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ITF radicaliza para tentar tornar circuito profissional sustentável
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Alexandre Cossenza

A Federação Internacional de Tênis (ITF) anunciou, nesta quinta-feira, uma série de grandes mudanças no circuito profissional e no sistema de transição pós-juvenil. A intenção da entidade é reduzir o número de tenistas profissionais a um “grupo verdadeiramente profissional” de cerca de 750 homens e 750 mulheres. Hoje, segundo estimativas da ITF, há por volta de 14 mil tenistas competindo em torneios profissionais, e quase metade desse número é composta por gente que não recebe prêmio em dinheiro.

Como isso vai funcionar? Segundo o comunicado da ITF, os atuais torneios de US$ 15 mil serão reposicionados e deixarão de fazer parte do circuito profissional. Eles passarão a integrar uma “Transition Tour” – turnê/tour de transição — e não distribuirão dinheiro, mas darão pontos de entrada na ITF. Só quem tiver esses pontos de entrada vai poder jogar o circuito profissional. A ITF ainda enfatiza que esses torneio de transição serão realizados em espécies de pequenos circuitos regionais, o que vai diminuir custos para tenistas e organizadores.

Segundo a entidade, essa nova estrutura vai “introduzir um caminho profissional mais claro e eficiente e garantir que o prêmio em dinheiro no circuito profissional da ITF [o atual nível Future da ATP] seja mais bem direcionado para garantir que mais jogadores possam viver do esporte profissional.”

Na prática, a ITF está criando um funil para reduzir também o número de eventos profissionais (leia-se “que distribuem dinheiro”). A consequência mais desejada do processo é fazer com que o prêmio em dinheiro que existe atualmente no circuito seja suficiente para manter esse “grupo verdadeiramente profissional” de jogadores em atividade – mesmo que exista outro efeito cruel, que é tornar o tênis competitivo um esporte de acesso ainda mais complicado.

A ITF diz ter chegado a essas conclusões após um longo processo de análise do tênis que incluiu dados de 2001 a 2013 e entrevistas com mais de 60 mil pessoas no meio do tênis (jogadores, federações, técnicos e promotores). O novo presidente da entidade, David Haggerty, diz que “foi o maior estudo do tênis profissional já feito e que ressaltou os ‘desafios’ (em corporativês, desafio é sinônimo de problemas e defeitos) consideráveis na base de nosso esporte. Mais de 14 mil tenistas competiram no nível profissional no ano passado, e isso é simplesmente demais. Mudanças radicais são necessárias para tratar das questões de transição entre o tênis juvenil e o profissional, viabilidade financeira e custos de torneios.”

Números de 2013 a considerar:

– Segundo o estudo, um tenista homem gastava, em média, US$ 38 mil por ano, enquanto uma mulher precisava gastar US$ 40.180. Esse número inclui voos, hospedagem, comida, encordoamento, lavanderia, roupas, equipamento e transporte, mas não leva em conta gastos com treinadores.

– O chamado “break even point” (quando o tenista pelo menos não perde dinheiro para se manter jogando) era o 336º posto no ranking da ATP. Na WTA, o mesmo era o 253º lugar.

– Um total de 3.896 tenistas homens disputaram torneios profissionais e não receberam prêmio em dinheiro nenhum; no circuito feminino, 2.212 atletas jogaram e não ganharam nada.

– Apenas 1% dos tenistas homens abocanhou 60% (US$ 97.448.106) do total do prêmio em dinheiro (cerca de US$ 162 milhões). Entre as mulheres, o mesmo 1% da elite levou 51% da premiação total (cerca de US$ 120 milhões).

Coisas que eu acho que acho:

– Talvez mais importante do que a ITF tomar medidas para mudar o tênis tenha sido a postura de abrir o jogo, citando números e sem esconder o tamanho da desigualdade no esporte e o quão difícil é sobreviver jogando em torneios pequenos. Os relatórios citam várias estatísticas, ilustradas com gráficos e planilhas de todo tipo. Quem quiser se aprofundar pode ler sobre o circuito profissional aqui e sobre o circuito juvenil aqui. O relatório com as entrevistas dos jogadores está neste link, e as entrevistas com não-tenistas estão aqui.

