Saque e Voleio

Os sete erros de Sharapova (e as doídas lições do tribunal)

Alexandre Cossenza

08/06/2016 18h03

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A notícia todo mundo já sabe. Maria Sharapova, flagrada em um exame antidoping durante o Australian Open, foi suspensa por dois anos e só poderá voltar a jogar tênis competitivo a partir de 25 de janeiro de 2018. O exame da tenista russa apontou a presença de meldonium, substância proibida desde 1º de janeiro deste ano. Nesta quarta-feira, a Federação Internacional de Tênis (ITF) divulgou a decisão do Tribunal Independente que julgou Sharapova.

O mistério, como o próprio tribunal delineou na decisão, era “como uma jogadora de elite na posição de Sharapova, com assistência de um time profissional incluindo o melhor aconselhamento esportivo e médico possível, se colocar na posição de tomar uma substância proibida, como admitido, antes de cada uma das cinco partidas que ela disputou no Australian Open.”

Muitas das respostas que Sharapova não deu naquela coletiva mal planejada do dia 7 de março vieram à tona agora. E foram muitas as falhas da tenista russa e de seu empresário, Max Eisenbud. O tribunal não perdoou. Vejamos, então, quais foram as falhas mais graves da ex-número 1 do mundo, como ela tentou se defender e como o tribunal reagiu às alegações.

1. Sharapova sabia que meldonium lhe dava benefícios esportivos

A própria defesa de Sharapova deixa isso claro apresenta uma dos recados do Dr. Anatoly Skalny, responsável por tratar a tenista russa em 2006 e prescrever uma lista de 18 substâncias a serem ingeridas. Uma delas era o meldonium. Em uma das mensagens, o Dr. Skalny especifica como o meldonium (ou Mildronate, seu nome comercial) deve ser ingerido. O médico recomenda a ingestão de dois comprimidos uma hora antes de partidas e, em caso de jogos de “especial importância”, três a quatro comprimidos.

Sharapova_receita_blog

É bom ter em mente que naquela época meldonium não era uma substância proibida. No entanto, a prescrição detalhada sugere que Sharapova sabia, sim, que meldonium lhe dava benefício competitivo. Caso contrário, por que aumentar a dose em partidas mais importantes?

2. Automedicação

Sharapova continuou com acompanhamento do Dr. Skalny até 2012. Era ele que verificava se algum dos remédios prescritos fazia parta da lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Antidoping (Wada). Ele obtinha, anualmente, um certificado do centro antidoping de Moscou. O certificado mais recente apresentado por Sharapova data de 11 março de 2010. Naquela época, a lista de substâncias recomendadas pelo médico chegava a trinta (!).

No fim de 2012, Sharapova decidiu mudar o rumo de sua dieta nutricional. Cansada de tomar tantos comprimidos, dispensou o Dr. Skalny e passou a seguir as orientações de um nutricionista (Nick Harris). No entanto, a tenisya decidiu por conta própria continuar a tomar três das substâncias indicadas por Skalny: Magnerot, Riboxin e, sim, Mildronate.

Quando questionada sobre os motivos das três substâncias, Sharapova alegou apenas que o Dr. Skalny colocou ênfase especial nesses três medicamentos.

3. Segredo sobre a medicação

Não, a russa não consultou outro médico sobre o uso de meldonium. Ela também escondeu de seu nutricionista a continuidade com a substância. Segundo a defesa da tenista, apenas o pai de Sharapova e o empresário, Max Eisenbud, sabiam da ingestão de meldonium. O uso tampouco foi relatado pela ex-número 1 nos formulários de controle antidoping preenchidos por ela em 2014 e 2015.

A decisão do tribunal considerou que “sua omissão em relação às autoridades antidoping e sua própria equipe sobre o fato de ainda estar usando Mildronate em competição para melhoria de desempenho foi uma quebra muito séria de seu dever de cumprir com as regras. Sua conduta foi muito séria em termos de sua culpa moral e significativa no efeito causal da contravenção. Se ela tivesse sido transparente com as autoridades antidoping, seu time ou os médicos que consultou, é provável que ela teria sido avisada sobre a mudança na lista de substâncias proibidas e evitaria uma contravenção.”

