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Arquivo : polêmica

Sharapova e os convites da discórdia
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Alexandre Cossenza

Suspensa desde janeiro de 2016 após exames antidoping realizados no Australian Open apontarem a presença da substância proibida meldonium, Maria Sharapova voltou a ser o centro de discórdias nesta semana. O gancho da russa terminará em abril, e a ex-número 1 já tem garantidos wild cards para disputar os WTAs de Stuttgart, Madri e Roma. A polêmica fica por conta de quem acredita que um atleta punido por doping não deveria receber convites – opinião compartilhada pelo número 1 do mundo, Andy Murray, e pelo novo presidente da Federação Francesa de Tênis (FFT), Bernard Giudicelli.

Os wild cards (na essência, convites da organização) são essenciais para Sharapova porque a russa ficou mais de um ano suspensa. Logo, já perdeu todos os pontos no ranking e não conseguiria sequer vagas no qualifying para disputar torneios de alto nível. Pela regra, como ex-número 1 do mundo e campeã de slam, a russa tem direito a WCs ilimitados. Pode jogar quantos eventos puder, desde que os organizadores concedam o benefício. Mas não é o regulamento que está em discussão (ainda?). A questão, para Murray e Giudicelli, é moral.

Murray deu uma entrevista ao Times dizendo que deveria ser preciso ralar na volta. “Porém, a maioria dos torneios vai fazer o que é melhor para o seu evento. Se eles acham que grandes nomes vão vender mais ingressos, eles vão fazer isso.” O argumento do escocês deixa implícito que o retorno sem ranking é – ou deveria ser – uma parte da punição por doping. Afinal, de que adianta fazer o tenista perder seus pontos se ele consegue entrar em qualquer torneio quando acaba a suspensão? É um ponto de vista válido e levanta uma questão: será que os regulamentos deveriam ser revistos nesse quesito?

O presidente da FFT também aborda a questão moral, embora por outro lado. Ele argumenta que “não podemos investir um milhão e meio de euros na luta contra o doping e acabar convidando uma jogadora condenada pelo consumo de uma substância proibida.” Ele e Murray atacam o mesmo ponto, mas por ângulos diferentes. E a declaração do cartola francês deixa no ar que Sharapova pode não receber o convite e ficar fora de Roland Garros.

O outro lado da questão é que, tecnicamente falando, ninguém está impedido de convidar Sharapova para jogar, dançar valsa ou sapatear na cara da sociedade. Nenhuma regra impede wild cards para tenistas que voltam de suspensão por doping. O caso da russa, aliás, não é o primeiro. Viktor Troicki, suspenso por violar o código antidoping, recebeu convites para os ATPs de Gstaad e Pequim logo que voltou, em 2014. Há, no entanto, uma diferença grande entre os dois casos. O sérvio nunca testou positivo. Sua suspensão veio porque, segundo a ATP, ele se negou a fazer um exame durante o Masters de Monte Carlo. Sharapova foi, sim, flagrada com uma substância proibida.

Entre morais e regras, uma coisa é certa: todas posições e decisões que envolveram o doping de Sharapova até agora têm a ver com dinheiro. Desde a posição/omissão do presidente da WTA, Steve Simon, cauteloso para não ofender os fãs da russa e não virar contra a WTA uma máquina de fazer dinheiro, incluindo patrocinadores que ameaçaram debandar mas continuaram ao lado da russa (apesar da suspensão de 15 meses), e chegando, finalmente, aos torneios distribuindo wild cards em nome do espetáculo.

Por enquanto, só se manifestou contra a russa quem não tem interesse financeiro na coisa. Andy Murray, despreocupado com o politicamente correto, deu uma declaração abrangente, que não inclui apenas Sharapova, mas que afeta a russa e, certamente, incomodou fãs de tênis (e também fãs apenas da russa) mundo afora. O presidente da FFT, por sua vez, sabe que Roland Garros não perde sem Maria ou quem quer que seja. Slams são slams, não importa quem joga. O torneio de 2016 não foi menos revelante sem ela ou até mesmo Roger Federer. O dinheiro entra de qualquer modo.

Difícil prever a esta altura o que será do retorno de Sharapova, mas se os interesses financeiros continuarem dando as cartas, é bem possível que a russa ganhe todos convites que pedir e, ainda assim, fique fora de Roland Garros – e, dependendo de seu ranking, de Wimbledon também.

Coisas que eu acho que acho:

– De qualquer maneira, Sharapova terá a chance de entrar em Roland Garros por méritos próprios. Para isso, precisa alcançar a final do WTA de Stuttgart. Assim, terá ranking para disputar o qualifying em Paris. Os pontos de Madri e Roma não contarão a tempo do slam francês, mas serão essenciais mais tarde, na definição da chave principal de Wimbledon.

– Tudo leva a crer que, para evitar alimentar o debate, Wimbledon anunciará sua posição no último minuto – se necessário. Afinal, não é tão improvável assim que Sharapova consiga pontos suficientes para estar na chave principal em Londres. A estimativa é de que ela consegue entrar direto se alcançar cerca de 650 pontos.

– É outro caso de moral/dinheiro, mas o mais estranho disso tudo, para mim, é mexer na programação de um torneio inteiro para facilitar a vida de um tenista que volta de suspensão por doping. Vai acontecer em Stuttgart. O torneio começa dia 24 de abril, mas Sharapova só estará apta a jogar no dia 26 (até o dia 25, ela não pode sequer pisar no local do evento). Com isso, um jogo de primeira rodada terá de ser realizado só na quarta-feira, quando o torneio normalmente já estaria nas oitavas de final. E, dependendo do sorteio, isso pode fazer com que uma cabeça de chave estreie apenas na quinta-feira (a chave lá tem 28 tenistas). Não seria inédito, mas tendo em mente o motivo para isso, pode incomodar bastante alguém se acontecer. De qualquer maneira, a Porsche, patrocinadora máster do evento, é também patrocinadora de Sharapova. E aí qualquer discussão sobre moral ou valores acaba sendo jogada janela afora.