– Uma dos pontos que achei interessante nas pesquisas de opinião é que 70% dos não-tenistas concordaram que havia uma necessidade de mudar a distribuição do prize money. Entre essas mesmas pessoas, a maioria era favorável a aumentar o dinheiro nas primeira rodadas e reduzir nas fases finais. E a opção menos popular foi eliminar as chaves de duplas.


Orlandinho é #1, mas o que isso significa?
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Alexandre Cossenza

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Nesta segunda-feira, a ITF confirmou o nome do brasileiro Orlando Luz como número 1 do mundo no ranking juvenil. É a terceira vez que um brasileiro ocupa o topo da lista de tenistas com até 18 anos. Roberto Jábali, na década de 80, e Tiago Fernandes, campeão do Australian Open juvenil de 2010, também encabeçaram o ranking em suas épocas. Mas o que significa ter um tenista como juvenil número 1 do mundo?

Significa, ora, que Orlandinho é um dos melhores tenistas do planeta em sua faixa etária. É um feito excepcional, mas, ao mesmo tempo, é “só” isso (e isso não desmerece Orlandinho – já volto a falar especificamente sobre ele). Por definição, o ranking juvenil não é lá o melhor dos indícios sobre as chances de sucesso de alguém como atleta profissional. Um garoto que vá bem no Banana Bowl ou na (ex) Copa Gerdau, onde os melhores europeus quase nunca estão, dispara no ranking. Isso vale para outros torneios espalhados pelo mundo.

Logo, como são poucos eventos em que os melhores se encontram de fato, o ranking nem sempre reflete quem é quem no mundo dos tenistas com até 18 anos. Além disso, o tênis está cheio de histórias de garotos que foram fenômenos adolescentes (inclusive no Brasil) e não chegaram nem perto de reproduzir esse sucesso nos profissionais. Do mesmo modo, alguns dos melhores tenistas da história tiveram resultados pouco expressivos como juvenis.

Novak Djokovic nunca passou da 34ª posição, Rafael Nadal teve passagem curtíssima pelo circuito juvenil e seu melhor ranking foi 134, e Andy Murray chegou à sexta posição. Federer, sim, foi número 1 juvenil, mas fez um esforço para terminar no topo no fim de 1998, quando já disputava torneios profissionais. Há casos e mais casos que mostram a diferença entre os mundos juvenil e  profissional.

Hoje mesmo temos o exemplo de Andrey Rublev (17 anos, nascido em 1997), líder do ranking juvenil até a semana passada. O russo não jogou um evento juvenil sequer em 2015. No último mês, ganhou partidas nos ATPs de Istambul e Genebra. É o 208º no ranking da ATP. Já desistiu do circuito para até 18 anos. Há, por outro lado, quem prefira jogar como juvenil o máximo possível. Gael Monfils ficou até os 18 anos, ganhou três Grand Slams e liderou o ranking com folga.

Não há receita de bolo. Orlandinho foi campeão do Banana Bowl e da (ex) Copa Gerdau (ambos na categoria 18 anos) no ano passado, com 16 anos. Resolveu disputar os dois novamente este ano e foi campeão outra vez. No último fim de semana, conquistou também o importante Trofeo Bonfiglio, na Itália (só os Grand Slams superam o evento italiano em importância e pontos distribuídos). Com isso, conseguiu os pontos que lhe faltavam para ultrapassar Rublev e tomar a ponta.

Sobre o jovem gaúcho (17 anos, 1998), chegar ao número 1 é fenomenal. Só que não é justo basear expectativas em um número. Vários brasileiros estiveram no top 10 recentemente e nunca passaram de torneios de nível Challenger (Nicolas Santos, José Pereira e André Miele são alguns exemplos). Tiago Fernandes liderou o ranking e viu sua ascensão interrompida por uma lesão grave. A principal fonte de otimismo, no caso de Orlandinho, é que seu tênis tem a potência necessária para o mundo profissional – o que ficou nítido nos Challengers de Santos e São Paulo (como escrevi neste post).

