessor na função, nunca precisou de auxiliar. Moriguti, aliás, deixou a CBT depois que Rafael Westrupp assumiu a presidência no lugar de Jorge Lacerda.

– Merece elogios o altruísmo de Luís Eduardo Nunes. Além de pagar de seu bolso para viajar a Ambato (!!!) para ver de perto nomes como Roberto Quiroz e Emilio Gómez (porque Bellucci e Monteiro ele poderia ver no Rio ou em São Paulo), o presidente da federação paraibana ainda trabalhou de graça para o tênis brasileiro. Que a CBT e Frick, aquele que não conseguiu fazer seu trabalho sozinho, sejam eternamente gratos a ele.

– Chegamos a abril, e a CBT ainda não tem uma empresa grande como fornecedora oficial de material esportivo. O time viajou ao Equador vestindo Companion – marca que também serviu como tapa-buraco durante um período da gestão de Jorge Lacerda.

– Pela primeira vez em muito tempo, um time brasileiro de Copa Davis viaja sem fotógrafo. Talvez por isso a imagem escolhida por todos jogadores e técnicos para postar em redes sociais após a vitória foi a selfie registrada por Marcelo Melo. Não havia opção. Talvez o trabalho de um fotógrafo ajudasse a divulgar o time e valorizasse o espaço no uniforme brasileiro, o que, por sua vez, ajudaria a atrair marcas. Há quem acredite, porém, que estou superestimando o valor do fotógrafo.


Parque Olímpico, bolas e etc.: 5 últimas perguntas sobre o Rio Open
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Antes de começar a falar do Brasil Open e seus resultados, deixo aqui, como prometido, o post com declarações do diretor do Rio Open, Lui Carvalho, após o ATP 500 carioca. São frases selecionadas da coletiva concedida após a final e de um papo com alguns jornalistas após a entrevista. Nem todas perguntas são minhas, mas são os cinco temas que considerei mais importantes entre os que foram abordados no último dia do evento.

1. Melhorias

Na cerimônia de premiação de duplas, o Carreño Busta disse que o torneio melhorou muito. O que os jogadores acharam deste ano, que foi o primeiro sem o evento feminino?

Na reunião geral com a ATP, eles apresentam o relatório, e foi muito positivo. Disseram que foi o melhor Rio Open em termos de organização para os atletas. A questão de não dividir espaço com as mulheres foi fundamental por várias razões. O serviço de transporte era um serviço exclusivo deles. Eles desciam e, no lobby, tinha um carro esperando para levar aonde eles quiserem 24 horas por dia. Na alimentação, a gente fez algumas alterações, e isso funcionou. Sem o feminino, a gente agregou o vestiário das mulheres. A gente juntou as saunas e fez um lounge a mais. Era um espaço que ninguém acessava. Tinha mobiliário, sofás, eles gostaram bastante. As quadras de treino, obviamente [não é preciso dividir quadras com as mulheres]. E o schedule também ajudou. Eles falaram muito bem do fato de começar 16h30min porque tira um pouco da pressão de acordar cedo, sair correndo para aquecer. Deixou o schedule um pouco mais leve. E elogiaram muito o público [vendo os treinos]. Eles gostaram do ambiente. Como o schedule comprimiu, ficou mais gostoso para eles.

2. Assentos vazios na quadra central

Sobre a questão da ocupação da quadra central, a gente já conversou sobre isso e não é um problema de venda de ingressos, mas de ter gente na quadra no horário dos jogos. Até que ponto a ATP vê isso com maus olhos?

A ATP tem uma regra de um mínimo de público que você tem que ter durante a semana. A gente ultrapassa de longe esse mínimo. É uma questão delicada. Você acha que são sete razões. Para mim, são cinco. E a mais nova dessas cinco foi a gente ter criado uma área muito legal no Leblon Boulevard, com muitas ações, o bar da Stella [Artois] com o telão passando jogo… As pessoas estão passando tempo fora do estádio. Isso é legal. Não posso ver como negativo. Se eu quisesse, não faria mais o Leblon Boulevard, e todo mundo só teria um lugar para ficar: a quadra central. Mas não é o que a gente está pensando para o futuro do evento. Faz parte. É difícil achar um modelo que funcione porque obviamente você tem uma entrega de ingresso por parte de patrocinadores. Eles fazem o torneio possível. Isso faz parte. E eu não tenho como controlar como essa entrega dos patrocinadores é feita. A gente sempre conversa, sempre pede da melhor maneira possível, para não ter esses espaços vazios, mas infelizmente acontece.

