Saque e Voleio

Orlandinho é #1, mas o que isso significa?
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Alexandre Cossenza

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Nesta segunda-feira, a ITF confirmou o nome do brasileiro Orlando Luz como número 1 do mundo no ranking juvenil. É a terceira vez que um brasileiro ocupa o topo da lista de tenistas com até 18 anos. Roberto Jábali, na década de 80, e Tiago Fernandes, campeão do Australian Open juvenil de 2010, também encabeçaram o ranking em suas épocas. Mas o que significa ter um tenista como juvenil número 1 do mundo?

Significa, ora, que Orlandinho é um dos melhores tenistas do planeta em sua faixa etária. É um feito excepcional, mas, ao mesmo tempo, é “só” isso (e isso não desmerece Orlandinho – já volto a falar especificamente sobre ele). Por definição, o ranking juvenil não é lá o melhor dos indícios sobre as chances de sucesso de alguém como atleta profissional. Um garoto que vá bem no Banana Bowl ou na (ex) Copa Gerdau, onde os melhores europeus quase nunca estão, dispara no ranking. Isso vale para outros torneios espalhados pelo mundo.

Logo, como são poucos eventos em que os melhores se encontram de fato, o ranking nem sempre reflete quem é quem no mundo dos tenistas com até 18 anos. Além disso, o tênis está cheio de histórias de garotos que foram fenômenos adolescentes (inclusive no Brasil) e não chegaram nem perto de reproduzir esse sucesso nos profissionais. Do mesmo modo, alguns dos melhores tenistas da história tiveram resultados pouco expressivos como juvenis.

Novak Djokovic nunca passou da 34ª posição, Rafael Nadal teve passagem curtíssima pelo circuito juvenil e seu melhor ranking foi 134, e Andy Murray chegou à sexta posição. Federer, sim, foi número 1 juvenil, mas fez um esforço para terminar no topo no fim de 1998, quando já disputava torneios profissionais. Há casos e mais casos que mostram a diferença entre os mundos juvenil e  profissional.

Hoje mesmo temos o exemplo de Andrey Rublev (17 anos, nascido em 1997), líder do ranking juvenil até a semana passada. O russo não jogou um evento juvenil sequer em 2015. No último mês, ganhou partidas nos ATPs de Istambul e Genebra. É o 208º no ranking da ATP. Já desistiu do circuito para até 18 anos. Há, por outro lado, quem prefira jogar como juvenil o máximo possível. Gael Monfils ficou até os 18 anos, ganhou três Grand Slams e liderou o ranking com folga.

Não há receita de bolo. Orlandinho foi campeão do Banana Bowl e da (ex) Copa Gerdau (ambos na categoria 18 anos) no ano passado, com 16 anos. Resolveu disputar os dois novamente este ano e foi campeão outra vez. No último fim de semana, conquistou também o importante Trofeo Bonfiglio, na Itália (só os Grand Slams superam o evento italiano em importância e pontos distribuídos). Com isso, conseguiu os pontos que lhe faltavam para ultrapassar Rublev e tomar a ponta.

Sobre o jovem gaúcho (17 anos, 1998), chegar ao número 1 é fenomenal. Só que não é justo basear expectativas em um número. Vários brasileiros estiveram no top 10 recentemente e nunca passaram de torneios de nível Challenger (Nicolas Santos, José Pereira e André Miele são alguns exemplos). Tiago Fernandes liderou o ranking e viu sua ascensão interrompida por uma lesão grave. A principal fonte de otimismo, no caso de Orlandinho, é que seu tênis tem a potência necessária para o mundo profissional – o que ficou nítido nos Challengers de Santos e São Paulo (como escrevi neste post).

Orlandinho pode não ser hoje (negrito e sublinhado em “hoje”, por favor) o melhor tenista do mundo de sua faixa etária (Borna Coric e Alexander Zverev, ambos de 18 anos, já estão no top 100 profissional), mas cada tenista tem seu tempo próprio de desenvolvimento. O melhor, em vez de julgar e criar expectativas, é observar e apreciar o que vem por aí. A começar por Roland Garros, onde o gaúcho é um seríssimo candidato ao título.


Roland Garros: o guia feminino
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Alexandre Cossenza

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Serena Williams pode ter um dos Grand Slams mais difíceis de sua carreira, enquanto Maria Sharapova, na outra ponta da chave de Roland Garros, têm caminho menos complicado. Simona Halep, por sua vez, caiu na seção mais apetitosa, mas será que a romena vem jogando o bastante para se colocar (ou ser colocada) como real postulante ao título do Grand Slam francês?

A grande questão, como parece ser em cada um dos grandes torneios femininos, é a forma de Serena Williams. Até a semifinal de Madri, a número 1 do mundo parecia rumar para outra bela sequência no saibro. Vieram, então, uma derrota inapelável diante de Petra Kvitova e um WO na segunda rodada em Roma por causa de uma lesão pouco explicada no cotovelo.

A americana disse, já em Paris, que os sintomas diminuíram, mas o quanto isso vai afetar seu jogo só saberemos depois da estreia. Até lá, segue o ponto de interrogação que só aumenta quando se olha a chave. Para chegar à final, Serena pode ter que enfrentar Victoria Azarenka logo na terceira rodada (já já falo mais desse jogo) e, na sequência, Venus/Stephens, Wozniacki e Kvitova. Entraria, sem sombra de dúvida, para a lista das campanhas mais duras de sua carreira.