Orlandinho pode não ser hoje (negrito e sublinhado em “hoje”, por favor) o melhor tenista do mundo de sua faixa etária (Borna Coric e Alexander Zverev, ambos de 18 anos, já estão no top 100 profissional), mas cada tenista tem seu tempo próprio de desenvolvimento. O melhor, em vez de julgar e criar expectativas, é observar e apreciar o que vem por aí. A começar por Roland Garros, onde o gaúcho é um seríssimo candidato ao título.


Pressão, pra que te quero?
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Alexandre Cossenza

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Orlando Luz conquistou, neste domingo, o título do Campeonato Internacional Juvenil de Tênis de Porto Alegre, o evento que até poucos anos atrás era chamado oficialmente de Copa Gerdau (e que só não leva o nome da empresa hoje porque conta com verba da Lei de Incentivo ao Esporte). Não é pouca coisa. A ex-Gerdau é o torneio mais importante da América do Sul e é uma competição de nível A, assim como os Grand Slams juvenis.

O tamanho do feito de Orlandinho (que é chamado assim porque seu pai tem o mesmo nome) é considerável. Não só porque o jovem gaúcho tem 16 e joga a categoria de 18 anos, mas porque faz parte de três semanas brilhantes. No último domingo, Orlando venceu o Banana Bowl, que por 32 anos não teve um brasileiro como campeão. Uma semana antes, o gaúcho conquistou o título do Asunción Bowl, no Paraguai (torneio de nível I, como o Banana).

São 16 vitórias seguidas e muitos pontos, que colocam Orlandinho como número 4 do ranking mundial juvenil. É aí que muita gente começa a dizer que o gaúcho vai começar a ser pressionado por resultados. E trata-se de um panorama delicado. Nem tanto para o jovem tenista, mas para quem lida com ele no dia a dia.

Dizer que um tenista vai ter pressão é clichê. Redundância. Roger Federer tem pressão sempre porque é um fenômeno e espera-se dele um tênis de altíssimo nível. Thomaz Bellucci tem pressão porque está fora do top 100 e precisa de resultados para subir no ranking e voltar a entrar direto em torneios grandes. Ricardo Hocevar tem pressão porque fica sem dinheiro para manter-se no circuito caso não conquiste um certo número de vitórias. Pressão existe para todo mundo, todos os dias. Faz parte da profissão tenista.

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A pergunta que precisa ser feita – sempre! – é “pressão de quem?”. Mas adiemos um pouco. Calma, eu volto ao assunto alguns parágrafos adiante. Minha queixa com quem tenta prever o futuro dizendo que Orlandinho (ou qualquer outro juvenil que se destaque) vai ter pressão é a seguinte: que brasileiro de destaque deixou recentemente de ser um grande profissional por causa de “pressão”? Lembremos, então, de alguns brasileiros que foram top 10 do ranking mundial juvenil: André Miele, José Pereira, Nicolas Santos, Fernando Romboli e Tiago Fernandes.

Nenhum deles figurou entre os 200 melhores do ranking profissional. Em que caso podemos dizer que a “culpa” é de pressão externa? Honestamente? Nenhum. Tiago Fernandes, o mais talentoso destes e que venceu um Grand Slam juvenil, foi o único que lidou com certa pressão, mas de si mesmo. E nem assim pode se dizer que foi o único motivo de sua queda. Tiago teve problemas físicos, diferenças com Larri e perdeu muito tempo – e ranking.

Lembremos, então, de um caso ainda mais recente. Thiago Monteiro, campeão da Gerdau, foi número 2 juvenil. Hoje, treina com Larri Passos, ex-técnico de Guga, e tem a carreira agenciada pelo tricampeão de Roland Garros. Quem está pressionando o garoto? Quem está chamando Thiago de novo Guga, novo Bellucci, novo Meligeni (e quem mais valha a pena comparar)? Ninguém. Ninguém.

Ok, voltemos à pergunta: “pressão de quem?” Não existe uma resposta para isso. Pressão popular? O povo não vai às ruas pedir títulos de Orlandinho, não vai xingá-lo no aeroporto depois de uma campanha ruim, não vai pichar os muros de sua casa nem invadir o CT se ele não vencer. Não existe pressão popular porque, convenhamos, tênis não é esporte popular.

