Saque e Voleio

Rio Open, dia 7: um ‘teste’ atrapalhado e um Dominic dominador
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Alexandre Cossenza

O domingo de Carnaval veio com um começo de chuva, revelando uma insegurança do torneio para lidar com ela. Ao contrário do discurso adotado pelo diretor do torneio, Lui Carvalho, no ano passado – e ressaltado por ele mesmo em encontro com jornalistas um mês atrás -, foi colocada uma lona na quadra central. Uma, não. Sete. Em vez de uma ou duas lonas grandes como em torneios de maior porte, a organização do Rio Open colocou sete pedaços separados de lona cobrindo a quadra. E uma parte (que seria da oitava lona) ficou descoberta.

Pior foi o processo para tirar as sete lonas quando a chuva passou. Funcionários atrapalhados e aparentemente sem treino algum para a situação levaram cerca de 35 minutos para descobrir a quadra inteira (sem contar a recolocação da rede e outros ajustes necessário para o recomeço de um jogo) em um procedimento que envolveu até passar com uma das lonas por cima das cabeças de funcionários.

Enquanto o processo cirque-du-Soleil-esco continuava, faltavam braços, e o cidadão que coordenava a retirada das lonas perguntou a um dos seguranças se havia algum outro segurança que pudesse ajudar no processo. Até eu fui chamado – em tom de brincadeira (espero!) – a ajudar.

Mas não era horário de jogo, não havia câmeras de TV mostrando e não é um Masters 1.000, com toda a imprensa internacional para repercutir o vexame. É mais fácil culpar a imprensa imprensa implicante e “que deveria dar graças a deus por existir um torneio assim no país.” Porém, qualquer que seja a análise, é difícil levar adiante que um evento assim pense em se tornar um Masters 1.000 enquanto usa uma equipe tão grande e falha dessa maneira.

No fim do dia, Lui Carvalho, que sempre defendeu o não-uso da lona, disse que tudo foi uma experiência, já que faltavam ainda duas horas para a final. Por isso, segundo ele, a quadra ficou 1/8 descoberta. O que permitiria avaliar a drenagem. “Dito e feito. O lugar sem lona secou em dez minutos, enquanto a lona demora um parto para tirar.” E por que não usar uma lona grande (ou duas) como em Wimbledon ou Roland Garros? “Porque a gente não tem calha, não tem como fazer um pedaço enorme. Não tem como carregar um pedaço de lona gigantesco para dentro da quadra.”

Thiem: excelência e pé no chão

Sorte que não choveu durante a final. Assim, foi possível ver Dominic Thiem em mais uma atuação dominante. Diante de Pablo Carreño Busta, o número 8 do mundo mais uma vez deu as cartas, ditando o ritmo do jogo e cometendo poucos erros. O espanhol sempre jogou reagindo ao que o favorito fazia. Carreño Busta até conseguiu uma quebra de vantagem no set inicial, mas Thiem sempre pareceu com o jogo sob controle. Não só devolveu a quebra imediatamente na sequência como foi impecável no 12º game, quebrando outra vez e evitando o tie-break.

No segundo set, os dois tenistas trocaram quebras no sexto e no sétimo games, mas, de novo, quando a coisa apertou, Thiem tinha sobra. Correu menos riscos o jogo inteiro, agredindo com bolas que passavam com folga sobre a rede e deslocando Carreño Busta em pontos que, na sua maioria, terminavam com o espanhol cometendo um erro forçado ou devolvendo uma bola mais curta, o que dava a Thiem a chance de finalmente partir para um winner praticamente sem correr riscos.

Após o jogo, Pablo Carreño Busta comemorou o que classificou como o melhor momento da carreira, mas admitiu que há coisas a melhorar em seu tênis. Ele lamentou especialmente a quebra sofrida no set inicial, quando teve a chance de abrir 4/2. Thiem também foi bastante pé-no-chão. Disse que achou a partida bem equilibrada e que só se sentiu em controle do jogo quando quebrou o oponente no segundo set. E, mesmo assim, nem tão dominante quanto pareceu. Em seguida, indagado sobre o que falta para vencer um slam, Thiem disse que precisa de muito e concordou que sua melhor chance é em Paris.

“É preciso que tantas coisas deem certo. Ano passado, em Roland Garros, joguei contra Djokovic, que nunca vi jogando um nível de tênis tão alto quanto aquele, mas sim. É preciso ter um pouco de sorte para ir longe num slam. É preciso sorte na definição chave e fazer boas partidas. O que eu tento é me preparar o melhor possível para fazer uma boa campanha lá.”

Coisas que eu acho que acho:

– De modo geral, a edição 2017 do Rio Open foi muito boa. O torneio melhorou em alguns quesitos e eliminou alguns erros bobos. Embora ainda falte bastante para chegar à altura do discurso de Lui Carvalho, que fala em transformar o Rio Open em um Masters 1.000 no futuro, o evento carioca é, de modo geral, um programa excelente para quem gosta de tênis (e, pelos vazios na arquibancada, para quem não gosta também).

– Ainda sobre a lona, eventos como Wimbledon e Roland Garros deixam as lonas já dentro das quadras. O Rio Open prefere deixar as cobertas fora do espaço da quadra. Por isso, a necessidade de vários pedaços. “Mas por que deixar a lona fora da quadra?”, você pode estar perguntando. Porque fica visualmente feio. Sim, é essa a explicação.

– Após a última coletiva do dia, Lui Carvalho, sentou-se com alguns jornalistas para tirar mais algumas dúvidas. Publicarei as partes mais interessantes dessa conversa (e da coletiva) em breve.


Em 7 motivos, por que a quadra central do Rio Open não enche
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Alexandre Cossenza

Não importa o que aconteça. Nem para o badalado Bellucci x Nishikori, a quadra Guga Kuerten, principal arena do Rio Open, ficou totalmente cheia. O público até foi bom na terça-feira, mas ainda havia vários assentos vazios. Na quinta, em outro jogo aguardado – Bellucci x Monteiro – foi pior. No melhor dos momentos, a ocupação deve ter ficado por volta dos 70%.

Mas por quê? Os ingressos estão caros? O calor é insuportável? Há atrações melhores fora da quadra? Os motivos são muitos, como já escrevi em um post anterior, e acho que agora vale a pena ir um pouco mais a fundo no assunto. Até porque não há um problema de venda de bilhetes. O torneio vendeu todos ingressos na terça e na quinta. A segunda-feira, que teve 60% das entradas compradas, foi a melhor da história do Rio Open. Na quarta, 75%.

Logo, não é um problema de público. É um problema de assentos ocupados. Mas por que esse povo todo não entra (e fica!) na quadra central?

