Saque e Voleio

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Sobre Copa Davis e competências
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do confronto entre Equador e Brasil chega ao fim com o resultado mais provável. Vitória brasileira garantida no sábado, com Thomaz Bellucci, Thiago Monteiro e a dupla mineira vencendo. Foi, no entanto, um duelo mais interessante e divertido (dependendo da sua torcida) do que o imaginado. O mérito – ou a culpa – disso é de Thomaz Bellucci, que complicou um jogo não tão duro e quase acabou superado por Emilio Gómez, número 272 do mundo.

O Equador, claro, teve seus méritos. Dono de uma equipe muito mais fraca, com Roberto Quiroz (#232) como número 1, o país fez o dever de casa. Colocou os jogos na altitude de Ambato, 2.500m acima do nível do mar, e nivelou os confrontos por baixo. Ainda que levado em conta o bom histórico de Bellucci em condições semelhantes, era mesmo o melhor a se fazer.

Não dá para dizer que os donos da casa erraram. O nível foi tão para baixo que Bellucci se empolgou na sexta-feira e cavou um buraco enorme depois de abrir 2 sets a 0 contra Gómez. O equatoriano virou o jogo e chegou a ter uma quebra de frente no quinto set. Para a sorte de Bellucci, Gómez nunca foi (ainda?) o tal futuro top 50 que um dia venderam na TV brasileira (coisas que o pachequismo tenta empurrar goela abaixo do espectador para justificar escolhas erradas de parceiros de negócios). Emilio sentiu os nervos, perdeu a vantagem num game com duas duplas faltas e um erro não forçado e voltou a perder o saque antes de um tie-break decisivo: 6/2, 6/4, 6/7(1), 4/6 e 6/4.

Pessimismo meu? Nem tanto. Gómez saiu da quadra dizendo que nem fez uma ótima partida e que se tivesse ganhado, não seria por mérito de seu tênis. Bellucci, por sua vez, afirmou que a experiência fez diferença, reconheceu que Gómez sentiu os nervos no quinto set e concluiu que o rival lhe “permitiu ganhar a partida”. Ambas parecem declarações bastante conscientes sobre o que aconteceu em quadra.

Thiago Monteiro era um ponto de interrogação maior. Jogou em Quito duas vezes na vida e perdeu ambas. E nenhuma outra apresentação em tanta altitude em toda a carreira. Bom para Quiroz, que conseguiu equilibrar um jogo que, em outras condições, seria muito mais favorável ao brasileiro. Mesmo assim, o cearense foi melhor nos momentos importantes: 6/7(6), 7/6(0), 6/3 e 7/6(7).

Com 2 a 0 no sábado, restava à dupla fechar o caixão. Bruno Soares e Marcelo Melo, que raramente decepcionam juntos, fizeram 6/3, 6/4 e 6/3 em 1h38min sobre Gonzalo Escobar e Roberto Quiroz. Sem drama. Brasil de volta ao playoff.

Coisas que eu acho que acho:

– Em Ambato, a delegação brasileira contou com a presença de Luís Eduardo Nunes, presidente da federação paraibana de tênis, que exerceu a função de “auxiliar da delegação”, segundo a assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Tênis (CBT).

– Segundo a CBT, Nunes foi a Ambato pagando de seu próprio bolso – sem pedir nada à entidade. No entanto, como o chefe da delegação, Eduardo Frick, não conseguia tratar de todas questões logísticas necessárias por conta própria, Nunes foi agregado ao time, ganhando uniforme, participando de eventos oficiais, sentando no banco junto com a equipe durante as partidas e até comemorando a vitória dentro de quadra. Nunes participou até do teatrinho dos jogadores, “fantasiado” de Lampião (é ele no centro da imagem abaixo).

– Estranha o fato de Frick, recém-contratado, não ter competência para cuidar da logística de uma equipe de Copa Davis. Paulo Moriguti, seu antecessor na função, nunca precisou de auxiliar. Moriguti, aliás, deixou a CBT depois que Rafael Westrupp assumiu a presidência no lugar de Jorge Lacerda.

– Merece elogios o altruísmo de Luís Eduardo Nunes. Além de pagar de seu bolso para viajar a Ambato (!!!) para ver de perto nomes como Roberto Quiroz e Emilio Gómez (porque Bellucci e Monteiro ele poderia ver no Rio ou em São Paulo), o presidente da federação paraibana ainda trabalhou de graça para o tênis brasileiro. Que a CBT e Frick, aquele que não conseguiu fazer seu trabalho sozinho, sejam eternamente gratos a ele.

– Chegamos a abril, e a CBT ainda não tem uma empresa grande como fornecedora oficial de material esportivo. O time viajou ao Equador vestindo Companion – marca que também serviu como tapa-buraco durante um período da gestão de Jorge Lacerda.

– Pela primeira vez em muito tempo, um time brasileiro de Copa Davis viaja sem fotógrafo. Talvez por isso a imagem escolhida por todos jogadores e técnicos para postar em redes sociais após a vitória foi a selfie registrada por Marcelo Melo. Não havia opção. Talvez o trabalho de um fotógrafo ajudasse a divulgar o time e valorizasse o espaço no uniforme brasileiro, o que, por sua vez, ajudaria a atrair marcas. Há quem acredite, porém, que estou superestimando o valor do fotógrafo.


Investigado pela Justiça revela que deu declaração falsa a pedido da CBT
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Alexandre Cossenza

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A essa altura, todo mundo já sabe que a Justiça Federal aceitou a denúncia do Ministério Público e vai investigar Jorge Lacerda, presidente da CBT; Dacio Campos, ex-tenista e comentarista do SporTV; e Ricardo Marzola, proprietário da Brascourt, que faz quadras de tênis e teve escritório instalado na sede da CBT. Se não sabe, leia aqui.

Tentei falar com os três envolvidos e, de tudo que ouvi, o que mais mexeu comigo foi uma declaração de Ricardo Marzola. O proprietário da Brascourt disse que assinou, a pedido de Lacerda, uma declaração falsa, supostamente atestando ter realizado serviços que nunca foram prestados.

“A Carolina [Maria Carolina Freire, advogada da CBT], foi na porta do meu escritório e me levou uma carta, dizendo ‘O Jorge mandou você assinar isso’. A carta falava que eu tinha prestado algum tipo de serviço no Harmonia. O meu erro foi esse. Eu não li direito e assinei porque, naquela época, minha parceria com ele [Lacerda] era tão grande que mesmo se eu tivesse lido e visto o conteúdo dela mesmo, eu teria assinado, entendeu?”, disse Marzola. “Eu não fiz nada no Harmonia. Mandei um gerente meu e alguns funcionários, e o Harmonia falou que não precisava.”

Recapitulando, o evento estava marcado para acontecer no WTC, em São Paulo. Por isso, Marzola já havia encomendado a fabricação do piso emborrachado. Por isso, o empresário recebeu os R$ 40 mil que estavam previstos no projeto de captação de verba. O problema todo começou quando o evento teve de mudar de local. Marzola, que não teria o que fazer com o piso, relatou:

“O Dacio disse ‘Marzola, depois a gente vê o que faz. O Jorge já autorizou mudar para o Harmonia. Vamos ver se você presta algum serviço lá, compra uma lona, alguma coisa, e a gente debita desse dinheiro. Aí quando você vender a lona, você devolve esse dinheiro para nós.’”

“Eu vendi esse piso de borracha, tirei os impostos e devolvi o dinheiro para o Dacio Campos. Coloquei na conta particular dele, no Banco Itaú. Esse dinheiro não ficou para mim. Não roubei. Não sabia que não poderia mudar o local. Isso quem teria que saber era o Jorge.”

Marzola, vale explicar, era parceiro da CBT em várias empreitadas e foi responsável por construção e manutenção de quadras de confrontos de Copa Davis. A Brascourt tinha escritório na sede da Confederação Brasileira de Tênis, e Marzola, inclusive, chegou a se sentar no banco da equipe como um integrante do time de Copa Davis (na foto abaixo, ele aparece de agasalho cinza, com os dois braços levantados, comemorando um ponto brasileiro).

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A explicação de Marzola, de certo modo, não é muito diferente da justificativa dada por Dacio Campos, com quem também conversei por um bom tempo nesta sexta-feira. Quando a denúncia diz que ele não teria motivo idôneo para receber sua quantia (R$ 400 mil) porque Lacerda “sabia muito bem que não poderia contar com a ‘intermediação’ de DACIO” (aspas retiradas do texto original da denúncia), o comentarista argumenta que não tinha obrigação da saber da lei. Ele, afinal, teria sido contratado para fazer um serviço e não precisava saber, juridicamente falando, sobre as exigências envolvendo o dinheiro que lhe estava sendo oferecido.