Maria Sharapova, além de campeã de Roland Garros em 2012 e 2014, soma 25 vitórias nos últimos 27 jogos que fez no torneio (vice em 2013 e semi em 2011). Automaticamente, já seria candidata fortíssima ao título. A conquista em Roma, onde passou por Azarenka nas quartas (calma, ainda chego à Vika) só fortaleceu seu status. A questão é que sua chave tem cascas de banana por toda parte. Desde a imprevisível Sam Stosur na terceira rodada (ou não!), incluindo Lucie Safarova aparecendo nas oitavas e Angelique Kerber ou Carla Suárez Navarro nas quartas (Flavia Pennetta e Garbiñe Muguruza também estão nessa seção).

A “vencedora” do sorteio foi mesmo Simona Halep, a cabeça 3. Rival em potencial de Sharapova nas semifinais, a romena caiu numa seção em que as principais cabeças de chave são a imprevisível Ana Ivanovic, a russa Ekaterina Makarova, que jamais passou da terceira rodada em Paris, e a polonesa Agnieszka Radwanska, outra que não tem lá grande reputação no saibro. A dúvida aqui fica por conta das atuações recentes de Halep. Seu pré-Roland Garros teve uma semi em Stuttgart, uma primeira rodada em Madri e uma semi em Roma. E nenhuma das três campanhas empolgou. Halep pode tanto ir longe quanto ser a grande decepção do torneio (mas você já deve ter ouvido isso no podcast Quadra 18).

Sharapova_RG_afp_blog

A brasileira

Com seu ranking atual, Teliana Pereira teria vaga direta na chave de Roland Garros. No entanto, como estava fora do corte na data limite de inscrições, acabou precisando passar pelo quali para entrar no grupo das 128. Sua estreia é contra a convidada Fiona Ferro e está marcada para as 6h (de Brasília) logo deste domingo. Está longe de ser o pior sorteio. A francesa de 18 anos é apenas a número 325 do mundo. Caso vença, Teliana provavelmente terá Makarova pela frente. Vale repetir: no saibro, não é a pior das cabeças de chave para se enfrentar. Trocando em miúdos, a pernambucana terá chances. Resta saber se conseguirá aproveitá-las.

O que ver (ou não na TV)

Diferentemente da chave masculina, o torneio das mulheres já tem um punhado de jogos interessantes na primeira rodada. Desde Azarenka x Torro-Flor lá no alto da chave (juro que falo da Vika mais abaixo!), passando por Bouchard x Mladenovic até Sharapova x Kanepi lá na ponta de baixo. Há potencial de zebra nos três. Mas não é só isso. Outros ótimos duelos em potencial estão espalhados na chave, como Sloane Stephens x Venus Williams, Cornet x Vinci, Suárez Navarro x Niculescu, e Safarova x Pavlyuchenkova. E isso tudo é só na primeira rodada!

O que pode (ou não) acontecer de mais legal

Há algo mais interessante do que Serena x Azarenka já na terceira rodada? Desde que despencou no ranking por causa de lesões, Vika vem enfrentando chaves nada agradáveis. Enfrentou Stephens e Wozniacki nas duas primeiras rodadas em Melbourne, encarou Kerber na estreia em Doha, Sharapova na segunda fase em Indian Wells, Serena nas oitavas em Madri e Sharapova (de novo) nas quartas em Roma. “Não tá fácil”, já dizem os filósofos de redes sociais. E tantas derrotas assim fizeram com que Azarenka não escalasse o ranking tão rápido como o desejado. Logo, chegou a Roland Garros como número 27 do mundo.

Jogo por jogo, Serena sempre será favorita contra a bielorrussa. As previsões aqui ficarão por conta do que a número 1 mostrar no início da semana. Se não acusar dores, será favoritíssima. Enquanto isso, Vika tentará se apegar (ou seria melhor esquecer?) às chances que teve em Madri para manter as esperanças. Lá, ela teve três match points, mas acabou saindo de quadra derrotada. Vencer esse jogo não garante nada – lá no alto, escrevi sobre o quão dura é essa parte da chave – mas injetará doses significativas de ânimo e confiança na vencedora.

A tenista mais perigosa que ninguém está olhando

Depois de derrubar quatro tenistas do top 20 em Madri (Makarova, Muguruza, Safarova e Sharapova), Svetlana Kuznetsova merece um pouco mais de atenção – até porque sua chave não é das mais turbulentas. Tem uma estreia contra Bertens, uma segunda rodada contra Schiavone/Wang e, depois, Pliskova até um confronto de oitavas contra quem avançar da seção que tem Bouchard (em péssima fase), Mladenovic e Diyas. Além disso, sua rival mais forte em potencial nas quartas seria a talentosíssima-porém-instável Petra Kvitova, número 4 do mundo. Qualquer coisa pode acontecer nessa parte da chave, e a veterana Kuznetsova, finalista em 2006 e campeã em 2009, pode muito bem aproveitar.

Minha seção preferida

Que tal prestar atenção no grupo que definirá a adversária de Petra Kvitova (potencialmente falando, claro) nas oitavas de final. Estão ali a inteligente Timea Bacsinszky, a talentosa Taylor Townsend, a experiente Daniela Hantuchova, a jovem em ascensão Belinda Bencic e a fortíssima Madison Keys. Do jeito que foi o sorteio, a segunda rodada pode ter Bacsinszky x Townsend e Bencic/Hantuchova x Keys. E as vencedoras desses dois jogos se enfrentariam na sequência. Seriam vários jogos ótimos. Duro mesmo seria escolher alguém para apostar.

