Saque e Voleio

Sobre momentos, tendências e teorias apocalípticas
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Alexandre Cossenza

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Rafael Nadal perdeu para David Ferrer: 7/6(1) e 6/4. A frase anterior, contudo, diz pouco. Analisemos o contexto. Nadal perdeu para Ferrer no saibro, algo que não acontecia desde 2004, e foram 17 partidas nesse período! Tem mais: Nadal perdeu para Ferrer em Monte Carlo, onde o número 1 do mundo já foi campeão oito vezes e acumulava apenas duas derrotas em toda carreira. E não acabou: Nadal perdeu para Ferrer cometendo 44 erros não forçados. Não me lembro de ter visto tantas falhas de Nadal na terra batida em dois sets.

Quem lê o blog, sabe que passo longe de adotar as teorias apocalípticas – aquelas, por exemplo, que aposentaram Federer meia dúzia de vezes -, mas acho que vale ao menos uma reflexão o raro resultado desta sexta-feira. Nem tanto no que diz respeito ao status da carreira de Rafael Nadal, mas na questão mais, digamos, momentânea, que é a forma do número 1 do mundo no início da temporada europeia de saibro, a parte mais importante de seu calendário.

Há pelo menos duas maneiras de encarar a atuação de Nadal. A primeira delas é a simples constatação de que foi um dia ruim – e os 44 erros são prova disso. Combinado a uma atuação competente, embora nada espetacular, de David Ferrer, o desempenho abaixo da média de Nadal resultou em uma derrota por 2 sets a 0. Em uma visão otimista do cenário, é só o primeiro evento de saibro na Europa, o espanhol defendia “apenas” o vice-campeonato e resta bastante tempo para que ele calibre seus golpes e chegue em forma a Roland Garros.

Um segundo modo de ver o jogo não é tão animador. Sim, é verdade que Nadal jogou mal, mas também é inegável que ele já teve dias abaixo da média em Monte Carlo e sempre conseguiu sair de buracos (oito títulos consecutivos, de 2005 a 2012, são prova disso). Mais: não é seu primeiro dia ruim em 2014. Depois da bolha e da lesão nas costas sofrida em Melbourne, Nadal fez um Rio Open abaixo da média (o título é consequência/outra prova de sua superioridade no piso), sofreu uma queda precoce em Indian Wells e foi vice em Miami, com uma final um tanto decepcionante. Não é a melhor das temporadas para o homem.

Entretanto, como sempre quando envolve tenistas desse nível, a velha ressalva se faz necessária. Nadal, assim como Federer e Djokovic, já fez campanhas impecáveis, temporadas que merecem dúzias de adjetivos. Quando nem tudo acontece conforme esses padrões super-humanos, é normal que fãs e críticos levantem pontos de interrogação e teorias apocalípticas. Talvez não seja para tanto, mas vale a constatação de que o momento de Nadal e a ótima fase de Djokovic parecem conspirar para levar o trono de número 1 do mundo de volta para a Sérvia.

Coisas que eu acho que acho:

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- Sem querer comparar, mas inevitavelmente comparando, Djokovic fez um começo de jogo abaixo da crítica e, aos poucos, encontrou uma maneira de derrotar Guillermo García-López. Não, GGL não é David Ferrer, mas fez um grande jogo até o fim do segundo set. Teve um 15/40 e sacaria em 4/3 no segundo set se tivesse convertido um break point. O atual campeão de Monte Carlo, contudo, foi brilhante a partir desse game e arrancou para a vitória por 4/6, 6/3 e 6/1. Não é todo mundo que lembra, mas Nole passou aperto em um punhado de jogos naquela sequência de 43 vitórias. Sempre elevou seu jogo nos momentos mais importantes.

- Federer também passou por aperto. Perdeu o set inicial para um calibrado Tsonga e, na segunda parcial, desperdiçou um caminhão de break points (foram dez só naquele set e 17 em toda partida) até se deparar com a necessidade de sacar em 0/30, com 5/6 no placar. Federer também esteve a dois pontos da derrota quando perdeu três set points e viu Tsonga empatar o tie-break em 6/6, mas o francês tampouco aproveitou as oportunidades que teve. No fim, o suíço venceu com folga o terceiro set: 2/6, 7/6(6) e 6/1. Encara Nole na semi.


Presidente da CBT cobra SporTV (de novo!)
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Alexandre Cossenza

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Não é de hoje que Jorge Lacerda, presidente da Confederação Brasileira de Tênis, cobra transmissões da modalidade dos canais detentores de direitos. Às vezes, a reclamação é com a ESPN, como aconteceu recentemente durante o Australian Open, às vezes o alvo da queixa é o SporTV. A bola da vez, nesta semana, é o canal da Globosat, que possui os direitos de transmissão da Fed Cup.

Na madrugada desta quinta-feira, Lacerda usou o Twitter para manifestar seu descontentamento com o canal às vésperas do confronto entre Brasil e Suíça, em Catanduva, que vale vaga no Grupo Mundial II (a segunda divisão) da competição. Segundo o cartola, a CBT planejava iniciar as partidas às 10h, mas para que elas fossem encaixadas na grade do SporTV, a programação começará às 13h.

A queixa de Lacerda vem por causa de uma norma da Federação Internacional de Tênis (ITF) , que exige quadras com iluminação caso os jogos comecem a menos de seis horas do início da noite (o que evita partidas adiadas por falta de luz natural). Assim, a CBT terá de abrir a carteira e alugar um sistema de iluminação compatível com as exigências da ITF.

 

 

Lacerda ainda pediu a seus seguidores que monitorem o SporTV3 nos dias de jogos. “Quero ver se a grade realmente não tinha espaço” (veja toda sequência aqui). E vale lembrar que não é a primeira queixa que o dirigente fez ao canal. Em fevereiro, quando o Brasil disputava o Zonal das Américas da Fed Cup, o SporTV, detentor dos direitos, não exibiu nenhuma partida. Na ocasião, Lacerda pediu uma resposta até à conta do site Globoesporte.com no Twitter.

