Saque e Voleio

Um escândalo de plágios em Wimbledon
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Djokovic_W_coletiva_blog

O maior assunto da semana no tênis não foi (por enquanto) um jogão em Atlanta, Umag ou Gstaad, mas um escândalo fora das quadras. O tradicionalíssimo All England Cub, sede to Torneio de Wimbledon, descobriu que os livros anuais dos torneios (conhecidos como Official Wimbledon Annual) estavam repletos de trechos copiados integralmente de reportagens, colunas, blogs e sabe-se lá mais o quê. Sim, o grande resumo anual de Wimbledon vinha, há alguns anos, roubando material de jornalistas e blogueiros profissionais.

O autor dessa patifaria é o (até então) respeitado inglês Neil Harman, jornalista do Times, ex-presidente da International Tennis Writers Association e co-autor de um livro publicado com Andy Murray. A história de plágio foi relatada extensamente pelo jornalista Ben Rothenberg no Slate (leia tudo aqui).

Em três publicações analisadas por Rothenberg, que revisitou os livros oficiais de Wimbledon para as edições 2011, 2012 e 2013, o jornalista americano encontrou 52 trechos plagiados. Cinquenta e dois! E Harman era responsável pelo livro do Grand Slam britânico desde 2004. Imaginem só…

As desculpas de Harman beiram um livro de ficção – ou um depoimento de político em CPI, como queiram. “Pensei ter tentado, em cada vez que usei o trabalho de outra pessoa, dar o crédito que o trabalho merece”, “claramente houve momentos em que, na pressa, não sendo cuidadoso o suficiente, eu borrei as linhas entre o que é certo e errado” e “lapsos chocantes” foram algumas das palavras do jornalista inglês de 57 anos sobre o que aconteceu.

Difícil imaginar 52 trechos (alguns com três parágrafos inteiros) copiados como resultado de “lapsos”, assim como é difícil aceitar que Wimbledon, mesmo depois de saber do caso de plágio, manteve à venda o livro oficial sobre o torneio de 2013 e nada fez para retirar a credencial de Harman no torneio deste ano. Mais: o jornalista ainda foi convidado para o jantar dos campeões de Wimbledon (e tudo isso está relatado no link que já compartilhei no alto deste post).

Coisas que eu acho que acho:

- Há quem diga que a internet fez muito mal à essência e, principalmente, às finanças do jornalismo como profissão. É bem verdade que muitos veículos impressos vêm fechando as portas e que outros encontram problemas para monetizarem suas operações online, mas a essência do que é jornalismo está mais viva do que nunca. Com tanta informação disponível na internet, não dá para um jornalista aumentar e inventar notícias impunemente.

- Sempre há, por toda parte, um fã, um tuíte ou uma foto para derrubar o jornalista que tenta criar um factóide. Hoje em dia, nenhum profissional está sozinho cobrindo um evento do outro lado do mundo. Não dá mais para, sem provas, inventar que o técnico X está com os dias contados ou que o atleta Y está se tratando com a máquina Z. Logo, logo, acontece algo ou aparece alguém para mostrar o que realmente está acontecendo. O jornalismo de hoje precisa ser mais jornalismo do que nunca. E quem não se enquadra corre o risco de passar por um cenário semelhante ao que estamos vendo em Wimbledon.


Mais uma semaninha
Comentários 4

Alexandre Cossenza

O último post já tinha um recado, mas não custa lembrar. Trabalhei um bocado durante a Copa do Mundo da FIFA. Foram 39 dias hospedado em um hotel de Copacabana, envolvido da cabeça aos pés no Mundial. Foi uma experiência e tanto, ao mesmo tempo divertidíssima e cansativa. Nada a reclamar. Apenas começo assim este texto para lembrá-los do que me fez não atualizar o Saque e Voleio durante Wimbledon, um dos momentos mais importantes da temporada.

Como sempre digo, não gosto de blogar por blogar. Não foi possível ver o Grand Slam britânico, logo não faria sentido vir aqui e escrever um par de linhas vazias e redundantes. Eu poderia escrever que Petra Kvitova é uma tenista perigosíssima e não é uma surpresa vê-la levantando o troféu de Wimbledon pela segunda vez. Também poderia ter argumentado que Novak Djokovic é o tenista mais completo da atualidade e que era favorito, sim, contra Roger Federer (eu escrevi isso em Roland Garros e houve um bocado de gente reclamando). E eu poderia escrever que sempre soube que Nick Kyrgios era talentosíssimo e que, cedo ou tarde, conseguiria uma vitória de peso.

Os três pontos acima, contudo, poderiam ser escritos a qualquer momento, em qualquer torneio, sob quaisquer circunstâncias. Frases prontas que muitos esperam para publicar (não se trata de uma indireta – não li nada durante Wimbledon, logo não sei quem escreveu o quê). Não é o que gosto de fazer. Até por isso, nunca me senti na necessidade de atualizar o Saque e Voleio todos os dias. Agradeço a todos que entendem essa lógica e também aos que enviaram mensagens, tuítes e emails perguntando sobre o vazio no blog.

A estes, peço um pouquinho mais de paciência. Depois da Copa, é hora de mudança para mim. Não do blog. É mudança física, de endereço, de CEP mesmo. Quem já fez uma sabe o trabalho que dá. Eu já fiz mais de meia dúzia, então sei bem como funciona. É tempo de decidir o que fica para trás e o que vai junto para a nova casa. Tempo de empacotar num dia para desempacotar no outro, de decidir onde vai o quê. Difícil. Assim, pode demorar mais uma semaninha até que eu volte a escrever devidamente sobre tênis em vez. Melhor do que ficar enchendo o saco de vocês com posts moralistas sobre Fabio Fognini, certo? De novo, obrigado pelas mensagens e pela paciência. Até breve.


Os caminhos até o título de Wimbledon
Comentários 10

Alexandre Cossenza

> at Wimbledon on June 22, 2014 in London, England.

Doze dias bastante-agitados-e-sem-tempo-para-escrever-aqui depois, espanador e paninho multiuso na mão, cá estou para desempoeirar este cantinho da casa e tecer algumas palavras sobre a chave masculina de Wimbledon. O Grand Slam de mais prestígio é também aquele que, de quatro em quatro anos, acontece durante a competição para boa parte do planeta durante 30 dias. Como o torneio britânico só tem 13 dias de jogos, é difícil que o mundo preste a costumeira atenção na grama de Londres. Felizmente, tênis é um esporte que encontra sempre um jeito de roubar manchetes, seja com um jogo de 11 horas ou com uma quase catástrofe no primeiro jogo da Quadra Central – foi assim em 2010, lembram?

Não dá para adivinhar o que vem pela frente dessa vez, mas dá para imaginar algumas coisinhas, e é por isso que este post está aqui. É hora daquela breve análise das chaves, que foram sorteadas na sexta-feira. Quem se deu bem, quem teve azar, quais são os jogos mais legais de primeira rodada… Vamos ver, então? Vem comigo e não esquece de, no fim do post, ficar à vontade para usar a caixa de comentários e dar uma opinião, fazer uma pergunta ou levantar uma polêmica. A casa, como sempre, tem as portas abertas para a troca de ideias. Mas chega de enrolação e vamos finalmente ao que interessa…

Os sortudos

Na chave masculina, difícil contestar que Novak Djokovic e Andy Murray dividem uma chave menos complicada do que Roger Federer e Rafael Nadal, o grande azarado da história (calma, gente, eu já chego lá). Até a semi, o sérvio deve ter pela frente Golubev, Stepanek/Cuevas, Pospisil/Simon, Youzhny/Tsonga e Gulbis/Berdych. Deste grupo inteiro, apenas Youzhny, Tsonga e Berdych têm bons resultados com regularidade em Wimbledon. Considerando que russo e francês podem se enfrentar antes de de um eventual duelo com Nole e que Tsonga perdeu os últimos 11 jogos para Djokovic, parece-me um tanto razoável colocar o atual número 2 do mundo como favorito para chegar à semifinal. Dá para dizer o mesmo de Murray, que tem um caminho provavelmente com Goffin, Rola/Andujar, Bautista-Agut, Anderson/Fognini e Dimitrov/Ferrer antes de uma possível e provável semi. O campeão de Wimbledon joga com a pressão adicional de defender o título, mas teve uma forcinha dos deuses das chaves.

