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Uma bolada violenta e uma doída desclassificação
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Alexandre Cossenza

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A gente já viu isso quase acontecer em vários níveis e com personagens diferentes. O tenista, irritado, isola uma bolinha, que passa perto da cabeça de alguém. O árbitro, então, pune com uma advertência: “abuso de bola”. Ou o cidadão, frustrado com a perda de um ponto, atira a raquete, que quica e passa pertinho de acertar um juiz de linha ou um espectador. Novak Djokovic protagonizou um par de cenas assim recentemente. A punição é uma advertência por “abuso de material”.

Só que de vez em quando, muito raramente, acontece um desastre como o deste domingo, no confronto entre Canadá e Grã-Bretanha pela Copa Davis, em Ottawa. Denis Shapovalov, 17 anos, tenista da casa, perdia o quinto jogo contra Kyle Edmund. O britânico tinha 2 sets a 0, já com o triunfo encaminhado, quando o adolescente, irritado, descontou na bolinha. E a amarelinha foi, violenta, morrer no rosto do árbitro de cadeira. Desclassificação imediata.

Parece claro que não foi intencional. Não teria por que ser. Shapolavov imediatamente pediu desculpas a Arnaud Gabas, o árbitro de cadeira. Já era tarde. O Canadá acabou perdendo o confronto naquele momento, o que só não foi mais grave porque a partida rumava para um triunfo de Edmund por 3 sets a 0 – ou assim se desenhava até o momento do incidente.

Nesta segunda, foi anunciada uma multa de US$ 7 mil para Shapovalov. O valor máximo é de US$ 12 mil, mas que só seria aplicada em caso de agressão proposital. E aí entra outra questão, que foi levantada pelo ex-chefe de arbitragem da ATP Richard Ings. Ele argumenta que o canadense deveria ser suspenso porque poderia ter cegado o árbitro e que a punição deveria ser proporcional à gravidade da lesão causada (leia mais no Bola Amarela).

Mas e aí, será que as entidades que regem o tênis deveriam fazer alguma alteração na regra? Por um lado, estabelecer uma suspensão no papel intimidaria os tenistas, que pensariam duas vezes antes de quebrar uma raquete ou atirar uma bolinha para longe. Por outro lado, não seria um exagero?

E como medir essa suspensão? Uma bolada no pé do árbitro renderia o mesmo gancho que uma raquete batendo no nariz de um torcedor? Como estabelecer essa distinção na letra fria da lei? Difícil. Tão difícil quanto estabelecer que uma suspensão seja proporcional à gravidade da lesão. Como medir a dor? Que tipo de contusão valeria um dia de suspensão? E uma semana?

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Minha opinião? Moralmente, a desclassificação já é punição suficiente. Até por ser em Copa Davis, com o país inteiro sendo eliminado junto. Vai demorar para Shapovalov superar o momento e voltar a dormir tranquilo. Mas há casos e casos. Se acontecer no circuito, com o tenista jogando por conta própria, a desclassificação não terá o mesmo peso. E você, leitor, o que acha? Sinta-se à vontade para dar uma opinião.


O que me incomoda na Copa Davis
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Alexandre Cossenza

Este não é um texto sobre fatos. É um post essencialmente de opinião, como quase tudo neste blog. Se você vem ao Saque e Voleio em busca só de notícias, está no lugar errado. E hoje, fim de semana de Copa Davis, é daqueles dias em que volta à tona o velho discurso do “a Davis precisa mudar”, baseado em qualquer que seja o motivo da semana – sempre há um diferente.

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Sou apaixonado por Copa Davis. Se um dia eu comecei a gostar de tênis, a competição por países tem muito a ver com isso. Gosto do formato em melhor de cinco sets, gosto dos zonais, gosto de o duelo ser sempre na casa de um dos times e gosto – até disso – de nem todos grandes tenistas estarem sempre na Davis. E é esse o argumento da vez para os críticos. Apenas cinco tenistas do top 20 estão em ação nesta semana. Muito pouco, dizem. Trato disso mais à frente. Por enquanto, meu desabafo tem dois pontos, e o que me incomoda na Copa Davis não é exatamente a Copa Davis.

Um: tenistas são chatos. Dois: tenistas têm poder demais. Chatos porque gostam de encher a boca e dizer que é sempre preciso se adaptar no tênis, que tenista é um animal adaptável, blablabla, mas querem jogar sempre nas mesmas condições. Não gostam de trocar de piso no meio da temporada e querem os torneios pré-slam com as mesmas condições dos slams. As bolinhas em Cincinnati são diferentes das do US Open? Nossa, um crime! O Rio Open é no saibro, mas tem Indian Wells na dura três semanas depois? Não jogo!

Tudo tem que ser igualzinho e perfeitinho para que o tenista chegue num Masters 1000, jogue bem, suba no ranking e aumente em US$ 100 mil aquele cachê que ele recebe para chegar num ATP 250, tirar foto num ponto turístico, jogar um tênis meia-boca e perder nas oitavas.

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E não adianta reclamar porque eles têm o poder nas mãos. Todo ATP 250 e 500 precisa puxar saco desses caras (é só olhar o papel ridículo que fazem as redes sociais de alguns eventos) porque sem eles não existe público. Quando aceitaram criar mini-circuitos (torneios de saibro antes de RG, eventos de grama só antes de Wimbledon), concentraram mais ainda os títulos nas mãos de uns poucos. Não por acaso, três tenistas completaram o career slam nos últimos anos. Mas isso é outro assunto. Aqui, agora, o que importa é que os torneios viraram reféns.

É inútil, por exemplo, o diretor do Rio Open dizer que os torneios são a plataforma para os atletas porque se ano que vem não houver Rio Open, vai haver um evento em Ladário, Cochabamba ou Samoa Ocidental disposto a pagar cachês milionários. O poder é dos atletas e quanto maior seu lobby por mudanças na Davis, maior a chance de elas acontecerem – cedo ou tarde.

E podem me chamar de saudosista porque é saudade mesmo. Quando comecei a ver tênis, Copa Davis era aquela ocasião em que o tenista mostrava seu patriotismo abrindo mão de interesses pessoais para defender o país, saindo, sei lá, do inverno europeu para jogar no calor do capeta do Rio de Janeiro (e nem naquela época todos os tops jogavam). Hoje, mais e mais tenistas veem a Davis como um incômodo. Aquilo que atrapalha sua preparação, que atravanca seu ranking, que reduz o potencial de seu cachê.

Melhor de cinco ou melhor de três?

Há quem diga que mudar o formato para melhor de três atrairia mais tenistas da elite. É um argumento discutível que existe apenas no reino do teórico hoje em dia. Sim, reduziria o desgaste. Talvez funcionasse. Talvez. Mas certamente mudaria radicalmente a dinâmica coletiva da Copa Davis.

A essência da competição, afinal, é que times vençam. E se você reduz a duração das partidas, facilita a vida dos capitães que têm um jogador acima da média. Seria muito fácil escalar esse tenista nos três dias. Em melhor de cinco, nem tanto. O time tem mais importância. Mas quem será que está preocupado com a essência ou com a esportividade da Copa Davis? Há quem diga que nem a ITF, dona do negócio, dá muita bola para isso hoje em dia…

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Coisas que eu acho que acho:

– Em números, o que se diz é que apenas 5 tenistas do top 20 estão atuando neste fim de semana na Copa Davis. É verdade, como Bruno Soares mencionou na última quinta-feira. O tweet sugere que isso seria motivo para mudanças na Davis. Não concordo totalmente. E há questões de contexto importantes.

– Desses 15 ausentes, três não foram convocados (Monfils, Tsonga e Pouille) e dois pertencem a países que não jogam neste fim de semana (Thiem e Dimitrov). O número de ausências já cai para dez – ainda alto, mas tudo bem.

– Mas dessas dez ausências, é preciso considerar questões importantes como o envelhecimento do circuito. Federer, Wawrinka, Nadal, Berdych e Karlovic já passaram dos 30. O croata, inclusive, já havia se aposentado da Davis e voltou só para a final do ano passado – e apenas para ocupar o lugar do lesionado Coric. Esses nomes nem sempre jogam temporadas completas. Será que é justo colocá-los na conta do “formato da Davis”? Tenho minhas dúvidas.

– Outro ponto: quantos desses ausentes estiveram na segunda semana do Australian Open? Federer, Nadal, Wawrinka, Raonic e Goffin. Mais avaliada do que o formato da Davis, com melhor de cinco sets, talvez deveria ser a insanidade de quem encaixa a competição logo após um Slam. É um convite (às avessas) para que os melhores não joguem. E isso não é só formato. É calendário.

– Ainda sobre o calendário, tudo gira em torno de dinheiro. Nenhum torneio quer essas datas pós-slam, então parece fácil encaixar a Davis ali. Tão fácil quanto alegar que a competição precisa mudar de formato. No fim das contas, talvez seja possível fazer muita coisa para melhorar a Davis sem mexer no formato, mas aí algumas pessoas perderiam dinheiro. E quem está disposto a isso, hein?


A dívida da Davis e a lição de Del Potro
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Alexandre Cossenza

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Vilas, Clerc, Frana, Jaite, Lobo, Nalbandian, Chela, Cañas, Calleri, Gaudio, Gumy, Puerta, Squillari, Zabaleta… A ilustre lista é longa, e era difícil entender como um país que fabricou tantos tenistas nunca venceu a Copa Davis. Era. A turma do capitão Daniel Orsanic, liderada por Juan Martín del Potro e com competentes coadjuvantes como Leo Mayer, Juan Mónaco, Federico Delbonis, Guido Pella, Carlos Berlocq e Renzo Olivo, bateu a Croácia em Zagreb e conquistou o título, cobrando uma antiquíssima dívida. Sim, era a Copa Davis que devia isso à Argentina, e não o contrário.