Segundo Dacio Campos, se o torneio não tivesse mudado de local, a CBT faria seus pagamentos diretamente ao WTC. Como houve a alteração da sede, foi preciso montar a estrutura no clube Harmonia, e esse trabalho teria sido ressarcido com os tais R$ 400 mil questionados pelo MP.

Ele enfatizou: “Eu sou produtor, não sou promotor do evento. E eu só mudei o evento de local porque a ATP me mandou mudar. No Harmonia, eles me cederam uma quadra, e não uma arena como constava no projeto. Então tudo que compõe uma arena eu tive que montar. Eu tive que montar banheiros, fazer restaurante, área VIP. No WTC, eu não precisaria porque estaria tudo pronto.”

A ênfase no “produtor e não promotor” é importante porque se Dacio for considerado pela Justiça Federal como promotor, isso coloca a CBT como intermediária na captação de verba federal, o que não é permitido. Se a Justiça entender que Dacio é um produtor, ele seria apenas um contratado da CBT para fazer o serviço. Mesmo assim, neste último caso, seu serviço pode ser considerado o de um intermediário, o que também, segundo a denúncia, é proibido – a CBT deveria contratar diretamente seus fornecedores.

A posição da CBT

A CBT divulgou, via assessoria de imprensa, uma nota oficial sobre o denúncia aceita pela Justiça Federal. Ela segue na íntegra:

“Mediante as informações que saíram na imprensa, o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Jorge Lacerda, declara que conversou com os advogados do caso e que os mesmos irão requerer oficialmente os documentos para se interarem dos andamentos, visto que não houve intimação até o presente momento. Pelas informações não oficiais que foram publicadas na imprensa, Jorge afirma que já explicou cada um dos pontos, tanto que a prestação de contas do projeto junto ao Ministério do Esporte foi aprovada, com comprovação de que não houve dano ao erário. Jorge complementa que agora, finalmente, terá a oportunidade de se defender na Justiça.”

Especificamente sobre a declaração de Marzola e o documento assinado sobre seu trabalho no clube Harmonia, a CBT respondeu, também via assessoria de imprensa, apenas que “o presidente da CBT, Jorge Lacerda, afirma que nunca pediu a quem quer que seja para assinar nada ilegal ou indevido.”


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


O que deveria significar o número 1 de Marcelo Melo
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Alexandre Cossenza

Sou fã assumido de Marcelo Melo. Os leitores deste blog sabem disso, os ouvintes do podcast Quadra 18 sabem, o próprio Marcelo sabe. Não tenho, contudo, ilusões quanto ao que vai significar para o tênis brasileiro ter um número 1 nas duplas. Que ninguém ache que os clubes vão voltar a ter quadras lotadas por isso. Que não esperem grande alarde da imprensa “não especializada”. Não imaginem que a Confederação Brasileira de Tênis terá um plano para aproveitar a imagem de Marcelo. No máximo, darão um prêmio e uma plaquinha naquele evento de fim de ano feito mais para patrocinadores do que para fãs (o que é uma pena).

O cenário mais provável é que o novo ranking de Marcelo, que está na França para a disputa do Masters de Paris, será um distante coadjuvante para a vitória do Corinthians sobre o Atlético Mineiro nos noticiários “esportivos” desta segunda-feira. Não precisa ser gênio para fazer essa previsão. E sejamos sinceros: a enorme maioria dos comentários sobre o grande feito do mineiro de 32 anos provavelmente será rebatida com “mas é só dupla.” Não, Marcelo Melo não será visto por muitos como um exemplo a ser seguido. Mas deveria.

Deveria porque Marcelo fez (e faz!) muito para chegar a número 1 do mundo. Porque nasceu em uma família de tenistas que já tinha dois garotos “paitrocinados” e não lhe sobrou muito dinheiro. Por isso, ia sozinho, ainda adolescente, batendo de porta em porta entregando currículos e pedindo patrocínio. Quando não fazia isso, mandava seu CV por fax(!).

Deveria porque Marcelo teve a coragem de abandonar o sonho de ser um simplista para mergulhar de cabeça no circuito de duplas. E fez isso deixando um excelente centro de treinamento no Rio de Janeiro em uma época em que o Brasil não tinha duplistas de ofício em evidência. Bruno Soares só brilharia dois anos depois, e André Sá iniciava sua ascensão junto com o conterrâneo (até meados de 2006, o duplista número 2 do Brasil era Marcos Daniel).

Deveria porque Marcelo evoluiu enormemente seu jogo. Nos últimos dez anos, com a ajuda do irmão e técnico Daniel, diminuiu seus pontos fracos e foi, pouco a pouco, se aproximando do topo. É humilde desde o início da caminhada e tem como recompensa títulos ao lado de muitos parceiros.

Deveria porque Marcelo acreditou que era possível tirar Bob e Mike Bryan do topo. Os gêmeos foram senhores do circuito durante a maior parte dos últimos 15 anos e lideravam juntos e ininterruptamente o ranking desde o início de 2013. O brasileiro, no entanto, viu a janela da oportunidade se abrir em Roland Garros e lutou para agarrar sua chance. Sonhou, lutou e conseguiu.

Deveria porque Marcelo tem caráter. É fiel aos amigos ao ponto de ir à imprensa para sair em defesa deles. Foi assim na Costa do Sauípe em 2011, quando reclamou de uma manchete sobre Thomaz Bellucci, e em São Paulo, em 2013, quando tentou justificar a convocação de Rogerinho para o confronto de Copa Davis contra a Espanha. Concordando ou não (e eu discordo dos argumentos de Marcelo em ambas ocasiões), é preciso admirar a coragem e a disposição de quem compra brigas em nome de amigos e colegas de time.

Deveria, deveria, deveria… Marcelo Melo, número 1 ou não, foi e é exemplo de muita coisa. Se nem tanta gente percebeu antes, seja pela timidez mineira ou pela falta de interesse na modalidade, que seu novo ranking sirva para abrir os olhos de muitas pessoas. Não há muitos seres humanos como ele por aí.

Número 1 do mundo! Eu que sempre acreditei no sonho de ser tenista profissional, posso dizer que a ficha ainda não caiu. Desde pequeno sempre sonhei em ser profissional, corri atrás dos meus objetivos, cheguei a passar fax por vários dias em busca de patrocínios, fazendo de tudo para realizar meu sonho. Tenho que agradecer todos que me ajudaram, porque seria impossível chegar lá sozinho. Pelo caminho tiveram pessoas que sempre tentaram me ajudar, umas mais outras menos. O que dizer dos meus pais ? Eles que sacrificaram as próprias vidas fazendo de tudo para eu seguir o sonho de ser tenista, não só para mim, mas para os meus irmãos também, um sacrifício que somente eles sabem o que é ter três filhos tenistas em casa. Sebastião Bomfim, uma pessoa que eu não tenho palavras para agradecer o que ele fez por mim, com certeza eu não estaria onde estou sem ele, toda minha família é eternamente grata pelo o que ele fez e faz por mim. O Daniel, vocês já devem imaginar o tanto que eu devo a ele, que muitas vezes deixa a família em BH para ir junto comigo em busca do sonho, ele que acreditou desde o primeiro dia que treinamos, isso há 8 anos atrás. O Ernane como irmão mais velho sempre me fazendo acreditar que eu seria capaz. Meus amigos que ficam horas acompanhando os jogos por pontos online, algumas vezes pegam um avião para assistir um torneio ou até mesmo uma final, como aconteceu em Roland Garros.Muito obrigado ao Chris que sempre faz de tudo para me deixar com o melhor físico possível, aos fisioterapeutas (Daniel, Paulo e Tatá)que me consertam deixando novo em folha. Logicamente agradecer ao meu parceiro Ivan Dodig que me ajudou e muito para chegar lá. Agradeço mais uma vez a todos os torcedores que hoje se alegram em dizer que #somostodosgirafa , sempre ajudando a levar o nome do Brasil para o mundo.

A photo posted by Marcelo Melo (@marcelomelo83) on

Coisas que eu acho que acho:

– Quase todos os casos citados nos parágrafos acima estão relatados no podcast Quadra 18 especial pelo número 1 de Marcelo Melo. São histórias contadas pelo próprio Marcelo, mas também por Bruno Soares, André Sá, Thomaz Bellucci, Márcio Torres, Daniel Melo, Felipe Lemos, Ricardo Acioly e até pelo sr. Paulo Ernane, pai de Marcelo. É um programa especialíssimo que está no ar desde a manhã desta segunda-feira. Ouçam aqui!

– Com a produção e a edição do podcast, sobrou pouco tempo para escrever sobre as finais do fim de semana, então seguem abaixo os registros de Cingapura e da Basileia, acompanhados de breves comentários.