 

 

O site do canal não informa as programações de sábado e domingo no período da manhã – consequentemente, não informa se os jogos da Fed Cup serão exibidos.

Coisas que eu acho que acho:

- Lacerda está sempre a cobrar os canais, e sua conta no Twitter é seu meio preferido. Há quem diga que o cartola é chato, na melhor definição da palavra. É preciso lembrar, contudo, que a maioria dos tenistas brasileiros exibem, em suas camisas, a marca dos Correios, principal patrocinador da CBT. Assim, uma coisa leva à outra. O dirigente quer retorno para quem investe na modalidade. Embora a maneira seja contestável, a causa me parece bastante compreensível.

- Vale lembrar que não seria a primeira vez – nem a segunda, só em 2014 – que o SporTV deixaria de transmitir um evento importante de tênis com brasileiros em quadra. Durante o Rio Open, um ATP 500, o canal não exibiu a final de duplas, que tinha Marcelo Melo na briga. Naquele horário, o SporTV2 mostrava o Campeonato Carioca de showbol, enquanto o SporTV3 exibia o VT de uma partida de futebol. E, lembremos, Lacerda queixou-se naquele dia também.


“Filho da … pulga”
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Alexandre Cossenza

Aconteceu esta semana, no Challenger de Sarasota, nos Estados Unidos. Donald Young, número 1 do mundo como juvenil em 2005 e eterna promessa americana, ficou nervoso com um erro e gritou, após o ponto: “Son of a biscuit!“. Para quem não conhece palavrões em inglês, é como se o garotão tivesse dito algo como “filho da pulga”. O que aconteceu, então? Young recebeu uma advertência por “abuso verbal”. Não acredita? Olha aí.


Saretta: de volta e careta
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Alexandre Cossenza

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Flávio Saretta está de volta. E agora, ele garante, não é como na despretensiosa partida que fez no qualifying do Brasil Open. O paulista, hoje com 33 anos, quer fazer a coisa direito. Há cinco semanas, vem treinando duro, sem alarde, para retornar ao circuito. Seu primeiro jogo será na próxima semana, no São Paulo Challenger, no Clube Paineiras do Morumby. Nesta sexta-feira, conversamos por telefone, e o ex-top 50, bem humorado como sempre, prometeu um Saretta careta, de um jeito que nunca foi na maneira de tratar a carreira.

Desde 2009, quando anunciou sua aposentadoria, o tenista de Americana só jogou eventos de veteranos até uma brincadeira via Twitter, em fevereiro, resultar em um convite para o Brasil Open. Lá, a chama acendeu novamente. Saretta descobriu sentimentos que “nem sabia que tinha” e, desde então, vem se preparando para um retorno. Ex-top 50, campeão pan-americano e dono de um currículo invejável, ele se mostra disposto a enfrentar uma geração muito mais jovens, além de críticos e céticos com a irreverência de sempre: “Deixar falar e conseguir assimilar o que é bom para mim. O que não for eu chuto no ângulo”. Vejam como foi o papo.

Não é mais um retorno de um jogo só, como no Brasil Open, certo? Agora você vai ter uma sequência no circuito?
A minha cabeça é para voltar a jogar mesmo. Não sei por quanto tempo eu aguento, mas a minha cabeça e o que eu estou trabalhando e fazendo todos os dias é para voltar a jogar.

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O que aconteceu durante o Brasil Open para te dar esse clique?
Na real, eu joguei o Brasil Open de brincadeira, nem foi uma coisa séria. Eu nem estava treinando nem nada. Eu acabei brincando no Twitter que eu queria jogar, aí o Guga botou pilha, a galera botou pilha, e eu acabei ganhando o convite. Eu tinha total ciência que era para jogar por jogar, para me divertir. Não era nada sério. Só que eu senti muita emoção, cara. Sem saber que eu ia sentir. Mexeu muito comigo o dia anterior, a noite anterior… Tendo que ver uma programação de novo, tendo que marcar uma quadra para aquecer, enfim, cara… Várias coisas que foram mexendo comigo e voltando ao passado, a coisas não tão bem definidas dentro de mim (Saretta parou de jogar por causa de uma série de lesões que incluiu uma fratura por estresse no cotovelo, uma cirurgia no joelho e uma tendinite no ombro direitos). Até então, eu não sabia que eu tinha esses sentimentos. Nesses dias do Brasil Open, eu estava comentando os jogos pela Band, então eu estava todos os dias lá. Eu convivi a semana toda com o pessoal e, nessa semana, o João me botou para treinar dois dias com os moleques. Um dia com o (Guilherme) Clezar e outro dia com o (Marcelo) Demoliner. Mas tudo sem querer… Eu tava almoçando com o João (Zwetsch, capitão brasileiro na Copa Davis), de calça jeans, ele falou “você vai fazer o que agora?”. Eu falei “nada”. “Então vem cá”. Botei a roupa dele, ele botou a minha, e eu fui lá bater uma bola com o Demoliner.

Assim, sem aviso?
Foi tudo assim. Eles começaram a botar pilha, o João e o Paulo (Santos) fisioterapeuta, principalmente. “Vamo lá, cara! Dá para você jogar mais uns dois, três anos! Vamos fazer as coisas direitinho! Você terminou a carreira de uma forma que não foi boa para você, foi tudo inesperado”. E acabou mexendo comigo, realmente. Eles botaram tanta pilha que eu falei “meu, beleza. Vamo arriscar, vai. Vamo ver o que acontece”. Não tenho nada a perder, né? Eu já joguei, já fiz minha carreira e voltar a jogar agora… Conversei com a minha família para ver o que eles achavam. Com meu filho (Felipe), que agora tem 9 anos. Ele ficou pilhado de me ver jogar, já que ele era novinho quando eu estava no circuito. Aí foram vários fatores que me motivaram. E o principal é minha vontade mesmo de jogar, de achar que eu tenho condições de jogar com todo mundo.