> at Wimbledon on June 21, 2014 in London, England.

Nadal, pelo contrário, pegou um caminho cheio de adversários perigosos – e digo perigosos na grama, que é o que importa aqui. Depois da estreia contra Martin Klizan, que em tese não deve lhe oferecer tantos problemas, o número 1 do mundo pode ter pela frente um caminho contra Paire/Rosol, Karlovic, Gasquet/Monfils e Raonic/Nishikori. Traduzindo: em cinco jogos, o espanhol pode ter de encarar quatro grandes sacadores, incluindo seu algoz em 2012, Lukas Rosol. A grande preocupação do técnico e tio Toni Nadal é a primeira semana, quando a grama ainda está novinha, e a bola quica menos. Encarar um sacador nessas condições não é tarefa das mais fáceis. Se Nadal alcançar a segunda semana, é outra história. Com a grama mais gasta e a bola quicando mais, seu jogo ganha em eficiência. E, lembrem-se: falamos de um cidadão que jogou cinco finais consecutivas em Wimbledon (2006-08 e 2010-11, sem atuar em 2009).

Federer é um caso à parte. O suíço enfrentaria, em tese, Nadal nas semifinais. Antes, contudo, pode pegar a sequência Lorenzi, Benneteau/Muller, Granollers, Roberdo/Janowicz e Wawrinka/Isner. Ao olhar a chave antes do torneio, dá para notar obstáculos traiçoeiros no caminho. Resta saber como as coisas vão desenvolver com o andar dos jogos. De qualquer modo, o suíço parece animado e, mais importante ainda, consciente de que o torneio britânico é onde ele mais tem chances de levantar um troféu de Grand Slam neste momento de sua carreira. Não existe motivação muito maior do que essa para um atleta.

Jogos de primeira rodada que eu quero, mas provavelmente não vou ver

- Murray x Goffin. Jogo que abre o torneio com Andy Murray na Quadra Central pela primeira vez como campeão de Wimbledon. A vibração do público será outra, e Goffin é um adversário de respeito. Pode ser um belo jogo e um ótimo teste para o tenista da casa.

- Dimitrov x Harrison. Com os bons saques de Harrison, que vem do qualifying, há um pequeno potencial de zebra nessa partida. O búlgaro, cabeça 11 e logicamente favorito, foi campeão em Queen’s na semana passada, mas vem de uma derrota na primeira rodada em Roland Garros. Será que, no caso de um jogo difícil, virá à mente o medo de somar dois resultados ruins em Slams consecutivos?

- Baghatis x Brown. Dois tenistas talentosos e imprevisíveis. Tudo pode acontecer, inclusive o alemão devolvendo saque segurando a raquete por trás das costas – o que ele fez em Munique contra o mesmo Baghdatis e venceu o jogo!

> at Wimbledon on June 21, 2014 in London, England.

Jogos que vão dar sono, mas que o SporTV vai transmitir assim mesmo

- Ferrer x Carreno Busta. Nunca é empolgante ver dois jogadores que adoram o fundo de quadra se enfrentando na grama. O mesmo vale para uma meia dúzia de outros duelos de primeira rodada.
- Federer x Lorenzi. Passeio.
- Djokovic x Golubev. Passeio.

Quem pode surpreender

Na parte de cima da chave, dá para imaginar Marin Cilic ganhando ritmo e fazendo um jogo duro com Tomas Berdych na terceira rodada. O croata, que derrotou o tcheco em seu último duelo na grama, não é tão azarão assim.

Na metade inferior, vale ficar de olho em um possível confronto entre Feliciano López e John Isner na terceira rodada. O espanhol vem de um vice em Queen’s e está em bom momento. Um triunfo significa, em tese, um confronto nas oitavas com Stanislas Wawrinka, que venceu apenas um jogo nas últimas quatro edições de Wimbledon. Quem será que avança deste quadrante, hein?

Há sempre a possibilidade de Nadal entrar descalibrado e despedir-se cedo, como aconteceu em 2012 e 2013. Se isto acontecer mais uma vez, o último quadrante fica aberto e imprevisível. Raonic, Gasquet, Monfils e Nishikori estão todos ali.

Gulbia_Boodles_get_blog

Nas casas de apostas

Assim como em Roland Garros, Novak Djokovic é o mais cotado para levar um título. Caso o sérvio seja campeão, a casa bet365 paga 2,75 para cada dólar apostado. Murray vem logo atrás, pagando 4.50, enquanto Nadal paga 5,50. Federer é o quarto, com 6,50 de cotação. O top 10 inclui Dimitrov (21,00), Wawrinka (23,00), Berdych (41,00), Raonic (51,00), Tsonga (51,00) e Gulbis (51,00).

Um aviso

Como muitos de vocês já sabem, venho trabalhando na Copa do Mundo (é preciso pagar contas, gente) e, por isso, não terei como ver boa parte de Wimbledon este ano. Logo, não blogarei com a frequência que gosto de fazer. Escreverei quando puder e, claro, tiver algo de útil a dividir com vocês. Agradeço a compreensão.


Roland Garros em 32 drop shots
Comentários 9

Alexandre Cossenza

Sharapova_RG_trophy_reu2_blog

A temporada de grama já começou, mas ainda vale a pena lembrar um pouco do que aconteceu no Grand Slam do saibro. Afinal, muito do que vai rolar nas próximas semanas será consequência direta ou indireta do que vimos em Roland Garros. Assim sendo, as já tradicionais curtinhas estão de volta aqui no blog. Leiam tudinho, do começo ao fim, e deixem suas opiniões na caixinha!

1. Roland Garros conseguiu terminar duas semanas quase sem polêmicas. Houve, sim, alguma reclamação (mais para chororô) quanto a escalação de Rafael Nadal na Quadra Suzanne Lenglen em duas rodadas, mas nada grave. Teria sido grave se Andy Murray tivesse sido eliminado por Gael Monfils. O britânico, que vencia por 2 sets a 0 e perdeu as duas parciais seguintes, teve de ouvir da organização que o jogo continuaria, mesmo sem condições ideais de iluminação. No fim, depois que Murray triunfou, foi Monfils quem deixou a quadra reclamando.

2. Há quem levante a bandeira da modernidade e peça a instalação de holofotes nas quadras de Roland Garros. Há quem prefira a manutenção de costumes como o velho “tem jogo enquanto há luz natural”. É um bom debate. Estou longe de ser um defensor do torneio francês (um evento que já perdeu um pedido de credencial meu), mas tendo a preferir o modelo atual do torneio francês.

3. Quase me esqueço. Fernando Verdasco saiu se queixando da velocidade da Quadra Suzanne Lenglen. Disse que parecia outro piso. Disse o cidadão que deitou-se no chão e comemorou como um título de Grand Slam uma vitória sobre Rafael Nadal no saibro azul! Ironias da vida…

4. Não há como não ficar feliz com a campanha de Andrea Petkovic, que chegou às semifinais de um Grand Slam pela primeira vez na carreira. Depois de tudo que a moça passou pra voltar a jogar tênis em alto nível, é uma justa recompensa para a alemã que está de volta ao top 20.