– Um ponto curioso aqui é não vi ninguém citando o “benefício da dúvida” no caso do doping de Sharapova. A russa alegou que não sabia que meldonium havia entrado na lista de substâncias proibidas e isso foi levado em conta na arbitragem que diminuiu sua punição. O que talvez pese contra a ex-número 1 no meio tenístico é que ela sabia que o meldonium lhe dava benefícios físicos, por isso tomava doses maiores em partidas mais importantes – e isso foi constatado no julgamento. Mas se um diretor de torneio acredita genuinamente que Sharapova não se dopou de propósito, parece um tanto justo que um wild card funcione como instrumento do “benefício da dúvida”.

– Há alguma instabilidade no blog quanto aos links, mas todos estão ativos. Quem tiver interesse em ler os textos linkados aqui só precisa copiar e colar em outra aba de navegação.


A CBT está a serviço de quem?
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Alexandre Cossenza

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Talvez a maior crítica feita à Confederação Brasileira de Tênis (e são muitas críticas, feitas por muita gente – pelo menos quando os microfones estão desligados) é que o órgão máximo da modalidade no Brasil gasta energia demais com questões pessoais de seu presidente, Jorge Lacerda, quando poderia estar mais envolvido em resolver assuntos de maior importância para o desenvolvimento da modalidade e seus atletas.

citei aqui no Saque e Voleio vários casos, incluindo o Circuito de Tênis Escolar Universitário e a Nike Junior Tour. Mais recentemente, Lacerda usou sua posição para exigir do Comitê Rio 2016 a não-contratação da jornalista Diana Gabanyi. Todos casos envolveram questões pessoais do presidente da CBT.

Neste fim de semana, recebi um documento com mais um exemplo desses. Lacerda escreve uma carta de apoio a uma das chapas que disputa a presidência da Federação de Tênis do Rio de Janeiro (FTERJ). Entretanto, no texto, endereçado à “comunidade tenística do Rio de Janeiro” e enviado a um endereço de email da FTERJ, o dirigente usa mais linhas para atacar Ricardo Acioly, líder de uma chapa concorrente, do que para elogiar a atual gestão da federação fluminense. Acioly é mais um nome visto por Lacerda como parte de um “grupo” contra ele. Segue abaixo a reprodução do texto, que pode ser baixado aqui.

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Não vou entrar no mérito da briga entre Lacerda e Acioly, mas há alguns pontos que preocupam no sentido de que o documento foi redigido por um presidente de confederação.

O primeiro deles é que Lacerda admite ter tomado tempo para protocolar no Tribunal de Contas da União, na Controladoria-Geral da União e no Ministério Público Federal, denúncias contra o suposto grupo do qual, segundo ele, Acioly faz parte. É admirável ver que o presidente se preocupou em analisar minuciosamente um projeto apresentado por quem ele considera opositores.

Tivesse o mesmo zelo com projetos apresentados pela CBT, a Confederação talvez pudesse ter dado sequência ao fracassado Projeto Olímpico. Tivesse Lacerda o mesmo zelo no projeto do Grand Champions, também proposto pela CBT, a Confederação não teria sido obrigada a devolver meio milhão de reais. Lembremos, ainda, que a Justiça Federal aceitou denúncia do MPF contra Lacerda neste mesmo caso do Grand Champions. A acusação é grave, e Ricardo Marzola, parceiro de Lacerda na época, já admitiu que assinou documento falso a pedido da CBT. Não é exatamente leve a questão.

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Também me causou estranheza Lacerda escrever sobre o evento Copa Rio Juvenil, afirmando que “com certeza ficará comprovado crime e dano ao erário ao final da investigação.” “Com certeza”? Lacerda já julgou o caso e condenou os réus? Soa ousado e desrespeitoso, até porque não me lembro de ninguém do tal grupo de oposição cravando publicamente que Lacerda será condenado “com certeza”.

No que diz respeito a Acioly, o ex-capitão brasileiro na Copa Davis se defendeu escrevendo uma carta-resposta, que está abaixo e pode ser baixada aqui.

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Disso tudo, algumas perguntas importantes ficam no ar, já que Lacerda deixará a presidência da CBT em breve, mas afirma com todas as letras que esse suposto grupo de oposição “não terá apoio e nem parceria da CBT.”

Será que o presidente eleito, Rafael Westrupp (na foto acima, ao lado de Lacerda), está de acordo com essa postura? Será, aliás, que ele teve conhecimento dessa carta antes de ela ser distribuída? Isso, aliás, leva a outra questão:

O próximo presidente, que faz parte da atual gestão de Lacerda, continuará a política de pouco diálogo e de brigas pessoais com o “grupo de oposição”?

Enviei essas duas questões à assessoria de imprensa da CBT, mas ainda não tive resposta. Quando receber, atualizarei o post.

Coisas que eu acho que acho:

– Que fique claro: não tomo parte de lado algum na eleição da FTERJ. Embora eu tenha acompanhado relativamente de perto o longo e complicado processo que levou a atual diretoria ao poder, não acompanhei o suficiente do trabalho de Renato Cito para julgar se foi bom ou ruim. Tampouco sei o que Ricardo Acioly planeja para a federação.

– A intenção deste post é levantar a questão de sempre: o órgão máximo do tênis brasileiro está realmente sendo usado em prol do tênis ou virou um instrumento de poder nas disputas pessoais de Jorge Lacerda? Para mim, esse é o ponto realmente importante.