1. Patrocinadores

O Rio Open dá muitos ingressos para patrocinadores. São eles que pagam a conta, afinal. E eles têm bastante culpa nesse não preenchimento de espaços. Conversei com dois amigos que receberam ingressos de patrocinadores diferentes. Uma empresa simplesmente distribui mal. Várias entradas ficam encalhadas. A outra tinha ingressos sobrando e procurava quem aceitasse. Em outros casos, os ingressos são dados a gente que não se importa com tênis. Dou um exemplo que aconteceu ao lado da área de imprensa, durante a partida entre Thiago Monteiro e Gastão Elias.

Um grupo de torcedoras usando viseiras da loja de móveis Breton entrou e ocupou cerca de 20 lugares. Junto delas, um fotógrafo. Ele fez imagens das mulheres, que passaram boa parte do tempo mexendo nos celulares e usando paus de selfie. cerca de meia hora depois, o grupo deixou a quadra e não voltou mais.

2. Corcovado Club

Também tem a ver com os patrocinadores, mas não só com eles. O Corcovado Club é a área VIP do Rio Open. É para convidados e tem capacidade para mil pessoas. Tem ar-condicionado, um bar da Stella Artois, monitores de TV, decoração da Breton e foi idealizado pelo cenógrafo Abel Gomes, da P&G Cenografia. É uma estrutura digna de área VIP. Muitos dos que vêm ao torneio optam por ficar lá em vez de encarar o calor (até de noite) da área externa.

E nem é só isso. O Corcovado Club é um daqueles espaços aonde as pessoas vão para verem e serem vistas. Faz parte. E também é precisou incluir aqui empresários e todo tipo de pessoa que vem ao evento para fazer contatos, dar asas a projetos, fechar negócios e coisas do gênero. Se faz bem ao tênis e à parte esportiva do torneio, é uma discussão diferente. O Rio Open parece satisfeito com o resultado.

3. Quadra 1

A quadra tem central tem capacidade para 6.200 pessoas. Na Quadra 1, cabem mil espectadores. Com os duplistas escalados sempre na quadra menor (isso foi acordado entre organização e atletas), é preciso levar isso em conta na matemática do público. Com Bruno Soares ou Marcelo Melo jogando, a central sempre perde boa parte desses espectadores – ainda que seja possível entrar na Quadra 1 o dia inteiro com qualquer ingresso (seja para a sessão diurna ou para a noturna).

Ainda assim, é bom ressaltar: nem durante Nishikori x Bellucci nem durante os momentos mais importantes de Bellucci x Monteiro, havia um brasileiro jogando na Quadra 1. Não dá para colocar as duplas na conta desses dois dias específicos.

4. Leblon Boulevard

O chamado “Leblon Boulevard” é a área de convivência do torneio. Tem restaurantes, lojas, bares e estandes com atrações diferentes. Dá para pilotar um simulador de Fórmula 1 em Interlagos na Pirelli, fazer a barba na Granado, encontrar Fernando Meligeni na loja da Fila, adquirir uma bolinha personalizada na Peugeot, jogar tênis virtual no Itaú e carregar o smartphone na Claro, entre outras coisas possibilidade. As opções são interessantes.

E tem, claro, fila. Quem sai da central no intervalo entre sets (a grande maioria), vai ter que ficar um tempinho lá para ir ao banheiro, comer ou tomar um sorvete. E, depois disso, há quem prefira ficar acompanhando os jogos sentado na praça de alimentação, que é coberta e protege do sol.

5. Falta de nomes grandes

A ausência de Rafael Nadal, que esteve nas três edições anteriores do Rio Open, pode não ter afetado significativamente a venda de ingressos, mas parece vir mostrando seu peso na quantidade de gente em quadra. Com um nome gigante, todo mundo quer estar na quadra central quando ele joga.

Ainda que estejam no top 10, Nishikori e Thiem não têm o peso de um Nadal (ou um Djokovic ou um Federer). Nesta sexta-feira, quando Thiem entrou na quadra às 16h45min para as quartas de final contra Diego Schwartzman, havia, se tanto, 500 pessoas na arena.

6. Quadras externas

Também tem isso. Há quem prefira ver treinos. Se Nishikori está em uma quadra externa batendo bola, há quem prefira ficar ali na grade, à espera de uma foto ou um autógrafo, a entrar na quadra central para ver, digamos, Ruud x Carballés Baena. Embora a quantidade de gente nas beiras das quadras este ano seja muito menor do que nas três edições anteriores e isso não sirva como parâmetro para analisar o público dos jogos noturnos, ainda é preciso levar em conta esse fator. O tênis, no fim das contas, compete contra ele mesmo.

7. Calor

Sem o torneio feminino, o Rio Open pôde começar as rodadas mais tarde, às 16h30min, quando o calor não é tanto e já há sombras na quadra central. Ainda assim, o Rio de Janeiro é quente e úmido até nos dias “amenos” em fevereiro. A loja da Fila empresta guarda-chuvas que o povo usa para se proteger do sol, mas nem todos sabem disso. E nem todo mundo aguenta passar tanto tempo no calor.

Coisas que eu acho que acho:

– Como eu escrevi em um post anterior, cada item acima tem peso maior e menor dependendo de uma porção de fatores. O que é inegável é que todos tiveram alguma influência durante a semana.

– Há quem acredite que o Carnaval tem grande parte da culpa. É muito bloco na cidade, a hospedagem é mais cara, as passagens aéreas também. É um argumento bastante questionável porque, como já foi dito lá no alto do post, não é um problema de ingressos vendidos ou de comparecimento de pessoas. O povo comprou entradas e esteve no Jockey. Só não ficou na quadra central.

– Talvez a grande pergunta a se fazer é se o Rio Open deveria repensar sua política de distribuição de ingressos – especialmente a patrocinadores. Só que os vazios na quadra central são recorrentes. Eles estão lá todo ano. É claro que a IMM já observou e discutiu isso. E se continua assim, é porque a organização não parece tão preocupada assim com os buracos na arquibancada.


Rio Open, dia 6: Thiem com folga, drama para Ruud e colombianos destronados
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Alexandre Cossenza

Sem brasileiros, o Rio Open viu as semifinais de simples e a decisão de duplas neste sábado. Apenas Dominic Thiem venceu sem sustos. Houve drama na segunda semi e na excelente decisão de duplas, vencida por Pablo Cuevas e Pablo Carreño Busta, que destronaram os colombianos Cabal e Farah.

A queda colombiana

Campeões do Rio Open em 2014 e 2016, Juan Sebastian Cabal e Robert Farah estiveram a dois pontos de um terceiro título, mas foram derrotados em um jogo de altíssimo nível pela dupla formada por Pablo Cuevas e Pablo Carreño Busta: 6/4, 5/7 e 10/8. Foi um torneio enorme de uruguaio e espanhol, especialmente em momentos delicados. Na sexta-feira, Cuevas e Carreño Busta salvaram um match point na semifinal contra Bruno Soares e Jamie Murray. Neste sábado, estiveram perdendo o match tie-break por 4/1, mas conseguiram a virada.