 

5. O mesmo vale para Taylor Townsend, que dispensou a ajuda da USTA, conquistou na marra um convite para Roland Garros e ganhou dois jogos logo em sua primeira participação em um Slam. Fiquemos de olho na moça.

6. A decepção da chave feminina, claro, foi Serena Williams. A americana teve uma atuação desastrosa e nem deu a Garbiñe Muguruza uma chance de amarelar. Venceu por 6/2 e 6/2. E a espanhola fez um belo torneio.

7. O grande sortudo das duas semanas foi o sérvio Dusan Lajovic. Sua seção da chave tinha Nicolás Almagro e Tommy Haas, e os dois abandonaram na primeira rodada. Assim, Lajovic chegou às oitavas ao derrotar Delbonis, Zopp e Sock.

8. Nesta trapalhada da árbitra que prejudicou Daniela Hantuchova, quem saiu com o filme queimado da história foi Angelique Kerber, que fez a egípicia e não falou que a adversária tinha razão na polêmica.

9. O momento “vergonha alheia” do torneio francês fica por conta deste jornalista, que deu os parabéns a Nicolas Mahut, que havia acabado de ser eliminado de Roland Garros. Vocês acham que o tenista ficou feliz? Então olhem aqui como foi (vídeo legendado).

Petkovic_RG_qf_get2_blog

10. Por outro lado, Roland Garros também viu um dos gestos mais simpáticos já vistos em uma partida oficial. Durante uma pausa por chuva, Novak Djokovic chamou um boleiro para sentar-se, puxou papo e brindou com o garoto. Vejam!

11. Andy Murray chegou às semifinais do Grand Slam francês, o que deve fazer as pessoas pararem para olhar e finalmente perceberem que seus resultados no saibro têm sido ótimos recentemente. Pena que a semi contra Nadal foi decepcionante. O britânico parecia taticamente perdido e desanimado desde os primeiros games. O espanhol passeou.

12. Nem tanto sobre Roland Garros, mas sobre o número 1 britânico, é intrigante a contratação de Amélie Mauresmo. Veremos o que sairá da parceria.

13. Rafael Nadal fica com o “prêmio” de melhor set do torneio. Empatado em 1 a 1 com David Ferrer nas quartas, o eneacampeão de Roland Garros aplicou um pneu e não cometeu nenhum erro não forçado. Nenhunzinho.

14. E que história bacana a de Nadal este ano! Perdeu em Monte Carlo e Barcelona e fez uma final decepcionante contra Kei Nishikori em Madri. Evoluiu em Roma, mas perdeu a final para Djokovic. Quando a segunda semana de Roland Garros chegou, o número 1 já mostrava a velha forma. Fantástico.

15. A Turma do Tô Chegando ficou devendo. Kei Nishikori, lesionado em Madri, caiu na estreia diante de Martin Klizan. Grigor Dimitrov, idem. Não passou por Ivo Karlovic. Milos Raonic alcançou as quartas, mas pouco fez diante de Djokovic. Nos maiores palcos, em melhor de cinco, ainda é difícil alcançar Rafa e Nole.

Djokovic_RG_f_reu_blog

16. Federer poderia ter feito mais, só que perdeu uma ótima chance de abrir 2 sets a 0 e, depois, não encontrou respostas para a grande atuação de Ernests Gulbis. O letão, que só parou nas semifinais, enfim chega ao top 10, mostrando que é capaz de tirar bastante do seu talento, que não é pouco.

17. Sobre Djokovic, uma campanha promissora terminou novamente em derrota na final (é praticamente sua terceira decisão em Roland Garros). E, desta vez, com uma atuação bem abaixo do esperado. Num balanço das duas semanas, o sérvio foi quase uma versão tenística do Bayern de Munique. Um começo arrasador e uma queda brusca de rendimento no fim.

18. No feminino, foi admirável a campanha de Simona Halep. Com um jogo inteligente, bem planejado e, claro, executado, a romena avançou até a final sem perder um set. Na decisão, diante de Sharapova, brigou até o fim, passando do ponto onde a maioria desiste de acompanhar a russa.

19. Se não foi tecnicamente um torneio perfeito para Maria Sharapova, o título recompensa a briga da ex-número 1. Precisou ganhar quatro partidas em três sets, mas foi lá e mostrou que, na hora que precisa, tem mais de onde tirar do que a maioria. E dane-se que Serena Williams já não estava mais na chave. Sharapova nada tem a ver com as derrotas de sua maior algoz.

20. Sim, estão fantásticas as fotos da russa com a Torre Eiffel no fundo.

Sharapova_RG_trophy_reu_blog

21. Entre os brasileiros, Thomaz Bellucci e Teliana Pereira pararam na segunda rodada. Venceram jogos ganháveis e perderam partidas diante de cabeças de chave. Resultados à parte, não dá para dizer que nenhum dos jogo tênis de altíssimo nível. Já escrevi um bocado sobre isso.

22. Nas duplas, a boa notícia foi André Sá alcançar as oitavas de final ao lado do croata Mate Pavic. Marcelo Melo também merece destaque, pois também chegou à terceira rodada, mas sem seu parceiro habitual. Com Ivan Dodig machucado, o mineiro jogou ao lado do israelense Jonathan Erlich. Bruno Soares e Alexander Peya perderam antes do esperado e pararam na segunda rodada.

23. Soares também perdeu uma ótima chance nas duplas mistas. Ao lado da ótima Yaroslava Shvedova, o mineiro sacou com três match points para derrotar Anna-Lena Groenefeld e Jean-Julien Rojer. No melhor deles, Soares smashou em cima de Rojer, que defendeu de reflexo. O ponto terminou com um espetacular lob vencedor de Groenefeld. O holandês e a alemã viraram a partida e, no dia seguinte, foram campeões da modalidade.

24. Na chave juvenil, o Brasil contou com o ótimo resultado de Orlando Luz, cabeça de chave 2 do torneio, que avançou até as semifinais. Sua eliminação veio por 7/5 e 6/3 diante do russo Andrey Rublev, que foi campeão um dia depois.

25. O melhor jogo do torneio? Difícil dizer, já que não foi uma daquelas edições cheias de embates espetaculares. Tecnicamente, eu iria de Gulbis x Federer. No entanto, os jogos que eu gostaria mesmo de estar na beira da quadra, vendo de perto, foram Murray x Kohlschreiber, Murray x Monfils, Monfils x Fognini e Bagnis x Bennetaeu. Quatro duelos de cinco sets, cheios de variações e com influência de torcida, clima, tudo. Tênis, assim, é legal demais de ver.

Murray_Monfils_RG_qf_get_blog

26. O pior jogo? Provavelmente o justo seria escolher alguma partida de quadra pequena, lá pela primeira rodada. Meu “prêmio” vai para Djokovic x Gulbis, talvez o mais decepcionante dos encontros. O sérvio venceu fácil e nem jogou tão bem assim. A partida nunca engrenou. E vale lembrar: Nadal x Murray foi quase tão decepcionante quanto, mas o espanhol estava afiado e valeu aquele ingresso.

27. Tenho a impressão de que escrevi algo parecido após o Australian Open, mas sigo me divertindo vendo as produções da H&M para Tomas Berdych. O tcheco e sua camisa florida foram até as quartas de final em Roland Garros. Eu não compraria, mas admiro a ousadia da marca e do tenista.

28. O Bandsports mostrou um esforço nunca visto por um canal fechado no Brasil. Mandou uma equipe inteira para Paris, mostrou jogos em quadra sem transmissão “oficial”, acompanhou os brasileiros em tudo e exibiu partidas em três meios (dois canais fechados mais internet). De modo geral, foi um ótimo pacote.