Coisas que eu acho que acho, parte II:

– A CBT renovou o contrato de patrocínio com os Correios, fazendo um péssimo negócio. A estatal pagava cerca de R$ 17 milhões por dois anos (no balanço de 2015 da CBT, consta a entrada de R$ 8,6 milhões). Agora, os Correios pagam R$ 4 milhões pelo mesmo período. Há quem não ache que foi um péssimo negócio para a CBT. Discordo. Ou isso ou a CBT entrega um péssimo produto.

– Imaginemos o seguinte cenário: você, leitor, é fabricante de, digamos, cervejas artesanais. Sua empresa tem um acordo com o mercado X, que paga R$ 17 por cada garrafa de 600ml. Um belo dia, o mercado X anuncia que vai parar de comprar seu produto. O que você faz? Tenta vender a cerveja ao mercado Y, ao mercado Z ou a quem quer que queira comprar.

– Se ninguém estiver disposto a pagar R$ 17 por suas cervejas, talvez seja preciso reduzir o preço. Então sua empresa acha por bem reduzir para R$ 15, talvez R$ 13 reais. É assim que funciona a lei de oferta e procura. Se mesmo assim ninguém quiser fazer negócio, e o mercado X oferecer R$ 4 pela mesma cerveja que você vendia por R$ 17, o que se conclui disso? Ou a sua cerveja nunca valeu R$ 17 ou você está fazendo um péssimo negócio ao vendê-la por R$ 4. Ou ambos…


ATP finalmente suspende Kyrgios, mas o que isso significa?
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Alexandre Cossenza

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A notícia parece boa para o tênis. A ATP anunciou nesta segunda-feira que suspendeu Nick Kyrgios após o episódio de Xangai. No Masters 1.000 chinês, o australiano jogou desinteressado, perdeu pontos de propósito, discutiu com um torcedor e ainda foi mal educado na coletiva pós-derrota para Mischa Zverev.

Ainda em Xangai, Kyrgios foi multado em US$ 16.500. Um valor risível para quem vinha de um título no ATP 500 de Tóquio e já embolsou US$ 1.757.289 na temporada. O australiano, vale lembrar, é mais do que reincidente. Ano passado, foi colocado em uma espécie de liberdade condicional após falar mais do que devia durante uma partida – lembram de Wawrinka-Kokkinakis-Vekic?

Não dava mais para deixar passar. Agora, Kyrgios foi multado em mais US$ 25 mil e está suspenso por oito semanas de torneio e pode voltar a competir apenas a partir de 15 de janeiro de 2017. A punição ainda estipula que a suspensão cairá para apenas três semanas de o atleta passar por um plano sob direção de um psicólogo esportivo ou um plano equivalente aprovado pela ATP.

O que significa?

A princípio, significa que o circuito está perdendo a paciência com Kyrgios. Não importa o quão talentoso e espontâneo seja o jovem de 21 anos, atual #14 do mundo, fica claro que a “condicional” de 2015 ficou no passado e que a ATP finalmente sentiu a necessidade de estabelecer um limite.

Ao mesmo tempo, mostra que a ATP continua leve nas sanções. Logo, o tal limite já parece um tanto flexível. Primeiro porque uma suspensão de “oito semanas de torneios” aplicada no meio de outubro significa, na prática, que Kyrgios não poderá jogar em quatro delas (seriam cinco se ele se classificasse para o ATP Finals). Além disso, a punição de oito semanas acabaria, coincidentemente, na véspera do Australian Open. Ou seja, a ATP puniu, sim, mas sem tirar Kyrgios do seu Slam local. Aí, sim, seria uma sanção severa.

E também há a questão do psicólogo, que supostamente terá a tarefa de fazer o tenista aprender a respeitar fãs, torneios, adversários e jornalistas. Coisas que uma família ensina, não um profissional contratado.

Para começar, Kyrgios deu uma declaração pedindo desculpas e dizendo basicamente o contrário do que declarou na coletiva desastrosa de Xangai. Até pelas cenas registradas na China, o texto não pareceu sincero. Posso estar sendo injusto. Quero estar sendo injusto. Seria bacana mesmo se Kyrgios passasse por essa suspensão com olhos e ouvidos abertos. Mas será que adianta?


Homens x mulheres: machismo e mercado no tênis
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Alexandre Cossenza

A polêmica do fim de semana foi das grandes. Em uma roda de café da manhã com jornalistas, o CEO de Indian Wells, Raymond Moore, soltou frases nada elogiosas ao circuito feminino de hoje. Em seguida, indagado sobre o assunto, Novak Djokovic reacendeu a sempre debatida questão da igualdade na premiação de homens e mulheres.

O assunto é delicado – como os dois senhores acima deixaram claro – e há questões que precisam ser lembradas para ajudar a contextualizar-sem-defender os dois cavalheiros. Este é um texto opinativo, então peço que leiam até o fim e, depois, comentem à vontade. Vamos, primeiro, às declarações.

“Na minha próxima vida, quando voltar, quero ser alguém na WTA (risos) porque elas pegam carona nos homens. Elas não tomam decisão alguma e são sortudas. Elas têm muita, muita sorte. Se eu fosse uma jogadora, me ajoelharia toda noite e agradeceria a Deus por Roger Federer e Rafael Nadal terem nascido porque eles têm carregado este esporte.”

A frase acima é a primeira frase polêmica de Moore. Ele ainda se atrapalhou ao dizer que a WTA tem “um punhado de promessas atraentes/atrativas que podem assumir o manto (de Serena). Vocês sabem, Muguruza, Genie Bouchard. Eles têm um monte de jogadoras atraentes/atrativas E o padrão do tênis das moças aumentou inacreditavelmente.”

“Attractive”, a palavra original, em inglês, pode significar atrativo ou atraente em português. Para nossa sorte, um jornalista insistiu no assunto e perguntou se Moore estava se referindo aos méritos estéticos ou competitivos das moças. A isto, Moore respondeu que falava de ambos, o que não ajudou exatamente sua causa.

