Saque e Voleio

Thomaz Koch: ícone, ídolo e mestre zen
Comentários 10

Alexandre Cossenza

Koch1_JoaoPires_blog

Aconteceu duas noites seguidas, durante a última etapa do Itaú Masters Tour, em Angra dos Reis. Thomaz Koch, 71 anos, faz uma jogada linda e é aplaudido de pé pela arquibancada inteira. É mais do que uma salva de palmas pelo lance. É reconhecimento, respeito pela história, por tudo que o gaúcho fez no tênis. É também admiração por saber que um senhor de 71 anos consegue jogar naquele nível contra adversários 20, 30 anos mais jovens.

Thomaz Koch é a referência para a maioria dos jogadores do Itaú Masters Tour, um evento que reúne muitos dos grandes nomes do tênis brasileiro – feito que a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) falha feio a alcançar. Tão feio que nem tenta mais, e ainda há quem se orgulhe disso. Mas eu divago. É mais do que isso. Para grandes nomes como Nelson Aerts, Givaldo Barbosa, William Kyriakos, Ricardo Mello, Mauro Menezes, Ricardo Acioly e outros, Koch é um ícone. É o carisma, o cabelo comprido, é o mestre zen, é o vitorioso.

Para os tenistas (homens) que vieram antes de Guga, Koch era a referência. Maria Esther Bueno sempre foi a maior do país, mas seus feitos foram 50 anos atrás. A maioria não viu. Koch era mais próximo. E era “o” cara. E foi nesse ambiente de reverência, no mês passado, no resort onde o Itaú faz anualmente a última etapa do circuito, que batemos um papo.

Entrevistar Thomaz Koch é tão fascinante quanto difícil, pelo menos para mim. Vergonha nenhuma de admitir isso. Com ele, é sempre difícil prever o rumo da conversa, então é preciso estar pronto para jogar o “roteiro” fora a qualquer momento. Não tem como (repito: para mim, pelo menos) estar 100% preparado para o rumo que um papo com Thomaz Koch vai tomar. E isso, em tempos de tenistas treinados, atletas bitolados e assessorias de imprensa, é glorioso.

Conversamos por cerca de meia hora, enquanto ele almoçava. Começamos falando sobre a admiração que todos lá tinham por ele, abordamos a homenagem que Koch recebeu em Barcelona este ano e de sua figura na época dos hippies, da luta contra o establishment. O papo, então, entrou no curiosíssimo período em que ele viajou pelo circuito treinando André Ghem, quando os dois quase nunca falavam sobre tênis (!).

O papo englobou o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, o cantor e compositor canadense Leonard Cohen e o “Sugar Man”, Sixto Rodríguez. E aí o papo voltou ao Brasil (culpa minha, admito) para abordar o reconhecimento das gerações pré e pós-Guga, a possibilidade de Thomaz Koch voltar a treinar algum tenista, e sobre como a CBT alijou ex-tenistas que poderiam ajudar o esporte. Leiam!

É bom ver que as pessoas ainda têm essa reverência por você…

Eu estive em Bauru este ano e foi mais ou menos parecido. As pessoas muito contentes. É um lugar de muita tradição, a expectativa era muito grande. Só o fato de eu estar lá já era muito legal. O que acontece também em Porto Alegre, no Leopoldina Juvenil. Inclusive mês que vem [dezembro] vai ter uma comemoração dos 50 anos que a gente ganhou dos americanos na Copa Davis. Estão trazendo o [Edison] Mandarino da Espanha, eu estou indo lá, então acho que é uma coisa bem grande, significativa. Um negócio bem legal.

Como foi em Barcelona?

Uns anos atrás eles estavam comemorando 50 anos do torneio nesse clube, que é o Real Clube de Tênis. Me mandaram um convite, e eu só recebi depois do torneio. Dois anos atrás, o diretor do me falou “a gente vai te convidar quando fizer 50 anos que você ganhou o torneio”. Eu disse “ah, tá legal” e não levei muita fé. Aí, no início do ano, me mandaram um e-mail me convidando para ir com acompanhante. Eu disse “claro”. Eu não estava esperando. Achei ótimo.

E qual foi a sensação quando você chegou lá?

Eu fui com a minha filha. No dia que eu cheguei, me pegaram e me levaram para uma sala lá. Estavam todos os grandes tenistas espanhóis. [Manolo] Santana, [Andrés] Gimeno, [Emilio] Sánchez, [Sergio] Casal, Ángel Giménez, José Arilla, Juan Gisbert… E aí, quando eu cheguei, todo mundo levantou e bateu palma. Era uma coisa muito emocionante. Todos os dias, tinha alguma festividade, jantar, almoço, não-sei-o-que, e no último dia me puseram na tribuna presidencial junto com o Plácido Domingo e o Santana. Foi uma coisa muito reverenciada. Também me botaram na tribuna em um jogo do Barcelona. O presidente do clube me convidou especialmente. Foi muito incrível. Teve um carinho, uma atenção muito grande. Eu não esperava, entende? Claro, fiquei muito grato por isso.

Koch4_JoaoPires_blog

Há quanto tempo você não ia a Barcelona?

Eu estive um ano lá acompanhando o vôlei de praia porque as filhas e o filho da minha ex-mulher (Isabel) jogavam o circuito mundial. Essa tinha sido a última vez.

Então você não ia ao torneio sempre, né? Pergunto porque me parece o tipo de reverência que é exclusivamente pelo seu mérito como tenista. Não é porque você foi ou é amigo de alguém do clube…

Basicamente, mas os ex-tenistas, gente que ganhou Roland Garros e tudo… Inclusive quando eu comecei a jogar o circuito, eu era o mais novo, então todo mundo me chamava de Thomazinho. Até hoje, me chamam lá de Thomazinho. O pessoal lá com Arilla, Santana, Gisbert… Então tem uma parte afetiva também, sabe? Mas do torneio, claro. Convidam todo ano o campeão de 50 anos atrás. Mas eu achei que foi uma coisa especial, entende? Teve mais atenção.

Eu estava falando com o Neco (Nelson Aerts) ontem, falei com o Danilo (Marcelino) também… Você é a referência de todos eles aqui no Masters Tour. Eles falam do seu tênis, mas falam do seu jeito, do cabelo comprido, era a sua figura.

Foi muito impactante. Inclusive na época, era tempo dos hippies, da contracultura, era você lutar ou brigar contra o establishment. Tinha tudo isso, essa referência de ser contra a ordem estabelecida. O cabelo comprido era uma maneira de destacar isso.

Esse é um assunto sobre o qual eu realmente nunca li nada no Brasil. Como o tênis e os tenistas viam a questão política dessa época?

Eu fui o primeiro cara cabeludo no esporte no Brasil, na América do Sul.

Nem os argentinos usavam cabelo comprido naquela época?

Quem? Todos vieram depois de mim. O Vilas me copiava até no jeito de caminhar. Borg, tudo isso, veio depois, Nós somos os primeiros. Éramos três. Torben Ulrich, Ray Moore e eu.

Vocês eram mais do que tenistas…

Muito mais!

Isso não te causou problema nenhum?

Muito! Muitos problemas. No torneio de Los Angeles, por exemplo, cabeludo não entrava. Eu não podia jogar lá. Isso foi antes da ATP. Quando veio a ATP, eles tiveram que abaixar a cabeça porque não tinha mais discriminação. Era uma época diferente. Tinha o apartheid lá na África do Sul, que o [Arthur] Ashe foi quebrar essa coisa. Ele jogou lá e foi muito incrível o movimento que ele criou. Na época, a gente não jogava na África do Sul. Em represália, sabe? Eu lembro até que ofereceram um milhão pro Borg e pro McEnroe, e o McEnroe disse “não vou, não”. Na época, um milhão de dólares era algo impensável.

Koch2_JoaoPires_blog

Aí eu queria entrar em outra questão. Porque você era o ídolo deles, mas…

(interrompendo) Eu não era referência só no Brasil. Eu era uma referência mais forte na América do Sul, tudo bem, mas nos EUA e na Europa também. Era muito forte. Isso me incomodou tanto que eu tive que me afastar. Eu não estava a fim desse buchicho todo. Eu queria ter meu canto, minha paz e tchau, entende? Mas era um movimento forte, grande, intenso, e isso fez eu me afastar um pouco do buchicho.

Isso é uma coisa que muita gente fala até hoje. Que você foi e continua muito “zen”. E não de prática zen budista, mas de ser um cara tranquilão, de não esquentar a cabeça com muita coisa, de levar a vida numa boa. E eu quero muito saber como foi o período que você treinou o André Ghem porque ele também é um cara muito diferente da maioria dos tenistas. Ele é outro papo, outra cabeça! Isso tem alguns anos já (a parceria ocorreu em 2014), mas como isso aconteceu?

Anteontem, ele até me mandou um WhatsApp com uma foto dele com o Robert Marcher, que era um cara que eu convivia bastante na época. A gente se conheceu numas Copas Davis que a gente conviveu. Ele foi convidado como sparring e eu fui lá também, na época que a gente ainda acreditava na Confederação. Eu fui lá e participei de algumas etapas da Davis. Então eu acompanhei ele num torneio no Rio e dei uns toques. Aí ficou aquela coisa, mas ele nunca… Eu que falei pra ele, perguntei se ele não estava interessado que eu acompanhasse ele um tempo. Ele ficou amarradão, e aí foi. Ele é um cara muito legal, gosto muito dele.

Que tipo de conversas vocês tinham? Era mais mecânica de golpe, estratégia de jogo, estilo de vida ou o quê?

Olha, de tênis nem se falava muito, não. Acho que a gente tratava mais da vida.

Isso é bom, né? Difícil ver uma relação assim entre jogador e técnico hoje…

Quando o McEnroe queria que eu treinasse ele, ele não estava querendo que eu arrumasse os golpes dele. Ele queria alguém pra trocar ideia no dia a dia e, de repente, deixar ele mais tranquilo. Eu acho que tem muita coisa fora do tênis, fora de jogar… Por exemplo, você passa muito mais tempo entre pontos do que jogando. Então a importância maior é o que você faz nesse intervalo de tempo entre um ponto e outro. É um tempo muito grande e que geralmente é decisivo. Então o cara fala “bate de direita, esquerda”, tudo bem, bate. Claro que é importante, mas esse intervalo aí, pra mim, é mais importante.

Sem querer entrar demais na intimidade de vocês, tem como dar um exemplo de um papo desses?