Uruguaio e espanhol disputaram no Rio apenas seu segundo torneio juntos e ainda não perderam. Em Buenos Aires, na semana passada, abandonaram antes da semifinal. A parceria vai continuar em São Paulo, mas não parece ter futuro – pelo menos por enquanto. Carreño Busta foi vice-campeão do US Open e quadrifinalista do Australian Open ao lado de Guillermo García López e disse, após o título, que voltará em breve a atuar com o compatriota.

Para Cuevas, que foi eliminado nas simples logo na primeira rodada, a vitória nas duplas foi um belo troféu de consolação – além de manter viva uma curiosa série no Brasil. Em três torneios ATP, o uruguaio foi campeão em três. Ano passado, venceu nas simples no Rio Open e no Brasil Open, em São Paulo.

Thiem: o passeio do favorito

Não foi lá o mais emocionante dos jogos. O primeiro set, com a quadra central pelo menos metade desocupada, deu até sono enquanto Dominic Thiem abria 4/0 sobre Albert Ramos Viñolas. O austríaco também começou a segunda parcial com uma quebra, e só houve emoção mesmo quando Thiem deu uma bobeada e perdeu o serviço sacando em 4/3. Só que a graça do jogo durou pouco. O cabeça 2 quebrou de novo logo na sequência e fechou em 6/1 e 6/4.

Mesmo vindo de Roterdã, onde jogou em quadras duras indoor, Thiem tira o melhor de seu tênis no saibro carioca. O saibro lhe dá o tempo necessário para preparar os golpes – inclusive a longa esquerda – e gerar potência e efeito. É claro que a chave que se abriu para Thiem no Rio ajudou. Ele chega à final de um ATP 500 após bater Tipsarevic (#96), Lajovic (#97), Schwartzman (#51) e Ramos Viñolas (#25). Em comparação com seu único título de ATP 500 até hoje, Thiem enfrentou Dzumhur (#95), Tursunov (#1045), Dimitrov (#7), Querrey (#43) e Tomic (#21) quando foi campeão em Acapulco, no ano passado.

Carreño Busta: maturidade e match point salvo

Antes de vencer a final de duplas, Pablo Carreño Busta já havia triunfado em outra partida tensa. Por um set e meio durante a segunda semifinal de simples, o domínio foi de Casper Ruud, o norueguês de 18 anos que chegou como convidado e surpreendeu meio mundo no Rio de Janeiro. E faltou só um pontinho para Ruud estar na final. Depois de vencer o set inicial, Ruud abriu 3/1 na segunda parcial, mas foi no quinto game que a coisa começou a desandar. O norueguês perdeu o serviço com uma dupla falta e, de repente, a partida ficou parelha. Quebra para cá, quebra para lá, e Ruud teve um match point no serviço de Carreño Busta no décimo game. O espanhol se salvou, quebrou na sequência e fez 7/5.

Foi aí que, pela primeira vez no torneio, a idade e a falta de experiência de Ruud se manifestaram. Depois do match point perdido, o adolescente não conseguiu fazer mais nada. Carreño Busta, 25 anos e #24 do mundo, aproveitou. Manteve-se sólido, tomou a dianteira e não olhou mais para trás: 2/6, 7/5 e 6/0.

A final no domingo

Thiem e Carreño Busta se enfrentam às 17h. Será o quinto duelo entre eles, e o austríaco vem em uma sequência de três vitórias. Ao todo, são cinco confrontos, com apenas um triunfo do espanhol, que aconteceu em 2013, na final do Challenger de Como. Thiem venceu o primeiro confronto em um Future em Marrocos, em 2012. Depois, triunfou em Como/2013, Gstaad/2015, Buenos Aires/2016 e US Open/2016.


O pai dele bateu Guga. Vinte anos depois, Casper Ruud brilha no Rio Open
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Alexandre Cossenza

É só uma coincidência. Ou nem isso. Mas é, certamente, uma daquelas ligações deliciosas e inexplicáveis entre países e famílias. Em agosto de 1996, um jovem norueguês de 23 anos chamado Christian Ruud enfrentava Gustavo Kuerten no ATP de Umag, no saibro, na Croácia. O europeu, mais experiente e de melhor ranking – era o #68 do mundo, enquanto Guga, então com 19 anos e em franca ascensão, era o #115 – venceu por 7/5 e 6/4.

Fast foward para 20 anos e seis meses depois. Outro tenista chamado Ruud derrubou um brasileiro em ascensão. Foi Casper Ruud, filho de Christian, quem superou Thiago Monteiro nas quartas de final do Rio Open por 6/2 e 7/6(2). Hoje com 18 anos e atual #208 do mundo, Casper já havia eliminado outro tenista da casa no torneio. Na estreia, bateu Rogerinho por 6/3 e 6/4.

Em um país sem tradição ou ídolos no tênis, é óbvio que Christian (o tenista da imagem abaixo) foi a grande inspiração para que Ruud fizesse carreira no tênis. O filho nasceu quando o pai tinha 26 anos e ainda estava no circuito. Quando podia, Christian levava o garoto para praticar todo tipo de esporte. Casper jogou tênis, futebol, hóquei no gelo e golfe. Em algum momento entre os 11 e 12 anos, largou todos os outros e decidiu investir no tênis. Pelo visto, investiu bem.

A federação pequena que ajudou muito

Não que seja fácil crescer jogando tênis na Noruega. Os torneios são poucos. A federação não é rica. Casper, no entanto, aproveitou o que podia. “Por esse lado [poucos torneios e dinheiro], é difícil, mas por outro lado, isso foi bom para mim porque eu sempre fui um dos melhores do país. A federação sempre cuidou bem de mim, com técnicos e tudo mais. Por esse ângulo, é ótimo em comparação com uma federação grande, com tantos jogadores, onde é difícil dar atenção a todos”, disse em rápido papo comigo após a coletiva desta sexta-feira.

A ascensão de Casper Ruud vem sendo espantosa. Um ano atrás, ocupava o 1.148º posto no ranking mundial. A temporada 2016 lhe deu bons resultados, inclusive um surpreendente título no Challenger de Sevilha, na Espanha, em setembro. Naquela semana, pulou do 450º lugar para o 274º. Agenciado pela IMG, que também controla o Rio Open e lhe ofereceu um convite para o evento carioca, Ruud aproveitou a chance e dará mais um salto. Graças à campanha que o levou até as semifinais, pulará do #208 para (pelo menos!) o #133. A explicação para isso? Nem ele crava o motivo. No entanto, quando lhe perguntaram na coletiva, aproveitou a chance para um momento jabá. Disse que trocou de marca de raquete há exatamente um ano e aproveitou para citar a Yonex, sua atual patrocinadora.