Saretta_Itau_JoaoPires_blogQual a sensação agora?
Tem que ter paciência para voltar porque, lógico, toda volta é difícil. Ainda mais tendo ficado cinco anos parado, sem fazer nada. Mas eu estou muito motivado, minha cabeça está legal. Estou curtindo estar disciplinado. Coisas que eu não fazia, que era muito mais relaxado quando jogava de moleque… Hoje em dia estou muito mais careta. De alimentação, de cuidar da raquete, de aquecer bem, alongar bastante… Várias coisas que eu faço hoje que começo a dar risada sozinho (risos).

Pelo seu discurso, não há medo de voltar, perder dois, três jogos e desistir?
Não, cara! Falando com o pé no chão, a probabilidade de acontecer isso (perder) é muito grande. Esta é a quinta semana que estou treinando. Estou treinando duro, fazendo a parte física, fisioterapia, ficando bastante tempo dentro da quadra… Mas é óbvio, né, cara? Tô parado há muito tempo. Falta de ritmo… Jogar um 30/40… Isso eu não sinto há muito tempo. Então a probabilidade de acontecer isso que você falou é muito grande, mas eu não tô preocupado com isso. Eu tô jogando para mim, essa que é a verdade. Para curtir, para estar dentro da quadra, para me divertir, competir de novo. Eu acho que posso jogar com esses moleques, sim, porque na parte técnica posso chegar.

Sempre foi o plano entrar no São Paulo Challenger?
A principal meta, no começo, era treinar três, quatro meses quietinho, sem ninguém saber, e depois começar a jogar torneios, mas pintaram esses torneios aqui no Brasil e fiquei doido para jogar. Falei “pô, João, tem torneio aqui agora. Que que você acha?”. Ele falou “vai, vai sentir”. Aí eu conversei com o Neco (Nelson Aerts) e com o Danilo (Marcelino), que são os promotores, e falei o seguinte: “me dá (wild card) em São Paulo e se eu jogar bem, se for legal, aí eu jogo Santos também, senão vou para Santos e jogo o quali”. Na minha cabeça, derrota ou vitória agora é segundo plano. Quero estar na quadra me sentindo bem de novo e tendo prazer de estar competindo, sabe? Lógico, daqui a pouco, mais para a frente, o objetivo vai ser vitória. Mas tenho que ter pé no chão porque é a quinta semana que eu treino, e a molecada tem 20 anos a menos que eu.

Não vai te incomodar ler no Twitter e no Facebook, por exemplo, gente dizendo “o Saretta só perde” ou “está dando vexame” se você demorar a vencer?
Ah, cara, mas quando eu jogava já era assim (risos de ambos)! Você acha que depois de velho eu vou me preocupar com isso? (mais risos) Agora é que eu não me preocupo mesmo. Quando eu ganhava de cara bom, era zebra. Quando eu perdia, era “Saretta está em decadência”. Então tô acostumado com isso (risos).

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Como está sua estrutura de treino?
Eu tô treinando na quadra da Koch Tavares, na academia, ali no Morumbi. Tô com o Batata, que é o Aldo Brandão, tem uma equipe muito boa lá que eu não conhecia. Eles são muito competentes, estão me ajudando bastante, comprando esse desafio junto comigo, e o João está dando suporte. Ele está no Rio de Janeiro e, a princípio, eu não quero ir para lá. Estou voltando a treinar ainda, mas futuramente devo intercalar São Paulo e Rio para estar perto do João. Estou numa clínica de fisioterapia que é a F3. Eles também compraram a ideia comigo. Nessas cinco semanas, já encontrei com um empresário que é muito forte, que desde o tempo que eu treinava a gente se conhecia. Ele também comprou a ideia, então já fechou um contrato, vai me ajudar com uma grana por mês… São várias coisas acontecendo muito rápido. Vai me dando confiança, cara. Na hora que eu tenho uma dúvida, eu cruzo um grande empresário que fala “pô, Saretta, acredito na sua história. Tem que ter coragem para fazer o que você está fazendo”. Então estou encontrando pessoas que estão acreditando em mim e nesse desafio, que acaba não sendo só meu. Estou curtindo. Estou curtindo bastante, cara.

Você passa mais tempo na quadra hoje do que há cinco anos?
Não, cara, não. Estou treinando um período forte, das 10h às 12h30min, de segunda a sexta, e no segundo período eu tenho feito a parte física, a fisioterapia, para prevenir lesão, que é muito importante. Eu ficava muito mais tempo na quadra, e a tendência vai ser essa. Aumentar o tempo de quadra gradativamente, mas ao mesmo tempo eu tenho 33 anos. Nunca precisei ficar tanto tempo dentro da quadra assim. Tem algumas horas que eu rendo muito bem. Depois, eu começo a atrapalhar o treino (risos), então já sei esse lado meu. A gente sabe o período que eu tenho que ficar dentro de quadra. Mas, lógico, que não vou viver hoje como quando eu tinha 20 anos de idade.

Depois de São Paulo e Santos, já tem alguma coisa programada?
Como eu ia ficar muito mais tempo treinando, a gente está com total calma. Mas entre aspas porque também não dá para ter tanta calma porque o ano passa voando, mas não dá para saber. Se tiver que jogar alguns Futures, eu vou jogar. Se eu conseguir mais alguns convites, vou jogar também. Mas com calma, cara. Com calma. Vamos ter calma, fazer um dia de cada vez, trabalhar duro como eu tô fazendo, sem chamar a atenção, porque ninguém imaginava que eu estava treinando há tanto tempo. Estou na quinta semana treinando, e treinando duro. Então não tô de brincadeira. Tô a fim de jogar mesmo.