Nas casas de apostas

Na australiana sportsbet, Serena Williams lidera as cotações. Quem apostar (e acertar!) num título da americana recebe 3,75 para cada “dinheiro” apostado. Sharapova (5,00) e Halep (5,50) não ficam tão atrás assim. O top 10 ainda tem Kvitova (10,00), Azarenka (13,00), Wozniacki (21,00), Suárez Navarro (21,00), Bouchard (31,00), Muguruza (34,00) e Kerber (34,00). Teliana paga 501,00.

Na britânica William Hill, a situação é quase igual. A única diferença no “top 10” é a presença de Suárez Navarro em sexto, à frente de Wozniacki. As cotações são as seguintes: Serena (11/4, ou seja, 11 “dinheiros” para cada quatro apostados), Sharapova (9/2), Halep (5/1), Kvitova (10/1), Azarenka (12/1), Suárez Navarro (20/1), Wozniacki (25/1), Bouchard (33/1), Muguruza (33/1) e Kerber (40/1). Um título de Teliana Pereira paga 500/1.


Quadra 18: Especial pré-Roland Garros
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Alexandre Cossenza

O programa pré-Roland Garros do podcast Quadra 18 já chegou à mesa de edição com o apelido de “episódio All-Stars”. Com participações de Fernando Meligeni, José Nilton Dalcim, Narck Rodrigues, Sylvio Bastos, Diana Gabanyi, Mário Sergio Cruz, Felipe Priante e todos (sim, TODOS) tenistas brasileiros que estão nas chaves principais em Paris, este episódio super especial conta tudo que você precisa saber sobre o torneio francês.

Temos Teliana Pereira falando sobre sua estreia, Thomaz Bellucci comemorando o bom momento e ressaltando a importância de viajar com o preparador físico André Cunha, Bruno Soares e Marcelo Melo avaliando os resultados recentes, André Sá explicando a troca de parceiro de última hora, Feijão falando sobre sua má fase e até um felicíssimo Christian Lindell, que disputará pela primeira vez a chave principal um primeiro Grand Slam. É muita coisa legal. Para ouvir via Soundcloud, basta clicar abaixo.

Quem preferir pode baixar o arquivo neste link ou assinar nosso feed e ouvir no iTunes. Nosso arquivo de programas também está no Tumblr. E para enviar questões, críticas e sugestões, nosso canal preferido é o Twitter – incluam sempre a hashtag #Quadra18 – mas também aceitamos via e-mail e Facebook.

Os convidados

Como é um programa super especial, com 1h30min de duração, deixo abaixo em que momento cada um de nossos convidados fala. Assim, quem preferir pode avançar direto até o trecho que preferir.

01’42’’ – Thomaz Bellucci
04’35’’ – Teliana Pereira
07’12’’ – Bruno Soares
11’35’’ – Marcelo Melo
13’00’’ – André Sá
16’46’’ – Christian Lindell
21’40’’ – Fernando Meligeni
26’05’’ – José Nilton Dalcim
35’07’’ – Narck Rodrigues
43’14’’ – Sylvio Bastos
50’55’’ – Felipe Priante
58’48’’ – Mario Sergio Cruz
63’32’’ – Alexandre, Sheila e Aliny opinam
79’57’’ – Diana Gabanyi
84’14’’ – Sylvio Bastos
87’19’’ – Bruno Soares

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast'', é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “So Bueno’’, “Down the Drain”, “Ganh For Days” e “Game Set Match''. As quatro fazem parte da audio library do YouTube.


Como Bellucci faz sua maré mudar
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Alexandre Cossenza

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Primeiro passo: tiremos o elefante da sala. Ser campeão em Genebra derrotando só um top 50 (e logo o 50º!) não faz ninguém um candidato imediato a um título de Grand Slam. Do mesmo jeito que Thomaz Bellucci não era o mais amaldiçoado dos homens quando perdeu oito jogos seguidos em fevereiro e março, não é agora que deve ser indicado ao Laureus.

Feita esta pequena introdução, é necessário constatar como Thomaz Bellucci vem fazendo sua maré mudar. Aos poucos, o número 1 do Brasil deu consistência a seu jogo, dando menos pontos de graça e fazendo adversários trocarem mais bolas. O circuito inteiro sabe que o paulista tem uma certa tendência de começar a errar, por isso muitos de seus oponentes adotam planos de jogo pouco agressivos, aguardando erros. Mas o que acontece quando Bellucci decide arriscar menos e esperar por chances melhores para atacar?

A tática da cautela funcionou para Pablo Cuevas em Istambul, mas não deu certo para ninguém desde então. Já faz um mês. Nos últimos três torneios que disputou, o brasileiro só foi derrotado por John Isner (Madri) e Novak Djokovic (Roma) – e em ambas partidas, levou os rivais ao terceiro set. Sim, houve momentos de instabilidade, mas estes apareceram com menos frequência (vide Bautista Agut em Roma e Albert Ramos em Genebra). Ser consistente, para quem armas acima da média como o saque e o forehand de Bellucci, faz muita diferença.

Do mesmo modo, seu físico vem fazendo diferença. O número 1 do Brasil, que volta ao top 50 nesta segunda-feira, levou o preparador André Cunha à Europa (lembrando os tempos pré-Larri Passos, quando sempre ia acompanhado de um profissional da área). Nas últimas quatro semanas, Bellucci fez 17 jogos. Só assim foi possível disputar os qualis de Madri e Roma e chegar a Genebra com gás para ir até o título. E só assim será possível emendar essa sequência de quatro torneios com Roland Garros, onde o paulista não consegue avançar à terceira rodada desde 2011 (não jogou em 2013).