29. Outro acerto do canal foi a escolha de comentaristas. Flávio Saretta, Ricardo Mello e Jaime Oncins, o melhor de todos, formaram um ótimo grupo. Ninguém exagerou na fanfarronice, ninguém gritou na transmissão e ninguém inventou apelidos bobos. Os três quase compensaram a falta de intimidade dos narradores com o tênis. E isso inclui a parte do time que já narra habitualmente os WTAs.

Chatrier_RG_f_get_blog

30. A grande falha do canal foi a presença de Elia Junior no estúdio. Diferentemente de quando trabalha na TV aberta e consegue “escapar” ao repetir clichês e meias verdades, num canal fechado e em uma transmissão para fãs (de verdade) de tênis, o apresentador não agradou. Falou bobagens e tentou mostrar uma intimidade que não tem com o esporte. E esteve muito, muito tempo no ar. Nas redes sociais, o apresentador foi massacrado. Talvez seja o caso de a Band repensar sua presença no estúdio em 2015. Ou que, pelo menos, Elia Junior se prepare melhor para um público que entende do que está vendo.

31. Durante as duas semanas, a ESPN recolocou no ar o Pelas Quadras, programa de bate-papo que já foi exibido durante o Australian Open. Além de uma boa opção para o fã de tênis, é uma medida inteligente do canal, que fica de janeiro a agosto sem um torneio grande para transmitir. O Pelas Quadras mantém a ESPN na cabeça do espectador de tênis, o que é muito importante para o canal – até porque o SporTV também tem os direitos de mostrar o US Open.

32. Por que 32 drop shots em vez de um número redondo, como 10, 20 ou 50? Para que o leitor não se sinta enganado como na maioria dessas listas. Afinal, quem está lendo um top 20 sempre percebe que os três ou quatro últimos itens foram desmembrados só para atingir a cota. Além disso, 32 é o mesmo número de tenistas nas chaves dos Challengers de Bogotá, os meus preferidos.

Coisas que eu acho que acho:

- Como estou trabalhando em assuntos envolvidos com a Copa do Mundo, este blog vai entrar de férias por pelo menos duas semanas. Até mais!


Bravíssimo
Comentários 28

Alexandre Cossenza

Nadal_RG_trophy_2014_get4_blog

Bravura manifesta-se de um bocado de maneiras. É bravo aquele que inicia mal um embate e se recupera para triunfar. É também aquele que resiste a um grande esforço físico até o limite de suas energias, não importa o resultado. É quem que estuda um inimigo dotado de um arsenal mais poderoso até criar um minucioso plano para, mesmo em desvantagem, vencer a batalha. É aquele que se fere em combate e não vê a hora de voltar para retomar o território conquistado.

De 2005 a 2013, Rafael Nadal se encaixa em todos os conceitos acima. Venceu partidas duríssimas de virada, derrotou seguidas vezes um Roger Federer tecnicamente superior, superou lesões sérias e sempre voltou às quadras triunfante, esgotou-se por quase seis horas em uma final na qual saiu vencido e, por fim, desenvolveu golpes e um plano de jogo para derrotar o mesmo Novak Djokovic que lhe dominou um ano antes.

Não em 2014. Não, não. Em 2014, Rafa Nadal encontrou ainda outra maneira de extrair o máximo de sua capacidade como atleta. Na temporada em que obteve seus piores resultados na série de torneios que antecede Roland Garros, o espanhol não começou o torneio como favorito, mas venceu a corrida contra o tempo, calibrou seus golpes e encerrou a que considero como mais memorável de suas campanhas com outra vitória sobre Novak Djokovic. Rafa Nadal hoje é nove vezes campeão de Roland Garros. Bravo, Rafael Nadal. Bravíssimo.

Não que o mundo duvidasse de sua capacidade. Pelo contrário. Ninguém questiona o número 1 do mundo em Roland Garros. É no saibro. É melhor de cinco sets. Havia, no entanto, uma nuvem em formato de ponto de interrogação após derrotas inesperadas em Barcelona e Monte Carlo. Depois do revés diante de Novak Djokovic em Roma, com o sérvio jogando um belíssimo tênis, a pergunta se fazia inevitável: o espanhol seria capaz de virar a mesa em duas semanas? Não parecia provável, especialmente com uma lesão nas costas e saques nada intimidantes.

Nadal_RG_F_2014_get_blog

Rafa Nadal, contudo, é um fora de série. Enquanto a maioria de seus colegas começaria um Grand Slam buscando respostas desesperadamente, o número 1 do mundo dizia que era bom ter dúvidas. E, pela nona vez em Roland Garros, o espanhol encontrou todas as respostas. Teve, claro, uma ajudinha da chave, que o colocou diante de Ginepri, Thiem, Mayer e Lajovic nas primeiras rodadas. Não precisou forçar o saque e, aos poucos, foi calibrando seus golpes, fazendo os ajustes finos que precisaria para enfrentar os rivais mais perigosos.

Perdeu o primeiro set de David Ferrer, mas encontrou-se rapidamente e tirou tudo de seu tênis. Cedeu apenas cinco games em três sets para o compatriota. Chegou à semifinal em rara forma e atropelou um atônito Andy Murray. Só restava o maior dos desafios do tênis atual: Novak Djokovic.

O sérvio, que assumiria a liderança no ranking com uma vitória neste domingo, fez uma primeira semana fantástica. Ainda que seus adversários “de nome” como Cilic, Tsonga e Raonic não fossem grandes ameaças no saibro, o número 2 do mundo foi quase impecável. Até que veio a semifinal contra Ernests Gulbis. A vitória veio tranquila, é verdade, mas é também inegável que o nível de tênis de Djokovic ficou abaixo do que ele apresentou até então. Até aí, tudo bem. Em uma partida tranquila, é aceitável uma certa queda momentânea de rendimento. Desde que seja justamente assim: momentânea. Não foi.

No domingo, a gangorra já havia mudado de lado. O sol também ajudou Rafa Nadal, fazendo que sua bola andasse mais e quicasse mais, ainda que o dia tenha sido bastante úmido. Aliás, a umidade também jogou a favor do número 1. Combinada com o calor, provocou condições de jogo extenuantes. Djokovic sentiu. no começo do terceiro set, o sérvio sentiu o físico. Nadal, que havia acabado de vencer a segunda parcial, aproveitou e disparou na frente. Não foi um set tão fácil quanto o 6/2 indicou, mas pouco importava. O número 1 do mundo abria 2 sets a 1 e reduzia a margem para erros do oponente. Jogar 2h37min contra Rafa Nadal em Roland Garros e, depois disso, precisar vencer dois sets, deve equivaler a uns 18 Trabalhos de Hércules. Djokovic certamente cansaria lá pelo 15º.

Nadal_RG_trophy_2014_get2_blog

O espanhol nem fez lá um grande primeiro set. Preocupou-se mais em alongar as trocas de bolas e usar muito top spin do que definir pontos. Poderia até ter dado certo. Nole saiu de um 15/30 com o placar em 3/3, quebrou em seguida e fechou em 6/4 mesmo fazendo um afobado décimo game, que incluiu um erro não forçado, uma curtinha ruim e um saque-e-voleio arriscadíssimo. Nadal jogou dois break points fora com forehands não forçados e pagou o preço.

Pela primeira vez, Djokovic saiu na frente de Nadal em Roland Garros. Foi aí que uma das muitas qualidades do espanhol se fez presente outra vez: a capacidade de entender o que acontece em quadra. Nadal sentiu que o jogo estava mais à mercê do oponente. Na coletiva após o jogo, afirmou que estava ganhando mais pontos em erros de Djokovic do que com seus próprios winners. Ao ataque, então. Deu certo. Lindamente. Os números finais comprovam, com uma estatística rara: Nadal executou mais bolas vencedoras: 44 a 43.

