Saque e Voleio

Arquivo : aposentadoria

Obrigado, Ana, pelo sorriso
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Ivanovic_ATPFinals16_get2_blog

Ana Ivanovic teve uma belíssima carreira. Jogou três finais e ganhou uma em torneios do Grand Slam, ficou 12 semanas como número 1 do mundo (uma a mais que Venus Williams), conquistou 15 títulos em torneios WTA e terminou três temporadas no top 5 do tênis feminino.

Os números já são invejáveis o bastante, mas talvez a maior contribuição de Ivanovic para o mundo do tênis tenha sido seu sorriso. Não digo literalmente. Não tem a ver com beleza. Ivanovic conseguia sorrir nas vitórias e nas derrotas. Sorria quando encontrava uma companheira/adversária de circuito. Sorria nas entrevistas, até nos momentos mais complicados. Sorriu até nesta quarta, segurando as lágrimas, quando anunciou sua aposentadoria.

A sérvia de 29 anos, atual #63 do mundo, era uma pessoa querida no vestiário. Provou que é possível vencer, ter uma grande carreira e, ainda assim, trocar piadas, se divertir com as rivais e fazer amizades. Mostrou que no tênis não há nada tão ruim que não possa ser superado. Um sorriso, no fim das contas, faz uma diferença gigante. E quem acompanhou a carreira de Ivanovic aprendeu isso.

Olhando agora, oito anos depois daquele título de Roland Garros que levou a sérvia ao topo do ranking, é fácil dizer que a carreira de Ivanovic, tenisticamente falando, deixou a desejar. Esperava-se mais. Talvez injustamente, mas a maioria do que se comentou sobre Ivanovic sempre teve um tom de “ela poderia mais”. Poderia mesmo? Difícil dizer, mas também sempre tive essa impressão.

Lesões atrapalharam – e não foi pouco. Já em 2008, no auge da carreira, precisou ficar fora dos Jogos Olímpicos. Outras dores aqui e ali vieram ao longo dos últimos sete anos. Houve também um carrossel de técnicos de dar inveja a qualquer diretoria do futebol brasileiro. De fora e de longe, é difícil dizer o quanto essas mudanças todas atrapalharam. Parece certo, contudo, que não ajudaram.

Há quem diga que Ivanovic deveria ter se concentrado mais no tênis, o que costuma significar “ela ganharia mais se fizesse menos ensaios fotográficos”. Taí outra crítica que nem sempre é justa. Sharapova e Serena têm dúzias de compromissos publicitários. Não significa que elas cheguem menos preparadas nos grandes torneios. O mesmo deveria valer para Ivanovic.

No fim das contas, foi dentro de quadra que a sérvia não encontrou o balanço ideal para vencer com mais consistência. Dona de uma direita fortíssima, mas de uma movimentação nada espetacular (compreensível para quem tem 1,84m de altura), Ivanovic nunca desenvolveu um backhand dominante ou atingiu a regularidade que precisava no seu serviço. Por isso, venceu menos do que poderia. Ainda assim, terminou 11 temporadas seguidas no top 25 (nove delas no top 20). Um feito para poucos, convenhamos.

Foi a hora certa de parar? Não existe fórmula nem regra para essas coisas. A carreira acaba quando a pessoa acredita que não tem o que acrescentar ao seu histórico. No caso de Ivanovic, ela mesma afirmou que não conseguiria jogar no nível que gostaria. Quando bate essa sensação, quem vai dizer que a pessoa está precipitada?

O que é certo – certo mesmo – é que o mundo vai sentir falta das direitas indefensáveis, dos gritos de “ajde” com punho cerrado que vinham com aquela meia pirueta, das coletivas em que ela desandava a falar sem parar, das partidas malucas cheias de altos e baixos e, claro, do sorriso. Porque, no fim das contas, tênis é só um jogo. Simpatia é mais do que um aceno e um sorriso pra galera depois de uma vitória. Otimismo é mais do que um “agora é olhar pra frente e pensar na próxima partida” numa coletiva. E respeito é mais do que um aperto de mãos junto à rede.

Obrigado, Ana, por tudo, mas especialmente pelo sorriso.

Coisas que eu acho que acho:

– Em 2008, pouco antes do título em Roland Garros, Ivanovic deu uma entrevista para o Globoesporte.com, onde eu trabalhava na época. Foi uma daquelas entrevistas impessoais, por email, mas com respostas interessantes. Desde aquele dia, recebo cartões de Boas Festas autografados por ela. Um deles chegou em fevereiro uma vez (valeu, Correios – #IssoÉEntrega). Um gesto pequeno, certamente administrado pela agência que gerencia sua carreira, mas que tem tudo a ver com Ivanovic e seu respeito por fãs e jornalistas.


Serena Williams: quando devemos nos preocupar?
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Serena_Miami16_R16_get_blog

Serena Williams em 2015: campeã do Australian Open, semifinalista em Indian Wells (abandonou antes de jogar a semi) e vencedora do WTA de Miami.
Serena Williams em 2016: vice-campeã em Melbourne, derrotada por Angelique Kerber na decisão, vice também em Indian Wells, superada por Victoria Azarenka, e eliminada nas oitavas de final em Miami por Svetlana Kuznetsova.