– Sem Serena Williams, o WTA Finals acabou com um emocionante título de Agnieszka Radwanska, que esteve quase eliminada na fase de grupos, mas escapou por pouco e aproveitou a chance que conquistou, coroando um excelente final de temporada, que teve títulos em Tóquio e Tianjin, além de uma semi em Pequim. Em Cingapura, na maior conquista de sua carreira, aproveitou a quadra lenta para fazer valer sua capacidade defensiva e sua variação de jogo. No sábado e no domingo, conseguiu fazer estrago nas cabeças de Garbiñe Muguruza e Petra Kvitova, respectivamente. Sua consistência provou-se um obstáculo formidável para as duas tenistas agressivas.

– No ATP 500 da Basileia, Roger Federer e Rafael Nadal fizeram um duelo digno da longa rivalidade, ainda que longe do altíssimo nível de outros tempos. Neste domingo, os dois oscilaram, mas o suíço, que jogava com tudo a favor (torcida caseira, quadra rápida e arena indoor), levou a melhor em três sets. No balanço geral, foi uma semana irregular para ambos, mas nenhum dos dois deve sair lá muito insatisfeito. Federer faturou o sétimo título na Basileia, enquanto Nadal, em seus altos e baixos, foi longe em um torneio com características que pouco favorecem seu estilo de jogo. Não é mau sinal.

– Bruno Soares e Alexander Peya, pouco depois de anunciarem sua separação, foram campeões na Basileia e se mantiveram vivos na briga pela última vaga para o ATP Finals. Com os 500 pontos conquistados, brasileiro e austríaco agora somam 3.330 e ficam na nona posição, atrás de Rohan Bopanna e Florin Mergea (3.455). A boa notícia é que a matemática é simples: Soares e Peya vão ao Finals se alcançarem as semifinais no Masters 1.000 de Paris. A parte ruim é que a chave é duríssima. A estreia é contra Colin Fleming e Andy Murray. Caso vençam, os dois encaram Marcelo Melo e Ivan Dodig. Se chegarem às quartas, Soares e Peya podem, então, fazer o confronto direto contra Bopanna e Mergea, valendo o lugar em Londres. Não é fácil, mas não é impossível.


Brasil x Croácia, dia 3: a supremacia Borna
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Alexandre Cossenza

O fim de semana do garotão foi fantástico. Borna Coric, 18 anos e dono da responsabilidade de ser o #1 da Croácia em um confronto fora de casa, respondeu à altura. Pouco se incomodou com a torcida e a corneta de Dartagnan Jatobá (até provocou o público às vezes), fez duas partidas com nível técnico altíssimo, superou o calor e a umidade do domingo e venceu o ponto decisivo diante de um Thomaz Bellucci que não resistiu às condições e abandonou a quadra sentindo dores nas costas quando perdia por 6/2, 4/6, 7/6(4) e 4/0, depois de 3h11min.

Coric chegou a Florianópolis, é bom lembrar, vindo de um punhado de atuações irregulares em Barranquilla. Foi campeão na Colômbia, sim, mas em um torneio de nível bastante inferior ao que está acostumado a enfrentar no circuito. No entanto, desde que pisou na quadra do Costão do Santinho para enfrentar Feijão, mostrou-se um tenista muito mais sólido, concentrado e equilibrado. O resultado veio na forma de duas vitórias e apenas um set perdido.

Neste domingo, contra Bellucci, dois “momentos” fizeram enorme diferença para Coric. A primeira parte foi não entrar em pânico depois de perder o segundo set e ouvir a torcida transformar seu gemido em grito de guerra. Mas o adolescente também foi gigante quando, logo depois de perder o saque no terceiro set, agrediu o serviço do brasileiro e conseguiu a quebra em seguida. Coric não se perdeu nem quando desperdiçou de forma boba os dois set points que perdeu no 12º game. Entrou bem no tie-break e saiu vencedor.

“Ele mostrou o quão rápido está evoluindo, o quanto está amadurecendo, e lidar com essa torcida e a pressão dessa partida hoje e tudo mais. Então, o tie-break do terceiro set! Mesmo tendo feito uma ótima partida, no tie-break ele elevou seu jogo na hora mais importante. Como todos pudemos ver, não há limites para o que ele pode fazer em uma quadra. É um grande privilégio para mim tê-lo no time”, derreteu-se em elogios o capitão croata Zeljko Krajan.

Coisas que eu acho que acho:

– Parte do público vaiou quando Bellucci deixou a quadra, mas a maioria da arena montada em Florianópolis aplaudiu e inclusive gritou o nome do #1 do Brasil. O paulista relutou em abandonar, mas já não conseguia ser competitivo quando finalmente tomou a decisão. Na coletiva, Bellucci inclusive afirmou que não sabe se teria conseguido aguentar nem se tivesse vencido o tie-break da terceira parcial.

– Florianópolis não ofereceu vantagem nenhuma ao time brasileiro além da óbvia presença do público (o que aconteceria em qualquer cidade). As condições climáticas não ajudaram nem Feijão nem Bellucci. A dupla, que gosta de condições mais rápidas, perdeu. E o calor e a umidade do domingo, combinados com as mais de 3h de jogo, trouxeram à tona a lesão nas costas que vem incomodando o #1 do Brasil há alguns meses. E nem é possível afirmar que incomodaram a Croácia.

– A possibilidade de ter calor e umidade em uma quadra sem luz artificial (ou seja, com as partidas começando no fim da manhã e entrando pelo meio-dia) sempre foi ruim para Bellucci, que tem um histórico de problemas físicos em condições assim. A aposta brasileira de insistir com Florianópolis acabou sendo um tiro no pé.

– Rebaixado novamente para o Zonal das Américas, uma espécie de segunda divisão da Copa Davis, o Brasil agora espera o sorteio de quarta-feira para saber o que esperar da próxima temporada. Soa como uma punição para um Bellucci que faz uma grande temporada, mas não conseguiu manter seu time na elite.


Brasil x Croácia, dia 2: o típico dia imprevisível
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Alexandre Cossenza

O clichê, enfim, se aplica. A zebra apareceu no confronto entre Brasil e Croácia. Bruno Soares e Marcelo Melo, invictos há oito jogos em Copa Davis, foram derrotados em Florianópolis, em uma atuação nada memorável, por Ivan Dodig e Franko Skugor: 6/0, 3/6, 7/6(2) e 7/6(3). Foi uma tarde dura para os brasileiros – especialmente para Bruno Soares, que só jogou seu habitual bom nível de tênis em flashes aqui e ali. Ao mesmo tempo, foi uma jornada incrível de Dodig, duplista #6 do mundo, que fez dois tie-breaks impecáveis.

O público bem que tentou empurrar os brasileiros, e a maré parecia estar mudando no fim do quarto set, quando Soares e Melo escaparam de dois match points no saque de Dodig, quebraram de volta e deram motivo para a torcida fazer mais barulho do que eu qualquer outro momento do confronto. O segundo tie-break, no entanto, foi quase um microcosmo da partida. Um Soares inseguro e dois croatas soltos, jogando bem e sem a pressão da proximidade da derrota.

Fora o estranhíssimo primeiro set, com a dupla brasileira apática e mais preocupada em entender e conhecer Skugor do que em fazer seu próprio jogo, não foi uma partida desequilibrada. Para Bruno Soares, ele e Marcelo dominaram dois sets (o segundo e o terceiro), mas não aproveitaram as chances – foram sete chances de quebra na terceira parcial. A diferença foi o brilho de Dodig, que acertou dois lobs perfeitos no tie-break do segundo set.

O resultado deixa a Croácia com vantagem de 2 a 1 no confronto, precisando de só uma vitória para continuar no Grupo Mundial. O Brasil, por sua vez, precisa que Bellucci derrote Coric no primeiro jogo de domingo (começa às 10h) e, depois, que Feijão supere Delic (#499) – ou Dodig, que jogou muito bem nas duplas e é melhor simplista que Delic. o capitão Zeljko Krajan, contudo, ainda não confirma a mudança na escalação que foi apresentada na quinta-feira.

Dodig disse estar pronto: “Se você não estiver pronto para o capitão, ele não te convoca mais”. Krajan, por sua vez, lembrou que “Ivan jogou por quatro horas neste sábado e que não será fácil no domingo, então Mate ainda é uma opção.”

Mais aquecimento do que jogo

Antes do confronto de duplas, Feijão e Borna Coric entraram em quadra para completar a segunda partida de simples, interrompida na sexta-feira por chuva e falta de luz natural. O brasileiro, que sacava em 1/4 e 40/30 no terceiro set, acabou perdendo o serviço e vendo o #33 do mundo fechar a partida em 6/4, 7/6(5) e 6/1. Ao todo, o tempo de jogo neste sábado durou menos que o aquecimento. Na coletiva, Feijão relatou o desentendimento com Coric ao fim do segundo set, quando o adolescente croata (18 anos) provocou a torcida.