O título veio em quatro sets, mesmo após um daqueles instantes que parecem existir só para atestarem que Rafael Nadal é humano. Sacando em 4/2 no quarto set, cometeu uma dupla falta, errou um smash e mostrou-se vulnerável pela primeira vez em muito tempo. Djokovic devolveu a quebra, mas o número 1 foi superior quando mais precisou. Se na fantástica semifinal de 2013, Nadal perdeu a vantagem no quarto set e só foi triunfar por 9/7 no quinto, Nole não teve a mesma chance em 2014. Sacou em 4/5 e 30/0, mas perdeu quatro pontos seguidos. O último deles, uma dupla falta, concretizou o nono título de Rafael Nadal em Roland Garros.

Nadal_RG_trophy_2014_get_blog

Sem ir na toalha (para ler em até 20 segundos):

- Com o título, Rafa Nadal manteve a liderança do ranking. Entretanto, Djokovic, semifinalista em 2013, diminuiu consideravelmente a diferença. Agora o espanhol tem apenas 170 pontos de frente. Vale lembrar, contudo, que Djokovic tem a defender 1.200 do vice em Wimbledon, onde Nadal foi eliminado na estreia no ano passado e, por isso, só tem a somar.

- Vale como curiosidade: Djokovic ultrapassou Federer em derrotas para Rafa Nadal em Roland Garros. Agora são seis reveses do sérvio (2006-08 e 2012-14) contra cinco do suíço (2005-08 e 2011).

- Os fãs de Federer têm todo direito de ficar com ciúme: após a final, Nadal afirmou que enfrentar Djokovic é o maior desafio de sua carreira.

- Quer números? Anote aí! Nadal agora soma dez participações e nove títulos em Roland Garros (2005-08 e 2010-14), foi o primeiro a vencer o Grand Slam francês cinco vezes seguidas (2010-14) e tem um histórico de 66 vitórias e só uma derrota no torneio. Em melhor de cinco sets no saibro, são 90 triunfos  e um solitário revés. Nadal também já soma 35 vitórias consecutivas em Roland Garros e 45 títulos no saibro. Ah, sim: são 14 títulos de Grand Slam (Australian Open em 2009, Wimbledon em 208 e 2010 e US Open em 2010 e 2013), mesmo número de Pete Sampras.

Djokovic_RG_f_get_blog

Coisas que eu acho que acho:

- É a terceira vez que Novak Djokovic chega com ótimas chances de vencer Roland Garros. Em 2011, tombou diante de Roger Federer nas semifinais. Em 2013, fez uma semifinal duríssima mas saiu de quadra derrotado. Desta vez, depois de uma excelente primeira semana, deixou a desejar nos últimos dias. Vale ficar de olho para ver o quanto mais este revés vai machucar.

- Não sobrou tempo para produzir um texto sobre a ótima final feminina. Peço desculpas aos fãs de Maria Sharapova, que tecnicamente não fez lá um grande torneio, mas venceu do jeito que conseguiu. No conjunto da obra, foi uma excelente campanha da tenista russa que superou jogos complicados contra Sam Stosur, Garbiñe Muguruza e Simona Halep.


O bom e velho Nadal
Comentários 7

Alexandre Cossenza

Nadal_RG_QF_get2_blog

Acompanhar o desenvolvimento da chave masculina em Roland Garros foi interessante especialmente pela expectativa criada desde sempre para uma final entre Rafael Nadal e Novak Djokovic. Pela segunda vez, o sérvio chegou ao Grand Slam do saibro como o mais cotado nas casas de apostas – certamente impulsionado pela recente vitória na final do Masters 1.000 de Roma. E, uma vez em Paris, rodada após rodada, os dois deram seguidas demonstrações de força.

A mais recente delas veio nesta quarta-feira, com Rafael Nadal dominando o compatriota David Ferrer. A expectativa era de uma partida equilibrada. Ferrer vinha de duas vitórias consecutivas sobre o número 1 do mundo – uma há pouco tempo, em Monte Carlo – e conseguiu, em ambas, impôr-se ofensivamente. Junto a isso, as dores nas costas e os consequentes saques nada intimidadores de Nadal em Roland Garros pareciam dar a margem que o adversário precisava para continuar comandando os pontos desde a primeira bola.

Foi assim no primeiro set. Ferrer atacou quando pôde e defendeu-se como sempre. Conseguiu duas quebras de saque e fez 6/4. “Quando pôde” é a chave na frase acima. O atual número 5 do mundo não é um tenista defensivo por definição. Sempre que consegue, toma a iniciativa e tenta definir os pontos. Suas bolas, contudo, não são as mais potentes do circuito. Em muitas ocasiões (a maioria delas contra os adversários de melhor ranking), Ferrer é forçado a correr atrás da bola, o que lhe dá uma reputação de “devolvedor” que não é tão justa assim. Defender, para o espanhol, não é opção. É necessidade.

Nadal_RG_QF_get_blog

E foi uma senhora necessidade depois que perdeu o segundo set por 6/4 e viu Nadal agigantar-se dali em diante. Ainda que sacando a uma velocidade média de apenas 174 km/h (no primeiro serviço), o octocampeão de Roland Garros foi monstruoso desde que Ferrer abriu a terceira parcial com quatro erros não forçados. Sem cometer nenhum erro não forçado (nenhunzinho mesmo), aplicou um pneu e tomou as rédeas do confronto. Ferrer, tão agressivo no começo, já não via mais chances de dominar as trocas de bola.

Nadal completou a vitória com outro set quase perfeito (6/1, com apenas três erros cometidos), jogando seu melhor tênis de 2014 e fazendo seus fãs acreditarem mais do que nunca que o nono título é bastante possível. Antes da final, porém, será preciso passar por Andy Murray. O britânico certamente tem uma devolução capaz de incomodar mais o número 1, mas não vem demonstrando a consistência necessária para superar Nadal no saibro.

Na outra semi, Novak Djokovic deve ter seu maior teste do torneio. O sérvio vem de vitórias maiúsculas sobre Cilic, Tsonga e Raonic, nomes que poderiam lhe causar trabalho em quadra dura, mas não no saibro. Muito menos em melhor de cinco. Ernests Gulbis, vindo de triunfos sobre Roger Federer e Tomas Berdych, chega cheio de moral e com um arsenal que pode, sim, causar problemas ao número 2 do mundo. Resta saber se será o bastante para vencer três sets.


O importante é se divertir
Comentários 6

Alexandre Cossenza

FrasePetko1_blog

A frase acima é de Andrea Petkovic, em uma entrevista de 2011, publicada originalmente no site do SporTV. A alemã nascida na antiga Iugoslávia em uma família sérvia e em uma cidade que hoje faz parte da Bósnia, classificou-se, nesta quarta-feira, para as semifinais de Roland Garros – melhor resultado de sua carreira em um torneio do Grand Slam – ao derrotar Sara Errani por 6/2 e 6/2.

Naquele setembro de 2011, Petkovic era a número 11 do mundo. Muita coisa mudou desde então. Hoje, com 26 anos, a alemã é a 27ª na lista da WTA. E a diferença de ranking é a parte menos relevante da história. Petko teve uma fratura por estresse na coluna, uma torção no tornozelo esquerdo que exigiu cirurgia e uma lesão no joelho (a Sheila Vieira conta tudo isso, do jeito que só ela sabe, neste ótimo post). Pensou em abandonar tudo, mas insistiu.

Nem precisava. Se não vive como uma milionária, Petko já conquistou mais de US$ 3 milhões na carreira. Não é tanto assim. É um valor que soma os ganhos de quase dez anos como tenista profissional. Ainda assim, é de imaginar que a alemã tenha alguma reserva. Não passaria fome se largasse tudo. Além do mais, é uma moça inteligente, que fala bem e tem uma ótima noção do que acontece fora da bolha em que vive a maioria do circuito. Algum canal rapidamente contrataria a moça para comentar, entrevistar e tudo mais nas transmissões de tênis.

