Saque e Voleio

Porque Federer precisava vencer a Davis
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Alexandre Cossenza

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Nos últimos 11 anos, desde que se estabeleceu como número 1 do mundo e senhor do circuito, Roger Federer tentou ganhar a Copa Davis apenas duas vezes. A primeira foi em 2004, quando a Suíça sucumbiu diante da França. Seus parceiros, Ivo Heuberger, Michel Kratochvil e Yves Allegro, não seguraram a onda. A segunda tentativa, em 2012, aconteceu quando vislumbrava-se uma campanha só com jogos em casa e terminou em um decepcionante 5 a 0 para os EUA.

Na maior parte do tempo, Federer priorizou calendário e ranking, optando por vestir o vermelho e branco da Suíça quase sempre só nos playoffs. Só que um tenista com tantas conquistas, troféus e, claro, dinheiro, não poderia não tentar mais uma vez. Ele até falou que não precisava. “Ganhei tanto na minha carreira que não precisava marcar um X numa caixinha”, disse neste domingo. Bobagem. A grande história do fim de semana é simples: Roger Federer conquistou a Copa Davis. Empurrado por Stan Wawrinka, grande nome do fim de semana, o ex-número 1 do mundo finalmente alcança um dos poucos feitos relevantes que faltavam em seu currículo.

O triunfo veio num fim de semana especial, com recorde de público (mais de 27 mil pessoas por dia) em Lille, no saibro e na casa dos adversários. E veio depois de uma lesão nas costas que o forçou a não disputar a decisão do ATP Finals, uma semana atrás. E veio depois de uma derrota doída na sexta-feira, um 3 a 0 diante de Gael Monfils em que Federer esteve longe de seu melhor e não esboçou reação diante do tenista número 2 do time da casa.

Mas veio com uma recuperação física impressionante. Nada abalado pelo resultado da sexta-feira, o número 1 suíço não só entrou nas duplas como voltou à arena no domingo. E veio, meio que como uma recompensa dos deuses do tênis, com ele em quadra, em uma atuação impecável diante de um confuso Richard Gasquet. Sim, senhores: Roger Federer, 33 anos, é campeão da Copa Davis. Porque não fazia sentido o tenista mais vitorioso de sua geração chegar ao fim da carreira sem vencer a mais legal das competições.

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Coisas que eu acho que acho sobre a Suíça:

- Wawrinka merece como ninguém a Copa Davis. Nas muitas ocasiões em que Federer priorizou seu calendário pessoal e sua posição no ranking, foi Stan the Man que segurou a barra sozinho, levando consigo Lammer, Chiudinelli, Allegro, fosse quem fosse. Contou com a ajuda de Federer em alguns playoffs, claro, mas esteve sempre ali, vestindo as cores do país.

- A campanha suíça em 2014 tem méritos de ambos. Federer, então número 2 do país, carregou o time contra o Cazaquistão, no que poderia ter sido uma zebra gigante em Genebra. Wawrinka no entanto, foi o nome do fim de semana em Lille. Esteve fantástico contra Tsonga (e talvez tenha sido o responsável pela lesão do francês) e foi o melhor em quadra também nas duplas.

- O banco suíço durante a final tinha 11 pessoas. Difícil imaginar o mesmo com o Brasil, que enche o espaço com juvenis, ex-tenistas, preparadores físicos, médicos, fisioterapeutas e, às vezes, até dirigentes de clubes e assessores de imprensa (ou seja, todo mundo menos Fernando Meligeni).

- Não lembro quem escreveu isso no Twitter durante este domingo, mas impressionou a recuperação física de Federer. Fosse Djokovic ou Nadal na mesma situação, a internet estaria cheia de teorias de conspiração. Que tal adotarmos critérios iguais a todos? Que tal entender que hoje em dia a recuperação é muito mais rápida, até para tenistas com mais de 30?

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Coisas que eu acho que acho sobre a França:

- Richard Gasquet esteve entre os trending topics do Twitter nos últimos dois dias, e não de maneira positiva. Sua escalação foi questionada, e as atuações deixaram muito a desejar. Normal que se questione a convocação, mas é compreensível que o capitão, Arnaud Clément, tenha apostado em um tenista que foi importante, vencendo dois jogos nas semifinais.

- Ainda assim, era difícil imaginar Gasquet derrotando Wawrinka ou Federer. Dada a condição física desconhecida do número 1 suíço antes do confronto, faria sentido escalar Gilles Simon, que poderia ter, no mínimo, alongado uma partida contra Federer na sexta-feira. Ainda assim, Gasquet não era a primeira opção de Clément. A intenção era jogar com Tsonga, que foi mal contra Wawrinka e ficou fora do resto do confronto alegando uma lesão no cotovelo (em Copa Davis, sempre convém duvidar das explicações oficiais).