Mais tarde, depois de derrotar um combalido Milos Raonic em uma final sonolenta, Novak Djokovic foi questionado sobre as declarações do CEO de Indian Wells. Sua declarações navegam entre o corajoso, o machista e o impróprio. A íntegra da coletiva está aqui. As partes mais importantes estão abaixo.

“Igualdade de premiação foi o principal assunto no tênis nos últimos sete, oito anos. Passei por esse processo também, então entendo quanta força e energia a WTA e todos que advogam por premiação igual investiram para alcançar isso. Eu as aplaudo por isso. Honestamente. Elas lutaram pelo que merecem e conseguiram. Por outro lado, acho que nosso mundo do tênis masculino, o mundo da ATP, deveria lutar por mais porque as estatísticas mostram que temos mais espectadores nas partidas masculinas. Acho que essa é uma das razões pelas quais deveríamos receber mais. Mas não podemos reclamar porque também temos ótimos prêmios em dinheiro no tênis masculino.”

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Djokovic aparentemente caiu numa contradição ao aplaudir as mulheres e, logo em seguida, dizer que os homens merecem mais. Digo aparentemente porque ele se explica (ou tenta se explicar) na resposta seguinte, quando lhe perguntam se a premiação não deveria ser igual.

“Minha resposta não é ‘sim e não’. É ‘mulheres devem lutar pelo que acham que merecem e nós devemos lutar pelo que acreditamos que merecemos.’ Acho que enquanto for assim e houver dados e estatísticas disponíveis sobre quem atrai mais atenção, espectadores, quem vende mais ingressos e coisas assim, é preciso que seja distribuído justamente com base nisso.”

E, logo na sequência, o número 1 do mundo responde com “absolutamente”, que mulheres deveriam ganhar mais do que homens se as estatísticas mostrarem que elas atraem mais atenção (e dinheiro, claro) do que homens. Depois disso, Nole ainda se atrapalha ao tentar mostrar respeito pelas mulheres, dizendo que “seus corpos são muito diferentes” e “elas precisam passar por muitas coisas diferentes que nós (homens) não precisamos. Vocês sabem, hormônios e coisas diferentes, não precisamos entrar em detalhes.”

Mulheres não decidem

Moore acabou pedindo demissão na segunda-feira, pouco mais de 24 horas depois de suas declarações atabalhoadas. No comunicado oficial divulgado pelo torneio, Larry Ellison, dono do evento, citou Billie Jean King e sua “campanha histórica” pela igualdade no tênis. “O que se seguiu foi um movimento progressivo, de várias gerações e em andamento para tratar mulheres e homens igualmente no esporte.” O bilionário também lembrou que Indian Wells paga o mesmo a homens e mulheres há uma década. A íntegra do comunicado está aqui.

A saída de Moore parece uma resolução adequada para um caso embaraçoso e que poderia, quem sabe, provocar um boicote feminino ao torneio em 2017. Um torneio desse porte, que já ficou tanto tempo sem as irmãs Williams, e que inclusive cogita estar em um patamar ainda maior, não se pode dar ao luxo de permitir outro cenário que prejudique sua imagem.

Dito tudo isto, há dois pontos que ajudam a entender – pelo menos parcialmente – a origem da queixa de alguns homens por prêmios maiores. O primeiro: a última grande negociação por aumento de premiação nos Slams foi liderada pelos integrantes da ATP (com direito a ameaça de boicote). O segundo: tenistas e dirigentes ouviram de executivos dos Slams que seria possível até aumentar a premiação um pouco mais (do que já foi elevado), só que os torneios se viam de mãos atadas porque precisavam igualar as quantias pagas às mulheres.

Resumindo: parte da ATP guarda essa, digamos, mágoa de não ver sua premiação tão alta por causa do circuito feminino. Essa explicação, afinal, foi dada pelos próprios torneios. Não, não justifica o comportamento de Moore, que foi preconceituoso e atabalhoado tanto no que disse quando na maneira como se colocou. No entanto, tendo em vista essa recente negociação, ele não está totalmente equivocado quando diz que as mulheres não decidem.

O mercado livre de Djokovic

Antes de mais nada, é preciso esclarecer um ponto que foi meio distorcido por aí sobre o que declarou o número 1 do mundo. Djokovic não disse pura e simplesmente que “homens devem ganhar mais do que mulheres”. Para o sérvio, não é uma questão de sexo, mas uma relação de mercado, de oferta e demanda. Ele diz se basear em números que provam que o circuito masculino hoje é mais atrativo e, consequentemente, faz mais dinheiro circular. Mas também afirma que se os números fossem inversos, as mulheres deveriam receber mais.

É um mar perigoso para Djokovic navegar e é preciso admirar, nem que por um breve instante, sua coragem de tirar o iate milionário do cais de Monte Carlo e encarar essas ondas traiçoeiras. Gosto da tese do sérvio – enquanto tese. Quem tem mais procura deve cobrar mais. Usando um exemplo assexuado, quem deve cobrar mais pelos direitos de transmissão: a Champions League ou a Libertadores? A melhor competição, com mais mercado, deve cobrar mais. Simples assim.

O comunicado oficial da ATP sobre a polêmica (vide tuíte acima) deixa claro que a entidade adota a mesma linha de pensamento do sérvio. Por isso, ressalta que “operamos no negócio de esporte e entretenimento” e que “respeita o direito dos torneios de tomarem suas próprias decisões em relação à premiação em dinheiro para o tênis feminino, que é um circuito separado.”

Digo dois parágrafos acima que gosto da ideia de mercado livre “enquanto tese” porque essa teoria não funciona na prática quando comparamos gêneros diferentes na mesma modalidade. Nossa sociedade, de modo geral, não consegue fazer isso. A maioria, infelizmente, ainda vê o esporte masculino como superior, mais desenvolvido, mais atrativo.