Petkovic_RG_R16_get_col

Mas a moça insistiu. Perdeu em torneios pequenos, em qualis e saiu do top 100. Aos poucos, porém, voltou a vencer. Quando levantou o troféu em Charleston, boa parte do circuito festejou. Choveram parabéns no Twitter. De muitas jogadoras. Prova de que é possível, sim, fazer amizades e ter sucesso em um ambiente tão competitivo (mas isso seria discussão para outro post, certo?).

Depois de tantas reviravoltas e mudanças forçadas, o que restou de comum foi a alegria. Produzindo vídeos com o pseudônimo Petkorazzi, criando a Petkodance, rebolando com Djokovic num dia de chuva, correndo para o banheiro no meio de uma partida ou simplesmente dando entrevistas, a moça sempre seguiu à risca aquela frase lá no alto deste texto. O importante é se divertir. E Roland Garros é mais divertido com Andrea Petkovic nas semifinais.

Petkovic_RG_qf_get2_blog

Coisas que eu acho que acho:

- Não há uma fórmula para se comportar e vencer no tênis. Enquanto Serena Williams e Caroline Wozniacki estão afogando as tristezas na praia, fazendo selfies de biquíni, há quem acredite que não é possível fazer amizade no circuito. Há quem entre em quadra precisando odiar o adversário, o público e o árbitro durante a partida. Tudo bem, cada um na sua. Não há nada de fundamentalmente errado nisso. Só me parece ser muito, muito mais prazeroso, assistir a um jogo de um(a) atleta que esteja se divertindo, aproveitando aquele momento.

- Não pode ser algo forçado. A própria Petko parou de dançar ao fim de seus jogos porque não estava mais sendo espontâneo. Quando passa a ser algo programado, perde a graça. Por isso, foi tão bacana ver Djokovic puxando papo com um dos boleiros durante uma pausa para chuva. Pelo mesmo motivo, foi engraçado vê-la beijando a raquete depois de derrotar Sara Errani. “Nunca tinha beijado uma raquete na vida. Não sei o que aconteceu. Estava muito emocionada. Eu não tinha um rapaz para beijar, então beijei minha raquete”, explicou, sorrindo. Simples, não?


Anatomia de uma discreta top 5
Comentários 14

Alexandre Cossenza

Halep_RG_08_col_blog

As quatro imagens acima foram clicadas no dia 8 de junho de 2008, na quadra Phillipe Chatrier. Naquele dia, a jovem Simona Halep conquistou o título juvenil de Roland Garros ao derrotar a compatriota Elena Bogdan por 6/4, 6/7 e 6/2. Sim, aquela Simona é a mesma que hoje ocupa o quarto posto no ranking da WTA, está classificada para as quartas de final do Grand Slam do saibro e pode até terminar o torneio como tenista número 3 do mundo.

Aquela Simona de 16 anos ficou famosa por uma peculiaridade de seu corpo: seios maiores do que a média. Não, não há photoshop nas fotos deste post. Elas não foram coletadas de um fórum de fundo de quintal. São todas da Getty Images, uma renomada agência. Mas eu divago. Simona não era uma menina gordinha. Sua silhueta seria bastante comum para uma atleta de sua idade não fossem os seios – desproporcionais ao resto do corpo.

Com 17 anos, ela tomou a decisão: passaria por uma cirurgia para redução de seus seios. Não, a menina não foi forçada pela federação de seu país nem foi exposta por dirigentes à imprensa mundial como a americana Taylor Townsend (refresque sua memória). Não. Halep sentiu a necessidade de mudar e resolveu tudo por conta própria. Ainda antes dos 18, submeteu-se ao procedimento.

Halep_RG_14_col_blog

Na época, a jovem romena disse que os seios atrapalhavam em quadra. Ela sentia sua mobilidade reduzida e dores nas costas. Afirmou também que teria feito a operação mesmo que não fosse atleta. Era algo que a incomodava também no dia a dia. Ainda era cedo em sua carreira. Não vale a pena especular se ela teria alcançado seu ranking atual caso não tivesse optado pela redução.

O que me parece mais interessante o tênis de Simona Halep é que nenhum aspecto demais a atenção. Aliás, até sua cirurgia foi tratada com discrição – só não foi segredo porque àquela altura, depois de vencer um Grand Slam juvenil, a romena já tinha um punhado de fãs que, diz a lenda, fizeram uma petição pedindo a Halep que não reduzisse seus seios.

Antes que eu vá mais longe neste post, vale uma ressalva: tênis não é um esporte com uma maioria de fãs machistas. Para cada velho babão que se derrete vendo Ana Ivanovic existe meia dúzia de moças gritando histericamente cada vez que Rafael Nadal tira a camisa ou que Jade Barbosa Novak Djokovic exibe seu tanquinho. O circuito tem tenistas e fãs para todos os gostos, e cada um tem suas preferências. A maioria, contudo, ainda vê o tênis pelo tênis.

Halep_Roma_get_blog

Voltemos, então, ao … tênis! Halep é uma menina tão discreta que até sua impressionante ascensão no circuito pegou muita gente de surpresa. Há um ano, ela era a número 57 do mundo, eliminada na primeira rodada em Paris, e não tinha um título de WTA no currículo. Desde então, levantou sete troféus e chegou, sem alarde, ao top 5. E, como eu disse um pouco acima, nada se sobressai no seu tênis. E isto está longe de ser uma crítica.

Seu saque vem melhorando, mas não é espetacular. Do fundo de quadra, não tem golpes incríveis, capazes de dominar tenistas que batem forte na bola, como Serena Williams ou Maria Sharapova. Halep, contudo, tem uma excelente movimentação e uma impressionante capacidade de manter suas bolas com profundidade, sem perder potência. Foi assim que a romena tirou um set de Sharapova na final de Madri. Enquanto a russa não conseguiu calibrar seus golpes, Halep manteve-se firme. E seguiu assim até o fim do jogo, mesmo quando a russa já atuava em altíssimo nível (a ex-número 1 venceu aquele jogo por 1/6, 6/2 e 6/3).

Em Roland Garros, a cabeça de chave número 4 só cumpriu sua “obrigação” até agora, mas o fez brilhantemente. Passou por Kleybanova, Watson, Torro-Flor e Stephens sem perder um set sequer (foram 18 games cedidos, menos de três por parcial). Classificada para as quartas de final, Halep já repete a melhor campanha da vida em um Grand Slam (ficou entre as oito no Australian Open deste ano) e terá Svetlana Kuznetsova pela frente. Uma semi não é nada, nada, impossível.

Bouchard_RG_1r_get_blog

Coisas que eu acho que acho:

- Em uma chave que também tem Sara Errani e Andrea Petkovic, Halep pode até sonhar com um lugar na final de Roland Garros, desde que não atropele a ordem das coisas. Pelo modo como vem conduzindo sua carreira, não parece provável que a romena vá se afobar. Se perder, será “na bola'' mesmo.

- Aconteceu com Halep o que acredito que teria ocorrido com Taylor Townsend, não fosse a trágica atuação da USTA. A americana, que era número 1 do mundo como juvenil, eventualmente sentiria a necessidade de perder peso e faria um esforço para ganhar velocidade dentro de quadra. Cá entre nós, é bem possível que esse cenário torne-se realidade à medida em que a menina vá ganhando posições no ranking e disputando torneios mais fortes.

- Garbiñe Muguruza x Maria Sharapova e Carla Suárez Navarro x Eugenie Bouchard são os jogos desta terça-feira na chave feminina em Roland Garros. Sharapova e Bouchard são as favoritas nas casas de apostas. Eu não ousaria apostar contra nenhuma das duas. E você?


