Saque e Voleio

Boia fria, servente de pedreiro e pai de campeã
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Alexandre Cossenza

Entre todos os muitos textos sobre Teliana Pereira desde o fim de semana, o que mais gostei estava na “Folha de S. Paulo” e foi publicado, originalmente, em 24 agosto de 2010. O autor é José Pereira da Silva, pai de Teliana, e o texto foi resgatado por Marcel Merguizo, que reproduziu trechos no blog Olímpicos, que comanda junto ao competentíssimo Paulo Roberto Conde.

Reproduzo abaixo, em itálico, o texto original do pai de Teliana. Antes, porém, vale ressaltar que ele foi redigido a pedido do jornal pouco depois de vir à tona o famoso vídeo em que o então presidente Lula enchia a boca para dizer que tênis é esporte de burguês, tentando desestimular um estudante fã da modalidade. Fora os valores citados, o conteúdo é mais atual do que nunca. E ajuda a explicar, entre outras coisas, por que Teliana é Teliana.

Eu trabalhava na roça, plantava feijão, milho, criava vaca, tudo para consumo próprio ou para conseguir algum dinheiro. No verão, eu trabalhava como boia- -fria, cortando cana no sul de Alagoas, na usina Camaçari, que fica perto de Penedo.
Na época, não tinha a menor ideia do que era tênis. Não conhecia. De esporte, eu só sabia o que era futebol. É o que se joga por lá. E eu era bom. Pelo menos era melhor do que sou no tênis hoje.

Então, em 1991, fui visitar meu irmão que estava morando em Curitiba. Era para eu ficar oito dias, de férias. Mas ele estava trabalhando em uma obra e resolvi ajudá- -lo, até para não ficar sem fazer nada lá. Além disso, fui conseguir um dinheiro.
Fiquei uns cinco dias como servente de pedreiro na obra da academia [de tênis Daniel Contet, no bairro de Santa Felicidade]. Mas fui ficando, ficando e virei funcionário da academia [que foi vendida para o francês radicado no Brasil Didier Rayon, técnico de tênis]. Virei auxiliar-geral da academia do Didier. Fazia de tudo, cuidava do bar às quadras. E há seis anos sou construtor de quadras. Antes, só reformava e vendia material.

Depois de um ano e oito meses, fui buscar meus cinco filhos e minha mulher (Maria Nice) em Pernambuco. Nós morávamos em um povoado chamado Barra da Tapera, que fica na divisa com Alagoas. Tanto que meus filhos nasceram em Santana do Ipanema (AL), pois o custo dos partos lá era mais baixo do que em Pernambuco. Leila, 28, Renato, 25, Teliana, 22, Júnior, 19, e Valdelice, 17, nasceram lá. Depois, em Curitiba, ainda nasceram a Juliana, 13, e o Renan, 11. Hoje Leila trabalha na parte administrativa da academia, Renato joga tênis e ensina outros a jogar, Teliana e Júnior são profissionais. E todos descobriram o que era tênis na academia, me vendo trabalhar, desde pequenos.

A Teliana e o Júnior estão entre os melhores do Brasil hoje, né? Eu tenho muito orgulho deles. Mas não viajo com eles, não, prefiro ficar por aqui, torcendo. Eles ficavam até tarde do lado de fora das quadras, vendo. Depois, começaram a ser boleiros. Ganhavam de R$ 3,00 a R$ 4,00 por jogo. Com o tempo, as pessoas que jogavam na academia davam até roupas, tênis, raquetes para eles começarem a jogar. Foi assim que aprenderam.

Até hoje a Teliana treina com o Didier. O Júnior foi para o Instituto Tênis. Eu também jogo tênis… [risos] Fiquei sabendo do vídeo do Lula. Mas não vi. Acho que ele errou [ao declarar que tênis é esporte de burguesia]. Ele deu uma bola fora, sabe? Igual no tênis. Sempre votei nele, ele é meu conterrâneo. Mas, dessa vez, o Lula exagerou. Tênis não é esporte de burguês. É um esporte normal. E um dos mais legais. Claro que muitas pessoas carentes não têm acesso ao tênis. Mas, se você for ver, hoje, já tem uns 20% [dos praticantes] que não são ricos.

Olha o meu caso. Fui trabalhar na construção de quadras, e meus filhos viraram boleiros. Chegavam a ficar pegando bola em 12 jogos por dia. Para a gente, aquele dinheirinho era importante. O que eles ganhavam era metade da nossa renda. E, se pedir para a Teliana, ainda hoje, ela fica de boleira se precisar. O tênis ensina muito, sabe? Hoje eles se mantêm com o que ganham no tênis. Têm patrocínios. Mas depende muito dos empresários. Se eles quisessem ajudar os atletas, podiam. E não seria mais esporte de burguês…

O problema é que praticamente só construo quadra em casa de rico, chácara, condomínio fechado. Tudo particular. Nesses anos, nunca construí uma quadra pública, ou em escola para crianças jogarem tênis. Nos últimos anos, construí umas 20. As que reformei nem sei quantas foram. E só em escolas particulares. Uma quadra de saibro sai por R$ 45 mil, com iluminação e tudo. A manutenção mensal, muito boa, uns R$ 350. Então, poderia ser feito pelos governos, não?


Quadra 18: S01E02
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Alexandre Cossenza

A incrível conquista de Teliana Pereira em Bogotá, o momento de Rafael Nadal no começo da temporada de saibro europeia e a polêmica de Genie Bouchard na Fed Cup são os principais assuntos deste segundo episódio do podcast Quadra 18.

Como na estreia, estou lá ao lado de Sheila Vieira e Aliny Calejon. Para ouvir o programa, basta clicar acima. Quem preferir pode baixar o arquivo completo neste link ou acessar o podcast pelo iTunes (e não deixe de assinar o feed).

No fim de cada programa, escolheremos algumas perguntas de leitores para responder. Quem quiser participar pode enviar suas questões, críticas e sugestões de preferência via Twitter, incluindo sempre a hashtag #Quadra18. Até a próxima!

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast'', é de longzijun, que possui um site repleto de trilhas livres para qualquer pessoa usar desde que para fins não comerciais. É altamente recomendável para quem estiver pensando em entrar no mundo dos podcasts. As demais faixas deste episódio são chamadas “So Bueno'', “Down the Drain'' e “Game Set Match''. Todas fazem parte da audio library do YouTube.