Não sei, porque não era nada programado, entende? As coisas acontecem. De repente, um evento, um fato, uma coisa cria um comentário, e daí você vai e entra em situações assim. Eu te dou um exemplo mais antigo. Uma vez, eu estava em Gstaad, na Suíça, era o dia da final. Depois do café da manhã, estava chovendo e eu estava falando com o Vilas. A final tinha sido transferida para as 2h da tarde. Ele perguntou “onde você vai?”, e eu disse “vou ver o [Jiddu] Krishnamurti”. É um filósofo indiano que é muito conhecido. Era num lugar a 17 quilômetros de Gstaad. Ele [Vilas] disse “também vou”. Eu disse para ele ficar porque ele tinha jogo. Ele: “Não, não. Vamos lá!” A palestra dele era de 1h30min, e todo ano ele ia lá, ficava numa tenda, e as pessoas se reuniam lá, acampavam e não sei o quê. Ele [Vilas] foi junto. Eu meio preocupado com o horário dele, mas “vambora” e tal. Assistimos à palestra. Ele [Vilas] ficou tão tocado com essa pessoa, que tinha uma aura, um negócio assim muito incrível, e comprou tudo que tinha. Livros dele e tudo. É um cara que marcou muito ele. Aconteceu ali de o Vilas ficar encantado. E fala nele até hoje. Isso é um exemplo de que, de repente, pá, acontece alguma coisa.

Sei, sei.

Ou é um show ou é música ou palestra, enfim, alguém marcante. Por exemplo, três dias atrás morreu Leonard Cohen. Então o Ghem, por exemplo, no meu iPhone eu mostraria uma música dele, o Ghem ia ficar amarradão e ia começar a pesquisar sobre o cara, entende? Aqui no Brasil, pouca gente conhece Leonard Cohen. E ele é da época de Bob Dylan, anos 60. Quando ele morreu, muitas pessoas me mandaram WhatsApp, dizendo “sinto muito”, “Leonard morreu” e tal. Porque é uma relação. Como teve o Sixto Rodríguez, que era americano e lançou dois discos nos Estados Unidos. Ninguém conhece ele, não vendeu nenhum disco. Aí uma menina levou o disco dele pra África do Sul, e ele se tornou herói da contracultura lá. Ficou mais famoso do que os Rolling Stones. Fizeram um documentário da vida dele chamado Sugar Man. Descobriram ele, ninguém sabia onde ele estava. Esse é outro assunto. Então são coisas assim, entende? São as minhas referências, que eu passo para um e para outro, aí o papo engrena, sabe?

Koch3_joaoPires_blog

Mudando um pouquinho de assunto, aqui temos Givaldo Barbosa, João Soares, William Kyriakos… Personalidades diferentes, gente que teve carreiras diferentes, mas todos estiveram entre os melhores do país em algum momento. Se você sair do meio do tênis, são pessoas muito pouco conhecidas. De quem é a culpa por isso? É da imprensa, a confederação deveria fazer um trabalho maior nesse sentido…

O que aconteceu… Quando a gente fundou, com o Luis Felipe Tavares, a Koch Tavares, a ideia era fazer torneios aqui no Brasil. O Givaldo, o Júlio Góes, o Mauro [Menezes] foram crias desses torneios aqui. Eles não tinham condição de ir para o exterior para jogar torneio. Os pontos deles eram aqui. Chegamos a ter ano com 13 torneios seguidos assim. Isso revelou tenistas e fez eles conhecidos. A Maria Esther [Bueno], se tivesse jogado no Brasil, seriam muito mais conhecida. Infelizmente, ela é um ídolo lá fora. Aqui no Brasil, ela é conhecida, mas não é idolatrada.

Um Júlio Silva, um Ricardo Mello, por exemplo, seriam mais reconhecidos ou até respeitados se tivessem jogado mais aqui dentro, você acha?

Muito mais, muito mais! Desde que viessem jogadores internacionais que atraíssem a mídia. O negócio é que hoje em dia é difícil você atrair um destaque. Ficou inviável. A Koch Tavares foi criada para fazer torneios aqui no Brasil e prestar esse serviço ao tênis brasileiro. Por isso que eu saí de lá depois de um tempo.

Hoje você passa a maior parte do tempo fazendo o quê?

(resposta rápida) Nada. Absolutamente nada.

(risos) Mas você não entra na quadra aqui sem pelo menos bater uma bolinha antes, né? Quantas vezes por semana você joga?

Se tiver alguém legal pra jogar, eu jogo. Se não tiver, eu não jogo. Ultimamente eu tenho até jogado um pouco mais porque vi que isso aí me faz circular o sangue, entende? Me faz bem, então mais do que jogar, vou no paredão, bato uma parede, pulo um pouco de corda e pronto.

Mais duas perguntinhas só… Você voltaria a viajar, treinar alguém no circuito?

Claro.

Que tipo de jogador? Ou nenhum específico?

Nenhum específico.

O que precisaria pra “casar”?

Acho que principalmente interesse do tenista, e o cara acreditar que eu pudesse fazer alguma coisa por ele. Porque o pessoal hoje acha que a gente está antiquado, que a gente está defasado, que é um tênis antigo. A quadra é igual, a pontuação é igual e a maneira de jogar mudou um pouco, mas você tem que tirar o que o tenista tem de melhor. Não estratificá-lo. É dar a chance para ele ser mais criativo. Acho que hoje em dia o tênis está muito…

Bitolado?

Bitolado, é! Eu preferia ver os caras fazendo mais coisas. Acho que eu seria muito bom nessa parte de dar asas à imaginação do tenista, à criatividade dele. E, principalmente, à cabeça do cara. Eu sou muito bom nessa parte entende? Eu acho.

Quem você gosta de ver jogar? Tirando o Federer, que é unânime…

Gosto daquele alemão… Esqueci o nome dele…

Dustin Brown?

Esse! Gostava do Tsonga, do Monfils…

E o Kyrgios?

Acho lindo o jogo dele. Acho incrível! Mas não gosto da cabeça dele. Mas acho um tênis fantástico.

É o que você dizia… Não é um cara bitolado.

Não!

Koch5_JoaoPires_blog

E, pra terminar, como você vê o tênis brasileiro hoje, com uma confederação mudando de sede porque perdeu patrocínio, um centro olímpico que não se sabe se vai ser utilizado para o tênis…

Quanto ao fato de perder o patrocínio, acho que ele estava sendo muito mal direcionado. A grana estava toda indo pra quem não precisa, pra quem já tem. Precisa é canalizar essa grana pro pessoal infanto-juvenil na minha opinião. Treinamento, pré-temporada, essas coisas, sabe? Pra mim, é uma incógnita o que vai acontecer com a Confederação agora. Mudou de sede, de presidente. Torço para que aconteça, entende? Mas sinto que o pessoal do tênis, em geral, não está satisfeito com a situação. Não pode estar. A gente foi alijado do tênis, entende? Quem podia prestar um serviço ao tênis simplesmente foi barrado, está de fora. Acho isso uma pena, um absurdo. E quem mais perde é o tênis.

Acho que é o pensamento geral de quem não está na “panela”, né?

É uma coisa muito amadora, que não condiz com o esporte hoje em dia. O esporte hoje em dia é profissional. Acabou o amadorismo. E as federações, confederações, não do tênis, mas de todos esportes, são regidas de uma maneira muito amadorística. Infelizmente.

Isso sem falar em Copa Davis, na organização, na produção…

Ano passado, em Florianópolis [no confronto entre Brasil e Croácia], eu fui por conta própria. Eu paguei minha passagem, estadia, todo negócio. Cheguei lá, não tinha nem convite. No fim, o [Paulo] Moriguti [diretor técnico da CBT] que me conseguiu um convite. É uma falta de consideração com o pessoal das antigas. O Adriano Ferreira foi pra lá e ficou lá no final da arquibancada.

Eu fui a esse confronto de Floripa, e até as instalações para a imprensa eram precárias.

Eu fui, aluguei um carro, paguei estacionamento… Quando você vai ver, é uma despesa que… Está errado!

Uma despesa que ex-jogador não deveria ter. E muito menos o tenista que mais venceu jogos pelo país na história da Copa Davis.

É. Se tem um cara que tem história na Davis, sou eu. No site da Confederação, se você olhar, o Mandarino é um cara muito importante. Tem um monte de foto lá, e ele não aparece lá. Eu fico muito puto com isso, sabe? O Mandarino não estar? A gente jogou 15 anos de Copa Davis com sucesso! Não ter a foto do cara no site da CBT. Então passa batido, sabe? Nunca chamaram ele para nada aqui no Brasil!


A dívida da Davis e a lição de Del Potro
Comentários 16

Alexandre Cossenza

Argentina_Davis_trophy_reu_blog

Vilas, Clerc, Frana, Jaite, Lobo, Nalbandian, Chela, Cañas, Calleri, Gaudio, Gumy, Puerta, Squillari, Zabaleta… A ilustre lista é longa, e era difícil entender como um país que fabricou tantos tenistas nunca venceu a Copa Davis. Era. A turma do capitão Daniel Orsanic, liderada por Juan Martín del Potro e com competentes coadjuvantes como Leo Mayer, Juan Mónaco, Federico Delbonis, Guido Pella, Carlos Berlocq e Renzo Olivo, bateu a Croácia em Zagreb e conquistou o título, cobrando uma antiquíssima dívida. Sim, era a Copa Davis que devia isso à Argentina, e não o contrário.

Foi a quinta final argentina na Davis e estava longe de ser a melhor chance de título. Em 2008, em Mar del Plata, o time de Nalbandian e Del Potro era favorito contra a Espanha, que viajou desfalcada de Rafael Nadal. Nalbandian atropelou David Ferrer no primeiro jogo, mas Delpo sofreu uma lesão na segunda partida, deixando o (brigado) time dependendo de José Acasuso para forçar o quinto jogo. Não deu. A chance terminou na raquete de Fernando Verdasco, que venceu um jogo nervoso e ruim para dar mais um título aos espanhóis.

Na época, Nalbandian jogou boa parte da culpa nos ombros de Del Potro. O jovem não teria se poupado devidamente para a final da Davis. Talvez Delpo tenha carregado aquela culpa até este ano. Talvez não. Talvez ele apenas guarde mágoa de Nalbandian. Ou nem isso. Difícil saber. O que era impossível mesmo de saber é que Del Potro, depois de tantas lesões nos dois punhos, voltaria à Copa Davis desta maneira.

Em certo momento, o campeão do US Open de 2009 parecia mais um ex-tenista tentando lidar com uma lesão sem solução do que um top 10 que voltaria a brigar com os melhores do circuito. O que aconteceu, no entanto, foi menos Gustavo Kuerten (aposentado por uma lesão no quadril) e mais Rafa Nadal (número 1 do mundo em 2013 depois de ficar afastado por boa parte de 2012).