- Com a quantidade de tenistas disponíveis, é fácil questionar a escalação francesa (eu mesmo acho que, no saibro, Simon e Chardy teriam mais chances contra Federer do que Gasquet e Tsonga), mas o time que foi pensado inicialmente por Clément, com Tsonga e Monfils nas simples e Tsonga/Benneteau nas duplas, poderia ter vencido o confronto. No fim das contas, o time francês não jogou o bastante e tem muito a lamentar sobre o fim de semana.


Um duplo tapa na cara
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Alexandre Cossenza

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Partidas pouco ou nada equilibradas, tenistas abaixo de seu nível costumeiro e uma aguardadíssima final que não existiu. Foi assim o decepcionante torneio de simples do ATP Finals, evento que reúne os oito melhores tenistas da temporada. O título acabou nas mãos de Novak Djokovic, que venceu por WO após a desistência de Roger Federer, que se queixou de dores nas costas um dia depois de derrotar Stan Wawrinka no único jogo realmente interessante da semana. E não deixa de ser um típico encerramento para um torneio chato: a melhor partida serviu para impedir a realização do confronto que todos queriam ver.

Djokovic, é bom que se diga, foi o melhor tenista do começo ao fim do ATP Finals. Venceu sempre com folga e, até quando perdeu um set – na semifinal diante de Kei Nishikori -, faturou os outros dois sem problemas (6/1 e 6/0). Federer, por sua vez, fez uma estupenda fase de grupos, mas aceitou jogar com as porcentagens diante da agressividade de Wawrinka na semi. Diante de tantas bolas profundas, o número 2 do mundo fez a arriscada aposta de agredir menos – inclusive diante do segundo saque do adversário (que terminou com menos de 40% de aproveitamento de primeiro serviço) – e contar com as falhas do oponente. No fim, a estratégia deu certo, mas só porque Wawrinka cometeu erros bobos nos match points.

No domingo, contudo, Federer disse que começou a sentir dores nas costas durante o tie-break final do sábado. Explicou que tentou tratamento, mas nada lhe colocou em condições de competir com Djokovic. O suíço disse que provavelmente estará bem dentro de alguns dias e é de se imaginar que a final da Copa Davis tenha pesado um bocado na opção por não jogar a final em Londres. Dentro de cinco dias, Federer precisará estar em forma na França – e pronto para a possibilidade de ficar em quadra por cinco sets – em busca de um dos poucos títulos inéditos em seu currículo. Restou a Djokovic, um merecido campeão, levantar a taça com o sorriso amarelo da foto acima.

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Se algo valeu a pena neste ATP Finals, foi a chave de duplas. Com jogos de altíssimo nível, ralis na rede e no fundo de quadra, tie-breaks e match tie-breaks cheios de variações, a modalidade mostrou seu valor mais uma vez. Bob e Mike Bryan, mais uma vez, ficaram com o título. Marcelo Melo, que sempre merece mais reconhecimento do que recebe, foi vice ao lado de Ivan Dodig – e, tirando um par de duplas faltas no segundo set, foi uma final irretocável do mineiro. Enquanto isso, Bruno Soares e Alexander Peya foram eliminados após uma derrota diante dos mesmos Bryans na fase de grupos.

O sucesso do torneio de duplas não deixa de ser um gentil tapa na cara da ATP, que fracassa intencionalmente na tarefa de divulgar decentemente a modalidade. A entidade faz esforço perto de zero para transmitir partidas, não disponibiliza sinal de jogos sequer via internet e vende um pacote separado para os canais que se mostram dispostos a exibir. Mas não é só isso: enquanto é possível ver inúmeros jogos de duplas em torneios da série Challenger, há finais de ATPs 500 e Masters 1.000 sem transmissão – o que beira o inacreditável.

O excelente nível mostrado pelas duplas vai fazer a ATP rever sua postura e divulgar melhor a modalidade? Duvido muito. Vejam abaixo esse diálogo entre André Sá, integrante do conselho de jogadores da entidade, e o britânico Jamie Murray, irmão de Andy e duplista de ofício. O escocês reclama que todos jogos de simples são televisionados, mas as câmeras são desligadas assim que um jogo de duplas está prestes a começar na quadra central. O mineiro rebate, explicando que não há intenção da ATP de investir dinheiro algum na modalidade.

Coisas que eu acho que acho:

- Com a desistência, Federer ficou bem longe do número 1 do mundo. Djokovic agora soma 11.510 pontos, contra 9.700 de Federer, que ainda pode somar na Copa Davis. Ainda assim, o suíço tem mais a defender até o fim do Australian Open, o que dá alguma folga extra ao sérvio.