A lição de Teliana
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Alexandre Cossenza

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É possível. Simples assim. Uma menina que nasceu no sertão de Pernambuco e foi praticamente adotada junto com seus irmãos por um treinador (Didier Rayon) no Paraná, passou por duas cirurgias no joelho quando vivia o melhor momento da vida, voltou a sentir dores cinco anos depois, novamente quando passava por uma ótima fase… E hoje Teliana Pereira é campeã de um torneio de nível WTA.

Foi o primeiro resultado deste porte de uma tenista brasileira desde 1988 (Niege Dias foi campeã em Barcelona naquele ano), mas a ideia deste post não é dramatizar além da conta a história da número 1 do Brasil nem exagerar no tamanho do feito (enorme) de Teliana. Ela não precisa disso.

A intenção aqui é lembrar que a pernambucana de 26 anos nunca desistiu. Nem mesmo sua recuperação da lesão no joelho direito lá atrás, em 2009, parecia sem fim. Teliana enfrentou dificuldades até com plano de saúde. Quando, enfim, voltou a jogar teve também diferenças com a CBT (que cedeu quando ficou claro que ela retornaria ao posto de número 1 do país).

Teliana persistiu, mesmo sabendo que nunca teve o melhor forehand nem o saque mais potente do circuito. Sempre tentou compensar com o físico o que lhe faltou em técnica e potência. Lutou dia sim, dia não, contra adversárias que tiveram (e ainda têm) melhores condições para treinar e viajar pelo circuito.

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Agora, cinco anos depois daquela lesão, Teliana completa duas semanas de dez vitórias e nenhum set perdido. Depois de ser campeã em Medellín, um torneio com premiação de US$ 50 mil (era seu maior título na vida), a brasileira triunfa em Bogotá, onde derrubou nomes como Francesca Schiavone, campeã de Grand Slam e atual 70ª do mundo, Elina Svitolina, 27ª do ranking e cabeça de chave 1 em Bogotá, e Yaroslava Shvedova, 75ª na lista da WTA (os rankings citados aqui são os do início do torneio).

O leitor pode dizer que “a chave era fraca” ou que “o torneio está na contramão do circuito” – as duas afirmações são verdadeiras – mas vale colocar tudo em contexto. Sim, é verdade que Bogotá é um torneio único, jogado na altitude, em condições bem especiais. Mas é preciso lembrar que Teliana passou a maior parte de sua carreira caçando pontinhos aqui e ali em torneios de US$ 25 mil até que conseguiu, no ano passado, disputar os quatro Grand Slams na mesma temporada – feito raríssimo no tênis feminino por aqui.

Um mês e meio atrás, a número 1 do Brasil estava sendo derrotada em Curitiba, nas oitavas de final de um torneio de US$ 25 mil por Paula Gonçalves, número 286 do mundo. Logo, vencer, em semanas consecutivas, os dois maiores títulos da carreira – e um deles, em nível WTA! – é um feito enorme para Teliana Pereira. Ou para qualquer brasileira. Ou brasileiro. Ou sul-americano.

Coisas que eu acho que acho:

– Importante registrar: Bia Haddad, 190 do mundo, e Paula Gonçalves, 278, conquistaram o título de duplas do WTA de Bogotá. Na final, as brasileiras derrotaram as americanas Irina Falconi e Shelby Rogers por 6/3, 3/6 e 10/6.


Um raro feito inédito para Djokovic
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Alexandre Cossenza

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Duas semanas atrás, quando escrevi sobre o título de Novak Djokovic em Miami, citei brevemente sua espetacular temporada de 2011. Naquele ano, Nole chegou invicto a Roland Garros, vencendo o Australian Open e todos os Masters que disputou. Pois sste ano, também campeão em Melbourne, Indian Wells e Miami (embora não mais invicto), o número 1 do mundo já tem uma estatística inédita: ao derrotar Tomas Berdych na final em Monte Carlo, Djokovic tornou-se o primeiro tenista da história a vencer os três primeiros Masters 1.000 do ano.

Em 2011, lembremos, Nole decidiu não ir a Monte Carlo porque sua família era dona do (hoje falecido) ATP 250 de Belgrado, disputado no saibro, na semana seguinte à do torneio do principado. Se jogasse em Mônaco, Djokovic teria que jogar quatro semanas seguidas, emendando com Madri e Roma. Agora, sem a “pressão” de jogar em seu país, já pode voltar a disputar os três Masters da terra batida sem se preocupar com a fadiga.

Não há muito a dizer sobre o sérvio por enquanto – além do que já foi escrito neste blog. Se foi campeão em Indian Wells e Miami sem ser espetacular, ganhou Monte Carlo com sobras, mesmo com boas atuações de Rafael Nadal e Tomas Berdych. O tcheco, aliás, merece destaque por ter sido o único a roubar um set do número 1. Quando conseguiu agredir nas devoluções e atacar com precisão assustadora, Berdych incomodou. No fim, como quase sempre (e como quase sempre sou forçado a escrever), Djokovic foi mais consistente e triunfou.

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O contente Rafa

Para Rafael Nadal, a derrota nas semifinais no principado está abaixo da média de seu currículo, mas o tênis mostrado na semana é uma série de passos à frente em relação às atuações instáveis do início de ano. Em Monte Carlo, Nadal foi mais Nadal até quando perdeu sets para John Isner e David Ferrer.

Primeiro porque a combinação saibro pesado + bolas altas de Nadal não é tão ruim para o americano quanto parece. As bolas altas pouco incomodam um cidadão de 2,08m de altura e, se o saque perde eficiência na velocidade da quadra, Isner ganha tempo para subir à rede. Com Nadal posicionado quase em Marrocos para devolver o saque, o grandalhão podia sacar angulado e chegar bem na rede para volear curto ou longo, com a quadra aberta.

Além disso, Ferrer provavelmente é o tenista que, hoje em dia, mais exige consistência na troca de bolas de um adversário – fora Djokovic, é claro. E se é verdade que Nadal perdeu a chance de fechar a partida em dois sets, também é inegável que seu terceiro set foi competente do início ao fim.

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O despreocupado Federer

Quanto a Roger Federer, a ida a Monte Carlo rendeu pouco. A derrota nas oitavas de final, diante de um eficiente Gael Monfils, lhe deixou mais longe de Novak Djokovic, que agora tem 5.460 assustadores pontos de vantagem na liderança do ranking mundial. Tampouco é possível rotular como o início ideal para uma boa preparação no saibro europeu.