A ideia, Feijão revelou neste sábado, era mexer com a cabeça do adversário. Não deu resultado. Coric, aliás, quebrou o serviço do #2 do Brasil logo no segundo game do terceiro set e disparou na frente. O paulista pelo menos afirmou ter saído de quadra relativamente contente com seu jogo e – muito importante – com mais confiança do que antes. Ele disse contar com a torcida para encontrar uma maneira de triunfar no caso de um quinto jogo.

Coisas que eu acho que acho

A tática do boi de piranha funcionou perfeitamente para o capitão croata. Ao escalar (ou melhor “queimar”) Delic em um jogo em que Bellucci seria favoritíssimo, Krajan conseguiu poupar Dodig, que fez uma partidaça e “roubar” o ponto das duplas. Agora, conta com Coric para fechar o confronto. Mesmo se o #1 croata perder, o time ainda conta um Dodig com confiança extra.

Krajan, como escrevi acima, não deu pistas sobre quem vai escalar no domingo. Parece mais provável, contudo, a escalação do “duplista” Dodig para um eventual quinto jogo. Não só pela moral que carrega da vitória e sábado, mas por ter mais tênis e experiência do que Delic.


Brasil x Croácia, dia 1: um atípico dia previsível
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Alexandre Cossenza

Todo tipo de coisas estranhas pode acontecer em confrontos de Copa Davis, já diz o clichê. Pois foi tudo que não aconteceu o primeiro dia de Brasil x Croácia, duelo válido pelo playoff do Grupo Mundial, em Florianópolis. Primeiro, Thomaz Bellucci derrotou Mate Delic, #499. Em seguida, Borna Coric, #33, derrotava Feijão com folga quando a (também esperada) chuva forçou a interrupção da partida.

De inesperado mesmo, apenas o trabalho que o número 1 do Brasil encontrou quando Delic, o azarão, controlou seus erros e ofereceu alguma resistência. O croata venceu o terceiro set e esteve uma quebra à frente no quarto quando Bellucci finalmente se fez superior e definiu o jogo: 6/1, 6/4, 3/6 e 6/4. Mesmo com um pouco mais de drama do que o esperado, Brasil 1 x 0 Croácia.

Em seguida, foi a vez de Feijão, vindo de oito derrotas seguidas, tentar a sorte contra o número 1 croata. A partida foi até equilbrada, mas Coric conseguiu uma decisiva quebra no nono game do primeiro set e venceu um duro tie-break no segundo. Depois disso, o cenário mais provável seria um triunfo sem sobressaltos do jovem de 18 anos, mas o céu fechou, e o jogo foi paralisado por falta de luz natural pouco antes das 16h.

Alguns minutos depois, o árbitro decidiu que a partida continuaria, mas foi aí que a chuva, que se insinuava desde a manhã, veio com força e alagou a quadra (especialmente a metade que ficou desprotegida – sem lona – durante mais de uma hora). Sem holofotes, a continuação foi adiada para as 10h de sábado, com o placar registrando 6/4, 7/6(5) e 4/1 a favor de Coric.

Se o “previsível” continuar neste sábado, Coric completa sua vitória neste sábado e, em seguida, Marcelo Melo e Bruno Soares marcam o segundo ponto brasileiro em cima e Ivan Dodig e Franko Skugor. De qualquer maneira, o domingo promete um jogaço com o confronto ainda indefinido entre Bellucci e Coric.

Coisas que eu acho que acho

Bellucci esteve longe de seu melhor tênis e mostrou-se consciente disso na coletiva. Aos jornalistas, disse que o mais importante foi manter a cabeça no lugar e não perder-se de vez, especialmente quando esteve atrás no quarto set. Parece uma avaliação bem equilibrada do que aconteceu. Sobre Coric, vale ressaltar que o croata lidou muito bem com o barulho da torcida, que, sejamos sinceros, não foi lá tão agressiva. O adolescente até deu uma provocada a galera quando venceu o segundo set. Resta saber se ele continuará levando a torcida contra numa boa mesmo em uma partida mais equilibrada e, quem sabe, atrás no placar. Será?

A desorganização

A organização do confronto, por sua vez, deixou muito a desejar. A começar pelo funcionário do Costão do Santinho que tentava obrigar motoristas (eu inclusive) a deixarem seus carros em um estacionamento pago perto do resort. Além disso, a situação era confusa para quem precisava trocar vouchers por ingressos. Os guichês, que abririam às 8h, só começaram a funcionar às 9h45min. Com o confronto começando às 10h, não surpreende que a arena estivesse quase vazia quando Bellucci e Delic disputaram o primeiro ponto. E houve também quem reclamasse que os food trucks (boa ideia, só que mal executada) não aceitavam cartões de débito ou crédito.

Para a imprensa, a situação não foi muito melhor. Não havia área demarcada na quadra para jornalistas (bancada com tomada para laptops, então, nem em sonho). Parece bobagem, mas um copo de cerveja voou e molhou um jornalista da ITF – eu estava do lado e “ganhei” alguns pingos (imaginem se cai no computador de alguém). Também não houve transmissão da partida na sala de imprensa (até o terceiro set de Feijão x Coric), e o wifi funcionava muito mal. Ah, sim: banheiros químicos sem lixeiras ou pias eram a única opção. É, seguramente, o confronto de Davis com a pior infraestrutura que vi (este é o oitavo duelo que vejo in loco).


Davis: favoritismo é brasileiro contra a Croácia
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Alexandre Cossenza

É compreensível que, em tempos de politicamente correto, ninguém goste de assumir favoritismo. Principalmente técnicos de equipes – ou, no caso, capitães de Copa Davis. Muito menos ainda no caso específico de João Zwetsch, que é um capitão de frases longas e pouco objetivas. O máximo que vai se ouvir do gaúcho é que sua equipe tem “uma situação com possibilidade maior.”

Mas que ninguém se engane: a ausência de Marin Cilic, que sofreu uma lesão durante o US Open, faz do Brasil o favorito contra a Croácia no confronto que será disputado neste fim de semana, em Florianópolis, valendo vaga no Grupo Mundial da Copa Davis (quem perder volta à “segunda divisão” do tênis mundial). Sim, o Brasil é favorito mesmo com a Croácia trazendo o #33 do mundo. E mesmo com Feijão em uma longa fase ruim que o tirou do top 100.

E não é difícil entender os porquês. O primeiro é Thomaz Bellucci jogando possivelmente o melhor (e mais consistente!) tênis de sua carreira. Ok, a combinação Bellucci + Davis é quase sinônimo de drama mesmo em condições favoráveis (vide Sorocaba, Chennai, Rio Preto e São Paulo), mas é inegável que o número 1 do país tornou-se um belo tenista de Copa Davis. No saibro, o paulista é favorito para vencer as duas partidas de simples. Com uma dupla quase imbatível, ainda que Bruno Soares não viva o melhor momento de sua carreira, não é nada improvável que o Brasil saia vitorioso com dois pontos de Bellucci e um de Marcelo Melo e Soares. Foi assim contra a Espanha, no Ibirapuera, ano passado.

Outro fator é a torcida. A arena montada no Costão do Santinho não é das maiores nem das mais barulhentas (outdoor com quatro mil lugares), mas a CBT contratou Dartagnan (aquele da corneta!) e sua equipe para garantir que os adversários serão incomodados de sexta a domingo. Sem Cilic, a Croácia põe todas suas esperanças em Borna Coric, #33 do mundo, que tem talento demais, mas experiência de menos. Sim, o adolescente de 18 anos acaba de conquistar um título em Barranquilla em um torneio com condições não tão diferentes das de Florianópolis. Mas seu tênis esteve longe de ser brilhante no Challenger colombiano. Além disso, como o garotão vai lidar com a pressão de carregar o time nas costas e suportar o barulho da torcida? Esse ponto de interrogação vai permanecer pelo menos até sexta-feira.

Não custa lembrar que se Feijão vive mau momento, o #2 croata neste confronto, Ivan Dodig, não está tão melhor assim. É bem verdade que ele e Marcelo Melo foram campeões de duplas em Roland Garros, mas a temporada do experiente (30 anos) Dodig nas simples deixou a desejar. Sua última vitória em chaves principais de torneios de nível ATP aconteceu em abril, no 250 de Istambul. Desde então, tem disputado qualifyings com pouco sucesso. O “copo meio cheio” de Dodig é ter feito seu melhor torneio justamente na última semana, quando foi campeão do Challenger de St. Remy, na França. Por outro lado, pode ser bom para o Brasil enfrentar um adversário que esteve jogando em quadras duras até domingo e que só chegou a Florianópolis na terça-feira, cerca de 72h antes de entrar em quadra na Davis.

