Saque e Voleio

Qual é o melhor Federer de todos?

Alexandre Cossenza

A pergunta surgiu no último domingo, na hashtag do podcast Quadra 18. Apesar de ter dado minha resposta no programa, que pode ser ouvido no post anterior, achei o tema interessante para registrar aqui também. O ouvinte Felipe Ariel Resende perguntou se a versão 2017 de Roger Federer podia ser considerada a melhor de todas – melhor ainda do que o modelo 2004-2007, que dominou o circuito na década passada.

A discussão é tão inútil quando pode ser divertida, desde que todos consigam discordar com educação, tentando entender os pontos de vista alheios. E este post não tem intenção alguma de cravar um acima dos outros. Mesmo assim, quis deixar registrado aqui este texto como mero levantamento de números e variáveis que servem para alimentar um debate saudável.

Em números, o Federer/2006 parece imbatível. Naquela temporada, o suíço somou 92 vitórias contra apenas cinco derrotas (quatro para Rafael Nadal e uma diante de Andy Murray), venceu três slams Australian Open, Wimbledon e US Open), foi vice em Roland Garros e encerrou a temporada com uma sequência de 29 triunfos, período em que foi campeão em Nova York, Tóquio, Madri, Basileia e do ATP Finals, que então levava o nome de Masters Cup, além de superar Novak Djokovic e Janko Tipsarevic na repescagem da Copa Davis. Enorme.

Ainda é cedo para julgar a versão 2017 de Federer em números e, com 35 anos e um calendário praticamente sem saibro, é virtualmente impossível que as estatísticas de 11 anos antes sejam igualadas. Ainda assim, o suíço já venceu o Australian Open e os Masters de Indian Wells e Miami.

Mas se é impossível comparar dados registrados, o que dizer tecnicamente? Parece incontestável que Federer, hoje, é um tenista mais completo. Desde a troca de raquete, efetuada no segundo semestre de 2013, o suíço tem golpes mais limpos e até mais potentes. Seu saque é uma arma ainda mais poderosa. O backhand, que nunca foi tão vulnerável quanto muitos acreditam, é uma arma perigosíssima. E, comparando o vídeo da final do Australian Open deste ano com as imagens do jogo contra Ivan Ljubicic em Miami/2006, é até difícil ver diferença na velocidade de deslocamento em quadra – algo soberbo para um tenista de 35 anos.

Mas será que o Federer de hoje é tão melhor assim do que o Federer de 2014, 2015 e início de 2016? Aí é que, a meu ver, a comparação é mais difícil. Em 2014, suíço foi vice-campeão em Wimbledon. Em 2015, foi finalista em Wimbledon e no US Open. Lembram de quando ele lançou o “SABR”, a devolução quase de bate-pronto? Ali, Federer foi considerado um revolucionário. Por fim, em 2016, antes da lesão, alcançou a semifinal em Melbourne. Não, ele não voltou dos seis meses de pausa como um tenista tão diferente e superior assim.

O elemento comum durante esse período 2014-2016? Novak Djokovic. O sérvio foi tão acima da média que impossibilita qualquer comparação justa. O fato, contudo, é que sempre que Federer brilhou, o então número 1 esteve lá para impedir um título. Sem Nole, o suíço possivelmente teria mais de 20 slams a essa altura. Talvez estivéssemos vendo o Federer de hoje com um olhar menos espantado. Sim, é justo que nos admiremos com um tenista voltando de lesão, seis meses parado, e ganhando tanto – e jogando tão bem. Mas será que ele é tão melhor agora do que dois anos atrás? Difícil julgar.

Duríssimo até porque Novak Djokovic não enfrentou o suíço neste 2017. E, se enfrentasse, o Djokovic de hoje teria o mesmo sucesso de dois ou três anos atrás? É por causa desse tipo de variável que é tão complicado e injusto cravar “melhores de todos os tempos”, qualquer que seja o esporte. Quem consegue equiparar os parâmetros para fazer uma comparação justa entre Federer e Rod Laver, por exemplo? E o tal “maior” é quem domina mais ou quem domina por mais tempo? O maior é necessariamente o melhor? Cada pessoa, com sua lista de critérios e preferências pessoais, pode achar uma coisa diferente. E o assunto está no ar para quem quiser discutir…