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Sharapova e os convites da discórdia
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Alexandre Cossenza

Suspensa desde janeiro de 2016 após exames antidoping realizados no Australian Open apontarem a presença da substância proibida meldonium, Maria Sharapova voltou a ser o centro de discórdias nesta semana. O gancho da russa terminará em abril, e a ex-número 1 já tem garantidos wild cards para disputar os WTAs de Stuttgart, Madri e Roma. A polêmica fica por conta de quem acredita que um atleta punido por doping não deveria receber convites – opinião compartilhada pelo número 1 do mundo, Andy Murray, e pelo novo presidente da Federação Francesa de Tênis (FFT), Bernard Giudicelli.

Os wild cards (na essência, convites da organização) são essenciais para Sharapova porque a russa ficou mais de um ano suspensa. Logo, já perdeu todos os pontos no ranking e não conseguiria sequer vagas no qualifying para disputar torneios de alto nível. Pela regra, como ex-número 1 do mundo e campeã de slam, a russa tem direito a WCs ilimitados. Pode jogar quantos eventos puder, desde que os organizadores concedam o benefício. Mas não é o regulamento que está em discussão (ainda?). A questão, para Murray e Giudicelli, é moral.

Murray deu uma entrevista ao Times dizendo que deveria ser preciso ralar na volta. “Porém, a maioria dos torneios vai fazer o que é melhor para o seu evento. Se eles acham que grandes nomes vão vender mais ingressos, eles vão fazer isso.” O argumento do escocês deixa implícito que o retorno sem ranking é – ou deveria ser – uma parte da punição por doping. Afinal, de que adianta fazer o tenista perder seus pontos se ele consegue entrar em qualquer torneio quando acaba a suspensão? É um ponto de vista válido e levanta uma questão: será que os regulamentos deveriam ser revistos nesse quesito?

O presidente da FFT também aborda a questão moral, embora por outro lado. Ele argumenta que “não podemos investir um milhão e meio de euros na luta contra o doping e acabar convidando uma jogadora condenada pelo consumo de uma substância proibida.” Ele e Murray atacam o mesmo ponto, mas por ângulos diferentes. E a declaração do cartola francês deixa no ar que Sharapova pode não receber o convite e ficar fora de Roland Garros.

O outro lado da questão é que, tecnicamente falando, ninguém está impedido de convidar Sharapova para jogar, dançar valsa ou sapatear na cara da sociedade. Nenhuma regra impede wild cards para tenistas que voltam de suspensão por doping. O caso da russa, aliás, não é o primeiro. Viktor Troicki, suspenso por violar o código antidoping, recebeu convites para os ATPs de Gstaad e Pequim logo que voltou, em 2014. Há, no entanto, uma diferença grande entre os dois casos. O sérvio nunca testou positivo. Sua suspensão veio porque, segundo a ATP, ele se negou a fazer um exame durante o Masters de Monte Carlo. Sharapova foi, sim, flagrada com uma substância proibida.

Entre morais e regras, uma coisa é certa: todas posições e decisões que envolveram o doping de Sharapova até agora têm a ver com dinheiro. Desde a posição/omissão do presidente da WTA, Steve Simon, cauteloso para não ofender os fãs da russa e não virar contra a WTA uma máquina de fazer dinheiro, incluindo patrocinadores que ameaçaram debandar mas continuaram ao lado da russa (apesar da suspensão de 15 meses), e chegando, finalmente, aos torneios distribuindo wild cards em nome do espetáculo.

Por enquanto, só se manifestou contra a russa quem não tem interesse financeiro na coisa. Andy Murray, despreocupado com o politicamente correto, deu uma declaração abrangente, que não inclui apenas Sharapova, mas que afeta a russa e, certamente, incomodou fãs de tênis (e também fãs apenas da russa) mundo afora. O presidente da FFT, por sua vez, sabe que Roland Garros não perde sem Maria ou quem quer que seja. Slams são slams, não importa quem joga. O torneio de 2016 não foi menos revelante sem ela ou até mesmo Roger Federer. O dinheiro entra de qualquer modo.

Difícil prever a esta altura o que será do retorno de Sharapova, mas se os interesses financeiros continuarem dando as cartas, é bem possível que a russa ganhe todos convites que pedir e, ainda assim, fique fora de Roland Garros – e, dependendo de seu ranking, de Wimbledon também.

Coisas que eu acho que acho:

– De qualquer maneira, Sharapova terá a chance de entrar em Roland Garros por méritos próprios. Para isso, precisa alcançar a final do WTA de Stuttgart. Assim, terá ranking para disputar o qualifying em Paris. Os pontos de Madri e Roma não contarão a tempo do slam francês, mas serão essenciais mais tarde, na definição da chave principal de Wimbledon.

– Tudo leva a crer que, para evitar alimentar o debate, Wimbledon anunciará sua posição no último minuto – se necessário. Afinal, não é tão improvável assim que Sharapova consiga pontos suficientes para estar na chave principal em Londres. A estimativa é de que ela consegue entrar direto se alcançar cerca de 650 pontos.

– É outro caso de moral/dinheiro, mas o mais estranho disso tudo, para mim, é mexer na programação de um torneio inteiro para facilitar a vida de um tenista que volta de suspensão por doping. Vai acontecer em Stuttgart. O torneio começa dia 24 de abril, mas Sharapova só estará apta a jogar no dia 26 (até o dia 25, ela não pode sequer pisar no local do evento). Com isso, um jogo de primeira rodada terá de ser realizado só na quarta-feira, quando o torneio normalmente já estaria nas oitavas de final. E, dependendo do sorteio, isso pode fazer com que uma cabeça de chave estreie apenas na quinta-feira (a chave lá tem 28 tenistas). Não seria inédito, mas tendo em mente o motivo para isso, pode incomodar bastante alguém se acontecer. De qualquer maneira, a Porsche, patrocinadora máster do evento, é também patrocinadora de Sharapova. E aí qualquer discussão sobre moral ou valores acaba sendo jogada janela afora.

– Um ponto curioso aqui é não vi ninguém citando o “benefício da dúvida” no caso do doping de Sharapova. A russa alegou que não sabia que meldonium havia entrado na lista de substâncias proibidas e isso foi levado em conta na arbitragem que diminuiu sua punição. O que talvez pese contra a ex-número 1 no meio tenístico é que ela sabia que o meldonium lhe dava benefícios físicos, por isso tomava doses maiores em partidas mais importantes – e isso foi constatado no julgamento. Mas se um diretor de torneio acredita genuinamente que Sharapova não se dopou de propósito, parece um tanto justo que um wild card funcione como instrumento do “benefício da dúvida”.

– Há alguma instabilidade no blog quanto aos links, mas todos estão ativos. Quem tiver interesse em ler os textos linkados aqui só precisa copiar e colar em outra aba de navegação.


Quadra 18: S02E13
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Alexandre Cossenza

Teve muito tênis na Ásia, mas também teve muita polêmica e assunto quente nos últimos dias. Primeiro, com a redução da pena por doping de Maria Sharapova e a consequente “briga de textões” entre a russa, a ITF e o empresário Max Eisenbud. Depois, com a notícia de que a Justiça Federal vai investigar Jorge Lacerda, presidente da CBT, e Dacio Campos, comentarista do SporTV. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu relatamos os fatos e damos nossas opiniões sobre o caso Maria e o cenário nebuloso do tênis brasileiro.