Mas e o jogo de seu pai com Guga? Será que Casper sabe da história? Quando perguntei, o garotão não lembrou. Disse que não sabia se seu pai tinha vencido ou perdido. “Ganhou”, eu disse. Casper riu e falou sobre o pai: “Ganhou!? Fico surpreso de ele não ter me contado, mas de repente vai me falar sobre isso nos próximos dias (mais risos). Ele adora histórias sobre quando ganhou partidas duras contra um ou outro jogador. Mas é divertido que meu pai tenha jogado também. Sei que Kuerten é enorme aqui no Brasil. Ganhou Roland Garros três vezes. Pelo que vi e ouvi, ele era um cara duríssimo de enfrentar.”

Variações e aprendizado vendo Nadal na TV

Nos três jogos que fez no Rio Open (superou Rogerinho, o espanhol Roberto Carballés Baena e Thiago Monteiro), Casper Ruud mostrou um tênis cheio de recursos e variações. Tem uma direita pesada, com muito top spin, que empurra os adversários para trás, varia bem com a esquerda e tem um ótimo saque. Além de tudo isso, provou ter bom preparo físico e nervos invejáveis. Nem contra Monteiro, com a quadra cheia e muito barulho, deixou-se abalar. Perguntei se isso era consequência do tênis da Espanha, já que Casper treina bastante em Alicante há alguns anos. Ele minimizou a influência espanhola.

“Não diria que isso vem de treinar na Espanha, mas pode ser. Honestamente, eu sempre gostei de ver tênis na TV e sempre tentei aprender o máximo. Sempre tento ver como os melhores jogam e aprender golpes diferentes. Golpes mais chapados, alguns com mais spin, e aprender quando usar cada um deles. Talvez num 30/30, no forehand, jogar com um pouco mais de spin pode ser mais inteligente. Nunca se sabe, mas eu sempre vi os melhores na TV e eles são ótimos em variar os golpes. Estou tentando ser sólido, mas também variar.”

Ruud disse passar muito tempo vendo tênis na TV e online. E que seu preferido é Rafael Nadal. Vejam por quê:

“Meu ídolo é Rafael Nadal. Talvez ele não jogue o tênis ideal em comparação com Andy [Murray] e Novak [Djokovic], que fazem tudo parecer muito fácil, mas gosto de vê-lo porque é um grande lutador e, embora muita gente não ache, ele também tem muito talento. Seu tênis é extremamente inteligente e sempre tento aprender um pouco com ele.”

Casper Ruud parece bem encaminhado, não?


Rio, dia 5: o melhor golpe da vida de Thiem e o fim da linha para o Brasil
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Alexandre Cossenza

A sexta-feira do Rio Open não foi o dia dos sonhos para o tênis brasileiro. Primeiro, Thiago Monteiro foi superado pelo convidado Casper Ruud, 18 anos e número 208 do mundo. Mais tarde, nas duplas, Bruno Soares teve match point, mas acabou superado ao lado de Jamie Murray em mais uma semifinal.

Quem comemorou mesmo foi Dominic Thiem, cabeça de chave 2. Além de vencer em dois sets e alcançar a semi, o austríaco realizou o que ele mesmo classificou como o melhor golpe de sua carreira (vide vídeo abaixo). O resumão de hoje tem tudo isso em declarações, imagens e vídeos.

O adeus de Monteiro

Thiago Monteiro não passou das quartas de final. O cearense demorou a equilibrar ações, permitiu que Casper Ruud abrisse 4/0 no primeiro set e, depois disso, o norueguês de 18 anos jamais perdeu a calma. O brasileiro não conseguiu um break point sequer e acabou eliminado por 6/2 e 7/6(2).

Ruud, atual #208 do mundo, nunca tinha vencido uma partida em um torneio da ATP antes do Rio Open e só ganhou um convite porque é agenciado pela IMG, dona do torneio. O adolescente aproveitou a chance e mostrou um tênis sólido, potente e com variações, além de um ótimo preparo físico. Jogou uma partida sob calor intenso e fez um duelo longo de três sets. Em ambos, saiu inteiríssimo da quadra. Contra Monteiro, impôs seu forehand pesado e cheio de spin, criando problemas para o backhand do cearense. Além disso, variou saques e jamais deixou Monteiro à vontade. Nem a torcida brasileira, empurrando o tenista da casa, tirou o norueguês do sério.

O adversário da semi será Pablo Carreño Busta, que avançou depois que Alexandr Dolgopolov abandonou ao fim do segundo set por causa de dores no quadril esquerdo. O ucraniano, campeão em Buenos Aires no domingo, já vinha se queixando aqui no Rio. O curioso é que ele desistiu da partida logo depois de jogar um excelente tie-break e empatar a partida contra o espanhol. O placar final mostrou 7/6(4) e 6/7(2).

Thiem: a segunda semi e o melhor golpe da vida

No primeiro set, foi mais complicado do que o placar mostrou. No segundo, mais fácil. No fim, Dominic Thiem bateu Diego Schwartzman por 6/2 e 6/3 e avançou pelo segundo ano seguido às semifinais do Rio Open. Com direito a um momento glorioso: uma passada de Gran Willy que levantou a galera e que o próprio austríaco definiu como o melhor tiro da carreira.

“Eu já tinha tentado o tweener muitas vezes, mas foi meu primeiro winner limpo. Não acreditei porque eu estava muito atrás da linha de base. Provavelmente, foi o melhor golpe que acertei na vida.”

Ressalte-se, porém, que o argentino deu trabalho. No primeiro set, teve break points em três games de serviço de Thiem, inclusive um 0/40 no 3/2. O mérito do austríaco foi ser superior e não cometer erro nenhum em todos momentos delicados. Schwartzman também ensaiou uma reação na segunda parcial, vencendo três games (duas quebras) depois estar 0/5 atrás, mas, novamente, Thiem foi mais sólido quando a coisa apertou.

Em busca da vaga na final, Thiem vai enfrentar Albert Ramos Viñolas, que não teve problemas diante do qualifier argentino Nicolas Kicker: 6/2 e 6/3. Atual número 25 do mundo e ocupando o melhor ranking da carreira, o espanhol venceu o único duelo que fez contra Thiem. Foi nas quadras duras de Chengdu, no ano passado, nas quartas de final, e o placar foi 6/1 e 6/4. Será que no saibro, com a bola quicando alto – condições perfeitas para Thiem – Ramos consegue repetir?

Bruno Soares e a derrota mais doída

A final já seria complicada, afinal os colombianos Robert Farah e Juan Sebastian Cabal, atuais bicampeões do Rio Open e tradicionais pedras no sapato de Bruno Soares, garantiram cedo seu lugar na decisão quando superaram Julio Peralta e Horacio Zeballos por 6/7(4), 7/6(6) e 10/6.