Coisas que eu acho que acho:

– Desnecessário dizer o óbvio, mas direi assim mesmo: “favoritismo” não significa vitória garantida (Roberta Vinci que o diga!). É por isso que eles entram em quadra.

– É possível que Dodig tenha um belo fim de semana e apronte algum resultado inesperado? Sim, claro que é. Mas que ninguém descarte a hipótese de Feijão, que fez uma excelente Davis em Buenos Aires, se reencontrar com um bom tênis. O resto do time motivando e a torcida a favor podem ter um peso considerável nisso.

– No papel, a ausência de Cilic facilita demais a vida de Bellucci, que entraria pressionado contra Coric logo no primeiro dia do confronto. Agora, contra Dodig, a margem aumenta bastante para o número 1 do Brasil.

– O ponto da dupla é sempre dado como ganho pelo Brasil ainda antes do confronto. É justificável: Soares e Melo estão entre os melhores do mundo na modalidade e têm entrosamento invejável. Na teoria, o cenário mais provável (e nem é tão provável) de uma vitória croata passa por duas vitórias de Coric e uma de Dodig. Todas nas simples.


Quadra 18: S01E11
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Alexandre Cossenza

Teliana Pereira campeã em Florianópolis e nova integrante do top 50; Thomaz Bellucci semifinalista em Gstaad e coladinho no top 30; Rafael Nadal campeão em Hamburgo e jogando bem, com direito a barraco e cãibra na final contra Fabio Fognini; André Sá campeão em Umag; e Bruno Soares analisando sua temporada as seguidas derrotas para os colombianos Juan Sebastian Cabal e Robert Farah. O podcast Quadra 18 está no ar com seu 11º episódio, falando sobre tudo isso.

Sheila Vieira, Aliny Calejon, o convidado especial Felipe Priante e eu também respondemos a perguntas de leitores, e falamos ainda sobre Dominic Thiem, WTT, e planejamos nossa viagem para ver Brasil x Croácia pela Copa Davis em Florianópolis. Clique abaixo para ouvir

Quem preferir pode baixar o arquivo neste link ou assinar nosso feed e ouvir no iTunes. Nosso arquivo com todos os programas também está no Tumblr. E para enviar questões, críticas e sugestões, nosso canal preferido é o Twitter – incluam sempre a hashtag #Quadra18 – mas também aceitamos via e-mail e Facebook.

Se preferir, faça o download do arquivo e ouça depois. Para isso, basta clicar no primeiro link acima com o botão direito do mouse e “gravar como”. E divirta-se!

Os temas

Como de costume, segue abaixo a lista de assuntos abordados no programa, com o momento em que falamos sobre cada um dos temas. Quem preferir, pode avançar direto até o trecho que quiser ouvir primeiro.

2’00’’ – O título de Teliana Pereira em Florianópolis
3’40’’ – Priante fala sobre as chances aproveitadas por Teliana
5’00’’ – Cossenza fala sobre os porquês da eficiência de Teliana no saibro
8’00’’ – Aliny lembra que há poucas especialistas em saibro na WTA
9’10’’ – Sheila lembra de seu momento preferido da final
11’15’’ – “O que falta para Teliana chegar longe em um Grand Slam?”
12’05’’ – “O que esperar de Teliana até o fim do ano?”
13’40’’ – Cossenza fala sobre a necessidade de Teliana evoluir em quadras duras
14’50’’ – A chave fraca e as opções da organização do WTA de Florianópolis
23’35’’ – O título de Rafael Nadal em Hamburgo
24’35’’ – Cossenza avalia a final e o desempenho de Nadal durante a semana
26’40’’ – Sheila descreve o barraco entre Nadal e Fognini na final
27’45’’ – Sheila relata as cãibras de Nadal durante a cerimônia de premiação
28’45’’ – “Qual a expectativa de Nadal para o US Open?”
33’15’’ – Sheila fala da importância de Hamburgo para a vaga de Nadal no Finals
33’55’’ – Priante compara Nadal/2015 a Federer/2013
35’25’’ – A semifinal de Thomaz Bellucci em Gstaad
36’10’’ – Cossenza lembra que Bellucci não teve vitórias espetaculares
38’45’’ – Priante ressalta a consistência mostrada por Bellucci recentemente
41’50’’ – “Bellucci pode evoluir e chegar ao top 10?”
45’00’’ – Sheila faz os tradicionais “registros”
47’15’’ – “O que vocês pensam a respeito de Dominic Thiem?”
51’23’’ – Aliny fala do título de André Sá em Umag
53’44’’ – Aliny fala de Roddick e Fish jogando duplas em Atlanta
56’45’’ – A semifinal de Soares e Peya em Hamburgo
57’31’’ – Áudio de Bruno Soares resumindo a temporada da dupla em 2015
62’20’’ – Aliny comenta a falta de sorte de Soares e Peya
64’10’’ – “Lições de vida com Felipe Priante”
66’00’’ – “Qual a chance de Bryans e Zimonjic se aposentarem nesta temporada?”
67’40’’ – A participação de Marcelo Melo no WTT
75’50’’ – Copa Davis em Florianópolis
76’30’’ – “A escolha da cidade ajuda o Brasil contra a Croácia?”
80’10’’ – “Momento agência de viagens”

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast”, é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “Hang For Days” e “Game Set Match”. As duas últimas fazem parte da audio library do YouTube.


Teliana, a especialista
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Alexandre Cossenza

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As cenas da colagem acima, captadas pelo excelente fotógrafo Cristiano Andujar, são memoráveis. A comemoração logo após o match point, os beijos no troféu, os goles do champanhe derramado na taça, o emocionado e emocionante abraço na mãe… Teliana Pereira conquistou, em Florianópolis, seu segundo título de WTA e o primeiro de um brasileiro dentro do país desde Gustavo Kuerten na Costa do Sauípe em 2004 (sem contar Challengers e eventos menores, claro).

Há muitas coisas que podem ser ditas sobre os méritos de Teliana. Sua luta, seu preparo físico, sua humildade… Tudo isso tem peso grande na caminhada que lhe coloca entre as 50 tenistas mais bem ranqueadas do mundo. Mas há algo que talvez seja pouco observado e que acredito ser importante ressaltar neste post: a pernambucana de 27 anos agora se coloca como uma das poucas especialistas em saibro no circuito mundial.

Dona de um preparo físico privilegiado, Teliana trabalha os pontos como poucas tenistas hoje em dia. Sem um saque dominante ou um golpe de definição com muita potência, a brasileira compensa com paciência e estratégia, e seu estilo de jogo se mostra muito eficiente na terra batida – principalmente contra tenistas que gostam de parar na linha base e tentar resolver na base da pancadaria (ou seja, a maioria do circuito mundial).

Teliana aposta em bolas altas e fundas, e seu forehand com spin, quando aplicado com a profundidade certa, desequilibra. Nesse nível (o WTA catarinense não teve ninguém do top 60, e a pernambucana precisou enfrentar apenas uma top 100), não são muitas tenistas que conseguem potência e regularidade para combater o jogo de porcentagens da brasileira.

Não é por acaso que o duelo mais complicado foi o primeiro, contra a argentina Maria Irigoyen, que também fez um jogo de bolas altas e paciência (Teliana venceu por 6/7(3), 6/3 e 7/5). A final, contra a competente Annika Beck (68 do mundo), foi um exemplo perfeito de como o tênis de saibro de Teliana é eficaz. A alemã até conseguiu equilibrar o jogo em alguns momentos e venceu o segundo set porque encaixou uma boa série de golpes nos últimos três games.

Entretanto, a impressão que ficava, ao longo da partida, era que Beck vinha correndo muito mais riscos do que a brasileira – tática necessária para a alemã. Só que quando o terceiro set começou, depois de mais de duas horas de jogo, Beck já não conseguia a precisão necessária. Enquanto Teliana continuava paciente e trocando bolas, a alemã cometia uma série de erros. A parcial decisiva durou pouco. Por 6/4, 4/6 e 6/1, a especialista triunfou.

Teliana_Floripa_F_twitter_blog

Coisas que eu acho que acho:

– Não me parece justo dizer que Teliana Pereira foi campeã porque a chave estava fraca. Sim, a chave estava fraquíssima e já escrevi um bocado sobre isso no post anterior, mas me parece que o nome da brasileira já não pode ser descartado em nenhum torneio da série International (equivalente aos ATPs 250) no saibro. Dois títulos e um lugar no top 50 lhe dão esse direito.