Há aspectos históricos e culturais que contribuem para isso. Muito dessa visão centralizada no esporte masculino vem de preconceitos que se arrastam desde um passado ainda mais machista, de quando reinavam noções de que tal esporte não é para moças de bem, que mulher não sabe dirigir, que tal atividade física é exigente demais para a biologia do corpo feminino e outros velhos “argumentos”.

Experimente, caro leitor, dizer a um amigo que você prefere curling feminino ao masculino.Depois volte aqui na caixinha de comentários e diga quanto tempo levou para ouvir uma piada sobre vassoura. São preconceitos como esses que fazem com que modalidades como futebol, automobilismo e basquete, tão populares entre os homens, sejam pouco procuradas, por exemplo, no Brasil. E não só isso. Esse machismo histórico também afasta investimentos. Homens, aliás, são maioria entre executivos responsáveis por direcionar verbas de patrocínio.

A teoria de Djokovic, se aplicada com 100% de justiça e eficácia, seria o reflexo de um planeta perfeito, de uma sociedade sem preconceitos. Mas alguém aí imagina isso acontecendo no mundo de hoje? Eu, não.

Slams: ingressos x premiação

O número 1 do mundo diz ter visto estatísticas. Não é difícil imaginar, de fato, que a ATP de Roger Federer e Rafael Nadal seja mais valiosa do que a WTA de hoje, mesmo com Serena Williams e Maria Sharapova sempre ocupando manchetes. Suíço e espanhol deram uma visibilidade monstruosa ao tênis masculino, conquistando e mantendo legiões de fanáticos. Sempre atuando em níveis absurdos, quebrando todos tipos de recordes.

Em sua coletiva após a final contra Azarenka (íntegra aqui), Serena lembrou que os ingressos para a final feminina do US Open do ano passado esgotaram antes dos bilhetes para a decisão masculina. Não me convence como argumento, embora a número 1 tenha razão ao recordar o legado de Billie Jean King e do efeito negativo que os comentários de Moore podem ter sobre mulheres atletas em todo mundo.

A questão dos ingressos do US Open ressalta o potencial das mulheres, mas o problema de citar uma única final (que, ainda por cima, teve a característica excepcional da possibilidade de uma tenista da casa completar o Grand Slam de fato) é se sujeitar ao contra-argumento de que, talvez, nos últimos cinco anos, as outras 19 finais masculinas esgotaram antes e tinham entradas mais caras.

Dito isto, há outra questão que pesa um bocado contra os homens nos Slams. Com exceção das finais, os ingressos são vendidos com antecedência e sem garantia de programação. Quem compra pode ver homens e mulheres de forma (quase sempre) igual. Além disso, há uma série de variáveis que afetam a quantidade de espectadores em uma determinada partida. Uma delas é o horário, algo estipulado pela organização do torneio. É quase impossível medir a diferença de interesse baseado nisso.

Portanto, é difícil imaginar os Slams dando esse passo para trás e diferenciando as premiações de homens e mulheres. É de se considerar também, obviamente, a questão do “politicamente correto” e da imagem que os eventos querem passar. Parece muito mais plausível, então, que os homens incomodados com a premiação atual questionem a ATP e os valores pagos em seus próprios Masters 1.000 ou ATPs 500. Mas será que os promotores têm “caixa” para bancar tudo que os astros do tênis acreditam merecer? Será que o circuito se sustentaria? Será?


Novas velhas suspeitas de manipulação de resultados
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Alexandre Cossenza

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Pouco antes do início do Australian Open, a BBC e o BuzzFeed publicaram textos simultâneos revelando terem obtido acesso a documentos que revelam o resultado de investigações iniciadas em 2007 pela ATP em casos suspeitos de manipulação de partidas. A notícia, no entanto, não passou disso. Nem a BBC nem o BuzzFeed revelaram o conteúdo do resultado dessas investigações.

Os veículos tampouco revelam os nomes dos tenistas envolvidos, o que é muito justo. Já pensou divulgar uma lista de nomes contra quem não foram encontradas provas? Dá para imaginar a quantidade de processos contra a BBC e o BuzzFeed. Os textos, no entanto, afirmam que a lista inclui 16 tenistas que estiveram no top 50 na última década (muita gente, não?), incluindo campeões de Grand Slam.

Acusações e suspeitas de manipulação de resultados não são novidades no tênis, mas tudo ganhou uma atenção maior depois da polêmica partida entre Davydenko e Vassallo Arguello. A ATP publicamente anunciou que investigaria a partida, mas nunca chegou a provar nada. Em seguida, a entidade continuou indo atrás de casos semelhantes, mas quase nada foi comprovado.

Não é difícil encontrar na internet relatos jogos que levantaram suspeitas (como nesta lista aqui). Até a vitória de Gustavo Kuerten sobre Filippo Volandri no Brasil Open de 2007 foi questionada por “entendidos” (este texto da Revista Tênis dá detalhes da situação). De comprovado, porém, muito pouco.

Pouco depois que as partidas começaram, o CEO da ATP, Chris Kermode, e Nigel Willerton, da Unidade de Integridade do Tênis, deram entrevista coletiva em Melbourne a asseguraram que nenhuma informação sobre investigações vem sendo omitida. Indagado se algum dos tenistas jogando o Australian Open seria alvo de monitoramento ou investigação, Willerton disse que não seria profissional de sua parte dar uma resposta para a pergunta.

Faz sentido. Que profissional revelaria o nome de alguém que está sendo investigado em uma questão assim (que envolve conduta ética e, consequentemente, a reputação da pessoa) sem que haja provas irrefutáveis?