O lado positivo é que Federer não parece preocupado com o resultado em um torneio que ele preferiu nem jogar em um punhado de ocasiões. Embora não admita publicamente, o atual número 2 do mundo já não parece disposto aos esforços necessários para triunfar na terra batida europeia, que eventualmente requer partidas longas e com pouco tempo de intervalo entre elas.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale apontar a curiosidade para dar uma noção melhor do que significa a vantagem de Djokovic na liderança do ranking. Após Monte Carlo, são 5.460 pontos de diferença entre ele e o número 2, Roger Federer. E do suíço até o outro suíço, Stan Wawrinka, atual décimo do ranking, são 4.890. Não é pouco.

– Nadal volta para número 4, o que lhe coloca numa posição melhor antes de Roland Garros – evitando um possível confronto com Djokovic logo nas quartas. Não parece provável, contudo, que ele chegue a Paris como número 2. Entre o espanhol e Roger Federer há, atualmente, 2.950 pontos.


Liberaram a torcida
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Alexandre Cossenza

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O número de fãs de tênis vinha caindo na Conferência BIG 12, uma das maiores do esporte universitário nos Estados Unidos. Em um ambiente onde os fãs – em sua maioria, alunos – gostam de ir aos estádios tanto pelos jogos quanto pela farra, as regras de comportamento fazem do tênis uma modalidade pouco atraente. Ou melhor, faziam. A Big 12 resolveu abolir as regras tradicionais e estabeleceu que os fãs de tênis podem se comportar como em qualquer outro esporte.

O que aconteceu? Uns gritando na hora exata em que um atleta executa seu golpe, outros provocando um tenista que recebe instruções do técnico, uma torcida organizada, enfim… Uma bagunça só, bem do jeito que esse público gosta. O “Wall Street Journal” fez uma reportagem bem interessante sobre a novidade. Leia aqui e veja no vídeo abaixo.

A preocupação da Big 12 com a queda de interesse no esporte é justificada. Cerca de 600 universidades encerraram suas atividades com o tênis desde os anos 70. E não foi só a torcida liberada que mudou. Hoje em dia, há sessões com pizza de graça e prêmios diversos.

Quanto ao barulho vindo das arquibancadas, nem todo mundo gostou. John Roddick, irmão de Andy e técnico de Oklahoma, não está entre os maiores fãs. Ele ressalta, ainda, a importância de proibir que os fãs gritem coisas do tipo “OUT” quando uma bola vai perto da linha.

Não imagino que algo parecido aconteça num futuro próximo (ou nem tão próximo assim) no tênis profissional, mas a intenção da Big 12 é das melhores: levar mais gente aos jogos de tênis. Provavelmente, o tênis nunca vai chegar aos níveis de popularidade do futebol americano ou do basquete universitário (a foto do início do post é do Final Four), mas e daí? Com mais gente assistindo às partidas, é mais fácil conseguir dinheiro para financiar bolsas de estudo e os programas de tênis nas universidades da conferência. E todo mundo sai ganhando.

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No Brasil, só com iniciativa privada

O país, todo mundo sabe, não tem uma política de esporte escolar, muito menos um trabalho sério para estimular competições e encontrar talentos no âmbito universitário. No tênis, as competições universitárias se resumem ao Circuito de Tênis Escolar Universitário, uma iniciativa do Banco Itaú que, ironicamente, vem sendo combatida pela Confederação Brasileira de Tênis há alguns anos.

A entidade, inclusive, já ameaçou punir clubes, árbitros, treinadores e atletas que participassem do Circuito de Tênis Escolar Universitário, patrocinado pelo Itaú e realizado pelo Instituto Sports, presidido por Danilo Marcelino, parceiro de Nelson Aerts, com quem Lacerda tem diferenças. Uma disputa pessoal que segue atrapalhando o tênis.

O Circuito de Tênis Escolar Universitário, apresentado pelo Itaú por meio da Lei Federal de Incentivo ao Esporte, é uma série de torneios em quatro estados (RS, SP, PR e BA), em quatro categorias de idade, que premia os campeões com uma viagem de duas semanas a Barcelona – com tudo pago – em julho para treinar na Academia Sánchez-Casal, estudar um idioma (espanhol ou inglês) e fazer turismo.

A grande vantagem é que para participar basta estar matriculado em uma escola da rede pública ou particular. Ou seja: não é necessário ser federado nem pagar anuidade (isso, talvez, incomode quem gostaria de faturar com as inscrições mesmo sem tomar iniciativa alguma para estimular a modalidade). As inscrições são feitas no próprio site do circuito (atenção para as datas: algumas categorias têm prazo terminando na segunda-feira).


Quadra 18: S01E01
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Alexandre Cossenza

A vontade sempre existiu (a amizade, idem), mas faltava organizar o formato, encontrar tempo livre e colocar tudo na prática. Hoje, essa ideia sai do papel e nasce o podcast Quadra 18 com as amigas Aliny Calejon e Sheila Vieira, pessoas que gostam de tênis tanto quanto eu – e isso, no fundo, é o mais importante.

Neste episódio de estreia (S01E01), falamos sobre:

– Novak Djokovic e sua superioridade no circuito
– Andy Murray voltará a conquistar um Grand Slam?
– Serena Williams é menos valorizada do que merece ou a WTA atual é fraca?

No fim do programa, em um momento mais descontraído, também falamos sobre os tenistas que odiamos gratuitamente (ou quase isso). Para ouvir, clique acima ou faça o download diretamente deste link!

O podcast está aberto à participação de vocês. Quem quiser perguntar algo, tirar uma dúvida ou levantar uma polêmica, basta enviar sua questão ou sugestão via email (link na barra lateral do blog), Facebook ou Twitter (@saqueevoleio, @sheilokavieira e @alcalejon com a hashtag #Quadra18) para um de nós.


Djokovic 2015: espetacular até quando não é espetacular
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Alexandre Cossenza

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Australian Open, Indian Wells e, agora, Miami. Pela segunda vez na carreira, Novak Djokovic vence os três primeiros torneios grandes de quadra dura em uma temporada. A outra vez que isso aconteceu todo mundo lembra (ou deveria lembrar) muito bem: foi em 2011, quando o sérvio, então à caça de Rafael Nadal no ranking, chegou a 43 vitórias consecutivas e só foi derrotado em Roland Garros – por Roger Federer, nas semifinais.