Em 2016, Del Potro viveu o melhor ano de sua carreira – como ele mesmo afirmou diversas vezes, em várias ocasiões. Derrotou Wawrinka em Wimbledon; bateu Djokovic e Nadal nos Jogos Olímpicos; passou por Ferrer e Thiem no US Open; conquistou um título em Estocolmo; superou Murray nas semifinais da Copa Davis; e completou a temporada com uma virada memorável sobre Marin Cilic, que vencia por 2 sets a 0 e jogava em casa. Esta gloriosa timeline lista tudo.

Mais do que tudo isso, Del Potro deixou a todos uma gigante lição. Mesmo nos momentos mais duros, jamais deixou de acreditar. Sofreu, encheu-se de esperança e sofreu outra vez. Tentou voltar, não conseguiu. Tentou de novo. Falhou novamente. Ralou. Começou do zero. Insistiu. Batalhou. E, finalmente, voltou. E que ninguém ouse duvidar dele daqui em diante.

Coisas que eu acho que acho:

– A Argentina foi campeã como time. Por mais importantes que tenham sido as vitórias de Del Potro sobre Murray nas semifinais e Cilic na final, foram Leo Mayer e Federico Delbonis que venceram os jogos decisivos nesses dois confrontos. Não dá para falar nesta Davis sem mencionar o enorme valor dos coadjuvantes argentinos, impecáveis nos momentos mais importantes.

– O mesmo vale para o capitão argentino, Daniel Orsanic. Um cidadão educadíssimo, que olha na cara, fala o que pensa e escala os melhores. Orsanic não foi contratado para repetir o discurso da federação argentina nem para tentar justificar escolhas patéticas de seus superiores. Assumiu o cargo com uma postura apaziguadora, deixou critérios claros e convocou sempre os melhores. O resultado está aí para todo mundo ver. Não é tão difícil assim.


Quadra 18: S02E16
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Andy Murray derrotou Novak Djokovic, conquistou o ATP Finals e termina o ano como número 1 do mundo. Nas duplas, Bruno Soares e Jamie Murray são a dupla número 1 da temporada. Após o torneio de fim de ano da ATP, Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu batemos mais um papo no podcast Quadra 18 e falamos sobre simples e duplas, oferecendo respostas para várias perguntas de nossos ouvintes.

Djokovic continuará vulnerável? O #1 pesará muito para Murray? Federer e Nadal voltarão a brilhar em 2017? Raonic algum dia vai conquistar um Slam? Quais as chances de Bruno Soares também ser #1 no ranking individual de duplas? Quer saber o que a gente acha disso tudo? Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique com o botão direito do mouse neste link e selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’16” – Sheila Vieira apresenta os temas
1’40” – A importância dos nomes que Andy Murray derrubou no ATP Finals
2’15” – Como o grupo de Djokovic era mais fraco
5’06” – Qual o real peso do Lendl sobre as atuações do Murray?
7’04” – Nole mostrou uma atitude melhor na fase de grupos e na semifinal?
9’42” – Devemos nos acostumar com o Djokovic vulnerável do 2º semestre?
11’02” – Meligeni e a história do “guru” de Djokovic que abraçava árvores
12’05” – Hábitos esportivos da Sheila e comentários aleatórios sobre quadribol
14’06” – Na briga pelo #1, Djokovic x Murray finalmente será uma rivalidade?
14’58” – Federer e Nadal vão voltar a brigar em 2017? E o tal implante de Nadal?
16’02” – Murray vai ter cabeça para seguir no topo?
17’17” – Raonic como #3 e Wawrinka como #4
18’50” – Raonic vai ficar sempre no quase ou vai além disso?
19’51” – Será que agora os fãs de tênis vão finalmente respeitar Raonic?
21’40” – Black Hole Sun (Ramin Djawadi)
22’05” – O título de Kontinen e Peers e o número 1 de Bruno e Jamie
23’15” – Como o jovem Henri Kontinen subiu meteoricamente no circuito de duplas
27’04” – Quais as chances de Bruno ser #1 no ranking individual de duplas?
27’48” – É mais importante ser o maior duplista ou estar na melhor dupla?
28’40” – Dodig e Melo: a campanha no Finals e o resumo dos 5 anos de parceira
31’28” – IPTL: o que esperar?


Andy Murray, o número 1, e a ‘chancela Djokovic’
Comentários 1

Alexandre Cossenza

Murray_Finals16_trophy_get_blog

Andy Murray foi campeão de Wimbledon, bicampeão dos Jogos Olímpicos e terminou a temporada com o título do ATP Finals. Fez outras duas finais de Slam (perdeu para Djokovic na Austrália e na França), ganhou em Roma, em Queen’s, em Pequim, em Xangai, em Viena e em Paris. A lista é enorme. Venceu 22 jogos seguidos de junho a agosto. De setembro a novembro, estabeleceu outra série enorme, com 24 triunfos. Uma sequência espetacular em que o escocês ainda teve gás para ficar em quadra por 3h38min na semifinal e, no dia seguinte, derrotar o rival na briga pela liderança do ranking.

Os números são, sim, incontestáveis. O número 1 é quem faz mais pontos durante o período de 52 semanas. Ainda assim, pairava para alguns a dúvida: Murray teria assumido a ponta do ranking porque jogou pouco contra o sérvio? Nos quatro confrontos anteriores este ano, Nole triunfou em três. O que aconteceria, então, no embate direto pela ponta do ranking? Pois Murray foi lá e cravou um 6/3 e 6/4 que pareceu mais fácil do que o placar indicou. Não fosse um deslize do britânico no fim do segundo set, Djokovic nem teria tido a chance de esboçar uma reação.

Era a chancela que faltava: número 1 nos pontos, mas com a posição estabelecida em cima do grande rival. Foi o resultado para completar uma temporada memorável. Foi o retrato do segundo semestre, e Murray, é preciso dizer, fez um dos segundos semestres dos mais brilhantes da história. Teria sido ainda mais folgado se os Jogos Olímpicos Rio 2016 dessem pontos no ranking – como em Londres – mas a briga precisava ir até o final. Aos olhos (injustos) de muitos, Murray ainda não tinha a validação necessária como número 1. Pois tem agora.

Sobre a decisão, não há muito a dizer. O britânico foi sólido e agressivo, especialmente com o saque. Apostou em arriscar sempre o primeiro serviço, mesmo dando margem para Djokovic atacar seu segundo saque. Funcionou. O sérvio, por sua vez, atacou menos e mostrou menos precisão. Pouco arriscou com o backhand na paralela – talvez seu golpe mais importante contra Murray. Quando foi para as linhas, quase sempre errou.

Ao insistir na esquerda cruzada, Nole fez o jogo que deixa seu rival mais confortável. Era preciso mexer mais o escocês. Era preciso forçá-lo a usar mais o forehand, golpe bem menos sólido. Djokovic só conseguiu fazer isso no finzinho da segunda parcial. Já era tarde demais. Talvez o sérvio tenha pagado o preço por cair numa chave menos complicada na fase de grupos. Por ter sido menos exigido. Mas a sólida atuação contra Nishikori na semifinal praticamente lhe colocou como favorito ao título.

No entanto, na hora mais importante, o ex-número 1 ficou devendo – como aconteceu quase sempre após Roland Garros. Djokovic falhou em momentos decisivos contra Querrey em Wimbledon, perdeu dois tie-breaks para Del Potro no Rio, tombou na decisão do US Open diante de Wawrinka. Enquanto isso tudo acontecia, Murray fazia sua escalada. Estava mais de oito mil (!!!) pontos atrás do sérvio após o Slam francês. Terminará o ano 630 pontos à frente. Incontestável.


Sobre Soares, Piquet, tênis, Fórmula 1 e paixões que se conectam
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Bruno_Nelsinho_blog2

Bruno Soares ainda está em Londres comemorando o título de dupla campeã da temporada 2016 e ganhou um segundo troféu neste domingo. Fã de tênis, Nelsinho Piquet trocou presentes com o tenista mineiro, entregando um capacete com dedicatória e parabéns pelo número 1. Em troca, recebeu uma raquete autografada de Bruno Soares e posou para foto com a Torre do Relógio ao fundo.

A paixão da família Piquet por tênis é antiga e tem relação com o automobilismo. Nelson, pai de Nelsinho, foi fazer intercâmbio nos EUA quando jovem porque era um belo tenista. Seu pai achava que seria a melhor maneira de encontrar um caminho no tênis. Nelsão, no entanto, aproveitou para se matricular em uma matéria chamada mechanics, e o resto é a história fantástica que terminou com três títulos mundiais na Fórmula 1 e uma dezena de outras conquistas.

Bruno_Nelsinho2_blog

Nelsão, aliás, nunca abandonou a paixão pelo tênis. Sempre bateu sua bolinha e até usava o esporte para contar vantagem quando era comparado ao britânico Nigel Mansell (vide a marca de 1’30” deste vídeo).

Também tem relação com o tênis o símbolo que muitos acreditam ser uma gota desenhada no capacete de Nelson Piquet (e que depois foi adotada por Nelsinho). O desenho é de autoria do próprio Nelsão, que se inspirou no esporte e fez algo parecido com uma bola de tênis em movimento.

Nesta semana, Nelsinho esteve em Londres e foi acompanhar a campanha de Bruno Soares. O mineiro e seu parceiro, Jamie Murray, venceram as três partidas da fase de grupos e só foram derrotados nas semifinais, quando já haviam assegurado o título de melhor dupla da temporada. Brasileiro e britânico, que começaram a jogar juntos no início deste ano, venceram dois Slams: o Australian Open e o US Open.

No ranking “individual” de duplistas (que soma pontos dos tenistas com diferentes parceiros ao longo do ano), Bruno Soares terminará a temporada como número 3, atrás dos franceses Nicolas Mahut e Pierre Hugues Herbert.

Importante: ainda publicarei aqui mais sobre a campanha de Bruno Soares em 2016. Esperem porque sairá algo bacana.


Teliana e a confiança inabalada mesmo fora do top 200: ‘Sei como funciona’
Comentários 1

Alexandre Cossenza

Teliana_Rio2016_Andujar2_blog

Se 2016 não foi o ano dos sonhos de Roger Federer nem de Rafael Nadal, tente se imaginar no lugar de Teliana Pereira. A pernambucana começou o ano no 46º lugar do ranking mundial e ocupa hoje a 206ª posição. De janeiro até agora, amargou duas longas sequências de derrotas (seis, de janeiro a março; e oito, de julho até setembro), perdeu o posto de número 1 do Brasil e precisará voltar a torneios menores e qualifyings.