E até onde vai esse retorno? Você já consegue enxergar um objetivo final ou algo que te faria parar outra vez?
Cara, eu não consigo, sinceramente. Eu tô pensando no dia a dia, até porque estou cheio de dor no corpo. Cada dia, é uma dor diferente (risos). Mas não, cara. Eu quero jogar. Eu tô a fim de jogar. Tô adorando ter a rotina de atleta, de acordar cedo, ir treinar… Por isso que eu falo que dou risada. Porque todo dia acordo 7h30min, tomo meu café, pego a raquete, vou treinar feliz da vida até 12h30min. São rotinas que eu nunca imaginei que teria saudade e, hoje em dia, tô feliz de estar vivendo isso. Não dá para saber. Eu não tenho a mínima noção de quando eu vou começar a ganhar jogos. Pode ser que demore um mês, pode ser que demore uma semana… Não dá para saber o quanto isso vai durar. O que eu sei é que estou vivendo um dia de cada vez. O que você falou da desconfiança… Eu sou brasileiro, a gente é brasileiro, sabe muito bem que o povo gosta de criticar muito mais do que elogiar, né? Não tenho dúvidas que as críticas vão ser gigantescas. As pessoas vão dizer “pô, o cara não vai”, “o Saretta tá louco” e não sei o que, mas é o que eu falei… Uma coisa que eu aprendi, e o amadurecimento ajuda, é isso: deixar falar e conseguir assimilar o que é bom para mim. O que não for eu chuto no ângulo. (risos)


Escolhendo o veneno
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Alexandre Cossenza

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“You hear me talkin’, hillbilly boy? I ain’t through with you by a damn sight.
I’ma get medieval on your ass!”

Esta clássica cena de Pulp Fiction, em que Marsellus Wallace começa a torturar Ned e ameaça um comportamento “medieval”, é o que vem à cabeça quando vejo o resultado do sorteio realizado pela ITF nesta terça-feira. Nos playoffs da Copa Davis, o time do capitão João Zwetsch enfrentará a Espanha. Sim, a Espanha de Rafael Nadal, David Ferrer, Nicolás Almagro, Marcel Granollers, Marc López, Fernando Verdasco e David Marrero. Um time tão forte que, se escalado com força máxima, nem no ponto de duplas o Brasil seria favorito. Fora a Confederação Brasileira de Tênis, que vai ter a chance de promover o confronto por aqui, não tem muita gente feliz com os adversários.

Como é um confronto de playoff/repescagem, que significa quem-perder-cai, é de se esperar que a Espanha venha com força máxima – ou quase isso. Rafael Nadal já manifestou sua vontade de vir, o que automaticamente coloca o Brasil em apuros (o número 1 nunca, nunquinha mesmo, perdeu um jogo em melhor de cinco sets no saibro em Copa Davis). Seria preciso que Bellucci e cia. derrotassem o número 2 espanhol duas vezes, além do essencial triunfo nas duplas.

Qual, então, a melhor estratégia para o Brasil? Honestamente, o melhor plano parece uma ação conjunta com a Polícia Federal, que proibiria a entrada de Nadal, Ferrer e Almagro no país sob a ameaça de terrorismo – e “terrorismo” talvez seja uma boa expressão para classificar o que Nadal, em forma, pode fazer contra o número 2 do Brasil, quem quer que seja na ocasião.

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Falando sério, fora torcer para que a Espanha não venha com sua força máxima, quais são as opções brasileiras? Jogar fora do saibro? Seria pior ainda para Bellucci e sua trupe. Jogar com alguma altitude? Nadal já ganhou um ATP em São Paulo, jogando mal e em uma quadra péssima e com bolas ruins. Almagro também já foi campeão na cidade. Seria melhor no nível do mar, com saibro bem lento? Nadal e Ferrer adorariam, e Almagro também já foi campeão na Costa do Sauípe.

O trabalho de João Zwetsch, a partir de hoje, é dos mais ingratos. Parece restar a ele escolher entre topar um passeio de caminhão com Aldo Raine, encarar o gatilho de Django e experimentar a five point palm exploding heart technique de Beatrice Kiddo. Cruel? Talvez. O fato é que enfrentar a Espanha completa é uma experiência tão desconfortável quanto ouvir Jules Winnfield começar a recitar Ezequiel 25:17

Coisas que eu acho que acho:

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- É sempre possível que a Espanha não jogue com força máxima. Entretanto, como estamos falando de playoffs, não parece muito provável. Além disso, sobram opções na equipe. Até o terceiro time espanhol tem condições de vencer um confronto contra o Brasil – seja no saibro ou na quadra dura.

- O lado positivo do confronto é ter grandes tenistas no país uma vez. Uma dúzia de cidades vai se oferecer para sediar os jogos, a CBT terá todas as vantagens do mundo, e o tênis brasileiro será assunto durante a semana inteira. Não deixa de ser algo bom, mesmo que o resultado não venha a ser dos melhores.

- Os outros confrontos dos playoffs são (cito primeiro os times que jogam em casa) Índia x Sérvia, Israel x Argentina, Canadá x Colômbia, EUA x Eslováquia, Austrália x Uzbequistão, Holanda e Croácia e Ucrânia e Bélgica.

- Há quatro times das Américas nos playoffs. Argentina, EUA, Canadá e Colômbia. Um deles cairá certamente (Canadá e Colômbia se enfrentam). É interessante torcer para que Argentina e EUA vençam. Caso contrário, a vida de Bellucci e cia. ficará complicada já no começo de 2015. Existe até o risco, embora pequeno, de o Brasil perder o status de cabeça de chave no Zonal.


Rogerinho, o salvador
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Alexandre Cossenza

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No universo de confrontos fora de casa para o Brasil, ter Rogério Dutra Silva como salvador da pátria não estava exatamente entre os cenários mais prováveis. O time sempre contou com Thomaz Bellucci como ponto de apoio. Foi principalmente com as vitórias do número 1 do país que a equipe do capitão João Zwetsch chegou ao Grupo Mundial em 2012.