Foi a quinta final argentina na Davis e estava longe de ser a melhor chance de título. Em 2008, em Mar del Plata, o time de Nalbandian e Del Potro era favorito contra a Espanha, que viajou desfalcada de Rafael Nadal. Nalbandian atropelou David Ferrer no primeiro jogo, mas Delpo sofreu uma lesão na segunda partida, deixando o (brigado) time dependendo de José Acasuso para forçar o quinto jogo. Não deu. A chance terminou na raquete de Fernando Verdasco, que venceu um jogo nervoso e ruim para dar mais um título aos espanhóis.

Na época, Nalbandian jogou boa parte da culpa nos ombros de Del Potro. O jovem não teria se poupado devidamente para a final da Davis. Talvez Delpo tenha carregado aquela culpa até este ano. Talvez não. Talvez ele apenas guarde mágoa de Nalbandian. Ou nem isso. Difícil saber. O que era impossível mesmo de saber é que Del Potro, depois de tantas lesões nos dois punhos, voltaria à Copa Davis desta maneira.

Em certo momento, o campeão do US Open de 2009 parecia mais um ex-tenista tentando lidar com uma lesão sem solução do que um top 10 que voltaria a brigar com os melhores do circuito. O que aconteceu, no entanto, foi menos Gustavo Kuerten (aposentado por uma lesão no quadril) e mais Rafa Nadal (número 1 do mundo em 2013 depois de ficar afastado por boa parte de 2012).

Em 2016, Del Potro viveu o melhor ano de sua carreira – como ele mesmo afirmou diversas vezes, em várias ocasiões. Derrotou Wawrinka em Wimbledon; bateu Djokovic e Nadal nos Jogos Olímpicos; passou por Ferrer e Thiem no US Open; conquistou um título em Estocolmo; superou Murray nas semifinais da Copa Davis; e completou a temporada com uma virada memorável sobre Marin Cilic, que vencia por 2 sets a 0 e jogava em casa. Esta gloriosa timeline lista tudo.

Mais do que tudo isso, Del Potro deixou a todos uma gigante lição. Mesmo nos momentos mais duros, jamais deixou de acreditar. Sofreu, encheu-se de esperança e sofreu outra vez. Tentou voltar, não conseguiu. Tentou de novo. Falhou novamente. Ralou. Começou do zero. Insistiu. Batalhou. E, finalmente, voltou. E que ninguém ouse duvidar dele daqui em diante.

Coisas que eu acho que acho:

– A Argentina foi campeã como time. Por mais importantes que tenham sido as vitórias de Del Potro sobre Murray nas semifinais e Cilic na final, foram Leo Mayer e Federico Delbonis que venceram os jogos decisivos nesses dois confrontos. Não dá para falar nesta Davis sem mencionar o enorme valor dos coadjuvantes argentinos, impecáveis nos momentos mais importantes.

– O mesmo vale para o capitão argentino, Daniel Orsanic. Um cidadão educadíssimo, que olha na cara, fala o que pensa e escala os melhores. Orsanic não foi contratado para repetir o discurso da federação argentina nem para tentar justificar escolhas patéticas de seus superiores. Assumiu o cargo com uma postura apaziguadora, deixou critérios claros e convocou sempre os melhores. O resultado está aí para todo mundo ver. Não é tão difícil assim.


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


Davis, dia 1: Bélgica aproveita limitação brasileira
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Alexandre Cossenza

Thiago Monteiro ganhou uma batata quente de presente em sua estreia na Copa Davis. Thomaz Bellucci fez mais uma partida daquelas cheias de erros (35 não forçados, pela conta econômica da ITF) e sem variações táticas. O resultado foi uma péssima sexta-feira em Oostende, na Bélgica, onde o time da casa abriu 2 a 0 na série melhor de cinco que define quem jogará o Grupo Mundial da Copa Davis em 2017. Um dia que expôs a limitação dos simplistas brasileiros – e até do capitão – e que deixou o país sem margem para erro nos próximos dois dias.

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A superioridade

O dia começou com Thiago Monteiro soltando o braço e tentando incomodar David Goffin. Até conseguiu por alguns games no serviço do belga. Monteiro teve 0/30 no segundo game, um 30/40 no quarto e um 30/30 no sexto. O tenista da casa, contudo, venceu todos – sem exceção – pontos grandes do set. Depois de fechar a parcial por 6/2, jogou mais à vontade e dominou. Só perdeu mais dois games depois disso e fechou em 6/2, 6/2 e 6/0.

Ainda que haja uma clara diferença de nível e de experiência, não consegui ver uma tentativa de Monteiro de mudar taticamente o andamento do jogo. Era até esperado que ele entrasse em quadra adotando o bom e velho “entra sem pressão e solta o braço”, mas nesse nível, na primeira partida melhor de cinco sets de sua carreira, seria preciso um plano B. Não garantiria um resultado diferente, mas seria uma tentativa. Do jeito que a partida correu, Goffin não foi tão exigido assim.

A falta de recursos

No aspecto estratégico, o segundo jogo não foi muito diferente. Thomaz Bellucci entrou em quadra disposto a atacar primeiro e fazer Steve Darcis correr. O belga apostou em variações. Slices cruzados e paralelos, velocidades e altura de bola diferentes e paciência, muita paciência. Darcis trocava bolas e esperava chances para atacar na boa, com o forehand na paralela.

O #1 do Brasil fez um belo primeiro set, que teria sido até mais fácil não fosse um pavoroso sétimo game. Ainda assim, Bellucci venceu o tie-break e parecia firme no jogo. A coisa começou a desandar no quarto game do segundo set. Darcis aproveitou o quinto break point e deslanchou. O paulista desandou a errar. Errou curtinhas, voleios, forehands e tudo que podia errar. Em vários momentos, também subiu mal à rede e pagou o preço.

O problema, como quase sempre acontece com Bellucci, foi a execução. Contra um Darcis sólido e paciente, o brasileiro teria duas opções: ou tentar algo diferente ou executar melhor seu plano A. Não fez nem um nem outro. Para piorar, Darcis jogou mais solto e agressivo quando teve a dianteira. Sem plano B, restou ao paulista ficar em quadra esperando por um milagre que não veio. Darcis fez 6/7(5), 6/1, 6/3 e 6/3 e colocou seu país com uma enorme vantagem.

A esperança

Com uma dupla forte como a de Bruno Soares e Marcelo Melo, o mais provável é que o Brasil sobreviva ao sábado. Por enquanto, a Bélgica tem Ruben Bemelmans e Joris de Loore escalados para o jogo de sábado. O mais provável é que o capitão belga, Johan Van Herck, mantenha a formação e poupe seus titulares para o domingo, quando precisará de um pontinho para seguir no Grupo Mundial.

Para o capitão João Zwetsch, resta rezar para duas zebras. Primeiro, Bellucci precisará derrotar Goffin sem a torcida brasileira fazendo estrago no cérebro do belga. Depois, terá de contar com uma vitória do estreante Thiago Monteiro contra o veterano Darcis, 32 anos, que vem num ótimo momento na temporada e dois dias depois de uma atuação belíssima contra Bellucci. Possível? Sim. Num domingo qualquer, tudo pode acontecer. Provável? Nem tanto.


Davis: uma obrigação cumprida, um playoff à vista e um par de perguntas
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Alexandre Cossenza

Não foi tão fácil como poderia ter sido, mas tampouco foi dramático. De volta ao Zonal americano, Brasil derrotou o Equador em Belo Horizonte por 3 a 1 e garantiu mais uma participação no playoff da Copa Davis. A equipe que tem Thomaz Bellucci, Marcelo Melo e Bruno Soares como ocupantes cativos terá, assim, mais uma chance de retornar à primeira divisão do tênis mundial, lugar que ocupou por apenas duas temporadas nos últimos 13 anos.

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O triunfo sobre o Equador veio com um pequeno susto logo na abertura do confronto. Rogerinho, 90º do mundo, jamais se mostrou confortável no piso duro do Minas Tênis Clube e foi derrotado por Emilio Gómez, 24 anos e número 317 do mundo: 4/6, 7/5, 6/0 e 6/4.

Ainda assim, precisaria que muita coisa desse errado para que o Brasil perdesse para o modesto time visitantes. E, mesmo com um sobressalto aqui e outro ali, a equipe da casa venceu os três pontos seguintes. Thomaz Bellucci, que não foi espetacular nem na sexta nem no domingo, primeiro bateu Roberto Quiroz, 27 anos e número 396 do ranking, por 7/5, 7/6(3), 3/6 e 6/3. Depois, fechou o confronto no domingo ao superar Gómez por 7/6(11), 6/7(6), 6/2 e 7/5.

No sábado, vale lembrar, Bruno Soares e Marcelo Melo até perderam o primeiro set, mas confirmaram o favoritismo sem drama: 6/7(4), 6/3, 6/3 e 6/2. Foi, aparentemente, o dia mais divertido, com os mineiros jogando diante de sua torcida e comemorando junto com eles também.