Mas este episódio do podcast é um pouco diferente. Aproveitando a presença de vários atletas do país no Challenger de Campinas e contando com participações mais do que especiais de Marcelo Melo (direto de Pequim) e Bruno Soares (direto de Tóquio), desvendamos as preferências dos tenistas no mundo pop. Música seriados, filmes e tudo mais. Para descobrir quem ouve Wesley Safadão e quem já fez maratona de Supernatural, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’20” – Sheila apresenta os temas, Aliny e Cossenza se apresentam
3’10” – O resumo do caso Sharapova e a redução de sua suspensão
3’55” – A resposta agressiva de Sharapova e a “tréplica” da ITF
6’00” – A decisão da Corte Arbitral do Esporte surpreendeu?
08’00” – O quanto a postura de Sharapova tem do elemento marketing?
08’45” – O quanto a imagem de Sharapova ficou prejudicada no circuito?
09’15” – A turnê de entrevistas mudou a opinião da maioria sobre o caso?
10’50” – Como o caso Lepchenko joga contra a justificativa de Sharapova
12’14” – “Faltou um pouquinho de humildade para a Maria”
14’22” – “O discurso da Sharapova é rancoroso e beira o mimado”
16’20” – A pior consequência desse caso de doping para Sharapova
17’40” – O resumo do caso envolvendo a denúncia do MP contra Jorge Lacerda
20’50” – As explicações de Lacerda, Dacio Campos e Ricardo Marzola
23’30” – O quanto o caso prejudica o tênis brasileiro
25’30” – The Currents (Bastille)
26’03” – Sheila introduz o bloco POP do podcast
26’21” – Marcelo Melo manda recado e fala sobre suas preferências
30’07” – “O Marcelo é a minha mãe”
32’47” – Bruno Soares fala de Ed Sheeran, Ben Affleck e Skank
37’50 – Thiago Monteiro cita Safadão, John Mayer, Breaking Bad e DiCaprio
40’45” – “Qual o filme preferido do DiCaprio de vocês?”
44’05” – Comentários aleatórios sobre Wesley Safadão
45’23” – Rogerinho fala de futebol no videogame, Rappa, cavaquinho e violão
48’05” – Prioridades: respondemos se Rogerinho joga FIFA ou PES
52’21” – Felipe Meligeni Alves fala de funk, Prison Break e filmes de terror
54’50” – “Assustador como o Felipe lembra o Fino”
56’11” – Zormann fala sobre Supernatural, Sherlock e Batman vs Super-Homem
58’53” – “Qual o filme do Batman preferido de vocês?”
61’17” – Quando Murray comemorou gravações de Sherlock
62’09” – Orlandinho fala sobre Drake, Ariana Grande, GOT e maratonas de seriados
65’00” – Nossas maratonas de seriados
67’20” – As preferências de Aliny Calejon
69’53” – Os preferidos de Alexandre Cossenza
72’24” – Sheila Vieira e suas preferências


Sharapova, agora ‘sem culpa significativa’
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Alexandre Cossenza

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Maria Sharapova teve sua punição por doping reduzida. Antes condenada a dois anos de suspensão por ingestão de meldonium (leia mais aqui), a tenista russa viu a Corte de Arbitragem do Esporte (CAS, na sigla original em francês) diminuir o período para 15 meses. Na prática, a ex-número 1 estará liberada para competir no fim de abril de 2017.

Mas o que mudou para que a punição fosse reduzida? Na prática, nada. Os relatos dos fatos foram os mesmos. A diferença está na interpretação da CAS. A Corte, que tradicionalmente reduz consideravelmente penas por doping, analisou que Sharapova não teve culpa significativa. Essa visão foi diferente da do tribunal independente formado pela ITF, que julgou a russa inicialmente.

Enquanto o tribunal considerou que Sharapova teve culpa significativa ao delegar a conferência de substâncias antidoping a seu empresário, Max Eisenbud, a CAS avaliou que que a opção pelo empresário foi razoável. Logo, a tenista não teve a tal “culpa significativa”. Por isso, optou por reduzir a pena.

Quanto a Eisenbud, a CAS considerou válida a escolha do empresário por uma série de fatores. Pesou a favor dele o histórico positivo de respeito às regras antidoping, seja preenchendo os formulários de whereabouts de Sharapova ou realizando pedidos de isenção de uso terapêutico. Além disso, a CAS enfatizou que ninguém precisa ter treinamento específico em antidoping para conferir se uma substância faz ou não parte de uma lista.

A CAS, entretanto, não deixou de apontar as falhas de Sharapova. Segundo o painel de árbitros, a russa não instruiu Eisenbud sobre como fazer tal conferência e não estabeleceu um procedimento para supervisionar o trabalho de seu empresário no quesito antidoping. Por isso, a CAS considerou que Sharapova teve “algum grau de culpa” e que ela mostrou “percepção reduzida do risco que estava correndo ao ingerir” meldonium.

Ranking zero

Agora, com a decisão do CAS, é possível falar com certeza. Sharapova estará liberada no fim de abril, e seu primeiro torneio deve acontecer em maio. Por ter ficado mais de um ano afastada, estará sem pontos e sem ranking. Precisará de wild cards para qualquer torneio. E será que algum evento negará? Difícil imaginar isso acontecendo, especialmente com um nome de peso que vende ingressos e leva público (e dinheiro) ao tênis.

Comemoração nível ‘absolvição’

No fundo, Sharapova ainda não se desapegou da raiva que tomou da ITF. Afinal, é a Federação, sempre, quem pede a punição nos casos de doping. Como fica claro no comunicado publicado nesta terça, a ex-número 1 do mundo ainda culpa parcialmente a ITF pelo seu doping. Para a tenista, a federação deveria ter avisado de forma mais enfática. “Aprendi muito e espero que a ITF também tenha aprendido. A CAS concluiu que ‘o painel [de arbitragem] determinou que não concorda com muitas das conclusões do Tribunal [da ITF]’…”

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A punição diminuiu, mas a mágoa ficou. Sharapova sempre assumiu a responsabilidade pela ingestão de meldonium, mas continua direcionando ataques contra a ITF. Não importa que nenhum outro caso semelhante tenha acontecido (nem Varvara Lepchenko, que usava meldonium, continuou a tomar a substância depois de 1º de janeiro, quando passou a integrar a lista de medicamentos proibidos), Sharapova continua falando como vítima da ITF. Não é bem essa a situação. E o fato de ela estar comemorando uma punição de “apenas” 15 meses diz muito sobre isso.


Os sete erros de Sharapova (e as doídas lições do tribunal)
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Alexandre Cossenza

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A notícia todo mundo já sabe. Maria Sharapova, flagrada em um exame antidoping durante o Australian Open, foi suspensa por dois anos e só poderá voltar a jogar tênis competitivo a partir de 25 de janeiro de 2018. O exame da tenista russa apontou a presença de meldonium, substância proibida desde 1º de janeiro deste ano. Nesta quarta-feira, a Federação Internacional de Tênis (ITF) divulgou a decisão do Tribunal Independente que julgou Sharapova.

O mistério, como o próprio tribunal delineou na decisão, era “como uma jogadora de elite na posição de Sharapova, com assistência de um time profissional incluindo o melhor aconselhamento esportivo e médico possível, se colocar na posição de tomar uma substância proibida, como admitido, antes de cada uma das cinco partidas que ela disputou no Australian Open.”

Muitas das respostas que Sharapova não deu naquela coletiva mal planejada do dia 7 de março vieram à tona agora. E foram muitas as falhas da tenista russa e de seu empresário, Max Eisenbud. O tribunal não perdoou. Vejamos, então, quais foram as falhas mais graves da ex-número 1 do mundo, como ela tentou se defender e como o tribunal reagiu às alegações.

1. Sharapova sabia que meldonium lhe dava benefícios esportivos

A própria defesa de Sharapova deixa isso claro apresenta uma dos recados do Dr. Anatoly Skalny, responsável por tratar a tenista russa em 2006 e prescrever uma lista de 18 substâncias a serem ingeridas. Uma delas era o meldonium. Em uma das mensagens, o Dr. Skalny especifica como o meldonium (ou Mildronate, seu nome comercial) deve ser ingerido. O médico recomenda a ingestão de dois comprimidos uma hora antes de partidas e, em caso de jogos de “especial importância”, três a quatro comprimidos.

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É bom ter em mente que naquela época meldonium não era uma substância proibida. No entanto, a prescrição detalhada sugere que Sharapova sabia, sim, que meldonium lhe dava benefício competitivo. Caso contrário, por que aumentar a dose em partidas mais importantes?

2. Automedicação

Sharapova continuou com acompanhamento do Dr. Skalny até 2012. Era ele que verificava se algum dos remédios prescritos fazia parta da lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada). Ele obtinha, anualmente, um certificado do centro antidoping de Moscou. O certificado mais recente apresentado por Sharapova data de 11 março de 2010. Naquela época, a lista de substâncias recomendadas pelo médico chegava a trinta (!).

No fim de 2012, Sharapova decidiu mudar o rumo de sua dieta nutricional. Cansada de tomar tantos comprimidos, dispensou o Dr. Skalny e passou a seguir as orientações de um nutricionista (Nick Harris). No entanto, a tenisya decidiu por conta própria continuar a tomar três das substâncias indicadas por Skalny: Magnerot, Riboxin e, sim, Mildronate.