As circunstâncias, contudo, exigiram mais de Rogerinho. Primeiro, sua tarefa era ser o número 1 de um time sem sua principal estrela. Até aí, tudo bem. O Equador, adversário da vez, era frágil, não representava grande ameaça. O destino, então pregou uma peça ao lesionar Guilherme Clezar durante o confronto. Além de principal simplista, Rogerinho passava a ter a obrigação de vencer o número 1 equatoriano, Emilio Gómez. Clezar, afinal, seria substituído por um duplista caso fosse necessário um quinto jogo para decidir o confronto.

Em melhor de três sets e numa quadra rápida, Bruno Soares ou Marcelo Melo seria capaz de derrotar Julio Campozano, 495º do ranking. Eu diria até que qualquer um dos dois seria favorito. Em uma quadra de saibro e tão lenta como a de Guayaquil, entretanto, as chances brasileiras ficariam bastante reduzidas. Até que Rogerinho foi lá e salvou a pátria. Superou um começo ruim (foi quebrado em seu primeiro game de saque) e um vacilo no segundo set (sacou para fechar a parcial, mas perdeu o serviço), mas derrotou Emilio Gómez por 3 sets a 1.

O piso lento acabou jogando a favor do brasileiro, que não se mostrou nada incomodado com longas trocas de bola. A tática funcionou a longo prazo. No começo do terceiro set, Gómez já sofria fisicamente. O placar reflete: 6/4, 6/7(10), 6/1 e 6/1. Assim, o Brasil está nos playoffs do Grupo Mundial mais uma vez. É o nono ano seguido nesta fase.

Questão de lógica (mas nem tanto)

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Sabe quando alguém (jornalista, tenista, capitão, tanto faz) diz que tal país é favorito, mas tudo pode acontecer em Copa Davis? Clichezão, né? Mas é a pura verdade, e os resultados do Grupo Mundial neste fim de semana são mais uma prova disso. A começar pela poderosa suíça, de Roger Federer e Stanislas Wawrinka. O duelo com o Cazaquistão começou com uma derrota do número 1 do país (Wawrinka) para Golubev. No sábado, a dupla cazaque venceu. O que parecia um 3 a 0 rápido antes do confronto havia se tornado um 2 a 1 para os azarões. Stan the Man ainda perdeu o primeiro set de seu jogo no domingo, mas felizmente encontrou seu tênis a tempo de virar e vencer. Depois, a lógica apareceu com Roger Federer. A Suíça, em casa, enfim derrotou o Cazaquistão por 3 a 2 e avançou às semifinais.

Os adversários suíços serão os italianos, que confirmaram o favoritismo, mas precisando de uma virada no domingo. Com Andy Murray vencendo nas simples e nas duplas (com Colin Fleming), a Grã-Bretanha abriu 2 a 1 no saibro de Nápoles. A zebra só não veio porque Fabio Fognini derrotou o campeão de Wimbledon – o que era esperado no piso lento – e Seppi selou o 3 a 2 ao derrotar Ward.

Outro duelo maluco foi França x Alemanha, em Nancy. Benneteau e Tsonga perderam, respectivamente, para Kamke e Gojowczyk na sexta-feira, deixando o time da casa contra as cordas. A reação, contudo, veio. Primeiro, com Benneteau e Llodra nas duplas. Depois, Tsonga bateu Kamke e igualou o confronto. Monfils, que ainda não havia entrado em quadra, fez 3 a 0 sobre Gojowczyk e fechou o confronto. Na semi, a França encara a República Tcheca, único time que não bobeou. No Japão, Stepanek, Rosol e Vesely fizeram 5 a 0 sobre o time da casa, que não tinha Nishikori, seu principal nome.

Coisas que eu acho que acho:

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- E repito a cada fim de semana de Davis, cheio de resultados imprevisíveis por todos os continentes: querem mesmo mudar o formato da competição?

- Nos playoffs, o Brasil jogará em casa se for sorteado para enfrentar Bélgica, Croácia, Espanha ou Estados Unidos. Se o adversário for a Sérvia, a sede será definida por sorteio. Contra Argentina, Austrália e Canadá o Brasil joga fora de casa. Difícil, bem difícil.

- O circuito feminino teve Ana Ivanovic conquistando o título do WTA de Monterrey, enquanto Andrea Petkovic levou para casa o troféu mais importante da semana, no saibro verde de Charleston. Sobre a conquista da alemã, vale notar a quantidade de tenistas que deram os parabéns e ficaram felizes com o resultado (vejam no blog da Sheila). Petko, de fato, é uma das pessoas mais queridas no circuito.

- Ainda em Charleston, vale lembrar a ótima campanha de Teliana Pereira, que venceu dois jogos, eliminando inclusive a romena Sorana Cirstea, número 27 do mundo, e alcançou as oitavas de final.


A dor da incerteza
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Alexandre Cossenza

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“O administrador de riscos”. Não foi por acaso o título da entrevista que fiz com João Zwetsch após a convocação do time brasileiro que está no Equador, disputando a Copa Davis. Thomaz Bellucci, em seu estado atual, era um risco na quente e úmida Guayaquil. Feijão era um risco porque volta de uma lesão delicada e não se sabe como o abdômen reagiria a um eventual jogo de cinco sets. O capitão fez uma convocação segura – na medida do possível. Levar o estreante Guilherme Clezar foi mais necessidade do que opção.

E o que acontece? O perigo vem de onde ninguém esperava. Não pela derrota de Clezar para Emilio Gómez, algo nada improvável, mas pelo “como”. No início do terceiro set, o gaúcho sofreu uma lesão no músculo adutor da coxa direita, gritou de dor e não conseguiu mais jogar. Abandonou e, após submeter-se a uma ressonância magnética em Guayaquil, soube que ficará fora das quadras por pelo menos um mês (um a três meses é o período estimado por Ricardo Diaz, médico que acompanha a equipe brasileira no confronto.