Sim, são só três torneios, há muito pela frente na temporada. É cedo para julgar a multicampeã e certamente soa injusto usar como parâmetro justamente a melhor temporada da carreira de Serena Williams. É perfeitamente normal que a número 1 do mundo tenha um 2016 inferior. Ela, inclusive, já igualou seu número de derrotas de 2015 (três!). Mas não é uma questão só de resultados, embora seja o pior início de ano da americana desde 2012, quando ainda voltava ao circuito após uma embolia pulmonar.

Longe de querer soar apocalíptico, há alguns indícios de que o mundo pode estar vendo o início do fim de Serena-como-a-conhecemos, ou seja, Serena 2013-15. Não que haja algo errado ou que alguém precise ser fuzilado publicamente por isso, mas vale analisar com atenção alguns momentos de Serena-2016:

A idade

Não que seja o mais decisivo dos fatores no caso de Serena, mas cedo ou tarde até os grandes sentem os efeitos do tempo. Pete Sampras sempre disse que perdeu a regularidade. Que treinava da mesma forma, mas não conseguia ter a mesma precisão dentro de quadra. Era espetacular num dia, pavoroso (para seus padrões) em outro.

Para a americana, ainda deve haver uma preocupação com lesões, como a que incomodou durante o US Open do ano passado. Especialmente porque Serena não é a tenista mais leve do circuito. Não compro a teoria de que ela esteja acima de seu peso normal (a foto desta quarta, postada por ela no Instagram, “concorda” comigo), mas é difícil imaginar uma atleta como ela ganhando tanto há tanto tempo e não sentindo o desgaste acumulado.

O desgaste do Grand Slam

Só Serena sabe o quão extenuante foi a última temporada. O enorme número de jogos, a incessante pressão para vencer todos eles, a expectativa e a proximidade do Grand Slam de fato… Tudo isso vai somando e esgota a pessoa. Mal comparando, é como o cidadão que colocava todas suas energias em um vestibular e ficava perto, mas não conseguia a aprovação e recebia o resultado pensando “nunca mais passo por isso.”

É preciso um tempo para absorver tudo que aconteceu, deixar a cabeça descansar e só depois pensar na vida e no que fazer. Cada pessoa tem um tempo diferente e vai tomar decisões diferentes. Pode ser que ela ainda esteja contemplando tudo isso e o que fazer daqui em diante. Talvez Serena não tenha mais a disposição para se cobrar os resultados dos últimos três anos. Seja o que for, com o currículo que tem (e mesmo que não tivesse!), pode tomar qualquer decisão e encarar o circuito da maneira que achar melhor – sem olhar para trás.

Taticamente, Serena não tem sido a mais paciente das tenistas. Foi assim tanto na final do Australian Open quanto na decisão em Indian Wells. Enquanto Kerber e Azarenka se defendiam, a americana atacava com certa afobação, às vezes abusando da potência e correndo riscos desnecessários em bolas pouco colocadas. Se isso é reflexo do desgaste ou simplesmente planos de jogo mal executados, é impossível dizer de longe.

O comportamento nas premiações

Tanto em Melbourne quanto na Califórnia, Serena foi extremamente graciosa. Distribuiu sorrisos, elogiou Kerber e Azarenka ao extremo, saiu de quadra quase feliz. Parecia até pouco incomodada com os resultados. Não vejo nada de necessariamente errado na postura, mas assisti às duas cerimônias um pouco espantado. A Serena campeã que eu conheci lá atrás não reagia bem a derrotas em ocasiões tão importantes.

Claro que a maturidade veio, mas as duas finais me deixaram imaginando se a atual número 1 deixou para no passado um pouco daquele instinto assassino ou se realmente assumiu o cargo não oficial de embaixadora do tênis feminino, mostrando o quanto a modalidade é forte e, suas tenistas, muito capazes. Ou ambos, já que uma postura não exclui a outra.

O que esperar, então?

Como escrevi lá no alto do post, ainda é o início da temporada e não convém tirar conclusões definitivas sobre os resultados ou o comportamento de Serena em 2016. O Grand-Slam-que-não-foi de 2015 ainda pesa? O instinto assassino acabou? Serena está se poupando para os Jogos Olímpicos e um calendário congestionado no segundo semestre? A temporada de saibro, que começa agora, costuma ser um bom termômetro para medir as pretensões e a dedicação da americana. Vale ficar de olho, prestar atenção nos sinais e, principalmente, aproveitar Serena Williams. Depois da exaustão de 2015, sabe-se lá até quando continuará jogando no nível que é só dela.

Tênis por WhatsApp

O UOL agora envia notícias de tênis por WhatsApp. Para se cadastrar, adicione à agenda de seu celular o número +55 11 99007-1706 e envie para esse número uma mensagem contendo o texto guga97. Em alguns dias, você vai passar a receber, de graça, as notícias. Saiba mais aqui.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>