Coisas que eu acho que acho:

– É inquestionavelmente difícil comprovar, sem sombra de dúvida, que alguém manipulou o resultado de um jogo de tênis. Fulano vencia com folga e de repente começou a errar? Como provar que ele não descalibrou de uma hora para a outra?Quem segue o circuito vê bastante isso acontecer. Outro cenário comum é do atleta que lidera fácil e começa a se queixar de dores. Quem vai provar que ele não está sentindo nada? É fácil levantar dúvidas a observar tendências estranhas de casas de apostas, mas daí a comprovar o envolvimento (repito: sem sombra de dúvida) do atleta com alguém que o subornou ou algo parecido é muito, muito difícil.

– Até as tendências estranhas das casas de apostas, que são quase sempre o melhor indício de que há algo suspeito em uma determinada partida, raramente são suficientes para condenar um tenista (de novo: para condenar, não pode haver dúvida). Afinal, suponhamos que uma casa de apostas aponte que durante a partida a maioria dos apostadores continue colocando dinheiro no tenista que está perdendo. Se esse tenista virar e vencer o jogo, essa tendência seria motivo suficiente para cravar algo? Aparentemente, não.

– Na coletiva, Kermode foi indagado sobre o envolvimento da ATP com casas de apostas (algumas patrocinam torneios de grande porte) e respondeu que não vê conflito de interesse. Pelo contrário. Kermode aponta que a ATP e a Unidade de Integridade do Tênis trabalham em conjunto com as casas de apostas. Além disso, o CEO da ATP lembra que apostar é uma atividade legal.


Conversas curiosas e inconclusivas, parte I
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Alexandre Cossenza

O diálogo a seguir aconteceu (ou não) num bar de um famoso clube de tênis. Dois amigos, identificados aqui como Catê Imoso e Jessé Tico, assistiam a uma das reprises do SporTV da final da Masters Cup de 2000, entre Gustavo Kuerten e Andre Agassi. Entre uma Paulaner e uma Hoegaarden, nossos personagens abrem o debate no segundo game da partida, quando Guga confirma o serviço com um ace.

Catê: Olha esse saque, o Guga era foda.
Jessé: Muito foda.

C: Não sei como ele não ganhou mais com esse saque.
J: É porque ele não sacava assim todo dia.

(cinco minutos depois)

C: Como ele não sacava assim sempre? Olha esse saque aberto na esquerda do Agassi! Ninguém devolve essa bola.
J: Você vai julgar o saque do Guga baseado em um jogo só?

C: Mas ele tá fazendo isso contra o Agassi, a melhor devolução da história.
J: Da história? Já viu o Djokovic devolvendo?

C: Mas o Djokovic não precisa devolver o saque do Sampras, que era monstro.
J: (irônico) É, não tem mais Sampras. Só tem Federer, Isner e Karlovic hoje em dia. Tá fácil, né?

C: Ah, para com isso. Vai criticar o Agassi só pra menosprezar o Guga?
J: Não. Agassi era um monstro na devolução, mas levava mais ace do que todos outros tops da época. E o segundo saque do Guga era vulnerável. Ele sacava todas com spin no backhand do adversário. O circuito inteiro sabia disso.

C: Você bebeu?! E olha esse backhand agora! (vendo Guga mudar a direção e bater o backhand de dentro pra fora)
J: Esse backhand era espetacular!

C: Nunca mais apareceu um backhand assim.
J: O do Wawrinka é melhor.

C: Mas você não pode comparar gerações diferentes.
J: Quem comparou foi você.

C: Mas o Guga é mais tenista que o Wawrinka.
J: Não tô comparando.

C: Vai dizer que o Wawrinka tem algum outro golpe melhor que o Guga?
J: Todos. Saque, direita, esquerda e voleio.

C: Você não pode estar falando sério.
J: Golpe a golpe, Wawrinka faz tudo melhor.

C: Isso não faz dele mais tenista que o Guga.
J: Eu não disse isso.

C: Guga foi número 1, ganhou três Slams! Wawrinka nunca chegou perto de ser número 1!
J: Concordo com tudo isso. Mas o que o ranking tem a ver com isso?

C: Prova que Guga foi o melhor da geração dele.
J: Mas quem era a geração dele?

C: Você está sugerindo que a geração dele era fraca?
J: Não. Só perguntei.

C: A geração dele era tão forte quanto qualquer outra.
J: Mas quem era?

C: Hewitt, Safin, Norman…
J: (interrompendo) Peraí, Hewitt é cinco anos mais novo que ele.

C: E daí?
J: E daí que Sampras é cinco anos mais velho que o Guga.

C: E daí?
J: E daí que se o Hewitt, cinco anos mais novo, pertence à mesma geração do Guga, por que você não incluiu Sampras e Agassi?

C: Porque Sampras e Agassi já estavam em fim de carreira e Hewitt apareceu muito jovem, enquanto o Guga ainda estava no auge.
J: Mas peraí, Guga não venceu Roland Garros em 1997?

C: Ganhou, e daí?
J: E daí que o melhor ano da carreira do Agassi foi 1999.

C: Tudo bem, então o Agassi era da mesma geração que o Guga.
J: Se o Agassi era da mesma geração do Guga, o Sampras, que era um ano mais novo, também era. Logo, o Guga não foi nem o segundo o melhor tenista da geração dele.

C: Mas em 2000 ele foi o melhor.
J: Ah, então ele foi o melhor do mundo, mas só durante aquele período?

C: É.
J: Mas um ano não é pouco para determinar que alguém foi o melhor de uma geração?

C: Tudo bem, admito que o Guga não foi o melhor.
J: Então, enfim, concordamos?

C: Concordamos. A única unanimidade é Federer, o melhor de todos os tempos. Aí não tem discussão, né?
J: Ai, meu deus….

(continua em um post futuro)

Coisas que eu acho que acho:

– Excelente a iniciativa do SporTV de exibir reprise do jogo que colocou Gustavo Kuerten como número 1 do mundo. É ótimo para mostrar à geração que começou a ver tênis com Federer e Nadal como um brasileiro terminou uma temporada no topo do ranking. Para os fãs mais velhos, é uma chance de matar a saudade.