Daqueles momentos que marcam, lindíssima a festa dos mineiros com os amigos e família. #DavisCup

A video posted by Aliny Calejon (@alcalejon) on

Um par de perguntas

Oficialmente, o discurso da CBT e dos tenistas nas coletivas pré-confronto foi de que o duelo em quadra dura ajudaria na preparação para os Jogos Olímpicos. Não tenho, contudo, resposta para as seguintes perguntas:

– Se a intenção é preparar para as Olimpíadas, por que Bellucci e Rogerinho jogarão torneios no saibro na próxima semana? Havia a opção de jogar em Washington, um ATP 500 em quadra dura. Ambos entrariam direto na chave principal. Todo mundo sabe do ótimo histórico de Bellucci em Gstaad e é perfeitamente compreensível sua escolha por voltar ao torneio suíço. O problema é que o discurso de preparação para os Jogos, assim, mostra-se inconsistente.

– O torneio olímpico será no Rio de Janeiro, a nível do mar e em quadras outdoor. O duelo em Belo Horizonte é disputado em quadra coberta a mais de 800 metros acima do nível do mar. De que maneira um confronto assim teria sido a melhor preparação possível? Para piorar, o capitão João Zwetsch, para defender o emprego, se prestou ao papel de dizer que a quadra estava lenta, dando “uma boa equilibrada, bem próximo ao que vamos encontrar no Rio de Janeiro”, no Parque Olímpico (frase retirada de comunicado enviado pela CBT).

Ficou mais feio ainda porque Rogerinho deixou a quadra derrotado no primeiro dia, dizendo que “as condições estão muito rápidas, e isso o favoreceu um pouco, também, porque são as condições em que ele mais gosta de jogar.”

No fim das contas, a escolha da sede, se valeu para algo, ajudou os mineiros. Eles, sim, vão às quadras duras de Washington, onde jogarão juntos (deixando de lado Jamie Murray e Ivan Dodig, os parceiros habituais) em uma preparação de fato para os Jogos Olímpicos. É bom ver que a principal esperança de medalha do Brasil no tênis vem levando a coisa a sério.

O recado

A melhor declaração do fim de semana foi (de quem mais?) de Bruno Soares, que falou sobre as desistências de tenistas que citam a ameaça do vírus zika como justificativa para não disputarem os Jogos Olímpicos Rio 2016 (evento que, coincidência ou não, não dá pontos no ranking nem prêmio em dinheiro aos participantes. Bruno elogiou a postura de Dominic Thiem, que foi honesto quanto à sua decisão de não disputar os Jogos, mas ressaltou que “a turma está se abraçando numa desculpa fraca pra não vir, inconsistente.” Leia a íntegra aqui.

Aviso

Entro de férias (de mim mesmo, na verdade) nesta segunda-feira, portanto o blog não terá as atualizações costumeiras. Até os Jogos Olímpicos – e possivelmente inclusive durante os Jogos – não pintarão muitos textos por aqui (eu poderia até escrever mais, mas não vou por causa do zika – rs). Até daqui a pouco.


Quadra 18: S02E10
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Alexandre Cossenza

Serena Williams conquistou seu 22º título em um torneio do Grand Slam; Andy Murray voltou a triunfar em Wimbledon; Djokovic e Muguruza ficaram pelo caminho; Federer e Kerber ficaram no quase; e o que Lleyton Hewitt foi fazer em Londres? Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu gravamos mais um bem humorado podcast Quadra 18, resumindo os feitos, as decepções, as confusões e tudo mais que rolou nas duas semanas do Slam da grama.

Também falamos, claro, de Brasil x Equador, confronto deste fim de semana em Belo Horizonte, e demos uma pincelada no cenário que se desenha para os Jogos Olímpicos Rio 2016. Quer ouvir? É só clicar no player acima. Se preferir, baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’15” – Sheila apresenta os temas
1’40” – O título de Andy Murray
2’35” – Como o jogo de Murray se encaixa na grama
4’15” – Como “casa” bem para Murray o duelo com o Raonic
6’39” – A primeira final de Slam sem enfrentar Federer ou Djokovic
8’18” – Murray será número 1 do mundo?
10’15” – Raonic vai ganhar um Slam um dia?
12’44” – A consultoria de John McEnroe com Raonic e o conflito de interesse
14’45” – Como avaliar a campanha de Federer? Melhor ou pior do que o esperado?
17’32” – Foi a última grande chance de Federer ganhar um Slam?
21’05” – Djokovic e a derrota para Sam Querrey
25’00” – A especulação sobre a não vinda de Djokovic aos Jogos Olímpicos
26’20” – Djokovic, Murray e o confronto de Copa Davis
27’45” – A campanha de Juan Martín del Potro
29’00” – Wawrinka, a decepção
30’20” – A história louca de Marcus Willis
30’40” – Marin Cilic e outros destaques do torneio
34’10” – Right Action (Franz Ferdinand)
34’35” – Serena Williams, heptacampeã em Wimbledon
35’50” – A importância do 22º Slam no currículo da número 1
38’35” – A ótima campanha de Angelique Kerber e a análise da final
41’35” – A eliminação/decepção de Garbiñe Muguruza
42’42” – De onde surgiu Elena vesnina, semifinalista?
43’40” – Strycova, Pliskova e Keys, abaixo do esperado
45’00” – Os enormes atrasos pela chuva e o teto retrátil
49’35” – Será que vai chover durante as Olimpíadas?
52’20” – Side (Travis)
53’10” – O efeito melhor-de-três na chave de duplas
55’20” – As duas duplas francesas na final
57’26” – Como avaliar as campanhas dos brasileiros?
60’25” – Lleyton Hewitt ainda volta a jogar?
63’45” – Brasil x Equador na Copa Davis: o que esperar?
65’30” – O estranho calendário de Bellucci com seguidas mudanças de piso
66’08” – A não convocação de Thiago Monteiro

Créditos musicais

A faixa de abertura é chamada “Rock Funk Beast”, de longzijum. Em seguida, entram Right Action (Franz Ferdinand), Side (Travis) e Bang Your Drum (Dead Man Fall).


Obrigado, mate, pelas lições
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Alexandre Cossenza

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Foi uma viagem daquelas. Dezenove anos desde a primeira aparição no Australian Open. Dezoito desde que um moleque abusado de 16 anos derrotou Mark Woodforde, Vincent Spadea, Andre Agassi e Jason Stoltenberg para conquistar seu primeiro título em um ATP. Lleyton Hewitt era o número 550 do mundo naquele início de 1998. Hoje, 21 de janeiro de 2016, com um ranking não tão diferente daquele, Rusty volta para casa. A derrota para David Ferrer na segunda rodada em Melbourne escreveu as últimas linhas desse livro … didático.

Sim, didático. Desde que entrou no circuito, Hewitt conquistou dois Slams, foi número 1 do mundo por 80 semanas, venceu dois ATP Finals e levantou a Copa Davis duas vezes. Primeiro, mudou o tênis. Depois, viu o esporte mudar. Desafiou a medicina. Passou por cinco cirurgias antes de voltar a derrotar tenistas de renome. Mudou seu comportamento, assumiu novas responsabilidades, novos papéis. E, a cada parada dessa viagem, mostrou o que fazer e o que não fazer; mostrou que é possível mudar, crescer, evoluir; que dá para correr atrás sempre um pouco mais, com mais força e por mais tempo. As lições estão aí para quem quiser.

O começo foi meteórico e revolucionário. Hewitt foi o primeiro grande voleador e escolher jogar no fundo da quadra. Nada que o impedisse de, eventualmente, subir à rede e mergulhar em busca de voleios vencedores, mas Rusty tinha velocidade para alcançar as bolas mais rápidas da época e rara habilidade para contra-atacar. Foi assim que derrubou o grande Pete Sampras numa final de US Open. Foi assim que conquistou Wimbledon, quebrando o domínio dos sacadores. Hewitt foi Rafa Nadal antes de Rafa Nadal.

O sucesso não veio sem turbulências. O jovem Hewitt entrava em quadra com uma arrogância que lhe fazia acreditar que tudo era possível. A postura fora de quadra fez um inimigos, atraiu críticos – inclusive entre seus compatriotas e companheiros de Copa Davis. Fernando Meligeni lembra que Rusty desrespeitou Alex Corretja durante um jogo do Australian Open (venceu por 6/0, 6/0 e 6/1), e o episódio pegou mal nos vestiários. Mas o jeito Hewitt de ser era vencedor dentro de quadra. Foi assim que Rusty veio a Florianópolis, derrotou Gustavo Kuerten em três sets e ignorou solenemente todas as provocações que o próprio Meligeni atirou em sua direção. Por dois anos quase inteiros, o australiano foi o melhor do mundo.

Aos poucos, Hewitt amadureceu. A intensidade e os gritos de “come on” continuavam, mas o respeito aos/dos colegas veio. Em 2012, quando o entrevistei em Newport, falou com enorme reverência sobre Gustavo Kuerten, que entrava naquele ano para o Hall da Fama Internacional do Tênis. Quando indagado sobre os porquês de tanto sucesso contra o brasileiro (venceu três dos quatro confrontos), sorriu e disse não saber. “Você tem que perguntar a ele.” Em seguida, falou de sua velocidade e que devolvia muitas bolas. Na maior parte da conversa rápida, porém, o australiano afirmou que Guga havia mudado a maneira de se jogar no saibro.

Com o tempo, também surgiram adversários mais fortes, mais altos e mais talentosos. Em 2003, Roger Federer já despontava como o mais habilidoso de seus rivais, mas Rusty continuava levando a melhor nos confrontos diretos. Compensava na raça o que lhe faltava de potência. Foi assim que arrancou uma das vitórias mais marcantes da Copa Davis. Federer abriu 7/5, 6/2 e 5/3 na Rod Laver Arena. Hewitt triunfou por por 5/7, 2/6, 7/6(4), 7/5 e 6/1. Para ele, “Lutar até o fim” nunca foi um clichê para soltar ao vento nas derrotas. Foi um meio de vida. O único meio de vida.

