Saque e Voleio

Arquivo : monteiro

Sobre Copa Davis e competências
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do confronto entre Equador e Brasil chega ao fim com o resultado mais provável. Vitória brasileira garantida no sábado, com Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e a dupla mineira vencendo. Foi, no entanto, um duelo mais interessante e divertido (dependendo da sua torcida) do que o imaginado. O mérito – ou a culpa – disso é de Thomaz Bellucci, que complicou um jogo não tão duro e quase acabou superado por Emilio Gómez, número 272 do mundo.

O Equador, claro, teve seus méritos. Dono de uma equipe muito mais fraca, com Roberto Quiroz (#232) como número 1, o país fez o dever de casa. Colocou os jogos na altitude de Ambato, 2.500m acima do nível do mar, e nivelou os confrontos por baixo. Ainda que levado em conta o bom histórico de Bellucci em condições semelhantes, era mesmo o melhor a se fazer.

Não dá para dizer que os donos da casa erraram. O nível foi tão para baixo que Bellucci se empolgou na sexta-feira e cavou um buraco enorme depois de abrir 2 sets a 0 contra Gómez. O equatoriano virou o jogo e chegou a ter uma quebra de frente no quinto set. Para a sorte de Bellucci, Gómez nunca foi (ainda?) o tal futuro top 50 que um dia venderam na TV brasileira (coisas que o pachequismo tenta empurrar goela abaixo do espectador para justificar escolhas erradas de parceiros de negócios). Emilio sentiu os nervos, perdeu a vantagem num game com duas duplas faltas e um erro não forçado e voltou a perder o saque antes de um tie-break decisivo: 6/2, 6/4, 6/7(1), 4/6 e 6/4.

Pessimismo meu? Nem tanto. Gómez saiu da quadra dizendo que nem fez uma ótima partida e que se tivesse ganhado, não seria por mérito de seu tênis. Bellucci, por sua vez, afirmou que a experiência fez diferença, reconheceu que Gómez sentiu os nervos no quinto set e concluiu que o rival lhe “permitiu ganhar a partida”. Ambas parecem declarações bastante conscientes sobre o que aconteceu em quadra.

Thiago Monteiro era um ponto de interrogação maior. Jogou em Quito duas vezes na vida e perdeu ambas. E nenhuma outra apresentação em tanta altitude em toda a carreira. Bom para Quiroz, que conseguiu equilibrar um jogo que, em outras condições, seria muito mais favorável ao brasileiro. Mesmo assim, o cearense foi melhor nos momentos importantes: 6/7(6), 7/6(0), 6/3 e 7/6(7).

Com 2 a 0 no sábado, restava à dupla fechar o caixão. Bruno Soares e Marcelo Melo, que raramente decepcionam juntos, fizeram 6/3, 6/4 e 6/3 em 1h38min sobre Gonzalo Escobar e Roberto Quiroz. Sem drama. Brasil de volta ao playoff.

Coisas que eu acho que acho:

– Em Ambato, a delegação brasileira contou com a presença de Luís Eduardo Nunes, presidente da federação paraibana de tênis, que exerceu a função de “auxiliar da delegação”, segundo a assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

– Segundo a CBT, Nunes foi a Ambato pagando de seu próprio bolso – sem pedir nada à entidade. No entanto, como o chefe da delegação, Eduardo Frick, não conseguia tratar de todas questões logísticas necessárias por conta própria, Nunes foi agregado ao time, ganhando uniforme, participando de eventos oficiais, sentando no banco junto com a equipe durante as partidas e até comemorando a vitória dentro de quadra. Nunes participou até do teatrinho dos jogadores, “fantasiado” de Lampião (é ele no centro da imagem abaixo).

– Estranha o fato de Frick, recém-contratado, não ter competência para cuidar da logística de uma equipe de Copa Davis. Paulo Moriguti, seu antecessor na função, nunca precisou de auxiliar. Moriguti, aliás, deixou a CBT depois que Rafael Westrupp assumiu a presidência no lugar de Jorge Lacerda.

– Merece elogios o altruísmo de Luís Eduardo Nunes. Além de pagar de seu bolso para viajar a Ambato (!!!) para ver de perto nomes como Roberto Quiroz e Emilio Gómez (porque Bellucci e Monteiro ele poderia ver no Rio ou em São Paulo), o presidente da federação paraibana ainda trabalhou de graça para o tênis brasileiro. Que a CBT e Frick, aquele que não conseguiu fazer seu trabalho sozinho, sejam eternamente gratos a ele.

– Chegamos a abril, e a CBT ainda não tem uma empresa grande como fornecedora oficial de material esportivo. O time viajou ao Equador vestindo Companion – marca que também serviu como tapa-buraco durante um período da gestão de Jorge Lacerda.

– Pela primeira vez em muito tempo, um time brasileiro de Copa Davis viaja sem fotógrafo. Talvez por isso a imagem escolhida por todos jogadores e técnicos para postar em redes sociais após a vitória foi a selfie registrada por Marcelo Melo. Não havia opção. Talvez o trabalho de um fotógrafo ajudasse a divulgar o time e valorizasse o espaço no uniforme brasileiro, o que, por sua vez, ajudaria a atrair marcas. Há quem acredite, porém, que estou superestimando o valor do fotógrafo.


Quadra 18: S03E05
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Alexandre Cossenza

Miami praticamente repetiu Indian Wells. Roger Federer voltou a levantar um troféu após derrubar Rafael Nadal, Nick Kyrgios deu mais espetáculos, Marcelo Melo e Lukasz Kubot somaram mais um resultado excelente, enquanto no torneio feminino Angelique Kerber ficou pelo caminho mais uma vez, Venus Williams voltou a ir longe e Caroline Wozniacki perdeu a terceira final consecutiva.

Neste novo episódio do podcast Quadra 18, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu falamos de tudo que envolveu Miami, inclusive o título de Johanna Konta, mas também abordamos as polêmicas nas transmissões de TV e as grandes mudanças que a Federação Internacional de Tênis vai implantar no circuito profissional a partir de 2019. Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link e selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’17” – Aliny apresenta os temas
1’27” – Cossenza analisa o Federer x Nadal que decidiu o Masters de Miami
5’25” – A versão atual de Federer ganharia do Federer 2004-2007?
9’30” – Federer voltar só em RG mostra que ele não tem o #1 como prioridade?
12’45” – Qual o melhor jogo do ano até agora?
13’49” – O momento e a ascensão de Nick Kyrgios
17’00” – Nadal ainda joga muito atrás da linha de base contra Federer?
18’15” – Nadal já é favorito absoluto para Roland Garros?
19’35” – A janela de Nishikori e Dimitrov está fechando?
22’25” – Kyrgios precisa aumentar a % de pontos vencidos com a devolução?
23’30” – Qual o balanço após os primeiros Masters 1000 de Thiago Monteiro?
28’42 – Roll the Bones (Rush)
29’08” – A conquista de Marcelo Melo e Lukasz Kubot e a força da camisa
32’30” – Marcelo Melo criticou ou não Lukasz Kubot após o Rio Open?
37’00” – A repetição do duelo Melo/Kubot x Soares/Murray
39’23” – Henri Kontinen assume a liderança do ranking de duplas
41’10” – A diferença de pontuação entre Melo/Kubot e Dodig/Granollers
42’20” – O título de Johanna Konta e o WTA de Miami
43’30” – Os méritos e a falta de atrativos de Johanna Konta
46’10” – As mudanças e a polêmica sobre o que a ITF vai fazer com o circuito
52’56” – SporTV e Sony: críticas e elogios às transmissões de Miami


Quadra 18: S03E03
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Alexandre Cossenza

Rio Open, Brasil Open e o começo de Indian Wells. O podcast Quadra 18 demorou, mas finalmente está de volta, falando sobre um pouco de tudo que aconteceu nas últimas três semanas de tênis. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu discutimos assuntos “quentes” como os problemas físicos de Thomaz Bellucci, os wild cards para Maria Sharapova, a opção de Bruno Soares e Marcelo Melo por Acapulco em vez de São Paulo, o momento de Novak Djokovic, o futuro do Rio Open e até por onde anda o comentarista do SporTV Dácio Campos.

Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferia baixar para ouvir em casa, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’15” – Sheila Vieira apresenta os temas
2’02” – A estreia de Bellucci contra Nishikori, e a dura adaptação do japonês
4’45” – Os problemas físicos de Bellucci contra Thiago Monteiro
5’48” – O quanto foi ruim enfrentar Monteiro logo após derrotar Nishikori
6’18” – O “surgimento” de Casper Ruud
7’50” – A história de Christian Ruud, pai de Casper, que enfrentou Guga e Meligeni
8’25” – O título sem ameaças de Dominic Thiem
10’53” – Por que Carreño Busta e Ramos Viñolas são pouco reconhecidos?
12’20” – A chave de duplas e o carisma de Jamie Murray
14’23” – Marcelo Melo e suas declarações sobre a parceria com Lukasz Kubot
19’00” – O primeiro Rio Open sem WTA foi melhor ou pior?
23’27” – Pablo Cuevas, o título do Brasil Open e a chuva interminável
25’53” – Os problemas físicos e a falta de motivação de Thomaz Bellucci
27’08” – Por que tenista são “julgados” quando entram em quadra mal fisicamente?
28’45” – A boa chave do Brasil Open apesar da péssima data no calendário da ATP
30’17” – O título de Rogerinho e André Sá, e a ascensão de Demoliner nas duplas
32’47” – André Sá voltará a jogar com Leander Paes?
33’50” – A opção de Bruno e Marcelo por jogam em Acapulco em vez de São Paulo
37’08” – O bairrismo Rio-São Paulo
38’00” – Comparando Guga no Sauípe e Bruno/Marcelo em Acapulco
39’38” – Under the Bridge (Red Hot Chilli Pepers)
40’10” – Indian Wells e o quadrante com Djokovic, Delpo, Nadal, Federer, Kyrgios e Zverev no mesmo quadrante
42’40” – O mantra “o que está acontecendo com Djokovic?”
44’50” – Nadal em Acapulco, Murray e Federer em Dubai
46’21” – “Eu espero dignidade de Marin Cilic”
47’37” – Quem ganha o Masters de Indian Wells? Hora dos palpites!
48’43” – É justo Sharapova receber convites após a suspensão por doping?
55’18” – Serena Williams, mais uma lesão e como a chave mudou sem ela
57’37” – Palpites: quem é a favorita para o WTA de Indian Wells?
59’10” – A chave de Djokovic pode fazer ele atuar como Serena no AO 2017?
59’38” – A falta de público no Rio Open é culpa da organização ou da falta de tradição brasileira no tênis?
61’20” – O Brasil Open soluciona problemas melhor do que o Rio Open?
61’44” – Por onde anda Dácio Campos? Ele vai comentar Indian Wells?
62’37” – Kerber voltará dignamente ao #1? Veremos evolução no jogo dela?
63’45” – Há alguma chance de Melo não completar a temporada com Kubot?
63’57” – O Rio Open pode virar Masters 1000? Qual a chance de virar piso duro?
66’45” – Os valores de ingressos em Rio e SP valeram pelos atletas que vieram e pelo tênis jogado?

Importante:

– Tivemos problemas de som no meu áudio durante a gravação. Por isso, algumas das minhas falas estão incompletas. Pedimos desculpas, mas os cortes no meu áudio só foram percebidos durante a edição.


O balanço brasileiro no saibro
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Alexandre Cossenza

Com o fim do tardio do Brasil Open, parece o momento ideal para fazer um balanço da participação brasileira na perna sul-americana do circuito mundial, que, por enquanto, ainda é toda disputada em quadras de saibro. Digo “ainda” porque, como os leitores do blog sabem, Rio e Buenos Aires estão em busca de aprovação para mudarem para quadras duras.

O motivo carioca/portenho não tem a ver com as campanhas de brasileiros e argentinos. A ideia é conseguir trazer mais nomes de peso. Diretores dizem que o principal argumento de quem não quer vir até aqui é a mudança de piso entre o Australian Open e o Masters de Indian Wells. Mas enquanto a alteração não sai, será que os brasileiros vêm aproveitando o piso mais favorável a seu jogo?

Depois de Quito, Buenos Aires, Rio de Janeiro e São Paulo, dá para dizer que não foi a pior das campanhas brasileiras. Não que tenha sido espetacular. Bellucci, principalmente, poderia ter tirado muito mais de Rio e São Paulo não fossem seus problemas físicos e, ao que parece, de motivação. Vejamos um por um:

Thomaz Bellucci

Como nos dois anos anteriores, o paulista fez boa campanha em Quito. Só perdeu – pela terceira vez seguida – para Vitor Estrella Burgos, o veterano que acabou conquistando o tricampeonato no Equador. Caso curioso, não tão fácil de explicar/entender, mas que precisa entrar para a coluna das “chances perdidas”.

No Rio, Bellucci eliminou o cabeça 1 na estreia, empolgou a torcida e decepcionou no jogo seguinte. No meio do segundo set contra Thiago Monteiro (jogo à noite, 27 graus), o paulista já esteve pregado. Saiu de quadra dizendo “morri” com todas as letras. Depois, em São Paulo, também teve problemas físicos (de outro tipo) na derrota para Schwartzman. Após o revés, deu uma declaração um tanto preocupante. Falou que precisa “reencontrar a alegria e a motivação de estar na quadra que só o dia a dia vai me dar. Tenho que pensar no que a gente tem que fazer para dar a volta por cima.”

De qualquer modo, mesmo com a vitória sobre Nishikori e uma semi em Quito, fica a impressão de que poderia ter sido muito melhor. É duro afirmar, mas é o mesmo que pode ser dito sobre muitos momentos da carreira de Bellucci.

Thiago Monteiro

Talvez tenha sido o momento de consolidação do cearense. Um ano depois de “surgir” ao bater Tsonga no Rio, Monteiro fez uma turnê sólida, com quartas de final em Buenos Aires e no Rio. Perdeu na estreia em Quito e em São Paulo, mas em condições difíceis. Jogou contra Giovani Lapentti na altitude e contra Carlos Berlocq (seu algoz também em Buenos Aires) no Pinheiros.

Ao todo, nada mau. Os ATPs, no entanto, deixaram mais visíveis os buracos no jogo do cearense. Berlocq deixou clara a necessidade de Monteiro melhorar junto à rede. O argentino venceu uma enorme maioria de pontos quando variou e tirou Thiago do basicão “distribuindo-pancada-do-fundo”. No Rio, Ruud expôs as falhas na devolução do cearense. Monteiro não conseguir entrar em um número razoável de pontos no serviço no norueguês.