- A lesão e a consequente desistência de Federer (que não derrota Djokovic em uma final desde 2012) são mais uma prova de que qualquer tenista pode cair machucado na pior das horas. Sempre vale a pena pensar duas vezes antes de duvidar de um atleta que se queixa de dores – especialmente em uma decisão.

- O top 10 da temporada termina nesta ordem: Djokovic, Federer, Nadal, Wawrinka, Nishikori, Murray, Berdych, Raonic, Cilic e Ferrer.


Um inquestionável número 1
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Alexandre Cossenza

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Foi uma brilhante tentativa de Roger Federer. Vendo a liderança ao alcance, o suíço venceu Xangai, foi campeão de novo na Basileia e animou o fim de ano da ATP. O veterano, no entanto, não conseguirá terminar a temporada como número 1 do mundo. Ao derrotar Tomas Berdych por 6/2 e 6/2, nesta sexta-feira, Novak Djokovic somou os 600 pontos que precisava no ATP Finals e assegurou sua permanência no topo da lista até o começo de 2015.

Não foi a mais espetacular das temporadas do sérvio de 27 anos. Não, pelo menos, para o padrão que nos acostumamos a ver de Nole desde o ano fantástico de 2011. Em 2014, Djokovic “só” venceu um Grand Slam. Perdeu nas quartas de modo estranhíssimo na Austrália, jogou muito abaixo de seu normal na decisão de Roland Garros e, fisicamente mal, foi derrotado por Kei Nishikori nas semifinais em Nova York. Seu momento alto do ano foi o título de Wimbledon, conquistado em uma dramática final de cinco sets em cima de Roger Federer.

Ainda que não tenha brilhado tanto (repito: para seus padrões altíssimos) nos quatro principais torneios, Nole fez uma belíssima temporada. Ganhou quatro Masters 1.000 (derrotando Federer, Nadal duas vezes e Raonic nas finais) e um ATP 500. Assumiu a liderança do ranking depois de Wimbledon e não largou mais. E tudo isso, sempre gosto de sublinhar, num 2014 marcado por festas. Teve despedida de solteiro, casamento, nascimento do filho… Não é a mais fácil das tarefas manter o foco e o nível do tênis lá no alto enquanto tudo isso acontece.

Ressalto o ano repleto de “distrações”, mas os méritos de Nole são tão mentais quanto técnicos. Seu tênis não tem buracos nem pontos fracos. Dos saques precisos às ótimas subidas à rede, Djokovic domina os adversários na maioria dos aspectos. Seus golpes de base têm profundidade com consistência sem igual no circuito; sua velocidade lhe faz alcançar ataques dos mais potentes; sua flexibilidade lhe permite estar quase sempre na posição perfeita para contragolpear; suas curtas quebram o ritmo quando o rival se acomoda atrás da linha de fundo; e este parágrafo já está tão longo quanto a resistência física.

O fim de ano não poderia ser muito melhor. Ainda há talvez duas partidas a fazer no ATP Finals, mas o rendimento desde Paris, após tornar-se pai, é fantástico. Ainda mais porque precisava lidar com a pressão extra da ameaça de Federer. Djokovic, então, ganhou o Masters francês sem perder sets e numa chave fortíssima: Kohlschreiber, Monfils, Murray, Nishikori e Raonic. Em Londres, não vem sendo muito diferente. Já derrubou Cilic, Wawrinka e Berdych. E perdeu apenas nove games. É assustador. O número 1 não poderia estar em melhores mãos.

Coisas que eu acho que acho:

- O ATP Finals, até agora, foi uma enorme decepção. E não só porque houve apenas uma partida de três sets. Nomes que brilharam durante a temporada inteira chegaram a Londres mostrando um nível de tênis baixíssimo. Cilic e Raonic foram os melhores exemplos. Andy Murray, que vinha jogando um belo tênis e fez ótimos resultados para conseguir a vaga no torneio, terminou sua participação com um humilhante 6/0 e 6/1 diante de Federer (que nem foi espetacular na partida).


Simplificando as contas
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Alexandre Cossenza

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A chave era a pior possível. Na estreia, Philipp Kohlschreiber, 24º do ranking. Nas oitavas, Gael Monfils, tenista da casa e embalado por duas ótimas apresentações. Nas quartas, Andy Murray, campeão de três dos últimos cinco torneios que disputou e invicto há 11 jogos. Nas semifinais, Kei Nishikori, vice-campeão do US Open e campeão de dois dos três torneios anteriores. Na final, Milos Raonic, que disparou 84 aces na semana e deixou Federer e Berdych pelo caminho. Novak Djokovic, o cidadão que teve de enfrentar esse povo todo, mal suou no Masters 1.000 de Paris. Sólido do começo ao fim, venceu todos jogos sem perder sets e completou sua semana quase impecável com um inapelável 6/2 e 6/3 na decisão.