Quando questionada sobre os motivos das três substâncias, Sharapova alegou apenas que o Dr. Skalny colocou ênfase especial nesses três medicamentos.

3. Segredo sobre a medicação

Não, a russa não consultou outro médico sobre o uso de meldonium. Ela também escondeu de seu nutricionista a continuidade com a substância. Segundo a defesa da tenista, apenas o pai de Sharapova e o empresário, Max Eisenbud, sabiam da ingestão de meldonium. O uso tampouco foi relatado pela ex-número 1 nos formulários de controle antidoping preenchidos por ela em 2014 e 2015.

A decisão do tribunal considerou que “sua omissão em relação às autoridades antidoping e sua própria equipe sobre o fato de ainda estar usando Mildronate em competição para melhoria de desempenho foi uma quebra muito séria de seu dever de cumprir com as regras. Sua conduta foi muito séria em termos de sua culpa moral e significativa no efeito causal da contravenção. Se ela tivesse sido transparente com as autoridades antidoping, seu time ou os médicos que consultou, é provável que ela teria sido avisada sobre a mudança na lista de substâncias proibidas e evitaria uma contravenção.”

Essa parte é realmente um mistério. Por que esconder a informação de tanta gente? Especialmente quando meldonium nem era uma substância proibida?

4. Falta de atenção quanto aos avisos sobre a mudança na lista da Wada

Essa todo mundo sabe. Embora Sharapova tenha escrito um textão questionando os “vários avisos” sobre a mudança na lista de substâncias proibidas, é inquestionável que houve várias oportunidades para que ela soubesse da alteração. O tribunal deixa isso bem claro em sua decisão, lembrando que a lista nova foi publicada em 29 de setembro de 2015 e que a lista incluía um resumo das principais modificações. A ITF publicou em seu site os mesmos documentos.

“Qualquer jogador que quisesse checar no site da ITF as mudanças na lista de substâncias proibidas era direcionado ao documento da Wada com o resumo das alterações. O documento declarava claramente que meldonium (Mildronate) havia sido adicionado à lista.”

Além disso, a ITF distribui anualmente um wallet card (um desses cartões como o de seguradoras e planos de saúde) que lista substâncias e métodos proibidos pela Wada. Sven Groeneveld, técnico de Sharapova, recebeu dois desses cartões em janeiro de 2016. Há versões diferentes sobre quando e onde isso aconteceu, mas ninguém contesta que Maria Sharapova não leu esse cartão nem em 2016 nem em anos anteriores.

5. Confiança excessiva no empresário

Essa é a parte mais surreal da história. O empresário de Sharapova classifica o episódio como um erro administrativo e assume a culpa. Era ele quem deveria ter conferido a lista de substâncias proibidas. Afinal, Eisenbud, sabe-se lá por que motivo, era o único do time que sabia da ingestão de meldonium.

Aqui, já há um contraste com a explicação dada por Sharapova na coletiva de março, quando a tenista assumiu a culpa por não ter verificado a lista por conta própria. Diante do tribunal, foi o empresário que ofereceu o pescoço à guilhotina. Mais uma tentativa, ao que parece, de reduzir o grau de culpa de sua galinha dos ovos de outro.

Mas a história fica mais estranha ainda quando Eisenbud explica seu costume de conferir a lista de substâncias proibidas, que consistia em sentar à beira de uma piscina no Caribe e conferir tudo que seus atletas estavam ingerindo.

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Em 2015, no entanto, Eisenbud se divorciou e não foi passar as férias no Caribe. Portanto, não fez a devida conferência. Conclui-se que Sharapova foi flagrada em um antidoping porque seu empresário não tirou férias no Caribe, então?

O tribunal não perdoou. A decisão diz que o empresário sabia da possibilidade de consultar a WTA para saber se um medicamento era permitido e questiona a capacidade de Eisenbud, que sequer “poderia ter começado a conferir as substâncias na lista”. O texto também indaga “por que seria necessário levar um arquivo ao Caribe para ler à beira da piscina quando um email poderia ter fornecido a resposta”.

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De novo: se era uma tentativa de aliviar parte da culpa da tenista, a defesa errou rude. O tribunal, em suas considerações finais, argumenta que “a maneira completamente inadequada com que ele [Eisenbud] alegou realizar suas conferências não chega perto de isentar o dever do jogador de cautela máxima.”

6. Espera por tratamento especial

A ex-número 1 argumentou que deveria ter recebido um alerta já que a ITF sabia – ou deveria saber – que Sharapova e vários outros tenistas usaram meldonium em 2015. Por isso, segundo a tenista, a entidade deveria ter tomado medidas especiais para avisá-la (e os outros atletas) sobre a adição de meldonium na lista.

A defesa da russa usa como base os 24 testes de tenistas que deram positivo para meldonium em 2015. O problema é que a ITF não sabia disso em dezembro de 2015. Os resultados só foram enviados para a entidade em março de 2016. Além disso, dos 24 testes positivos, cinco eram de Sharapova. Logo, como conclui o tribunal, “mesmo se a ITF houvesse sido notificada dos resultados dos testes do programa de monitoramento, não teria necessariamente concluído que havia no tênis, em contraste com outros esportes, amplo uso de meldonium.”

Neste caso específico, não fica totalmente claro se Sharapova, de fato, esperou tratamento especial por parte da ITF. Soa mais como um argumento que busca uma espécie de atenuante, tentando jogar parte da culpa para a federação. De qualquer modo, foi mais um fiasco retumbante.

7. Menosprezo quanto à importância dos formulários de antidoping

Quando um atleta se submete a um exame antidoping, precisa preencher um formulário listando todos medicamentos de que fez uso nos sete dias anteriores à coleta. Não, a Wada não espera que nenhum trapaceiro vá admitir estar fazendo uso de anabolizantes, por exemplo. Mas a omissão de meldonium por parte de Sharapova podia dar a entender que ela tinha intenção de trapacear.

Sharapova admitiu ter desprezado a lista. “Não achei que era uma responsabilidade ter de anotar cada match drink que estava tomando, cada gel ou vitamina que estava tomando, mesmo que tivesse acontecido só uma vez nos últimos sete dias. Não achei que fosse de grande importância.”

Nos formulários apresentados, Sharapova havia listado vitamina C, Omega 3, Biofenac, Voltaren, Veramyst e melatonina. “Na maioria dos casos, ela listou apenas duas dessas substâncias em cada formulário, então a lista não ficaria muito longa se ela incluísse Mildronate”, apontou a decisão. O texto do tribunal, aliás, foi incisivo:

“Se ela acreditasse que havia uma necessidade médica para usar Mildronate, teria consultado um médico. A maneira de seu uso, em dias de jogo e quando em intenso treinamento, só é consistente com a intenção de aumentar seus níveis de energia. Pode ser que ela genuinamente acreditasse que Mildronate tinha algum benefício geral sobre sua saúde, mas a maneira com que a medicação foi tomada, sua omissão das autoridades antidoping, sua falha ao revelar para seu próprio time, e a falta de qualquer justificativa médica deve levar inevitavelmente à conclusão de que ela tomou Mildronate para o propósito de melhorar seu desempenho.”

Coisas que eu acho que acho:

– De tudo que li nas 33 páginas do documento que explica o julgamento, vários argumentos usados pelos advogados de Sharapova são indefensáveis. O último deles é um apelo ao princípio da proporcionalidade, dizendo que qualquer período de inelegibilidade afetaria Sharapova de forma desproporcional, causando a ela uma perda substancial de renda e patrocínios, além da exclusão dos Jogos Olímpicos de 2016 e danos irreparáveis à sua reputação.

– O tribunal dá uma lição de moral na resposta, afirmando que “não há nada injusto na aplicação justa e igualitária das regras a esta jogadora como a qualquer outro atleta sujeito ao Código da Wada, seja profissional ou amador.”

– Dito tudo isto, Sharapova foi punida com dois anos porque seu doping foi considerado não intencional (e a Nike já até reativou o patrocínio). Ou seja, o tribunal considerou que, embora ela soubesse dos benefícios do meldonium, desconhecia a presença da substância na lista da Wada. Quando o doping é intencional, a punição pode chegar a quatro anos de suspensão.