– Vale lembrar: no tênis feminino, o último título vencido por uma brasileira em casa havia sido em 1987, quando Niege Dias foi campeã no Guarujá.

– Foi bacana ver a quadra central lotada para a final, disputada numa manhã de sábado, com entrada franca. Por outro lado, é uma pena constatar que um evento como esse, um WTA International, não oferecia sequer mil assentos. Muita gente viu o jogo de pé ou sentada em cadeiras improvisadas no barranco.

– Quase tão brilhante quanto a conquista de Teliana foi o texto de Fernando Meligeni sobre ela. Inclusive com o relato de que “alguns anos atrás [Teliana] foi contra um projeto olímpico capitaneado por Guga, Larri, Ministério do Esporte e CBT e bancou seu irmão como técnico e não aceitou mudar de sua cidade em vez de ser mais uma tenista dentro do projeto olímpico. Sua decisão causou problemas, boicote a ela e muita virada de cara. O mais triste foi o corte na Fed Cup em sua cidade por motivos ( técnicos) que todos sabemos que não foi por isso.” Leiam, por favor, o texto inteiro.

– O WTA de Florianópolis, como já previsto, voltará a ser disputado em quadras duras em 2016. Só não se sabe em que lugar da cidade. O diretor do torneio, Rafael Westrupp não deu garantias, dizendo apenas “provavelmente na Federação Catarinense”, mesma sede do evento em 2013 e 2014.


Floripa: WTA mais fraco do mundo vale o que custa?
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Alexandre Cossenza

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Os otimistas preferem ver a coisa toda pelo seguinte ângulo: uma chave acessível dá mais chances para as tenistas brasileiras somarem pontos e ganharem dinheiro em um torneio de nível WTA International. Não fosse assim, as chances seriam reduzidas e haveria menos atletas da casa participando.

A outra maneira, mais realista, é esta: o WTA de Florianópolis é o torneio mais fraco do mundo entre seus equivalentes e virou piada internacional. Sem exagero. Números e tweets, que listarei abaixo, comprovam. A parte boa – e é boa mesmo – é que sim, algumas brasileiras terão uma chance raríssima nesta semana. É preciso prestar atenção, contudo, (principalmente em época de Jogos Pan-Americanos) para não tirar nada de contexto e supervalorizar o que quer que aconteça, criando uma série de leitores e espectadores iludidos e mal informados.

Primeiro, aos fatos. Diretores de torneio e tenistas gostam de usar o ranking para determinar o quão forte (ou fraca) é uma chave. É comum ouvir deles e delas que este ou aquele evento “fechou em” um número X. “Fechou em” significa o ranking do último tenista que ganhou vaga na chave principal sem precisar disputar o qualifying. Nem concordo que seja o melhor dos critérios, mas no caso de Florianópolis o abismo é tamanho que a lista da WTA mostra-se irrefutável.

Pois bem. Em 2015, a média dos torneios da série WTA International (equivalentes ao de Florianópolis) fecha em 104. Essa conta considera desde eventos fortes como Hobart (pré-Grand Slam, fechou em 62) até torneios menos badalados como o Rio Open (fechou em 154). Pois o torneio catarinense fechou em 266!

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Nem é só esse o número que deixa Florianópolis muito atrás do resto do mundo. A oitava cabeça de chave do Rio Open, por exemplo, ocupava o 83º posto no ranking. Em Praga, outro evento forte, a cabeça 8 era a #35 do mundo. No WTA catarinense, trata-se da polonesa Paula Kania, #136 (ranking da semana passada, que definiu as cabeças). É uma diferença considerável.

Mas tem mais. Como bem levantou João Victor Araripe, desde 2008, quando a WTA mudou a nomenclatura dos torneios, nunca houve um evento da série International sem uma top 60 sequer. Floripa bateu este recorde. A sueca Johanna Larsson, #46, que seria a principal cabeça de chave, desistiu de vir ao Brasil. Assim, o principal nome do evento agora é a alemã Tatjana Maria, 64ª colocada.

O pior é que a lista de números desagradáveis não ficou restrita à chave principal. As desistências foram tantas, e o interesse, tão pouco, que faltaram nomes para o qualifying. O torneio de acesso, que dá seis lugares na chave principal, teve apenas 14 tenistas. A organização montou uma chave com dez “byes”.

As piadas

Tudo isso deu origem a uma série de piadas. E nem são aquelas tradicionais de brasileiros menosprezando eventos brasileiros. Em fóruns e no Twitter, gente de toda parte do mundo fez questão de apontar o quão fraco está o torneio catarinense. A lista de tweets abaixo (que poderia ser maior) inclui comentários sobre “terra devastada”, “cenas surreais”, “legado inesquecível” e o porquê de Jelena Jankovic estar disputando um torneio menor nesta semana.

Os motivos

Não é tão difícil entender por que a chave de Florianópolis ficou tão fraca. Primeiro porque trata-se de um torneio no saibro às vésperas da chamada US Open Series, aquela sequência de eventos em quadra dura que antecede o US Open. Além disso, o torneio está isolado no continente. Que tenista de elite faria uma viagem tão longa para precisar fazer outro voo intercontinental na semana seguinte?

Em 2013 e 2014, quando o torneio era disputado em fevereiro, não era tão difícil assim. Tanto que Floripa teve Venus Williams, Carla Suárez Navarro, Garbiñe Muguruza, Francesca Schiavone e outros nomes bem interessantes. A mudança de data foi um pedido do próprio torneio, que queria ficar mais perto do período das Olimpíadas de 2016 (o tênis olímpico começa a ser disputado em 6 de agosto). Talvez funcione no ano que vem (o torneio voltará a ser jogado em quadras duras), mas em 2015, no saibro, não deu certo.

Outro ponto a ser levado em consideração é o momento econômico do país. Com o dólar acima da casa dos R$ 3,00, torna-se ainda mais difícil pagar aqueles gordos cachês que trazem tenistas de peso. Este ano, a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) e a Federação Catarinense de Tênis (FCT), realizadores do torneio, não pagaram nada a ninguém.

As brasileiras

O resultado disso tudo é a chave fraca (“acessível” é um eufemismo desnecessário a esta altura), que acaba beneficiando as tenistas da casa. O WTA de Florianópolis acabou se transformando em uma oportunidade de ouro para Teliana Pereira, número 1 do Brasil e 78 do mundo (ranking de domingo). Se estiver recuperada das dores que forçaram seu abandono em Bad Gastein, na Áustria, a pernambucana disputará em seu piso preferido o WTA mais fraco de sua vida.

Seria uma chance maravilhosa também para Bia Haddad, mas nem com essa sorte o torneio contou. A paulista, #2 do Brasil e #153 do mundo, sofreu uma lesão durante os treinos para os Jogos Pan-Americanos e não poderá jogar em Santa Catarina. As outras brasileiras na chave serão Paula Gonçalves (#305) e Gabriela Cé (#249), que entraram direto, e as convidadas Nanda Alves (#633), Carolina Meligeni Alves (#530) e Luisa Stefani (17 anos, #14 do mundo no ranking juvenil).

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O custo benefício

O compromisso financeiro total do torneio é de 250 mil euros, o equivalente a mais de R$ 900 mil. Parece seguro afirmar que, com os custos de organização e promoção, o torneio custa mais de R$ 1 milhão anual. Pouco me importam os gastos do Brasil Open e do Rio Open, promovidos por empresas privadas como Koch Tavares e IMX. Só que o WTA de Florianópolis é organizado pela FCT e pela CBT. Uma federação e uma confederação.

Será que vale a pena pagar tanto por um torneio com uma chave assim? Há retorno suficiente para estimular o tênis no país? Quanto valem, em reais, os pontos conquistados pelas brasileiras que vençam partidas durante a semana? Nem acho que seja o caso de incluir Teliana nessa discussão (a pernambucana tem jogo para pontuar no saibro em qualquer torneio do mundo). Mas acho – e sintam-se livres para discordar – que são discussões que deveríamos ter em algum momento.

Em tempo: tentei conversar com Rafael Westrupp, diretor do torneio, mas não foi possível encontrar um horário em comum (ele tem as funções dele, eu tenho meu emprego – culpa de ninguém). Uma pena. Seria muito interessante ter uma posição oficial da organização neste texto.

Frases

Encontrei, no entanto, declarações tanto de Westrupp quanto de Jorge Lacerda, presidente da CBT, em texto publicado no site do torneio em 18 de junho.

Lacerda afirma que “o resultado das meninas desde que a gente conseguiu adquirir a data, em 2012, o ranking delas em comparativo de 2012 para hoje era o sonho que a gente queria. A gente comprou um WTA sem jogadoras com condições de ranking para jogar e hoje temos um WTA com duas ou três jogadoras entrando direto na chave, a Bia como 148 do mundo e a Teliana 74. É uma nova fase do tênis feminino e isso tem muito a ver com esse evento.”