O que, então, se tira do título em Genebra? Que Thomaz Bellucci não é um atleta tão diferente daquele que perdeu oito jogos seguidos. No tênis, contudo, pequenos ajustes provocam grandes mudanças. Um preparo físico melhor permite estar em pontos mais longos e com mais frequência. Logo, Bellucci pode arriscar menos e forçar adversários a serem mais agressivos. Com isso, perde menos e ganha mais pontos de graça. E aí, nada de repente e nada magicamente, aparece um troféu.

Coisas que eu acho que acho:

– Vale registrar os números: nas últimas quatro semanas, Bellucci venceu 14 partidas e perdeu três. Ainda que quatro desses triunfos tenham vindo em qualis, é uma campanha respeitável. No caminho, o brasileiro derrubou o número 19 do mundo, Bautista Agut, o 32º do ranking, Jeremy Chardy, e o 50º, João Sousa, que foi seu rival na inesperada decisão em Genebra.

– Dos quatro títulos de ATP de Bellucci, três foram conquistados na Suíça. Dois em Gstaad e um em Genebra. Importante ressaltar que as condições de jogo são bem diferentes as duas cidades. O jogo em Gstaad, construída 1.050 metros acima do nível do mar, é bem mais rápido do que em Genebra, onde a altitude é de 375m.


Roland Garros 2015: o guia
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Alexandre Cossenza

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Roger Federer de um lado, Novak Djokovic, Rafael Nadal e Andy Murray do outro. Sérvio e espanhol, que se enfrentaram em Paris 2006, 2007, 2008, 2012, 2013 e 2014, podem se encarar logo nas quartas de final. E não falta é assunto nesta sexta-feira, depois do sorteio das chaves de Roland Garros.

Nadal, que já não teve muito acontecendo a seu favor nos último meses, foi o grande perdedor do dia. Ainda em busca da consistência que lhe deu nove títulos em Paris, o espanhol pode se deparar bem cedo com seu maior rival. Traduzindo: terá alguns dias a menos para encontrar o ritmo que não conseguiu durante toda temporada de saibro europeia. Pode não significar muito, mas parece ser consenso no circuito que Nadal é mais “derrotável” longe da final. E isso porque ainda será preciso passar por Almagro/Dolgopolov (segunda rodada) e, talvez, Dimitrov nas oitavas. Não é o mais fácil dos caminhos.

Djokovic, que já perdeu duas finais e três semis para Nadal em Paris, não deve estar nada triste com a possibilidade de um duelo nas quartas (só aconteceu antes em 2006, no primeiro jogo entre eles). E, convenhamos, não é nada ruim para o número 1 uma chave que, antes das quartas, traz Nieminen, Muller/Lorenzi, Tomic/Kokkinakis e Anderson/Gasquet. O sérvio é presença quase certa entre os oito melhores do torneio. Murray, por sua vez, estreia contra um qualifier e depois pega, se os favoritos avançarem, Pospisil/Sousa, Kyrgios/Istomin, Isner/Goffin e Ferrer. Também não é o mais complicado dos caminhos, mas existe, claro, a grande possibilidade de ver Djokovic (ou Nadal) nas semifinais.

Logo, os grandes sortudos do dia ficaram na outra metade da chave. Roger Federer, cabeça 2 e na outra extremidade, vai ter bastante tempo para fazer aqueles “treinos com torcida” na Chatrier. Estreia contra um quali, depois enfrenta quali/Granollers e Karlovic/Baghdatis até, talvez, encontrar Gael Monfils nas oitavas. Embora não tenha feito uma grande temporada de saibro, o francês jogará em casa e com o retrospecto de duas vitórias nos dois últimos encontros com o suíço. Se acontecer, será um daqueles jogos com muita expectativa e torcida barulhenta. E, nas quartas, Federer enfrentaria o-freguês-Wawrinka.

O maior vencedor do dia, porém, talvez tenha sido Kei Nishikori. Cabeça 5, o japonês tem como adversário mais forte Tomas Berdych – o provável adversário de quartas de final. Antes, pega Mathieu na estreia e, depois, Matosevic/Bellucci, Verdasco e Bautista/Feliciano/Delbonis. Talvez tenha chegado o momento de Nishikori dar aquele passo adiante e finalmente se mostrar como postulante frequente às semifinalistas de Grand Slams – até agora, soma apenas a boa campanha no US Open do ano passado. E, é bom dizer, uma semifinal de Roland Garros contra Federer (leia-se “escapando de Djokovic e Nadal”) não é o pior dos cenários, certo? Obviamente, o suíço deve estar pensando o mesmo: “antes Nishikori que os outros dois.”

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Os brasileiros

Primeira rodada acessível, segunda fase dura. O mesmo pode ser dito de Thomaz Bellucci e Feijão. O número 1 do país, que está na final do ATP de Genebra, estreará em Paris contra o imprevisível australiano Marinko Matosevic. Se vencer, provavelmente terá de colocar sua consistência em prova contra Kei Nishikori. Feijão, que amarga uma série de oito derrotas, encara o espanhol Daniel Gimeno-Traver. Se espantar a má fase, possivelmente enfrentará David Ferrer. Difícil imaginar um brasileiro na terceira rodada.