“O bom do tênis é que não tem sirene. Você não joga contra o tempo. Você joga até aquela última bola, aquele último ponto acaba e você vai até a rede para cumprimentar o oponente. Até que isso aconteça, você ainda ainda tem algum tipo de chance de lutar.”

Quando perdeu a final do Australian Open de 2005, Hewitt já estava alguns passos atrás da elite. Marat Safin, seu algoz naquela decisão, era o exemplo do tênis moderno: 1,93m de altura, saques dominantes e golpes potentes de forehand e backhand, além de uma movimentação admirável para alguém de sua altura. E, quando o esporte começava a deixar o australiano para trás, as lesões vieram para borrar ainda mais o horizonte. Foram cinco cirurgias em seis anos – de 2008 a 2013. Primeiro, no quadril direito. Depois, no esquerdo.

Em seguida, um problema sério no dedão do pé esquerdo exigiu outras duas intervenções. Rusty nunca desistiu. Sabia que não seria mais número 1 do mundo e que até o top 10 era um sonho distante. Mas seu prazer sempre foi competir por competir, descobrir até onde era possível chegar. Hewitt sempre testou seu limite. E não só o seu. Rusty desafiaria também a medicina e as probabilidades.

Um cidadão normal que fosse milionário aos 32 anos, casado, pai de três filhos e morando em Nassau, Bahamas, provavelmente tiraria um ano sabático ou férias por tempo indeterminado. Só que Lleyton Hewitt nunca teve nada de normal. Resolveu passar por uma quinta cirurgia, mesmo depois de ouvir de “provavelmente cinco, seis, sete médicos” que nunca voltaria a jogar tênis se passasse pelo procedimento necessário. Dois especialistas afirmavam que havia uma chance. Hewitt apostou em um deles. Enfiaram-lhe uma placa de metal que tirou os movimentos do dedão, mas também removeu a dor.

Foi possível competir outra vez. Foi possível vencer outra vez. Venceu um jogaço de cinco sets contra Juan Martín del Potro, sete anos mais jovem, no US Open de 2013. Naquele mesmo ano, eliminou Wawrinka em Wimbledon. Ganhou dois títulos em 2014 – um deles, em cima de Roger Federer. Voltou a figurar entre os 40 melhores, uma conquista gigante depois de tudo.

Eventualmente, os triunfos no circuito escassearam, e Hewitt passou a se dedicar quase exclusivamente à Copa Davis. Levou a Austrália à semifinal no ano passado, protagonizando inclusive uma heróica virada em cima do Cazaquistão, que chegou a abrir 2 a 0 no confronto. Agora, assume de vez a missão de capitanear o país que tem uma geração fantástica e, ao mesmo tempo, problemática com Nick Kyrgios, Bernard Tomic e Thanasi Kokkinakis. O histórico – dentro e fora das quadras – indica que Hewitt é a melhor pessoa para domar essa turma. As lições que ele deixou estão aí para todo mundo ver. É só abrir os olhos e querer enxergar.

Coisas que eu acho que acho:

– O vídeo “Lleyton Hewitt: The Final Tour” é espetacular. São 52 minutos com imagens belíssimas e um depoimento lindo do próprio Rusty. Se você não viu, veja. Se não tem tempo, marque o post e volte aqui mais tarde. Ou procura depois no YouTube, tanto faz. Mas veja e entenda Lleyton Hewitt.

– Publico este post ao meio-dia de quinta-feira, algumas horas depois do fim da partida contra Ferrer. Twitter, Instagram e Facebook já estão cheios de mensagens de tenistas mostrando sua admiração por Hewitt. É fantástico ver como o garoto que já foi odiado nos vestiários se transformou num exemplo para a geração de Nadal, Djokovic e Murray. O adolescente prodígio agora é ídolo para os Kyrgios, Kokkinakis e futuros tenistas australianos.


Feijão e a motivação para 2016: “Eu olho meu ranking e digo: ‘Que bosta!'”
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Alexandre Cossenza

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João Souza começou o ano com os melhores resultados de sua vida. Primeiro, fez uma inédita semifinal no Brasil Open. Em seguida, chegou às quartas no Rio de Janeiro, um ATP 500. O bom momento foi recompensado com a correção de uma injustiça: deixado de lado nos playoffs da Copa Davis em 2014, Feijão foi convocado para a primeira rodada do Grupo Mundial, em Buenos Aires.

O fim de semana começou espetacular, com uma vitória sobre Carlos Berlocq em 4h57min de jogo, mas transformou sua temporada em um longo pesadelo que começou nas 6h42min da derrota diante de Leo Mayer e se arrastou até o segundo semestre, incluindo duas longas sequências de nove derrotas cada – uma de fevereiro a junho, a outra de julho a setembro.

Número 69 do mundo em abril, Feijão ocupa hoje o 142º posto. Conversamos durante o evento-teste no Centro Olímpico de Tênis, e o papo não teve declarações bombásticas, mas foi ótimo pela maneira direta com que o paulista de 27 anos abordou os temas. Falou com detalhes sobre tudo que envolveu a doída derrota na Davis, lembrou da política que pode ter pesado em sua ausência no time em 2014 e disse que a motivação vem de olhar seu ranking e dizer “que bosta!”

Ah, sim: como aparentemente tornou-se assunto obrigatório em entrevistas esportivas neste país, também falamos sobre Olimpíadas. E sim, Feijão acredita que suas chances de classificar são boas. A íntegra da conversa segue abaixo e vale a ressalva: em nome da autenticidade (e da intensidade) do diálogo, não cortei os palavrões (nem são tantos assim). Se isso não lhe incomoda, leia!

Incomoda entrar no site da ATP e ver que sua página abre no ranking de dupla em vez de no ranking de simples?

Tá brincando?! Sério?

Você é 113 de duplas e 142 em simples, aí a sua página abre direto com os resultados de duplas.

Ah, é? Não sabia, não. Não entro por esse site. Entro no “player zone”, que só os jogadores têm.

Mas falando de ranking, se alguém que não te acompanhou em 2015 e abre o site da ATP, essa pessoa vê que você começou o ano como #117 e terminou como #142. Ranking nem é sempre o melhor parâmetro para dizer o que aconteceu com a pessoa no ano, mas você achou que depois de tudo que aconteceu, foi um ano positivo?

Não, velho (risos).

Eu pergunto porque teve a experiência da Copa Davis, teve um começo de ano muito legal e, de repente, no seu balanço, isso seria positivo…

Ah, cara, não. Positivo, não foi, mas experiências novas, sim. Mas positivo? Não. Com certeza, não. E óbvio que o ranking é o que conta, né? Ah, foi um ano em que eu aprendi muito, cara. É corrigir para 2016 não cometer os mesmos erros, né?

Quais foram os erros? Todo mundo diz “aprender com os erros”, mas raramente alguém admite esses erros.

Ah, tem o negócio de não ficar expondo, né? Acho que são coisas que…

(interrompendo) O que não te incomoda falar sobre isso?

Não, você sabe que eu falo as coisas, eu não tenho muito problema com isso.

Por isso que eu gosto de te entrevistar (risos).

Acho que… (pausa para pensar) … Não sei, foram coisas… Acho me expus um pouco mais do que devia, perdi um pouco do…

(interrompendo) Depois da Davis?

Depois da Davis. Mas o principal mesmo, o principal-principal… Esse jogo da Davis me derrubou muito. Ninguém imagina, né? Todo mundo diz “ah, perdeu” e vem falar “você foi guerreiro, você foi legal, lutou até o último ponto”, mas e aí? Eu perdi. Só quem perdeu fui eu. Não interessa, quem estava lá era eu. Então isso me matou, né, cara? Nesse fim de semana da Davis eu tive dois extremos. Depois que ganhei do Berlocq, no sábado, eu estava me sentindo um monstro, jogando pra caralho e ganhando de um cara que… Não sei nem se ele já tinha perdido na Davis lá (em Buenos Aires). E no dia seguinte, porra, depois de sete horas, perder aquele jogo, eu estava me sentindo também o pior cara do mundo. Isso me abalou demais, cara! Não foi fácil administrar essa derrota. Foi o Brasil que perdeu. Eu adoro jogar a Davis, adoro torneio em equipe… Porra, depois foi uma depressão fodida com todo mundo no hotel, sabe? E aí, cara, me derrubou! Minha confiança foi do céu para o inferno, total. E aí eu não consegui administrar. Rolou uma indisposição, acabei me desfocando um pouquinho do tênis em si, né? Enfim… Foi basicamente isso. Acabei perdendo um pouco do foco depois disso.

E com isso, a confiança…

Minha confiança, então, foi no chão. Óbvio! Eu estava inscrito nos maiores torneios – eu também não hesitei em arriscar no calendário, né? Joguei, sei lá, três meses só de ATP e Grand Slam, ATP e Grand Slam.

Mas você estava jogando bem, né? Você fez quartas no Rio, um 500…

E semi de um 250 (São Paulo). Eu nunca hesitei! Da outra vez que me meti (no top 100), em 2011, também. Nunca deixei de jogar os maiores torneios, mas fazer o quê? Faz parte. Não me arrependo de nada que eu faço na minha vida. Já foi? Já foi. No fim do ano, estava bem cansado e deixei de jogar Buenos Aires… Não estava mais aguentando, para ser bem sincero. Este ano, tirei até uma semana a mais de férias. Eu precisava bastante relaxar. Agora já estou na terceira semana de pré-temporada, estou me sentindo um cara muito mais forte, muito mais focado eu comigo mesmo, sabe? Parece que eu limpei, sabe? Passei a borracha.