O ano de 2015 não tem números tão espetaculares para Nole (ainda?). Depois de sofrer reveses em Doha (para Ivo Karlovic) e Dubai (para Federer), o número 1 do mundo encerra Miami com “apenas” 12 vitórias seguidas. E, enquanto Rafael Nadal não encontra seu melhor tênis, Roger Federer evita o calor da Flórida, Andy Murray não tem a regularidade necessária e o resto do circuito ainda não se mostra pronto para desbancar o top 4 consistentemente, o sérvio dispara na ponta do ranking.

A vantagem de Djokovic sobre Roger Federer, atual número 2, é de 4.310 pontos (pouco mais de dois Slams), mas, no momento, o que vem chamando a atenção no circuito é o quanto o sérvio não vem jogando um tênis espetacular. Isso não é uma crítica. Muito pelo contrário. O fato é que Nole já venceu 25 jogos em 2015 e, com uma visão um pouco mais exigente, quem consegue dizer que ele jogou um tênis espetacular-do-começo-ao-fim em mais de meia dúzia?

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Djokovic vem oscilando um bocado entre os jogos e até mesmo durante as partidas. Miami, mesmo com condições mais duras de jogo (calor e umidade), foi um belo exemplo. Desde o set perdido na estreia em um jogo aparentemente sob controle contra Martin Klizan, passando por um set inicial muito ruim contra Alexandr Dolgopolov e chances perdidas contra David Ferrer, até a final em que Andy Murray teve um bocado de chances nos primeiros dois sets. A única apresentação boa do começo ao fim veio na semi, contra John Isner.

O que é espetacular, isso sim, é que Djokovic vem vencendo todos esse jogos. Traduzindo: sua superioridade no circuito é tão grande que lhe permite um bocado de momentos abaixo da média (sua média é altíssima, lembremos, mas o julgamento deve ser proporcional ao nível do tenista). Na final de Indian Wells, contra Roger Federer, Nole saiu de belíssimo início de jogo para um péssimo tie-break no segundo set. Ainda assim, venceu confortavelmente no fim. Não foi muito diferente neste domingo, na decisão do Masters de Miami.

O resumo disso tudo? Hoje em dia, Novak Djokovic é espetacular até errando smashes e fazendo duplas faltas. O circuito inteiro está muito, muito atrás.

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Coisas que eu acho que acho:

– Embora não esteja jogando no nível fabuloso de 2011, Djokovic leva uma vantagem enorme para a temporada de saibro: já perdeu este ano. É um pouco de pressão a menos, algo que nunca pode ser subestimado – especialmente em um momento em que o título de Roland Garros parece mais palpável do que nunca.

– Sobre Andy Murray e suas oscilações – mais mentais do que técnicas -, o lado positivo é que o escocês faz três ótimos torneios justamente nos eventos mais importantes da temporada. Calhou de trombar (e cair!) em Djokovic em todos eles, o que provocou três derrotas. Mas vale lembrar que Môri é o vice-líder em pontos conquistados neste início de ano. São 2.420, contra 4.385 de Djokovic e 1.890 de Berdych, o terceiro colocado. Federer, em sexto nesta lista, somou 1.515, e Nadal, em uma incomum nona posição, acumula 1.015.


Bônus de Nadal
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Alexandre Cossenza

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“O homem é um monstro. Ele não deu uma, não. Ele deu três raquetes. O cara é sensacional mesmo.'' Foi assim que Marcelo Ruschel recebeu, via WhatsApp, a notícia na voz de Bruno Soares. Lembram que uma semana atrás Rafael Nadal havia prometido uma raquete para ajudar o projeto social WimBelemDon? Pois é… Quando encontrou o mineiro em Miami, o ex-número 1 do mundo entregou logo três raquetes e três camisas de jogo. Todas peças, claro, autografadas.

“Raquete nova, último modelo, zerada, autógrafo no cabo, nome dele na raquete… Tudo. Tudo. Sensacional, cara. Fiquei até pasmo quando ele veio com três. Fenômeno. Fenômeno'', contou Soares. A notícia realmente boa é que uma das raquetes já foi arrematada por R$ 25 mil – valor que logo deve entrar na soma do crowdfunding – a vaquinha virtual – Fixando Raízes promovido por Marcelo Ruschel para manter vivo seu projeto social. O fotógrafo gaúcho precisa de R$ 390 mil para comprar o terreno onde mantém as atividades do WimBelemDon. Até a manhã desta terça-feira, o total arrecadado somava pouco mais de R$ 110 ml.

Conversei com Ruschel na tarde desta segunda-feira, e o gaúcho já se mostrava muito mais otimista do que no nosso papo anterior, cerca de três semanas atrás. Com as raquetes estipuladas a R$ 25 mil cada (valor sugerido por Gustavo Kuerten) e as camisas a R$ 5 mil (uma delas também já foi arrematada), o projeto pode conseguir cerca de 25% do valor do terreno só com as peças cedidas por Nadal.

“Eu me sinto muito mais próximo do terreno. Agora já não tenho dúvida de que a gente vai conseguir''.

Mas tem mais. Os dias do Masters de Miami foram generosos com o fotógrafo. Além da ajuda do ex-número 1 do mundo, Ruschel vai receber duas raquetes de Marcelo Melo, mais duas de Thomaz Bellucci e outra do uruguaio Pablo Cuevas. E Bruno Soares, o encarregado de juntar tudo isso, ainda promete tentar a sorte com Andy Murray, Novak Djokovic e Tomas Berdych. Que tenha sorte?

Não conhece a história do WimBelemDon? Leia este post e fique por dentro.
Quer saber como ajudar? Clique aqui para ir até o crowdfunding do projeto.
Quer ajudar ainda mais? Divulgue este post de todas as maneiras possíveis!

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Dentro de quadra

A simplicidade que Rafael Nadal mostrou com um projeto social brasileiro está longe daquela que foi sua marca no circuito durante tanto tempo. Até agora, o espanhol faz uma temporada irregular, com ótimas atuações separadas por um punhado de partidas medianas e até um dia desastroso como o do último domingo, que terminou em derrota para o freguês Fernando Verdasco.

Na coletiva após o jogo, Nadal admitiu que não vem jogando com a calma necessária. Os momentos de nervosismo, que não eram muitos até alguns anos atrás, foram mais frequentes do que o desejado em 2015. O resultado traduz-se em muitas bolas sem profundidade, mais duplas faltas do que de costume e erros não forçados. O primeiro saque também vem deixando a desejar, bem distante do nível que Nadal atingiu em 2010 e 2013, quando ganhou o US Open.