Louco, letal e letão
Comentários 18

Alexandre Cossenza

Gulbis_RG_r16_get_blog

Cara fechada e punho cerrado. Ninguém rolou no saibro ou deitou-se como se comemorasse um título. Não houve nem um daqueles gritos insanos. Ernests Gulbis, o louco letão, comemorou sem fanfarronices sua vaga nas quartas de final de Roland Garros sem exageros. Como um profissional que sabe de seu potencial e acredita não ter atingido seu ápice ainda.

A campanha deste ano iguala a sua melhor em Grand Slams, que também aconteceu em Roland Garros, no aparentemente longínquo ano de 2008. Naquele ano, o letão precisou passar pelo top 10 James Blake. Desta vez, a vítima foi Roger Federer. A atuação deste domingo foi quase irretocável e deixou o suíço sem opções táticas, restrito, na maior parte do tempo, a tentar a sorte mas trocas de bola do da linha de base. E o placar final, 6/7(5), 7/6(3), 6/2, 4/6 e 6/3, omite que Gulbis esteve à frente em quatro dos cinco sets.

O triunfo mostrou toda a versatilidade do imprevisível letão. Com uma consistência poucas vezes (ou nenhuma!) vista em um jogo de cinco sets desta importância, Gulbis sacou bem e, já no começo, mostrou que jogaria de igual para igual com o “plano A'' de Federer. O letão plantou-se colado na linha de base e trocou pancadas sem medo. Atacou mais – como todos – a esquerda do adversário e fez estrago com seu backhand na paralela (veja alguns lances aqui).

Gulbis_RG_r16_get2_blog

Federer, dono de tantos recursos, usou de certa variação. Nada, contanto, que lhe desse um plano B com sucesso constante. Quando recebeu slices, Gulbis não se mostrou incomodado. Chamado à rede, o letão mostrou-se eficiente. Federer também ensaiou subir mais, mas conteve-se depois de levar meia dúzia de lobs. Em certo momento do jogo, aliás, foi Gulbis quem mais provocou pontos junto à rede. Em um game, depois de sacar em 0/30, deu três curtinhas seguidas – o que requer uma boa dose de coragem e precisão, visto que Federer nunca se afasta muito da linha de base. Ganhou os três pontos.

Não foi um domínio do letão. Claro que não. A excelente apresentação foi necessária para superar um oponente do calibre de Federer. E, ainda assim, o suíço teve suas chances. No segundo set, vencendo por 5/3 e 40/15, Federer teve uma bola fácil junto à rede para fechar a parcial. Escolheu o lado errado para o smash, mandou a bola em cima do adversário e viu Gulbis encaixar uma passada na paralela. O letão conseguiu a quebra e venceu o tie-break pouco depois.

Quando arrancou na frente e venceu o terceiro set com folga, o silêncio na Chatrier era desconrotável. A torcida de Paris, que sempre foi pró-Federer, só acordou no quarto set, quando o suíço esboçou uma reação, e veio com força total quando Gulbis pediu atendimento médico depois do sétimo game (Federer liderava por 5/2). O letão, que desde o segundo set levava a mão às costas aqui e ali, voltou da pausa mais agressivo e preciso. Conseguiu uma quebra e ficou a dois pontos de empatar a parcial, mas o suíço saiu de 0/30 e fechou o set em 6/4.

Gulbis_RG_r16_get3_blog

Foi, contudo, o último momento de brilho do ex-número 1 do mundo. Gulbis abriu o quinto set no mesmo ritmo, com 3/0 no placar. Não houve mais nada que Federer conseguisse fazer para mudar o cenário. Com todas as (muitas) respostas certas, o letão não vacilou mais. Confirmou seu saque até o fim e avançou às quartas.

O talento de Ernests Gulbis não é novidade. A não ser que se considere a feiúra de seu forehand nada ortodoxo, seu jogo não tem buracos evidentes. O rapaz tem um ótimo saque e sabe trocar bolas do fundo, mas tem armas desconhecidas da maioria. Uma deixadinha mortal, bons voleios curtos, ótima variação entre bolas chapadas e com spin. Se não alcançou o máximo de potencial, foi por pura falta de interesse. E ele sabe disso. Gulbis nunca escondeu seu apreço por festas e, depois de despencar do top 30 para além do 150º posto, disse que esteve desinteressado. Foi até mais longe: afirmou, sem modéstia alguma, que muitos dos tenistas que estavam à sua frente no ranking não tinham seu talento (difícil discordar).

Só em 2013, depois de abrir a temporada como número 138 do mundo, é que o letão vem “cumprindo a promessa”. Seu ranking, finalmente, reflete seu talento. Agora, em Paris, Gulbis está praticamente a uma vitória de entrar no top 10 e com um encontro marcado com Tomas Berdych. E, do mesmo modo que é fácil prever que haverá um festão em algum lugar de Paris caso o letão vá ainda mais longe, é possível imaginá-lo em uma semifinal com Novak Djokovic ou Milos Raonic.

RG_Djo_Tso_R16_get_blog

Coisas que eu acho que acho:

- Tsonga não vinha fazendo uma grande temporada de saibro, e a chance de uma zebra neste domingo era pequena. Ainda assim, a surra que Djokovic deu no francês foi respeitável. Com o desenho das chaves e os nada intimidantes serviços de Rafael Nadal (que voltou a sentir dores nas costas), parece improvável que o sérvio deixe passar a ótima chance de conquistar Roland Garros.

- Gulbis pediu atendimento médico quando perdia o quarto set. Federer foi ao banheiro depois de perder a terceira parcial. As duas pausas foram solicitadas por tenistas que estavam em momentos ruins. Não vale a pena especular quem fez ou deixou da fazer catimba, mas fica o recado: dizer que Gulbis venceu o quinto set por causa de uma pausa no meio da parcial anterior soa como choro de torcedor.

- No meio da semana, Gulbis respondeu, em entrevista coletiva, que não gostaria de ver suas irmãs jogando tênis profissional. O jovem letão, de 25 anos, afirmou que a vida na modalidade é muito dura para uma mulher. “Uma mulher precisa curtir mais a vida. Precisa pensar na família, nos filhos. Como pensar em filhos se até os 27 anos você está jogando tênis profissional?”. Há dois pontos que preciso fazer nesta história. O primeiro é que deu-se atenção demais ao que disse um jovem quase sem experiência de vida fora do tênis (ainda que tenha passado uma noite em uma prisão sueca por sair com uma prostituta). Esquecemos que atletas, em sua maioria, são garotos que pouco experimentaram o que o mundo tem a oferecer. Logo, dá-se atenção demais e julga-se alguém muito cedo, não importando a idade e suas raízes culturais – e aqui entra o segundo ponto. Não estou falando (apenas) de Gulbis nem o defendendo, mas um sério problema que se vê com muita frequência hoje – em especial nas redes sociais – é a vontade, que na prática é quase uma exigência, de que todos pensem da mesma maneira. Não pode ser assim, por mais que o mundo atravesse um processo de globalização. E “atravessar'', no presente do indicativo, parece ser a chave. Pessoas de lugares diferentes trazem consigo conceitos distintos de ver o mundo e a vida. Ainda que certos hábitos de um cidadão soem absurdos e preconceituosos na cultura de outro, vale parar e contextualizar antes de fazer um daqueles julgamentos que, nas redes sociais, quase sempre vêm de um perfil sem rosto ou identidade.