Como Rogerinho havia vencido o primeiro jogo, contra Julio Campozano, o primeira dia terminou empatado em 1 a 1. Até aí, tudo bem. O dilema, contudo, reside na hipótese de um duplista precisar decidir o confronto no domingo. É bastante provável que Bruno Soares e Marcelo Melo vençam neste sábado, o que deixaria o Brasil à frente por 2 a 1, precisando de mais um ponto.

Sem pressão, Rogerinho…

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O primeiro jogo do domingo na Copa Davis sempre coloca frente a frente os tenistas mais bem ranqueados de cada país. Em outras palavras, Rogerinho encara Gómez com a chance de fechar o confronto. Mais do que isto: com a necessidade de fechar o confronto. Ninguém quer ver um duplista jogar, quem sabe, cinco sets contra um simplista, mesmo que este seja Campozano, número 495 do mundo.

É uma posição um tanto nova para Rogerinho, que sempre atuou como número 2 do país, com Bellucci segurando a onda em caso de derrota. Em Guayaquil, o paulista entrou em quadra como número 1 pela primeira vez e a primeira impressão não foi animadora. Diante de Campozano, Rogerinho cometeu muitos erros e não passou perto de seu melhor tênis. Mesmo assim, venceu, o que tem seus méritos. Mas como se sairá o paulista em território desconhecido, precisando triunfar em um jogo de Copa Davis? Sua posição não é nada confortável.

Coisas que eu acho que acho:

- Bruno Soares ou Marcelo Melo no quinto jogo? Zwetsch ainda não disse. Quem quer que vá a quadra não terá moleza. Não que Campozano seja um adversário imbatível, mas a quadra muito lenta de Guayaquil dificulta a vida de qualquer duplista. O equatoriano tentará longas trocas de bola. Contra Rogerinho, fez a partida durar mais de três horas. Se conseguir esticar contra um dos mineiros, complicará bastante a situação do Brasil.

- A quadra lenta pode, no fim das contas, ajudar Rogerinho. Emilio Gómez tem um saque bom, mas não é tão consistente e não se defende tão bem quanto o paulista. Caso atue um pouco melhor do que na sexta, Rogerinho deve ter boas chances de vencer e evitar o temido quinto jogo.

- É sempre bom lembrar, já que recebi algumas perguntas do tipo após a desistência de Clezar. Após o sorteio, não existe “reserva” em Copa Davis. A partir de quinta-feira, quando são definidos os quatro integrantes de cada equipe, apenas estes quatro podem jogar. Assim sendo, Thiago Monteiro e José Pereira, que treinaram junto com o time brasileiro em Guayaquil, não podem entrar no lugar de Clezar. Depois do sorteio, os dois são apenas, digamos, sparrings.


Sorteio ajuda o Brasil
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Alexandre Cossenza

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Não há muito de novo a dizer sobre este Brasil e Equador, que começa nesta sexta-feira. O time do capitão João Zwetsch, mesmo sem Thomaz Bellucci, é favorito para avançar mais uma vez aos playoffs da Copa Davis. E o sorteio desta quinta, embora não faça tanta diferença assim, ajudou. Rogerinho faz o primeiro jogo contra Julio Campozano e, em seguida, Guilherme Clezar encara Emilio Gómez. Nas duplas, sábado, Bruno Soares e Marcelo Melo estão escalados contra Giovani Lapentti e Gonzalo Escobar. No domingo, as simples invertidas: primeiro, Rogerinho contra Gómez; depois, se necessário, Clezar e Campozano definem o confronto.

Mas voltemos ao tópico principal. O sorteio ajudou por quê? Porque Rogerinho, o simplista mais experiente, faz o primeiro jogo. O paulista, mesmo com torcida contra e tudo mais, é favoritíssimo contra Campozano, atual número 495 do ranking. Tudo leva a crer que o Brasil sairá na frente. Assim, o placar favorável descomplica a vida do estreante Clezar. Qualquer tenista diz que o primeiro jogo da carreira pela Copa Davis é dificílimo. O jovem gaúcho, pelo menos, deve ter a vantagem de entrar em quadra sem tanta pressão. Uma derrota não significaria deixar o Brasil atrás no placar, e jogar sem medo de perder faz maravilhas a qualquer atleta.

Gómez, apesar do ranking inferior, tem um ótimo saque e joga de forma inteligente. Pega forte na bola, mas não corre riscos desnecessários. Deve fazer um jogo bem equilibrado com Clezar. Foi assim no Rio de Janeiro, ano passado, quando os dois se enfrentaram em um Challenger. O primeiro set teve tie-break, com direito a uma chamada polêmica contra Clezar. O gaúcho reclamou, gritou e acabou perdendo a calma e a parcial. Gómez venceu por 7/6(7) e 6/4. Levando em conta que Guayaquil, outra cidade com calor e umidade, deve oferecer condições de jogo parecidas, é de se esperar uma partida igualmente parelha.

No entanto, ainda que Clezar sinta os nervos da estreia e saia derrotado, é difícil imaginar o Brasil perdendo a série. Um 3 a 0 não é nada impossível. Meu palpite? Na pior das hipóteses, a série vai ser decidida com a vitória de Rogerinho no quarto jogo. Seria necessário uma sequência improvável de eventos para que o time de João Zwetsch não avancasse e disputasse os playoffs do Grupo Mundial pelo nono ano consecutivo.

Grupo Mundial

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A elite tem quartas de final sem Sérvia ou Espanha, algo que não acontecia desde 2006. Assim, Roger Federer tem uma ótima chance de conseguir um dos dois feitos relevantes (o ouro olímpico em simples é o outro) que faltam em seu recheado currículo. Neste fim de semana, a Suíça, em casa, é favoritíssima contra o Cazaquistão de Golubev e Kukushkin.