A cabeça cansou, e Teliana encerrou a temporada em setembro, mas engana-se quem pensa que ela ficou abatida. É óbvio que houve momentos de dúvida e falta de confiança, mas não ficou mágoa nem arrependimento. Em conversa por telefone, a pernambucana se mostrou consciente das dificuldades que enfrentou, das limitações de seu jogo e seu corpo e, principalmente, do que precisa fazer para voltar ao top 100 – seu grande objetivo para 2017.

Sempre otimista, Teliana também lembrou de ótimos momentos que viveu em 2016 e da confiança que tem em si mesma para alcançar suas metas: “Já estive lá, sei como funciona.”

Teliana_Hobart16_get_blog

Foi um ano em que as coisas não saíram como você esperava. Vamos começar com o momento em que você decidiu encerrar a temporada…

Eu não tive os resultados que eu esperava. É claro que eu sabia que ia ser difícil porque eu só joguei os grandes torneios. Eu sabia que só ia ter jogo duro pela frente, mas achei que ia ter resultados melhores. Depois de Biarritz, que foi meu último torneio, eu ainda tinha alguns eventos para jogar, mas preferi parar porque mentalmente eu estava muito cansada. Não é fácil. Eu não acho que estava jogando mal. Eu estava bem até, estava treinando bem, só que os resultados não estavam aparecendo. Você sempre quer jogar bem, mas o resultado também conta. Mentalmente, eu já estava me sentindo bem cansada, então eu preferi parar, ter um descanso maior. Já estava planejado. Ficou um pouquinho maior do que a gente esperava, mas eu estava precisando desse tempo para descansar, colocar as ideias no lugar e começar tudo de novo. As pessoas falam muito como se fosse algo terrível, e não foi porque eu joguei todos os maiores torneios. Toda tenista quer jogar, e eu consegui. Praticamente só joguei com meninas de alto nível. Se for falar em resultados, foi muito ruim, mas se for falar em torneios, só foram torneios de alto nível.

Mas nesse momento que você tomou a decisão de encerrar o ano, a sensação era mais de alívio, frustração, raiva ou o quê?

A primeira sensação foi a de que eu estaria descansando. Eu estava querendo já há muito tempo. É claro que tinha momentos que eu pensava “nossa!” porque os resultados não estavam saindo como eu queria. Claro que teve, mas eu estava muito certa de que o que eu estava fazendo era correto. Parar, descansar a cabeça, descansar o corpo. Foi uma sensação de “agora eu vou descansar” (risos).

Foi o ano que você menos jogou ITFs recentemente…

Exatamente! A gente apostou. A gente sabia que era um risco. Nesses torneios, só tem jogo duro. Arriscamos um pouco mais e… (pausa para pensar)… não deu muito certo (risos). Na verdade, é difícil falar assim, sabe?

Falar depois que acontece é mais fácil, né?

É. Mas eu só joguei com meninas de alto nível, joguei bem e simplesmente não estava acontecendo. Não estava fluindo muito bem. Eu comecei a perder um pouco a confiança porque, querendo ou não, a confiança vem de vitórias. Como eu não tive vitórias este ano, comecei a não ter tanta confiança na quadra. Aí a cabeça começa a baixar um pouco, começa a sentir mais, então foi isso. No final, eu fui jogar os torneios menores, os ITFs, mas a minha cabeça já não tava ali mais, entendeu? Fica um pouco mais difícil de voltar.

É uma bola de neve…

Com certeza.

Teliana_Instagram_blog

Ano passado, ainda no primeiro semestre, você jogou uma sequência de ITFs em Campinas, Curitiba, Medellín, começou a ganhar ali e quando voltou para os WTAs, ganhou Bogotá, furou quali em Marrocos e Roland Garros e a coisa fluiu bem melhor.

Com certeza.

Você se arrepende de não ter feito a mesma coisa este ano ou você não pensa assim porque agora é tarde?

Não, não, não penso nisso. Acho que a programação que eu fiz foi a programação certa. A gente tinha planejado e era o que tinha que ser feito. Não acho que foi erro de calendário. A gente não optou por torneios errados. Muito pelo contrário. Foram torneios certos, só que não tive os resultados que eu queria. Não tenho arrependimento nenhum. Faz parte, na verdade. O tenista tem altos e baixos, e este ano foi baixo. Mas ano que vem vai ser alto! (risos)

Quando você faz um calendário assim, a margem pra erro é bem menor. Você pode pegar três top 10 em semanas seguidas, e não tem pra onde correr.

É complicado. Vai jogar Madri e Roma, você pega duas top 10. Aí na outra semana, você não pega uma top 10, mas pega uma menina que faz o jogo da vida dela. É arriscado, sabe? Mas eu senti que tinha nível pra isso.

E qual foi o momento mais difícil dessa sequência? Qual foi o dia mais duro? Alguma derrota específica ou um momento maior de desânimo?

Eu fiquei bem decepcionada quando eu perdi em Wimbledon porque o jogo estava muito na minha mão [Teliana abriu 7/5 e 4/1 sobre a americana Varvara Lepchenko, mas acabou perdendo por 5/7, 7/6(3) e 6/2]. Este ano, eu estava treinando bem. O jogo estava na minha mão, e tudo saiu do controle. Na grama, é complicado. É um momentozinho que você relaxa a atenção, e o jogo vai embora. Ali foi o momento que eu fiquei mais decepcionada. No Rio Open, eu também senti um pouquinho, apesar de ser o começo da temporada. Eu vinha treinando super bem, estava com boas expectativas, e não joguei, mas a menina fez um belo jogo [Petra Martic venceu por 6/3 e 7/5]. Mas houve momentos ótimos também!

Essa era minha próxima pergunta!

Aaaah, foram momentos maravilhosos! Em Roland Garros, eu tive um jogo duríssimo na primeira rodada…

Teliana_Rio2016_Andujar_blog

(interrompendo) Eu ia chegar aí: o melhor foi ganhar da (Kristyna) Pliskova ou jogar contra a Serena?

(risos) O melhor momento foi jogar as Olimpíadas, pra ser bem sincera! (mais risos).

Mesmo?

Ah, sim. Com certeza. Pra mim, foi o momento mais mágico! Mas jogar com a Serena em Roland Garros, na Suzanne Lenglen, tem seu lado bom também. Mas foram dois momentos mágicos, muito bons, que me emocionaram bastante. Jogar contra ela é uma história, né? Você pode guardar no seu livrinho pra contar isso para todo mundo pelo resto da minha vida (risos). Mas houve momentos bons. Não dá para focar só nos momentos ruins.

Mas eu perguntei da Serena e acabei te interrompendo… Você estava falando da vitória contra a Pliskova. Aquele foi um jogão também, né?

Foi um jogão! O jogo em si teve muitos altos e baixos, tanto meus quanto dela, mas tinha muita gente vendo o jogo. O clima ficou muito bom e eu sabia que ia jogar contra a Serena depois, então… Porque eu não olho a chave, né? Eu vou jogo por jogo.

Ah, mentira. Você olha, vai… (brincando)

Não olho! Eu não olho a chave! Às vezes, tem uns repórteres, sabe (provocando em tom de brincadeira), que soltam sem querer e eu fico brava (risos de ambos)!!! Por isso que eu não gosto muito de dar entrevista durante o torneio porque às vezes eles falam, e eu odeio saber a chave. Não gosto, eu não olho! Agora, no último torneio, na França, foi difícil porque eu estava sozinha e eu tinha que ver contra quem eu jogava, mas eu não queria olhar a chave. Foi bem complicado (risos). Mas em Roland Garros, o Renato [Pereira, irmão e técnico] me falou porque… Poxa, é legal. Ele me falou antes e eu disse “nossa!”. Entrei na quadra [contra a Pliskova] pensando que precisava daquela vitória “sim ou sim”. E foi exatamente isso que me fez ganhar, tenho certeza. Foi muito tenso o jogo. No terceiro set, eu pensava “eu vou dar mais e mais” porque jogar contra a Serena em Roland Garros é mágico, e eu queria muito passar por essa experiência [Teliana venceu por 7/5, 3/6 e 9/7].

Fisicamente, como você está? E seu joelho? Acho que sempre te pergunto isso, mas sempre existe essa preocupação.

Nossa, meu joelho foi muito bem este ano. Não tem nem do que reclamar. Eu sofri um pouquinho no começo da temporada com bastante dor no cotovelo. Isso me atrapalhou bastante até Roland Garros. É que meu joelho é muito de altos e baixos. Eu posso estar falando pra você “meu joelho tá bom”, aí amanhã ele acorda ruim. É assim que funciona.

É assim mesmo, essa loucura, de um dia para o outro?

É, de um dia para o outro. Não tem padrão, sabe? É claro que se eu estiver com a musculatura boa, não posso engordar, isso ajuda bastante. Mas já teve dias que eu treinei super bem, saí sem dor, aí no dia seguinte acordei com ele não tão legal. Mas já melhorou bastante.

E o que você pensa para 2017? A gente fala de você há bastante tempo, mas você tem só 28 anos ainda. Não dá pra te chamar de veterana…

Pois é, não sou tão velha assim (risos). Ah, mas acho assim… Claro que vou ter que jogar o quali do Aberto da Austrália e tal. Muda em relação a isso. Não vou poder estar jogando logo de cara os grandes torneios. Vou ter que jogar quali, mas já passei por isso e é normal, sabe? O que as pessoas não entendem é que é normal ter essa queda. Então vou entrar muito tranquila. Já passei por isso, não é algo super novo pra mim. Vou estar no quali da Austrália. É claro que preferia estar na chave, mas é pauleira, é legal. Com certeza, vou jogar torneios menores, mas vou entrar confiante. Estou fazendo uma bela pré-temporada. Comecei antes porque também parei antes. Agora… Vou começar super positiva. É que as pessoas se baseiam muito no ranking. Claro que eu queria estar entre as 100 melhores. É óbvio. Mas não estou numa situação tão difícil. Faz parte. Estou preparada para isso.

A minha impressão é que a WTA é bem mais equilibrada que a ATP nesse nível, fora do top 20, 30. Você vê até a Sorana Cirstea, que foi 21 do mundo, caiu pra fora das 200 e agora está entre as 100 de novo…

É, é que tudo pode mudar muito rápido. Ano passado, eu era 150 e alguma coisa, aí deu três, quatro meses, eu estava no top 100 já. Ganhei Bogotá, depois ganhei Florianópolis, sabe? É tudo muito rápido. Tem que estar preparado para quando o momento chegar, você conseguir. Então vou estar preparada e não duvido. Posso voltar a ganhar grandes torneios, posso voltar rapidamente a estar entre as 100 melhores. Eu já estive lá, sei como funciona.