Você está mais magro, não?

Estou, estou fazendo uma dieta que você não tem noção! Dieta que nunca fiz antes. Quero chegar a 88 quilos, estou com 92. Preciso perder quatro quilos.

Mas qual é o seu peso normal de jogo?

No começo do ano, eu estava pesando 90, 89, que é muito bom já, quase 100%, mas quero bater 88 para provar para mim mesmo que eu tenho capacidade, né? Mas estou super bem, super motivado para 2016. Não tem como não estar, principalmente com a Olimpíada do lado da minha casa, é meu foco total. A cada ano que passa… A gente vai ficando mais velho também, vai aprendendo muito mais, né, cara? Vai absorvendo muito melhor os erros que gente comete, né? Acho que as coisas têm tudo para andarem bem em 2016.

Qual foi o melhor momento do ano?

São Paulo e Rio, né?

Escolhe um.

São Paulo.

Algum jogo específico?

Ah, o jogo com o Mayer foi foda, eu acho. Com o Mayer e o com o Klizan foram jogos que… O Carreño Busta eu joguei muito bem, joguei para cacete, mas com o Mayer, ali, o cara era cabeça 4, acho. Foi o jogo do ano, acho. E aqui no Rio, com o Rola, foi muito bom. Foi legal aquela volta, foi muito mais mental (Feijão perdeu três match points e levou a virada no segundo set, esteve uma quebra atrás na parcial decisiva, mas se recuperou e venceu o esloveno Blaz Rola por 6/4, 6/7(9) e 6/4 em mais de 3h de jogo). Mas também tive três derrotas de matar. Três derrotas seguidas. Com o (Luca) Vanni, com break de vantagem no terceiro; depois aqui no Rio, com o Haider Maurer, com break no terceiro para fazer semi e jogar com o Ferrer; e na Davis nem se fala.

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Eu ia chegar nesse momento… Tirando a Davis, qual a derrota mais dura?

A do Luca Vanni.

Foi mesmo?

Ah, foi.

Você entrou “já ganhei” naquele jogo?

Não, você tá louco! O cara vinha do quali, mano.

Por isso mesmo. Era o cara que ninguém esperava, você passou por uma chave que não era tão fácil e chegou ali na semi conta um qualifier…

Mas você vê que o cara tava… Tanto é que ele teve match point contra o Cuevas, pô (Vanni derrotou Feijão na semifinal e perdeu a final do Brasil Open para o uruguaio Pablo Cuevas). Você tá louco! Jamais! Podia ser o… Podia ser você jogando lá a semi e eu ia falar “caralho, o cara tá na semi”, né, meu?

(risos de ambos)

Não, não… Ele é duro. Ele joga bem parecido comigo. Saca, gosta de dar na bola. Eu já conhecia ele.

Teve um pior momento do ano?

(interrompendo) Lógico!

Não digo um jogo, digo um dia. O pior dia.

O dia que eu perdi na Davis.

Não foi o dia seguinte, dois dias depois, ou mais tarde, nas séries de derrotas?

Não. Na hora, ali, foi o pior momento. Esse dia, com certeza, óbvio.

Que horas você foi dormir?

Ah, nem lembro, cara. Imagina uma pessoa destruída. Era eu.

Não passou a noite acordado nem nada?

Não, foi normal, mas dormi pouco. No dia seguinte, já estava com tudo dolorido pra caralho.

Quanto tempo leva para começar a doer de verdade?

No dia seguinte. Para mim, foi o dia seguinte. Passei três dias, até quarta-feira, destruído. Dolorido só, também, nada de mais. Na quinta-feira, eu estava bem já. Mas no dia foi… Imagina se eu ganho aquela porra, velho! Estive a dois pontos de ganhar, velho. Saquei 6/5, 15/15, ele devolveu, eu bati uma direita na paralela e saiu isso (mostrando um espaço pequeno com os dedos). Perdi um ponto, 15/40. Ganhei um ponto, 30/40, aí fiz dupla falta. Aí ele empatou 6/6 e virou aquela guerra.

Essa sequência você não esquece…

Não tem como, né, cara? No 15/15, eu dou uma direita paralela que eu não tinha errado nenhuma… Lógico que eu estava destruído já, né? Era winner, na verdade. Ele nem foi na bola, eu lembro até hoje. A bola saiu “isso”.

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Não tem mais tática nenhuma nessa hora, né?

Não adianta. E eu olhava para o lado, o Mayer destruído. Bem antes do que eu. Bem antes! Ele estava sacando 7/6, 7/6, 4/1, eu quebrei no 4/2 e foi a hora que eu dei a volta no jogo. Eu olhei para o banco, ele estava destruído. Eu falei “fodeu, se eu ganhar este set, acabou.” Ganhei 7/5, 7/5, não sei como ele aguentou. Ele também se superou pra caralho!

Algo que ficou perdido no meio disso tudo é que antes daquele jogo de quase sete horas, você voltou ao time da Davis depois de um fim de ano tumultuado em 2014, com aquela não convocação para jogar com a Espanha. O João (Zwetsch) falou algumas coisas que você não gostou, você disse algumas coisas que ele não gostou… Como foi essa conversa com o João para você voltar ao time?

Cara, para ser bem sincero… (pausa para pensar) Na minha cabeça…

(interrompendo) Vocês brigaram ou foi uma conversa amistosa?

Não, no meu modo de ver, naquela época, eu tinha um jeito de ver e ele tinha o modo dele. Ele tinha as razões dele, e eu tinha as minhas. Acho até que a imprensa ficou do meu lado na época, né?

Eu fiquei.

Muita gente me defendeu e falou “porra, não é o momento do Rogerinho.” Meu ranking estava melhor, eu vinha ganhando mais jogos, só que na época ele falou que o Rogerinho, como tinha jogado muito bem contra o Equador, tinha levado o Brasil e ganhado os dois pontos dele e coisa tal… E aí começou. Também não sei, né? Se entra o lado político ou não.

O João não abriu isso para você?

Não, mas ah… Acho que quem está ali, sabe o que rola. Eu me dou muito bem com todo mundo, estou com o Pardal (Ricardo Acioly, seu treinador) há 11 anos, então acho que… Acho, não. Estou do lado dele em qualquer coisa. Até hoje, não só no tênis, mas em qualquer esporte, a gente tem um pouco o lado político. Então pode ser que tenha contado também, mas não sei, cara. Eu conversei com o João em Quito, eu lembro, e foi tudo bem, meu negócio com ele estava tudo certo. Ele falou “vou te chamar para jogar com a Argentina”, eu falei que “eu tô pronto” e meio que a gente passou uma borracha rápido. Eu – eu, Feijão! – nunca tive problema com ninguém. Jogador, treinador, nada. Nem Confederação nem ninguém. Por isso que eu acho que pode ter sido influência dessa parte, desse lado político.

A equipe te recebeu bem?

Claro. Marcelo, morei três anos com ele. Thomaz, pô, me dou super bem com ele, joguei juvenil com ele a vida inteira. O Bruno, nem se fala. Não, nada. Sou um cara aberto, né, cara? Acho que a galera gosta de mim. (risos de ambos)

O que te faz acreditar que 2016 vai ser melhor que 2015?

Ah, cara, acho que a minha idade está chegando e estou ficando como aquele vinho mais encorpado. Estou me sentido mais forte, tudo está parecendo mais natural. Na hora de treinar, comer um negócio, abdicar de uma coisa aqui, treinar de um jeito ali… Estou me sentido mais forte na parte de escolhas, eu acho. É o que eu te falei… Algumas escolhas acho que errei em 2015, que foi um ano de aprendizado. Então isso me fez mais forte. Acho que às vezes a gente tem que dar dois passos para trás para das três ou quatro para a frente. Acho que é isso. Estou num momento muito bom, até na minha vida pessoal também. Estou tranquilo, morando sozinho, fazendo as coisas que eu gosto, treinando com muito prazer, treinando bem, coisa que eu sempre fiz. O principal mesmo é o olhar meu ranking e ver 140… É uma motivação bem… Eu olho e digo “que bosta!”

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Eu já devo ter e perguntando isso lá atrás, em 2012, mas talvez valha perguntar de novo porque você é uma pessoa diferente hoje. Como foi este ano, depois daquele começo bom, de quartas de ATP 500, semi de ATP 250, e ter que voltar para o primeiro Challenger? Bate uma sensação de frustração?

Não, não porque eu não tinha jogado nenhum Challenger até Prostejov (em junho), que eu fiz semi ainda. Ganhei do Mathieu e do Granollers. Depois da Davis, foi o único torneio que joguei pra caralho. São dois caras que estão top 100. E perdi um jogo ganho contra o moleque que foi fazer a final (o sérvio Laslo Djere, do 20 anos, venceu por 6/7(3), 7/6(4) e 7/5). Não, a sensação foi normal, cara.