O pior é que a final acabou não vindo. Bruno Soares e Jamie Murray fizeram um jogo duríssimo contra Pablo Cuevas e Pablo Carreño Busta e acabaram eliminados. Brasileiro e britânico até tiveram um match point no match tie-break, mas a devolução de Soares não teve o efeito desejado, e a chance não foi aproveitada. Dois pontos depois, graças principalmente a um lob defensivo de Pablo Cuevas que caiu na linha, uruguaio e espanhol fecharam: 6/4, 3/6 e 12/10.

Foi a quarta chance de Bruno Soares nas semifinais do Rio Open (a primeira com Murray) e a quarta derrota. O mineiro saiu de quadra hoje dizendo que foi o revés mais doído.

“Nos outros anos, achei que nós jogamos bem mais ou menos. Chegar na semifinal era meio que lucro. Eu saía falando ‘não fiz muita coisa para estar na final.’ Este ano, fiquei chateado porque achei que, dentro das condições [Soares já havia reclamado das bolas usadas no Rio Open], a gente jogou bem. A gente conseguiu ter match point jogando um nível bom de tênis. Nos outros anos, a gente foi meio que se arrastando até a semi, e eu meio que saía aceitando o que tinha acontecido. Este ano… faltou um ponto, cara.” … “Ter match point doeu. Preferia ter perdido no 9/7 ali, pá-pum. Seria um pouco menos doído.”

O melhor do sábado

A sessão começa às 17h, com Dominic Thiem x Alberto Ramos Viñolas. Em seguida, Casper Ruud encara Pablo Carreño Busta. A programação ainda prevê um show de Nina Miranda antes da decisão de duplas, que fecha a noite no Rio Open.


Rio Open, dia 4: Bellucci ‘morto’, Melo em crise e Soares com drama
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Alexandre Cossenza

Que dia para os brasileiros no Rio Open! Primeiro, houve drama na Quadra 1 com Bruno Soares e Jamie Murray desperdiçando chances e match points. Depois, a eliminação nas quartas de final deixou Marcelo Melo chateado e reavaliando a parceria com o polonês Lukasz Kubot. Por fim, o duelo brasileiro na quadra central terminou com uma cena desagradavelmente familiar: Thomaz Bellucci esgotado fisicamente. Melhor para Thiago Monteiro, que avançou, terá o melhor ranking da carreira e uma chance rara de ir até as semifinais de um ATP 500.

Bellucci traído pelo físico mais uma vez

Era para ser uma partida equilibrada entre dois tenistas que se conhecem bastante e treinam juntos. Até foi assim, mas só durante o primeiro set. O segundo foi morno, e o terceiro deixou óbvio: com menos de duas horas de duelo, Thomaz Bellucci estava esgotado. Thiago Monteiro aproveitou e avançou às quartas de final: 7/6(8), 3/6 e 6/3.

Em vez de ver o Bellucci paciente, taticamente inteligente e preciso de terça-feira, o público que esteve no Jockey Club Brasileiro infelizmente viu o Bellucci mais frequente. Irregular, perdendo chances – inclusive um set point no saque no primeiro set – e sofrendo com o preparo físico. Após o jogo, o paulista chegou à zona mista (onde são realizadas as entrevistas curtas pós-jogo) abatido e chateado. “Morri no terceiro set”, disse, com todas as letras.

Bellucci afirmou, inclusive, que já sentia dificuldades no segundo set, sem conseguir imprimir um volume bom de jogo. A declaração é preocupante porque, ainda que disputado na umidade carioca, o duelo foi realizado à noite, em uma temperatura de 27 graus, e Bellucci estava pregado com menos de 2h de jogo.

Tão preocupante quanto a última frase de Bellucci aos jornalistas. “É vida que segue. Não foi o primeiro jogo que perdi porque não consegui aguentar fisicamente. É seguir trabalhando.”

Os méritos e o melhor ranking de Monteiro

Embora os problemas físicos de Bellucci tenham privado os espectadores de ver um terceiro set equilibrado, é preciso lembrar dos méritos de Thiago Monteiro. Primeiro, ao salvar dois set points no tie-break do primeiro set. Depois, mais tarde, ao sair de um delicado 0/30 no primeiro game do terceiro set e emendar com uma quebra de saque. Foi, inclusive, a única da parcial decisiva.

Com a vitória, Monteiro alcançará o melhor ranking da carreira. Mesmo que perca nas quartas, o cearense de 22 anos deve aparecer entre os 75 melhores na próxima atualização da lista da ATP. Ainda não será suficiente para se tornar o #1 do Brasil, já que Bellucci também está ganhando posições nesta semana. Monteiro só ultrapassará o paulista se vencer mais um jogo no Rio de Janeiro.

Derrota e parceria em xeque para Marcelo Melo

Marcelo Melo e seu parceiro, o polonês Lukasz Kubot, foram eliminados pelo chileno Julio Peralta e o argentino Horacio Zeballos: 6/4 e 6/4. O resultado não deixou o mineiro nada contente. A parceria com Kubot, iniciada em janeiro, só rendeu quatro vitórias e quatro derrotas até agora.

Melo não é conhecido por frases fortes, então é preciso pescar pequenos indícios dentro de suas frases. E as declarações desta quinta deixaram escapar – pelo menos foi essa a impressão de quem estava lá na zona mista – que o mineiro está preocupado quanto ao futuro da parceria com o polonês.

“Normalmente, eu me adapto muito bem [a parceiros de estilos diferentes], mas não adianta a gente jogar muito kamikaze e bomba pra todo lado. Eu gosto de um jogo mais controlado, mais sólido. Às vezes, com menos velocidade e mais porcentagem. A gente precisa encontrar esse balanço porque eu sou mais desse estilo. O Lukasz é mais agressivo. Tem dia que não entra a bola e nós vamos perder para qualquer dupla! Nós precisamos encontrar esse equilíbrio para ver se a gente consegue manter a dupla – para evoluir porque tem que tentar até certo ponto encontrar esse equilíbrio, senão não adianta seguir.”

Drama com Bruno e Jamie na Quadra 1

Bruno Soares e Jamie Murray estiveram a dois pontos da eliminação nesta quarta-feira, mas conseguiram uma apertada vitória sobre os argentinos Diego Schwartzman e Andres Molteni: 6/3, 5/7 e 11/9. Não parecia que seria assim quando brasileiro e escocês venceram cinco games seguidos no primeiro set, mas o jogo ficou nervoso quando o mineiro foi quebrado no 12º game da segunda parcial, o que forçou um match tie-break.

O set de desempate também parecia sob controle quando Soares e Murray abriram 9/5, mas a parceria desperdiçou dois mini-breaks e viu os argentinos empatarem em 9/9. Molteni, então, arriscou uma devolução de backhand, mas mandou a bola ao lado. No quinto match point, Schwartzman estranhamente furou um voleio – o que fez a torcida finalmente comemorar um tanto aliviada.