Sem drama e, é bem verdade, quase sem graça. Mas foi assim a superioridade de Novak Djokovic logo depois de ser pai e, claro, logo em uma semana tão importante na briga pela liderança do ranking. Como Roger Federer deixou bem claro que estava brigando pelo topo, os pontos de Paris foram importantíssimos e deram ao sérvio uma boa folga. Agora, com apenas o ATP Finals e a Copa Davis em jogo, Djokovic lidera o ranking com 10.010 pontos, contra 8.700 de Federer – uma diferença de 1.310 pontos.

Para o suíço, ainda há 1.500 pontos em jogo durante o ATP Finals e mais 225 na final da Copa Davis, em solo francês. Para somar isso tudo, porém, o atual número 2 precisaria conquistar Londres de forma invicta e ainda vencer seus dois jogos de simples (é obrigatório que o segundo jogo de simples seja válido, ou seja, com o confronto ainda aberto) e contar com um título suíço na Davis. Se tudo isso acontecer, Federer chegará a 10.425 pontos.

Djokovic, que só depende de seus resultados para terminar 2014 no topo da lista, tem uma conta simples: vencer três jogos no ATP Finals – na fase de grupos ou mesmo depois. Com três triunfos em Londres, o sérvio alcançaria, na pior das hipóteses, 10.460 pontos (considerando que ele perderá 150 somados na final da Copa Davis do ano passado).

Simples? Nem tanto. Ainda assim, tudo leva a crer que Djokovic completará mais uma temporada como o melhor do mundo. Do início ao fim de 2014, mesmo com pausas para as festas de despedida de solteiro, o casamento e o nascimento de seu primeiro filho, Nole foi o mais consistente.

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Coisas que eu acho que acho:

- Essa discussão teria sido arquivada há muito tempo não fossem os dois centímetros que impediram uma vitória de Leo Mayer em Xangai. De lá para cá, Federer conseguiu uma bela sequência, nem sempre jogando bem, mas vencendo quase todas partidas apertadas. Parou em Raonic. Será que o suíço consegue mais mágica? O suficiente para voltar a liderar o ranking ainda em 2014? Não parece lá muito provável…

- Minha parte preferida de ver Djokovic como número 1 do mundo é não precisar entrar na discussão sobre o mérito de um número 1 do mundo sem um título de Grand slam na conta. Seria o caso de Federer, que não conquista um torneio deste porte desde 2012 e, em 2014, comeu pelas beiradas. Venceu dois Masters 1.000, dois ATPs 500 e um 250. Sua campanha em Grand Slams, contudo, somou “apenas” (coitado, né?) a semifinal na Austrália, as oitavas em Roland Garros, o vice em Wimbledon e outra semi em Nova York.

- Alguns fórums e “comunidades'' especulam sobre a possibilidade de os pontos da Copa Davis não serem levados em conta para o ranking de fim de ano de 2014. Bobagem. Eles entram na conta desta temporada, sim. Desta forma, é possível que o troféu de número 1 de 2014 não seja entregue em Londres, como de costume.


Bernardes, Fognini e o vácuo
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Alexandre Cossenza

Taí algo que não se vê todo dia: um árbitro de cadeira se recusando a cumprimentar um tenista após a partida. Pois aconteceu nesta quarta-feira, no Masters 1.000 de Paris, e envolveu o brasileiro Carlos Bernardes e o conhecido encrenqueiro Fabio Fognini. Antes mesmo do fim da partida, o italiano já vinha reclamando do árbitro. Logo após o match point, derrotado pelo qualifier francês Lucas Pouille (176 do mundo), Fognini seguiu se queixando e, ao estender a mão para Bernardes que, de cara, não correspondeu – em outras palavras, deixou o cidadão no vácuo, com o braço esticado. Só depois de Fognini pedir desculpas é que o brasileiro concordou com o cumprimento.

Mesmo depois do aperto de mãos, o italiano seguiu reclamando de um suposto erro do árbitro quando o placar mostrava 7/7 e argumentando que era uma falha enorme. Fognini ainda afirmou que errou ao ofender do mesmo jeito que o brasileiro errou na partida. Bernerdes retrucou, dizendo “não é a mesma coisa”, e os dois deixaram a quadra juntos, ainda discutindo.