– O canal tem essa partida arquivada há 15 anos e precisou esperar Guga se tornar funcionário das Organizações Globo para exibi-las. Uma ótima ideia seria mostrar outras vitórias clássicas do tricampeão de Roland Garros. Que tal uma por mês? Grade é o que não falta. Seria bom aproveitar enquanto Guga está sob contrato…


Sobre Andy Murray, rótulos, pesos e medidas
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Alexandre Cossenza

“Quando tive cãibras e ganhei no US Open ano passado, fui drama queen, estava fora de forma, precisava ver um psicólogo, fingi. Estranho…” Foi só um tweet, mas não precisou mais. Andy Murray deu todo recado que precisava. E o mundo do tênis, concordando ou não, entendeu o recado.

Rafael Nadal, que teve tonturas, quase vomitou em quadra e derrotou Tim Smyczek em cinco sets, foi aclamado como herói. Aquele jogo, para grande parte dos fãs de tênis e da imprensa, foi mais uma demonstração hercúlea da força do espanhol. Quando Murray teve problemas físicos em sua estreia no US Open do ano passado, foi duramente criticado e até acusado de fingir dores para atrapalhar o adversário.

Andy Murray não está criticando Rafael Nadal. Longe disso. Está, sim, sendo irônico – algo que faz como poucos no circuito. E, mais do que qualquer coisa, está fazendo uma inequívoca crítica aos rótulos que levam à adoção de pesos e medidas diferentes para todo tipo de atleta. E o britânico, qualquer que seja o motivo, sempre cai do lado errado de qualquer polêmica.

O exemplo escolhido por Murray foi o melhor possível. Os dois casos são recentes e incomuns. Ambos envolvem atletas fisicamente privilegiados que sofreram problemas raros – em estágios iniciais de um Grand Slam – e venceram suas partidas. Só que o tribunal público, composto por jornalistas e integrantes de redes sociais, deu vereditos bem diferentes.

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Murray raramente culpa problemas físicos por derrotas ou atuações abaixo do esperado, mas tem o hábito de resmungar, se alongar e colocar a mão aqui e ali (como pessoas normais fazem quando sentem dores). O circuito inteiro sabe disso. O circuito inteiro também sabe que, quando a bolinha entra em jogo, Murray sempre se esforça ao máximo. Só que em algum momento e por algum motivo, o escocês ganhou fama de catimbeiro. E esse rótulo não sai com água.

É o caso inverso de Roger Federer. O suíço é o melhor exemplo possível de gentleman. Suíço, educado, dono de golpes plásticos e uma movimentação baryshnikovesca. Raramente pede tempo médico (porque raramente se lesiona – uma relação que poucos fazem), quase nunca reclama com árbitros e jamais bate boca com um adversário. Mas quando, malandramente, pediu para ir ao banheiro em uma partida que perdia (a sombra em quadra lhe incomodava, e o tempo de paralisação foi o suficiente para que a sombra desaparecesse), foi chamado de “gênio até na privada”. Dois pesos, duas medidas.

É inegável que há uma questão de reputação. Novak Djokovic, quando galgava postos no ranking mundial, abandonou um punhado de partidas. Victoria Azarenka tem um passado não muito diferente. Se um dos dois, hoje, entra em quadra com dores e abandona, o currículo é logo levantado por alguém. Djokovic já entrou em quadra lesionado (Monte Carlo, lembram?) só para não passar por isso. Vika foi pior. Agravou uma lesão séria porque se recusou a deixar a partida no meio. Não queria ouvir as queixas de sempre. Passou um bom tempo sem jogar.

Rafael Nadal, provavelmente o top 10 com mais lesões na história do tênis, vive um dilema não muito diferente. É acusado sempre de fingir e culpar lesões quando perde (ao mesmo tempo em que ignora-se a lógica que aponta que um tenista de seu nível não perde muitas vezes quando está bem fisicamente). Mas vale lembrar: não foi o espanhol que culpou o joelho em sua única derrota em Roland Garros. O mundo só soube da lesão algum tempo depois, quando ele desistiu de Wimbledon.  No dia daquele revés para Soderling, ninguém mencionou nada. Fast forward para um ano depois. Em Wimbledon/2010, Tomas Berdych eliminou Federer. Na segunda resposta da entrevista coletiva, sem ser indagado sobre alguma espécie de lesão, o suíço falou que não conseguiu jogar seu melhor porque tinha dores nas costas e nas pernas. Um gesto deselegante que a reputação do gentleman suíço praticamente apagou da história.

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O que incomoda (e me incomoda um bocado no caso específico de Andy Murray) é  o surgimento dessa fama. De onde veio? É porque Murray não sorri durante as partidas? Será que é porque ele não dança após as vitórias? Ou porque nunca publicou videozinhos engraçadinhos no YouTube? Ou será que é porque ele não desiste mesmo quando sente alguma espécie de desconforto? Neste caso, qual é o caminho? Para que lado fica a saída? É melhor desistir e ser chamado de frouxo ou continuar em quadra e ganhar o rótulo de catimbeiro? Não tem saída nesse beco.

O resumo dessa história toda é que o tweet de Andy Murray pode servir para despertar muita gente. “Por que este tenista aqui é um Oscar winner, e aquele lá, a reencarnação de Perseu?” é a pergunta que todos deveriam se fazer a cada caso desses.  Não que isso vá mudar a percepção dos fãs. Haters gonna hate, já diz o poeta. O mesmo torcedor que suspeita de uma apendicite orgulha-se da mononucleose mais curta e mais branda da Era Aberta. Mas eu divago. Murray deu a deixa. Cabe a todos, especialmente comentaristas e jornalistas, usar a balança antes de emitir uma opinião.