Essa parte é realmente um mistério. Por que esconder a informação de tanta gente? Especialmente quando meldonium nem era uma substância proibida?

4. Falta de atenção quanto aos avisos sobre a mudança na lista da Wada

Essa todo mundo sabe. Embora Sharapova tenha escrito um textão questionando os “vários avisos” sobre a mudança na lista de substâncias proibidas, é inquestionável que houve várias oportunidades para que ela soubesse da alteração. O tribunal deixa isso bem claro em sua decisão, lembrando que a lista nova foi publicada em 29 de setembro de 2015 e que a lista incluía um resumo das principais modificações. A ITF publicou em seu site os mesmos documentos.

“Qualquer jogador que quisesse checar no site da ITF as mudanças na lista de substâncias proibidas era direcionado ao documento da Wada com o resumo das alterações. O documento declarava claramente que meldonium (Mildronate) havia sido adicionado à lista.”

Além disso, a ITF distribui anualmente um wallet card (um desses cartões como o de seguradoras e planos de saúde) que lista substâncias e métodos proibidos pela Wada. Sven Groeneveld, técnico de Sharapova, recebeu dois desses cartões em janeiro de 2016. Há versões diferentes sobre quando e onde isso aconteceu, mas ninguém contesta que Maria Sharapova não leu esse cartão nem em 2016 nem em anos anteriores.

5. Confiança excessiva no empresário

Essa é a parte mais surreal da história. O empresário de Sharapova classifica o episódio como um erro administrativo e assume a culpa. Era ele quem deveria ter conferido a lista de substâncias proibidas. Afinal, Eisenbud, sabe-se lá por que motivo, era o único do time que sabia da ingestão de meldonium.

Aqui, já há um contraste com a explicação dada por Sharapova na coletiva de março, quando a tenista assumiu a culpa por não ter verificado a lista por conta própria. Diante do tribunal, foi o empresário que ofereceu o pescoço à guilhotina. Mais uma tentativa, ao que parece, de reduzir o grau de culpa de sua galinha dos ovos de outro.

Mas a história fica mais estranha ainda quando Eisenbud explica seu costume de conferir a lista de substâncias proibidas, que consistia em sentar à beira de uma piscina no Caribe e conferir tudo que seus atletas estavam ingerindo.

Eisenbud_Caribe_blog

Em 2015, no entanto, Eisenbud se divorciou e não foi passar as férias no Caribe. Portanto, não fez a devida conferência. Conclui-se que Sharapova foi flagrada em um antidoping porque seu empresário não tirou férias no Caribe, então?

O tribunal não perdoou. A decisão diz que o empresário sabia da possibilidade de consultar a WTA para saber se um medicamento era permitido e questiona a capacidade de Eisenbud, que sequer “poderia ter começado a conferir as substâncias na lista”. O texto também indaga “por que seria necessário levar um arquivo ao Caribe para ler à beira da piscina quando um email poderia ter fornecido a resposta”.

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De novo: se era uma tentativa de aliviar parte da culpa da tenista, a defesa errou rude. O tribunal, em suas considerações finais, argumenta que “a maneira completamente inadequada com que ele [Eisenbud] alegou realizar suas conferências não chega perto de isentar o dever do jogador de cautela máxima.”

6. Espera por tratamento especial

A ex-número 1 argumentou que deveria ter recebido um alerta já que a ITF sabia – ou deveria saber – que Sharapova e vários outros tenistas usaram meldonium em 2015. Por isso, segundo a tenista, a entidade deveria ter tomado medidas especiais para avisá-la (e os outros atletas) sobre a adição de meldonium na lista.