De onde ela vem, então? Há quem goste de culpar o jornalismo. “Ah, a imprensa exagera”. Nem tanto. E aí entra outra discussão: se a imprensa não mostra, dizem que não apoia o esporte; se mostra, coloca pressão. Não, senhores, a imprensa não é a maior culpada se este ou aquele juvenil não vingou (ainda) como um grande profissional. Há muitos fatores que entram nessa conta. Desde o (parcialmente) enganoso ranking juvenil, que conta apenas seis torneios, até o efeito de contratos publicitários, passando pela orientação que o adolescente recebe após o sucesso em sua faixa etária.

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Orientação (que fique claro, não estou falando especificamente de Orlandinho), aliás, é uma questão interessante. Não é preciso ir muito longe para ver juvenis sendo superprotegidos (e mimados!) por técnicos e pais. Há quem proíba garotos de dar entrevista sob o argumento de que “tira o foco”. Há quem diga e repita – e repita – que fulano vai ter pressão porque tem ranking melhor do que o adversário, que “vai jogar solto”. Frases feitas que não levam ninguém a lugar algum.

Falar da pressão como um monstro ou culpar a imprensa é desorientar. Este, sim, é um perigo grande. Perto de iniciar uma vida como profissional, um jovem, em vez de ser ensinado a lidar com certas situações (como dar entrevistas), ouve que precisa evitá-las. Isso, sim, é grave. Juvenil precisa ser ensinado a lidar com toda forma de adversidade. Seja torcida contra, a necessidade de pontos no ranking, uma dificuldade financeira, um adversário de ranking inferior e por aí vai.

Pressão, de forma geral, vem de dentro, da vontade que alguém tem de conseguir algo. E não é necessariamente ruim, desde que a pessoa tenha sido orientada para lidar com aquilo e reagir de forma positiva. Quem não quer passar por isso não pode estabelecer metas ousadas. Não quer pressão? Não ganha! Ou então vai jogar futebol e pede pra ficar no banco. A vida lá deve ser bem mais fácil.

Coisas que acho que acho:

– Repito: não é um post obre Orlandinho. Não sei como são seus treinamentos nem como é sua orientação. Apenas usei o recente sucesso do gaúcho para ilustrar um cenário que vejo com alguma frequência. Sobre o gaúcho, registro meus parabéns a ele e sua equipe – em especial, o técnico André Podalka, que o acompanha nos torneios.

– Sobre a velha questão de a imprensa “tirar o foco”, vale notar o caso de Bruno Soares, que deu entrevistas como nunca em 2013 e fez a melhor temporada de sua carreira. Obviamente, não estou comparando o duplista número 3 do mundo com juvenis. Soares já passou dos 30 e aprendeu a lidar com a atenção recebida. Vale, no entanto, como exemplo. O melhor tenista do país é também o mais acessível. Que técnicos e ex-tenistas observem, aprendam e ensinem.

– Vale registrar: enquanto é justo que seja comemorado o título de Orlando em Porto Alegre, é importante notar que apenas uma brasileira passou da estreia na chave de 18 anos da ex-Copa Gerdau. Eram 12 inscritas, e só Luisa Stefani avançou. Ela parou na terceira rodada, eliminada pela cabeça 8.


O fim do tabu do tabu
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Alexandre Cossenza

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Durante algum tempo, foi um tabu falar do tabu. Muita gente na comunidade tenística – ex-atletas, técnicos, “assessores” – via como uma espécie de ofensa, um tipo de crítica nada subliminar. Mas é trabalho da imprensa lembrar estatísticas, séries de vitórias e, nesta caso específico, um jejum. Um tabu. Em 32 edições consecutivas, o Banana Bowl não teve um brasileiro como campeão em sua categoria principal – 18 anos masculino.

A seca acabou neste domingo, quando o gaúcho Orlando Luz, 16 anos recém-comemorados, conquistou o título ao derrotar o também brasileiro João Menezes na final: 6/3 e 7/5. E, de repente, passou a ser bacana citar o tabu de novo. Depois de 33 anos, um brasileiro vence o Banana. Legal. E é legal mesmo, apesar de que, neste caso específico, as três décadas de seca são pouco mais de uma série de coincidências do que o reflexo de um trabalho mal feito.