Monteiro sabe quanto e onde precisa evoluir. Ele mesmo falou sobre isso na última coletiva que deu no Rio de Janeiro. Há tempo para isso. É questão de trabalhar e pensar no jogo como um todo – e não só na pancadaria do fundo de quadra.

Rogerinho

O paulista esteve nos quatro ATPs, inclusive furando o quali em Buenos Aires, mas não conseguiu vencer nenhum jogo em chaves principais. O mais perto que chegou disso foi quando teve dois match points contra Alessandro Gianessi na Argentina. Não dá para dizer que foi uma passagem trágica de Rogerinho pela América do Sul, mas ele teve jogos ganháveis e não aproveitou. Também entra para a coluna de chances não aproveitadas.

Feijão

João Souza também esteve nos quatro ATPs, mas ficou no quali em Buenos Aires (perdeu para Rogerinho) e só venceu um jogo em São Paulo (contra Zeballos na estreia). E se não dá para condená-lo pelas derrotas para Pablo Carreño Busta (Rio e SP), esperava-se mais de seu jogo na altitude de Quito. A derrota na estreia para Federico Gaio não foi o melhor dos resultados.

Bruno Soares

Orale Cabron 🇲🇽 🏆 🏆🏆

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O mineiro só jogou um torneio no saibro. Foi no Rio, onde ele e Murray perderam nas semifinais, quando até tiveram um match point contra Carreño Busta e Pablo Cuevas. Um resultado bom, considerando que Soares ficou dez dias no Rio de Janeiro, mas passou a maior parte do tempo dando entrevistas, participando de eventos com fãs, dando clínicas e aparecendo para seus patrocinadores.

Depois do Rio, o mineiro foi para Acapulco, jogar um ATP 500 na quadra dura, em vez de jogar no Brasil Open, em São Paulo, no saibro. A decisão provocou críticas públicas de Flávio Saretta em uma sequência de tweets.

“Semana de Brasil Open! Torneio que existe desde 2001! Sempre muito valorizado pelos tenistas brasileiros!! Tão valorizado que até o número 1 do mundo jogava! E tive a noticia que Marcelo e Bruno Soares optaram por jogar em Acapulco. Gosto dos dois desde sempre, mas não posso concordar com essa decisão e atitude! Sabemos das imensas dificuldades de se fazer um torneio ATP no Brasil pelos custos, etc! Sempre valorizamos demais esse torneio no Brasil! Um orgulho jogar um ATP no nosso país!! Por isso confesso que achei um absurdo os dois jogarem no México e não no Brasil! Fora a troca que é estar perto de quem torce por vc e não tem a oportunidade de ver vc jogar de perto!!! Escolha errada dos dois! Uma pena…”

Sim, seria ótimo ter Soares e Marcelo Melo (que também foi a Acapulco) jogando mais uma semana no Brasil, mas é preciso entender os motivos de ambos. Primeiro, os dois preferem jogar em quadras duras. Não por acaso, Bruno venceu dois Slams no piso ao lado de Jamie no ano passado. Mas não é só isso. Além de Acapulco ser um torneio mais importante, é uma semana de jogos na quadra dura antes de um evento ainda maior: o Masters de Indian Wells, no piso sintético.

Dizer que Soares e Melo precisariam fazer mais esforço para jogar no Brasil me parece forçar a barra. Os dois, afinal, estiveram no Brasil. E Bruno, especialmente, fez todo tipo de atividade para divulgar o torneio, o tênis e seus patrocinadores. O torcedor brasileiro teve a chance de vê-los. Só quem não foi ao Rio (caso de Saretta) ou não ficou a semana inteira não viu isso.

Além disso, os dois mineiros deveriam ter um pouquinho mais de crédito (é só minha opinião). Soares jogou o Brasil Open todos os anos desde 2009. Sempre trouxe seus parceiros. Foi campeão três vezes e, na maioria das vezes, atuou em quadras secundárias – inclusive naquele precário e improvisado Mauro Pinheiro. Em um de seus títulos, fez apenas um jogo na quadra central (a final). Melo viveu situações parecidas e, até este ano, só havia ficado ausente em 2014.

Por fim (não que o resultado mudaria algum dos argumentos acima), Soares e Murray foram campeões em Acapulco, somando 500 pontos e ganhando embalo antes do primeiro Masters 1.000 do ano.

Marcelo Melo

O mesmo caso de Bruno, só que com um agravante. Marcelo e seu parceiro, Lukasz Kubot, ainda não encontraram ritmo. E como jogam melhor em quadras duras, estavam em Roterdã (um ATP 500) em vez de Buenos Aires. No Rio, perderam para Peralta e Zeballos nas quartas. Depois, partiram para Acapulco, onde caíram na estreia diante de Santiago González e David Marrero.

Depois do Australian Open, Melo já dizia no “Pelas Quadras”, da ESPN, que era preciso encontrar um equilíbrio na parceria. A queixa (velada) era em respeito ao jogo kamikaze de Kubot. No Rio, o mineiro deu declarações parecidas. Disse que gosta de um jogo com menos velocidade e mais equilibrado e deu a entender que o Masters de Miami será o momento para avaliar se o time com Kubot tem futuro.

André Sá

Jogou com Tommy Robredo em Buenos Aires e no Rio e caiu na estreia em ambos. Em São Paulo, ao lado de Rogerinho, foi longe e conquistou o título. Saiu do saibro levando 250 pontos, o que não é nada ruim.

Marcelo Demoliner

Fez Buenos Aires-Rio-SP com seu parceiro habitual, o neozelandês Marcus Daniell. Também passou em branco na Argentina e no Rio. Também foi à decisão no Pinheiros. Somou 150 pontos.


Rio, dia 5: o melhor golpe da vida de Thiem e o fim da linha para o Brasil
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Alexandre Cossenza

A sexta-feira do Rio Open não foi o dia dos sonhos para o tênis brasileiro. Primeiro, Thiago Monteiro foi superado pelo convidado Casper Ruud, 18 anos e número 208 do mundo. Mais tarde, nas duplas, Bruno Soares teve match point, mas acabou superado ao lado de Jamie Murray em mais uma semifinal.

Quem comemorou mesmo foi Dominic Thiem, cabeça de chave 2. Além de vencer em dois sets e alcançar a semi, o austríaco realizou o que ele mesmo classificou como o melhor golpe de sua carreira (vide vídeo abaixo). O resumão de hoje tem tudo isso em declarações, imagens e vídeos.

O adeus de Monteiro

Thiago Monteiro não passou das quartas de final. O cearense demorou a equilibrar ações, permitiu que Casper Ruud abrisse 4/0 no primeiro set e, depois disso, o norueguês de 18 anos jamais perdeu a calma. O brasileiro não conseguiu um break point sequer e acabou eliminado por 6/2 e 7/6(2).

Ruud, atual #208 do mundo, nunca tinha vencido uma partida em um torneio da ATP antes do Rio Open e só ganhou um convite porque é agenciado pela IMG, dona do torneio. O adolescente aproveitou a chance e mostrou um tênis sólido, potente e com variações, além de um ótimo preparo físico. Jogou uma partida sob calor intenso e fez um duelo longo de três sets. Em ambos, saiu inteiríssimo da quadra. Contra Monteiro, impôs seu forehand pesado e cheio de spin, criando problemas para o backhand do cearense. Além disso, variou saques e jamais deixou Monteiro à vontade. Nem a torcida brasileira, empurrando o tenista da casa, tirou o norueguês do sério.

O adversário da semi será Pablo Carreño Busta, que avançou depois que Alexandr Dolgopolov abandonou ao fim do segundo set por causa de dores no quadril esquerdo. O ucraniano, campeão em Buenos Aires no domingo, já vinha se queixando aqui no Rio. O curioso é que ele desistiu da partida logo depois de jogar um excelente tie-break e empatar a partida contra o espanhol. O placar final mostrou 7/6(4) e 6/7(2).

Thiem: a segunda semi e o melhor golpe da vida

No primeiro set, foi mais complicado do que o placar mostrou. No segundo, mais fácil. No fim, Dominic Thiem bateu Diego Schwartzman por 6/2 e 6/3 e avançou pelo segundo ano seguido às semifinais do Rio Open. Com direito a um momento glorioso: uma passada de Gran Willy que levantou a galera e que o próprio austríaco definiu como o melhor tiro da carreira.

“Eu já tinha tentado o tweener muitas vezes, mas foi meu primeiro winner limpo. Não acreditei porque eu estava muito atrás da linha de base. Provavelmente, foi o melhor golpe que acertei na vida.”

Ressalte-se, porém, que o argentino deu trabalho. No primeiro set, teve break points em três games de serviço de Thiem, inclusive um 0/40 no 3/2. O mérito do austríaco foi ser superior e não cometer erro nenhum em todos momentos delicados. Schwartzman também ensaiou uma reação na segunda parcial, vencendo três games (duas quebras) depois estar 0/5 atrás, mas, novamente, Thiem foi mais sólido quando a coisa apertou.

Em busca da vaga na final, Thiem vai enfrentar Albert Ramos Viñolas, que não teve problemas diante do qualifier argentino Nicolas Kicker: 6/2 e 6/3. Atual número 25 do mundo e ocupando o melhor ranking da carreira, o espanhol venceu o único duelo que fez contra Thiem. Foi nas quadras duras de Chengdu, no ano passado, nas quartas de final, e o placar foi 6/1 e 6/4. Será que no saibro, com a bola quicando alto – condições perfeitas para Thiem – Ramos consegue repetir?

Bruno Soares e a derrota mais doída

A final já seria complicada, afinal os colombianos Robert Farah e Juan Sebastian Cabal, atuais bicampeões do Rio Open e tradicionais pedras no sapato de Bruno Soares, garantiram cedo seu lugar na decisão quando superaram Julio Peralta e Horacio Zeballos por 6/7(4), 7/6(6) e 10/6.

O pior é que a final acabou não vindo. Bruno Soares e Jamie Murray fizeram um jogo duríssimo contra Pablo Cuevas e Pablo Carreño Busta e acabaram eliminados. Brasileiro e britânico até tiveram um match point no match tie-break, mas a devolução de Soares não teve o efeito desejado, e a chance não foi aproveitada. Dois pontos depois, graças principalmente a um lob defensivo de Pablo Cuevas que caiu na linha, uruguaio e espanhol fecharam: 6/4, 3/6 e 12/10.

Foi a quarta chance de Bruno Soares nas semifinais do Rio Open (a primeira com Murray) e a quarta derrota. O mineiro saiu de quadra hoje dizendo que foi o revés mais doído.

“Nos outros anos, achei que nós jogamos bem mais ou menos. Chegar na semifinal era meio que lucro. Eu saía falando ‘não fiz muita coisa para estar na final.’ Este ano, fiquei chateado porque achei que, dentro das condições [Soares já havia reclamado das bolas usadas no Rio Open], a gente jogou bem. A gente conseguiu ter match point jogando um nível bom de tênis. Nos outros anos, a gente foi meio que se arrastando até a semi, e eu meio que saía aceitando o que tinha acontecido. Este ano… faltou um ponto, cara.” … “Ter match point doeu. Preferia ter perdido no 9/7 ali, pá-pum. Seria um pouco menos doído.”

O melhor do sábado

A sessão começa às 17h, com Dominic Thiem x Alberto Ramos Viñolas. Em seguida, Casper Ruud encara Pablo Carreño Busta. A programação ainda prevê um show de Nina Miranda antes da decisão de duplas, que fecha a noite no Rio Open.


Rio Open, dia 4: Bellucci ‘morto’, Melo em crise e Soares com drama
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Alexandre Cossenza

Que dia para os brasileiros no Rio Open! Primeiro, houve drama na Quadra 1 com Bruno Soares e Jamie Murray desperdiçando chances e match points. Depois, a eliminação nas quartas de final deixou Marcelo Melo chateado e reavaliando a parceria com o polonês Lukasz Kubot. Por fim, o duelo brasileiro na quadra central terminou com uma cena desagradavelmente familiar: Thomaz Bellucci esgotado fisicamente. Melhor para Thiago Monteiro, que avançou, terá o melhor ranking da carreira e uma chance rara de ir até as semifinais de um ATP 500.

Bellucci traído pelo físico mais uma vez

Era para ser uma partida equilibrada entre dois tenistas que se conhecem bastante e treinam juntos. Até foi assim, mas só durante o primeiro set. O segundo foi morno, e o terceiro deixou óbvio: com menos de duas horas de duelo, Thomaz Bellucci estava esgotado. Thiago Monteiro aproveitou e avançou às quartas de final: 7/6(8), 3/6 e 6/3.

Em vez de ver o Bellucci paciente, taticamente inteligente e preciso de terça-feira, o público que esteve no Jockey Club Brasileiro infelizmente viu o Bellucci mais frequente. Irregular, perdendo chances – inclusive um set point no saque no primeiro set – e sofrendo com o preparo físico. Após o jogo, o paulista chegou à zona mista (onde são realizadas as entrevistas curtas pós-jogo) abatido e chateado. “Morri no terceiro set”, disse, com todas as letras.

Bellucci afirmou, inclusive, que já sentia dificuldades no segundo set, sem conseguir imprimir um volume bom de jogo. A declaração é preocupante porque, ainda que disputado na umidade carioca, o duelo foi realizado à noite, em uma temperatura de 27 graus, e Bellucci estava pregado com menos de 2h de jogo.

Tão preocupante quanto a última frase de Bellucci aos jornalistas. “É vida que segue. Não foi o primeiro jogo que perdi porque não consegui aguentar fisicamente. É seguir trabalhando.”

Os méritos e o melhor ranking de Monteiro

Embora os problemas físicos de Bellucci tenham privado os espectadores de ver um terceiro set equilibrado, é preciso lembrar dos méritos de Thiago Monteiro. Primeiro, ao salvar dois set points no tie-break do primeiro set. Depois, mais tarde, ao sair de um delicado 0/30 no primeiro game do terceiro set e emendar com uma quebra de saque. Foi, inclusive, a única da parcial decisiva.

Com a vitória, Monteiro alcançará o melhor ranking da carreira. Mesmo que perca nas quartas, o cearense de 22 anos deve aparecer entre os 75 melhores na próxima atualização da lista da ATP. Ainda não será suficiente para se tornar o #1 do Brasil, já que Bellucci também está ganhando posições nesta semana. Monteiro só ultrapassará o paulista se vencer mais um jogo no Rio de Janeiro.