A defesa da russa usa como base os 24 testes de tenistas que deram positivo para meldonium em 2015. O problema é que a ITF não sabia disso em dezembro de 2015. Os resultados só foram enviados para a entidade em março de 2016. Além disso, dos 24 testes positivos, cinco eram de Sharapova. Logo, como conclui o tribunal, “mesmo se a ITF houvesse sido notificada dos resultados dos testes do programa de monitoramento, não teria necessariamente concluído que havia no tênis, em contraste com outros esportes, amplo uso de meldonium.”

Neste caso específico, não fica totalmente claro se Sharapova, de fato, esperou tratamento especial por parte da ITF. Soa mais como um argumento que busca uma espécie de atenuante, tentando jogar parte da culpa para a federação. De qualquer modo, foi mais um fiasco retumbante.

7. Menosprezo quanto à importância dos formulários de antidoping

Quando um atleta se submete a um exame antidoping, precisa preencher um formulário listando todos medicamentos de que fez uso nos sete dias anteriores à coleta. Não, a Wada não espera que nenhum trapaceiro vá admitir estar fazendo uso de anabolizantes, por exemplo. Mas a omissão de meldonium por parte de Sharapova podia dar a entender que ela tinha intenção de trapacear.

Sharapova admitiu ter desprezado a lista. “Não achei que era uma responsabilidade ter de anotar cada match drink que estava tomando, cada gel ou vitamina que estava tomando, mesmo que tivesse acontecido só uma vez nos últimos sete dias. Não achei que fosse de grande importância.”

Nos formulários apresentados, Sharapova havia listado vitamina C, Omega 3, Biofenac, Voltaren, Veramyst e melatonina. “Na maioria dos casos, ela listou apenas duas dessas substâncias em cada formulário, então a lista não ficaria muito longa se ela incluísse Mildronate”, apontou a decisão. O texto do tribunal, aliás, foi incisivo:

“Se ela acreditasse que havia uma necessidade médica para usar Mildronate, teria consultado um médico. A maneira de seu uso, em dias de jogo e quando em intenso treinamento, só é consistente com a intenção de aumentar seus níveis de energia. Pode ser que ela genuinamente acreditasse que Mildronate tinha algum benefício geral sobre sua saúde, mas a maneira com que a medicação foi tomada, sua omissão das autoridades antidoping, sua falha ao revelar para seu próprio time, e a falta de qualquer justificativa médica deve levar inevitavelmente à conclusão de que ela tomou Mildronate para o propósito de melhorar seu desempenho.”

Coisas que eu acho que acho:

– De tudo que li nas 33 páginas do documento que explica o julgamento, vários argumentos usados pelos advogados de Sharapova são indefensáveis. O último deles é um apelo ao princípio da proporcionalidade, dizendo que qualquer período de inelegibilidade afetaria Sharapova de forma desproporcional, causando a ela uma perda substancial de renda e patrocínios, além da exclusão dos Jogos Olímpicos de 2016 e danos irreparáveis à sua reputação.

– O tribunal dá uma lição de moral na resposta, afirmando que “não há nada injusto na aplicação justa e igualitária das regras a esta jogadora como a qualquer outro atleta sujeito ao Código da Wada, seja profissional ou amador.”

– Dito tudo isto, Sharapova foi punida com dois anos porque seu doping foi considerado não intencional (e a Nike já até reativou o patrocínio). Ou seja, o tribunal considerou que, embora ela soubesse dos benefícios do meldonium, desconhecia a presença da substância na lista da Wada. Quando o doping é intencional, a punição pode chegar a quatro anos de suspensão.

– Em seu perfil no Facebook, Sharapova diz que não pode aceitar “uma suspensão injustamente dura de dois anos” e que vai apelar à Corte Arbitral do Esporte (CAS).

Sobre o autor

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais.
Contato: ac@cossenza.org

Sobre o blog

Se é sobre tênis, aparece aqui. Entrevistas, análises, curiosidades, crônicas e críticas. Às vezes fiscal, às vezes corneta, dependendo do dia, do assunto e de quem lê. Sempre crítico e autêntico, doa a quem doer.

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