O que ver (ou não) na TV

Difícil saber como será a transmissão para o Brasil, já que o Band Sports pouco deu detalhes sobre como seria e houve boatos de que o canal iria com equipe reduzida a Paris. Inclusive até hoje não há informação no site do BS sobre o segundo canal, aberto nos anos anteriores para assinantes da Sky.

Independentemente disso, a chave não foi muito generosa com o público na primeira rodada. São poucos os confrontos com alguma expectativa para os primeiros dias. Na segunda rodada, a coisa melhora pouco. Talvez tenhamos Nadal x Almagro/Dolgopolov, mas nada de confrontos entre grandes nomes. Vale ficar de olho para Murray x Kyrgios e Berdych x Fognini (um jogão em Roma) na terceira rodada, mas a coisa só deve esquentar mesmo a partir das oitavas.

Para o Brasil, claro, fica a expectativa de Bellucci x Nishikori e Feijão x Ferrer. O primeiro confronto, principalmente, pode ser uma bela partida.

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O que pode (ou não) acontecer de mais legal

No cenário dos sonhos, as oitavas começariam com Federer x Monfils. Partida com potencial de zebra, envolvendo tenista da casa e com muita coisa em jogo. Quem passar avança no quarto teoricamente mais acessível do torneio. Uma derrota seria uma chance enorme perdida por Federer. Uma vitória, por outro lado, abriria o caminho para, quem sabe, uma final que nem era tão esperada assim até umas semanas atrás. Será? De qualquer modo, seria um jogo pra qualquer fã de tênis lamber os beiços.

O tenista mais perigoso que ninguém está olhando

Pelo que li por aí das análises de chaves, dois nomes estão um pouco “esquecidos”. Um deles é o do próprio Monfils. Como já escrevi lá no alto, o francês não brilhou tanto assim nos torneios recentes, mas seu caminho até as oitavas não é tão duro assim. Logo, se conseguir aproveitar torcida, piso e repetir o triunfo sobre Federer, abre-se uma janela gigante.

O outro é Thomaz Bellucci, que somou bons resultados no saibro europeu, voltará ao top 50 na segunda-feira (ganhando ou não a final de Genebra) e também entrou na metade menos dura de Roland Garros. Obviamente, o brasileiro será um azarão e tanto se enfrentar Nishikori na segunda rodada. Mas e se vencer? O caminho até as quartas teria como rivais mais fortes Verdasco, Bautista Agut e Feliciano López. Em boa fase, Bellucci é muito bem capaz de derrotar os três.

Quem pode (ou não) surpreender

O quarto de chave com Murray e Ferrer não está nada, nada, garantido com britânico e espanhol se enfrentando nas quartas. A seção de Môri, especialmente, tem dois nomes perigosos: Nick Kyrgios e John Isner. O australiano, que estreia contra Istomin e pega um quali se avançar, pode encarar o escocês já na terceira fase. Caso não mostre os porquês de seguir invicto no saibro, Murray corre um grande risco nesse jogo. E quem vencer o duelo provavelmente terá Isner pela frente nas oitavas. O americano, que muita gente ainda não vê como ameaça em Roland Garros, vem de boas campanhas na Europa e não pode ser descartado.

Nas casas de apostas

Na casa australiana sportsbet, Novak Djokovic (surpresa!) lidera as cotações. Um título do sérvio paga 1,91 para cada “dinheiro” apostado nele. Em seguida, vêm Nadal (5,5), Murray (7,00), Federer (9,00) e Nishikori (13,00). Bellucci paga 301,00, enquanto a cotação de Feijão é de 501,00 – é quem paga mais, junto com duas dúzias de outros azarões.

Na britânica WIlliam Hill, a situação não é muito diferente. Djokovic (5/6 – cinco “dinheiros” pagos para cada seis apostados em caso de título) lidera, seguido por Nadal (7/2), Murray (9/1), Federer (11/1) e Nishikori (12/1). Bellucci paga 500/1, o mesmo que Feijão.


Quadra 18: S01E04
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Alexandre Cossenza

Também conhecido como “Episódio Dinara Safina”, o quarto programa resume de uma forma descontraída o que rolou nos torneios de Roma e Madri. Aliny Calejon, Sheila Viera e eu discutimos por que ninguém gosta de Madri e seu curioso troféu e, ao mesmo tempo, todo mundo adora Roma. Também falamos sobre Djokovic, Murray, Federer, Nadal, duplas, o momento de Bellucci e a desclassificação de Teliana. Ouça abaixo:

Quem preferir pode baixar o arquivo neste link ou assinar nosso feed e ouvir no iTunes (este quarto episódio vai estar lá em breve).

Vale lembrar que guardamos sempre um espaço no fim do programa para responder perguntas de leitores. Desta vez, falamos sobre os critérios que definem que duplas podem entrar nas chaves. Também comentamos, de forma divertida, os tenistas incompreendidos que só nós amamos.

Quem quiser participar pode enviar suas questões, críticas e sugestões de preferência via Twitter, incluindo sempre a hashtag #Quadra18.

Os temas

Como é também nosso programa mais longo e nem todos vocês querem ouvir tudo, deixo abaixo em que momento falamos sobre cada tema. Assim, quem preferir pode avançar direto até o trecho que preferir.