Tudo acontece por um motivo
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Alexandre Cossenza

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“Vou contar a história mais interessante da minha vida. Alguns podem dizer que fui burro. Outros podem me chamar de guerreiro. Aconteceu em agosto de 2012, só um mês depois de eu entrar no top 100 pela primeira vez e depois das minhas merecidas férias. Eu subi no ranking até o número 83, mas uma semana depois do corte para a chave do US Open, então tive que jogar o quali. Ainda lembro como se fosse ontem. A chave foi sorteada no dia dos primeiros jogos. Eu jogaria contra Ze Zhang, da China. Jogamos na hora do almoço, então não dava para comer muito logo depois do café da manhã. Enquanto andava para a quadra, senti uma pequena dor no estômago. Claro que me culpei por não comer o suficiente antes da partida. Ganhei fácil em dois sets e esqueci daquela dorzinha.

Fui comer, estava feliz e satisfeito com o dia de escritório. Depois do almoço, voltamos para o hotel e descansamos por algumas horas. Não estava cansado. Meu corpo estava relaxado. Como em todas as noites, decidimos ir a um restaurante para jantar. Foi uma boa refeição e era um longa caminhada de volta até o hotel. Senti a dor de novo no estômago, desta vez do lado direito e, por sorte, havia muitos sinais de trânsito, então conseguia ficar parado na única posição em que me sentia confortável – curvado para a frente, com as mãos apoiadas nos joelhos. Eu diria que foram dez sinais de trânsito, e parecia que estávamos andando há uma eternidade. A primeira coisa que pensei foi no que tinha comido para causar aquela dor. Não consegui lembrar de nada diferente em relação aos dias anteriores. Finalmente chegamos ao hotel. Fui direto ao banheiro e, infelizmente para mim, embora eu tenha visitado o banheiro algumas vezes antes de ir dormir, nada mudou. Meu estômago ainda estava doendo.

Dormi muito bem, mas só conseguia virar para um lado porque o outro doía muito. Acordei, e a dor ainda estava lá. De novo, o banheiro me chamava. Foram quatro vezes antes de eu me convencer de que algo estava errado e eu talvez devesse ir a um médico. Mas antes disso, como tenista, eu tinha que treinar. Depois de bater bola, fui ver um médico. Ele me perguntou onde era a dor, me examinou imediatamente e disse o que poderia estar errado comigo. Mas eu não ouvi. Ele sugeriu que eu não jogasse a partida daquele dia, mas era um Grand Slam, o US Open, e eu gentilmente pedi que ele me desse analgésicos. Ele me deu quatro comprimidos brancos e grandes, que tomei antes da partida, e me acompanhou até a quadra. Ele disse que assistiria ao jogo inteiro. Então ele ficou lá, sentado e, infelizmente para ele, foi uma partida longa.

Eu enfrentei um wild card americano chamado Daniel Kosakowski. Ele venceu o primeiro set, eu ganhei o segundo e comecei o terceiro com uma quebra. Tive cãibra na perna direita, então sabia que não aguentaria jogar do mesmo jeito até o fim. Além disso, comecei a sentir o estômago outra vez. Peguei leve durante alguns games e imediatamente perdi o saque duas vezes. Eventualmente, chamei o médico na quadra. Recebi mais alguns comprimidos. Eu me sentia muito mal, mas aquilo não me impediu de voltar e empatar em 4/4. Meu adversário estava sacando, e eu tive um break point. Fiz um forehand vencedor bem na linha, mas a bola foi chamada fora. Eu deveria estar sacando para o jogo, mas perdi aquele game e tive que sacar para continuar na partida.

Eu não estava nervoso, o que não era normal para mim num ponto como aquele. Eu tinha outros problemas. Embora quisesse vencer aquele jogo, também queria terminar inteiro. No game seguinte saquei bem, 5/5. No primeiro ponto do 11º game, cãibras nas pernas e nos braços. Eu me sentia fraco, mas disposto a lutar até o fim. Nós dois confirmamos os saques e fomos ao tie-break decisivo. Jogamos alguns ralis muito longos, e o primeiro a ter uma chance de fechar o jogo fui eu. Estava ganhando por 6/5, match point. Nunca esquecerei aquele ponto. Um longo rali, o adversário manda uma bola longa, e eu devolvo, achando que o jogo acabou, mas ninguém marca bola fora. Como se não pudesse piorar, tive cãibra no dedo médio. Perco o ponto, mas, novamente, fico surpreendentemente quieto. Continuo como se nada tivesse acontecido, mas na minha cabeça uns palavrões já eram pronunciados. Estou xingando, não tanto contra os juízes, mas por causada dor no estômago e no corpo inteiro. Eu salvei o primeiro match point, mas, no segundo, não consegui. Perdi. Ouço a torcida indo à loucura.