Há quem veja a chegada da temporada de saibro como o momento em que Nadal finalmente vai combinar seu costumeiro tênis de altíssimo nível com uma atitude mental mais estável. É preciso lembrar, porém, que o espanhol já não fez uma bela temporada no saibro europeu em 2014 nem mostrou nada de especial em 2015, quando caiu na semifinal no Rio de Janeiro (perdeu para Fabio Fognini) e foi campeão em Buenos Aires (jogando apenas contra argentinos).

Não se pode deixar de levar em conta que, talvez por opção, talvez por necessidade e mais provavelmente por uma combinação de ambos, Nadal tenta jogar um tênis muito mais agressivo hoje em dia. No saibro, ele ainda opta por um estilo de menos risco – mas nem tanto. Na quadra dura, contudo, a estratégia não funciona consistentemente desde o US Open de 2013. Até no Australian Open do ano passado, quando avançou à final, Nadal teve atuações irregulares (sim, uma bolha na mão e a lesão nas costas tiveram sua parcela de culpa).

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A grande questão que parece incomodar o ex-número 1 é um dilema antigo, vivido por tantos e tantos tenistas que tentam sair de um tênis de porcentagem para um estilo mais agressivo. Atacar mais significa errar mais e, consequentemente, dar mais pontos de graça. O ponto é que nem todos tenistas se mostram mentalmente prontos para ceder tanto a um adversário. A nova postura exige um condicionamento psicológico. A margem para dias ruins diminui, e o número maior de erros frequentemente abala a confiança (e a tranquilidade!) de um atleta.

Mentalmente, jogar um 30/30 depois de dar dois pontos de graça é bem diferente de disputar um ponto com o mesmo placar, mas sabendo que o oponente teve de lutar pelos dois pontos que conquistou. O raciocínio do atleta deixa de ser “ele não vai conseguir jogar quatro pontos nesse nível” para “já dei dois pontos de graça, não posso errar mais.” Talvez não pareça tanto para quem nunca disputou um torneio. Para quem vive disso, entretanto, é uma diferença e tanto.

Já aconteceu com Jelena Jankovic e, mais recentemente, com Caroline Wozniacki, embora em medidas diferentes. Mas o quanto essa mudança de mentalidade está afetando Nadal? Só ele pode dizer. Joga a favor do espanhol algo em que ele parece acreditar cegamente, como disse em Miami, depois de ser eliminado. “Não tenho nada a perder. Neste ponto da minha carreira, já ganhei o bastante para dizer que não preciso ganhar mais, mas quero ganhar. Quero continuar competindo bem. Quero continuar tendo a sensação de que posso competir em cada torneio que jogo. Tenho a motivação para isso.”


Nadal dá raquete para ajudar a salvar projeto brasileiro
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Alexandre Cossenza

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Um projeto social gaúcho premiado internacionalmente corre sério risco de precisar fechar as portas, e Rafael Nadal se prontificou a ajudar. O tenista espanhol, ex-número 1 do mundo e dono de 14 títulos de Grand Slam, cederá uma raquete que será leiloada pelo projeto WimBelemDon na campanha de crowdfunding (a famosa “vaquinha”) chamada Fixando Raízes.

O WimBelemdon, que existe desde 2003, é capitaneado pelo fotógrafo Marcelo Ruschel, que trabalhou em mais de 30 confrontos de Copa Davis e é dos nomes mais conhecidos no tênis brasileiro. A iniciativa já recebeu três vezes o Prêmio Tênis e, no ano passado, foi reconhecida pela ATP com o prêmio Aces For Charity. Muitos dos melhores tenistas brasileiros apoiam anualmente, tamanha é a relevância de Ruschel e de seu WimBelemDon.

Este ano, no entanto, o gaúcho sofreu um susto. O dono da quadra alugado que recebe as atividades do WimBelemDon sinalizou que precisará vender o terreno. Ruschel, então, viu-se na obrigação de tentar adquirir o local permanentemente. Por isso, deu início à vaquinha virtual. Até agora, já juntou R$ 89 mil, uma bela quantia, mas que ainda não chega nem a 25% dos R$ 400 mil necessários para a aquisição. Por isso, tenistas e ex-tenistas brasileiros vêm ajudando.

Nesta semana, durante o Masters 1.000 de Miami, Bruno Soares vai à caça. Além de receber a raquete de Nadal – prometida desde o Rio Open, quando o mineiro fez o pedido -, o duplista tentará a sorte com a elite do circuito. Nomes como Federer, Djokovic e Murray estão na pauta. “Apesar de eu ter um relacionamento com esses caras, tem que explicar o propósito. Como é para um projeto social, eles (tenistas) costumam ser bem legais quanto a isso, mas tem que ser conversado, às vezes até com empresário. Isso eu vou fazer na primeira semana aqui em Miami. É correr atrás, explicar a situação e contar com a compreensão da turma.”

Entre os brasileiros, muita gente colaborou. Camisas, livros e raquetes vieram de nomes como Gustavo Kuerten, Bia Haddad, Gabriela Cé, Teliana Pereira e Fernando Meligeni. Fino, aliás, também dará uma clínica a quem contribuir com o projeto. Uma raquete cedida por Feijão após a Copa Davis também foi adquirida em poucas horas. Só que ainda falta muito, e o prazo para a compra do terreno se encerra no dia 30 de junho.

Por isso, para ajudar a divulgar a campanha e mostrar um pouco mais sobre a importância do WimBelemDon e a história de Marcelo Ruschel, fiz a entrevista abaixo com o fotógrafo gaúcho. Leiam, passem adiante e, se puderem, ajudem clicando neste link da vaquinha virtual.

Vamos começar lá de trás? Como começou sua história com o tênis?
Eu fui criado do mais tradicional clube de tênis daqui de Porto Alegre, que é o Leopoldina Juvenil. Passava mais tempo lá do que em casa, então todos meus amigos jogavam tênis. Eu tive aula, mas nunca tive muita paciência. Aprendi a jogar, mas nunca pratiquei. A fotografia era hobby do meu avô, que me criou. Com 6 anos, ganhei minha primeira máquina, uma Kodak Instamatic. Aí entra a paixão pela fotografia. Algumas vezes eu fotografava os amigos jogando tênis, surfando no verão… Eu sempre curti muito a fotografia.