Derrota e parceria em xeque para Marcelo Melo

Marcelo Melo e seu parceiro, o polonês Lukasz Kubot, foram eliminados pelo chileno Julio Peralta e o argentino Horacio Zeballos: 6/4 e 6/4. O resultado não deixou o mineiro nada contente. A parceria com Kubot, iniciada em janeiro, só rendeu quatro vitórias e quatro derrotas até agora.

Melo não é conhecido por frases fortes, então é preciso pescar pequenos indícios dentro de suas frases. E as declarações desta quinta deixaram escapar – pelo menos foi essa a impressão de quem estava lá na zona mista – que o mineiro está preocupado quanto ao futuro da parceria com o polonês.

“Normalmente, eu me adapto muito bem [a parceiros de estilos diferentes], mas não adianta a gente jogar muito kamikaze e bomba pra todo lado. Eu gosto de um jogo mais controlado, mais sólido. Às vezes, com menos velocidade e mais porcentagem. A gente precisa encontrar esse balanço porque eu sou mais desse estilo. O Lukasz é mais agressivo. Tem dia que não entra a bola e nós vamos perder para qualquer dupla! Nós precisamos encontrar esse equilíbrio para ver se a gente consegue manter a dupla – para evoluir porque tem que tentar até certo ponto encontrar esse equilíbrio, senão não adianta seguir.”

Drama com Bruno e Jamie na Quadra 1

Bruno Soares e Jamie Murray estiveram a dois pontos da eliminação nesta quarta-feira, mas conseguiram uma apertada vitória sobre os argentinos Diego Schwartzman e Andres Molteni: 6/3, 5/7 e 11/9. Não parecia que seria assim quando brasileiro e escocês venceram cinco games seguidos no primeiro set, mas o jogo ficou nervoso quando o mineiro foi quebrado no 12º game da segunda parcial, o que forçou um match tie-break.

O set de desempate também parecia sob controle quando Soares e Murray abriram 9/5, mas a parceria desperdiçou dois mini-breaks e viu os argentinos empatarem em 9/9. Molteni, então, arriscou uma devolução de backhand, mas mandou a bola ao lado. No quinto match point, Schwartzman estranhamente furou um voleio – o que fez a torcida finalmente comemorar um tanto aliviada.

Será a quarta vez de Bruno Soares nas semis do Rio Open. O mineiro, porém, nunca chegou à final. Na coletiva, ele disse que uma vitória assim, vencida com momentos nervosos, vai ajudar na rodada seguinte. Sobre a partida, os dois ressaltaram as ótimas devoluções de Molteni, que equilibraram o confronto, mas o mineiro ressaltou que perdeu duas boas chances no segundo set. Primeiro, em um voleio no 4/4, com break point a favor. Mais tarde, com uma devolução errada no ponto decisivo do 5/5.

Pelo menos no papel, a semi não será nada simples, já que os adversários serão Pablo Carreño Busta e Pablo Cuevas. Espanhol e uruguaio passaram pelo argentino Facundo Bagnis e pelo português Gastão Elias por 6/4 e 7/5.

O convite bem aproveitado e o telefonema na quadra

Casper Ruud, desconhecido norueguês número 208 do mundo que ganhou um convite da organização para disputar o Rio Open, continua aproveitando a ótima chance. O adolescente de 18 anos bateu, de virada, o espanhol Roberto Carballés Baena e avançou às quartas de final por 6/7(4), 6/4 e 7/6(3).

Agenciado pela IMG, a dona do torneio, Ruud foi mostrado pela transmissão ao telefone ainda antes de sair da quadra. Depois, revelou que a ligação era de seu empresário – o mesmo que conseguiu o convite – que comemorava a vitória do atleta. Já é a melhor campanha da carreira de Ruud no circuito ATP, e o norueguês que mora e treina na Espanha vem mostrando golpes sólidos, cabeça no lugar e um ótimo preparo físico no calor e na umidade do Rio de Janeiro.

De qualquer maneira, será uma chance rara para Thiago Monteiro. Não é todo dia que alguém pode alcançar as semifinais de um ATP 500 enfrentando nas quartas um adversário que não está nem no top 200. Até agora, o cearense aproveitou as oportunidades que teve.

Bolinhas polêmicas são as melhores fabricadas pelo patrocinador

Em quatro anos de evento, o Rio Open acumula queixas sobre as bolinhas usadas pelo torneio. A lista de reclamões inclui Rafael Nadal, Kei Nishikori e Dominic Thiem, só para ficar nas estrelas internacionais. Bruno Soares também sempre falou que as bolas são muito duras e difíceis de controlar.

Perguntei sobre isso a Lui Carvalho, diretor do torneio. Ele afirma que as bolas usadas no Rio são as melhores fabricadas pela Head, patrocinadora do torneio. Vale lembrar que Nadal, uma vez, chegou a dizer que a ATP não deveria aprovar essas bolas para uso em seus torneios.

A quadra que não enche

Há vários motivos para os assentos constantemente vazios na quadra central do Rio Open. Preços, horários, calor, patrocinadores, atrações fora da quadra, falta de um nome de maior peso para a venda de ingressos… Tudo tem sua influência, em grau maior ou menor. Mas não deixa de ser lamentável ver tantos espaços em branco durante os momentos mais emocionantes do torneio.

A foto do tweet acima, por exemplo, foi feita durante o tie-break do primeiro set entre Bellucci e Monteiro. Dois tenistas da casa, jogando em horário nobre, à noite (menos calor), com muita coisa em jogo. Depois, ao fim da partida, com o jogo entrando pela madrugada, o público era bem menor.

O melhor da sexta-feira:

A programação começa mais cedo, às 15h, em vez de às 16h30min. As quatro quartas de final serão na quadra central, com Monteiro fechando o dia contra Ruud. As semifinais de duplas serão na Quadra 1, conforme o previsto, com início marcado para as 17h.


Rio Open, dia 2: a recompensa pela adaptação de Thomaz Bellucci
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Alexandre Cossenza

Se não foi o melhor dos cenários, o sorteio para estrear contra Kei Nishikori nunca foi a mais azarada das possibilidades para Thomaz Bellucci (e eu falei sobre isso nesta análise para o Rio Open). Com uma atuação competente e taticamente (quase) impecável, o brasileiro mostrou que adaptação faz diferença. Chegou cedo ao Rio de Janeiro, acostumou-se à quadra central e às bolas. Estava afiado para a estreia. O japonês, que estava em Buenos Aires até segunda-feira, deixou nítida a diferença. No grande jogo do dia, Bellucci derrubou o cabeça 1 do Rio Open e avançou às oitavas de final por 6/4 e 6/3.

Só que a terça-feira carioca também teve uma bela virada de Thiago Monteiro sobre Gastão Elias, além de Dominic Thiem, cabeça 2, confirmando seu favoritismo sobre Janko Tipsarevic. O resumão do dia traz análises dos jogos mais importantes, o que rolou de bom nas entrevistas coletivas e o que esperar da quarta-feira, que estará cheia de duplas. É só rolar a página e ficar por dentro.

Bellucci preciso, paciente e empolgante

Thomaz Bellucci apostou na regularidade. Devolveu os saques de Kei Nishikori lá do fundão, colocou bolas em jogo e acreditou que a consistência seria recompensada. O japonês, que chegou ao Rio só na segunda-feira cansado de uma semana longa em Buenos Aires, deixou nítida sua falta de adaptação ao torneio carioca. Enquanto Bellucci alongava as trocas de bolas, Nishikori cometia erros e perdia a paciência.

Nishikori nem conseguiu aproveitar quando Bellucci desperdiçou a quebra de vantagem depois de abrir 40/0 no quarto game. O brasileiro continuou com o mesmo plano de jogo e foi recompensado, quebrando uma indesejável série de 22 derrotas diante de adversários do top 10. A última havia sido contra Janko Tipsarevic (então #8) em Gstaad/2012.

O tênis mostrado por Bellucci nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, foi um pouco do que todos gostam e sabem que ele pode jogar. Em vez de atacar o tempo todo e cometer pilhas de erros não forçados, conteve o instinto afobado, se defendeu bem e exigiu que o adversário fizesse uma boa partida para vencê-lo. Nishikori não conseguiu, e o paulista avança às oitavas de final para encarar Thiago Monteiro.

Nas coletivas, Nishikori, primeiro a aparecer, disse que as condições do Rio estão muito diferentes das de Buenos Aires e que nada deu certo no seu jogo. O japonês disse até que foi sua pior partida dos últimos anos e que, para ele, Bellucci nem fez um grande jogo.

“O quique é muito alto, e as bolas são muito pesadas. As bolas foram o mais difícil de me acostumar. Não consegui sentir nada. Não era meu dia. Não acho que ele também jogou um grande tênis.”

Bellucci concordou parcialmente. Disse que não foi o melhor jogo de sua vida, mas obviamente saiu contente com sua postura tática e com o resultado. E afirmou também que teve sua parcela de mérito pela noite ruim de Nishikori. Bellucci só não abriu o jogo quando foi indagado sobre os resultados dos sets disputados contra Monteiro nos treinos. Respondeu “Ah, não vou dizer” e sorriu. Depois, disse “é pau a pau” e riu um pouco mais, feliz da vida.

Um ano depois, um Thiago Monteiro mais “parte desse meio”

Não foi um começo de Rio Open para Thiago Monteiro. Em compensação, sobraram foco e esforço para superar os momentos delicados e bater o português Gastão Elias por 2/6, 7/6(4) e 6/4. O cearense perdeu o serviço nas duas primeiras vezes que sacou e viu um Elias mais sólido disparar na frente e fechar o set.

A segunda parcial já foi bem diferente, o Monteiro confirmando com mais facilidade, só que ainda faltava ameaçar o serviço do português. O cearense, então, se viu em um momento delicadíssimo quando sacou em 3/4 no tie-break. Mesmo assim, jogou dois pontos com o segundo serviço e se safou. Elias, que errou por centímetros uma direita que lhe daria um mini-break, acabou vacilando em seguida. Foi aí que o jogo mudou de vez.

No set decisivo, Monteiro quebrou Elias no terceiro game. O português, frustrado com as chances perdidas (também perdeu três break points no segundo game do terceiro set), atirou a raquete no chão, discutiu com o público e viu a banda passar. Ainda teve pequenas chances, mas nada concreto.

Na coletiva, Monteiro, um ano depois do triunfo sobre Jo-Wilfried Tsonga que praticamente iniciou sua ascensão rumo ao top 100, falou sobre como é mais reconhecido pelos adversários e o quanto isso faz bem à sua carreira.

“Eu tenho treinado mais com eles, conhecido melhor alguns. É bom ter essa relação, poder marcar um treino em algum lugar específico também. Isso tem sido um fator importante, é legal ter esse reconhecimento. Eu me sinto cada vez mais fazendo parte desse meio, então isso é importante para mim.”

Thiem em seu habitat preferido

As condições são ideais e, mesmo sem estar (ainda) tão à vontade no Rio de Janeiro, Dominic Thiem mostrou por que é favorito ao título do evento – ainda mais agora, após a eliminação de Nishikori. O austríaco ficou bem confortável muito atrás da linha de base, usando a velocidade da quadra e o quique das bolas pesadas para se impor diante de Janko Tipsarevic por 6/4 e 7/5.

Os coadjuvantes (por enquanto?) de luxo

Do jeito que a organização precisou encaixar os jogos, a Quadra 1 foi palco de três jogos bastante interessantes. Primeiro, Fabio Fognini bateu Tommy Robredo por 6/2 e 6/4. Depois, Pablo Carreño Busta eliminou Feijão por 6/3 e 6/2. Por último, Alexandr Dolgopolov aumentou a fase ruim de David Ferrer ao aplicar 6/4 e 6/4.

Ferrer agora soma três derrotas consecutivas e um retrospecto total de três triunfos e cinco reveses em 2017. O espanhol, que chegou ao Rio falando que estava sendo difícil se acostumar a perder com mais frequência do que o habitual, acaba amargando mais um resultado negativo.

Dolgopolov, por sua vez, soma sua sexta vitória seguida. O ucraniano, campeão em Buenos Aires, bateu Tipsarevic, Cuevas, Gerald Melzer, Carreño Busta, Nishikori e Ferrer no período. Uma sequência invejável e que o coloca como sério candidato ao título no Rio, já que Dolgo não teve os mesmos problemas de adaptação que Nishikori – ou, pelo menos, não sofreu com a mesma intensidade.

Duplas: o melhor da quarta-feira

O terceiro dia do Rio Open não tem lá uma programação das melhores para a quadra central, mas compensa com uma empolgante Quadra 1, com brasileiros em todos os jogos. Além dos times de Bruno Soares e Marcelo Melo, que são cabeças de chave 1 e 2, Bellucci e Monteiro jogam juntos antes de seu duelo nas simples, e André Sá tenta deslanchar na temporada 2017.


AO, dia 1: Halep tomba, brasileiros caem, Federer vence no retorno
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Alexandre Cossenza

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Foi um primeiro dia interessante, considerando que nem sempre há tantos jogos bons nas primeiras rodadas de um torneio do Grand Slam. Pois o Australian Open de 2017 abriu com uma zebraça na Rod Laver Arena, viu três top 10 disputarem jogos de cinco sets e ainda teve a primeira vitória de Roger Federer em um torneio contando pontos para o ranking em mais de seis meses.

A rodada também teve as derrotas de Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro, Nick Kyrgios atropelando, Muguruza administrando uma lesão, e Almagro com uma desistência lamentável e uma explicação memorável. Quer ficar por dentro? É só rolar a página e ler o resumaço desta segunda-feira.

Os favoritos

Andy Murray estreou sem perder sets, mas com uma atuação que, em alguns momentos, ficou no limite entre a preguiça e a falta de inspiração. Cometeu 27 erros não forçados, saiu atrás no segundo set e só não se complicou mais porque o adversário, Illya Marchenko, #95, não era tão perigoso assim e não jogou tão bem assim (somou 62 erros não forçados). No fim, venceu por 7/5, 7/6(2) e 6/2.