Você voltou a treinar quando?

Estou na segunda semana [de pré-temporada]. Essas primeiras duas, três semanas são bastante focadas na parte física, menos na quadra, até para o corpo ir assimilando tudo de novo. Semana que vem já começo a fazer um pouco mais de quadra e menos de físico. Conforme vai passando o tempo, vou começar a diminuir o físico e focar mais na quadra.

E, tecnicamente falando, qual sua prioridade neste momento?

Estou trabalhando bastante o saque, que é algo que eu sempre falo. Eu acho que preciso melhorar bastante, então estou fazendo alguns ajustes que a gente acredita que vão dar uma boa diferença. É claro que tem que melhorar tudo, mas a gente está treinando já na quadra rápida. Antes, a gente começava a pré-temporada no saibro e depois passava para a rápida – pelos incômodos físicos que eu tinha. Hoje, já não tenho mais isso com o joelho. Não sinto mais esse incômodo na quadra rápida. É claro que eu me sinto muito melhor, é só ver meus resultados – tudo no saibro – mas eu queria muito ano que vem jogar bem na quadra rápida também pra não ficar dependendo do saibro. É o que eu mais tenho que melhorar e isso inclui tudo. Sacar melhor, devolver melhor, ser mais agressiva, me mexer melhor em quadra porque é diferente você correr no saibro e você correr na quadra rápida. É difícil falar uma coisa. É um ajuste total. Mas se falar da parte técnica, o que estou ajustando mais é o saque.

Pra terminar, o quanto esse fim de apoio dos Correios à CBT te afeta? Porque esses contratos foram encerrados antes da hora, e isso pegou todo mundo de surpresa…

Vou ser bem sincera, não estou muito por dentro do que está acontecendo. Gosto mais de deixar essa parte para o Márcio [Torres, empresário] e para o Alexandre [Zornig]. Eles que estão cuidando disso para que eu não tenha essa preocupação. Acho uma pena pelo tênis brasileiro, mas a gente precisa ver que foi feito um bom trabalho. Não tenho do que reclamar. Eu pude jogar, pude fazer meu calendário sem pensar na parte financeira. Isso é muito importante e faz uma diferença bem grande. Mas é isso, eu não estou muito por dentro. O Márcio cuida dessa parte de patrocínios, aí ele fala com o Alexandre. Quando chega em mim, chega já encaminhado e tranquilo, entendeu? Pra eu não ter que esquentar a cabeça. O tênis já é um esporte que exige tanto da parte mental… Se ficar querendo cuidar de tudo, não dá certo.


André Sá: parceiro supercampeão e otimismo perto dos 40
Comentários 2

Alexandre Cossenza

Sa_USOpen_div_blog

André Sá tem 39 anos, quatro Jogos Olímpicos, 20 temporadas completas no circuito e zero sinal de cansaço da vida de tenista profissional. Pelo contrário. A seis meses de se tornar um quarentão, o mineiro, que já foi top 60 nas simples e top 20 nas duplas, tomou uma decisão ousada: vai jogar em 2017 ao lado do indiano Leander Paes, ex-número 1 do mundo, dono de oito título de Slam em duplas e recordista em participações olímpicas, com sete.

Juntos, os dois terão 84 anos a partir de junho. Não parece importar. Não para o brasileiro. Em bate-papo por telefone, André Sá contou como foi a aproximação com o indiano e analisou como a parceria pode dar certo dentro de quadra. Para o mineiro, a experiência de ambos combinada com a atitude de Paes pode ser uma mistura potente. E o indiano já avisou: quer “fazer história” com o brasileiro.

Como foi essa conversa? Quem chegou em quem e como vocês chegaram à conclusão de que pode dar certo?

Essa ideia da dupla… Ele que me ligou, na verdade. Eu estava na Antuérpia ainda, estava na semifinal, de repente tocou o telefone, “Leander Paes”. Esquisito, mas eu meio que sabia porque é nessa época que o pessoal começa a se ajeitar pro ano que vem. Ele falou “André, a gente pode jogar bem, a gente está com ranking parecido, dá pra fazer um calendário legal pra 2017, principalmente no começo do ano. Me diz se você está interessado.” Eu falei que dependendo do meu resultado lá [Antuérpia], de repente a gente jogaria o quali de Viena juntos, mas como eu fiz semi e botaram meu jogo só no sábado, não consegui chegar. O primeiro contato foi esse. Aí passou um tempo, eu dei uma esperada para ver se tinha mais ofertas, aí ele me ligou no fim de semana passado, na sexta à noite. A gente conversou também um pouquinho sábado e acabamos definindo que vamos jogar 2017. A gente começa ali em Chennai, Auckland, Melbourne e depois vê pra frente como vai ser o calendário. Mas a conversa é para jogar o ano inteiro.

Como é a relação de vocês? Sempre foi tranquila ou já teve atrito?

Não, o relacionamento é bom, normal. Nada de excepcional, fora do normal do dia a dia. Às vezes, um estresse aqui e ali porque ele é… Ele é daquele jeito! Sempre dá uma olhadinha depois que ganha um ponto, dá uma vibrada na cara, gosta de gritar “vamos” quando joga contra sul-americanos… Isso aí de vez em quando dá um certo estresse, mas normal. É o jeito dele se motivar. Fora isso, tranquilo.

Uma hipótese que sempre levantam é a possibilidade de duplas brasileiras. O Marcelo (Melo) estava sozinho, o (Marcelo) Demoliner não tem parceiro fixo, e você também estava de mudança. Chegou a haver alguma conversa sua com algum brasileiro?

A questão principal é o ranking. Você tem que tentar fazer um calendário legal, principalmente no começo do ano. O Demo veio falar comigo, mas como o ranking dele estava 64, 65 na época, não dava pra fazer um calendário. A gente jogaria uns torneios muito picados e ainda estava correndo risco de ficar fora do Australian Open também. Os torneios estão fechando forte. O Australian Open fechou 125 [o número equivale à soma dos ranking dos dois tenistas], um negócio desse, então está complicado. Estar 60, 50, não é garantido. E o Marcelo… Acredito que é a mesma coisa. É muito melhor pra ele pegar alguém com quem ele vá estar dentro de todos Masters 1.000 do que ter que começar procurando gente. Essa questão de brasileiro com brasileiro… A questão é sempre ranking.

Sa_Rio2016_Andujar4_blog

Jogar com o Paes vai ser muito diferente de jogar com o (Chris) Guccione, que é um cara com um saque muito forte, mas que se mexe muito pouco. Como vocês imaginam que pode dar certo a parceria de vocês? Porque fica uma dupla muito forte na rede, mas nem tanto no saque.

É exatamente isso. É completamente diferente do Guccione. Na força do saque, a gente fica devendo, mas acho que um vai ajudar muito mais o outro. Nosso objetivo não é ganhar o ponto no saque. É colocar o saque bom o suficiente para colocar o cara da rede em situação confortável pra definir o ponto, entendeu? Não ver como o Guccione, que dá varada três vezes e acabou o game. Só que também no meu saque, ele não ajudava muito. Ele é um cara que fica mais parado ali, a gente tinha que fazer certas jogadas diferentes. Com dupla nova, é difícil dizer se vai dar certo ou não. Tem que jogar, pegar a química da dupla dentro e fora da quadra, mas acho que a gente sentando e conversando, treinando bastante e ganhando jogos, passando pelo processo de passo a passo para melhorar… Tem tudo pra dar certo. Os dois têm boas qualidades. A minha devolução com ele na rede é uma arma incrível. Ele fecha muito bem a rede. Qualquer devolução que eu colocar baixinha ali, ele vai complicar demais. Com o Gooch, não era bem assim. Eu tinha que ir pro winner de devolução porque sabia que ele não ia cruzar em várias bolas, não ia conseguir chegar. Com o Paes, é diferente. Eu só coloco ali no chão, e ele faz o resto. Igual ao Jamie Murray. O Bruno coloca qualquer coisa abaixo da rede, e o Jamie parece que tem três metros de largura na rede.

E experiência não falta…

E também tem a experiência dele, né? Se tirar o lado técnico e tático, o emocional vai fazer muita diferença. É um cara que acredita que pode ganhar de qualquer um. Um cara que já ganhou Grand Slam, que não vai sentir pressão nos momentos importantes, na hora de fechar jogo. Isso faz muita diferença, muita diferença. isso vai ajudar, e a gente tem experiência pra isso, pra se ajustar na parte técnica e tática. No emocional, nós dois temos experiência de sobra pra jogos importantes. Isso que é o principal.

Em termos de ranking, 2015 e 2016 foram mais ou menos parecidos. Você ficou ali entre 40, 50, por aí, o que foi melhor que os anos anteriores. E você fez quartas de final de um Slam este ano. Dá pra dizer que 2016 foi o melhor dos seus últimos cinco anos, mais ou menos?

Ano passado foi o melhor deles. Eu ganhei três títulos no ano passado. isso geralmente define um ano bem sucedido. É quando você ganha títulos. Este ano obviamente foi bom, mas não cheguei no meu objetivo, que era terminar o ano entre os 50, mas fiquei 52, 53, fiz final de um ATP 500, quartas de um Grand Slam, que fazia tempo que eu não conseguia também. Meus resultados em 250 ficaram a desejar. Eu joguei bastante e fiz uma final só [Bucareste]. Nisso, dá pra dar uma melhorada.

Sa_Rio2016_Andujar_blog

Se você fez duas temporadas muito boas aos 38 e 39 anos, fisicamente você não vem sentindo diferença? Pergunto porque não vejo tantos jogos de duplas, mas quando vejo não consigo identificar uma diferença óbvia do seu tênis hoje para o que você jogava cinco anos atrás. Como você vê isso? O que você acha que caiu ou deixou de cair no seu jogo com a idade?

Acho que não caiu. O formato das duplas hoje, com match tie-break e ponto decisivo [no-ad], não é nada desgastante para o corpo. É mais o desgaste emocional, da pressão, da expectativa, ansiedade… Porque todo ponto importante. Você pode ganhar 6/4 e 6/2, mas você olha o 6/2 e foram três pontos decisivos. Você poderia ter perdido por 6/2. O lado emocional é o que mais pega. Mas os jogos são relativos. Na Olimpíada, com o [Thomaz] Bellucci, ele joga de fundo, eu preciso me mexer muito mais. No US Open também. No jogo que passou na TV, contra o Almagro e o Estrella Burgos, você tem que se mexer muito mais porque os dois jogam no fundo. Mas isso é a minoria. A maioria é o padrão de duplas: saque-e-voleio, no máximo três ou quatro bolas. Se você sentar pra ver 30 jogos de duplas, você vai ver dois ou três jogos iguais a esses.