Se algo assim tivesse acontecido antes, eu teria argumentado com o árbitro e dito que não podiam roubar a partida de mim daquela maneira. Eu só queria sair da quadra, então desejei o melhor a Daniel na rodada seguinte. Fui para o vestiário o mais rápido possível, e meu técnico pediu um carro para me levar ao hospital. Chegamos lá bem rápido, fizeram uma ressonância, me deram morfina, e me senti ótimo de novo. O médico veio e perguntou se eu sentia alguma dor. Eu disse que me sentia bem e perguntei se podia ir para casa. Ele disse que eu tive sorte de meu apêndice ainda não ter supurado, mas que faltava pouco para aquilo acontecer, então eles precisavam me operar.

Como eu disse, tudo acontece por um motivo. Acho que algo mais forte lá em cima não me deixou vencer aquela partida. Eu dei tudo, mas não foi o suficiente. Eu me conheço e se tivesse vencido, não haveria maneira de eu voltar ao hospital naquele dia. Minha terceira rodada seria no dia seguinte, mas provavelmente meu apêndice teria supurado e seria tarde demais para mim. Desde então, sei que tudo acontece por um motivo.''

O texto acima, reproduzido na íntegra em tradução livre, foi publicado algum tempo atrás pelo esloveno Aljaz Bedene, que foi diagnosticado com apendicite em 2012, mas insistiu em voltar à quadra para continuar no qualifying do US Open daquele ano. Por sorte, ele foi derrotado naquele dia por 6/3, 3/6 e 7/6(7) e chegou a tempo à mesa de operações. Bedene voltou às quadras menos de dois meses depois. Hoje, com 25 anos, ele ocupa o 145º posto no ranking da ATP.

Rafael Nadal, que jogou dois torneios depois de diagnosticado com apendicite, decidiu não competir no Masters 1.000 de Paris nem no ATP Finals. No dia 3 de novembro, ele passará por uma cirurgia no apêndice. Não há motivo para imaginar que o espanhol, atual número 3 do mundo, ficará fora dos primeiros torneios de 2015. Nadal, inclusive, já acertou participações no ATP 250 de Buenos Aires e no ATP 500 do Rio de Janeiro.


Murray, Robredo e o jogo do ano
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Alexandre Cossenza

Novak Djokovic e Rafael Nadal, exaustos, agachados ao fim de quase seis horas de jogo. Serena Williams ameaçando uma juíza de linha. As lágrimas de Roger Federer ao perder uma final na Rod Laver. O discurso de aposentadoria de Andre Agassi no Arthur Ashe. O coração desenhado por Guga no saibro da Philippe Chatrier. Os dedos médios de Tommy Robredo em Valência. Simples assim.

Foi “só” uma final de ATP 500, mas talvez tenha sido “a” final masculina de 2014 – um ano atípico, sem decisões espetaculares nos Grand Slams e nos Masters 1.000. E foi um jogaço. Pelo pelo roteiro, que teve suas primeiras linhas escritas em Shenzhen, um mês atrás, pelo nível do tênis e pelo drama do cansaço e dos match points salvos pelos dois tenistas. Tudo isso, claro, multiplicou-se com as demonstrações de respeito e admiração ao fim do encontro.

Só assisti à partida mais tarde, no fim do domingo, quando já sabia do resultado. Mesmo assim, não consegui ver aquilo tudo sem me envolver com a partida. Imagino, então, as reações de quem viu a história se desenvolvendo ao longo do jogo. Desde o set inicial, quando Murray já parecia esgotado, até os últimos games da terceira parcial, com Robredo salvando um match point antes do tie-break, passando pelas cãibras e até pela bolinha caindo do bolso de espanhol.

E, depois disso tudo, ainda houve um tie-break memorável, com três match points salvos por Andy Murray. Até aquele ponto que está no vídeo, lá no alto do post. Não, senhores, 2014 não viu um jogo melhor que este. Ainda não. E a cena com Robredo, apoiado na rede e dirigindo os dois dedos médios ao britânico, no que provou ser uma das mais sinceras e simpáticas demonstrações de fair play, será lembrada para sempre.

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O típico e atípico título de Serena Williams
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Alexandre Cossenza

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Não foi a temporada dos sonhos de Serena Williams. Longe disso. Tudo bem que a americana conquistou seus títulos nos WTAs, que não foram poucos (Brisbane, Miami, Roma, Stanford e Cincinnati). Mas ela perdeu nas oitavas no Australian Open, na segunda rodada em Roland Garros e na terceira em Wimbledon. Para os padrões de Serena Williams, já era um ano abaixo das expectativas.