Discordo quando o presidente usa Bia e Teliana como exemplos de ascensão e usa o torneio catarinense como gancho. Dos 755 pontos de Teliana, só 30 foram conquistados em Floripa. Bia caiu na estreia no ano passado. Logo, seu ranking pouco (ou nada) tem a ver com o torneio. Dizer que as duas evoluíram tecnicamente por causa do WTA catarinense? Acho uma tentativa forçada de valorização por parte do dirigente. E não custa lembrar que quando Teliana começou sua ascensão pós-cirurgias, teve diferenças com a entidade e foi excluída do quadra de atletas beneficiados pela CBT.

No mesmo dia, Westrupp disse que “a tendência é que a gente tenha pelo menos cinco brasileiras na chave principal, o que é louvável e comprova que todo o investimento e a coragem da CBT em trazer o evento ao Brasil está dando resultado antes do que a gente imaginava.”

O Brasil terá até mais tenistas do que o esperado pelo diretor. E seria realmente louvável se a chave não fosse tão fraca. Do jeito que aconteceu, duas brasileiras (Cé e Gonçalves) só conseguiram vaga direta porque o torneio não atraiu atletas melhores. As duas não entrariam em nenhum outro WTA International do calendário. Não acho que seja motivo de orgulho. E talvez não valha R$ 1 milhão.


Quadra 18: S01E10
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Alexandre Cossenza

Uma atuação salvadora de Lleyton Hewitt e três pontos conquistados por Andy Murray foram só alguns dos destaques da Copa Davis em um fim de semana cheio de confrontos emocionantes que incluiu ainda a República Dominicana avançando no Zonal das Américas e a Espanha sendo derrotada lindamente diante de um time nada intimidante da Rússia em Vladivostok.

Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu falamos sobre tudo isso e ainda analisamos as possibilidades do Brasil, que enfrentará a Croácia nos playoffs do Grupo Mundial, de 18 a 20 de setembro, em casa. Para ouvir é só clicar no botãozinho abaixo.

Quem preferir pode baixar o arquivo neste link ou assinar nosso feed e ouvir no iTunes. Nosso arquivo com todos os programas também está no Tumblr. E para enviar questões, críticas e sugestões, nosso canal preferido é o Twitter – incluam sempre a hashtag #Quadra18 – mas também aceitamos via e-mail e Facebook.

Os temas

Como de costume, segue abaixo a lista de assuntos abordados no programa, com o momento em que falamos sobre cada um dos temas. Quem preferir, pode avançar direto até o trecho que quiser ouvir primeiro.

1’18’’ – Lleyton Hewitt resgata a Austrália na vitória de virada sobre o Cazaquistão
3’02’’ – A imprevisibilidade dos jovens australianos Kyrgios, Tomic e Kokkinakis
9’40’’ – “O time australiano pode ser a grande história esportiva do ano?”
10’30’’ – “Hewitt é um típico jogador de Copa Davis?”
11’30’’ – “O que falta para o Brasil ser um Cazaquistão, que está no Grupo Mundial há cinco anos consecutivos?”
14’20’’ – Por que o Brasil não esteve tão longe de chegar às semifinais
15’00’’ – A vitória da Grã-Bretanha de Andy Murray sobre a França
17’00’’ – A estranha escalação de Tsonga para o jogo de duplas
18’10’’ – O dramático quarto jogo entre Murray e Simon
20’15’’ – O péssimo histórico dos franceses em jogos 4 e 5 de Copa Davis
22’10’’ – Gasquet não deveria ter sido escalado?
24’00’’ – “Qual a porcentagem de vitória quando um do Big Four decide disputar a Copa Davis desde a primeira rodada?”
24’20’’ – As situações em que Federer, Nadal, Djokovic e Murray decidiram jogar a Davis desde o início do ano.
26’55’’ – A vitória da Argentina sobre a Sérvia em Buenos Aires
29’20’’ – O triunfo da Bélgica sobre a equipe capenga do Canadá
30’50’’ – Palpites para as semifinais do Grupo Mundial
32’50’’ – O tamanho do buraco da Espanha na segunda divisão
35’50’’ – O casamento de Feliciano López marcado para a data da Copa Davis
36’10’’ – Comentários sobre o casamento de Tomas Berdych, bufê liberado, vestidos de noiva, Kim Kardashian e roupas transparentes
38’10’’ – Os vencedores dos Zonais e o brilho de Victor Estrella Burgos
39’00’’ – Retrospecto das últimas participações brasileiras
39’55’’ – Bruno Soares pergunta: “Vocês acham bom o atual formato da Davis?”
41’10’’ – A proposta de uma “Copa do Mundo” do tênis de dois em dois anos
44’55’’ – A possibilidade de jogos em melhor de três na Copa Davis
46’00’’ – Bruno Soares pergunta: “Como encaixar melhor a Davis no calendário?”
49’35’’ – “Quais os requisitos de jogar a Davis para estar nas Olimpíadas?”
51’15’’ – “Qual a seleção mais copeira da Copa Davis?”
52’10’’ – “Por que o SporTV não mostrou nenhum confronto?”
53’30’’ – Brasil x Croácia: o que esperar?
60’50’’ – Os outros confrontos dos playoffs

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast”, é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “Hang For Days” e “Game Set Match”. As duas últimas fazem parte da audio library do YouTube.


Como Bellucci faz sua maré mudar
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Alexandre Cossenza

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Primeiro passo: tiremos o elefante da sala. Ser campeão em Genebra derrotando só um top 50 (e logo o 50º!) não faz ninguém um candidato imediato a um título de Grand Slam. Do mesmo jeito que Thomaz Bellucci não era o mais amaldiçoado dos homens quando perdeu oito jogos seguidos em fevereiro e março, não é agora que deve ser indicado ao Laureus.

Feita esta pequena introdução, é necessário constatar como Thomaz Bellucci vem fazendo sua maré mudar. Aos poucos, o número 1 do Brasil deu consistência a seu jogo, dando menos pontos de graça e fazendo adversários trocarem mais bolas. O circuito inteiro sabe que o paulista tem uma certa tendência de começar a errar, por isso muitos de seus oponentes adotam planos de jogo pouco agressivos, aguardando erros. Mas o que acontece quando Bellucci decide arriscar menos e esperar por chances melhores para atacar?

A tática da cautela funcionou para Pablo Cuevas em Istambul, mas não deu certo para ninguém desde então. Já faz um mês. Nos últimos três torneios que disputou, o brasileiro só foi derrotado por John Isner (Madri) e Novak Djokovic (Roma) – e em ambas partidas, levou os rivais ao terceiro set. Sim, houve momentos de instabilidade, mas estes apareceram com menos frequência (vide Bautista Agut em Roma e Albert Ramos em Genebra). Ser consistente, para quem armas acima da média como o saque e o forehand de Bellucci, faz muita diferença.

Do mesmo modo, seu físico vem fazendo diferença. O número 1 do Brasil, que volta ao top 50 nesta segunda-feira, levou o preparador André Cunha à Europa (lembrando os tempos pré-Larri Passos, quando sempre ia acompanhado de um profissional da área). Nas últimas quatro semanas, Bellucci fez 17 jogos. Só assim foi possível disputar os qualis de Madri e Roma e chegar a Genebra com gás para ir até o título. E só assim será possível emendar essa sequência de quatro torneios com Roland Garros, onde o paulista não consegue avançar à terceira rodada desde 2011 (não jogou em 2013).

O que, então, se tira do título em Genebra? Que Thomaz Bellucci não é um atleta tão diferente daquele que perdeu oito jogos seguidos. No tênis, contudo, pequenos ajustes provocam grandes mudanças. Um preparo físico melhor permite estar em pontos mais longos e com mais frequência. Logo, Bellucci pode arriscar menos e forçar adversários a serem mais agressivos. Com isso, perde menos e ganha mais pontos de graça. E aí, nada de repente e nada magicamente, aparece um troféu.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale registrar os números: nas últimas quatro semanas, Bellucci venceu 14 partidas e perdeu três. Ainda que quatro desses triunfos tenham vindo em qualis, é uma campanha respeitável. No caminho, o brasileiro derrubou o número 19 do mundo, Bautista Agut, o 32º do ranking, Jeremy Chardy, e o 50º, João Sousa, que foi seu rival na inesperada decisão em Genebra.

– Dos quatro títulos de ATP de Bellucci, três foram conquistados na Suíça. Dois em Gstaad e um em Genebra. Importante ressaltar que as condições de jogo são bem diferentes as duas cidades. O jogo em Gstaad, construída 1.050 metros acima do nível do mar, é bem mais rápido do que em Genebra, onde a altitude é de 375m.