– Em seu perfil no Facebook, Sharapova diz que não pode aceitar “uma suspensão injustamente dura de dois anos” e que vai apelar à Corte Arbitral do Esporte (CAS).


RG, dia 5: Nadal passeia, Djokovic faz força, e Serena derruba Teliana
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Alexandre Cossenza

O quinto dia de Roland Garros foi mais uma jornada boa para os favoritos. Rafael Nadal atropelou o argentino Facundo Bagnis e, pouco depois, Novak Djokovic passou em três sets, mas cometendo 42 erros não forçados. Serena Williams também triunfou, fazendo como vítima a brasileira Teliana Pereira. O resumo do dia traz análises dos três nomes principais e lembra as cabeças que rolaram, o susto de Tsonga, o barraco envolvendo Alizé Cornet e informações sobre como a ITF mudará sua postura em casos de doping. De bônus, mais um vídeo de Guga e um imperdível guia de pronúncia.

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O jogo mais esperado

A tarefa era difícil. Encarar Serena Williams (#1), atual campeã de Roland Garros e dona de 749 títulos (ou algo assim) na carreira , na quadra Suzanne Lenglen, a segunda maior do complexo francês. Teliana Pereira (#81) começou a partida nada bem, perdendo dois saques seguidos, errando bolas que não costuma errar e vendo Serena ser… Serena.

Aos poucos, porém, a brasileira foi se sentindo mais à vontade e conseguindo entrar em alguns ralis. Comandar os pontos era quase impossível, mas Teliana tentou uma curtinha aqui e outra ali, arriscou paralelas e fez o que podia fazer. No fim, a número 1 do mundo venceu por 6/2 e 6/1, em 1h06min, um placar que reflete a diferença de nível entre as duas tenistas.

A página de estatísticas registra 31 winners de Serena contra seis de Teliana, que cometeu 15 erros não forçados contra 17 da americana. Mais uma vez, o frágil saque da brasileira pesou. Diante da melhor devolução do mundo, Teliana venceu menos da metade dos pontos com seu serviço. Foram 21/45 com o primeiro saque e 6/17 com o segundo.

Serena avança à terceira rodada para enfrentar a francesa Kristina Mladenovic (#30), que passou pela húngara Timea Babos (#45) por 6/4 e 6/3.

Os outros favoritos

Rafael Nadal (#5) teve dois games ruins, que foram os dois primeiros do jogo contra Facundo Bagnis (#99). Depois disso, venceu 18 games, perdeu quatro e foi muito, muito sólido, sem deixar a agressividade de lado. Não que o adversário tenha dado trabalho, mas dá para notar que o espanhol vem evoluindo a cada dia. Nesta quinta, foram apenas 18 erros não forçados em três sets. Considerando que seis dessas falhas vieram nos dois games iniciais, dá para ter uma ideia de sua consistência durante a maior parte do encontro.

Depois de sua 200ª vitória em Slams, Nadal enfrentará o compatriota Marcel Granollers (#56), que chega aonde Fabio Fognini deveria estar agora. O italiano, no entanto, tombou na estreia diante do próprio Granollers, que avançou nesta quinta após a desistência do francês Nicolas Mahut (#44), que deixou a quadra quando perdia por 6/3, 6/2 e 1/0.

Enquanto Nadal saía da Chatrier, Novak Djokovic (#1) entrava na Suzanne Lenglen, a segunda maior quadra do complexo de Roland Garros. Seu jogo contra o belga Steve Darcis (#161) até teve emoção, mas muito mais pelos erros do sérvio do que por uma partida espetacular do belga. É bem verdade que Darcis fez uma apresentação bastante digna e tentou todos os golpes de seu pacote, mas foram os 42 erros não forçados do número 1 que mantiveram o jogo relativamente parelho.

Djokovic, porém, foi superior sempre que a necessidade se apresentou e só precisou de três sets para avançar: 7/5, 6/3 e 6/4. O sérvio, em busca de seu primeiro título em Roland Garros, enfrenta a seguir o britânico Aljaz Bedene (#66), que venceu um jogo de cinco sets contra o espanhol Pablo Carreño Busta: 7/6(4), 6/3, 4/6, 5/7 e 6/2.

Os brasileiros nas duplas

Primeiro a entrar em quadra, Bruno Soares venceu sem problemas. Ele e Jamie Muray passaram por Evgeny Donskoy e Andrey Kuznetsov por duplo 6/3. Pouco depois, Marcelo Melo e Ivan Dodig também avançaram rápido. Os atuais campeões de Roland Garros fizeram 6/0 e 6/3 em cima de Robin Haase e Viktor Troicki.

Thomaz Bellucci também esteve em quadra pela chave de duplas e já se despediu. Ele e Martin Klizan foram superados por Vasek Pospisil e Jack Sock por 6/1 e 7/5.

O barraco

A confusão da quinta-feira veio no fim do dia, no duríssimo jogo entre Alizé Cornet (#50) e Tatjana Maria (#111). A tenista da casa, com um público barulhento a favor, venceu por 6/3, 6/7(5) e 6/4, mas a alemã não ficou nada feliz com a postura de Cornet. Na hora do cumprimento junto à rede, Maria apontou o dedo como quem dizia não acreditar nas dores que Cornet dizia vir sentindo.

Depois de sair da quadra, Maria declarou, segundo o jornalista Ben Rothenberh, que Cornet não agiu como fair play. A alemã disse que a francesa tinha cãibras e pediu atendimento médico na perna esquerda por causa disso. Vale lembrar que o regulamento não permite tratamento para cãibras, mas o fisioterapeuta deve entrar em quadra e atender o atleta que diz sentir dores.

Correndo por fora

Semifinalista no ano passado, Timea Bacsinszky (#9) abriu a programação da Chatrier nesta quinta com um jogo um tanto estranho diante de Eugenie Bouchard (#47), semifinalista em 2014. Primeiro, a canadense abriu 4/1. Depois, a suíça venceu dez games seguidos, abrindo 6/4 e 5/0. O triunfo parecia encaminhado, mas Bouchard venceu quatro games e teve dois break points para empatar o segundo set. Bacsinszky, porém, se salvou a tempo e fechou o jogo: 6/4 e 6/4.

A suíça será favorita pelo menos até a próxima rodada quando enfrentará Pauline Parmentier (#88) ou Irina Falconi (#63). O duelo mais esperado nessa seção da chave será nas oitavas, contra Venus Williams (#11), que passou pela compatriota Louisa Chirico (#78) nesta quinta. Para chegar até Bacsinszky, contudo, a ex-número 1 ainda precisará passar por Alizé Cornet (#50).

Outras vitórias de nomes que correm por fora em Roland Garros incluem Ana Ivanovic (#16), que passou pela japonesa Kurumi Nara (#91) por 7/5 e 6/1; Carla Suárez Navarro (#14), que bateu a chinesa Qiang Wang (#74) por 6/1 e 6/3; Dominika Cibulkova (#25), que derrotou por Ana Konjuh (#76) por 6/4, 3/6 e 6/0; Venus Williams (#11), que eliminou Louisa Chirico (#78) por 6/2 e 6/1; e Madison Keys (#17), que superou por Mariana Duque Mariño (#75) por 6/3 e 6/2.

Entre os homens, Tomas Berdych (#8) precisou de quatro sets para superar o tunisiano Malek Jaziri (#72) com 6/1, 2/6, 6/2 e 6/4 e marcar um interessante duelo com Pablo Cuevas (#27), que passou pelo francês Quentin Halys (#154) por apertados 7/6(4), 6/3 e 7/6(6). Tcheco e uruguaio só se enfrentam antes, com vitória de Cuevas. No saibro, piso preferido do sul-americano, o resultado será igual? Parece uma ótima chance para Cuevas alcançar as oitavas de Roland Garros pela primeira vez na carreira.

Dominic Thiem (#15) também manteve o embalo e conquistou sua sexta vitória seguida, já que vem do título do ATP 250 de Nice. Nesta quinta, a vítima foi o espanhol Guillermo García López (#51), que ofereceu alguma resistência, mas sucumbiu em todos momentos importantes e caiu por 7/5, 6/4 e 7/6(3). Será a primeira vez de Thiem na terceira rodada em Paris, e seu oponente será Alexander Zverev (#41), o mesmo da final de Nice. É, sem dúvida, um dos duelos mais interessantes da terceira rodada.