Veio, então, o US Open – o último Grand Slam do ano, em casa. Enfim, uma atuação padrão Serena. Foram 14 sets disputados e 14 vencidos. A número 1 do mundo não perdeu mais do que três games por set. E, ainda que tenha encontrado um caminho fácil (não encarou nenhuma top 10), foi absoluta na decisão contra Caroline Wozniacki, uma ex-número 1 que voltava a jogar um bom tênis, apesar de figurar no 11º posto no começo do torneio nova-iorquino.

Quando chegou a Cingapura, novo palco do recém-renomeado WTA Finals (sim, a WTA precisou copiar a ATP porque Championships, com o “s” no fim, era difícil de explicar e de fazer “pegar”), Serena ainda corria o risco de perder a liderança do ranking. O cenário se descomplicou quando Maria Sharapova perdeu seus dois primeiros jogos na fase de grupos, mas não ficou tão agradável assim quando a americana levou um doído 6/0 e 6/2 da romena Simona Halep. Uma atuação abaixo da crítica, reforçada pela solidez da adversária.

No fim das contas, o WTA não deixou de ser um reflexo do resto de 2014 para Serena Williams. Irreconhecível num dia, foi cirúrgica no outro, quando fez 6/1 e 6/1 sobre Eugenie Bouchard. Ainda assim, precisou da ajuda de Halep, que tirou um set de Ana Ivanovic e pôs a número 1 nas semifinais, armando o melhor jogo do torneio: Serena x Wozniacki. A dinamarquesa, invicta até então, fazia um belíssimo torneio e esteve perto, muito perto, de triunfar.

Primeiro, Caroline Wozniacki sacou para o jogo com 5/4 no terceiro set. Mais tarde, abriu 4/1 no tie-break. Sacou os dois pontos, mas perdeu ambos. Nos dois, Serena mandou bolas que tocaram na fita. A número 1 venceu o tie-break por 8/6 e, na final, atropelou Halep: 6/3 e 6/0. Um final típico para uma tenista que, se não foi dominante e consistente como em outros anos, ainda é, em um dia normal, a melhor tenista do mundo. Com folgas.

Coisas que eu acho que acho:

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- Doeu ver Caroline Wozniacki não conseguindo aproveitar a rara chance que teve de derrotar Serena. Esteve tão perto, faltou tão pouco… Principalmente em uma belíssima semana da dinamarquesa, que vinha de vitórias sobre Sharapova (que jogo!), Kvitova e Radwanska. Se serve de consolo, foi ótimo vê-la apresentar um nível de tênis que ela é capaz de repetir com frequência.

- Sempre repito: não é um estilo bonito, não é agressivo, não chama atenção, mas o tênis de Wozniacki, acima de tudo, é inteligente. Citei isso no Twitter no dia do jogo e reforço agora. Quem viu a partida contra Sharapova pôde constatar como a dinamarquesa, além de se defender maravilhosa e irritantemente bem, induz a adversária a sempre executar os golpes mais difíceis. A russa precisaria jogar um tênis espetacular para vencer. Não aconteceu.

 


Tenista atira raquete e acerta juíza
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Alexandre Cossenza

Aconteceu nesta segunda-feira, no Challenger de Charlottesville, um torneio com premiação de US$ 50 mil, nos Estados Unidos. O jovem Darian King, de 22 anos, natural de Barbados, perdia seu jogo de primeira rodada quando, irritado após um ponto, decide atirar a raquete na lona do fundo de quadra. A raquete bate na lona e volta nas costas da juíza de linha, que vai ao chão. Olha o vídeo!

King foi desclassificado no ato pela juíza de cadeira. O britânico Edward Corrie avançou à segunda rodada por “default”, nome dado quando um tenista é, digamos, expulso da quadra. O placar era 6/4 e 6/6(5/2).

O vídeo foi postado no YouTube pela Aliny Calejon, que toca o site Match Tie-break, especializado em duplas. Aproveitem a ocasião, cliquem no link e passem lá. Hoje mesmo ela escreveu um post interessantíssimo sobre os cenários na briga pelas quatro vagas restantes para o ATP Finals.

Em tempo, falta tempo

Por uma série de compromissos nos últimos dias, não pude atualizar o post como devia. Mas vêm por aí, ainda que com atraso, um texto sobre o WTA Finals e mais um sobre Murray e Federer, os campeões de Valencia e Basileia, ok?


Aprendendo o caminho
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Alexandre Cossenza

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Por três anos, Thomaz Bellucci iniciou o trecho asiático do circuito mundial entrando de cara em um ATP 500. Em todos (Pequim em 2010 e 2011 e Tóquio em 2012), perdeu na estreia. E não teve muito sucesso no evento seguinte, o Masters 1.000 de Xangai. Nas três participações, venceu um jogo só. O ano mais duro foi 2011, quando deixou o evento chinês e rumou para a Basileia e, de lá, para o Masters de Paris. Não venceu nenhum jogo e, se somou alguma coisa naquele pós-US Open, foi graças ao convite para o Challenger Finals, onde ganhou 30 pontinhos. Não, o pós-US Open, jogado quase todo indoor e em quadras rápidas, não costuma ser o melhor momento do número 1 do Brasil.