A sessão noturna começou com Angelique Kerber caminhando para o que parecia uma vitória rotineira, mas a coisa começou a desandar quando a alemã sacou para o jogo, teve match point, mas perdeu o serviço. A ucraniana Lesia Tsurenko (#51) aproveitou o embalo, quebrou de novo e forçou um nervoso terceiro set. No começo da parcial decisiva, um ponto crucial e espetacular mudou o rumo do jogo. Kerber sacou com break point contra e tomou uma ótima devolução cruzada. A alemã não só alcançou a bolinha como acertou uma improvável paralela de fora pra dentro. Depois disso, venceu todos os games e fechou em 6/2, 5/7 e 6/2.

No último jogo do dia na Laver, Roger Federer tirou a ferrugem de seis meses sem jogar um evento que desse pontos para o ranking mundial. O suíço teve lá seus problemas diante do também veterano Jurgen Melzer, 35 anos. O austríaco teve quebras de vantagem no primeiro set e conseguiu uma virada impressionante no segundo antes que Federer tomasse de vez o controle da coisa.

O placar final mostrou 7/5, 3/6, 6/2 e 6/2, e o que aconteceu em quadra não foi tão animador assim para o suíço. Afinal, não foi o tênis “limpo” e afiado que os fãs gostariam de ver e, principalmente, que será necessário para sair com o título do Australian Open. Federer ainda tem vários ajustes a fazer e, não fossem os 19 aces desta segunda, a história com Melzer teria sido muito mais longa.

A zebra

Ela apareceu logo no primeiro jogo, bem na quadra central. Simona Halep, “a primeira da fila” dos sem Slam, mostrou um tênis muito pouco inspirado desde os primeiros games. Shelby Rogers, #52 do mundo, não tinha nada a ver com isso e entrou soltando o braço e agredindo. A romena não só jogou mal. Sentiu dores no joelho esquerdo. Pediu atendimento medico antes do segundo set. Não adiantou. E Halep, sejamos justos, também tomou decisões ruins em quadra. Como o swing volley que tentou diante de um break point no primeiro set. Jogou a bola na rede e selou sua sorte na parcial. No segundo set, com a rival claramente abatida, Rogers disparou no placar e fechou em 6/3 e 6/1.

Na chave, a consequência do resultado é deixar Svetlana Kuznetsova como a tenista mais bem ranqueada no segundo quadrante. A semifinalista sairá de um grupo que já perdeu três cabeças (Siegemund e Bertens também caíram) no primeiro dia. Restaram, além de Sveta, Svitolina, Venus, Pavlyuchenkova e Puig. Uma delas vai longe, mas quem se candidata a adivinhar quem?

Três top 10 e 15 sets

A chave masculina viu Kei Nishikori em um dia nada brilhante, precisando de cinco sets para despachar Andrey Kuznetsov: 5/7, 6/1, 6/4, 6/7(6) e 6/2. A arrancada final no quinto set só começou depois de um atendimento médico. Após a interrupção, Kuznetsov perdeu o serviço e não se recuperou mais.

O segundo top 10 a suar foi Marin Cilic. Depois de perder os dois primeiros sets para o polonês Jerzy Janowicz, o croata #7 do mundo dominou as parciais seguintes e fez 4/6, 4/6, 6/2, 6/2 e 6/3. Um resultado importante não só pela sobrevivência no torneio, mas porque Cilic havia perdido três de suas últimas quatro partidas decididas em um quinto set. Nesses três reveses, o croata saiu ganhando por 2 a 0.

Por fim, Stan Wawrinka tomou um grande susto diante de Martin Klizan, que teve quebras de vantagem em todos os cinco sets. O eslovaco inclusive sacou em 4/3 e 40/15 no quinto, mas perdeu o serviço e viu o suíço iniciar uma reação furiosa – que incluiu uma curiosa bolada em um ponto ganho.

Não houve briga, e Wawrinka arrancou para fechar a partida em 4/6, 6/4, 7/5, 4/6 e 6/4. E, no fim das contas, todos grandes nomes da chave masculina venceram no primeiro dia do torneio.

Outros candidatos

Ao mesmo tempo em que Halep sofria na Rod Laver Arena, Garbiñe Muguruza sentia dores na coxa (a mesma lesionada em Brisbane) na MCA. A espanhola, contudo, já havia vencido o primeiro set quando enfiou-se num buraco, perdendo a segunda parcial por 4/1 para Marina Erakovic. A favorita, no entanto, “voltou” a tempo e avançou por 7/5 e 6/4.

Nick Kyrgios trabalhou bem (e rápido) para apagar as dúvidas sobre sua condição física. O australiano, lembremos, jogou a Copa Hopman se queixando de dores. Nesta segunda, porém, atropelou o português Gastão Elias: 6/1, 6/2 e 6/2.

Os brasileiros

Thomaz Bellucci foi amplamente dominado por Bernard Tomic. O australiano foi mais consistente, se defendeu melhor, agrediu bastante o segundo serviço do brasileiro e avançou por 6/2, 6/1 e 6/4. A atuação de Bellucci foi tão infeliz que deixou a desejar até nos desafios. Falo mais sobre o #1 do Brasil no próximo post.

Mais tarde, Thiago Monteiro reencontrou Jo-Wilfried Tsonga e soube o gostinho de enfrentar o francês de verdade – não aquela versão desinteressada que esteve no Rio Open do ano passado. Em Melbourne, Tsonga fez 6/1, 6/3, 6/7(5) e 6/2. Monteiro fez um esforço louvável para esticar o jogo, mas o duelo não foi tão equilibrado assim. O francês controlou as ações a maior parte do tempo e manteve uma sequência interessante: desde 2007, não perde na primeira fase de um Slam.

O milionário

Nicolás Almagro ficou menos de meia hora vivo no torneio. Abandonou após perder quatro games, com 25 minutos de jogo. Jeremy Chardy avançou para a segunda rodada. Indagado na coletiva se tinha entrado em quadra só pelo prêmio em dinheiro, Almagro foi direto como sempre. Disse que não e que tem mais de US$ 10 milhões. Bem explicado, não?

Depois, o espanhol postou em sua conta no Twitter a mensagem acima, dizendo que entrou em quadra sentindo dores e que não disputará os próximos torneios porque seu filho está prestes a nascer.

Os forehands mais rápidos

O Australian Open colheu dados estatísticos em suas últimas edições, e o New York Times mostrou uma pequena parte disso. A reportagem mostra os forehands e backhands mais rápidos dos últimos cinco anos de torneio.

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A curiosidade é que Rafael Nadal tem o forehand mais rápido do circuito. Além disso, na média Madison Keys tem uma direita tão forte quanto a de Tomas Berdych e um backhand que só perde em velocidade para Na Li. Os detalhes de como os números foram colhidos estão aqui.

O envelhecimento do torneio

Na tarde deste domingo, graças a um RT do jornalista Mário Sérgio Cruz, do Tenisbrasil, cheguei ao gráfico abaixo, que mostra o “envelhecimento” do circuito. Em 1989, a idade média dos tenistas no Australian Open era de 24,02. Hoje, é de 27,93. Enquanto em 1989 só havia quatro tenistas com mais de 30 anos, a chave deste ano possui 46 tenistas acima dos 30 e dez atletas acima dos 35. É uma diferença muito grande.


Quadra 18: S03E01
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Alexandre Cossenza

Se tem Grand Slam, tem Quadra 18. O podcast de tênis mais popular do país começa sua terceira temporada analisando as chaves do Australian Open e fazendo aquele costumeiro exercício de imaginação sobre o que pode acontecer nas próximas duas semanas em Melbourne.

Do jeito descontraído de sempre, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu falamos de ATP, WTA, duplas e até damos dicas preciosas (é verdade!) de como passar madrugadas inteiras vendo tênis sem cair no sono. Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferia baixar para ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’13” – Cossenza apresenta os temas
1’23” – Quem é “o” favorito na chave masculina? Murray ou Djokovic?
3’02” – Djokovic e a chave mais fácil do que a de Murray
7’35” – O que esperar de Federer e Nadal?
8’13” – O esperado jogo-chave entre Nadal e Zverev na terceira rodada
9’21” – A expectativa por um Djokovic x Dimitrov
11’12” – A divertida seção com Fognini, Feliciano, Haas e Paire
12’42” – Troicki pode desafiar Wawrinka?
13’32” – A expectativa por Raonic x Dustin Brown e Cilic x Janowicz
14’25” – Quem ganha Bellucci x Tomic?
14’18” – Jo-Wilfried Tsonga x Thiago Monteiro e Rogerinho x Donaldson
16’33” – Palpites para azarão do torneio
18’28” – Palpites para decepção do torneio
20’17” – Down Under (Men at Work)
21’05” – A chave de Serena é tão difícil assim?
23’34” – A chave e a preocupante forma de Angelique Kerber
25’18” – A seção favorável de Garbiñe Muguruza
25’56” – Simona Halep, agora vai?
26’42” – E o que dizer de Venus Williams?
27’30” – Karolina Pliskova e a expectativa por seu primeiro Slam como top 5
30’24” – O caminho de Radwanska
31’15” – Palpites para campeã, zebra e decepção
33’35” – Cheap Thrills (Sia)
34’30” – Novos times e velhos favoritos no circuito de duplas
37’05” – O começo não tão animador de Melo e Kubot
39’28” – A nova parceria de André Sá e Leander Paes
40’07” – Serena começar devagar os Slams faz o jogo com a Bencic mais perigoso?
41’14” – Dimitrov chegou no momento “ou vai ou racha” da carreira?
42’25” – Qual dos topos se complicou mais na chave?
42’54” – As cotações das casas de apostas para a chave masculina
44’29” – Existe uma temperatura máxima para interromper os jogos em Melbourne?
45’25” – Qual a quadra mais legal para ver jogos no Melbourne Park?
48’40” – “Dormir é para os fracos?” e dicas para ver o torneio na madrugada


AO 2017: o guia da chave masculina
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Alexandre Cossenza

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E lá vamos nós de novo. Mais um torneio do Grand Slam. Un evento incomum pelas posições de Roger Federer (cabeça 17) e Rafael Nadal (9) na chave, mas um torneio com todos elementos comuns de um típico Australian Open. Novak Djokovic como favorito, Andy Murray cotadíssimo, duelos fortíssimos já na primeira rodada, expectativa de calor, etc. e tal. Vocês sabem o esquema.

As chaves foram sorteadas nesta sexta-feira, o que significa que é hora de analisar não só o momento de cada tenista, mas quais desafios ele vai encontrar pela frente e se suas chances de ir longe em Melbourne aumentaram ou diminuíram depois disso. É também a hora de olhar os azarões e começar a imaginar quem pode pegar todo mundo de surpresa nas próximas duas semanas. E é isso que tento fazer nas linhas abaixo. Role a página, fique por dentro e, depois, fique à vontade para deixar seus palpites nos comentários.

Os favoritos

Pra começar, há dois candidatos mais claros neste torneio. Novak Djokovic e Andy Murray. Nesta ordem, que leva em consideração a final de Doha, vencida pelo sérvio em cima do britânico. Sim, foi apenas um ATP 250, mas não dá para desconsiderar o peso psicológico de um jogo daqueles, brigado e com quase 3h de duração. Por isso, Nole sai na frente, pelo menos no papel.

A chave de Djokovic não é a mais fácil, mas não me parece complicada pelo “ponto de vista Djokovic”, ou seja, pelo estilo de jogo e pelo histórico de confrontos diretos dos adversários. “Ah, mas Nole não estreia contra Verdasco, que quase venceu em Doha?”, pode imaginar alguém. Sim, mas vai ser necessário um alinhamento de 38 planetas e 17 asteroides para aquilo acontecer de novo. Desde já, esse Djokovic x Verdasco da primeira rodada é meu grande favorito a “jogo cheio de expectativa que acaba dando sono”.

Depois disso, Djokovic pega Istomin/qualifier, possivelmente Carreño Busta na terceira rodada, Dimitrov/Gasquet nas oitavas e o vencedor da seção com Thiem, Feliciano, Karlovic e Goffin nas quartas. A maior casca de banana aí parece o confronto de oitavas, mas Djokovic venceu os últimos dez jogos contra Gasquet (perdeu só um set!) e bateu Dimitrov seis vezes em sete encontros. A única vitória do búlgaro aconteceu em 2013, no saibro de Madri. Não me parece lá um retrospecto tão animador para o azarão, embora precisemos levar em conta o recente ressurgimento de Dimitrov, que atropelou e foi campeão em Brisbane, batendo Thiem, Raonic e Nishikori em sequência.

Lembremos também que Djokovic tem em sua metade da chave Milos Raonic, o que é melhor do ter Stan Wawrinka na semifinal. Além disso, Federer também ficou na outra metade da chave, o que não deixa de ser bom para para o sérvio.

O sorteio não foi tão amigável com Andy Murray, embora não tire seu status de favorito na metade de cima da chave. Vários elementos podem jogar contra o número 1 do mundo em momentos diferentes, a começar por possíveis duelos com Querrey na terceira rodada e Isner/Pouille nas oitavas. Embora Murray seja um excelente devolvedor, não é difícil imaginar esses jogos em rodadas diurnas, com sol forte e bolinhas voando mais rápidas ainda, o que não é nada bom para o #1.

Além disso, Murray provavelmente vai precisar passar por Federer, Berdych ou Nishikori nas quartas. Berdych não seria o maior dos problemas, mas o japonês costuma causar problemas para o escocês. Além disso, se o suíço chegar às quartas, terá passado por Berdych e Nishikori e estará em excelente forma. Ou seja, o cenário não é dos mais animadores para Murray.

As “lendas”

Federer estreia contra um qualifier, pega outro qualifier na segunda rodada e deve encarar Tomas Berdych já na terceira fase. Considerando que o suíço chega a Melbourne como cabeça de chave 17, está longe de ser o pior dos cenários, mesmo com um eventual confronto com Kei Nishikori nas oitavas. O japonês, lembremos, sentiu dores no quadril em Brisbane e não se sabe se estará 100% para o início do Australian Open. Acredito que a forma física de Nishikori será chave. Caso o asiático consiga alongar uma partida com Federer, suas chances aumentam. Caso contrário, o suíço pode bem se encontrar na segunda semana diante de Andy Murray nas quartas.

Nadal, cabeça 9, também não teve um sorteio dos piores, mas seu caminho tem uma pedra grande: Alexander Zverev na terceira rodada. O adolescente alemão, contudo, ainda não tem uma vitória grande num Slam. Esse jogo pode muito bem determinar um semifinalista, já que o vencedor sairá com status de favorito pelo menos até as quartas de final, quando Milos Raonic, o cabeça 3, pode aparecer.