David Goffin (#13) também marcou um duelo quentíssimo com Nicolás Almagro (#49) para a terceira rodada. Enquanto o belga passou por Carlos Berlocq (#126) por 7/5, 6/1 e 6/4, o espanhol bateu o tcheco Jiri Vesely (#60), aquele que tirou Djokovic de Monte Carlo, por 6/4, 6/4 e 6/3. Almagro, vale lembrar, vem em um momento interessante. Um ano atrás, brigava para estar entre os 150 do mundo. Hoje, depois do título em Estoril, já está no top 50 e jogando um nível de tênis de deixar qualquer cabeça de chave preocupado nas rodadas iniciais de um Slam.

Por último, David Ferrer (#11) bateu Juan Mónaco (#92) depois de perder o primeiro set: 6/7(4), 6/3, 6/4 e 6/2. Ele completou a parte de cima da chave, formando um interessante duelo espanhol com Feliciano López (#23), que vem de vitória sobre o dominicano Victor Estrella Burgos (#87): 6/3, 7/6(8) e 6/3.

Os favoritos nas mistas

Fortes candidatos ao título de duplas mistas , Leander Paes e Martina Hingis venceram sua estreia, fazendo 6/4 e 6/4 sobre Anna Lena Groenefeld e Robert Farah. Mais importante que o resultado, entretanto, é a imagem abaixo, registrando o sorriso mais carismático da antiga Calcutá. Apreciem:

Bruno Soares e Elena Vesnina, campeões do Australian Open e cabeças de chave número 5 em Roland Garros, também estrearam com vitória e derrotaram Abigail Spears e Juan Sebastián Cabal por 6/4 e 6/2. Brasileiro e russa podem enfrentar Hingis e Paes nas quartas de final. Antes, suíça e indiano precisam passar por Yaroslava Shvedova e Florin Mergea, cabeças 4 do torneio.

O susto

Entre os principais cabeças de chave, o único que passou aperto foi Jo-Wilfried Tsonga (#7), que viu Marcos Baghdatis (#39) abrir 2 sets a 0. O tenista da casa, que perdeu um set point na primeira parcial e teve uma quebra de vantagem no segundo set, se recuperou a tempo de evitar a zebra. A partir do terceiro set, esteve sempre à frente do placar e, no fim, triunfou por 6/7(6), 3/6, 6/3, 6/2 e 6/2.

Foi a primeira vez na carreira, depois de 55 jogos, que Baghdatis perdeu uma partida após abrir 2 sets a 0. Não que fosse uma catástrofe uma derrota de Tsonga a essa altura. Fora derrotar Roger Federer (fora de forma) em Monte Carlo, o francês pouco fez para chegar como grande credenciado a brigar pelo título. O próximo jogo, contra um aparentemente motivado Ernests Gulbis (#80), que vem de uma importante vitória sobre João Sousa (#29), promete ser interessante.

As cabeças que rolaram

Além da já mencionada queda de João Sousa, um resultado interessante do dia foi a vitória de Borna Coric (#47) sobre Bernard Tomic (#22) em quatro sets: 3/6, 6/2, 7/6(4) e 7/6(6). O croata repete sua melhor campanha em um Slam (também foi à terceira fase em Paris no ano passado) e terá uma chance interessante de ir às oitavas pela primeira vez. Seu próximo oponente será Roberto Bautista Agut (#16), que passou pelo francês imortal Paul-Henri Mathieu (#65) por 7/6(5), 6/4 e 6/1. Coric venceu o último jogo entre eles (Chennai/2016), mas o espanhol venceu os dois duelos anteriores no saibro.

Na chave feminina, Andrea Petkovic (#31) deu adeus ao cair diante da cazaque Yulia Putintseva (#60): 6/2 e 6/2, em pouco mais de 1h30min. O jogo foi mais duro do que o placar indica e teve vários games apertados, com muitas igualdades. Putintseva levou a melhor na maioria deles e agora chega à terceira fase de um Slam pela segunda vez na carreira. Ela enfrenta na sequência a italiana Karin Knapp (#118), que aproveitou o embalo com a vitória sobre Victoria Azarenka e derrotou, nesta quinta, a letã Anastasija Sevastova (#87): 6/3 e 6/4.

Leitura recomendada

A Federação Internacional de Tênis (ITF) mudará seu procedimento em relação a resultados positivos em exames antidoping. Segundo David Haggerty, presidente da entidade, disse que os anúncios passarão a ser imediatos. Hoje, a ITF tem por hábito revelar os resultados apenas depois de uma audiência com o atleta. O procedimento atual é cauteloso – tem como objetivo poupar os jogadores -, mas cria mistério quando alguém fica sem jogar por algum período, sem motivo aparente. Foi o que aconteceu recentemente com o brasileiro Marcelo Demoliner.

Haggerty fala que a mudança é em nome da transparência. Leia mais nesta reportagem do Telegraph (em inglês).

Audição recomendada

O Forvo, site que consulto há alguns anos para conferir pronúncias de tenistas, preparou uma página especial para Roland Garros. Ela tem a pronúncia na língua nativa dos nomes de muitos atletas e até da terminologia do tênis em francês. Veja o link no tweet abaixo.

Fanfarronices publicitárias

A campanha da Peugeot com Guga teve seu mais recente episódio com Jo-Wilfried Tsonga. Assim como Bellucci, o francês também experimentou a peruca.


Semana 20: o embalo de Stan e o que rolou às vésperas de Roland Garros
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Alexandre Cossenza

Com Roland Garros começando já neste domingo, o preparo dos guiazões e a edição do podcast Quadra 18, o resumaço da semana sai um pouco mais curto do que o normal, mas ainda lembra dos campeões do período e de quem ganha embalo às vésperas do torneio francês.

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Os campeões

Em condições normais, Stan Wawrinka nem deveria estar em quadra nesta semana, mas as campanha ruins nos Masters de saibro e a chance de jogar em casa o levaram ao ATP 250 de Genebra. O suíço, então, finalmente conquistou um título em seu próprio país. Neste domingo, Wawrinka derrotou Marin Cilic por 6/4 e 7/6(11), com direito a uma bela virada no segundo set, que o croata vencia por 4/1.

Estar em quadra na véspera do início do Slam francês talvez não seja a preparação ideal para o atual campeão de Roland Garros, mas certamente, como a ATP escreveu em seu site, preenche um buraco no currículo do suíço. Além disso, uma sequência de quatro vitórias antes de um evento tão importante não é nada mau.

No ATP 250 de Nice, o título ficou com Dominic Thiem, o rei dos 250. O austríaco, aliás, também venceu o torneio no ano passado. O garotão de 22 anos, #15 do mundo, agora soma seis títulos na carreira: Nice, Umag e Gstaad no ano passado; e Buenos Aires, Acapulco e Nice este ano. De todos esses, Acapulco foi o único fora do saibro e também o único ATP 500. A final deste sábado foi contra o adolescente alemão Alexander Zverev (#48), de 19 anos, e o placar final mostrou 6/4, 3/6 e 6/0.

As campeãs

No WTA International de Nuremberg, Kiki Bertens derrotou Mariana Duque Mariño por 6/2 e 6/2 na final, que durou pouco mais de uma hora. Foi uma campanha interessante da holandesa, que furou o qualifying e derrotou no caminho até o título a cabeça 1, Roberta Vinci, a americana Iriina Falconi (abandono), e alemã Julia Goerges e, por fim, Duque Mariño, responsável por derrotar a cabeça e, Laura Siegemund.

No WTA International de Estrasburgo, a tenista da casa Caroline Garcia deu à torcida motivo para festejar. A francesa derrotou Mirjana Lucic Baroni na final, por 6/4 e 6/1. Foi seu segundo título na carreira. O anterior veio no WTA de Bogotá do ano passado. No caminho até o título, a tenista de 22 anos eliminou Kirsten Flipkens, Jil Belen Teichmann, Sam Stosur (WO), Virginie Razzano e Lucic Baroni.

A cabeça 1, Sara Errani, caiu logo na estreia diante de Monica Puig, enquanto a segunda pré-classificada, Sloane Stephens, venceu um jogo, mas perdeu nas oitavas para a wild card Pauline Parmentier.

