Saque e Voleio

AO, dia 14: choremos juntos com Roger Federer

Alexandre Cossenza

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“Acho que o começo do ano, especialmente o verão australiano, vai ser épico.” Foi assim que Roger Federer falou sobre suas expectativas para janeiro de 2017. Profético. Oracular. E o suíço nem falava sobre o que tinha guardado para mostrar em Melbourne. Exigiria outro nível de adjetivos. Mas este texto vai chegar lá.

Talvez ele mesmo não soubesse. Estava, afinal, há seis meses sem competir, sem a certeza de como o corpo de 35 anos reagiria e incapaz de imaginar o que a chave reservaria ao cabeça 17. Pois foi ele próprio o protagonista de quase tudo “épico” nas últimas duas semanas. Bateu Berdych, Nishikori, Wawrinka e guardou o melhor para este domingo. Contra o retrospecto, contra o maior rival, e em cinco sets: 6/4, 3/6, 6/1, 3/6 e 6/3, em 3h37min de partida.

Foi o 18º Slam, um feito gigante por conta própria, mas foi “O Retorno do Rei”, “Tempo de Glória”, “Coração Valente”, “A Máquina do Tempo” e “Uma Nova Esperança”, uma coleção de épicos, tudo ao mesmo tempo (e desde já candidato ao Laureus de “Retorno do Ano”). Foi, em momentos, plástico. Em outros, corajoso. Quase sempre gracioso. Quando necessário, fulminante. Sempre insinuante. E, no fim, no pódio, ao lado de Rafael Nadal e Rod Laver, majestoso.

Foi a consagração de um atleta-milionário-e-pai-de-família-bem-sucedido que, aos 34 anos, escolheu lutar contra uma lesão e continuar correndo de um lado para o outro contra pessoas às vezes 15 anos mais jovens. Foi a recompensa pelo trabalho árduo que Federer insiste em fazer quando não há câmeras ligadas. Foi o momento maior de uma carreira cheia de momentos maiores. E que terminou com Roger Federer de joelhos e às lágrimas em uma quadra em plena reverência. Que compreendamos o momento. Que choremos juntos com Roger Federer.

O xadrez até o troféu

Sobre a final, o plano de Federer esteve sempre claro. Atacar primeiro para evitar o desgaste e encurtar pontos, o que reduziria a chance de Nadal adquirir um bom ritmo do fundo de quadra. Quanto mais longos os ralis, maior a chance de o espanhol ficar à vontade no jogo.

O plano era simples. Afinal, era o mesmo de sempre. Executar é que sempre foi o problema. Exige precisão em um nível muito acima do normal. Federesco, eu diria. Mas a precisão apareceu nos momentos mais essenciais. Nos três aces para salvar break points no primeiro game do terceiro set, no bate-pronto de forehand do fundo de quadra que ajudou a quebrar Nadal na sequência ou no outro bate-pronto espetacular, que veio no oitavo game do quinto set – o game da última quebra.

É claro que a quadra, mais rápida do que em anos anteriores, ajudou. Obviamente, a longa semifinal de Nadal também teve seu peso. Só que também ajudou a devolução de backhand, sempre empurrando Nadal para o fundo. Foi, talvez, a grande mudança do suíço em relação à maioria dos duelos anteriores. Federer trocou o retorno de slice/bloqueado por um mais agressiva.

O jogo de xadrez que atormentou boa parte da carreira do suíço também teve uma execução fundamental. O backhand do fundo de quadra. Mesmo quando não conseguia definir pontos rapidamente, Federer tinha sucesso com a esquerda. Às vezes, matando na paralela, às vezes angulando a cruzada e tirando Nadal da zona de conforto. E sempre perto da linha, tirando o tempo do espanhol. De novo: o plano não foi inovador; a execução é que foi gloriosa.

E o forehand… Bem, o forehand foi uma fábrica de melhores momentos. Paralelas, cruzadas, de dentro para fora, de dentro para dentro, com break point a favor ou contra. E foi o Federer Forehand, talvez o golpe mais perfeito do tênis, que decidiu o duelo deste domingo. Primeiro, com uma bola indefensável no 30/40 do último game. Depois, no segundo match point, com uma cruzada que beliscou a linha. Tão preciso que Nadal pediu replay, permitindo que o mundo visse a perfeição de novo, em câmera lenta e definição 4K. Como o tênis de Federer merece.

O bravo rival

Nadal teve muitos méritos. Com o suíço em um nível tão alto e pressionando com tanta intensidade, é admirável que o espanhol tenha levado até o quinto set. Lutou, esperou chances e fez o que dava. Até saiu na frente no quinto set e salvou cinco break points antes de ceder a virada.

Difícil dizer o que faltou para o espanhol neste domingo. Saque? Talvez. Mas é injusto condenar alguém que colocou em jogo 85% dos primeiros serviços no quinto set. Poderia ter acelerado e arriscado mais? Certamente. Mas ficaria vulnerável à devolução do adversário, que estava num dia “daqueles”.

O resumo é que Nadal jogou pressionado a maior parte das 3h37min de jogo. Até para um gigante como ele, é difícil resistir por tanto tempo.

O ranking

Após o Australian Open, Federer volta ao top 10 e passa a ocupar o décimo posto, com 3.260 pontos. Nadal, que teria subido para quarto com o título do Australian Open, fica em sexto. A lista dos dez fica nesta ordem:

1. Andy Murray – 11.540 pontos
2. Novak Djokovic – 9.825
3. Stan Wawrinka – 5.695
4. Milos Raonic – 4.930
5. Kei Nishikori – 4.830
6. Rafael Nadal – 4.385
7. Marin Cilic – 3.560
8. Dominic Thiem – 3.505
9. Gael Monfils – 3.445
10. Roger Federer – 3.260