O adversário dos helvéticos na semifinal sairá do confronto entre Itália e Grã-Bretanha, realizado em Nápoles, no saibro. Fognini, Seppi, Lorenzi e Bolelli encaram o time de Murray, Ward, Fleming e Hutchins. Com Andy nas simples e a dupla forte, o time britânico sempre tem chances, mas o piso lento dá o favoritismo ao time da casa. Na semi, a Suíça (sim, digam que estou menosprezando o Cazaquistão porque estou mesmo) joga em casa contra a Itália ou fora contra a Grã-Bretanha. Com Federer em quadra, não imagino uma derrota.

Na metade de cima das quartas de final, a República Tcheca, atual bicampeã, vai a Tóquio enfrentar o Japão. Berdych e Nishikori não jogam, o que faz dos tchecos favoritos – no papel. Rosol, Stepanek e Vesely enfrentam Soeda, Ito, Taro Daniel e Uchiyama. No piso rápido, eu apostaria minhas fichas em Rosol e Stepanek.

Quem vencer encara Alemanha ou França, que seria um belíssimo confronto, não fosse pela escalação alemã, sem Kohlschreiber, Haas, Mayer ou Benjamin Becker, seus quatro melhores tenistas atualmente. O time germânico vai de Kamke, Struff, Gojowczyk e Begemann contra Tsonga, Monfils, Benneteau e Llodra no piso duro (velocidade média) de Nancy. É redundante dizer que a França é favorita, mas é animadora a possibilidade de um confronto entre França e República Tcheca (em solo francês) na semifinal. Aguardemos.


Pressão, pra que te quero?
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Alexandre Cossenza

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Orlando Luz conquistou, neste domingo, o título do Campeonato Internacional Juvenil de Tênis de Porto Alegre, o evento que até poucos anos atrás era chamado oficialmente de Copa Gerdau (e que só não leva o nome da empresa hoje porque conta com verba da Lei de Incentivo ao Esporte). Não é pouca coisa. A ex-Gerdau é o torneio mais importante da América do Sul e é uma competição de nível A, assim como os Grand Slams juvenis.

O tamanho do feito de Orlandinho (que é chamado assim porque seu pai tem o mesmo nome) é considerável. Não só porque o jovem gaúcho tem 16 e joga a categoria de 18 anos, mas porque faz parte de três semanas brilhantes. No último domingo, Orlando venceu o Banana Bowl, que por 32 anos não teve um brasileiro como campeão. Uma semana antes, o gaúcho conquistou o título do Asunción Bowl, no Paraguai (torneio de nível I, como o Banana).

São 16 vitórias seguidas e muitos pontos, que colocam Orlandinho como número 4 do ranking mundial juvenil. É aí que muita gente começa a dizer que o gaúcho vai começar a ser pressionado por resultados. E trata-se de um panorama delicado. Nem tanto para o jovem tenista, mas para quem lida com ele no dia a dia.

Dizer que um tenista vai ter pressão é clichê. Redundância. Roger Federer tem pressão sempre porque é um fenômeno e espera-se dele um tênis de altíssimo nível. Thomaz Bellucci tem pressão porque está fora do top 100 e precisa de resultados para subir no ranking e voltar a entrar direto em torneios grandes. Ricardo Hocevar tem pressão porque fica sem dinheiro para manter-se no circuito caso não conquiste um certo número de vitórias. Pressão existe para todo mundo, todos os dias. Faz parte da profissão tenista.

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A pergunta que precisa ser feita – sempre! – é “pressão de quem?”. Mas adiemos um pouco. Calma, eu volto ao assunto alguns parágrafos adiante. Minha queixa com quem tenta prever o futuro dizendo que Orlandinho (ou qualquer outro juvenil que se destaque) vai ter pressão é a seguinte: que brasileiro de destaque deixou recentemente de ser um grande profissional por causa de “pressão”? Lembremos, então, de alguns brasileiros que foram top 10 do ranking mundial juvenil: André Miele, José Pereira, Nicolas Santos, Fernando Romboli e Tiago Fernandes.

Nenhum deles figurou entre os 200 melhores do ranking profissional. Em que caso podemos dizer que a “culpa” é de pressão externa? Honestamente? Nenhum. Tiago Fernandes, o mais talentoso destes e que venceu um Grand Slam juvenil, foi o único que lidou com certa pressão, mas de si mesmo. E nem assim pode se dizer que foi o único motivo de sua queda. Tiago teve problemas físicos, diferenças com Larri e perdeu muito tempo – e ranking.

Lembremos, então, de um caso ainda mais recente. Thiago Monteiro, campeão da Gerdau, foi número 2 juvenil. Hoje, treina com Larri Passos, ex-técnico de Guga, e tem a carreira agenciada pelo tricampeão de Roland Garros. Quem está pressionando o garoto? Quem está chamando Thiago de novo Guga, novo Bellucci, novo Meligeni (e quem mais valha a pena comparar)? Ninguém. Ninguém.

Ok, voltemos à pergunta: “pressão de quem?” Não existe uma resposta para isso. Pressão popular? O povo não vai às ruas pedir títulos de Orlandinho, não vai xingá-lo no aeroporto depois de uma campanha ruim, não vai pichar os muros de sua casa nem invadir o CT se ele não vencer. Não existe pressão popular porque, convenhamos, tênis não é esporte popular.

De onde ela vem, então? Há quem goste de culpar o jornalismo. “Ah, a imprensa exagera”. Nem tanto. E aí entra outra discussão: se a imprensa não mostra, dizem que não apoia o esporte; se mostra, coloca pressão. Não, senhores, a imprensa não é a maior culpada se este ou aquele juvenil não vingou (ainda) como um grande profissional. Há muitos fatores que entram nessa conta. Desde o (parcialmente) enganoso ranking juvenil, que conta apenas seis torneios, até o efeito de contratos publicitários, passando pela orientação que o adolescente recebe após o sucesso em sua faixa etária.