O momento do Paes é um pouco diferente do seu, né?. Ele foi número 1 do mundo 15 anos atrás e se manteve no top 10 por muito tempo, mas 2016 foi praticamente o pior ano da vida tenística dele. Na conversa de vocês, ele disse se estava bem fisicamente…

Ele me falou porque teve um ano tão ruim. Ele teve um problema sério pessoal com a filha dele. Ele ficou muitos meses afastado este ano e também falou que em alguns torneios ele não estava focado no evento, estava com a cabeça em casa. Por essa razão, ele deu essa despencada no ranking. Ele falou “fiquei praticamente nove meses sem jogar. Eu joguei, mas minha cabeça estava em outro lugar.” Ele disse “agora minha filha está bem, ela se recuperou.” Eu não perguntei, não sei exatamente a doença que ela teve, mas foi algo bem sério [relatos na imprensa indiana dão conta de que Ayiana, filha de Paes, foi diagnosticada com um tumor no cérebro]. Ele disse que agora está tudo certo. A frase dele (risos) foi “let’s make history together” [''vamos fazer história juntos'']. (mais risos)

Ele sempre solta essas frases de efeito, né?

Sempre tem uma. Ele adora! É o jeito dele. Mas tem que aproveitar essa personalidade dele porque, querendo ou não, isso é que faz ele ser número 1, oito vezes campeão de Grand Slam! O cara tem atitude, está jogando até os 43 anos. O cara pode ser ótimo tecnicamente, mas se não tem atitude…

Sa_Bucareste_div_blog

Pra terminar, preciso mudar de assunto. Como você acompanhou esse fim de ano do tênis brasileiro, com fim de patrocínio dos Correios, CBT mudando de sede e jogadores ficando sem apoio? Como isso repercutiu entre vocês jogadores?

É ruim. Obviamente, não é o ideal. A culpa não é da Confederação. Os Correios e o nosso país estão numa fase ruim. O pós-Olimpíada, que todo mundo questionou lá atrás… Todo mundo especulou que não ia acontecer e essas especulações estão se tornando realidade… Meu maior medo era esse, de um centro olímpico de tênis não virar nada. Do jeito que está aí, pode ser que isso aconteça. Na questão da CBT, o que mais me preocupava era a situação do juvenil e da formação de professores. Isso eu acho que não vai mudar muito. Tive uma conversa com o [Rafael] Westrupp [presidente eleito da CBT] ontem sobre isso. O apoio aos juvenis vai continuar, mas de uma forma menor. E os detalhes que ele me passou de como era… Era uma coisa meio fora do real, entendeu? Todos os juvenis da chave [no circuito Correios] tinham gratuidade através dos Correios. Isso é fora da realidade. Agora, vão entrar na realidade. De repente, só os quatro melhores do Brasil vão continuar tendo um certo apoio, entendeu? É o que a gente falou: a Disneylândia vai acabar. Normal. Acho que o cenário dos últimos oito anos era uma coisa fora da real. E os jogadores têm que ser gratos por isso. Todo mundo foi ajudado e todo mundo teve um certo apoio. Eu, Marcelo, Bruno, Bellucci, Rogerinho, Feijão, Teliana… Todo mundo teve algum apoio, entendeu? Então não é falar mal quando acaba. Tem também que dar crédito porque durante oito anos teve gente ajudando e apoiando. Obviamente, a situação não é ideal. Eles [CBT] estão correndo atrás. Se for comparar agora com a administração passada, do [Nelson] Nastás, tem que ver que o Jorge [Lacerda] pegou numa situação horrível com dívidas de milhões e vai deixar sem dívida. Isso já é positivo. Essa é minha opinião quanto à Confederação. Se a gente pudesse continuar com os Correios, melhor. Se tivesse menos denúncias e projetos com o Ministério do Esporte funcionassem mais, melhor.


Quadra 18: S02E15
Comentários 2

Alexandre Cossenza

Andy Murray é o novo número 1 do mundo, encerrando o terceiro reinado de Novak Djokovic, que durou incríveis 122 semanas. Por isso, Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu gravamos mais podcast Quadra 18. No episódio desta semana, falamos sobre os momentos mais importantes da arrancada do escocês, lembramos dos trechos que marcaram sua carreira até agora e comentamos como ficou o cenário para o ATP Finals, onde o sérvio pode retomar a liderança do ranking.

Também comentamos o silêncio de Djokovic nas redes sociais e a repercussão desse comportamento, além das influências de Judy e Jamie Murray, Jamie Delgado e, claro, Ivan Lendl. Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir mais tarde, clique neste link com o botão direito do mouse e, em seguida, selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’19” – Aliny apresenta os temas murrayzetes
2’25” – Que momento deixou claro que Murray brigaria pelo número 1?
7’52” – O que Murray e Djokovic precisam fazer no ATP Finals?
10’06” – Quem fez a melhor temporada até agora: Djokovic ou Murray?
11’25” – A repercussão nas redes sociais e o respeito que Murray tem dos tenistas
12’24” – Por que Djokovic não se manifestou nas redes sociais?
14’33” – Sheila fala sobre como redes sociais julgam pessoas sem critério
16’50” – Momentos marcantes da carreira de Andy Murray
23’43” – Os méritos de Judy Murray, Jamie Delgado e Jamie Murray
29’52” – A influência discreta e invejável de Ivan Lendl


Andy Murray: a mais longa escalada e um digníssimo número 1
Comentários 7

Alexandre Cossenza

Murray_Paris_F_trophy_blog

Rankings e títulos são absolutos. O primeiro do ranking é o melhor de um período específico. No caso do tênis, 52 semanas. O campeão foi o melhor daquele evento. O único que não perdeu. Talvez até por isso a gente goste dos clichês dos melhores que não foram.

O melhor a não vencer um Slam, rótulo frequentemente associado a David Nalbandian e uma meia dúzia de outros nomes. O melhor a não ser número 1 do mundo. O melhor a não vencer Wimbledon. O melhor a não ganhar Cincinnati. O melhor a não derrotar um canhoto francês que usa óculos. O melhor que nunca faz alguma coisa. Qualquer coisa. Mesmo.

Andy Murray deve ter sido tudo isso junto em algum momento. Era o melhor dos sem-Slam até 2012. Era o melhor sem Wimbledon até 2013. O melhor a não ser número 1 desde 2011. Há quem diga que o escocês era o melhor tenista da história a não alcançar o topo. Certamente, foi o mais completo não-número 1 que eu vi jogar. Foi. Pretérito perfeito. Tudo isso, todos os rótulos e clichês, entrará para um passado distante e descartável nesta segunda-feira, quando Andy Murray será oficializado como novo número 1 do mundo.

O enorme feito coroa o momento fantástico do britânico, que encerrou 2015 conquistando a Copa Davis (na hercúlea campanha, jogando todas partidas e suportando com ombros largos uma nação sem um segundo simplista confiável) e continuou em 2016 com três finais de Slam, um título de Wimbledon, uma medalha de ouro olímpica, três conquistas em Masters 1.000, uma sequência de 22 vitórias e outra de 19 (por enquanto).

A ascensão de Murray interrompe outra série incrível: Djokovic, em seu terceiro reinado, permaneceu no topo por 122 semanas e chegou a ter oito mil pontos de vantagem sobre o segundo colocado. São quatro Slams de diferença. O sérvio dominou rivais desde 2014 e colocou 2015 no debate das temporadas mais espetaculares da história do tênis.

Esgotamento de um, ascensão de outro

Em 2016, Nole finalmente alcançou a meta em Roland Garros. Depois disso, o que se viu foram sinais seguidos de esgotamento. Falta de motivação, irritação e derrotas que não aconteceriam em outro momento. Sintomas normais em alguém que manteve tanta concentração e dedicação por tanto tempo.

Murray estava lá para dar o bote. Quando viu a chance e a matemática se mostrou favorável, conquistou Viena e chegou a Paris com a linha de chegada à vista. Quase tropeçou na saída, mas se recompôs e contou com uma forcinha de Marin Cilic, que despachou Djokovic. Faltavam ao escocês duas vitórias.

A primeira veio contra Berdych, que ainda brigava por uma vaga no ATP Finals. Mas quem precisa tanto vencer não pode jogar fora um 6/1 de frente num tie-break. O tcheco fez isso, e Murray avançou. Restava ainda um triunfo contra Milos Raonic, mas o rival dominado na final de Wimbledon nem entrou em quadra. Sofreu uma lesão no quadríceps e abandonou.

A ausência de Raonic impediu, obviamente, a empolgação de Murray se tornar número 1 com uma vitória dentro de quadra. Mas que ninguém se engane: não tirou nem um pinguinho de mérito. O escocês chega ao topo porque foi o melhor do planeta nas últimas 52 semanas. Não há o que discutir. E o título, que veio em cima de John Isner, ''apenas'' fechou a semana perfeita.

O último do Big Four

Murray é apenas o quarto tenista diferente a chegar ao topo nos últimos 13 anos. Entre os quatro (grupo apelidado de Big Four quase uma década atrás), o escocês foi quem mais demorou entre chegar ao segundo lugar do ranking e dar o salto para a liderança. Curiosamente, ele esteve muito mais perto de Federer em 2009, quando o suíço era número 1 com menos de dois mil pontos de vantagem, do que de Djokovic, em outubro do ano passado, quando Murray tomou de vez a vice-liderança. Naquele momento, estava mais de sete mil pontos atrás do sérvio.

Por que essa demora toda para chegar ao topo? Consigo pensar em três motivos óbvios: 1. Djokovic. 2. Nadal. 3. Federer. Na quase sempre injusta comparação entre tenistas de gerações diferentes, é fácil analisar o tênis de Andy Murray e ver que o britânico é mais completo do que boa parte da lista (vide tweet abaixo) de nomes que lideraram o ranking desde o ano 2000. Mas todo esporte tem atletas memoráveis que carregaram o fardo de nascer em gerações de gênios. A maioria, no entanto, esbarra em só um desses privilegiados. Murray precisou encarar três. Somou vitórias aqui e ali (várias), mas nunca o suficiente para dar o salto ao topo. Agora, em 2016, chegou a hora.