3’20’’ – Todas (e muitas) falhas do torneio de Madri
3’45’’ – As modelos espanholas
5’20’’ – As placas publicitárias problemáticas
6’00’’ – O troféu que “nem para vibrador serve”
7’15’’ – Futebol no telão durante partida
7’35’’ – Os camarotes gigantes e vazios
8’35’’ – Kyrgios derrotou Federer
9’00’’ – A decepção de Nadal na final
9’50’’ – Murray mais favorito a Roland Garros do que Federer
12’15’’ – O mais legal do torneio de Roma
13’00’’ – Italianos na Pietrangeli
14’25’’ – Wawrinka pós-divórcio
16’05’’ – O retorno da “Claypova”
16’25’’ – Abandonos recentes de Serena
20’05’’ – Aliny comenta as duplas (ou não)
22’08’’ – Bryans rumando à aposentadoria
24’50’’ – Bom momento de Bellucci
27’00’’ – Djokovic usa balões / méritos táticos do sérvio
29’10’’ – Federer e a evolução tática de seu jogo
32’15’’ – A rolha que quase encerra a carreira de Djokovic
33’30’’ – A desclassificação de Teliana
38’10’’ – Participante entretida com Bruna Surfistinha
38’40’’ – Aliny explica que critérios definem as duplas que entram nos torneios
41’00’’ – Tenistas incompreendido que só nós gostamos
49’25’’ – “Eu gosto do corpo dele”

Créditos musicais

A faixa de abertura do podcast, chamada “Rock Funk Beast'', é de longzijun. As demais faixas deste episódio são chamadas “So Bueno'' e “Game Set Match''. Ambas fazem parte da audio library do YouTube.


Sobre balões, doppelgangers e favoritismo
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Alexandre Cossenza

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Mais uma semana no saibro, mais um título de Novak Djokovic, mais uma atuação abaixo do esperado de Rafael Nadal. O Masters 1.000 de Roma teria sido mais interessante se Andy Murray não tivesse abandonado e se Stan Wawrinka tivesse dado as caras na semifinal, mas há, assim mesmo, um bocado de pontos interessantes a levantar sobre os últimos dias.

Novak Djokovic terminou o torneio de forma espetacular. Deu respostas a tudo que Federer tentou. Fez curtinhas, devoluções vencedoras e sacou como nunca. Sua velocidade lateral e seus contragolpes foram muitos e com muita frequência para o suíço. Como sempre, Nole também usou ângulos magistralmente, conseguindo manter o rival na defensiva em muitos momentos. Não foi uma semana perfeita, mas foi uma final fantástica do sérvio.

Em números, Djokovic agora tem 22 vitórias seguidas no circuito – e são 37 se contarmos apenas os torneios de nível mais alto (Masters, ATP Finals e Grand Slams). O número 1 do mundo venceu todos Masters que jogou em 2015 (Indian Wells, Miami, Monte Carlo e Roma) e chegará a Roland Garros invicto no saibro, mais favorito do que nunca a completar seu Career Slam (todos os títulos de Grand Slam, mesmo que em temporadas diferentes).

Nole perdeu sets em três jogos na semana, mas em apenas um teve de correr atrás. Foi contra Thomaz Bellucci, que fez uma belíssima apresentação durante a maior parte do tempo. Sobre essa partida em especial, vale destacar o momento em que, no começo do segundo set, Djokovic resolveu usar bolas mais altas e mais lentas. Fez isso uma vez e ganhou o ponto (vejam no vídeo abaixo). E, coincidência ou não, foi naquele mesmo game que o sérvio quebrou o serviço Bellucci pela primeira vez, iniciando a virada. A partida tomou um rumo diferente a partir dali.

Balões não são um meio de vida nesse nível. Tanto que Djokovic tentou o mesmo no ponto seguinte e levou um winner. Mas variar peso e altura de bola, especialmente se o oponente se mostra confortável do fundo de quadra, é um recurso interessante. Possivelmente não teria funcionado por muito tempo. Deu, no entanto, o resultado que Nole precisava naquele momento. Leitura de jogo e mudanças táticas são qualidades um tanto menosprezadas em tenistas tão talentosos como o sérvio. Ainda há quem o considere um robô devolvedor de bolas. Bobagem (e Djokovic já seria espetacular se fosse “só'' isso). Inteligência e variação ganham jogo. E o atual número 1 é o tenista mais completo da atualidade.

Sobre Thomaz Bellucci, as três últimas semanas são animadoras. Fez quartas de final em Istambul, furou o quali e avançou uma rodada em Madri, e foi uma fase ainda mais longe em Roma. Bons resultados, ainda que com um par de chances desperdiçadas pelo caminho (escrevo o post antes do ATP de Genebra).

Talvez seja mais interessante basear o otimismo no conjunto das três semanas e não na atuação diante de Djokovic. Bellucci, afinal, tem um quê de doppelganger. Não é de hoje que o paulista faz partidas excelentes contra grandes tenistas como Nole, Federer e Nadal, mas também sofre com atuações bem abaixo do esperado contra adversários com menos recursos. Vale lembrar que sua última partida contra o sérvio (aquela excelente semifinal de Madri/2011) foi seguida de um revés diante de Paolo Lorenzi, então número 148 mundo. Logo, cabe uma pitada de cautela nesse otimismo bellucciano pré-Roland Garros.

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O curioso sobre o cenário do saibro este ano é que, segundo a maioria das casas de apostas, Andy Murray é o terceiro mais cotado ao título do Grand Slam parisiense. O escocês, afinal, chegará à capital francesa invicto no piso – ganhou Munique e Madri e desistiu em Roma alegando cansaço (méritos por não usar o cada vez mais popular recurso de inventar uma lesão). Está em boa fase e tem tantas armas que candidata-se seriamente ao título – pela primeira vez.