Os brasileiros

Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro vão estrear contra cabeças de chave, o que nunca é bom. O paulista vai encarar Bernard Tomic, o que não é desastroso. Afinal, entre todos cabeças que Bellucci poderia enfrentar, pegará um contra quem tem retrospecto favorável (2 a 1). É bem verdade que Tomic joga em casa, onde supostamente (favor colocar negrito mental e ler beeeeem devagar a palavra su-pos-ta-men-te!) não gostaria de dar (mais um) vexame. Mas também é inegável que tudo pode acontecer quando o australiano entra em quadra. Por outro lado, é bem possível que Tomic esteja pensando o mesmo de Bellucci: “tudo pode acontecer”.

Monteiro vai encarar Jo-Wilfried Tsonga. Sim, o mesmo Tsonga que ele derrotou no Rio Open do ano passado. Desta vez, na quadra dura, sem o insuportável calor carioca (onde todos tenistas dizem que é muito mais difícil jogar do que em Melbourne) e valendo por Grand Slam. É outro nível de importância. E Tsonga, às vezes vulnerável em torneios menores, não perde uma estreia em Slam desde 2007, quando ganhou um convite para o Australian Open e pegou Andy Roddick, então número 7 do mundo, na primeira rodada.

Rogerinho teve melhor sorte. Estreia contra Jared Donaldson, #101 do mundo. O americano vem de boa campanha em Brisbane, onde furou o quali, eliminou Gilles Muller na estreia e até venceu o primeiro set contra Nishikori na segunda rodada. O japonês acabou levando a melhor. De qualquer maneira, é melhor do que estrear logo contra um cabeça de chave. Se avançar, o paulista vai enfrentar o vencedor do jogo entre Gilles Simon e Michael Mmoh.

A grande ausência

Juan Martín Del Potro afirmou que não estaria pronto fisicamente já em janeiro e decidiu abortar o primeiro Slam da temporada. Ele também não quis (como nunca quis mesmo) jogar na temporada sul-americana de saibro e vai começar 2017 jogando em quadras duras. Resumindo? O argentino curtiu bem as férias (vide tweet abaixo) e não quis forçar seu corpo.

Os melhores jogos na primeira rodada

O que não falta é jogo bom e por um monte de motivos diferentes. Comecemos pelos cabeças de chave. Stan Wawrinka x Martin Klizan é o tipo de confronto em que o suíço precisa entrar firme. Um diazinho ruim de primeira rodada pode acabar com seu torneio, já que o eslovaco tem aqueles dias de bater forte em todas as bolas e acertar tudo. Vale ficar de olho. O mesmo perigo existe para Gael Monfils, que enfrenta Jiri Vesely, e para Marin Cilic, que duela com o “perturbado” Jerzy Janowicz. Só deus sabe o que sai da raquete do polonês.

Outro jogo intrigante é Dolgopolov x Coric, cujo vencedor encara Monfils ou Vesely, o que faz dessa seção a mais imprevisível do torneio. Falando em imprevisibilidade, já mencionei acima Bellucci x Tomic, mas cito também Youzhny x Baghdatis (dois malucos gente boa). Vale prestar atenção também em Haas (sim, Tommy Haas, AQUELE, que está de volta!) x Paire e Kyrgios (lesionado) x Elias porque não dá para descartar uma zebra do português aqui.

No quesito “fim provável, meio improvável”, recomendo acompanhar Raonic x Brown porque embora o canadense seja favoritíssimo, não dá pra perder os momentos de brilho do alemão. E, por fim, o confronto mais quente, com sangue latino, entre Fognini e Feliciano López. Até porque a coisa não acabou bem quando os dois se enfrentaram em Wimbledon no ano passado (vejam o vídeo acima).

O que mais pode acontecer de legal

De modo geral, as atenções vão mesmo continuar voltadas para o desenrolar das campanhas de Federer e Nadal e como elas vão afetar o andamento das chaves, mas algumas outras formações bem interessantes podem vir na segunda rodada ou nas seguintes, como um encontro entre Dominic Thiem e João Sousa. Outro jogo esperado mais para a frente é Gasquet x Dimitrov, que pode acontecer na terceira rodada. E também, meio escondido no meio disso tudo, imagino um interessante jogo entre Raonic e Taylor Fritz na segunda rodada.

Os tenistas mais perigosos que ninguém está olhando

A essa altura, todo mundo já está prestando atenção em quem jogou bem nas primeiras semanas. São os casos de Zverev, que bateu Federer na Copa Hopman, e de Dimitrov, campeão em Brisbane, por exemplo. Ainda assim, alguns nomes mereciam mais atenção. Acho que João Sousa é um deles. O português, #44, segue obtendo resultados acima do que normalmente se espera. Não me parece nada impossível imaginá-lo batendo Jordan Thompson e Dominic Thiem nas duas primeiras rodadas. Resta saber, porém, em que condições físicas Sousa chegará a Melbourne, já que ainda está em Auckland, onde disputa a final.

Outro tenista que eu gosto e que cedo ou tarde vai ser uma realidade em torneios maiores é Taylor Fritz, 19 anos e #91 do mundo. Tem um saque gigante, golpes potentes de fundo e uma movimentação até boa para seu 1,93m de altura. Ano passado, já conseguiu um punhado de resultados relevantes. Falta, claro, maturidade. E sua chave em Melbourne não é das piores. Ele enfrenta Gilles Muller, outro “sacador” na estreia e, se vencer, pega Milos Raonic, alguém com um jogo muito parecido com o seu. Existe uma janelinha para ele dar esse salto já neste Australian Open.

Onde ver

A ESPN transmite o Australian Open com exclusividade e em dois canais: ESPN e ESPN+. Fernando Meligeni e Fernando Nardini também tocam o Pelas Quadras, programa diário com convidados que aborda o que acontece no torneio e vai ao ar sempre às 21h (de Brasília).

Nas casas de apostas

Na casa virtual bet365, a lista de mais cotados tem, nesta ordem, Djokovic, Murray, Wawrinka, Nadal, Raonic, Federer, Nishikori, Kyrgios, Dimitrov e Cilic no top 10. Vale notar a distância entre as cotações de Murray (paga US$ 2,62 para cada dólar apostado), segundo favorito, e Wawrinka (13), o terceiro.

O guia feminino

Não vai dar tempo de publicar o guia para a chave feminina ainda hoje. Ele deve pintar aqui no blog amanhã (sábado). Até lá!


Tudo que você precisa saber sobre o Rio Open
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Alexandre Cossenza

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A organização do Rio Open promoveu, nesta quarta-feira, um encontro de jornalistas com o diretor do torneio, Lui Carvalho, para um bate-papo durante um café da manhã em um hotel na zona sul da cidade. Como já aconteceu no ano passado, a conversa é bastante interessante, com o diretor dando uma espécie de tour pelos bastidores das negociações com jogadores e falando sobre o que a organização espera para o futuro do ATP 500 carioca.

Entre os destaques do dia, Lui falou: das conversas com Del Potro, Murray, Djokovic, Nadal, Wawrinka, Berdych, Dimitrov, Monfils, Dustin Brown e outros; dos planos para transformar o Rio Open em um torneio de quadra dura; do desejo de fazer o evento no Parque Olímpico; da exclusão e da falta de interesse pelo torneio feminino; das vendas de ingressos; e de uma grande expectativa em relação a Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro. A declaração sobre Bellucci, em especial, é interessantíssima!

Selecionei os trechos que achei mais importantes e listei abaixo, com comentários meus e, em itálico, frases de Lui Carvalho. A lista com os tenistas inscritos está no fim do post.

Negociações com tenistas

Juan Martín Del Potro

“Um dos atletas que a gente esteve muito perto de conseguir foi o Del Potro. Ele fez a virada da carreira dele nos Jogos Olímpicos, no Rio, e a gente tinha toda a história montada para ele. Voltando de lesão, jogando no Rio, público apoiando, o único atleta argentino que não é vaiado no Brasil e ele tem essa conexão com o Brasil, mas infelizmente o fator piso pesou. Ele não quis jogar no saibro nessa época do ano, mesmo por valor nenhum. A gente estava pensando em fazer uma proposta conjunta Buenos Aires-Rio, mas infelizmente ele optou por jogar, se não me engano, Delray Beach e Acapulco. Não foi uma questão nem de dinheiro nem de vontade. Foi uma questão de preferência de piso.”

Gael Monfils

“É um namoro antigo nosso, até pela relação que a gente tinha com a nossa última fornecedora de material esportivo [Asics]. Monfils foi o primeiro atleta com quem a gente chegou a conversar, logo depois do Rio Open 2016. Já estava rolando bastante conversa, bastante troca de email para ver se a gente conseguia chegar num acordo, mas ele optou por um calendário diferente. Não tanto pelo piso, mas mais pelo calendário de não ter que voltar da Austrália para a América do Sul e ir direto para os Estados Unidos. Ele preferiu ficar em casa e jogar, se não me engano, Roterdã e Dubai.”

Janko Tipsarevic

“A gente estava esperando fechar a lista. É um ex-top 10, a gente acha um nome muito interessante para o torneio. É um cara divertidíssimo, ele é muito doido. E é um cara inteligentíssimo. Ele realmente pediu [um wild card], e a gente vai começar a ver os wild cards agora.”

Good first week…💪😈💪 @tipsarevictennisacademy #bangkok #keepgrinding #keeppushing #keepdigging

A photo posted by Janko Tipsarevic (@tipsarevicjanko) on

Grigor Dimitrov e Tomas Berdych

“A gente ficou meio nesse jogo de xadrez entre Nishikori e Thiem e Berdych e Dimitrov. Então a gente ficou meio jogando esse joguinho. Quem desses quatro a gente consegue trazer? É um tremendo jogo de xadrez.”

A forte concorrência de Dubai, Roterdã e Acapulco

“A gente disputa os atletas com Dubai, Roterdã e Acapulco, os ATPs 500 dessa época. Se o atleta joga Dubai, ele não joga Rio. Se ele joga Acapulco, é mais possível que ele jogue Rio. A gente fica muito na região. Nós e Acapulco coordenando aqui, Dubai e Roterdã de lá. Dubai está completando 25 anos, então o sheik está vindo com um A380 de dinheiro da Emirates. Acapulco, de um ano para o outro, decidiu investir um caminhão de dinheiro. A gente não sabe da onde está vindo tanto dinheiro também. E Roterdã está tentando consertar o que aconteceu em 2016. Não teve nenhum top 10. (…) Não pegou muito bem com público, patrocinador, ficou uma situação um pouco delicada.”

Outros nomes

“A gente falou com Zverev, Coric, Wawrinka, Murray, Djokovic… A gente chegou a conversar com todos top 10.”

Mudança de piso

“O que a gente está tentando mostrar [para a ATP] é que a competição agora é desleal. Nadal, que é um jogador de saibro, escolher Roterdã e fazer um calendário Roterdã-Acapulco… Os jogadores já não têm argumento para manter o [Rio Open] no saibro porque o carro-chefe deles já está botando a bandeirinha branca e dizendo ‘quero jogar na dura’. É uma politicagem de torneios tentando entrar num acordo do que faria sentido no calendário. (…) Hoje em dia, os jogadores querem mudar pouquíssimo de piso. O que a gente gostaria é de uma oportunidade para testar o Rio Open na [quadra] dura. E é isso que a gente está pedindo para a ATP.”

Calendário pós-2018

Até 2018, a ATP é obrigada a manter a estrutura atual de torneios, com Masters 1000, ATPs 5000 e ATPs 250. Juridicamente, a entidade pode mudar tudo a partir de 2019. Embora alterações radicais não sejam prováveis, é bem possível que o calendário sofra alterações e um aumento no número de datas. A intenção da ATP é decidir tudo isso até o fim deste ano.

“Existem milhares de discussões acontecendo. Por exemplo, a ATP e os diretores de torneio fizeram um trabalho conjunto para diminuir o calendário. O que aconteceu? Entrou a IPTL. Foi inteligente da nossa parte? Não. Foi a maior burrice que a gente fez. A gente deveria ter deixado o calendário com 52 semanas, assim não entra ninguém. Os jogadores fizeram um movimento ‘não quero jogar, quero ter offseason’. A gente ‘tá bom, então vamos diminuir o calendário’. Prejudicou um monte de torneio. E o que os jogadores fazem? Começam a jogar exibição na offseason. Sacanagem, né? Quem faz os jogadores são os torneios! Só existe o Federer, o Nadal porque existe um circuito que faz eles virarem estrelas. Aí eles viram estrelas e viram as coisas pra gente e vão jogar um circuito que não tem nada a ver com a gente? Realmente, é uma discussão que a gente tem em todas as reuniões.”

Desejo de jogar no Parque Olímpico

“A gente tem o desejo de jogar no Parque Olímpico um dia, mas isso não é uma decisão nossa. Depende de uma série de fatores. Depende de quem vai administrar o local, de como vai ser essa negociação, em que condições que a gente vai pra lá… A gente quer deixar isso bem explicado. Nosso evento é no saibro. A gente não conseguiu aprovação pra mudar de piso. A gente tentou e não conseguiu. Não teria tempo hábil pra mudar de dura pra saibro. Para 2018, a gente está tentando ver como pode fazer isso ser possível.”

Interesse no torneio feminino e valores dos ingressos

Com relação a esse assunto, argumentei com Lui Carvalho que não seria justo dizer que o torneio está cobrando o mesmo pelos ingressos de segunda a quinta, já que ano passado o Rio Open tinha um torneio feminino e, logo, o dobro do número de partida. Este ano, o preço é o mesmo, mas só para jogos masculinos. Ele respondeu argumentando que o interesse era mínimo para a chave feminina.

“Você tem a metade de partidas para ver, mas a gente foca no conteúdo, né? Não vou conseguir concordar com você. Se você fizer uma enquete com as pessoas, quantas compraram pra assistir a um jogo do feminino? Quando a gente toma a decisão de tirar o feminino, foi a primeira coisa que a gente falou: ‘a gente vai perder conteúdo?’ A gente fez uma enquete com várias pessoas. O nível do evento já começa muito diferente. Vamos imaginar que fosse um WTA International que tivesse uma Radwanska de cabeça 1 – eu sei que você adora a Radwanska. O nível já começa diferente. Com a data contra Doha e Dubai, o gap ficava ainda maior. A gente teve muita sorte de as brasileiras fazerem boas campanhas nos três anos. (…) Quantas pessoas compraram ingresso para ver a Schiavone? Não sei, mas você concorda comigo que as pessoas compraram ingresso para ver o Nadal, o Tsonga, o Isner? Até acho que quando a gente anunciou a Bouchard, a Madison, não mexe no ponteiro. Não mexe mesmo.”