Não quero entrar nem no mérito do que a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) fez ou deixou de fazer no período. Meu ponto aqui é que não muda muito o fato de haver um campeão brasileiro no Banana. Primeiro porque tenistas do país já venceram a Copa Gerdau – hoje, um torneio nível A, mais importante e que equivale a um Grand Slam no número de pontos. Thiago Monteiro venceu em 2011, José Pereira em 2008 e 2009, Raony Carvalho em 2005, e a lista ainda inclui Flávio Saretta, Alexandre Simoni, Marcos Daniel (duas vezes) e Gustavo Kuerten.

O próprio Orlando Luz, chamado por todos de Orlandinho, venceu, na semana passada, o Asunción Bowl, no Paraguai, um torneio de nível 1, o mesmo do Banana. Em outras palavras, fora o fato de o próprio Orlandinho ganhar a justa exposição por ser campeão de um torneio importante dentro de seu país, nada muda no grande cenário da modalidade. O tênis brasileiro não foi melhor ou pior nos últimos 33 anos porque não houve um campeão brasileiro no Banana. E escrever isto não é menosprezar ninguém. É apenas evitar um exagero que não é bom para ninguém, nem para o próprio gaúcho de 16 anos.

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Coisas que eu acho que acho:

– Importante notar que foram três semifinalistas brasileiros na chave de 18 anos. Marcelo Zormann foi eliminado por Orlandinho antes da final. Estes dois, aliás, já têm alguma experiência em torneios profissionais. Enquanto o gaúcho participou de cinco Futures e um Challenger, o paulista já conta com uma dúzia de eventos no currículo – incluindo aí o título do Future de Montes Claros, no ano passado.

– Somando aos resultados de Assunção, Orlando Luz agora soma 18 jogos sem perder – dez de simples e oito de duplas. Tanto no Paraguai como no Banana Bowl, o gaúcho foi campeão de simples e duplas. Um momento, de fato, brilhante.

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Sem ir na toalha (para ler em até 20 segundos):

– Para não passar sem registro: antes de Orlando Luz, o último brasileiro a sagrar-se campeão de 18 anos do Banana Bowl foi Eduardo Oncins, em 1981.

– Orlando Luz e João Menezes também foram campeões de duplas do Banana Bowl. Na final, os brasileiros derrotaram o japonês Naoki Nakagawa e o argentino Lautaro Pane por 2 sets a 0: 6/2 e 6/2.

– No circuito da ATP, Thomaz Bellucci voltou a sofrer com problemas físicos e abandonou sua estreia no qualifying do Masters 1.000 de Miami. Como consequência, o paulista cai de 91º para fora do top 100. No WTA de Miami, Teliana Pereira foi derrotada na primeira rodada do qualifying e também perderá posições. Ela sai do 96º para o 99º posto.

– Fabiano de Paula foi campeão do Future de Lima, no Peru. O carioca, que jamais havia levantado um troféu profissional fora do Brasil, derrotou na final o o argentino Federico Coria (sobrinho de Guillermo Coria, aquele!) por duplo 6/1. Fabiano, que já esteve entre os 300 melhores do mundo, caiu por causa de lesões e era o número 446 na semana passada.


“Eu amo cerveja”
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Alexandre Cossenza

Por que diabos uma agência disponibiliza uma foto só do short de um tenista? Ainda mais de um juvenil, no caso o australiano Bradley Mousley… Foi essa a pergunta que fiz enquanto olhava as miniaturas das imagens da rodada desta segunda-feira em Melbourne. Resolvi, então, ampliá-la. Ficou logo nítido o porquê de a foto estar ali. Tão nítido quanto a transparência do short branco do australiano. A mensagem na roupa de baixo do tenista era visível: “Eu amo cerveja” (I love beer).

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Não convém especular sobre os hábitos diurnos ou noturnos de Mousley. O mais provável é que a cueca seja apenas uma peça de roupa bem humorada – como muitos que milhares de pessoas usam no dia a dia. De todo modo, fica aqui o registro, só pela curiosidade. E Mousley venceu seu jogo ao fazer 5/7, 7/6(5) e 6/4 sobre o japonês Naoki Nakagawa, cabeça de chave 16 do torneio juvenil. O australiano já está classificado para as oitavas de final.