Federer é o quarto e, às vezes, o quinto nome nas casas de apostas (há quem coloque Nishikori à sua frente na lista de favoritos). Ninguém duvida que o suíço seja capaz de ir longe em Paris, mas derrotar Djokovic ou Nadal em uma melhor de cinco sets no saibro parece menos provável a cada dia. Apesar do ótimo resultado em Roma, Federer ainda é quem mais oscila nesse grupo de cima.

O segundo nome mais cotado ainda é o de Rafael Nadal. Pesa, nitidamente, o histórico de nove títulos em Paris. Entra nessa conta também o fato de Roland Garros ser disputado em melhor de cinco sets, onde sua consistência costuma fazer diferença. Ah, sim: para muitos, falta pouco para o espanhol reencontrar o caminho até as vitórias. Nas últimas três derrotas, jogou um belíssimo tênis em alguns momentos. Faltou, porém, encaixar sequências e aproveitar as quebras de vantagem que teve contra Fognini e Wawrinka. Nadal ainda terá uma semana até o começo de Roland Garros e, provavelmente, outra semana para calibrar seu jogo até encontrar os adversários mais fortes da chave.

O ponto de interrogação continua e, com Nadal em sétimo lugar no ranking, o sorteio da chave de Roland Garros pode fazer uma diferença enorme no resultado final. Resta esperar até lá.


Djokovic e a rolha
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Alexandre Cossenza

Aparentemente, até quem tem certa intimidade com celebrações (são 53 títulos na carreira contando com o deste domingo) está sujeito a cenas assim. Após derrotar Roger Federer por 6/4 e 6/3 na final do Masters 1.000 de Roma, Novak Djokovic, número 1 do mundo, foi abrir uma garrafa de champanhe para festejar e… a rolha atingiu seu rosto! Veja no vídeo abaixo.

Djokovic abre champanhe e leva “rolhada'' na cara

Nada de grave aconteceu, e o sérvio segue seu caminho invicto no saibro em 2015 e mais favorito do que nunca ao título de Roland Garros, o único Grand Slam que falta em seu currículo. Volto a postar mais tarde, ainda neste domingo, fazendo um balanço da semana e do cenário do saibro no circuito.


Teliana atira raquete sem querer e é desclassificada
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Alexandre Cossenza

Todo tenista tem um momento bisonho de sua carreira pra contar – e até se arrepender. Neste sábado, aconteceu com Teliana Pereira no ITF de Saint-Gaudens, na França (torneio com premiação de US$ 50 mil). A número 1 do Brasil e 77 do mundo havia acabado de perder o primeiro set para a eslovaca Jana Cepelova por 7/6(5) quando resolveu isolar uma bolinha. A raquete escapou de sua mão e foi parar no público. Declassificação imediata. Veja no vídeo abaixo.

Teliana Pereira era a cabeça de chave número 1 do torneio francês. Cepelova, oitava pré-classificada, avançou às semifinais do torneio e vai enfrentar a bielorrussa Aliaksandra Sasnovich. A outra semi tem a polonesa Magda Linette e a espanhola Maria Teresa Torro-Flor.

Aconteceu com Guga

Nem tanta gente lembra, mas algo não muito diferente aconteceu com Gustavo Kuerten em Roland Garros/1998. E em situação semelhante: depois de perder o primeiro set por 7/6. O catarinense, que fazia dupla com Fernando Meligeni, foi desclassificado nas quartas de final, em jogo contra Patrick Rafter e Jonas Bjorkman. O trecho é relatado por Guga em sua biografia:

“Olhei para as minhas coisas no banco, que estavam no outro lado da quadra, e com toda a frustração, atirei a raquete mirando nelas. Em vez de ir em linha reta, ela subiu. Para piorar, pegaria em cheio no juiz se ele não desviasse. Foi um arremesso tão forte que a raquete foi parar na arquibancada. Meu corpo virou um liquidificador de emoções, misturando raivas pelas interferências do juiz, frustração, desilusão, desconforto, constrangimento, vergonha. Eu queria sair da quadra correndo.''

(texto a seguir incluído às 20h30min de sábado)

Teliana fala

Recebi da assessoria de imprensa uma declaração de Teliana sobre o episódio. Ele segue abaixo, publicado na íntegra.

“Estou muito chateada, foi triste o que aconteceu hoje em Saint Gaudens. Em um momento de frustração joguei a bola contra a tela, a raquete escapou da minha mão e parou na arquibancada. Por sorte pegou apenas de raspão em uma pessoa e não a feriu mas acabei desclassificada. É a regra. Nunca tive a intenção de jogar a raquete em alguém e nem costumo joga-lá na quadra. Na hora fui me desculpar com a senhora atingida. Ela trabalha no torneio, um dos que eu mais me sinto em casa e me tratam como se fosse uma local. Eles todos me apoiaram e entenderam que não foi intencional. Ficaram tão arrasados quanto eu. Não tenho o que dizer. Apenas pedir desculpas e seguir em frente e crescer com o aprendizado. Obrigada a todos pelo apoio. Amanhã foco total em Roland Garros que começa na quarta feira.''


Sobre Murray e o mais intrigante dos cenários no saibro
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Alexandre Cossenza

Murray_Madri_F_afp_blog

Após quatro semanas de torneios na Europa, todo mundo já sujou as meias e deu aquelas raquetadas no tênis para tirar o saibro da sola. Logo, o circuito já passou por um CTRL+Z no blur e começa a ficar claro quem é quem no período que antecede o Grand Slam da terra batida. É o momento, então, de avaliar em que pé estão os principais candidatos ao título de Roland Garros.