Será a quarta vez de Bruno Soares nas semis do Rio Open. O mineiro, porém, nunca chegou à final. Na coletiva, ele disse que uma vitória assim, vencida com momentos nervosos, vai ajudar na rodada seguinte. Sobre a partida, os dois ressaltaram as ótimas devoluções de Molteni, que equilibraram o confronto, mas o mineiro ressaltou que perdeu duas boas chances no segundo set. Primeiro, em um voleio no 4/4, com break point a favor. Mais tarde, com uma devolução errada no ponto decisivo do 5/5.

Pelo menos no papel, a semi não será nada simples, já que os adversários serão Pablo Carreño Busta e Pablo Cuevas. Espanhol e uruguaio passaram pelo argentino Facundo Bagnis e pelo português Gastão Elias por 6/4 e 7/5.

O convite bem aproveitado e o telefonema na quadra

Casper Ruud, desconhecido norueguês número 208 do mundo que ganhou um convite da organização para disputar o Rio Open, continua aproveitando a ótima chance. O adolescente de 18 anos bateu, de virada, o espanhol Roberto Carballés Baena e avançou às quartas de final por 6/7(4), 6/4 e 7/6(3).

Agenciado pela IMG, a dona do torneio, Ruud foi mostrado pela transmissão ao telefone ainda antes de sair da quadra. Depois, revelou que a ligação era de seu empresário – o mesmo que conseguiu o convite – que comemorava a vitória do atleta. Já é a melhor campanha da carreira de Ruud no circuito ATP, e o norueguês que mora e treina na Espanha vem mostrando golpes sólidos, cabeça no lugar e um ótimo preparo físico no calor e na umidade do Rio de Janeiro.

De qualquer maneira, será uma chance rara para Thiago Monteiro. Não é todo dia que alguém pode alcançar as semifinais de um ATP 500 enfrentando nas quartas um adversário que não está nem no top 200. Até agora, o cearense aproveitou as oportunidades que teve.

Bolinhas polêmicas são as melhores fabricadas pelo patrocinador

Em quatro anos de evento, o Rio Open acumula queixas sobre as bolinhas usadas pelo torneio. A lista de reclamões inclui Rafael Nadal, Kei Nishikori e Dominic Thiem, só para ficar nas estrelas internacionais. Bruno Soares também sempre falou que as bolas são muito duras e difíceis de controlar.

Perguntei sobre isso a Lui Carvalho, diretor do torneio. Ele afirma que as bolas usadas no Rio são as melhores fabricadas pela Head, patrocinadora do torneio. Vale lembrar que Nadal, uma vez, chegou a dizer que a ATP não deveria aprovar essas bolas para uso em seus torneios.

A quadra que não enche

Há vários motivos para os assentos constantemente vazios na quadra central do Rio Open. Preços, horários, calor, patrocinadores, atrações fora da quadra, falta de um nome de maior peso para a venda de ingressos… Tudo tem sua influência, em grau maior ou menor. Mas não deixa de ser lamentável ver tantos espaços em branco durante os momentos mais emocionantes do torneio.

A foto do tweet acima, por exemplo, foi feita durante o tie-break do primeiro set entre Bellucci e Monteiro. Dois tenistas da casa, jogando em horário nobre, à noite (menos calor), com muita coisa em jogo. Depois, ao fim da partida, com o jogo entrando pela madrugada, o público era bem menor.

O melhor da sexta-feira:

A programação começa mais cedo, às 15h, em vez de às 16h30min. As quatro quartas de final serão na quadra central, com Monteiro fechando o dia contra Ruud. As semifinais de duplas serão na Quadra 1, conforme o previsto, com início marcado para as 17h.


Rio Open, dia 3: susto de Melo, sonho de Guga e Fognini ‘atirador de facas’
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Alexandre Cossenza

Não foi um dia de resultados espantosos ou partidas especialmente atraentes no Rio Open, mas sobrou assunto interessante. Desde a coletiva de Gustavo Kuerten, que disse que não faz mal sonhar com o Rio Open se tornando um Masters 1000, incluindo o papo com João Zwetsch, que falou sobre a necessidade de Thomaz Bellucci ser mais consistente, até as críticas “britânicas” de Jamie Murray sobre as bolas usadas no Rio Open.

A quarta-feira também teve um pequeno susto de Marcelo Melo na primeira rodada da chave de duplas e o momento “atirador de facas” de Fabio Fognini, que deixou sua raquete presa na lona do fundo de quadra (vídeo abaixo).

Marcelo Melo e Lukasz Kubot fazem 'adicional noturno'

Era para ser uma vitória sem drama e foi assim durante um set. No início da segunda parcial, contudo, Marcelo Melo e Lukasz Kubot vacilaram e deixaram Feijão e Fabricio Neis abrirem 5/1. Melo e Kubot viraram, mas perderam o saque de novo no 12º game e só conseguiram fechar no tie-break: 6/1 e 7/6(4).

Após a partida, brasileiro e polonês foram direto para uma das quadras de treino, onde ficaram por cerca de mais uma hora. Depois, na zona mista, falaram sobre a complicada adaptação às condições locais. Os dois chegaram de Roterdã, onde jogaram em quadra dura coberta. Sobre o adicional noturno, Melo disse que “quando as coisas não saem tão bem, é bom sempre bater uma bola depois para dar uma soltada, uma relaxada, sacar tranquilo e saber que naqueles momentos que são nervosos, a gente pode jogar tranquilo. Por isso que a gente vai bater depois. Para ir para o hotel mais tranquilo.”

Bruno Soares e Jamie Murray: sem drama e (quase) sem queixas

Cabeças de chave #1, Bruno Soares e Jamie Murray venceram sem tanto drama: 6/4 e 6/2 sobre o gaúcho Marcelo Demoliner e o neozelandês Marcus Daniell. Os dois saíram contentes com a atuação e Bruno até evitou fazer a queixa anual sobre as bolas usadas no Rio Open. O mineiro sempre falou que elas são muito duras e difíceis de controlar.

Pedi, então, a opinião de Jamie, que fez sua crítica, mas de uma maneira bastante polida. O escocês disse que as condições mudaram um pouco porque a quarta-feira foi um pouco menos quente do que os últimos dias. Por isso, não sentiu as bolas voando como antes. Com as bolas voando, “é difícil controlar os voleios e quando os caras batem forte contra você, o que acontece muito nas duplas, não é tão fácil controlar a bola.” Murray disse também, de um jeito bem britânico, que “cada [tenista] tem suas condições ideais. Não acho que muitas pessoas escolheriam essas condições, mas é assim que é.”