Obstáculos e inspiração

Não dá para não considerar aqui o fato de que Murray foi quem mais teve de ultrapassar barreiras para chegar ao topo. Desde a infância e o Massacre de Dunblane, quando ele e Jamie nem pensavam e se tornar tenistas do calibre atual, incluindo o enorme peso de se tornar o principal nome britânico e esperança de uma nação sedenta pelo fim do jejum de mais de 70 anos em Wimbledon, enfrentando também as menções preconceituosas sobre o britânico-que-vence e o escocês-que-perde vindo de uma imprensa que mal respeita sua privacidade, e ainda tendo de entrar em quadra contra monstros do nível de Federer, Nadal e Djokovic. Não bastasse tudo isso, passou por uma delicada cirurgia nas costas quando vivia o melhor momento de seu tênis e viu Ivan Lendl, técnico com quem conquistou o primeiro Slam, pedir demissão para passar mais tempo em casa.

Murray lidou com tudo isso sem mudar seu jeito de ser. Jamais forçou sorrisos para câmeras, nunca tentou ser quem não é. Aceitou que nunca teria o carisma de um Federer e viveu em paz com isso, construindo uma carreira brilhante (já são três Slams, dois ouros olímpicos em simples e 43 títulos) e tomando as decisões que acreditava serem as melhores em determinados momentos. Aos poucos, foi alcançando seus objetivos. Um ouro, um Slam, uma Davis, e o sonho de ser número 1 nunca deixou de existir. Ele agora é real. Andy Murray alcançou o topo e nos deixou ainda mais uma lição.

If….

A photo posted by Andy Murray (@andymurray) on

No Instagram, o escocês postou o poema “If”, de Rudyard Kipling, o mesmo que tem versos em uma parede do All England Club, em Wimbledon. O texto fala de lidar com adversidades, de tratar vitórias e derrotas de forma semelhante, de manter os valores em qualquer situação, de amadurecer. A escolha não poderia ter sido melhor. Murray é enorme com forehands e backhands, mas um gigante nas entrevistas, nos gestos e nos valores que escolheu para tocar uma carreira e uma vida. O tênis masculino continua muito bem de número 1.


Quadra 18: S02E14
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Um WTA finals com uma campeã surpreendente, uma separação importante no circuito de duplas, as chances de um brasileiro se tornar número 1 do mundo e a disputa pela liderança nas simples são os assuntos mais quentes do podcast Quadra 18 desta semana.

Como sempre, Aliny Calejon, Sheila Vieira e eu falamos um pouco sobre tudo, desde a cobrança em cima de Angelique Kerber, incluindo os parceiros em potencial para Marcelo Melo até a matemática da briga entre Novak Djokovic e Andy Murray na briga pelo número 1. Para ouvir, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’15” – Cossenza apresenta os temas
1’20” – O WTA Finals, com o título de Dominika Cibulkova, foi um bom Finals?
3’53” – O balde de água fria da temporada de Angelique Kerber
5’07” – É justo dizer que a Kerber dominou a temporada?
9’24” – É justa toda essa expectativa em relação aos resultados da Kerber?
10’46” – Surpresas e decepções do WTA Finals
12’55” – Aliny Calejon comenta a separação de Marcelo Melo e Ivan Dodig
15’25” – Quais as chances de Marcelo formar dupla com Sá, Bellucci ou Demoliner?
17’15” – Quem seria o parceiro ideal para Marcelo Melo agora?
19’00” – Bruno Soares e a chance de ser número 1 do ranking
20’22” – Murray #1 agora ou Djokovic #1 até o fim do ano? O que é mais provável?
24’00” – Até quando vai durar o discurso zen de Novak Djokovic?
25’45” – As chances de Murray ser #1 são maiores agora ou no ano que vem?
26’47” – “Acho que ano que vem o Djokovic vai ser outro Djokovic”
27’21” – A disputa pelas últimas vagas para o ATP Finals
30’00” – Vai haver Challenger Finals em São Paulo este ano?
31’50” – Existem projetos para o tênis sufocados pela “dinastia perpétua” da CBT?


Dominika Cibulkova, o retrato de 2016
Comentários Comente

Alexandre Cossenza

Cibulkova_WTAFinals2016_trophy_get_blog

Duas novas campeãs de torneios do Grand Slam; o fim do domínio de Serena Williams, derrotada por Angelique Kerber em Melbourne e Garbiñe Muguruza em Paris; uma ex-número 1 suspensa por doping; uma ex-número 1 afastada por gravidez; uma nova número 1; uma porto-riquenha campeã olímpica; e, por fim, para completar um ano dos mais atípicos para o tênis feminino e consolidar um novo momento na modalidade, Dominika Cibulkova conquistou o WTA Finals.

Foi uma final memorável para eslovaca, que jogou em nível altíssimo desde o primeiro game e só engasgou quando sacou para o jogo e cometeu seguidos erros. Mesmo assim, se recuperou, salvou um break point da forma mais esquisita possível e fechou o jogo em 6/3 e 6/4, com um match point que ilustrou bem o quanto tudo deu certo para ela neste domingo.

Foi, como ela mesma disse, o maior título da carreira de Cibulkova. Um momento especial, que premia uma temporada belíssima, com títulos em Katowice, Eastbourne e Linz, além de vices em Wuhan, Madri e Acapulco. Não por acaso, a eslovaca de 27 anos termina 2016 na quinta posição do ranking – a melhor de sua carreira – e com um paquidérmico cheque de US$ 2.054.000.

Sobre esse novo momento da WTA, escrevi um pouco nesse texto. Embora o Finals não tenha sido o mais empolgante dos torneios, foi uma mistura interessante de surpresas (Cibulkova perdeu as duas primeiras partidas, enquanto Kuznetsova se classificou em primeiro na outra chave), decepções (Halep e Muguruza não passaram da fase de grupos) e partidas empolgantes, ainda que não tecnicamente espetaculares.

Kerber termina a temporada como líder, dona de dois títulos de Slam (Australian Open e US Open) e com resultados consistentes ao longo do ano. Não é (ainda?) uma número 1 dominante, mas fecha 2016 com dois mil pontos de vantagem sobre Serena Williams e 3.400 de frente para Agnieszka Radwanska, atual #3.

Ainda que a americana tenha disputado apenas um terço dos eventos de Kerber (somou 7.050 pontos em sete torneios, enquanto Kerber disputou 21 e acumula 9.080), o cenário parece indicar o que será da WTA após a aposentadoria de Serena Williams.

Nas férias (porque não consigo ver relevância no WTA Elite, torneio caça-níqueis de consolação), fico aqui a imaginar o que será do circuito se Kvitova voltar a jogar consistentemente, se Sharapova retornar em forma, se Azarenka conseguir se concentrar no circuito outra vez e se Wozniacki continuar a mostrar o tênis que reencontrou no fim deste ano. Seria um circuito incrível, não?


Serena não precisa de Cingapura. E Cingapura, precisa de Serena?
Comentários 2

Alexandre Cossenza

Serena_Miami_Cingapura_get_blog

Serena Williams anunciou nesta segunda-feira que não estará no WTA Finals, em Cingapura. Trata-se mais de uma confirmação do que de uma novidade. A ex-número 1 também não disputou o evento e nenhum torneio depois do US Open no ano passado. É um baque, óbvio, mas a ausência de Serena é bem menos sentida do que já foi no circuito feminino.

A quem quiser acreditar, Serena disse no vídeo acima estar muito chateada por não poder competir e que ainda tem que tratar uma lesão no ombro. Pode ser apenas uma mera coincidência que ela não possa jogar justamente na época em que o circuito está na Ásia, do outro lado do planeta. De qualquer modo, soa como forçação de barra quando a ex-número 1 diz que teve um ano muito duro depois de participar de apenas oito torneios.

De qualquer modo, hoje em dia Serena já pode ser vista como um agradável bônus quando aparece para jogar. É claro que a WTA sofrerá um baque no mercado americano quando as irmãs Williams deixarem de competir, mas há dois pontos importantes. Primeiro, o tênis não é mais centrado na “America” como foi na década de 80. Fora Madison Keys, o WTA Finals só terá atletas europeias. O foco do tênis está lá hoje em dia.

Além disso, a USTA vem fazendo um trabalho tão competente que eventualmente alguma outra americana – além de Keys – aparecerá para brigar pela ponta do ranking. Isso, cedo ou tarde, vai ajudar a “vender” eventos nos Estados Unidos.

É bem possível que daqui a alguns anos olhemos para 2016 como o ano da transição. Depois do quase Grand Slam de fato de Serena em 2015, a americana jogou pouco, perdeu duas finais de Slam e deixou a liderança do ranking. Ela mesma “votou” em Kerber como melhor atleta do ano (vide tweet acima)…

A impressão que fica, pelo menos para mim, é que a WTA caminha com um circuito forte e equilibrado sem Serena, mas com Kerber, Radwanska, Halep, Kvitova, Wozniacki, e outras – lembremos que Azarenka e Sharapova voltarão. Todo esporte sente falta de ídolos, e a americana foi uma das maiores da história (para alguns, a maior). O circuito feminino, porém, já tirou esse peso das costas de Serena. E vamos em frente.


ATP finalmente suspende Kyrgios, mas o que isso significa?
Comentários 3

Alexandre Cossenza

Kyrgios_Toquio_get_blog

A notícia parece boa para o tênis. A ATP anunciou nesta segunda-feira que suspendeu Nick Kyrgios após o episódio de Xangai. No Masters 1.000 chinês, o australiano jogou desinteressado, perdeu pontos de propósito, discutiu com um torcedor e ainda foi mal educado na coletiva pós-derrota para Mischa Zverev.

Ainda em Xangai, Kyrgios foi multado em US$ 16.500. Um valor risível para quem vinha de um título no ATP 500 de Tóquio e já embolsou US$ 1.757.289 na temporada. O australiano, vale lembrar, é mais do que reincidente. Ano passado, foi colocado em uma espécie de liberdade condicional após falar mais do que devia durante uma partida – lembram de Wawrinka-Kokkinakis-Vekic?

Não dava mais para deixar passar. Agora, Kyrgios foi multado em mais US$ 25 mil e está suspenso por oito semanas de torneio e pode voltar a competir apenas a partir de 15 de janeiro de 2017. A punição ainda estipula que a suspensão cairá para apenas três semanas de o atleta passar por um plano sob direção de um psicólogo esportivo ou um plano equivalente aprovado pela ATP.

O que significa?

A princípio, significa que o circuito está perdendo a paciência com Kyrgios. Não importa o quão talentoso e espontâneo seja o jovem de 21 anos, atual #14 do mundo, fica claro que a “condicional” de 2015 ficou no passado e que a ATP finalmente sentiu a necessidade de estabelecer um limite.