Venda de ingressos

Até esta quarta, o Rio Open tinha vendido cerca de 60% dos ingressos e ainda havia bilhetes para todas sessões. Segundo Lui Carvalho, a final no domingo de Carnaval não atrapalha a venda. O torneio, aliás, vende pacotes de tênis+carnaval por meio da Faberg, agência parceira. Os ingressos estão à venda aqui.

Expectativa por uma boa campanha de Bellucci e Monteiro

Aqui, é interessante lembrar que Lui Carvalho não fala só como diretor do Rio Open, mas como manager da carreira de Thomaz Bellucci. A relação deles é de longa data e vem desde quando a carreira do tenista era gerida pela Koch Tavares. Lui, então funcionário da Koch, já era o responsável por administrar tudo relacionado a Bellucci.

“Acho que está na hora de o Bellucci e o Thiago fazerem alguma coisa especial no Rio Open. Tá na hora! Eles precisam, sabe? Bellucci precisa meter uma semi num ATP 500 no Brasil. Eles precisam disso. Isso vai ajudar o nosso esporte. Esses caras precisam botar o coração na quadra e dizer ‘eu vou fazer o que o Guga fez’. O Guga levou o tênis nas costas durante seis, sete, oito anos. Eles precisam fazer isso. A gente precisa disso. Estou apostando nisso.”

“Minha conversa com o Thomaz no fim de 2016 foi essa. ‘Você tem 30 anos de idade, entendeu? Ou você vai ou você vai. Não quero que você chegue no final da carreira Rubinho Barrichello. É a única coisa que não quero. Quero que você chegue Felipe Massa. Comoveu a galera. O Thomaz está numa fase que casou, está mais responsável, está numa fase boa pessoal. Ele precisa botar isso dentro de quadra.”

“Acho que os jogadores não entendem a responsabilidade deles dentro do esporte. Acho que eles olham muito a conta bancária deles e ‘ah, tá pingando’ e não entendem que o que eles fazem dentro de quadra move milhões de pessoas. Eles precisam ter mais essa consciência. É muito mais do que a vida deles, do que o patch da manga.”

Lista de participantes


Bia Haddad: sobre meditação, expectativas, contas a pagar e amor no tênis
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Alexandre Cossenza

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“Se eu estivesse ganhando jogo, você saberia.” Foi assim, direto, mas sem mágoa, que Bia Haddad reagiu quando lhe disse não saber que ela morava no Rio de Janeiro há um ano. E a paulista foi assim a conversa inteira, que durou 30 minutos marcados no relógio. Direta, sem fugir de respostas e dando opiniões.

O papo era sobre 201/6/17, mas falamos de muito mais do que tênis. O esporte serviu de ponte para abordarmos educação, ioga, finanças e um bocado de outros temas. Bia falou sobre como quer jogar em 2017 – agressiva, mas se movimentando melhor em quadra -, mas também comentou o quão duro é chegar de uma viagem vitoriosa com dois patrocinadores a menos (Correios e Asics).

A paulista de 20 anos, atual #172 do mundo e #2 do Brasil, também falou do trabalho de meditação que faz no dia a dia, do que acha sobre quem larga o colégio cedo para jogar tênis, de aprender a controlar expectativas e do momento do tênis feminino. E falou bastante, sem titubear.

Bia só ficou sem jeito quando comentou – a meu pedido – o namoro com Thiago Monteiro. Procurou palavras, mudou frases, ficou com o resto vermelho. Mas quando começou a falar – e Bia gosta de falar! – mostrou todo orgulho que sente pelo namorado e sua ética de treinos.

Sim, a entrevista é grande (se você é leitor do Saque e Voleio, sabe como as coisas funcionam por aqui), mas é um papo delicioso que vai te fazer conhecer e entender melhor a menina que há muitos anos é vista como maior esperança do tênis feminino no Brasil. Role a página e curta.

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Em 2015, você terminou a temporada como 198 do mundo. Hoje, você é 172. Você usa ranking como parâmetro para dizer se um ano foi positivo, mesmo considerando que ficou seis meses sem jogar no ano passado?

Em 2015, eu terminei sem jogar sete meses, então não dá pra comparar um ano com o outro. O principal foi que neste ano eu tive mudanças. Em 2015, eu ainda morava em Balneário Camboriú. Este ano, vim treinar na Tennis Route, que é um centro de treinamento super diferenciado no Brasil. Estou aprendendo coisas novas aqui, então essas 20 posições aí que eu ganhei não têm nada a ver com ser melhor ou pior. Este ano foi um ano de mudanças, de consolidação de algumas coisas. Técnica, física, mental, alimentação… Mudei várias coisas. Não estava preocupada com resultado em nenhum momento. Tirando essa última gira, não foi um ano de muitas vitórias, mas foi um ano que consegui colher um pouco do que eu trabalhei durante o ano todo agora, no final dessa gira.

Você vem viajando com quem?

Essa última gira eu fiz com o Paulo [Santos], fisioterapeuta, e vou para a Austrália e Shenzhen com ele, mas aqui na Tennis Route eles têm toda a equipe. O João [Zwetsch] e o Duda [Matos] são os coordenadores e tenho alguns treinadores para o dia a dia, mas para viajar, por enquanto estou viajando com o Paulo.

Mas no balanço, você considera um ano positivo, então?

Muito positivo! Independente de resultado, de eu não ter alcançado meu melhor ranking, foi um ano em que eu evoluí muito. Eu me solidifiquei pra entrar em 2017. Isso foi o principal.

Qual foi o melhor momento do ano? O fim mesmo?

Acho que agora (risos de ambos). Essa gira… Essa gira foi essencial pra mim porque o Paulo pôde estar do meu lado, e a gente fez um trabalho mental show que fez muita diferença. Eu também voltei a jogar feliz, mais tranquila. Me apeguei bem às minhas rotinas tanto dentro quanto fora da quadra e foi um ano que eu dei meu melhor. Puxa, saí desse ano sabendo que dei meu melhor em TODOS dias, independente de estar perdendo ou ganhando. Fiz o que eu podia fazer, então estou satisfeita.

Você falou em “mental” e “rotina”. Em março, você já estava fazendo meditação todo dia. Como isso chegou até você? Você procurou alguém, alguém te procurou, como foi?

Na primeira vez que eu tive contato mesmo, eu treinava no Larri [Passos], e ele sempre falou. A mulher dele praticava ioga, e ele sempre falava que pra mim ia ser muito bom fora da quadra. Eu tinha uma professora lá em Balneário que me ajudava duas, três vezes por semana, mas nunca foi uma rotina que… Eu fazia ali como se fosse uma aula de pilates. Fazia uma aula de exercícios também e, quando viajava, muitas vezes eu deixava de fazer. Aqui na Tennis Route, eu voltei a praticar diariamente. Todo dia antes do café da manhã eu faço. São as minhas rotinas. Tem algumas mentalizações, algumas respirações antes do café do manhã, pra começar do dia bem, e antes de dormir, à noite. São momentos do dia que a gente dá para a gente mesmo. Tem gente que se sente bem com outras coisas, mas me apeguei a isso e estou gostando.

Você faz visualização do tipo antes do jogo, de pensar “minha direita tem que estar assim”, minha esquerda…

(interrompendo) Não, não. Na verdade, não é só para o tênis isso. É pra minha vida, tanto que fora da quadra, até atitudes eu estou tendo diferentes. É mais para eu conseguir mais viver o presente e saber que eu estou fazendo o meu melhor. E não é só jogando tênis. É cumprimentando uma pessoa, é no estresse do dia a dia, então influencia muitas coisas.

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Você lê alguma coisa sobre zen-budismo? Porque você está me dizendo coisas que eu li em livros desse tipo…

Não, mas eu cheguei a ler uns livros do [guru indiano Paramahansa] Yogananda. Tem muita relação com isso, né? E eu aprendo muito com o João Zwetsch. Ele me ensina muita coisa. Nas poucas gente que a gente conversa, o papo dura bastante. Os dois gostam de falar (risos). No fundo, tem gente que se apega a religião, tem gente que se apega a ioga, meditação, e tem gente que se apega a outras coisas, sei lá. Todo dia de manhã vai lá na praia e volta. Às vezes, aquilo ali coloca a pessoa bem. Então é muito relativo. Pra mim, isso encaixou e independente de ser ioga ou não, eu estou me sentindo bem. Isso é o que vale.

Você já leu um livro do Phil Jackson, aquele que foi técnico do Chicago Bulls do Michael Jordan? Não sei se você curte esse tipo de livro… Um livro chamado Cestas Sagradas…

Não, não. Achei que você estava falando daquele Jogando Para Vencer.

Não.

Esse é muito bom!

De quem é?

John Wooden, um treinador da NCAA. Ele foi dez vezes campeão da liga. É muito bom, muito bom.

Mas nesse livro do Phil Jackson, ele conta que distribuía livros aos jogadores quando tinha uma sequência de jogos fora de casa. Cada livro tinha alguma mensagem que normalmente tinha relação com o papel que o Phil Jackson queria que o jogador fizesse no time. E um desses livros era de um mestre japonês chamado Shunryu Suziki. O livro chama Zen Mind, Beginner’s Mind. E era sobre você aprender ou reaprender a ver as coisas do dia a dia como se fosse criança, como se tudo fosse novidade. Para você não se deixar cair na banalidade do dia a dia, sabe?

É, não criar expectativa! Tem muita gente que espera algumas coisas que não tem que esperar. Tipo assim: se eu ficar esperando ganhar um torneio, eu não vou ganhar. Eu tenho que ir lá, sacar, fazer meu forehand porque ali eu tenho chance de ganhar o ponto pra ter chance de ganhar o game pra ter chance de ganhar o set porque a outra também está fazendo a mesma coisa! O tênis, cara, é muito difícil. Todo mundo hoje está bem fisicamente e mentalmente, e a cabeça comanda, no fundo, né? Tem que estar muito tranquila porque você já tem a bola, a rede e a linha contra você. Tem o outro jogador, tem a torcida… Se você se martirizar toda hora, você está ferrado.

Você falou em “esperar”. Ainda te incomoda as pessoas esperarem tanto de você?

Cara, pra mim não muda nada. Se falarem que eu vou ser boa, que eu saco bem, que eu bato bem… O que eu tenho que fazer é entrar na quadra, dar o meu melhor e acabou. Achar não resolve nada. Pô, eu acho que, sei lá, o Thomaz pode ser número 1 do mundo…

(interrompendo) Mas esperar é pior, né? É mais forte!

É, esperar. Você espera que eu seja número 1 do mundo… É a cultura do brasileiro. Eles são carentes de ídolo, né? Então se não for o Guga, não está bom. Olha o Thomaz. Desculpa a palavra, mas o Thomaz joga pra caralho! Ele joga muito tênis, é um cara que para mim pode estar entre os 20 do mundo tranquilamente. Ele tem cabeça boa, mas é aquilo… Os caras contra quem ele joga… As pessoas não têm noção. Quem fala isso, não tem noção da realidade. É muito mais duro. É muito treino, é muita força de vontade e dedicação pra você ter uma chance. Para você ter chance! Nada está garantido.

Isso vem um pouco porque muita gente não tem noção mesmo da profundidade do tênis, né? O tamanho do buraco…

É muita coisa que influencia. É muita coisa em volta que as pessoas não veem. Como chegar e dizer “é só jogar a bola aqui que a Bia erra”. Pô, você sabe quantas bolas eu treino pra falar isso? Você acha que eu não sei que tenho que melhorar minha movimentação? Sabe quantas vezes por dia eu corro na quadra pra melhorar minha movimentação? Só que eu tenho “dois metros”, você quer que eu faça o quê?

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Você tem quanto de altura mesmo?

1,85m. E querem que eu me mexa que nem a Halep. Não, mas eu vou! Pra mim… Eu quero ser a mulher mais alta que se movimenta melhor. Porque você vê a Kerber, a Halep, a Azarenka, as mulheres correm hoje.

Eu tinha perguntado lá no começo sobre seu melhor momento do ano. E o pior, qual foi?

Pior momento? (pensativa)

Teve um pior momento?

Cara, não tive um pior momento. Acho que todos momentos foram especiais.

Fed Cup, talvez? Ficou com um gosto amargo porque era um confronto ganhável [o Brasil perdeu da Argentina por 2 a 1]?

Não, não. A menina jogou muito, a Nadia [Podoroska]. Eu tinha ganhado dela na semana anterior, tinha feito duas semis seguidas, estava cansada, e a menina foi superior. Mérito total da Argentina.

E a Olimpíada, como você viveu? Tanto a parte de não jogar quanto a de ver os Jogos Olímpicos na cidade…

Ah, eu curti. Estava aqui, fui lá. Vi basquete, vi handball, tênis de mesa, achei demais! Tênis de mesa foi o mais legal de ver, o handball do Brasil foi show, os meninos estavam jogando muito bem, uma equipe unida. Acho que todos estádios onde o Brasil estava jogando, a energia estava sensacional. Não esperava que fosse repercutir tão bem. A abertura foi linda, o encerramento foi maravilhoso. Lá fora todo mundo dizia que era no Rio, “tem tiro, vou morrer”…Foi demais. A gente mostrou para o mundo que Brasil é tão ou mais capaz do que outros países de fazer qualquer coisa. Foi sensacional.

Do tênis, você viu alguma coisa?

Na TV só. Eu tentei ir um dia, mas não tinha como pegar ingresso…

A CBT não tinha ingresso pra dar?

Não, não [foi isso]. Até tinha algumas opções, mas coincidia porque eu tinha treino. Acho que eu podia ir na final ou um dia, mas não coincidiu os horários, por isso eu fui nos outros esportes. Mas só de estar todo mundo aqui do lado de casa, achei demais.

Avançando… você terminou com ano com dez vitórias seguidas e dois títulos em ITFs de US$ 50 mil. Aí volta pra casa, acaba o contrato com os Correios, e a Asics está saindo do tênis. Bate um desânimo?