Os brasileiros

Para a maioria dos brasileiros, a semana não poderia ter sido pior. No WTA de Nuremberg, Teliana Pereira (#81) foi eliminada na estreia. A algoz foi a alemã Annika Beck (#42), a mesma que já havia sido derrotada pela brasileira duas vezes este ano. A pernambucana agra soma três vitórias e 13 reveses na temporada.

Em Genebra, Thomaz Bellucci defendia o título e não passou da segunda rodada. O paulista chegou a abrir 3/2 e sacar em 40/15 no primeiro set contra Federico Delbonis, mas não fechou nenhum game depois disso. O argentino venceu dez games seguidos e triunfou por 6/3 e 6/0. Com os pontos não defendidos, Bellucci despencou 18 posições no ranking, saindo do top 50 e indo parar em 57º.

Entre os duplistas, o único que entrou em quadra foi André Sá. Ele e Chris Guccione foram derrotados na estreia em Nice. Os algozes foram os suecos Johan Brunstrom e Andreas Siljestrom, que venceram no match tie-break: 6/2, 5/7 e 10/3.

O breve qualifying brasileiro

No qualifying de Roland Garros, os homens pouco fizeram. Todos acabaram eliminados na primeira rodada. Feijão tombou diante de Andrea Arnaboldi (#174) por 6/3 e 6/2, André Ghem foi superado por Henri Laaksonen (#190) por 7/6(5), 6/7(5) e 6/2, Guilherme Clezar perdeu para Francis Tiafoe (#188) por 1/6, 7/5 e 6/2, e Thiago Monteiro foi derrotado por Ruben Bemelmans (#186) por duplo 6/3.

No qualifying feminino, Paula Gonçalves também perdeu na primeira rodada. Sua algoz foi a holandesa Richel Hogenkamp (#139), que fez 6/3 e 6/4. O único triunfo brasileiro veio com Bia Haddad, que passou pela australiana Olivia Rogowska (#348) por 3/6, 6/3 e 6/4. A paulista, #332 do mundo, foi eliminada na segunda rodada pela americana Jennifer Brady: 6/3 e 6/4.

O doping

A ITF anunciou na sexta-feira que Marcelo Demoliner foi flagrado em um exame antidoping no dia 22 de janeiro, durante o Australian Open. A amostra de urina continha hidroclorotiazida, que faz parte do grupo de diuréticos e agentes mascarantes (aqueles que tornam mais difícil detectar outras substâncias proibidas). Segundo a ITF publicou em seu site, Demoliner admitiu a violação e foi suspenso por por três meses, a contar do dia 1º de fevereiro. O gaúcho perdeu os pontos e o prêmio em dinheiro adquiridos desde o Australian Open.

A chama acesa

Enquanto isso tudo acontecia, Bruno Soares deu um pulo no Brasil para carregar a tocha olímpica em Vitória (ES). Por que Vitória? Porque foi a data que o mineiro conseguiu encaixar em seu calendário antes de embarcar para Roland Garros.

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As desistências

Uma notícia que não se lê todo dia, ou melhor, que nunca se leu antes. Roger Federer decidiu não disputar um Slam. Ainda não recuperado fisicamente, o suíço anunciou que não jogará em Paris. Preferiu não arriscar e disse que, ao não jogar Roland Garros, estará garantindo que poderá atuar pelo resto da temporada e alongar sua carreira. Prometeu voltar nos torneios de grama e disse que estará de volta a Roland Garros em 2017.

Roger Federer é o recordista em Slams disputados de forma consecutiva. Foram 65 deles desde o Australian Open de 2000.

Entre as mulheres, Caroline Wozniacki decidiu não jogar em Roland Garros por causa de uma lesão no tornozelo. Ela se junta na lista de desistências à suíça Belinda Bencic, que vem sofrendo com um problema nas costas.

Fanfarronice publicitária

Na campanha da Peugeot para Roland Garros, Gustavo Kuerten e Novak Djokovic gravaram algumas cenas juntos e, aparentemente, se divertiram bastante nos intervalos. No vídeo abaixo, o sérvio aprende algumas frases em português.


Quadra 18: S02E04
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Alexandre Cossenza

O CEO de Indian Wells disse que as tenistas de hoje deveriam ajoelhar e agradecer por Roger Federer e Rafael Nadal terem nascido. Em seguida, Novak Djokovic reacendeu a polêmica da igualdade de prêmios entre homens e mulheres. No meio disso tudo, Victoria Azarenka derrotou Serena Williams em uma final, enquanto o número 1 do mundo venceu mais um Masters 1.000. Nas duplas, Marcelo Melo ficou a dois pontos de perder a liderança do ranking.

Com tudo isso para comentar, Sheila Vieira e eu (a Aliny estava se recuperando de uma lesão) gravamos este episódio do podcast Quadra 18, que cobre todos assuntos acima e ainda fala do doping de Maria Sharapova. Quer ouvir? É só clicar neste link. Se preferir baixar e ouvir depois, clique com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’14” – Sheila apresenta e lista os assuntos do dia e explica a ausência da Aliny
2’25” – Os comentários polêmicos do CEO de Indian Wells sobre a WTA
3’00” – “Bilionário que fica no camarote com uma menina de 12 anos”
8’08” – Cossenza: “A WTA tem uma parcela de culpa porque vendeu essa imagem durante algum tempo”
9’50” – As respostas de Azarenka e Serena
12’11” – Djokovic entra no assunto e provoca mais polêmica sobre premiação igual
13’40” – “Ele acabou de aplaudir as meninas, mas acha que homens devem lutar por um prêmio maior”
14’42” – Sheila: “Amigo, desce do muro”
16’30” – “Um dia, vou entender esse tabu para falar de menstruação”
17’25” – Cossenza fala sobre bastidores de negociação por prize money
19’30” – Cossenza concorda parcialmente com o raciocínio Djokovic, mas diz porque soa absurdo.
22’20” – Sheila cita história de limites impostos pela sociedade
23’20” – Maioria dos investimentos feitos no esporte são decididos por homens
26’05” – Sheila analisa a final entre Serena x Azarenka
28’25” – Cossenza lembra do point penalty e o risco de desclassificação de Serena
30’30” – O novo top 10 feminino e a volta de Azarenka
32’15” – O torneio masculino de Indian Wells e a conquista de Djokovic
33’00” – Djokovic x Nadal, a final antecipada, e a evolução do espanhol
34’45” – A fragilidade no saque, o principal problema de Rafa Nadal
36’30” – A decepção do torneio: Wawrinka ou Murray?
38’27” – A curiosa e “espetacular” Corrida para o Finals
40’05” – Nice Guys Finish Last (Green Day)
40’40” – Início do segundo bloco
40’56” – Áudio de Marcelo Melo e sua importante declaração
41’10” – Como o mineiro quase perdeu o posto de #1 do mundo
42’48” – As chances de Jamie Murray em Miami
45’05” – Os campeões de duplas em Indian Wells
45’20” – André Sá, vice-campeão do Challenger de Irving
46’30” – Bellucci, Rogerinho e Thiago Monteiro
48’10” – Sobre a cobrança e a expectativa em cima de Monteiro
50’00” – O duelo entre Bia e Teliana em Miami: bom ou ruim?
51’09” – Sheila: “A única maneira de lidar com essa loucura é fazer piada”
52’55” – A volta de Roger Federer e as mudanças em seu calendário
54’02” – A importância de ser número 2 do mundo para Federer
54’55” – O caso de doping de Maria Sharapova
57’40” – Sheila e Cossenza tentam adivinhar a punição de Sharapova
62’32” – A chance de Sharapova disputar os Jogos Olímpicos

Créditos musicais

A faixa de abertura é chamada “Rock Funk Beast”, de longzijum. Em seguida, entram Nice Guys Finish Last (Green Day) e Game Set Match (YouTube Audio Libraby).


O doping de Sharapova: há mais atenuantes ou agravantes?
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Alexandre Cossenza

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Maria Sharapova testou positivo para meldonium, substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (Wada) desde 1º de janeiro de 2016. Sim, isso todo mundo já sabe. O planeta inteiro também já sabe que a tenista russa deu uma coletiva, disse tomar a substância há dez anos e assumiu a responsabilidade por não ter conferido a lista atualizada pela Wada. Segundo Sharapova, o doping foi resultado de um descuido, uma negligência, sem a intenção de melhorar seu desempenho.