O nome do momento, claro, é Andy Murray. O britânico, que nunca venceu um torneio de ATP no saibro como solteiro, casou-se na semana de Monte Carlo e não perde desde então. Faturou Munique, um torneio tumultuado pela chuva e que só terminou na segunda-feira, e deu sequência com uma semana fantástica em Madri. Nas semifinais, derrubou Kei Nishikori – campeão em Barcelona – e, na decisão, superou Rafael Nadal em menos de 1h30min, num 6/3 e 6/2 surpreendentemente sem drama. Um resultado que o coloca instantaneamente como forte candidato ao título em Paris – não confundir “forte candidato” com “favorito”, por favor.

Sobre as campanhas do escocês, que soma nove vitórias seguidas, vale apontar alguns pontos. O mais importante deles é que Murray vem usando bem todos seus recursos – que não são poucos – e variando inteligentemente o jogo de acordo com adversário e momento. Na final, sacou muito bem quando esteve diante de break points e distribuiu o jogo do fundo de quadra, encontrando um equilíbrio quase perfeito, sem correr riscos desnecessários numa noite em que Nadal estava claramente jogando um tênis abaixo de seu normal.

O outro ponto a destacar foi a pitada de sorte na chave. Murray chegou a Madri atrasado por causa da final na segunda-feira em Munique e deve ter ficado um tanto feliz ao saber que seu primeiro adversário seria Philipp Kohlschreiber, o mesmo que derrotou no torneio alemão. Não só pelo triunfo recente, mas porque não seria necessário encarar um oponente mais descansado ou mais adaptado às condições de Madri. De resto, jogou muito tênis e fim de papo. Em sete dias, colocou-se entre os nomes mais fortes em Paris.

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Rafael Nadal, por sua vez, continua com um ponto de interrogação de tamanho considerável sobre sua bandana. Ao longo dos três torneios que disputou (Monte Carlo, Barcelona e Madri), foi evoluindo e, quando fez uma ótima partida contra Tomas Berdych na semifinal do último sábado, levou muita gente a acreditar que atropelaria na final. Pois viveu outro dos dias inconstantes que vêm lhe incomodando desde o início da temporada. Não me parece alarmante, ainda que seja incomum vê-lo ficar três semanas sem ser campeão no saibro.

Vale a ressalva: boa parte da preocupação com os resultados do ex-número 1 do mundo vem de seu currículo no saibro: nove títulos em Roland Garros, oito em Monte Carlo, oito em Barcelona e sete em Roma. Tamanho domínio não duraria para sempre. E já não aconteceu no ano passado, quando, lembremos, Nadal tornou-se eneacampeão em Paris. A falta de títulos em 2015 talvez signifique que o espanhol não será tão favorito quanto em outras temporadas, mas ainda será um feito e tanto se alguém derrotá-lo na terra batida em um jogo melhor de cinco sets.

O grande favorito ainda é Novak Djokovic, e sua ausência em Madri não enfraqueceu em nada seu status – pelo menos nos olhos de seus oponentes. Para muitos, Andy Murray só levantou o Dildo Dourado (vide foto acima) porque o número 1 do mundo não esteve na capital espanhola. Portanto, o sérvio ainda chega (descansado!) a Roma como o homem a ser batido no momento.

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Quanto a Roger Federer, o torneio de Istambul provou-se inconclusivo. Somando Monte Carlo e Madri, o suíço fez três jogos e perdeu dois – em chaves complicadas, é bom frisar. A derrota para Nick Kyrgios na Espanha foi tão precoce que quase forçou o número 2 do mundo a ir a Roma, que não estava nos planos. Ainda há tempo para adquirir ritmo e confiança, já que o sorteio italiano lhe foi mais favorável. Por enquanto, Federer corre por fora, talvez emparelhado com Kei Nishikori, que venceu Barcelona (onde escapou dos nomes mais fortes da chave) e fazia um grande torneio em Madri até esbarrar em Murray.

Também fazendo a curva por fora, mas alguns corpos atrás, vem uma turma com Berdych, Isner, Kyrgios (os três estavam no quadrante de Federer em Madri!), Raonic e Ferrer. Wawrinka e Dimitrov também estão por ali. Todos esses nomes são capazes, no dia certo, de derrotar qualquer nome na chave. Logo, o cenário que se desenha para Roland Garros é o mais interessante dos últimos tempos.

Coisas que eu acho que acho:

– O jejum era curioso, mas não tão difícil assim de explicar. Murray nunca deu preferência ao saibro em seu calendário e jogou pouquíssimos torneios pequenos. Quando jogou um bom tênis no piso, sempre esbarrou em Nadal ou Djokovic. Sempre foi, no entanto, curioso como alguém com tantos recursos, ótimos golpes com top spin e boa velocidade para se defender levou tanto tempo para levantar um troféu na terra batida.

– A falta de tempo (leia-se “Dia das Mães” neste caso) não me permitiu escrever um texto apenas para a chave feminina. Vale registrar, porém, a semana espetacular de Petra Kvitova, que atropelou Serena Williams na semifinal e fez o mesmo com Svetlana Kuznetsova na decisão. A tcheca não vem conseguindo resultados consistentes ultimamente e optou por não ir a Indian Wells e Miami. Desde então, venceu oito jogos e perdeu apenas um. E quando tudo encaixa em seu jogo, que tem um bocado de opções, até Serena encontra problemas.