Está sendo um momento delicado para todos. Eu sei porque para o Thiago [Monteiro] também sei que está difícil. Para o Thomaz também está difícil. Para todos está difícil. Hoje, assim, estou muito tranquila no que eu tenho que fazer, que é jogar e seguir nessa pegada. O que vai acontecer fora da quadra vai depender do meu dia a dia e de como eu for este ano [2017]. Não esquento com esse negócio de patrocínio e dinheiro porque se você ficar jogando pelo dinheiro, “putz, não vou pagar minha conta”, não [dá certo].

Com o que você tem de patrocínio e com a IMG, você consegue jogar tranquila o ano, no calendário que você quer?

Não, não. Não, vou te falar que, pô, terminei com dez jogos invictos, número 1 do Brasil até agora [Bia estava à frente de Paula Gonçalves no dia da conversa], e começar o ano sem saber como vai começar é muito difícil. Hoje, para você, por exemplo, pagar um treinador, um centro de treinamento, para ter uma viagem e pagar alimentação sua e do seu treinador, hotel do treinador, transporte… Às vezes tem que trocar uma passagem, tem que treinar aqui, ali… É muita coisa que envolve. É muito caro, e vou te falar que o momento está duro para o Brasil. Eu estou no meu melhor momento do ano, e a gente está tentando achar alguma coisa porque… Eu tento não me preocupar com isso, mas sei o quanto é importante. Sei que vou conseguir resolver meus problemas dentro da quadra.

Nesse calendário que você montou, começa no WTA Shenzhen, onde você ganhou convite…

Aí tem Austrália, Fed [Cup], [ITF de] Surprise, [ITF de] Santa Fe e [WTA de] Acapulco.

Isso já está fechado, dá pra fazer com tudo pago?

Não, hotel e passagem ainda não comprei, mas é o plano A. Aí tudo depende. É claro… Se você toma cinco primeiras rodadas, aí você vai pra Challenger. Você ganha um WTA, muda. Tudo depende de como você estiver indo, mas a ideia é essa.

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E você estabeleceu uma meta pra 2017?

Na Tennis Route, eu tenho meta de estudo, meta de tênis e meta minha comigo. Essas três. A minha comigo é terminar bem fisicamente. Graças a deus entrei numa linha que não estou mais me lesionando, não existe mais cãibra, essas coisas. já passei por isso e já estou muito bem de cabeça. A gente está trabalhando coisas muito específicas do meu jogo, então quero começar na quadra, independente de ganhar ou de perder, começar a colocar o que eu venho fazendo no treino dentro do jogo.

O quê, especificamente?

Ah, eu acho que o tênis hoje está muito agressivo. É buscar mais a rede. As meninas estão cortando o tempo, usando muitas paralelas. O tênis está renovando toda hora. As meninas acabaram emagrecendo e isso, você correr mum rali, jogar em pontos longos, ter a possibilidade de, num ponto importante, a menina dar um drop shot, e você chegar na bola… Minha maior arma sempre foi meu saque e minha força, só que eu posso treinar para ser sólida que nem a Kerber? Por que eu não posso fazer isso? Então emagreci para tentar estar rápida. Tem muita coisa que envolve. Eu sou grande, sou canhota, tenho que jogar agressiva, mas tenho que buscar onde melhorar. Ficar mais magra já está me ajudando muito. Você se sentir bem, saber que ganhou o ponto sem usar tua maior arma, isso é demais! É muito legal.

E isso passa a confiança para o resto. Em qualquer jogo que estiver pau a pau, se você ganha dois ralis realmente longos, isso muda muito a balança do jogo porque mexe com a cabeça da outra…

E mulher oscila. A gente oscila muito, né? Você vê direto jogo de 4/0 ficando 4/4 e aí uma faz 6/0, a outra faz 6/1…

O saque tem um peso menor também, né?

Aí eu acho que já tenho mais vantagem porque sou uma menina alta e saco pra ganhar o ponto no saque. Isso é bom, mas ao mesmo tempo eu tenho que treinar mais a minha devolução. Cada uma tem suas especificidades. Mas a minha meta é isso aí. Em relação a ganhar jogo, cara, se eu fizer meu melhor e ganhar ou perder, já está bom.

A meta de estudo como é?

E faço administração na Estácio. Tenho as minhas notas, minhas médias, então minha meta é sempre estar bem. Sempre fui bem no colégio, nunca tive problema, e sempre quis manter isso. Até o Thiago faz o mesmo curso que eu, e a gente faz as mesmas provas. Essa semana, a gente tem quatro provas. A gente tem a pré-temporada também, mas dá tranquilo porque tem muito tempo de viagem, aeroporto, onde dá tempo de estudar. Estou curtindo, terminando o segundo ano.

Você sempre estudou em colégio com aula presencial?

Eu fui até o último ano. Eu fiz o terceiro ano [do ensino médio] à distância porque deu um problema com o colégio, e eu tive que fazer à distância.

Eu imagino que seja complicado isso…

Você indo pra aula, já perde meio período de treino, mas acho que nessa idade é importante ir pra aula. Tem gente que é louco, larga o colégio na sétima, oitava série. Pra mim, isso é totalmente loucura. Largar o colégio, jamais! Acho que a pessoa que faz até o terceiro ano pode tranquilamente jogar tênis. Eu hoje faço faculdade e jogo tênis. E hoje tem ensino à distância, que facilita muito. Eu sei de outros atletas que fazem, não é só tenista. Porque não é um país de cultura do esporte. Não é que nem nos EUA, onde o cara vai para o college. E no college também não sei se dá pra você ser profissional. É duro, você tem que ver o que é melhor pra você e suas prioridades. Se você tem a prioridade de estudo, talvez treinar meio período não é ruim. Se sua prioridade é ser um bom jogador, um profissional, então às vezes tem que abrir mão de outras coisas. Mas tão cedo não é necessário.

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Agora vem cá… Foi um grande agito em fóruns – não sei se você costuma ler isso – quando se soube que você e o Thiago [Monteiro] estavam namorando. Como é namorar tenista?

A gente é muito parecido, assim. É… (pensando) A gente é muito tranquilo, não é de sair muito…

Vocês se conhecem desde Camboriú, né?

É, a gente é muito amigo desde muito tempo. A gente viajava junto, né? Acho que teve uma viagem que eu fiz que eu tinha 11 anos, ele tinha 13, pra jogar um Sul-Americano de 14 na Venezuela. A gente nunca imaginou que fosse namorar! A vida é muito louca, né? Mas o importante é que ele me ajuda, eu ajudo ele. A gente tem noção que o tênis na nossa vida é o nosso trabalho, é o mais importante no momento. A gente tem uma vida em que se vê muito pouco também porque quando um está viajando, o outro volta. Ele está aqui no Rio, eu tô na China. Aí eu volto, ele está não sei onde, é duro. Mas o mais importante é que a gente está bem, está tranquilo.

Ele estava com você nessa última viagem, não?

Ele estava, ele estava.

E como é ganhar um torneio com o namorado ali do lado?

Ah… (envergonhada)

Você ficou vermelha agora… Por que você tá com vergonha?

É que a gente sempre foi muito amigo, então…

Vocês namoram há quanto tempo? Começou este ano?

É… (pensativa) Não (envergonhada)

Tá bom, não precisa dizer (risos de ambos).

Mas é que a gente começou muito como amigo. É muito louco porque no começo a gente sempre… Como a gente conviveu muito como colega de treino… É recente que a gente começou a namorar, então…

Muda uma chave em algum lugar, né?

É! É muito louco (risos de ambos). Porque eu… Pra mim… Quando eu estou com ele aqui, a gente treina junto. Não tem essa de “você é meu namorado, senta aqui comigo”. Não! Estamos no treino. A gente é muito à vontade, se ajuda. Ele é muito tranquilo, eu sou muito tranquila. A gente não briga por nada. A gente só se apoia. Então… A gente se gosta, é o mais importante (risos).

E como você viu este ano dele?

Ah, foi demais. Vou te falar que para mim o diferencial dele não é este ano. As pessoas olham porque ele ganhou do Tsonga, ganhou do Almagro, mas quem conhecia a pessoa que ele é, de onde ele veio… Cara, a humildade dele! Ser um menino que sempre quer o bem de todo mundo e, dentro da quadra, que é o mais importante, ele dá o melhor dele. Você vê ele treinando, você fica preso naquilo ali. Ele é um menino muito diferente, independente dos resultados. Ele lesionou ano passado, faz um ano dessa lesão, e ele aprendeu muito com isso. Ali, ele tomou um tempo e aprendeu algumas coisas que fizeram total diferença para este ano. Ele sempre teve um sonho e tenho certeza que só está começando a carreira dele. Ele merece. É um ano muito especial.

Verdade.

É que eu vejo muito mais a pessoa dele. Todo mundo vê ele na TV e fala “nossa, ele joga muito”, “é o próximo Guga”, mas eu vejo a pessoa dele, vejo que o tênis dele é… Você vê que é um menino que treina muito. Eu vejo muito mais por esse lado, da personalidade, do trabalho duro dele, que é muito mais do que só ter ganho aqui ou ali. Os resultados não vêm por acaso.


Quadra 18: S02E13
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Alexandre Cossenza

Teve muito tênis na Ásia, mas também teve muita polêmica e assunto quente nos últimos dias. Primeiro, com a redução da pena por doping de Maria Sharapova e a consequente “briga de textões” entre a russa, a ITF e o empresário Max Eisenbud. Depois, com a notícia de que a Justiça Federal vai investigar Jorge Lacerda, presidente da CBT, e Dacio Campos, comentarista do SporTV. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu relatamos os fatos e damos nossas opiniões sobre o caso Maria e o cenário nebuloso do tênis brasileiro.

Mas este episódio do podcast é um pouco diferente. Aproveitando a presença de vários atletas do país no Challenger de Campinas e contando com participações mais do que especiais de Marcelo Melo (direto de Pequim) e Bruno Soares (direto de Tóquio), desvendamos as preferências dos tenistas no mundo pop. Música seriados, filmes e tudo mais. Para descobrir quem ouve Wesley Safadão e quem já fez maratona de Supernatural, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’20” – Sheila apresenta os temas, Aliny e Cossenza se apresentam
3’10” – O resumo do caso Sharapova e a redução de sua suspensão
3’55” – A resposta agressiva de Sharapova e a “tréplica” da ITF
6’00” – A decisão da Corte Arbitral do Esporte surpreendeu?
08’00” – O quanto a postura de Sharapova tem do elemento marketing?
08’45” – O quanto a imagem de Sharapova ficou prejudicada no circuito?
09’15” – A turnê de entrevistas mudou a opinião da maioria sobre o caso?
10’50” – Como o caso Lepchenko joga contra a justificativa de Sharapova
12’14” – “Faltou um pouquinho de humildade para a Maria”
14’22” – “O discurso da Sharapova é rancoroso e beira o mimado”
16’20” – A pior consequência desse caso de doping para Sharapova
17’40” – O resumo do caso envolvendo a denúncia do MP contra Jorge Lacerda
20’50” – As explicações de Lacerda, Dacio Campos e Ricardo Marzola
23’30” – O quanto o caso prejudica o tênis brasileiro
25’30” – The Currents (Bastille)
26’03” – Sheila introduz o bloco POP do podcast
26’21” – Marcelo Melo manda recado e fala sobre suas preferências
30’07” – “O Marcelo é a minha mãe”
32’47” – Bruno Soares fala de Ed Sheeran, Ben Affleck e Skank
37’50 – Thiago Monteiro cita Safadão, John Mayer, Breaking Bad e DiCaprio
40’45” – “Qual o filme preferido do DiCaprio de vocês?”
44’05” – Comentários aleatórios sobre Wesley Safadão
45’23” – Rogerinho fala de futebol no videogame, Rappa, cavaquinho e violão
48’05” – Prioridades: respondemos se Rogerinho joga FIFA ou PES
52’21” – Felipe Meligeni Alves fala de funk, Prison Break e filmes de terror
54’50” – “Assustador como o Felipe lembra o Fino”
56’11” – Zormann fala sobre Supernatural, Sherlock e Batman vs Super-Homem
58’53” – “Qual o filme do Batman preferido de vocês?”
61’17” – Quando Murray comemorou gravações de Sherlock
62’09” – Orlandinho fala sobre Drake, Ariana Grande, GOT e maratonas de seriados
65’00” – Nossas maratonas de seriados
67’20” – As preferências de Aliny Calejon
69’53” – Os preferidos de Alexandre Cossenza
72’24” – Sheila Vieira e suas preferências


Thiago Monteiro: sobre ascensão, confiança, inconformidade e pé no chão
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Alexandre Cossenza

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É difícil conversar com Thiago Monteiro e não sair do papo uma dose forte de otimismo. O cearense de 22 anos, atual 87º do planeta, fala de sua evolução com a confiança e a esperança de um jovem da sua idade, mas também com a consciência de um veterano de circuito.

Todas as palavras “certas” aparecem ao longo da entrevista abaixo. “Seguir melhorando”, “não me acomodei”, “pés no chão”, “não ficaria me gabando”, “investir na equipe”, “ajudar minha família”… Lendo assim, com todas essas expressões amontoadas, parece que Monteiro fez leitura dinâmica de um texto de autoajuda antes da conversa. Na real? Longe disso. O garotão é autêntico. Diz essas coisas todas sem ensaiar, sem forçar. É o jeitão dele, que acaba sendo o melhor jeito – o jeito necessário – para encarar o tênis.

A entrevista é sobre um pouco de tudo que envolveu uma temporada em que Monteiro começou no 463º posto, derrotou nomes como Tsonga e Almagro, entrou no top 100, estreou na Copa Davis e por pouco não se tornou número 1 do Brasil. Você, leitor, não vai encontrar declarações bombásticas, mas talvez vá conhecer um pouco mais sobre o jovem e certamente vai entender os motivos de sua ascensão em 2016. Ao fim da leitura, diga se o copo não parece meio cheio…

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Foi um ano muito “doido” no bom sentido, né? Começou o ano mais de 400 do mundo e entra agora já entre os 90. Muda muita coisa, não? Qual é a parte mais difícil desse ajuste?