3. Bolas da Head

O Bruno [Soares] é um cara que repete muito isso. Nadal, quando esteve aqui, não se sentiu tão confortável com as bolas usadas no torneio. Nishikori também disse que não sentiu tão bem a bola. Há alguma possibilidade de mudança? Dá para fazer alguma coisa ou vai continuar a Head?

A Head é nosso parceiro. São ótimos parceiros e patrocinadores. Eles têm trabalhado desde o primeiro ano na questão da bola. Mas depois que alguém me falou que o Thiem reclamou da bola, eu corri para a ATP e perguntei se alguém reclamou da bola. Ninguém reclamou para a ATP. Reclamou na imprensa. Acho que é uma questão de gosto. Dá para ver que os caras que jogam com um pouco mais de top spin não gostam muito da bola, mas o pessoal que joga mais reto, como o Carreño Busta, ama a bola. É a característica dessa bola da Head. Não posso mudar o patrocinador porque… ‘Ah, vou fazer o torneio para o Nadal, então vou botar uma bola mais macia para ele poder dar o top spin’. Não é o meu estilo de fazer as coisas. No fim do dia, o Thiem reclamou e ganhou. E é o que a gente falou. Os jogadores que chegam um pouco tarde no torneio sentem um pouco mais. O Thomaz [Bellucci] treinou a semana inteira aqui. Chegou no dia do jogo, ele estava voando. Não errava uma. Quem chegou tarde não sentia a bola. Tough luck. Chega mais cedo da próxima vez…

4. Mudança para quadra dura

Vocês vão tentar de novo, junto à ATP, a mudança para a quadra dura. Quando vai ser feita essa nova proposta e como funciona essa votação?

A gente pode tentar até Londres, em Wimbledon. É o tempo que a gente precisa para se programar. O que gente precisa agora é ver qual o timing ideal para fazer esse movimento. Se a gente fizer isso sabendo que não tem um ou dois, é perigoso. Se você é negado e vai muito rápido de novo, você acaba negado de novo. Precisa fazer a politicagem, leva um pouco de tempo.

E vocês não têm os votos dos jogadores, é isso?

A gente acredita que não.

Quantos votos são?

Três e três. São três regiões: Américas, Europa e Resto do Mundo. Jogadores e torneios têm voto de cada região. O sétimo voto é do Chris Kermode, o presidente da ATP. Os torneios da América provavelmente a gente tem [ o voto] porque é a nossa região. Na Europa, deve haver um ponto de resistência por causa de Roterdã, mas não sei dizer.

Tecnicamente, mudar Rio e Buenos Aires para a quadra dura pode acontecer sem que São Paulo e Quito mudem também?

É mais difícil, mas pode. A gente até fala que nosso evento era na quadra dura. Memphis era na quadra dura. Eles é que forçaram a gente a ir para o saibro. A ATP que forçou.

5. Parque Olímpico

E se vocês não conseguirem a aprovação para quadra dura, existe possibilidade de fazer no saibro no Parque Olímpico, mesmo com todos problemas logísticos, de fazer sem drenagem, precisando de uma operação de lona rápida e tudo mais?

Você já está descrevendo alguns problemas.

Mas hipoteticamente vocês consideram isso?

Depende do timing da decisão da ATP. Tem muita coisa que a gente não sabe ainda. A gente ainda não sabe se o Ministério deixa colocar saibro lá. Quem vai administrar aquilo? Quadra dura você deixa lá e vai pintar três anos depois. Saibro tem uma manutenção muito mais cara. Você precisa de tratador, saibro, água… Eu vou ter que fazer toda uma estrutura de irrigação. Isso não existe. Eu teria que construir isso. É um investimento enorme. Não é “joga saibro em cima e acabou.” Por isso que a gente está estudando com calma.


Boia fria, servente de pedreiro e pai de campeã
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Entre todos os muitos textos sobre Teliana Pereira desde o fim de semana, o que mais gostei estava na “Folha de S. Paulo” e foi publicado, originalmente, em 24 agosto de 2010. O autor é José Pereira da Silva, pai de Teliana, e o texto foi resgatado por Marcel Merguizo, que reproduziu trechos no blog Olímpicos, que comanda junto ao competentíssimo Paulo Roberto Conde.

Reproduzo abaixo, em itálico, o texto original do pai de Teliana. Antes, porém, vale ressaltar que ele foi redigido a pedido do jornal pouco depois de vir à tona o famoso vídeo em que o então presidente Lula enchia a boca para dizer que tênis é esporte de burguês, tentando desestimular um estudante fã da modalidade. Fora os valores citados, o conteúdo é mais atual do que nunca. E ajuda a explicar, entre outras coisas, por que Teliana é Teliana.