Aproveitando o post sobre a chave juvenil, vale lembrar que o Brasil teve quatro tenistas nas simples. Três deles foram eliminados na primeira rodada, sem vencer um set sequer: Rafael Matos, Gabriel Hocevar e Letícia Vidal. O único triunfo veio com Marcelo Zormann, que jogará na segunda fase contra o russo Ilya Vasilyev.


Entrevista: Jorge Lacerda
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Alexandre Cossenza

JorgeLacerda_BrunoSoares_cbt_blogFoi-se o tempo em que o maior problema era um buraco na conta bancária. Quando Jorge Lacerda assumiu a presidência, Confederação Brasileira de Tênis estava endividada e sem credibilidade. Hoje, o cenário é bem diferente. Gustavo Kuerten já se aposentou, mas a modalidade vive dias melhores, embalada por generosos patrocínios de Correios, Asics, Peugeot e outros parceiros.

Os investimentos que têm entrado no esporte, contudo, ainda não se refletem em nomes no mais alto nível do tênis. Após um ano ruim de Thomaz Bellucci, nosso melhor atleta, não há um brasileiro sequer entre os 100 melhores do mundo. Entre os 300, apenas o gaúcho Guilherme Clezar (158, 20 anos) e o cearense Thiago Monteiro (272, 19 anos) possuem menos de 25 anos. Não é exatamente o mais animador dos cenários.

A CBT continua sem um centro de treinamento, algo que Lacerda sempre classificou como essencial, embora haja grupos de tenistas aqui e ali, como no Itamirim Clube de Campo, em Itajaí, na academia de Larri Passos, em Camboriú ou na Tennis Route, no Rio de Janeiro. Foi lá, na academia localizada no Recreio dos Bandeirantes, que bati um papo rápido com Jorge Lacerda.

Na conversa, o dirigente mostrou-se satisfeito com o circuito juvenil nacional e otimista em relação ao legado que será o Centro Olímpico de Tênis, construído para os Jogos de 2016. Lacerda, no entanto, lembra que hoje em dia não é mais possível contar com os tradicionais clubes de tênis como formadores de atletas e mostra-se preocupado com o nível dos Futures disputados no Brasil. Leia!

Muitos profissionais farão pré-temporada juntos, no Rio de Janeiro. Você sente o grupo atual mais unido do que em outros momentos da sua gestão?
Tudo tem a ver com investimento. Torneio que passa na Band, no SporTV, tal e tal… Olha o que o tenista tem na manga! Correios. Nós estamos investindo. A gente quer dar condições. O que a gente ressente é espaço próprio para a Confederação. Só que hoje, sem investimento fixo de pagar treinador, mas pagando as viagens dos treinadores e as passagens dos jogadores… Já têm apoio o Instituto Gaúcho de Tênis (IGT), o Itamirim Clube de Campo em Santa Catarina, na academia do Larri a gente continua apoiando os jogadores. A gente não dá dinheiro para o clube, mas o menino está viajando de graça, vamos dizer assim. E aqueles treinadores estão viajando e recebendo por aquela semana, então aquela academia deixa de pagar.