Ao mesmo tempo, mostra que a ATP continua leve nas sanções. Logo, o tal limite já parece um tanto flexível. Primeiro porque uma suspensão de “oito semanas de torneios” aplicada no meio de outubro significa, na prática, que Kyrgios não poderá jogar em quatro delas (seriam cinco se ele se classificasse para o ATP Finals). Além disso, a punição de oito semanas acabaria, coincidentemente, na véspera do Australian Open. Ou seja, a ATP puniu, sim, mas sem tirar Kyrgios do seu Slam local. Aí, sim, seria uma sanção severa.

E também há a questão do psicólogo, que supostamente terá a tarefa de fazer o tenista aprender a respeitar fãs, torneios, adversários e jornalistas. Coisas que uma família ensina, não um profissional contratado.

Para começar, Kyrgios deu uma declaração pedindo desculpas e dizendo basicamente o contrário do que declarou na coletiva desastrosa de Xangai. Até pelas cenas registradas na China, o texto não pareceu sincero. Posso estar sendo injusto. Quero estar sendo injusto. Seria bacana mesmo se Kyrgios passasse por essa suspensão com olhos e ouvidos abertos. Mas será que adianta?


Quadra 18: S02E13
Comentários 2

Alexandre Cossenza

Teve muito tênis na Ásia, mas também teve muita polêmica e assunto quente nos últimos dias. Primeiro, com a redução da pena por doping de Maria Sharapova e a consequente “briga de textões” entre a russa, a ITF e o empresário Max Eisenbud. Depois, com a notícia de que a Justiça Federal vai investigar Jorge Lacerda, presidente da CBT, e Dacio Campos, comentarista do SporTV. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu relatamos os fatos e damos nossas opiniões sobre o caso Maria e o cenário nebuloso do tênis brasileiro.

Mas este episódio do podcast é um pouco diferente. Aproveitando a presença de vários atletas do país no Challenger de Campinas e contando com participações mais do que especiais de Marcelo Melo (direto de Pequim) e Bruno Soares (direto de Tóquio), desvendamos as preferências dos tenistas no mundo pop. Música seriados, filmes e tudo mais. Para descobrir quem ouve Wesley Safadão e quem já fez maratona de Supernatural, basta clicar no player abaixo. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Rock Funk Beast (longzijum)
0’20” – Sheila apresenta os temas, Aliny e Cossenza se apresentam
3’10” – O resumo do caso Sharapova e a redução de sua suspensão
3’55” – A resposta agressiva de Sharapova e a “tréplica” da ITF
6’00” – A decisão da Corte Arbitral do Esporte surpreendeu?
08’00” – O quanto a postura de Sharapova tem do elemento marketing?
08’45” – O quanto a imagem de Sharapova ficou prejudicada no circuito?
09’15” – A turnê de entrevistas mudou a opinião da maioria sobre o caso?
10’50” – Como o caso Lepchenko joga contra a justificativa de Sharapova
12’14” – “Faltou um pouquinho de humildade para a Maria”
14’22” – “O discurso da Sharapova é rancoroso e beira o mimado”
16’20” – A pior consequência desse caso de doping para Sharapova
17’40” – O resumo do caso envolvendo a denúncia do MP contra Jorge Lacerda
20’50” – As explicações de Lacerda, Dacio Campos e Ricardo Marzola
23’30” – O quanto o caso prejudica o tênis brasileiro
25’30” – The Currents (Bastille)
26’03” – Sheila introduz o bloco POP do podcast
26’21” – Marcelo Melo manda recado e fala sobre suas preferências
30’07” – “O Marcelo é a minha mãe”
32’47” – Bruno Soares fala de Ed Sheeran, Ben Affleck e Skank
37’50 – Thiago Monteiro cita Safadão, John Mayer, Breaking Bad e DiCaprio
40’45” – “Qual o filme preferido do DiCaprio de vocês?”
44’05” – Comentários aleatórios sobre Wesley Safadão
45’23” – Rogerinho fala de futebol no videogame, Rappa, cavaquinho e violão
48’05” – Prioridades: respondemos se Rogerinho joga FIFA ou PES
52’21” – Felipe Meligeni Alves fala de funk, Prison Break e filmes de terror
54’50” – “Assustador como o Felipe lembra o Fino”
56’11” – Zormann fala sobre Supernatural, Sherlock e Batman vs Super-Homem
58’53” – “Qual o filme do Batman preferido de vocês?”
61’17” – Quando Murray comemorou gravações de Sherlock
62’09” – Orlandinho fala sobre Drake, Ariana Grande, GOT e maratonas de seriados
65’00” – Nossas maratonas de seriados
67’20” – As preferências de Aliny Calejon
69’53” – Os preferidos de Alexandre Cossenza
72’24” – Sheila Vieira e suas preferências


Investigado pela Justiça revela que deu declaração falsa a pedido da CBT
Comentários 9

Alexandre Cossenza

SONY DSC

A essa altura, todo mundo já sabe que a Justiça Federal aceitou a denúncia do Ministério Público e vai investigar Jorge Lacerda, presidente da CBT; Dacio Campos, ex-tenista e comentarista do SporTV; e Ricardo Marzola, proprietário da Brascourt, que faz quadras de tênis e teve escritório instalado na sede da CBT. Se não sabe, leia aqui.

Tentei falar com os três envolvidos e, de tudo que ouvi, o que mais mexeu comigo foi uma declaração de Ricardo Marzola. O proprietário da Brascourt disse que assinou, a pedido de Lacerda, uma declaração falsa, supostamente atestando ter realizado serviços que nunca foram prestados.

“A Carolina [Maria Carolina Freire, advogada da CBT], foi na porta do meu escritório e me levou uma carta, dizendo ‘O Jorge mandou você assinar isso’. A carta falava que eu tinha prestado algum tipo de serviço no Harmonia. O meu erro foi esse. Eu não li direito e assinei porque, naquela época, minha parceria com ele [Lacerda] era tão grande que mesmo se eu tivesse lido e visto o conteúdo dela mesmo, eu teria assinado, entendeu?”, disse Marzola. “Eu não fiz nada no Harmonia. Mandei um gerente meu e alguns funcionários, e o Harmonia falou que não precisava.”

Recapitulando, o evento estava marcado para acontecer no WTC, em São Paulo. Por isso, Marzola já havia encomendado a fabricação do piso emborrachado. Por isso, o empresário recebeu os R$ 40 mil que estavam previstos no projeto de captação de verba. O problema todo começou quando o evento teve de mudar de local. Marzola, que não teria o que fazer com o piso, relatou:

“O Dacio disse ‘Marzola, depois a gente vê o que faz. O Jorge já autorizou mudar para o Harmonia. Vamos ver se você presta algum serviço lá, compra uma lona, alguma coisa, e a gente debita desse dinheiro. Aí quando você vender a lona, você devolve esse dinheiro para nós.’”

“Eu vendi esse piso de borracha, tirei os impostos e devolvi o dinheiro para o Dacio Campos. Coloquei na conta particular dele, no Banco Itaú. Esse dinheiro não ficou para mim. Não roubei. Não sabia que não poderia mudar o local. Isso quem teria que saber era o Jorge.”

Marzola, vale explicar, era parceiro da CBT em várias empreitadas e foi responsável por construção e manutenção de quadras de confrontos de Copa Davis. A Brascourt tinha escritório na sede da Confederação Brasileira de Tênis, e Marzola, inclusive, chegou a se sentar no banco da equipe como um integrante do time de Copa Davis (na foto abaixo, ele aparece de agasalho cinza, com os dois braços levantados, comemorando um ponto brasileiro).

Banco_Brasil_Jacksonville_get_blog

A explicação de Marzola, de certo modo, não é muito diferente da justificativa dada por Dacio Campos, com quem também conversei por um bom tempo nesta sexta-feira. Quando a denúncia diz que ele não teria motivo idôneo para receber sua quantia (R$ 400 mil) porque Lacerda “sabia muito bem que não poderia contar com a ‘intermediação’ de DACIO” (aspas retiradas do texto original da denúncia), o comentarista argumenta que não tinha obrigação da saber da lei. Ele, afinal, teria sido contratado para fazer um serviço e não precisava saber, juridicamente falando, sobre as exigências envolvendo o dinheiro que lhe estava sendo oferecido.

Segundo Dacio Campos, se o torneio não tivesse mudado de local, a CBT faria seus pagamentos diretamente ao WTC. Como houve a alteração da sede, foi preciso montar a estrutura no clube Harmonia, e esse trabalho teria sido ressarcido com os tais R$ 400 mil questionados pelo MP.

Ele enfatizou: “Eu sou produtor, não sou promotor do evento. E eu só mudei o evento de local porque a ATP me mandou mudar. No Harmonia, eles me cederam uma quadra, e não uma arena como constava no projeto. Então tudo que compõe uma arena eu tive que montar. Eu tive que montar banheiros, fazer restaurante, área VIP. No WTC, eu não precisaria porque estaria tudo pronto.”

A ênfase no “produtor e não promotor” é importante porque se Dacio for considerado pela Justiça Federal como promotor, isso coloca a CBT como intermediária na captação de verba federal, o que não é permitido. Se a Justiça entender que Dacio é um produtor, ele seria apenas um contratado da CBT para fazer o serviço. Mesmo assim, neste último caso, seu serviço pode ser considerado o de um intermediário, o que também, segundo a denúncia, é proibido – a CBT deveria contratar diretamente seus fornecedores.

A posição da CBT

A CBT divulgou, via assessoria de imprensa, uma nota oficial sobre o denúncia aceita pela Justiça Federal. Ela segue na íntegra:

“Mediante as informações que saíram na imprensa, o presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Jorge Lacerda, declara que conversou com os advogados do caso e que os mesmos irão requerer oficialmente os documentos para se interarem dos andamentos, visto que não houve intimação até o presente momento. Pelas informações não oficiais que foram publicadas na imprensa, Jorge afirma que já explicou cada um dos pontos, tanto que a prestação de contas do projeto junto ao Ministério do Esporte foi aprovada, com comprovação de que não houve dano ao erário. Jorge complementa que agora, finalmente, terá a oportunidade de se defender na Justiça.”

Especificamente sobre a declaração de Marzola e o documento assinado sobre seu trabalho no clube Harmonia, a CBT respondeu, também via assessoria de imprensa, apenas que ''o presidente da CBT, Jorge Lacerda, afirma que nunca pediu a quem quer que seja para assinar nada ilegal ou indevido.''