Eu estou entrando num novo processo para tentar me firmar num nível maior, o nível ATP. É como se fosse uma segunda transição. Tem a transição do juvenil (para o profissional) e tem essa transição agora de manter no alto nível. Tive a experiência de jogar alguns ATPs este ano, poder treinar mais com melhores jogadores, fiz bons jogos e vai ser uma adaptação que a gente está fazendo que está andando de certa forma um pouco rápida, né? Mas são ajustes. Nesse tipo de torneio, a gente consegue identificar mais fácil (as dificuldades) e seguir melhorando. Adaptar melhor às quadras rápidas, a questão de devolução de saque, defesas… Isso a gente tem aprendido bastante nesses jogos e vem tentando evoluir o mais rápido para se firmar.

E a parte boa disso tudo? Óbvio que são mudanças legais, tanto no ranking quanto financeiramente, mas qual é a melhor parte dessa subida?

Acho que é mais a realização de um sonho de criança. Desde pequeno, eu vim almejando poder competir nesse alto nível, tentar me firmar como um jogador de tênis profissional mesmo. Poder viver esse sonho é um privilégio, uma felicidade que me motiva cada vez mais. Mantendo essa linha de trabalho, acho que estamos fazendo o caminho certo. Essa animação eu espero que fique para o resto da minha carreira e que cada vez eu me motive mais e siga nessa linha.

Tem também a parte de mais gente te reconhecer e querer te conhecer mais. Você já sente isso nos torneios?

Aqui no Brasil, o pessoal tem reconhecido mais, especialmente depois das semanas de Rio Open e de São Paulo, então eu comecei a aparecer um pouco mais. Também tem mais gente seguindo nas redes sociais, mandando apoio. É um reconhecimento legal. Agora eu pude jogar um Challenger em Santos com um apoio incrível do pessoal de lá. Foi um carinho muito grande e isso me motivava para seguir dando meu melhor para a torcida. Na verdade, eu não sei muito o que te dizer. Não é aquele assédio, não sou famoso nem nada. Eu passei a ser reconhecido no mundo do tênis, mas não tem acontecido de ser parado na rua.

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Depois daquele jogo contra o Tsonga (Monteiro derrotou o francês no Rio Open), você disse que foi uma vitória que mostrou que seu trabalho estava dando certo. Mas não foi algo passageiro. Você teve um tênis mais ou menos estável durante a temporada inteira. Já são sete meses disso. Por que esses resultados vieram agora? Foi algo diferente que você fez na preparação em comparação com os anos anteriores ou foi só sua evolução natural?

Na transição de dezembro para este ano, eu comecei a ser muito mais focado em questões de físico, de alongamento, de cuidar do corpo e da alimentação. Também fiz muito trabalho de meditação e visualização que mudou muito a minha forma de encarar o jogo em si e momentos tensos da partida. Isso me deixou mais tranquilo e muda muito, principalmente na recuperação de um dia para o outro e na qualidade do treino em si, na questão de conseguir ficar mais tempo concentrado no que você se propõe a fazer. Comecei a dar muito mais valor a essas coisas extraquadra e também a cada momento do treino em si.

Quando você fala de cuidar da alimentação, isso mudou especificamente o que para você?

É comer a coisa certa no momento certo, especialmente com carboidratos, que me ensinaram que mantêm a energia do corpo e que te fazem recuperar de um dia para o outro. São várias explicações, várias coisas complexas, que não sou nenhum especialista para te dizer, mas me passaram, e eu sou muito disciplinado. Venho seguindo isso, e isso faz uma diferença muito grande. São coisas que até evitam lesões, inflamações no corpo. Quando eu era mais novo, no período juvenil e um pouco depois, refrigerante e hambúrguer era todo dia (risos). Isso eu parei e desde que eu parei, as coisas começaram a dar certo. Juntando com tudo que eu vim fazendo, foi uma união de várias coisas que fizeram isso acontecer.

Tem também uma questão de confiança que veio com essas vitórias, né?

Comecei a entender o jogo de uma forma melhor. Meus treinadores, o Duda Matos e toda equipe da Tennis Route, sempre tentaram estabelecer isso na minha cabeça e sempre acreditaram muito mais no meu potencial muito do que eu acreditava em mim. Aos poucos, eu fui aceitando, fui acreditando mais, especialmente depois dessas duas semanas do Brasil. Realmente, eu vi que poderia competir em alto nível, que poderia estar estabelecido nos torneios maiores. Fui acreditando nisso, fui me dedicando, fui evoluindo bastante com o passar das semanas e mantendo os bons resultados. Independentemente dos bons resultados no Brasil, não me acomodei. Isso passou a me motivar a trabalhar mais duro e evoluir mais. Eu acabo perdendo um jogo ou outro e vejo que tenho muita coisa para evoluir ainda, e o nível que eu pretendo chegar ainda está um pouco longe. Sigo nessa mesma dedicação, tentando identificar essas falhas para tentar seguir evoluindo.

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Foi um ano olímpico, mas imagino que não estivesse nos seus planos estar nos Jogos. Só que no fim das contas, você acabou não ficando nem tão longe assim da zona de classificação. Como foi essa sensação?

Eu encarei de uma forma tranquila. Na verdade, não era o objetivo. Achei que era praticamente impossível de jogar uma Olimpíada. Eu janeiro, eu era 460 do mundo. Eu queria mesmo poder estar bem e disputando os torneios que disputei ali e fui bem. Não tinha expectativa nenhuma de entrar na Olimpíada. No final, ficou por pouco. Seria uma honra, a realização de um sonho. Todos que jogaram falaram que é algo diferente de qualquer coisa que já sentiram. Não foi este ano, mas quem sabe em Tóquio? Se conseguir manter esse bom nível e evoluir bem, quem sabe a gente consegue traçar um objetivo de estar em Tóquio?

Não teve Olimpíada, mas teve Copa Davis. Não foi um ambiente completamente novo porque você já esteve com a equipe antes, mas como foi sentir ser titular, a sensação do “eu vou jogar”?

Todos me receberam super bem, me passaram todas experiências de como é uma Davis, as sensações que eles tiveram a primeira vez que jogaram. Foram me tranquilizando aos poucos. Eu estava muito bem. Tive uma estreia bem dura contra o Goffin. Apesar de ele ter dominado o jogo de certa forma tranquila, eu acho que também não joguei mal. É que ele realmente está num nível acima ainda e mostrou por que está entre os 15 do mundo há uns dois, três anos já. Não é fácil se manter nesse nível. É um cara diferenciado. Mas foi uma experiência incrível, fiquei feliz de poder estar lá. Tentei dar o meu melhor, tive para mim uma estreia boa e espero poder futuramente voltar e me firmar na equipe.

Num jogo assim, em que você joga bem, mas vê que o outro está muito acima, é o tipo de jogo que te faz pensar “puxa, falta muito ainda para estar onde eu quero?” Foi assim que você encarou isso?

Não, não. Tem um pouco desse sentimento, mas o que fica mesmo é motivação mesmo. De realmente saber que por mais que eu tenha melhorado muito, esses caras são minha referência, é contra esses caras que quero continuar competindo. Eu pego como motivação para seguir nessa linha de trabalho, de pés no chão, de estar ciente de que eu tenho que trabalhar muito duro para manter nesse alto nível. Aprendi muito naquele jogo. Você percebe mais as deficiências do seu jogo.

Sobre essas deficiências, o que você vê como próximo passo no seu jogo? Qual seria a prioridade número 1 para você melhorar agora?

Uma das prioridades é a devolução de saque, sim. Eu posso ser mais sólido nas devoluções, mais agressivo também, especialmente nos segundos saques. E as transições, né? Ganhar a quadra um pouco mais rápido, conseguir fechar melhor o jogo na rede, matar nos voleios. São essas duas adaptações que eu preciso fazer bem no meu jogo e, de certa forma, eu vou conseguir pegar bem porque vou começar a jogar mais em quadras duras. Devo ter garantido (uma vaga na chave principal) o Australian Open com esse resultado (final em Santos). Joguei muito pouco em quadras duras. Dois ATPs e um Challenger este ano. Nunca tinha jogado torneios desse nível nesse tipo de quadra. Por mais que os resultados não tenham sido excepcionais, acho que fiz bons jogos e evoluí bastante nesses aspectos. Com o tempo, jogando mais, posso evoluir mais ainda.

Você ficou a uma vitória de ser o número 1 do Brasil. Quando um jornalista pergunta sobre isso, normalmente a resposta é que “número 1 do Brasil é só um número”. Você acha isso também?

Ah, acredito também que seja só um número. Não define nível, não define ninguém como jogador. Até porque o Thomaz, por mais que caia no ranking, vai ser o número 1 porque foi o último cara a estar ali perto dos 20 do mundo. Teve títulos de ATP, várias vitórias contra top 10, entre outros resultados incríveis que ele teve. Eu uso ele como referência, a gente tem treinado bastante junto, e por mais que tivesse acontecido em Santos, não seria algo que eu iria ficar me gabando. Acho que o nosso objetivo é outro e, sem dúvida, ainda tem muita coisa pela frente.

Você tem uma série de Challengers (Campinas, Buenos Aires, Santiago, Lima e Guaiaquil) pela frente agora e pouca coisa para defender. O objetivo mesmo é somar para se garantir nos ATPs do começo do ano e encarar uma sequência forte já no início de 2017?

Dependendo de como for a gira, de como forem as pontuações, eu pretendo realmente começar o ano nos ATPs mesmo e na chave do Australian Open. Se eu conseguir uma boa margem, dá para seguir se mantendo nos ATPs. A gente vai definir dependendo de como for essa gira, mas o objetivo é que comece nos ATPs e continue assim.

Vai ser o primeiro começo de temporada que você vai ficar despreocupado financeiramente, sabendo que vai poder viajar e jogar aqui e ali sem depender de resultado?

Ah, vai ser uma parte boa porque posso investir um pouco mais na equipe. Posso levar meu treinador. Como vai ser uma gira longa e com jogo de cinco sets, posso levar meu preparador físico também. Então acho que essas premiações têm me ajudado muito com isso. Eu prezo muito por investir nas pessoas que estão sempre ao meu lado, que trabalham comigo e que, sem dúvida, me fazem crescer no dia a dia para, quem sabe, ganhar mais ainda.

O Fabrizio (Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route) me disse que você está procurando apartamento no Rio (Monteiro mora no alojamento da academia). Isso também faz parte desse processo, né? De um amadurecimento financeiro e como pessoa, digo…

Sim, sim. Quando eu morei seis anos no sul (em Camboriú, SC), nos últimos quatro anos eu alugava um apartamento, pagava minhas despesas, me sentia um homenzinho (risos) independente, então… Mas são coisas que o tênis proporciona. Eu tive que lutar muito por isso e também tenho a possibilidade de ajudar minha família. São essas coisas que me motivam a querer melhorar cada vez mais.


Davis, dia 1: Bélgica aproveita limitação brasileira
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Alexandre Cossenza

Thiago Monteiro ganhou uma batata quente de presente em sua estreia na Copa Davis. Thomaz Bellucci fez mais uma partida daquelas cheias de erros (35 não forçados, pela conta econômica da ITF) e sem variações táticas. O resultado foi uma péssima sexta-feira em Oostende, na Bélgica, onde o time da casa abriu 2 a 0 na série melhor de cinco que define quem jogará o Grupo Mundial da Copa Davis em 2017. Um dia que expôs a limitação dos simplistas brasileiros – e até do capitão – e que deixou o país sem margem para erro nos próximos dois dias.

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A superioridade

O dia começou com Thiago Monteiro soltando o braço e tentando incomodar David Goffin. Até conseguiu por alguns games no serviço do belga. Monteiro teve 0/30 no segundo game, um 30/40 no quarto e um 30/30 no sexto. O tenista da casa, contudo, venceu todos – sem exceção – pontos grandes do set. Depois de fechar a parcial por 6/2, jogou mais à vontade e dominou. Só perdeu mais dois games depois disso e fechou em 6/2, 6/2 e 6/0.

Ainda que haja uma clara diferença de nível e de experiência, não consegui ver uma tentativa de Monteiro de mudar taticamente o andamento do jogo. Era até esperado que ele entrasse em quadra adotando o bom e velho “entra sem pressão e solta o braço”, mas nesse nível, na primeira partida melhor de cinco sets de sua carreira, seria preciso um plano B. Não garantiria um resultado diferente, mas seria uma tentativa. Do jeito que a partida correu, Goffin não foi tão exigido assim.

A falta de recursos

No aspecto estratégico, o segundo jogo não foi muito diferente. Thomaz Bellucci entrou em quadra disposto a atacar primeiro e fazer Steve Darcis correr. O belga apostou em variações. Slices cruzados e paralelos, velocidades e altura de bola diferentes e paciência, muita paciência. Darcis trocava bolas e esperava chances para atacar na boa, com o forehand na paralela.

O #1 do Brasil fez um belo primeiro set, que teria sido até mais fácil não fosse um pavoroso sétimo game. Ainda assim, Bellucci venceu o tie-break e parecia firme no jogo. A coisa começou a desandar no quarto game do segundo set. Darcis aproveitou o quinto break point e deslanchou. O paulista desandou a errar. Errou curtinhas, voleios, forehands e tudo que podia errar. Em vários momentos, também subiu mal à rede e pagou o preço.

O problema, como quase sempre acontece com Bellucci, foi a execução. Contra um Darcis sólido e paciente, o brasileiro teria duas opções: ou tentar algo diferente ou executar melhor seu plano A. Não fez nem um nem outro. Para piorar, Darcis jogou mais solto e agressivo quando teve a dianteira. Sem plano B, restou ao paulista ficar em quadra esperando por um milagre que não veio. Darcis fez 6/7(5), 6/1, 6/3 e 6/3 e colocou seu país com uma enorme vantagem.

A esperança

Com uma dupla forte como a de Bruno Soares e Marcelo Melo, o mais provável é que o Brasil sobreviva ao sábado. Por enquanto, a Bélgica tem Ruben Bemelmans e Joris de Loore escalados para o jogo de sábado. O mais provável é que o capitão belga, Johan Van Herck, mantenha a formação e poupe seus titulares para o domingo, quando precisará de um pontinho para seguir no Grupo Mundial.

Para o capitão João Zwetsch, resta rezar para duas zebras. Primeiro, Bellucci precisará derrotar Goffin sem a torcida brasileira fazendo estrago no cérebro do belga. Depois, terá de contar com uma vitória do estreante Thiago Monteiro contra o veterano Darcis, 32 anos, que vem num ótimo momento na temporada e dois dias depois de uma atuação belíssima contra Bellucci. Possível? Sim. Num domingo qualquer, tudo pode acontecer. Provável? Nem tanto.