E quando isso virou profissão? Quando entrou o tênis?
Quando eu já estava decidido a virar fotógrafo profissional, houve a coincidência do início da Pro Tennis (uma das maiores promotoras de torneios do Brasil). Teve uma Copa Itaú, e um dos caras do clube sabia da minha paixão pela foto e insistiu: “por que tu não faz umas fotos, depois expõe aqui e vai vender, vai ganhar dinheiro…” Eu falei “essas coisas não vendem, ninguém vai comprar.” Ele insistiu e eu fiz isso. Na verdade, não vendeu quase nada, foi muito engraçado (risos). Mas o que aconteceu? O Ennio Moreira, o sócio dele e a jornalista que era editora precisavam de um free lancer fixo. Chamaram, e eu adorei, né? Já comecei minha carreira ali participando de todo o processo, vendo como se faz um layout para depois fazer o fotolito para ir para a gráfica. Eu acompanhava por paixão pela história, além de ter a responsabilidade de ser o fotógrafo do Jornal do Tênis, que circulava em todo Brasil. Depois entrou o João Pires na história. Ele me chamou a primeira vez para fazer um torneio com ele, aí todo evento grande da Koch Tavares ele me chamava. Beach soccer, vôlei de praia… Eram eventos grandes que o João Pires precisava de mais gente. Comecei a fazer não só no Rio Grande do Sul, mas em todo Brasil.

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E você acabou “fazendo” umas tantas Copas Davis. Quantas foram?
A gente ainda brincava que eu queria bater o Thomaz Koch (que participou de 44 confrontos). Eu não cheguei lá, mas acho que fiz 34 ou 35.

Sobre o WimBelemDon, quando veio a vontade de montar um projeto?
Essa data é complicada, eu não tenho muita noção. Sempre fui muito inquieto, sempre fui atrás das coisas, das ideias, de sonhos. Quando eu descobri que era fácil fazer as coisas, talvez uma outra linha do idealismo…. Talvez quando eu fiz trabalhos ligados a meio-ambiente. Sempre fui um defensor, não sei se dá para chamar de “ecologista”. Fiquei quatro anos como voluntário em um projeto ligado à baleia franca. Antes disso, totalmente sozinho, fiz um ensaio fotográfico na menor reserva ecológica do Brasil. Aliás, acho que fui o único fotógrafo que conseguiu permissão para ir na Ilha dos Lobos. Fica na praia de Torres. Ainda hoje vêm leões e lobos marinhos para se alimentar. Eles habitam aquela ilha, que é menor do que um campo de futebol. Fiz essa exposição, que ficou num dos grandes shopping centers daqui de Porto Alegre, foi um sucesso e foi aí que me dei conta, talvez…
Porque não era uma simples exposição de fotografia. Eu estava trabalhando ali com educação ambiental. Mais ou menos 70% dos gaúchos que visitaram aquela exposição não acreditavam que aquilo era no Brasil.

E isso mexeu com você?
Senti a obrigação de levar isso adiante, de levar a fotografia para educar. De usar a criatividade para educar, na verdade. Não é nem a fotografia. Quando vi uma notinha no Correio do Povo que mais um leão marinho foi encontrado morto com um tiro na cabeça, me senti que tinha que levar essa exposição adiante. Levantei essa bandeira, a exposição esteve em cinco capitais, cidades do interior do Rio Grande do Sul… Fiz um abaixo assinado pedindo proteção para a menor reserva ecológica do Brasil, que não tinha nem um barco para cuidar da ilha. Eu meio que fiz tudo isso sozinho. Quando eu vi, estava na frente do ministro Rubens Ricupero. Movimentei muita coisa e aí que descobri o poder da transformação. Fiz por instinto e, a partir daí, entrei no projeto de baleia e, por ter essa ligação que tu conhece com o tênis, que durou trinta e poucos anos, eu passava por essa quadra abandonada e achava que dava para fazer algo legal com o esporte, com educação. Mas não tenho noção de quanto antes começou.

O projeto, oficialmente, iniciou quando?
A gente considera o ato de assinar o contrato de longo prazo com a quadra (o que aconteceu em 31 de outubro de 2000). Mesmo não tendo ideia de como eu ia fazer, a gente considera isso o início oficial do projeto WimBelemDon. Eu já tinha até o nome. Na minha cabeça, nas minhas viajadas, eu acabei fazendo essa brincadeira com o nome do bairro.

Que é Belém Novo, em Porto Alegre…
Belém Novo é uma região afastada do centro de Porto Alegre. O gaúcho tem o hábito de achar que é muito longe, mas esse muito longe seria “do lado” em São Paulo. Fica a 30 quilômetros do centro da cidade. Em Porto Alegre, que tudo é perto, as pessoas acham aqui o fim do mundo. Foi uma vila pesqueira em 1930, depois começou a virar uma região de balneário, porque todos os bairros da zona sul de Porto Alegre foram, um dia, praia de rio. Depois, a cidade vai crescendo e vai se misturando como periferia. Hoje, ainda é um bairro muito bonito. É o único espaço que tem para onde a zona sul de Porto Alegre crescer. Hoje, tu anda por aqui e ainda tem pequenas propriedades rurais, parece que está no interior. Estão vindo muitos condomínios para cá. Mas, evidentemente, não sei há quanto tempo atrás, começou a ter aqueles bolsões de miséria. Vários becos, bastante pobreza, tem o esquema do crack, tráfico, essas coisas.

O projeto, hoje, atende 100 crianças. No começo, eram 40. Como era o processo para receber essa criançada lá no começo?
No início (as atividades começaram em março de 2003), por falta de know how, a gente pediu ajuda na maior escola do bairro, que é uma escola estadual. A gente achava que a escola conseguiria identificar as crianças mais necessitadas, em situação de vulnerabilidade social, mas vieram algumas crianças que não precisavam estar ali, que poderiam estar pagando uma academia. Tinha filho do dono da lotérica, filho do não-sei-do-quê, enfim… Mas a criança não tem culpa. Se você trabalha com inclusão social, ela já está, fica. Isso a gente foi acertando aos poucos. Hoje, já tem um critério rigoroso. A gente segue a Lei Orgânica da Assistência Social, então a família tem que preencher uma ficha, trazer todos os comprovantes de renda, de residência, dizer se a casa é própria ou alugada… Já tivemos, nesse caminho, muita mentira porque a mãe ou o pai queria porque queria ensinar tênis para o filho, sabe? Hoje, a gente tem psicólogos que fazem visita domiciliar para ver as condições da família. Aí entra outra história. Já fizemos visita domiciliar em todos, e os psicólogos começam a entender melhor as pessoas para poder interagir melhor e ajudar melhor a criança e a família.