Mas não bate um desânimo começar um ano jogando Challenger em vez de…

(interrompendo e voltando a falar do segundo semestre) Ah, bate um pouquinho, mas não é nem “estou jogando Challenger.” É mais “preciso jogar bem, cara.” Porque eu sabia que tinha ponto para defender (no segundo semestre) e no momento eu não estava bem. Eu não estava confiante, não estava bem, mas estava fazendo as coisas que eu tinha que fazer. O que estava ao meu alcance, eu estava fazendo. E essa semana (Prostejov) foi a única semana que eu joguei muito bem depois das três primeiras semanas do ano. O pensamento foi “preciso ganhar, preciso somar porque senão a casa vai cair.” E caiu (risos). Tinha ponto para defender pra caralho, mas até que joguei legal no fim do ano. Joguei com o Rogerinho (em Santiago) e tive match point, ele ganhou o torneio. Depois com o Hernandez, em Lima, perdi 7/6, 7/6. O moleque perdeu na semi com match point para ir para a final. Em Bogotá, perdi para o Struvay, ele foi campeão ganhando do Zeballos e do Lorenzi. Enfim, eu estava jogando bem já. Os últimos três torneios do ano, eu estava bem já. Óbvio que não estava jogando um tênis galático, mas estava conseguindo competir bem, fazer as coisas bem. Ainda fiz uma semi em Pereira, virando três jogos perdidos… Essa gira sul-americana me fez… (interrompendo) Não chega nem a cem pontos o que fiz, mas foi legal, deu uma motivação a mais para eu sair desse buraco, ganhar alguns jogos.

Essa pré-temporada agora tem algo de diferente, além da dieta?

Estou tomando alguns cuidados a mais na parte física principalmente. A gente está segurando um pouco mais. Antigamente, como eu era mais nvo também, a gente focava muito mais em volume, volume, volume e se matar na quadra. Lógico, você é moleque, tem 20, 21, 22 anos, você aguenta três horas de manhã e três horas à tarde. Eu já estou com 27. então a gente está ficando mais esperto nessa parte de dosar. Mas só um pouquinho também. Com 27 não quer dizer que eu estou velho, né? Se eu estou velho, o André Sá está o quê, então, um ancião! (risos)

(risos) Li nas suas entrevistas depois da Davis que as Olimpíadas eram um sonho para você. Como está vendo suas chances hoje?

Ah, cara, eu vejo grandes, para ser bem sincero com você. Eu tenho 240 pontos (para defender) até o Rio Open. Vou jogar só Challengers até ali. Já tenho quatro Challengers para jogar. Jogo Quito (um ATP 250 em fevereiro), que é um torneio onde eu sei do meu potencial…

(interrompendo) Tem um Challenger aqui no Rio, né?

Dois na Argentina, um no Marapendi (clube carioca) e um em Bucaramanga. Em Bucaramanga, já ganhei um torneio. Aqui, vou estar jogando em casa… Enfim, são torneios que se ganha um, faz uma final, uma semi… Já defendi os pontos. Depois, também… Sabe? Foi como na primeira vez, que me meti (no top 100) jogando Challenger, com a confiança lá em cima. Acho que o importante no começo do ano é ganhar jogo, agarrar ritmo de jogo, um pouco de confiança e ir embora. Depois, jogando Rio (Open) e São Paulo (Brasil Open), que são dois torneios que eu amo jogar… E aí, cara… Não vou arriscar nada no calendário.

Esse ranking para as Olimpíadas fecha por volta de 80, né?

Eu acho que 80. Mas é isso, cara. Acho que (as chances) são altas. Estou super motivado, como te falei.


Quadra 18: S01E20
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Alexandre Cossenza

Andy Murray colocou o Reino Unido nas costas no início do ano e suportou o peso até o fim. No último domingo, derrotou David Goffin, conquistando sua 11ª vitória em 11 jogos disputados em 2015 e deu à Grã-Bretanha seu primeiro título de Copa Davis desde 1936. Por isso, o podcast Quadra 18 desta semana é inteiramente dedicado à competição.

Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu comentamos a decisão contra a Bélgica, os principais méritos do time britânico e, claro, as muitas qualidades de Andy Murray, o maior responsável pelo título.

Para ouvir, basta clicar no player acima. Se preferir, clique com o botão direito do mouse neste link e, depois, em “salvar como” para baixar o episódio e ouvir mais tarde.

Ah, sim: também falamos sobre o que esperar da Copa Davis em 2016, lembrando os primeiros confrontos da próxima temporada e fazendo comentários divertidos sobre os Zonais pelo mundo.

Os temas

Este post será atualizado em breve com a lista de assuntos abordados.

Créditos musicais

A faixa de abertura tinha que ser de uma banda escocesa, né? Michael (Franz Ferdinand) foi a escolhida. No fim, a pouco conhecida Under the Lights (Keith Meisner), sobre – surpresa! – Andy Murray.


Deus salve Andy Murray
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Alexandre Cossenza

Nunca um tenista fez tanto na história do Grupo Mundial da Copa Davis. E não é só isso: nunca um tenista precisou fazer tanto para conquistar o título. Em quatro fins de semana, Andy Murray entrou em quadra 11 vezes. Saiu vencedor em todas, sem exceção. Principal integrante de uma nação que não gerou outro simplista de peso desde Tim Henman, o britânico carregou o Reino Unido nas costas na quadra dura, na grama e no saibro; na Escócia, na Inglaterra e na Bélgica. E, ao derrotar David Goffin por 6/3, 7/5 e 6/3 neste domingo, completou uma das campanhas mais espetaculares da história da competição.

É o primeiro título da Grã-Bretanha na Copa Davis desde 1936, quando Fred Perry deu o quinto e decisivo ponto a seu time. O mesmo Perry que era lembrado anualmente enquanto o jejum de títulos britânicos em Wimbledon aumentava. E foi Andy Murray que, 77 anos depois, deu um título ao país no mais importante e cobiçado torneio do planeta.

Feito atrás de feito, Murray vai escrevendo seu nome nas listas mais relevantes da modalidade. Uma medalha de ouro nas simples (em Wimbledon, derrotando Roger Federer em sets diretos na final), títulos de Grand Slam e, agora, a Copa Davis. Tudo isso precisando lidar com a incômoda imprensa britânica, a eterna e sensível relação Escócia-Inglaterra e uma delicadíssima cirurgia nas costas que interrompeu seu melhor momento no circuito mundial (lembremos do massacre de Dunblane também).

Murray encerra assim a melhor temporada de sua carreira até agora. Dono da Copa Davis e número 2 do mundo mesmo colocando a competição por equipes acima de torneios individuais em sua lista de prioridades. Afinal, quantos tenistas já sacrificaram campanhas no ATP Finals em nome da final da Davis? Essa é só uma das muitas características espetaculares de um atleta que encara de frente todas adversidades extras e uma geração fantástica de oponentes que a vida lhe impôs. E, mesmo diante disso tudo, segue alcançando feitos gigantes.

O confronto

Quando o confronto começou, parecia que Murray nem precisaria desse 11º jogo. Um pouco pelos nervos de Goffin, um pouco pelo talento de Kyle Edmund e mais um pouco pela “inconsciência” do garotão britânico de 20 anos, que fazia sua estreia em Copa Davis logo em uma final e não parecia sentir/entender o peso do momento, parecia que os britânicos levariam o improvável primeiro ponto.

Enquanto Goffin brigava contra a tensão, Edmund soltou o braço, acertou quase tudo e abriu 6/3 e 6/1. Seria um baque enorme para o time da casa, não fosse a recuperação de seu número 1. Goffin entrou nos eixos e, como quase sempre acontece no tênis, a ascensão de um significa a queda de outro. O britânico nascido na África do Sul viu sua carruagem virar abóbora. Depois de fechar o segundo set, venceu apenas três games. Bélgica 1 x 0 Grã-Bretanha: 3/6, 1/6, 6/2, 6/1 e 6/0.

Chegou, então, a hora da estreia do herói do fim de semana. Favoritíssimo contra Ruben Bemelmans, #108, Murray não decepcionou. Teve alguns momentos de oscilação, especialmente quando a torcida cresceu no segundo set. Uma de suas crises nervosas lhe rendeu até um point penalty, mas nada que lhe tirasse da dianteira. No fim, fez 6/3, 6/2 e 7/5, tranquilizando o Reino Unido e mostrando que quem carregou o peso de uma nação inteira nas costas até ganhar seu primeiro Slam não sofreria com a tamanho de uma final de Copa Davis.

O sábado chegou com o momento crítico do jogo de duplas. Uma vitória belga significaria que Murray poderia vencer no domingo e, ainda assim, o time da casa teria uma chance considerável de vitória. Um triunfo britânico deixaria o destino do duelo na raquete de Murray.

Johan van Herck, o capitão belga, talvez visse a vitória no sábado como a única chance real de um triunfo. Por isso, em vez do inicialmente escalado Kimmer Coppejans (21 anos, #128 de simples), quem entrou em quadra foi David Goffin ao lado de Steve Darcis. Uma manobra arriscada, já que Goffin perderia a única vantagem óbvia que teria sobre Andy: chegar menos cansado no domingo.

Diante de um Jamie Murray errático, a dupla belga foi superior durante a maior parte dos dois sets iniciais. Na primeira parcial, Darcis, melhor belga em quadra, teve o primeiro break point do jogo no nono game, mas jogou uma devolução na rede. No game seguinte, o mesmo Darcis jogou um smash para fora, cedendo um set point. O time britânico aproveitou e saiu na frente: 6/4.

No segundo set, uma quebra no terceiro game deixou a Bélgica à frente. Os donos da casa mantiveram a frente, fecharam a parcial e continuaram melhores. Darcis e Goffin quebraram primeiro no terceiro set, mas não conseguiram deslanchar e jogar a pressão nos visitantes. Andy e Jamie quebraram de volta no game seguinte e cresceram no jogo. Fizeram 6/3 e tomaram a dianteira de vez.