A questão toda é que menos de 48 horas depois, muitas informações vieram à tona, e quase nenhuma delas favorece a versão dada pela ex-número 1 do mundo. E como Sharapova preferiu dar a notícia antes que a ITF se manifestasse, os (poucos) jornalistas presentes na coletiva foram pegos de surpresa. Não se sabia (e mal havia) o que perguntar no dia. Agora, com informações apuradas e reações nada favoráveis dos patrocinadores, um punhado de perguntas fica sem resposta da tenista russa, o que não é nada bom para ela. Vejamos o que ficou no ar.

1. Por que meldonium?

O remédio tomado por Sharapova é proibido para consumo humano nos Estados Unidos. Ainda assim, a russa, que mora no país, fez uso dele por dez anos. Tudo bem, meldonium pode ser comprado sem prescrição no leste europeu. O que soa estranho é que Sharapova e seu advogado, que deu entrevistas após a coletiva, nunca especificaram o motivo da ingestão de meldonium.

A ex-número 1 disse apenas que “ficava doente com muita frequência, tinha deficiência de magnésio, resultados irregulares em eletrocardiogramas e um histórico familiar de diabetes. Foi um dos medicamentos, junto com vários outros, que recebi.” A explicação nada específica levanta as seguintes perguntas:

– Durante esses dez anos, Sharapova nunca se interessou em saber quais medicamentos tratavam quais sintomas?

– Sharapova tomou todos esses “vários” (palavra dela) medicamentos durante esses dez anos? Se não tomou, seria fácil apontar o motivo do meldonium.

– Se Sharapova sabe, por que não especificou na coletiva a função do meldonium em seu tratamento? Se não sabe, não parece curioso esse desconhecimento depois de dez anos tomando o mesmo medicamento?

O que soou especialmente mal para Sharapova depois da coletiva é que o fabricante – uma empresa da Letônia chamada Grindeks – do meldonium disse que um tratamento normal com a substância dura de quatro a seis semanas e que o processo pode ser repetido duas ou três vezes por ano.

Meldonium costuma ser receitado para problemas cardíacos, e Sharapova citou, entre todos aqueles sintomas, resultados irregulares em eletrocardiogramas. Supondo que seja esse o motivo pelo qual ela ingeriu meldonium, ainda soa estranho que ela tenha feito uso da substância durante dez anos. Mas Sharapova nunca foi específica sobre o motivo do uso de meldonium. Por quê?

2. Os avisos ignorados

Sharapova disse que recebeu um email da Wada no dia 22 de dezembro. O texto informava sobre mudanças na lista de substâncias proibidas, mas a tenista afirmou que não clicou no link e não conferiu se alguma das alterações lhe afetaria.

Essa foi a versão da russa. Nesta quarta-feira, o jornal inglês “The Times” publica que autoridades do tênis avisaram em pelo menos cinco ocasiões que meldonium seria adicionado à lista. Mesmo que Sharapova tivesse ignorado esses cinco comunicados, ela ainda poderia ter visto o texto da Agência Russa Antidoping, que informou seus atletas no dia 30 de setembro – três meses antes (!!!) de a nova lista entrar em vigor – especificamente sobre o uso de meldonium.

Ainda sobre a questão, vale ler as declarações de Dick Pound, presidente da Wada de 1999 a 2007. Ele afirma que Sharapova foi indescritivelmente imprudente. “Sempre que há uma mudança na lista, um aviso é dado em 30 de setembro. Você tem outubro, novembro e dezembro para parar o que estiver fazendo.”

Pound também fala em termos gerais sobre como substâncias se tornam preferidas entre atletas que se dopam. Vale ler este link do “Guardian”.

3. Os patrocinadores

Essa foi a questão que mais me pegou de surpresa. No mesmo dia da coletiva, a Nike, parceira de Sharapova desde a adolescência (pré-Wimbledon/2004), anunciou que estava “suspendendo a relação” com a tenista. O que quer que isso queira dizer, não significa romper ou suspender contrato. Aparentemente, significa apenas uma interrupção das campanhas publicitárias até que a ex-número 1 seja julgada e que haja uma sentença.

A Porsche, com quem Sharapova tem um contrato de três anos assinado em 2013, foi mais específica e declarou estar suspendendo as atividades promocionais com a atleta. Por fim, a Tag Heuer, patrocinadora da russa desde 2004, anunciou unilateralmente o término das negociações para renovação do contrato terminado em 31 de dezembro do ano passado.

É especialmente intrigante a velocidade com que as marcas se manifestaram – e a Sheila Vieira fez um bom texto sobre isso no Storia, citando os casos de Oscar Pistorius, Ray Rice, Kobe Bryant, Tiger Woods, Manny Pacquiao, Lance Armstrong e Justin Gatlin, todos envolvendo a Nike.

Cada caso, claro, tem sua particularidade. O fato é que Sharapova disse que seu doping foi fruto de um erro, um vacilo. Nada intencional, segundo ela. Ainda assim, a Nike levou apenas oito horas (!!!) para se manifestar neste caso. Sim, a rapidez da marca pode ser resultado do trauma do gato escaldado, mas estranha que uma “parceira” (as marcas se rotulam assim nas vitórias, não?) não tenha comprado a versão de sua atleta.

E se uma marca gigante se posiciona tão rapidamente de modo a gerar desconfiança sobre sua atleta, é justo que muitos fiquem imaginando se a Nike (como a Porsche e a Tag Heuer) sabe de alguma coisa que ainda não chegou ao público. E quem sai chamuscado disso tudo é a imagem de Sharapova.

4. A punição

É o que todo mundo quer saber, não? A letra da lei diz que doping intencional pode dar até quatro anos de suspensão. A modalidade não-intencional prevê até dois anos fora das quadras. Em todo caso, há que se considerar também fatores atenuantes. Difícil “chutar” uma punição para Sharapova sem acompanhar os argumentos da defesa. Por enquanto, consideremos o seguinte:

É importante notar que o teste positivo de Sharapova passa o recado de que o tênis não protege seus grandes nomes. Se o nome que mais gera dinheiro em publicidade no tênis feminino pode ser flagrado, qualquer um pode. A questão agora é que, para reforçar esse recado e fortalecer a imagem do tênis, a punição precisa ratificar esse raciocínio. Flagrar Sharapova e aplicar uma sentença de três meses de suspensão seria enfraquecer a imagem do esporte. A punição precisa ser exemplar (o que não significa necessariamente ser excessivamente severa).

Tudo é questão de como o julgamento será conduzido e de como a defesa de Sharapova atuará. Pelo que se viu até agora, espera-se que o time da russa tente fazer prevalecer a versão de que foi um descuido, afastando qualquer possibilidade de má-fé na ingestão do meldonium. Isso garantiria uma pena menor.

O que pode jogar contra Sharapova é a questão dos dez anos fazendo uso da substância. A meu ver, a russa precisa ser específica quanto aos motivos de um tratamento tão longo. Caso não seja, deixará margem para que o tribunal (e, posteriormente, o público) acredite que Sharapova sabia dos benefícios do meldonium na prática esportiva. E aí, ainda que o medicamento não fosse proibido durante todo esse tempo, a defesa terá uma dificuldade enorme para emplacar a tese de descuido e boa fé.


O preço do descuido de Sharapova
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Alexandre Cossenza

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Em uma coletiva cheia de expectativa e mistério, Maria Sharapova anunciou, nesta segunda-feira, ter testado positivo para uma substância proibida durante um exame antidoping realizado no Australian Open. A substância em questão chama-se meldonium e faz parte da lista da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) desde o dia 1º de janeiro de 2016.

“Assumo inteira responsabilidade por isso”, disse a ex-número 1 do mundo, que explicou tomar a mesma medicação há dez anos (desde 2006) para tratar várias questões de saúde. “Em 1º de janeiro, as regras mudaram, e meldonium se tornou uma substância proibida, o que eu não sabia.” … “Cometi um grande erro.” Sharapova, 28 anos, ainda disse não esperar encerrar a carreira deste modo e torcer para receber uma segunda chance.

Importante ressaltar que a tenista, como sempre fez, não empurrou a culpa para ninguém. Deu a cara a bater e declarou que “é meu corpo, é o que coloco no meu corpo. Não posso culpar ninguém além de mim mesma. Não importa com quem eu trabalhe, é muito importante ter um grande time ao redor, com técnicos e médicos, mas no fim das contas, é tudo sobre você.”