Guga vê Rio Open na quadra dura como Masters 1000 e talvez no lugar de Miami

Gustavo Kuerten esteve no Jockey Club Brasileiro nesta quarta-feira e concedeu uma entrevista coletiva de meia hora. A parte que mais me interessou foi sua opinião sobre a mudança de piso do Rio Open. Ano passado, o torneio pediu a alteração junto à ATP, que não aprovou o evento em quadras duras. Guga concorda com o diretor do torneio, Lui Carvalho, ao afirmar que imagina o torneio em um patamar mais alto se disputado no piso sintético.

“Tem um Parque Olímpico pronto aqui do lado, na esquina. É muito provocativo isso. Acima de identidade e do que é melhor para os [tenistas] brasileiros. De repente, o que é melhor para os brasileiros hoje pode ser diferente daqui a dez anos. O circuito também é em quadra dura. Eu consigo visualizar, pela dimensão que é a estrutura do Parque Olímpico, indo para lá, em quadra dura, como um Masters 1.000. Seria e é um sonho interessante de cultivar.” … “E se precisar ser em quadra dura para trazer bons jogadores e o torneio tem sucesso, precisa ser feito. O resto vai se adequando.”

Indagado se concorda que a mudança é necessária para que se alcance um outro nível, Guga deu (mais) uma resposta politicamente correta.

“Porque não consigo visualizar esse torneio dentro da turnê da Europa. Não tinha como tirar [os tenistas] do meio do circuito europeu para eles virem para cá. Então só consigo imaginar entre Miami e Indian Wells. Talvez com o torneio de Miami vindo para cá daqui a uns 15 aninhos. Eles estão meio defasados na estrutura lá. Aqui tem um Centro Olímpico (risos).” … “Hoje, pensar nisso é quase que uma perda de tempo, mas sonhar com isso é bom também. Tem que continuar cultivando esse sonho e esperar o momento de conseguir visualizar com mais veracidade essa hipótese.”

Ao fim da coletiva, Guga mostrou aos jornalistas o primeiro exemplar do livro de fotos ''Guga Imagens De Uma Vida'', produzido pela Editora Magma. Durante o Rio Open, a publicação estará disponível com exclusividade na Livraria da Travessa do Shopping Leblon. Quem quiser também pode adquiri-lo na loja virtual da Editora Magma por R$ 149,00.

Zwetsch e a (in)consistência de Bellucci

João Zwetsch, capitão brasileiro na Copa Davis e técnico de Thomaz Bellucci, falou com um grupo de jornalistas brasileiros nesta quarta-feira e respondeu algumas perguntas sobre seu tenista e o duelo com Thiago Monteiro. Perguntei sobre como Bellucci foi mais consistente e paciente contra Nishikori e o que era possível fazer para convencer o paulista a jogar assim com mais frequência, já que Bellucci assumidamente não gosta de atuar dessa maneira. O gaúcho disse que esse é o grande objetivo para 2017:

“Eu sempre falo isso para ele. Eu sempre tive esse conceito. O Thomaz é um cara forte. Quando ele está com condições de atuar como pode atuar, ele pode ganhar de um Nishikori como ele ganhou ontem sem jogar uma grande partida. Para mim, ele não jogou uma grande partida. Ele jogou correto.” … “Essa é a nossa busca maior. Fazer com que ele tenha consistência em cima disso. Uma vitória dessa sempre dá uma crença maior no nosso caminho. Espero que a gente possa seguir assim para que ele tenha um ano com a qualidade que pode ter. E que este ano sirva para criar uma estrutura de consistência, que é o que todo mundo espera de um jogador com o nível do Thomaz.”

Mais tarde, diante de uma pergunta sobre os objetivos para a temporada, disse:

“Acho que este ano é um ano para ambicionar, acima de tudo, essa questão levantada antes, que é uma forma consistente de jogar.” … “Para jogadores como ele, que são muito agressivos e assumem muito o risco, isso é fundamental. Não dá para perder o senso de controle de ‘como eu estou”, “onde eu estou”. Às vezes, dar um winner é coisa mais necessária no momento, mas se o jogador não está se sentindo tão à vontade para isso, talvez jogar duas bolas ou três a mais, mover o adversário, possa resolver o problema também. Essa leitura melhor, mais constantemente clara na frente dele, sem dúvida vai fazer diferença para ele. Foi o que ele fez ontem [contra Nishikori]. Em muitos momentos do jogo, ainda passou um pouquinho da conta, mas isso vai acontecer. Ele é extremamente agressivo. Às vezes, bota umas bolas que saem um pouco mais porque (risos) não pega na veia e quando pega não tão na veia ela vai lá no… (risos) Mas eu prefiro isso do que o lado onde a limitação é maior e ele fica menos competitivo.”

Fognini, o atirador de facas

Sabe aquele cara mestre em atirar facas e fazer com que elas sempre atinjam o alvo com a lâmina? Pois é, Fabio Fognini fez algo parecido nesta quarta-feira. Atirou a raquete contra a lona do fundo de quadra e viu seu instrumento de trabalho fazer um furo no tecido e ficar preso, pendurado.

O italiano acabou derrotado por Albert Ramos Viñolas por 6/2 e 6/3. O espanhol avançou às quartas de final para enfrentar o qualifier argentino Nicolas Kicker.

Thiem e a chave favorável

Principal cabeça de chave do torneio após a queda de Kei Nishikori, Dominic Thiem voltou a vencer a garantiu seu lugar nas quartas de final do Rio Open. Com o triunfo por 6/2 e 7/5 sobre Dusan Lajovic, o top 10 austríaco agora vai enfrentar o argentino Diego Schwartzman (#51). Thiem é favoritíssimo e será também se avançar às semifinais, afinal enfrentará o vencedor do jogo entre o qualifier Nicolas Kicker (#123) e o espanhol Albert Ramos Viñolas (#25).

O austríaco, aliás, é mais um descontente com as bolas da Head usadas no Rio de Janeiro. Assim como Jamie, Thiem disse que as condições estavam mais lentas na noite de hoje, mas reforçou que isso nada tinha a ver com as bolas. “A bola não muda. Se está um pouco mais lento e úmido, a bola não quica tão alto e não fica tão rápida, e é mais fácil de controlar. Se as condições forem como hoje, é mais fácil jogar.” A previsão, no entanto, é de dias mais quentes até domingo. Ou seja, bolas voando por toda parte.

O melhor da quinta-feira

Como era de se esperar, Thomaz Bellucci e Thiago Monteiro fazem o jogo mais esperado, fechando a programação da quadra central. Marcelo Melo e Bruno Soares, mais uma vez, estão escalados para a Quadra 1.

Vale lembrar: foi estabelecido antes do início do torneio que apenas a final de duplas será jogada na quadra central. Nas primeiras edições do torneio, até houve polêmica as duplas ficando fora da maior arena do Rio Open, mas com o tempo organizadores e atletas chegaram a um consenso de que seria melhor ter a modalidade na Quadra 1, menor e mais aconchegante.