O maior desafio para os britânicos era fazer Jamie subir à rede com eficiência, sem ficar exposto no fundo de quadra, onde Goffin e Darcis são mais consistentes, nem ser pego com um golpe violento na subida. No quarto set, os escoceses tiveram mais sucesso. Conseguiram uma quebra no terceiro game e sobreviveram a um longuíssimo quarto game, salvando sete break points e consolidando a vantagem. Depois disso, não olharam mais para trás. O placar no fim do dia mostrava Bélgica 1 x 2 Grã-Bretanha, com as parciais do dia em 6/4, 4/6, 6/3 e 6/2.

O domingo não poderia ser muito diferente. Depois de dez vitórias, a 11ª parecia questão de tempo. Goffin, justiça seja feita, fez uma tentativa digna. Esteve bem nas trocas do fundo de quadra e tentou sempre comandar os pontos. Pecou, porém, taticamente ao insistir com o segundo saque no backhand do britânico. Pagou o preço por isso no primeiro set e só não lhe custou tanto no segundo porque Murray errou mais devoluções do que de costume.

Goffin também bobeou no 11º game, quando tentou uma curtinha com Murray batido e errou. Em vez de abrir 30/0, deixou o placar em 15/15. O britânico acabou quebrando o serviço do belga no embalo e, depois, saiu de 0/30 para fechar a segunda parcial com um dos pontos mais espetaculares do dia.

O número 1 da Bélgica ainda teve uma pequena chance de reagir, quando conseguiu quebrar Murray no início do terceiro set. O britânico, no entanto, respondeu rápido, quebrando de volta no game seguinte. E seguiu no jogo, enquanto Goffin lutava bravamente. mas era pedir demais do tenista da casa, que já vinha com 11 sets nas costas a essa altura. Murray quebrou, abriu 4/3 e não olhou para trás. Fechou a partida com um lob top spin – marca registrada – em mais um ponto memorável e desabou em lágrimas com a bandeira britânica.

Coisas que eu acho que acho:

– Desde 2007, uma dupla formada por irmãos não jogava uma final de Copa Davis. Antes da grande ocasião, Andy e Jamie toparam a brincadeira que resultou no vídeo publicado pela federação britânica. Vale a pena ver:

– Desde a adoção do formato do Grupo Mundial, em 1981, John McEnroe tem o recorde de melhor campanha, com 12 vitórias e nenhuma derrota. Naquele ano, porém, o americano jogou três dead rubbers – partidas realizadas com o confronto já decidido. Andy Murray fez as 11 partidas válidas (live rubbers).

– Sobre a atuação de Jamie, é bem verdade que o Murray mais velho ficou abaixo do esperado, e foi Andy quem carregou o time durante a maior parte do tempo. Não vale a pena, contudo, entrar em pânico antecipado a respeito do futuro parceiro de Bruno Soares. Primeiro, é preciso considerar o tamanho da ocasião e tudo que havia em jogo. Depois, lembremos que o saibro não é lá o melhor piso para o jogo de Jamie, um tenista bem mais eficiente na rede do que no fundo. E não esqueçamos de como ele carregou John Peers a duas finais de Slam em 2015. É equivocado – ou, em alguns casos, burrice mesmo – julgar Jamie por uma partida.

– Em toda campanha britânica na Davis este ano, a única vitória de um tenista não chamado Murray aconteceu na primeira rodada, quando James Ward bateu John Isner por 15/13 no quinto set, em Glasgow. Foi esse resultado, aliás, que possibilitou o descanso para Andy no sábado. Jamie jogou ao lado de Dominic Inglot e foi derrotado pelos irmãos Bryan por 9/7 no quinto set.

– Aconteceu logo depois do match point. A equipe britânica invadiu a quadra e foi comemorar com Andy Murray, que estava estirado no saibro. Andy, então, levantou e deixou seu time ali enquanto correu para cumprimentar Goffin e o resto da delegação belga. Gesto lindíssimo de uma pessoa fantástica.

– A maior vitória do fim de semana foi, felizmente, da paz. Depois dos dias tensos na Bélgica – principalmente em Bruxelas -, com suspeitos presos, caçadas a terroristas e até uma ameaça de atentado, é um alívio ver a Copa Davis chegar ao fim sem incidentes do tipo. O planeta agradece.


Quadra 18: S01E19
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Alexandre Cossenza

Novak Djokovic completou uma temporada espetacular com mais um título e mais uma vitória sobre Roger Federer. No embalo do ATP Finals, o podcast Quadra 18 está de volta com mais um episódio cheio de informações. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu comentamos os oito melhores simplistas, o Finals de duplas e as notícias mais quentes como a ameaça terrorista na Bélgica, onde será disputada a final da Copa Davis, e a exclusão dos pontos do torneio olímpico de tênis.

Para ouvir, basta clicar no player acima. Se preferir fazer o download do episódio, clique neste link com o botão direito do mouse e, depois, em “salvar como”.

Ah, sim: também falamos sobre a final da Fed Cup, os planos da ATP de realizar uma espécie de ATP Finals Sub-21 e a volta de Carlos Bernardes às partidas de Rafael Nadal em 2016.

Os temas

0’00 – Higher (Sigma feat. Labrinth)
0’41’’ – SURPRESA! Djokovic venceu o Finals.
1’44’’ – “Não pode ter feito 15 finais seguidas. Alguém errou a conta”
2’25’’ – Os jogos contra Federer: o que mudou de um para o outro
5’50’’ – Frases distorcidas em coletivas
6’48’’ – O efeito Djokovic: forehands, riscos e o jogo tático em Djokovic x Federer
11’02’’ – O 2015 de Federer foi melhor que o seu 2014?
12’49’’ – Murray travando contra os tops
15’00’’ – Murray ou Wawrinka?
16’52’’ – “O Stan é muito humano, né?”
20’30’’ – Os “outros” do ATP Finals
21’50’’ – Pergunta: “O que é preciso para bater Djokovic?” Respostas: “bigorna do Coyote”, “seja Wawrinka em Paris” e “macumba”.
22’50’’ – Pergunta: “Qual a diferença do domínio de Serena na WTA e o de Djokovic na ATP?”
23’23’’ – Pergunta: “Neste ritmo, em que degrau da história do tênis Djokovic pode chegar?”
25’28’’ – Pergunta: “Federer ano que vem continua como principal adversário de Djokovic?”
25’44’’ – Pergunta: “Qual será a prioridade de Djokovic em 2016: Roland Garros ou Olimpíadas?”
27’37’’ – Pergunta: “Vocês também acham que o melhor do Finals foi o extraquadra? Murray cortando o cabelo e deixando o box vazio, a ex do Stan…”
31’41’’ – Barbagate + comentário: “Federer é meio Tony Ramos, né?”
33’59’’ – Duuuuuuuuuuu-plaaaaaaaaas
34’24’’ – Aliny esperava número 1 título de Rojer/Tecau?
36’18’’ – Parênteses sobre a namorada “peituda” de Robert Lindstedt
37’30’’ – “Falando de beijos e romances…”
37’45’’ – A campanha de Marcelo Melo e Ivan Dodig
39’18’’ – Desabafos contra John Peers
40’34’’ – Bopanna e Mergea surpreenderam?
41’23’’ – Aliny analisa o momento dos Bryans e como isso reflete no circuito
43’02’’ – Críticas sobre a não-transmissão da semifinal
48’40’’ – 22 Acacia Avenue (Iron Maiden)
49’19’’ – Preocupação com a segurança na final da Copa Davis
53’05’’ – Comentários sobre a falta de pontos nos Jogos Rio 2016
58’08’’ – A ideia do ATP Finals sub-21
61’10’’ – Rafa Nadal e Carlos Bernardes, o retorno em 2016
63’00’’ – República Tcheca vence a Fed Cup novamente
63’45’’ – Inédito: Cossenza elogia Sharapova
65’25’’ – England (Edguy)

Créditos musicais

Por causa do ATP Finals em Londres, a trilha sonora tem tema inglês. A faixa de abertura é Higher (Sigma feat. Labrinth). As outras duas faixas são 22 Acacia Avenue (Iron Maiden) e England (Edguy).


Quadra 18: S01E15
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Alexandre Cossenza

O Brasil perdeu para a Croácia na Copa Davis, e o podcast Quadra 18 está no ar para falar de tudo que envolveu o confronto. A escolha da sede, as partidas, a infraestrutura (ou a falta dela) e as consequências de tudo que rolou em Florianópolis. Com apresentação de Sheila Vieira, que acompanhou as semifinais do Grupo Mundial, o podcast tem Aliny Calejon e eu gravando direto de Floripa.

Para ouvir, no player clique acima. Se preferir, faça o download do podcast e ouça depois. Basta clicar no link acima com o botão direito do mouse e “gravar como”.

Quem preferir pode baixar o arquivo assinar nosso feed e ouvir no iTunes. E para enviar questões, críticas e sugestões, nosso canal preferido é o Twitter – incluam sempre a hashtag #Quadra18 – mas também aceitamos via e-mail e Facebook.

Os temas

Como de costume, segue abaixo a lista de assuntos abordados no programa, com o momento em que falamos sobre cada um dos temas. Quem preferir, pode avançar direto até o trecho que quiser ouvir primeiro.