Não é o mesmo efeito que teria se o Thomaz estivesse no top 10, mas os duplistas colocaram o tênis um pouco mais em evidência em 2013. Não sei o quanto isso ajuda, mas a grande crítica que se fazia ao ex-presidente Nelson Nastás era não ter aproveitado a Era Guga. Como se aproveitar o que está acontecendo agora?
Eu acho o seguinte. Já está acontecendo porque se está fazendo. Se você perguntar para o Bruno, para o Marcelo, o próprio Bellucci, o Rogerinho… Todos! Todos estão jogando com “Correios” na manga. Lógico, méritos deles, mas nós estávamos apoiando antes de eles serem o que são hoje. Então isso nos dá credibilidade para a gente usá-los como neste projeto, que a gente lançou com o Bruno e o Marcelo agora. O que é? Botar jogadores novos viajando com eles. E podemos fazer isso também com o João (Zwetsch, capitão da Copa Davis). A ideia é essa: começar a aproveitar os jogadores que estão nas cabeças, botar esses meninos próximos deles e usar os juvenis. A meninada joga a Gira Cosat agora. Depois, jogam a gira europeia. Ali, eles podem estar viajando com eles em alguns momentos. Aí você diz “mas o cara vai estar viajando, não vai estar jogando”. Pô, ser sparring de um cara desses, que daqui a dois, três anos ele vai estar encontrando como jogador… Eu acho que o mais importante é esse envolvimento de todo mundo, que não teve na época que você falava. Hoje, está todo mundo conversando. Hoje, todo mundo se sente parte do trabalho. Esse exemplo daqui da Tennis Route é do cacete. O João vir para cá… Tem aqui o Duda (Matos, um dos treinadores da academia), o Gringo (Walter Preidikman, também treinador da Tennis Route)… Então aqui o João vai poder receber mais jogadores. Isso é legal. Esse trabalho profissional aqui, essa organização que eles deram, já é uma preparação para assumir o Centro Olímpico. Esse é o objetivo. É isso que falo no COB todo dia. A CBT quer um centro de treinamento, vai trazer a Federação do Rio junto, a sede da CBT vem para cá, e a ideia é esse grupo começar a trabalhar lá no alto rendimento. A gente está preparando tudo para a hora que ficar pronto (o Centro Olímpico). A previsão é para 2015. Não vai ser elefante branco. A gente assume o Centro na hora.

E você vem tendo um bom feedback nas conversas com o COB?
Tô. O (Carlos Arthur, presidente do COB) Nuzman é parceiro nisso, o Ministério do Esporte está colocando dinheiro e criou um departamento de legado. Como vai ficar, para quem vai ficar. O próprio Ricardo Leyser já falou que o objetivo é passar para a Confederação. Acho que isso aí está bem tranquilo.

A geração juvenil de hoje não é fraca? Tem a Bia Haddad, mas…
(interrompendo) Sabe o que é? Não é que é fraca. Hoje, a transição está mais longa. Antigamente, de 18, 19 anos, saía um Nadal. Hoje, não tem mais isso. Hoje, tem um ou dois jogadores com menos de 21 anos entre os 100 do mundo. A gente tem que ter mais calma. O Brasil chegou a um ponto que passou a ter muito jogador no ranking, mas a gente está diminuindo aos Futures porque não precisa mais. Numa hora, você tem que focar em quatro, cinco, seis, sete, oito jogadores, e esses têm que estar jogando lá fora. Agora tivemos um Future (em Montes Claros) com três jogadores de 17 anos fazendo semifinal, e o campeão foi o (Marcelo) Zormann. É um puta resultado, só que quero ver o Zormann ganhar um Future na Espanha!

Eu falei sobre isso com o Rubens (Lisboa, assessor de imprensa da CBT) na época. Era o Future mais fraco do mundo naquela semana. E eram 19 Futures no mundo naquela semana!
Lógico. Eu acredito que essa geração de 17, 18 anos agora é boa. A geração do Tiago Fernandes, do Thiago Monteiro e do Guilherme Clezar era boa. O Tiago Fernandes ficou um ano parado, mas foi campeão do Australian Open. O Monteiro já está com 19 jogando Challenger de igual para igual com os caras. O Clezar já ganhou Challenger! A gente tem um grande problema, que é os jogadores de cima não estarem dando respaldo para esses meninos chegarem com calma. Foi o machucado do Bellucci. Se ele volta sem machucar, começar a dar de novo esse respaldo e imuniza um pouco o Monteiro e o Clezar. Todo mundo já cobra. “Por que eles não são número 2 da Copa Davis?” Essa geração mais velha, como Feijão… tem gente que foi subutilizada, que poderia estar dando tranquilidade para essa transição. Tem que ter calma. Tênis é isso. Às vezes, você investe, investe e, de repente, o cara para (Lacerda não cita, mas casos recentes de tenistas apoiados pelos Correios e que trocaram o circuito pelo tênis universitário americano incluem nomes como Karue Sell, Pedro Dumont e Gabriel Friedrich).