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Orientação (que fique claro, não estou falando especificamente de Orlandinho), aliás, é uma questão interessante. Não é preciso ir muito longe para ver juvenis sendo superprotegidos (e mimados!) por técnicos e pais. Há quem proíba garotos de dar entrevista sob o argumento de que “tira o foco”. Há quem diga e repita – e repita – que fulano vai ter pressão porque tem ranking melhor do que o adversário, que “vai jogar solto”. Frases feitas que não levam ninguém a lugar algum.

Falar da pressão como um monstro ou culpar a imprensa é desorientar. Este, sim, é um perigo grande. Perto de iniciar uma vida como profissional, um jovem, em vez de ser ensinado a lidar com certas situações (como dar entrevistas), ouve que precisa evitá-las. Isso, sim, é grave. Juvenil precisa ser ensinado a lidar com toda forma de adversidade. Seja torcida contra, a necessidade de pontos no ranking, uma dificuldade financeira, um adversário de ranking inferior e por aí vai.

Pressão, de forma geral, vem de dentro, da vontade que alguém tem de conseguir algo. E não é necessariamente ruim, desde que a pessoa tenha sido orientada para lidar com aquilo e reagir de forma positiva. Quem não quer passar por isso não pode estabelecer metas ousadas. Não quer pressão? Não ganha! Ou então vai jogar futebol e pede pra ficar no banco. A vida lá deve ser bem mais fácil.

Coisas que acho que acho:

- Repito: não é um post obre Orlandinho. Não sei como são seus treinamentos nem como é sua orientação. Apenas usei o recente sucesso do gaúcho para ilustrar um cenário que vejo com alguma frequência. Sobre o gaúcho, registro meus parabéns a ele e sua equipe – em especial, o técnico André Podalka, que o acompanha nos torneios.

- Sobre a velha questão de a imprensa “tirar o foco”, vale notar o caso de Bruno Soares, que deu entrevistas como nunca em 2013 e fez a melhor temporada de sua carreira. Obviamente, não estou comparando o duplista número 3 do mundo com juvenis. Soares já passou dos 30 e aprendeu a lidar com a atenção recebida. Vale, no entanto, como exemplo. O melhor tenista do país é também o mais acessível. Que técnicos e ex-tenistas observem, aprendam e ensinem.

- Vale registrar: enquanto é justo que seja comemorado o título de Orlando em Porto Alegre, é importante notar que apenas uma brasileira passou da estreia na chave de 18 anos da ex-Copa Gerdau. Eram 12 inscritas, e só Luisa Stefani avançou. Ela parou na terceira rodada, eliminada pela cabeça 8.


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Alexandre Cossenza

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Rafael Nadal teve uma chance. Umazinha, ainda no primeiro game, mas não conseguiu converter seu único break point do dia. Tudo bem, nem parecia tão importante no momento. Era só o primeiro game, e o espanhol confirmou bem o seu serviço na sequência. Até o 3/2 do set inicial, o número 1 parecia ligeiramente superior na partida. Não duraria muito.

Entrou em cena, então, Novak Djokovic. Não o sérvio que ganhou Indian Wells com altos e baixos. O número 2 do mundo que disputou a final do Masters 1.000 de Miami, neste domingo, estava mais para aquele tenista que atropelou todo mundo – Nadal inclusive – em 2011, a melhor temporada de sua vida. Neste domingo, como naquela temporada inteira, o espanhol não teve muito a fazer. Em 1h26min de jogo, o troféu estava nas mãos do adversário: 6/3, 6/3.

> on March 30, 2014 in Key Biscayne, Florida.

Nole não fez nada de novo. Devolveu saques com profundidade, foi agressivo, preciso e profundo do fundo de quadra, e também conseguiu bom aproveitamento de primeiro serviço. O que impressionou foi a consistência com que Djokovic fez isso tudo. E logo contra alguém do calibre de Rafa Nadal, que jogou um tênis belíssimo durante todo o torneio. Na final, contudo, pressionado quase sempre desde o primeiro golpe, o espanhol não conseguiu encontrar uma solução.

O resultado, claro, tem certo peso na briga pelo posto de número 1 do mundo. Novak Djokovic (11.810 pontos) sai de Miami com 1.920 de diferença para Rafael Nadal (13.730). E, vale apontar, o sérvio agora é quem mais somou pontos em 2014: são 2.690 pontos, contra 2.600 de Nadal, 2.470 de Wawrinka, 2.190 de Roger Federer e 2.045 de Tomas Berdych. É seguro dizer que se trata da temporada mais equilibrada dos últimos dez anos. Após um Grand Slam e dois Masters 1.000, apenas 645 separam o primeiro do quinto colocado.

Serena domina

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Não foi um torneio fantástico-do-início-ao-fim, mas Serena Williams fez o suficiente para tornar-se campeã perdendo apenas um set. Nas semifinais, a americana nem jogou tão bem assim diante de Maria Sharapova e venceu por 6/4 e 6/3, mantendo a freguesia (já são 15 vitórias seguidas). A final foi uma história bem diferente, mas que ilustrou igualmente a superioridade da número 1 do mundo.

Serena entrou em quadra errando um bocado além da conta, e Na Li disparou no placar. No entanto, quando a chinesa sacou para o set em 5/2, a favorita acordou. Quebrou o saque uma vez, duas vezes (salvando set point no décimo game), três vezes. Por 7/5, Serena levou a parcial. E nem dá para dizer que a chinesa desandou a errar ou a cometer duplas faltas. A número 1 foi buscar o jogo com méritos próprios, sem esperar que uma oportunidade lhe caísse no colo.

O fato é que depois que Serena acordou, venceu 11 de 12 games, mostrando que ainda está um nível acima de suas adversárias, embora não tivesse demonstrado isto ainda na temporada.