0’00” – Introdução com Cossenza e Aliny em Florianópolis
1’37” – O confronto Brasil x Croácia
3’50” – A vitória croata foi surpreendente?
8’50” – A torcida catarinense e o mérito de Borna Coric
10’10” – O abandono de Thomaz Bellucci
10’30” – João Zwetsch fala sobre a decisão que resultou no abandono
14’45” – Thomaz Bellucci fala por que “não fazia sentido continuar”
15’40” – Bellucci fala sobre como lesões aparecem quando o tenista está mais cansado
16’55” – Florianópolis foi a melhor escolha para sede da Davis?
24’55” – “Parece uma organização amadora”
28’40” – Comentários sobre Grã-Bretanha x Austrália
33’50” – Comentários sobre Bélgica x Argentina
35’30” – O preparo físico de Leo Mayer que faltou à Argentina
36’20” – O que esperar da final entre Bélgica e Grã-Bretanha
37’20” – Bélgica na final significa mudanças à vista na Copa Davis?
40’30” – “EUA e Europa têm dificulade em enxergar amém do Grupo Mundial”
41’45” – Os playoffs e a única mudança no Grupo Mundial
42’30” – “Federer teve que pegar a bucha”
44’20” – “A Dinastia Daniel sobrevive na Colômbia”
45’50” – Colômbia bate na trave mais uma vez
46’50” – “Marcos Daniel fez muito mais na Colômbia do que Santiago Giraldo”
47’20” – Teliana Pereira no ITF de St. Malo e rumo à Ásia
48’55” – Confrontos interessantes no Challenger de Campinas
49’30” – Comentários quase aleatórios sobre champanhe croata e rodízio em Florianópolis

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast”, é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “Hang For Days” e “Game Set Match”. As duas últimas fazem parte da audio library do YouTube.


Brasil x Croácia, dia 3: a supremacia Borna
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do garotão foi fantástico. Borna Coric, 18 anos e dono da responsabilidade de ser o #1 da Croácia em um confronto fora de casa, respondeu à altura. Pouco se incomodou com a torcida e a corneta de Dartagnan Jatobá (até provocou o público às vezes), fez duas partidas com nível técnico altíssimo, superou o calor e a umidade do domingo e venceu o ponto decisivo diante de um Thomaz Bellucci que não resistiu às condições e abandonou a quadra sentindo dores nas costas quando perdia por 6/2, 4/6, 7/6(4) e 4/0, depois de 3h11min.

Coric chegou a Florianópolis, é bom lembrar, vindo de um punhado de atuações irregulares em Barranquilla. Foi campeão na Colômbia, sim, mas em um torneio de nível bastante inferior ao que está acostumado a enfrentar no circuito. No entanto, desde que pisou na quadra do Costão do Santinho para enfrentar Feijão, mostrou-se um tenista muito mais sólido, concentrado e equilibrado. O resultado veio na forma de duas vitórias e apenas um set perdido.

Neste domingo, contra Bellucci, dois “momentos” fizeram enorme diferença para Coric. A primeira parte foi não entrar em pânico depois de perder o segundo set e ouvir a torcida transformar seu gemido em grito de guerra. Mas o adolescente também foi gigante quando, logo depois de perder o saque no terceiro set, agrediu o serviço do brasileiro e conseguiu a quebra em seguida. Coric não se perdeu nem quando desperdiçou de forma boba os dois set points que perdeu no 12º game. Entrou bem no tie-break e saiu vencedor.

“Ele mostrou o quão rápido está evoluindo, o quanto está amadurecendo, e lidar com essa torcida e a pressão dessa partida hoje e tudo mais. Então, o tie-break do terceiro set! Mesmo tendo feito uma ótima partida, no tie-break ele elevou seu jogo na hora mais importante. Como todos pudemos ver, não há limites para o que ele pode fazer em uma quadra. É um grande privilégio para mim tê-lo no time”, derreteu-se em elogios o capitão croata Zeljko Krajan.

Coisas que eu acho que acho:

– Parte do público vaiou quando Bellucci deixou a quadra, mas a maioria da arena montada em Florianópolis aplaudiu e inclusive gritou o nome do #1 do Brasil. O paulista relutou em abandonar, mas já não conseguia ser competitivo quando finalmente tomou a decisão. Na coletiva, Bellucci inclusive afirmou que não sabe se teria conseguido aguentar nem se tivesse vencido o tie-break da terceira parcial.

– Florianópolis não ofereceu vantagem nenhuma ao time brasileiro além da óbvia presença do público (o que aconteceria em qualquer cidade). As condições climáticas não ajudaram nem Feijão nem Bellucci. A dupla, que gosta de condições mais rápidas, perdeu. E o calor e a umidade do domingo, combinados com as mais de 3h de jogo, trouxeram à tona a lesão nas costas que vem incomodando o #1 do Brasil há alguns meses. E nem é possível afirmar que incomodaram a Croácia.

– A possibilidade de ter calor e umidade em uma quadra sem luz artificial (ou seja, com as partidas começando no fim da manhã e entrando pelo meio-dia) sempre foi ruim para Bellucci, que tem um histórico de problemas físicos em condições assim. A aposta brasileira de insistir com Florianópolis acabou sendo um tiro no pé.

– Rebaixado novamente para o Zonal das Américas, uma espécie de segunda divisão da Copa Davis, o Brasil agora espera o sorteio de quarta-feira para saber o que esperar da próxima temporada. Soa como uma punição para um Bellucci que faz uma grande temporada, mas não conseguiu manter seu time na elite.


Brasil x Croácia, dia 2: o típico dia imprevisível
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Alexandre Cossenza

O clichê, enfim, se aplica. A zebra apareceu no confronto entre Brasil e Croácia. Bruno Soares e Marcelo Melo, invictos há oito jogos em Copa Davis, foram derrotados em Florianópolis, em uma atuação nada memorável, por Ivan Dodig e Franko Skugor: 6/0, 3/6, 7/6(2) e 7/6(3). Foi uma tarde dura para os brasileiros – especialmente para Bruno Soares, que só jogou seu habitual bom nível de tênis em flashes aqui e ali. Ao mesmo tempo, foi uma jornada incrível de Dodig, duplista #6 do mundo, que fez dois tie-breaks impecáveis.

O público bem que tentou empurrar os brasileiros, e a maré parecia estar mudando no fim do quarto set, quando Soares e Melo escaparam de dois match points no saque de Dodig, quebraram de volta e deram motivo para a torcida fazer mais barulho do que eu qualquer outro momento do confronto. O segundo tie-break, no entanto, foi quase um microcosmo da partida. Um Soares inseguro e dois croatas soltos, jogando bem e sem a pressão da proximidade da derrota.

Fora o estranhíssimo primeiro set, com a dupla brasileira apática e mais preocupada em entender e conhecer Skugor do que em fazer seu próprio jogo, não foi uma partida desequilibrada. Para Bruno Soares, ele e Marcelo dominaram dois sets (o segundo e o terceiro), mas não aproveitaram as chances – foram sete chances de quebra na terceira parcial. A diferença foi o brilho de Dodig, que acertou dois lobs perfeitos no tie-break do segundo set.

O resultado deixa a Croácia com vantagem de 2 a 1 no confronto, precisando de só uma vitória para continuar no Grupo Mundial. O Brasil, por sua vez, precisa que Bellucci derrote Coric no primeiro jogo de domingo (começa às 10h) e, depois, que Feijão supere Delic (#499) – ou Dodig, que jogou muito bem nas duplas e é melhor simplista que Delic. o capitão Zeljko Krajan, contudo, ainda não confirma a mudança na escalação que foi apresentada na quinta-feira.

Dodig disse estar pronto: “Se você não estiver pronto para o capitão, ele não te convoca mais”. Krajan, por sua vez, lembrou que “Ivan jogou por quatro horas neste sábado e que não será fácil no domingo, então Mate ainda é uma opção.”

Mais aquecimento do que jogo

Antes do confronto de duplas, Feijão e Borna Coric entraram em quadra para completar a segunda partida de simples, interrompida na sexta-feira por chuva e falta de luz natural. O brasileiro, que sacava em 1/4 e 40/30 no terceiro set, acabou perdendo o serviço e vendo o #33 do mundo fechar a partida em 6/4, 7/6(5) e 6/1. Ao todo, o tempo de jogo neste sábado durou menos que o aquecimento. Na coletiva, Feijão relatou o desentendimento com Coric ao fim do segundo set, quando o adolescente croata (18 anos) provocou a torcida.

A ideia, Feijão revelou neste sábado, era mexer com a cabeça do adversário. Não deu resultado. Coric, aliás, quebrou o serviço do #2 do Brasil logo no segundo game do terceiro set e disparou na frente. O paulista pelo menos afirmou ter saído de quadra relativamente contente com seu jogo e – muito importante – com mais confiança do que antes. Ele disse contar com a torcida para encontrar uma maneira de triunfar no caso de um quinto jogo.

Coisas que eu acho que acho

A tática do boi de piranha funcionou perfeitamente para o capitão croata. Ao escalar (ou melhor “queimar”) Delic em um jogo em que Bellucci seria favoritíssimo, Krajan conseguiu poupar Dodig, que fez uma partidaça e “roubar” o ponto das duplas. Agora, conta com Coric para fechar o confronto. Mesmo se o #1 croata perder, o time ainda conta um Dodig com confiança extra.

Krajan, como escrevi acima, não deu pistas sobre quem vai escalar no domingo. Parece mais provável, contudo, a escalação do “duplista” Dodig para um eventual quinto jogo. Não só pela moral que carrega da vitória e sábado, mas por ter mais tênis e experiência do que Delic.