Não importa quem seja o principal responsável na equipe de Sharapova por ler a lista da Wada, trata-se de uma falha imperdoável que vai custar caro à tenista. As substâncias proibidas estão em um livreto de oito páginas. Não é uma consulta tão demorada assim. Meldonium está citado na seção de moduladores metabólicos e hormonais. É o item 5.3, especificado como modulador metabólico.

Por enquanto, Sharapova cumpre uma suspensão provisória que começa a contar no dia 12 de março e corre até que o caso seja avaliado, julgado e que a punição definitiva seja determinada. É bastante provável que a ex-número 1 do mundo perca os 430 pontos conquistados em Melbourne e tenha de devolver os US$ 281.663 recebidos pela campanha em que alcançou as quartas de final. Atual número 7 do mundo, a russa cairia para o 11º posto no ranking de hoje.

Fora isso, é de se imaginar que a punição não seja das mais severas. Além do histórico favorável, sem antecedentes, Sharapova pode provar que tomava o medicamento anteriormente e que o teste positivo foi resultado de um descuido – e não de uma intenção de melhorar seu desempenho. Isso costuma pesar bastante a favor de atletas em casos assim.

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Coisas que eu acho que acho:

– Sobre os motivos para começar a tomar a substância, ainda em 2006, Sharapova foi pouco específica e disse que lidava com várias questões de saúde: “Eu ficava doente com muita frequência, tinha deficiência de magnésio, resultados irregulares em eletrocardiogramas e um histórico familiar de diabetes. Foi um dos medicamentos, junto com vários outros, que recebi.” Não ficou claro o porquê de tomar o mesmo medicamento durante dez anos, mas talvez pouco importe no julgamento, já que a substância sempre foi permitida pela Wada.

– É admirável da parte de Sharapova não empurrar a culpa para ninguém de seu time. A postura é a mesma que adota quando sai de quadra derrotada: sem desculpas. Ao mesmo tempo, do ponto de vista mercadológico, pegaria muito mal responsabilizar quem quer que fosse. Passaria a imagem de uma menina mimada que precisa de um grupo de pessoas para assumir uma tarefa que a grande maioria dos tenistas assume por conta própria. Do jeito que se portou, Sharapova mostrou uma mulher madura e consciente de seu erro.

– Ainda antes de abrir a coletiva para perguntas, Sharapova fez piada da expectativa existente sobre um eventual anúncio de aposentadoria. Disse que se fosse anunciar a aposentadoria, “não estaria em um hotel no centro de Los Angeles com um carpete um tanto feio.” Bom humor, essencial em momentos difíceis.

– A ITF confirmou que o exame que deu positivo foi realizado no dia da derrota para Serena Williams, em Melbourne. Considerando o histórico de confrontos entre russa e americana, conseguem, caros leitores, imaginar o tamanho da repercussão se Sharapova tivesse vencido aquela partida?

– Sobre o uso de meldonium, vale registrar que um ciclista (Eduard Vorganov, da Rússia) e dois atletas de biatlo (Olga Abramova e Artem Tyshchenko, ambos da Ucrânia) testaram positivo para a mesma substância este ano. O mesmo aconteceu com a corredora sueca Abebe Aregawi (nascida na Etiópia), o maratonista etíope Endeshaw Negesse, atual campeão da Maratona de Tóquio, e a patinadora russa Ekaterina Bobrova, medalhista de bronze no Campeonato Europeu deste ano.


Querido Papai Noel…
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Alexandre Cossenza

Eu me comportei razoavelmente bem em 2013. Não fiz fofoca, não critiquei ninguém injustamente (o Brasil Open mereceu!) e não fui hipócrita a ponto de ficar julgando as farras de Gulbis e Tomic. Cada um na sua. Também acho que consegui publicar um bom número de histórias e entrevistas interessantes aqui no blog, apesar de nem sempre ser fácil conversar com tenistas brasileiros.

Por isso, deixo aqui minha cartinha para o senhor, Papai Noel. Sou bem sortudo, admito. Não tem muita coisa que eu queira de presente, a não ser uma TV nova. A minha está com um defeito no volume, que sobe e desce sozinho. Coisa louca, viu? Só o senhor vendo! Mas eu divago. Minha listinha de Natal é um pouco diferente este ano. Eu peço presentes para os outros. Será que o senhor aceita um pedido assim? Espero que sim. Aí vai!

– Uma dúzia de troféus para os meninos mineiros. Bruno Soares e Marcelo Melo são dois rapazes especiais, e 2013 mostrou que eles também são pessoas ótimas. Ganharam um bocado no circuito mundial e continuam os meninos simples de antes. Eles merecem mais dessas peças de metal que distribuem nos domingos.

– Ingressos para o povo que quer ver o Rio Open. É uma galera simpática, viu, Papai Noel? E todo mundo só quer ter o direito de estar lá e ver uns joguinhos de tênis. Se o senhor puder dar aquela força…

– Patrocinadores e tenistas para o Brasil Open. Só deus sabe o quanto aquele caos da última edição está atrapalhando o torneio de 2014, mas juntando tudo isso com o calendário ingrato do ano que vem… Até agora, o torneio paulista não anunciou nem um tenistazinho nem um patrocinador. E lembre-se de deixar lá também uns tubos de bolas de boa qualidade. Sim, eu sei que eles não se comportaram muito bem em 2013, mas será que o senhor consegue dar um crédito aos moços da organização? Vai que eles acertam em 2014, né?

– Raquetes, bolinhas, roupas, passagens aéreas e hospedagens pra turma do Alexandre Borges, que mantém um projeto social fantástico aqui no Rio de Janeiro chamado Tênis na Lagoa. É uma das iniciativas mais bacanas que existem no tênis do Brasil, e todo mundo lá merece tudo de bom.

– Eu sei que o senhor não cuida de etéreos, mas se for possível entregar umas boas histórias para o pessoal do tênis… Tem o Giuliander, a Sheiloka (que me ajudou a escrever esta carta!) e um monte de gente boa que vai saber contar tudo como ninguém. Aproveite e mande um envelopinho com algumas cédulas dentro. Sabe como é, jornalista ganha mal nesse país. Ah! E se não der muito trabalho, será que o senhor entrega também um saquinho de vírgulas? Tem umas pessoas que até hoje não sabem usar isso, viu? Vai que, de repente, com o incentivo certo…

– Um kit com 3 mil exames antidoping e um guia de faça-seu-próprio-site para divulgar os resultados em “tempo real”. Pode entregar em Londres, na sede da ITF, tá? Por enquanto, tem tenista reclamando de pouco teste e de pouca transparência. Esse presentão, já mata os dois problemas. E se der, o senhor pode incluir no pacote um guia de regras padronizadas pro povo que julga doping no tênis. Tá uma bagunça aquilo ali. Tem exceção pra um, punição rígida pra outro…

– Um 4-pack de aces pro Wawrinka. O moço joga, joga, joga, e não consegue uma vitória realmente grande. E ele merece umazinha, né? Poucos rapazes se comportam tão bem no circuito. E quatro aces no último game resolvem essa história. Quebra essa para nós, Papai Noel?

– Um contrato milionário para o Redfoo fazer uma série de shows em Marte. Começando amanhã e terminando em 2018.

É isso, querido Papai Noel. Espero que minha lista não esteja além do seu alcance. Até por isso, evitei pedir o fim dos gritos no tênis feminino e dos gemidos do Granollers. Que sua noite de Natal seja tranquila, sem contratempos. Que o senhor viaje pelos ares com seu trenó tranquilamente, sem ser atingido por um balão de um tenista espanhol ou pelo ego de um certo suíço.

Um abraço,
Alexandre

Com este post, aproveito para desejar um Feliz Natal a todos que me acompanham aqui no blog, no Twitter ou no Facebook. Desde 2007, quando comecei a escrever o Saque e Voleio (lá na casa antiga), conheci pessoas incríveis, fiz amizades e passei ótimos momentos com gente que conheci “aqui” na internet. Que todos tenham um dia de Natal maravilhoso, com ou sem presentes, com ou sem uma ceia chique. O mais importante, no fim das contas, sempre é a companhia de pessoas especiais, como as que passam sempre por aqui.


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