O cartão de visitas de Orlandinho
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Alexandre Cossenza

Orlandinho_SP_JoaoPires_blog

Até duas semanas atrás, o principal juvenil brasileiro tinha no currículo apenas uma participação em torneios da série Challenger. Foi em 2013, em Porto Alegre, onde venceu dois jogos, mas não conseguiu furar o qualifying. Logo, quando Orlandinho aceitou o wild card para jogar em Santos criou-se uma bela expectativa para ver o que, dessa vez, a maior promessa brasileira teria a mostrar em um torneio desse nível. Era a hora de apresentar metaforicamente seu cartão de visitas.

O resultado foi agradavelmente surpreendente, e o gaúcho de 17 anos saiu da cidade com uma inédita semifinal. E se contou com uma pitada de sorte no torneio (enfrentou o colega de juvenil Marcelo Zormann nas oitavas e ganhou por desistência nas quartas), não teve o mesmo na semana seguinte, quando alcançou as quartas em São Paulo – outro torneio com premiação de US$ 50 mil.

Só que mais do que os pontos somados (44), o dinheiro da premiação (US$ 3.970) ou as posições conquistadas no ranking (saltou do 964º posto para o 543º), Orlandinho mostrou um jogo bacana de ver e, ainda mais do que isso, personalidade. Com um tênis agressivo, misturando bons saques, uma direita perigosíssima e curtinhas corajosas, o gaúcho não se mostrou intimidado pelo mundo profissional (até em Futures sua experiência é modesta) ou por fazer partidas em horário nobre.

Em São Paulo, a capital brasileira do tênis, Orlandinho venceu uma partida depois de salvar match point (contra o francês Alex Musialek, 284 do mundo) e, na rodada seguinte, depois de uma partida longa e sem muito tempo para descanso, repetiu a dose salvando match points e forçando o argentino Guido Pella (159 do mundo) a jogar um terceiro set que só acabou no 12º game. Não é pouco, considerando que o “hermano” acabou com o título de campeão do torneio.

Orlandinho também deu declarações interessantes. Ao mesmo tempo em que se disse preparado para jogar torneios deste nível e “no nível desses caras” (Challengers ainda são um tanto superiores a seu ranking), o adolescente afirmou que “as pessoas acham que eu vou disparar no ranking do nada, mas ainda tenho que treinar bastante para evoluir.” Nada mau para quem ainda jogará torneios juvenis. Seus próximos quatro eventos serão na Europa. O último deles será Roland Garros, onde, aceitando ou não a pressão, Orlandinho estará entre os favoritos.

Orlandinho_Santos_JoaoPires_blog

Coisas que eu acho que acho:

– O otimismo em relação a Orlandinho rendeu até títulos do tipo “Orlandinho supera Guga”. Embora seja compreensível vindo da assessoria do torneio (cuja tarefa é mesmo chamar atenção para o evento), é algo que precisa ser avaliado antes de ser reproduzido ao grande público. Orlandinho, sim, venceu seu primeiro jogo em um Challenger com menos idade do que Gustavo Kuerten. Vale, contudo, lembrar que sucesso como juvenil é apenas um dos parâmetros que servem para indicar o potencial de um garoto. José Nilton Dalcim fez um ótimo texto colocando tudo em seu devido lugar. É leitura obrigatória.

– Gostaria de ter publicado este texto um pouco mais cedo, mas não vem sendo possível postar tudo que quero e, principalmente, quando quero. Ainda assim, a ideia é deixar aqui os registros do que penso, imediatamente depois dos fatos ou não.


Boia fria, servente de pedreiro e pai de campeã
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Alexandre Cossenza

Entre todos os muitos textos sobre Teliana Pereira desde o fim de semana, o que mais gostei estava na “Folha de S. Paulo” e foi publicado, originalmente, em 24 agosto de 2010. O autor é José Pereira da Silva, pai de Teliana, e o texto foi resgatado por Marcel Merguizo, que reproduziu trechos no blog Olímpicos, que comanda junto ao competentíssimo Paulo Roberto Conde.

Reproduzo abaixo, em itálico, o texto original do pai de Teliana. Antes, porém, vale ressaltar que ele foi redigido a pedido do jornal pouco depois de vir à tona o famoso vídeo em que o então presidente Lula enchia a boca para dizer que tênis é esporte de burguês, tentando desestimular um estudante fã da modalidade. Fora os valores citados, o conteúdo é mais atual do que nunca. E ajuda a explicar, entre outras coisas, por que Teliana é Teliana.

Eu trabalhava na roça, plantava feijão, milho, criava vaca, tudo para consumo próprio ou para conseguir algum dinheiro. No verão, eu trabalhava como boia- -fria, cortando cana no sul de Alagoas, na usina Camaçari, que fica perto de Penedo.
Na época, não tinha a menor ideia do que era tênis. Não conhecia. De esporte, eu só sabia o que era futebol. É o que se joga por lá. E eu era bom. Pelo menos era melhor do que sou no tênis hoje.

Então, em 1991, fui visitar meu irmão que estava morando em Curitiba. Era para eu ficar oito dias, de férias. Mas ele estava trabalhando em uma obra e resolvi ajudá- -lo, até para não ficar sem fazer nada lá. Além disso, fui conseguir um dinheiro.
Fiquei uns cinco dias como servente de pedreiro na obra da academia [de tênis Daniel Contet, no bairro de Santa Felicidade]. Mas fui ficando, ficando e virei funcionário da academia [que foi vendida para o francês radicado no Brasil Didier Rayon, técnico de tênis]. Virei auxiliar-geral da academia do Didier. Fazia de tudo, cuidava do bar às quadras. E há seis anos sou construtor de quadras. Antes, só reformava e vendia material.

Depois de um ano e oito meses, fui buscar meus cinco filhos e minha mulher (Maria Nice) em Pernambuco. Nós morávamos em um povoado chamado Barra da Tapera, que fica na divisa com Alagoas. Tanto que meus filhos nasceram em Santana do Ipanema (AL), pois o custo dos partos lá era mais baixo do que em Pernambuco. Leila, 28, Renato, 25, Teliana, 22, Júnior, 19, e Valdelice, 17, nasceram lá. Depois, em Curitiba, ainda nasceram a Juliana, 13, e o Renan, 11. Hoje Leila trabalha na parte administrativa da academia, Renato joga tênis e ensina outros a jogar, Teliana e Júnior são profissionais. E todos descobriram o que era tênis na academia, me vendo trabalhar, desde pequenos.

A Teliana e o Júnior estão entre os melhores do Brasil hoje, né? Eu tenho muito orgulho deles. Mas não viajo com eles, não, prefiro ficar por aqui, torcendo. Eles ficavam até tarde do lado de fora das quadras, vendo. Depois, começaram a ser boleiros. Ganhavam de R$ 3,00 a R$ 4,00 por jogo. Com o tempo, as pessoas que jogavam na academia davam até roupas, tênis, raquetes para eles começarem a jogar. Foi assim que aprenderam.

Até hoje a Teliana treina com o Didier. O Júnior foi para o Instituto Tênis. Eu também jogo tênis… [risos] Fiquei sabendo do vídeo do Lula. Mas não vi. Acho que ele errou [ao declarar que tênis é esporte de burguesia]. Ele deu uma bola fora, sabe? Igual no tênis. Sempre votei nele, ele é meu conterrâneo. Mas, dessa vez, o Lula exagerou. Tênis não é esporte de burguês. É um esporte normal. E um dos mais legais. Claro que muitas pessoas carentes não têm acesso ao tênis. Mas, se você for ver, hoje, já tem uns 20% [dos praticantes] que não são ricos.

Olha o meu caso. Fui trabalhar na construção de quadras, e meus filhos viraram boleiros. Chegavam a ficar pegando bola em 12 jogos por dia. Para a gente, aquele dinheirinho era importante. O que eles ganhavam era metade da nossa renda. E, se pedir para a Teliana, ainda hoje, ela fica de boleira se precisar. O tênis ensina muito, sabe? Hoje eles se mantêm com o que ganham no tênis. Têm patrocínios. Mas depende muito dos empresários. Se eles quisessem ajudar os atletas, podiam. E não seria mais esporte de burguês…

O problema é que praticamente só construo quadra em casa de rico, chácara, condomínio fechado. Tudo particular. Nesses anos, nunca construí uma quadra pública, ou em escola para crianças jogarem tênis. Nos últimos anos, construí umas 20. As que reformei nem sei quantas foram. E só em escolas particulares. Uma quadra de saibro sai por R$ 45 mil, com iluminação e tudo. A manutenção mensal, muito boa, uns R$ 350. Então, poderia ser feito pelos governos, não?