Nosso circuito juvenil não é mais fraco desde que acabaram os circuitos grandes como Unimed, Mastercard e Banco do Brasil? A CBT reduziu a pontuação dos desses torneios, e eles não se mantiveram.
O que estava acontecendo na época, que realmente não ajuda, é que os torneios começavam na segunda-feira, e tinha torneio quase toda semana. Então os melhores não conseguiam jogar. Ou não tinham dinheiro ou perdiam aula. O que a gente tentou fazer? Um grande torneio por mês, que é o Circuito Correios. Em janeiro e fevereiro, quem está melhor, joga o Cosat. Quem está jogando menos tem os torneios regionais. Em março, temos Banana Bowl e Copa Gerdau, um dos melhores calendários do mundo para março. Na sequência, em abril, maio, junho, julho, agosto e setembro, um Circuito Correios por mês.

JorgeLacerda_Davis_cbt_blogVocês estão felizes com a Sub-25 (categoria que substituiu o antigo Sub-18)?
Está tendo um retorno positivo. O 18 anos já não existe mais. Se você olhar lá fora, a Copa Davis Junior é 16 anos, tanto masculino quanto feminino. O Sub-25 foi o quê? E é uma briga que estou tendo na ITF e não consigo, que é colocar idade nos Futures! O Brasil começou a diminuir Futures porque quem está ganhando é cara de 27, 30 anos. E não vale a pena, desculpa. No Sub-25, a meninada está aprendendo. A gente quer fazer um trabalho de aprendizado. Ele chega lá, tem que inscrever na sexta-feira, é igual ao profissional. Então ele começa a ver como é. E outra: o cara que está no Sub-25 quer ganhar um dinheirinho. A premiação de primeiro colocado é R$ 2 mil, que é quase a premiação de um Future (US$ 1.300). E dá o exemplo para o mais novo. Tinha uma garotada de 18 anos que bebia no fim do dia… Só estava jogando 18 para disputar universitário nos Estados Unidos. De que adiantava aquilo para nós? Nós pagando tudo (no Circuito Correios, jogadores têm alimentação e hospedagem pagas pela organização)! No Sub-25, não tem hospedagem, mas tem premiação. Compensamos financeiramente para eles e para nós e passamos a dar esse retorno.

Não é um impacto grande para quem tem 17?
Acredito que não, porque o menino de 17 e 18, ou ele vai para a porrada e vai jogar ou treina melhor ainda para o universitário.

Mas aí a gente volta ao debate que é o aspecto físico do tênis hoje. Um garoto de 25 que está fisicamente bem não perde para um de 17…
Depende. Vamos dar um exemplo: se o Zormann, hoje, jogar um torneio de 25, ele vai ganhar todos. É isso que eu acho legal. Os de 17, Zormann, Rafael Matos e (Gabriel) Hocevar, que estão jogando Futures já, se entrarem no Sub-25 eles ganham todos. A ideia está dando o resultado que a gente queria, que é fazer o guri aprender a jogar o profissional. E não é muito diferente do que a Europa faz. Nós não estamos inventando nada.

É viável termos no Brasil torneios interclubes como na Europa, com equipes contratando jogadores e dando prêmio em dinheiro?
O que está acontecendo hoje? O clube virou lazer. Às vezes, o pessoal cobra, “o Brasil isso, o Brasil aquilo.” Nós não temos quadras públicas como a Argentina. Também não somos que nem a Espanha, onde o tênis é feito nos clubes. O nosso clube, hoje, não forma mais ninguém. Outro dia estava conversando com o presidente do Pinheiros. “Nós formamos jogadores”, ele disse. De tênis, ele não vai falar isso para mim. Há 15 anos, não existe um jogador do Pinheiros com ponto na ATP. Mas ele não tem culpa, coitado. Se ele colocar uma equipe de quatro meninos ocupando uma quadra por quatro horas, o sócio reclama. A CBT não faz mais evento em São Paulo porque não tem clube para ceder quadra. Deu um rolo no Circuito Correios do ano passado porque o Paineiras não deixava os jogadores entrarem no clube antes do horário do jogo. A gente não tem esses aportes, essas ajudas que os outros têm. A gente está tentando, mas não tem quadra pública. Quando tem, a gente não pode usar… O clube é parceiro para outras coisas, mas não é parceiro para a formação.


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