Coisas que eu acho que acho:

– Não acho (mesmo!) que nenhum dos tenistas citados neste post seja desonesto, catimbeiro ou mentiroso. Acho, sim, que todos eles já se aproveitaram das regras para tirar algum tipo de vantagem. Isto, contudo, não faz de ninguém um mau caráter incorrigível.

– O benefício da dúvida deve ser concedido a todos. Não somente aos sorridentes, dançarinos e videomakers. Que ninguém precise pagar o preço por optar manter um mínimo de autenticidade.


Fognini manda o dedo para a torcida chinesa
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Alexandre Cossenza

Fabio Fognini aprontou mais uma. O italiano, conhecido por reclamar com árbitros, adversários e consigo mesmo, desta vez descontou a raiva no público chinês. Depois de surpreendente ser eliminado do Masters de Xangai pelo desconhecido Chuhan Wang, número 553 do mundo, Fognini mandou o dedo médio para a torcida. Veja no finzinho do vídeo abaixo.

Há quem diga também que Fognini deu uma cotovelada no adversário logo depois de cumprimentá-lo. Não me pareceu o caso. No entanto, o vídeo está aí para quem quiser ver. (editado às 13h15min desta quarta-feira) A ATP multou Fognini em US$ 2 mil. Apenas a título de curiosidade, o italiano embolsou mais de US$ 14 mil pela participação no evento.


O peso da “fama”
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Alexandre Cossenza

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Todo mundo sabe como funciona – em qualquer esporte. No futebol, zagueiro com fama de violento leva cartão até quando não fez falta grave. No basquete, os encrenqueiros famosos são punidos com falta técnica por muito menos do que aqueles com reputação de bom moço. A tolerância, de modo geral, é menor com quem tem precedente. E isso vale também para o tênis, claro.

No post anterior do blog, publiquei o vídeo da trapalhada do árbitro de cadeira Mohamed El Jennati, que “garfou” absurdamente o uzbeque Denis Istomin no Masters 1.000 de Indian Wells. Pois dois dias depois o oficial marroquino esteve envolvido em outra polêmica. O pivô da vez foi o italiano Fabio Fognini, que se sentiu prejudicado no jogo contra o americano Ryan Harrison e disparou meia dúzia (talvez um pouco mais) de palavrões.

No meio das ofensas, Fognini ainda lembrou do episódio de Istomin, dizendo coisas do tipo “Você fez a mesma m… ontem com o Istomin. Quem estava na cadeira? Você estava!” e “É a segunda vez em dois dias.” “Vejam o vídeo!

Desta vez, contudo, a situação não é tão clara quanto o caso envolvendo Istomin. Aqui, Fognini faz um slice e, quando Harrison está indo atrás da bola para tentar rebater, um juiz de linha marca bola fora. O italiano pede o replay, que mostra bola boa. A decisão, então, requer o julgamento do árbitro de cadeira: o erro de Harrison aconteceu porque a bola foi chamada fora pelo juiz de linha?

El Jennati considera que sim e argumenta, com seu inglês macarrônico, repetindo “same time” (ao mesmo tempo). Ou seja, o árbitro acredita que a chamada do juiz de linha aconteceu ao mesmo tempo em que Harrison estava indo na direção e que, por isso, o americano errou na hora de devolver a amarelinha.

É uma interpretação contestável, já que Harrison estava em uma posição desconfortável em quadra e provavelmente perderia o ponto. Além disso, ele levanta a mão esquerda (indicando bola fora) assim que rebate. Será que o fez porque ouviu o juiz de linha ou porque pediria o uso do replay caso nenhum juiz marcasse bola fora? Impossível saber.

De qualquer modo, é injusto comparar com o caso Istomin. Aqui, El Jennati faz um julgamento em um lance nada fácil. Até olhando o replay é difícil saber a ordem das coisas. Para Fognini, no entanto, a reputação do árbitro pesou. Foi o pretexto para uma discussão, meia dúzia de palavrões e uma paralisação de quase cinco minutos. E o italiano, que havia perdido o primeiro set por 7/5, fez 6/1 e 6/4 e avançou no Masters de Indian Wells.

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Coisas que eu acho que acho:

– Sobre o que aconteceu no torneio até agora, vale destacar o retorno frustrante/frustrado de Victoria Azarenka. A ex-número 1 claramente não estava recuperada de uma lesão no pé, e o resultado foi a decepcionante atuação diante da americana Lauren Davis, que venceu por 6/0 e 7/6(2). Após a partida, Vika não se mostrou arrependida e disse que precisava testar o pé para saber se conseguiria jogar. Resta saber se a lesão foi agravada durante os dois sets jogados.

– Rafael Nadal e Andy Murray escaparam de derrotas em suas estreias. O britânico esteve um set e uma quebra atrás de Lukas Rosol, mas avançou por 4/6, 6/3 e 6/2. O número 1, por sua vez, perdeu o set inicial para Radek Stepanek, mas virou: 2/6, 6/4 e 7/5. E Nadal teve de sacar em 2/3 e 0/40 na parcial decisiva.

– Em uma chave fortíssima, cheia de simplistas talentosos, os duplistas brasileiros conseguiram vitórias nada fáceis na primeira rodada. Bruno Soares e Alexander Peya derrotaram Eric Butorac e Raven Klaasen no match tie-break (2/6, 7/6 e 10/6), enquanto Marcelo Melo e Ivan Dodig superaram Marx Mirnyi e Mikhail Youzhny por 6/3 e 6/2. Soares e Peya agora vão encarar Andy Murray e Jonathan Marray. Melo e Dodig ainda não conhecem seus próximos oponentes.

– Sobre a polêmica (e anual) questão de muitos simplistas jogando duplas, recomendo o post da Aliny Calejon, do Match Tie-Break. Está ótimo. Leitura obrigatória!


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