Qual foi a maior dificuldade no início?
Talvez, Alexandre, com toda sinceridade, se eu soubesse das burocracias e do grau de dificuldade para fazer um projeto social quando eu aluguei lá, intuitivamente, a quadra, talvez eu não tivesse começado. Mas acredito que todo projeto social começa assim, com muita dificuldade. Só com o coração, sem nada de papel. Se tu não for sério, tu pula fora, que nem várias celebridades, inclusive esportivas, que brincam de fazer projeto social. Se tu for sério, vai tentar fazer alguma coisa, se dedicar a fazer alguma coisa. Hoje, para mim, pessoa física, o projeto é tudo. Muito mais do que um dia foi a fotografia.

Por isso esse tempo de mais de dois anos entre o aluguel da quadra e o início das atividades?
Foram dois anos e meio. Eu não sabia como fazer. E essa decepção foi porque pessoas que já tinham feito projetos ou tinham noção – que eu, como fotógrafo, não tinha – queriam me vender know-how. Eu já achava um absurdo. Questão de conceito. É um projeto social. As pessoas têm que se unir e, na minha cabeça, não existe concorrência. As pessoas têm que se ajudar. Na minha visão, até hoje, tem espaço para ter projeto social, usando tênis ou não, em qualquer esquina, em qualquer bairro. Hoje, tem muita gente que pensa ao contrário e leva conceitos do empresariado para um projeto social. Não é bem assim. Projeto social não visa lucro. Tu não pode ter os mesmos conceitos de uma organização com fins lucrativos. Não é por aí.

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E hoje o WimBelemdon é uma ONG respeitada e premiada…
Era para ser uma ONG desde o início, mas por desconhecimento, por cair numa errada de um advogado que auxiliou, o estatuto era totalmente errado. Eram só quatro pessoas. Aí tu não consegue formar, como a lei exige, um conselho deliberativo, um conselho fiscal. Daí tu não consegue captar recurso, se registrar nos conselhos de assistência social, de educação, enfim… Para poder buscar, participar de editais, captar recurso. Tu não consegue ser sério se tu for sozinho. Em algum momento da tua história, e isso eu digo para qualquer projeto social, tu tem que tentar te profissionalizar.

Quando foi o grande passo para a profissionalização?
Foi quando a gente quase fechou, em 2008. A gente estava totalmente envolvido no projeto e consciente da importância que aquilo ali era para as crianças, e a gente resolveu que “não pode fechar”. Foi bem no ano da crise econômica internacional, lembra? Em 2008, 2009. A gente perdeu o único mantenedor. Para ti ter uma ideia do absurdo, a gente ganhava R$ 10 mil por ano da Copesul. A gente ficou sabendo por terceiros que naquele mês, em dezembro, eles não iam continuar. Ou seja, aquela “fortuna” de R$ 10 mil para o ano seguinte eu já não ia ter. Na minha desorganização, eu ficava botando dinheiro do meu bolso. A minha esposa que ficava “ó, vão cortar a luz”, aí eu “toma aqui” e entrava no cheque especial (risos).

Hoje em dia, até a questão do terreno aparecer, estava tudo 100%?
Hoje, a gente está num nível de organização que, para ti ter uma ideia da diferença, o projeto é diário, são cento e poucas crianças, são 15 funcionários com carteira assinada, trinta e poucos colaboradores ao todo, as crianças têm lanche todo dia, almoço todo dia, fora várias atividades. O tênis a gente usa como um meio, uma ferramenta de ele, sem perceber hoje porque está brincando, levar bons valores para a vida inteira. A gente usa esse gosto pelo tênis para produzir outras atividades, que são inglês, leitura, matemática, português, cinema… Tem uma oficina de bem-estar, já há dois anos, que é fantástica. As crianças aprendem a meditar, respirar, a se concentrar…

De onde vêm os recursos para manter o projeto?
Hoje, quase 90% do dinheiro que mantém o projeto WimBelemDon vem do imposto de renda. Vem de alguma pessoa física ou jurídica que não quer deixar, por menor que seja a porcentagem, que esse dinheiro de imposto de renda vá todo para Brasília. Então essas pessoas tentam destinar para alguma causa.

Só que não dá para comprar o terreno assim, né?
Hoje, aqui no Rio Grande do Sul, tu não consegue botar num projeto de Lei de Incentivo Fiscal a aquisição de um bem imóvel. Então qual é a empresa ou pessoa física que vai tirar do bolso R$ 400 mil e dizer “toma, Marcelo, compra o teu terreno”? Não tem. Ninguém tem verba de marketing tão grande e que vai investir 100% daquela verba na aquisição de um terreno de um projeto social, que, infelizmente, não é prioritário para aquela empresa.

Quando veio a ideia do crowdfunding?
Fui fazendo cursos e workshops de crowdfunding, vendo alternativas, só que a maioria dos cases de sucesso não tem um valor tão alto. Na nossa plataforma, o projeto social que mais captou foi R$ 140 mil. Estamos tentando outras maneiras, outras fontes, mas já tive alguns “nãos”. Eu sei que é difícil, principalmente porque tu sabe como está o pavor, o pânico no Brasil em função do mercado. É greve de caminhoneiro, vai faltar produto, inflação subindo… Tá complicado, meu amigo. As empresas estão com o freio de mão puxado. Não sei o que vai acontecer, mas eu não tinha outra alternativa. O contrato que a gente fez de compromisso de compra e venda, que ele (dono do terreno) me deu exclusividade na compra e fixou o preço, vai até 30 de junho. Não quer dizer que ele vá vender para alguém no dia seguinte, mas é o que eu digo: “só vou pensar no que fazer se não der quando não der.” Porque a tua mente vai viciando se tu pensar só nas coisas negativas. Tu tem que pensar que vai dar certo, botar toda tua energia no “vai dar certo”. Não posso pensar na hipótese de dar errado. Se der errado, vou correr para resolver da melhor maneira possível, mas agora 110% da minha cabeça tem que estar voltada para dar certo, concorda?