- Voltando ao tênis, não é a primeira declaração de Gulbis que causa furor. Algum tempo atrás, ele disse que o top 4 era entediante, que todo mundo se respeitava demais. Há uma dose de verdade nisso, mas poucos no circuito ousam falar abertamente sobre o tema (justamente porque se respeitam demais!). Hoje, Gulbis é o mais perto que o tênis tem de um bad boy (ninguém viu Fabio Fognini passando noite na cadeia nem dizendo que é bacana a maconha ser “liberada'' na Holanda). Fala o que vem na cabeça, quebra um montão de raquetes, discute com árbitros e parece pouquíssimo incomodado com a fama. Pelo contrário, a impressão que passa é a de que ele se diverte com isso tudo, o que só alimenta seu lado bad boy. O que eu acho que acho? Que é divertido ter gente assim. Faz bem ao circuito. Desde que essa turma não seja levada a sério demais, mas isso você já leu no parágrafo acima!


Brasileiros em contexto
Comentários 6

Alexandre Cossenza

Teliana_RG_2r_efe_blog

Primeira semana de Grand Slam tem dessas coisas engraçadas. E a culpa, de certa forma, é da imprensa. Sim, somos nós, jornalistas, que achamos divertido escrever “Brasil segue invicto em Wimbledon” ou “continuamos 100% na Austrália”, com direito até ao uso da primeira pessoa do plural, aquela manobra barata para fazer com que o leitor se sinta mais parte das vitórias de seus compatriotas. Durante esses primeiros dias, criamos uma ilusão coletiva de que está tudo ótimo, de que nosso esporte (porque não acontece só no tênis) anda muito bem.

Só que essa ilusão dura pouco. E normalmente acaba com derrotas que vêm uma colada na outra. Foi assim com Teliana Pereira e Thomaz Bellucci em Roland Garros (e Bruno Soares também já deu adeus). Dois atletas que venceram sem jogar bem na primeira rodada e que ofereceram pouca resistência na fase seguinte, quando enfrentaram cabeças de chave. Não que haja tanto em comum entre os melhores simplistas brasileiros, mas foi assim que aconteceu.

A passagem de Teliana por Paris começou com vitória sobre a tailandesa Luksika Kumkhum, que tem sérios problemas de mobilidade. A jovem de 20 anos sabe bem disso, por isso joga atacando como se precisasse fugir de um precipício e trocar cinco bolas significariam a morte fulminante após 200 metros de queda livre. Enquanto acertou seus golpes, Kumkhum abriu 5/0. Depois, sem uma corda de Bungy para trazê-la de volta, venceu só três games.

Teliana_RG_2r_efe2_blog

Não foi exatamente uma bela atuação de Teliana. Nem houve nem um grande ajuste tático da brasileira. A adversária nem permitiu isso. Paciência. A vitória da pernambucana por 4/6, 6/1 e 6/1 foi a primeira de uma brasileira em Paris desde 1989. Por isso, foi muito comemorada. E deveria mesmo ser festejada por Teliana. Por todos obstáculos que ficaram para trás. Pelo esforço que a menina fez para chegar a Paris e se dar a chance de vencer, mesmo sem brilhar. Não significa uma evolução do tênis brasileiro como trabalho de uma confederação, mas coloca em evidência, mais uma vez, que trabalho é recompensado, de uma forma ou de outra. Desta vez, na forma também de € 42 mil, maior prêmio na carreira de Teliana.

Veio, então, um confronto contra a romena Sorana Cirstea, 26ª do mundo. Uma tenista que, se não tem muita variação, conta com um saque respeitável e golpes sólidos do fundo de quadra. Em um dia ruim, foi derrotada pela própria Teliana em Charleston, em março. Era, entretanto, seu primeiro evento no saibro este ano. Mesmo sem sucesso no piso, a jovem teve tempo de se adaptar. O confronto em Roland Garros foi bem diferente. Cirstea impôs sua potência e foi melhor do começo ao fim do jogo. Venceu por 6/2 e 7/5.

O jogo deixou claras as limitações da brasileira, que chegou ao top 100 com esforço e somando pontos principalmente em torneios pequenos. Para dar um passo mais largo, agora, precisa seguir evoluindo. É preciso encontrar alguns quilômetros por hora a mais em seu saque e seu forehand. Talvez seja difícil chegar ao top 50 contando “apenas” com sua regularidade e dias ruins de adversárias. Com apenas mais duas semanas de WTAs no saibro, o calendário de Teliana mostrará suas intenções. Ela continuará nos torneios de US$ 25 mil na terra batida ou ousará eventos maiores, ainda que no piso sintético?

Bellucci_RG_col_blog

Sobre Bellucci, há pouco a acrescentar ao que escrevi após sua vitória na estreia. Desde o início da carreira, o paulista não consegue imprimir regularidade em seu tênis – até as melhores de suas temporadas foram recheada de derrotas decepcionantes. Não que a inconstância tenha sido fator decisivo na derrota diante de Fabio Fognini, na segunda rodada (63, 6/4 e 7/6). O italiano foi bastante superior em boa parte do encontro. Ainda assim, Bellucci teve uma chance aqui e outra ali. Uma delas poderia ter dado novo rumo ao jogo. Mais uma vez, porém, sua inconstância pesou. Às vezes com um erro de devolução de segundo saque, às vezes com um golpe afobado. A escolha ruim de jogadas em momentos importantes anda se faz presente.

Sua escolha de calendário segue ousada. Tentará o quali de Wimbledon e, depois, os qualis de Stuttgart e Hamburgo. Gstaad e Kitzbuhel também estão nos planos – embora seja difícil imaginar Bellucci disputando os quatro torneios de terra batida. E vale lembrar: também (não só por isso!) pelas incertezas trazidas por seu ranking, o número 1 do Brasil vem mudando planos constantemente. A última alteração resultou em um período de preparação em Madri, onde as condições de jogo não são nada parecidas com as de Roland Garros. Alguns anos atrás, nem faz tanto tempo assim, os jogadores até pediram que o Masters 1.000 espanhol tivesse sua data invertida com a do Masters de Roma. Assim, estariam mais bem adaptados para o Slam do saibro. Não por acaso, a solicitação foi atendida pela ATP.

Sem ir na toalha (para ler em até 20 segundos):

- Bruno Soares e Alexander Peya foram eliminados por Andre Begemann e Robin Haase: 5/7, 6/4 e 6/4. O resultado põe em risco o ranking de brasileiro e austríaco. Com mais uma vitória, Marcelo Melo, que joga ao lado de Jonathan Erlich, passará a ser o duplista número 1 do Brasil. Lukasz Kubot e Robert Lindstedt serão os próximos adversários da dupla.

- Depois de vencer a estreia nas duplas mistas, Bruno Soares, em entrevista ao Bandsports (sempre em cima do lance!), mostrou-se bastante chateado com a eliminação nas duplas. Ainda assim, triunfou ao lado de Yaroslava Shvedova sobre Casey Dallacqua e Jamie Murray: 6/3, 5/7 e 10/6. Em busca de um lugar nas quartas, brasileiro e cazaque enfrentarão a dupla francesa composta pelo casal Alizé Lim e Jeremy Chardy.

Coisas que eu acho que acho:

- É legal ver Marcelo Melo vencendo ao lado de um tenista que não seja Ivan Dodig, seu parceiro habitual. Já passou da hora de Melo, que já cansou de mostrar que pode vencer com vários parceiros, ser mais valorizado.

- É igualmente bacana ver André Sá de novo nas oitavas de final de um Grand Slam. É apenas a terceira vez desde 2009 (quando ainda atuava ao lado de Marcelo Melo) que o veterano alcança a terceira rodada. Desta vez ao lado do jovem Mate Pavic, de 20 anos, a disputa por uma vaga nas quartas será contra os espanhóis Marc López e Marcel Granollers.

- Este é meu último fim de semana de folga até o dia 14 de julho (sim, julho, vocês leram direito) e pretendo passá-lo com a família. Não sei o quanto conseguirei ver de Roland Garros até segunda-feira. Prometo voltar a escrever assim que puder.