Eu trabalhava na roça, plantava feijão, milho, criava vaca, tudo para consumo próprio ou para conseguir algum dinheiro. No verão, eu trabalhava como boia- -fria, cortando cana no sul de Alagoas, na usina Camaçari, que fica perto de Penedo.
Na época, não tinha a menor ideia do que era tênis. Não conhecia. De esporte, eu só sabia o que era futebol. É o que se joga por lá. E eu era bom. Pelo menos era melhor do que sou no tênis hoje.

Então, em 1991, fui visitar meu irmão que estava morando em Curitiba. Era para eu ficar oito dias, de férias. Mas ele estava trabalhando em uma obra e resolvi ajudá- -lo, até para não ficar sem fazer nada lá. Além disso, fui conseguir um dinheiro.
Fiquei uns cinco dias como servente de pedreiro na obra da academia [de tênis Daniel Contet, no bairro de Santa Felicidade]. Mas fui ficando, ficando e virei funcionário da academia [que foi vendida para o francês radicado no Brasil Didier Rayon, técnico de tênis]. Virei auxiliar-geral da academia do Didier. Fazia de tudo, cuidava do bar às quadras. E há seis anos sou construtor de quadras. Antes, só reformava e vendia material.

Depois de um ano e oito meses, fui buscar meus cinco filhos e minha mulher (Maria Nice) em Pernambuco. Nós morávamos em um povoado chamado Barra da Tapera, que fica na divisa com Alagoas. Tanto que meus filhos nasceram em Santana do Ipanema (AL), pois o custo dos partos lá era mais baixo do que em Pernambuco. Leila, 28, Renato, 25, Teliana, 22, Júnior, 19, e Valdelice, 17, nasceram lá. Depois, em Curitiba, ainda nasceram a Juliana, 13, e o Renan, 11. Hoje Leila trabalha na parte administrativa da academia, Renato joga tênis e ensina outros a jogar, Teliana e Júnior são profissionais. E todos descobriram o que era tênis na academia, me vendo trabalhar, desde pequenos.

A Teliana e o Júnior estão entre os melhores do Brasil hoje, né? Eu tenho muito orgulho deles. Mas não viajo com eles, não, prefiro ficar por aqui, torcendo. Eles ficavam até tarde do lado de fora das quadras, vendo. Depois, começaram a ser boleiros. Ganhavam de R$ 3,00 a R$ 4,00 por jogo. Com o tempo, as pessoas que jogavam na academia davam até roupas, tênis, raquetes para eles começarem a jogar. Foi assim que aprenderam.

Até hoje a Teliana treina com o Didier. O Júnior foi para o Instituto Tênis. Eu também jogo tênis… [risos] Fiquei sabendo do vídeo do Lula. Mas não vi. Acho que ele errou [ao declarar que tênis é esporte de burguesia]. Ele deu uma bola fora, sabe? Igual no tênis. Sempre votei nele, ele é meu conterrâneo. Mas, dessa vez, o Lula exagerou. Tênis não é esporte de burguês. É um esporte normal. E um dos mais legais. Claro que muitas pessoas carentes não têm acesso ao tênis. Mas, se você for ver, hoje, já tem uns 20% [dos praticantes] que não são ricos.

Olha o meu caso. Fui trabalhar na construção de quadras, e meus filhos viraram boleiros. Chegavam a ficar pegando bola em 12 jogos por dia. Para a gente, aquele dinheirinho era importante. O que eles ganhavam era metade da nossa renda. E, se pedir para a Teliana, ainda hoje, ela fica de boleira se precisar. O tênis ensina muito, sabe? Hoje eles se mantêm com o que ganham no tênis. Têm patrocínios. Mas depende muito dos empresários. Se eles quisessem ajudar os atletas, podiam. E não seria mais esporte de burguês…

O problema é que praticamente só construo quadra em casa de rico, chácara, condomínio fechado. Tudo particular. Nesses anos, nunca construí uma quadra pública, ou em escola para crianças jogarem tênis. Nos últimos anos, construí umas 20. As que reformei nem sei quantas foram. E só em escolas particulares. Uma quadra de saibro sai por R$ 45 mil, com iluminação e tudo. A manutenção mensal, muito boa, uns R$ 350. Então, poderia ser feito pelos governos, não?


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>