Wimbelemdom_JeffersonBotega_blog

 


Thomaz Bellucci, o tenista que o Brasil ama odiar
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Alexandre Cossenza

Bellucci_Davis_Andujar5_blog

O brasileiro, especialmente aquele que vê casualmente qualquer esporte que não seja futebol, gosta de criticar. O alvo preferido é o árbitro, que invariavelmente rouba o Brasil. Se não tem árbitro, tem sempre um adversário desonesto, violento, catimbeiro, antiesportivo ou até puxa-saco do(s) juiz(es). O brasileiro também gosta de culpar “o sistema”. O campo é horrível, a iluminação é péssima, a torcida “deles” é hostil e a federação nunca permitiria algo assim no Brasil. E, quando tudo se esgota, tudinho mesmo, o brasileiro reclama do brasileiro. É aí que entra a figura de Thomaz Bellucci. Apresento abaixo dez provas:

Não conheço as pessoas que escreveram os tuítes acima, não sei com que frequência acompanham esportes nem tenho a intenção de desqualificá-las. Os tuítes estão aqui apenas para dar substância ao que escrevo no primeiro parágrafo. O brasileiro “médio” gosta de reclamar do brasileiro (e isso nem vale só para o esporte, mas essa discussão fica para outro dia). Um dos autores acima, inclusive, para reclamar de Bellucci, criticou dois ginastas campeões mundiais, um cavalo campeão olímpico e uma levantadora campeã de Grand Prix e medalhista olímpica. Mas não é só ele. Já vi até um narrador de canal de esportes dizendo que o paulista deveria se aposentar e jogar sinuca.

Mas eu divago. O objetivo aqui é falar de Thomaz Bellucci e de como o brasileiro ama odiá-lo. Primeiro, aos fatos: o paulista já foi número 21 do mundo, conquistou três títulos no circuito mundial e passou mais de dois anos ininterruptos entre os 40 melhores do mundo. Até o último fim de semana, Bellucci somava 16 vitórias e dez derrotas em jogos de Copa Davis. Se você sabe alguma coisa de tênis, deve reconhecer (atenção: sem precisar comparar com ninguém!) que é um dos melhores currículos da história do tênis brasileiro.

Mais fatos: o paulista, hoje com 27 anos, é um tenista inconstante, que alterna momentos excelentes com sequências pavorosas. Bellucci não é só irregular tecnicamente. Aliás, nem oscila tanto assim em seus golpes. O aspecto mental de seu tênis é o que mais varia (e nem oscila tanto assim em Copa Davis). Sim, o atual número 2 do Brasil perde um bocado de chances e jogos ganháveis. E sim, Bellucci já desistiu mentalmente de partidas que não estavam tão perdidas assim (isso, aliás, também não acontece em jogos de Copa Davis).

Com um olhar superficial, é difícil entender como um atleta com golpes tão sólidos varia tanto. Até Rafa Nadal, em sua recente passagem pelo Rio de Janeiro, disse que não sabia por que Bellucci não tinha uma ranking mais alto. Mas tênis é uma combinação de técnica, mental e físico – outro ponto em que o paulista precisa evoluir. Atualmente no 85º posto do ranking mundial, Bellucci não consegue combinar todos esses ingredientes com a frequência necessária para brigar com os vinte primeiros da lista da ATP. É preciso mais.

Ainda assim, é admirável que um tenista com “tantas” falhas tenha alcançado tanto na carreira – e esse tanto inclui mais de US$ 3 milhões em premiações (sem contar a verba de patrocinadores). É um feito invejável. Por isso, me incomodou ler tantas críticas durante os últimos dias, enquanto o Brasil enfrentava a Argentina.

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Logo na Copa Davis, em que Bellucci costuma tirar o melhor de seu tênis. Nessa mesma competição, a “Copa do Mundo do Tênis”, Bellucci soma uma linda virada (perdia por 2 sets a 0) sobre Alejandro Falla, da Colômbia, uma vitória memorável em cima de John Isner, em quadra dura e fora de casa, e os dois recentes triunfos sobre a Espanha que colocaram o Brasil de volta na primeira divisão.

Só que reclamar é mais fácil do que clicar aqui ou ali para se informar. Pouco importou, aparentemente, que Bellucci chegou a Buenos Aires em má fase, vindo de quatro derrotas seguidas. Ou que Bellucci fosse enfrentar dois adversários de alto nível (Leo Mayer, 27º do mundo, e Federico Delbonis, 79º). Ou que a quadra propositalmente muito lenta fosse favorável aos tenistas da casa. Ou, ainda, que a torcida barulhenta fosse fazer diferença (como fez em São Paulo, em 2012, quando Bellucci derrotou o mesmo Mayer).

Nessas horas, o que importa para muitos é a fama – justa ou não. Quando Feijão, em uma atuação memorável, perdeu o quarto jogo para Leo Mayer depois de 6h42min, Bellucci, aquele mesmo que foi festejadíssimo em setembro, quando até salvou match point e comandou a vitória brasileira em cima da Espanha, voltava a ser o Bellucci sem raça, perdedor, amarelão. Porque Bellucci é, hoje mais do que nunca, aquele tenista que o país ama odiar.

Coisas que eu acho que acho:

– O Twitter é prova. Eu mesmo sou um dos primeiros a criticar quando Bellucci deixa de acreditar em um jogo e entrega metaforicamente os pontos antes da hora. Também sempre questiono seu preparo físico, responsável por um punhado de derrotas – também antes da hora. Mas critico porque ele é “sem sangue'', como dizem alguns? Ou porque ele está desonrando o país, talvez? Nem um nem outro. Apenas aponto o óbvio: que Bellucci tem golpes para fazer muito mais e que ganharia um punhado de jogos a mais se conseguisse administrar melhor os aspectos mental e físico.

– Nem o mental nem o físico, atualmente, faz de Bellucci, por definição, um perdedor, um amarelão, um tenista sem raça. A página da ATP está lá, com todos resultados, para provar. O site da Davis também tem tudo arquivadinho. Basta querer saber.

– Respeito quem discorda (educadamente). Há quem, mesmo lendo tudo isso que escrevi, vá continuar achando que Bellucci é um péssimo tenista. Tudo bem. Só que vale uma pergunta: se Bellucci é tão, mas tão ruim assim, como chegou a número 21 do mundo? Será que Bellucci é uma espécie de gênio por ter ido tão longe sendo tão ruim? Será que o paulista é o tenista mais sortudo da história? Será que conseguimos uma resposta?