Chegamos, então, a 2014. Com um ranking que não lhe permitia entrar nem nos ATPs 250, Bellucci mudou a programação. Nem tentou os qualis. Foi direto aos Challengers. De cara, fez uma final em Orleans, onde ganhou ritmo, derrotou dois top 100 (Sijsling e Mathieu) e foi vice-campeão. Depois, caiu na segunda rodada em Mons e na estreia em Rennes – derrotado pelo mesmo Marsel Ilhan nos dois eventos. Mas a sorte sorriu, e o paulista contou com desistências e entrou na chave do ATP 250 de Viena. Derrotou Mathieu mais uma vez, passou pelo espanhol Feliciano López (14 do mundo) e foi derrotado por Viktor Troicki nas quartas.

Só então, depois de quatro torneios em quadras cobertas e rápidas, é que Bellucci se aventurou em um ATP 500. Em Valência, jogou o quali e passou. Fez um jogo impecável e bateu Mikhail Youzhny (atual campeão) na primeira rodada. Depois, mais uma pitada de sorte: ganhou por WO de Roberto Bautista Agut, aquele mesmo que saiu derrotado na Copa Davis, no Ibirapuera. E assim, nas quartas de final de um ATP 500, Bellucci já consegue um número significativo: com os 220 pontos somados até agora (e nem coloquei na conta os pontos do quali de Valência), faz o melhor pós-US Open de sua carreira. Mesmo que perca nas quartas de final. Mesmo que encerre a temporada em Valência e não dispute o qualifying do Masters 1.000 de Paris, como ainda pretende.

Não, Bellucci não é um tenista espetacular em quadras duras e cobertas. E montar um calendário para este período do ano não é tarefa simples, já que o número 1 do Brasil sempre joga a Copa Davis, realizada logo depois do US Open e uma semana antes dos primeiros ATPs 250 na Ásia. A opção sempre foi a de descansar depois da Davis, mas era um caminho que exigia voltar a um piso nada favorável logo em torneios fortes. Nunca deu certo. Nem em 2011, quando a Davis foi na Rússia, em condições parecidas. A adaptação não é fácil, e as derrotas precoces acabam com qualquer esperança de adquirir ritmo. Em relação à maioria dos tenistas, Bellucci sempre chega “atrasado” ao circuito indoor. E paga o preço.

O caminho mais simples, ainda que parcialmente forçado, mostrou-se interessante. Após encerrar o US Open como número 83 do mundo, já tem praticamente garantida sua volta ao top 50 na próxima semana.

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Coisas que eu acho que acho:

- Bellucci terá 155 pontos descontados até o fim do ano. São 80 por um título no Challenger de Montevidéu e 75 por um vice em Bogotá. Ainda assim, mesmo que encerre a temporada após Valência, o número 1 do Brasil deve terminar 2014 entre os 70 melhores do mundo. No fim de 2013, Bellucci era o número 125.

- Roberto Bautista Agut vinha se queixando de dores. Durante a semana, disse à imprensa espanhola que o corpo estava pagando o preço por um calendário cheio – e muito jogos (ninguém chega ao top 15 com pouco tempo de quadra). Ainda assim, é de se imaginar o quanto a derrota na Copa Davis (e o quanto a Davis tornou-se tema sensível na Espanha!) pesou na decisão de Bautista Agut por não entrar em quadra nesta quinta-feira.

- Bellucci teve sorte de conseguir a vaga na chave em Viena e, depois, com a desistência de Bautista Agut. Sim, mas nem tanto. Primeiro porque não era nada improvável que o brasileiro conseguisse um lugar na chave em Moscou ou Viena. Nas semanas com três torneios (ainda havia Estocolmo), muita gente se inscreve em mais de um, e acaba sobrando vaga aqui e ali. E depois porque Bautista Agut não é nada, nada imbatível, certo?

- Mesmo com um calendário mais modesto, Bellucci teve dois resultados abaixo da expectativa: as duas derrotas para Ilhan, em Mons e Rennes. Ainda assim, supera a marca pessoal de número de pontos nesta época do ano. Imaginem quando (e se!) o paulista conseguir uma sequência de resultados consistentes…

- Para quem gosta de números e ficou curioso: desde 2009, quando passou a jogar os grandes torneios, Bellucci somou no pós-US Open 170 pontos em 2009, 150 em 2010, 50 em 2011, 205 em 2012 e 155 em 2013.