Rio Open, dia 2: a recompensa pela adaptação de Thomaz Bellucci
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Alexandre Cossenza

Se não foi o melhor dos cenários, o sorteio para estrear contra Kei Nishikori nunca foi a mais azarada das possibilidades para Thomaz Bellucci (e eu falei sobre isso nesta análise para o Rio Open). Com uma atuação competente e taticamente (quase) impecável, o brasileiro mostrou que adaptação faz diferença. Chegou cedo ao Rio de Janeiro, acostumou-se à quadra central e às bolas. Estava afiado para a estreia. O japonês, que estava em Buenos Aires até segunda-feira, deixou nítida a diferença. No grande jogo do dia, Bellucci derrubou o cabeça 1 do Rio Open e avançou às oitavas de final por 6/4 e 6/3.

Só que a terça-feira carioca também teve uma bela virada de Thiago Monteiro sobre Gastão Elias, além de Dominic Thiem, cabeça 2, confirmando seu favoritismo sobre Janko Tipsarevic. O resumão do dia traz análises dos jogos mais importantes, o que rolou de bom nas entrevistas coletivas e o que esperar da quarta-feira, que estará cheia de duplas. É só rolar a página e ficar por dentro.

Bellucci preciso, paciente e empolgante

Thomaz Bellucci apostou na regularidade. Devolveu os saques de Kei Nishikori lá do fundão, colocou bolas em jogo e acreditou que a consistência seria recompensada. O japonês, que chegou ao Rio só na segunda-feira cansado de uma semana longa em Buenos Aires, deixou nítida sua falta de adaptação ao torneio carioca. Enquanto Bellucci alongava as trocas de bolas, Nishikori cometia erros e perdia a paciência.

Nishikori nem conseguiu aproveitar quando Bellucci desperdiçou a quebra de vantagem depois de abrir 40/0 no quarto game. O brasileiro continuou com o mesmo plano de jogo e foi recompensado, quebrando uma indesejável série de 22 derrotas diante de adversários do top 10. A última havia sido contra Janko Tipsarevic (então #8) em Gstaad/2012.

O tênis mostrado por Bellucci nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, foi um pouco do que todos gostam e sabem que ele pode jogar. Em vez de atacar o tempo todo e cometer pilhas de erros não forçados, conteve o instinto afobado, se defendeu bem e exigiu que o adversário fizesse uma boa partida para vencê-lo. Nishikori não conseguiu, e o paulista avança às oitavas de final para encarar Thiago Monteiro.

Nas coletivas, Nishikori, primeiro a aparecer, disse que as condições do Rio estão muito diferentes das de Buenos Aires e que nada deu certo no seu jogo. O japonês disse até que foi sua pior partida dos últimos anos e que, para ele, Bellucci nem fez um grande jogo.

“O quique é muito alto, e as bolas são muito pesadas. As bolas foram o mais difícil de me acostumar. Não consegui sentir nada. Não era meu dia. Não acho que ele também jogou um grande tênis.”

Bellucci concordou parcialmente. Disse que não foi o melhor jogo de sua vida, mas obviamente saiu contente com sua postura tática e com o resultado. E afirmou também que teve sua parcela de mérito pela noite ruim de Nishikori. Bellucci só não abriu o jogo quando foi indagado sobre os resultados dos sets disputados contra Monteiro nos treinos. Respondeu “Ah, não vou dizer” e sorriu. Depois, disse “é pau a pau” e riu um pouco mais, feliz da vida.

Um ano depois, um Thiago Monteiro mais “parte desse meio”

Não foi um começo de Rio Open para Thiago Monteiro. Em compensação, sobraram foco e esforço para superar os momentos delicados e bater o português Gastão Elias por 2/6, 7/6(4) e 6/4. O cearense perdeu o serviço nas duas primeiras vezes que sacou e viu um Elias mais sólido disparar na frente e fechar o set.

A segunda parcial já foi bem diferente, o Monteiro confirmando com mais facilidade, só que ainda faltava ameaçar o serviço do português. O cearense, então, se viu em um momento delicadíssimo quando sacou em 3/4 no tie-break. Mesmo assim, jogou dois pontos com o segundo serviço e se safou. Elias, que errou por centímetros uma direita que lhe daria um mini-break, acabou vacilando em seguida. Foi aí que o jogo mudou de vez.

No set decisivo, Monteiro quebrou Elias no terceiro game. O português, frustrado com as chances perdidas (também perdeu três break points no segundo game do terceiro set), atirou a raquete no chão, discutiu com o público e viu a banda passar. Ainda teve pequenas chances, mas nada concreto.

Na coletiva, Monteiro, um ano depois do triunfo sobre Jo-Wilfried Tsonga que praticamente iniciou sua ascensão rumo ao top 100, falou sobre como é mais reconhecido pelos adversários e o quanto isso faz bem à sua carreira.

“Eu tenho treinado mais com eles, conhecido melhor alguns. É bom ter essa relação, poder marcar um treino em algum lugar específico também. Isso tem sido um fator importante, é legal ter esse reconhecimento. Eu me sinto cada vez mais fazendo parte desse meio, então isso é importante para mim.”

Thiem em seu habitat preferido

As condições são ideais e, mesmo sem estar (ainda) tão à vontade no Rio de Janeiro, Dominic Thiem mostrou por que é favorito ao título do evento – ainda mais agora, após a eliminação de Nishikori. O austríaco ficou bem confortável muito atrás da linha de base, usando a velocidade da quadra e o quique das bolas pesadas para se impor diante de Janko Tipsarevic por 6/4 e 7/5.

Os coadjuvantes (por enquanto?) de luxo

Do jeito que a organização precisou encaixar os jogos, a Quadra 1 foi palco de três jogos bastante interessantes. Primeiro, Fabio Fognini bateu Tommy Robredo por 6/2 e 6/4. Depois, Pablo Carreño Busta eliminou Feijão por 6/3 e 6/2. Por último, Alexandr Dolgopolov aumentou a fase ruim de David Ferrer ao aplicar 6/4 e 6/4.

Ferrer agora soma três derrotas consecutivas e um retrospecto total de três triunfos e cinco reveses em 2017. O espanhol, que chegou ao Rio falando que estava sendo difícil se acostumar a perder com mais frequência do que o habitual, acaba amargando mais um resultado negativo.

Dolgopolov, por sua vez, soma sua sexta vitória seguida. O ucraniano, campeão em Buenos Aires, bateu Tipsarevic, Cuevas, Gerald Melzer, Carreño Busta, Nishikori e Ferrer no período. Uma sequência invejável e que o coloca como sério candidato ao título no Rio, já que Dolgo não teve os mesmos problemas de adaptação que Nishikori – ou, pelo menos, não sofreu com a mesma intensidade.

Duplas: o melhor da quarta-feira

O terceiro dia do Rio Open não tem lá uma programação das melhores para a quadra central, mas compensa com uma empolgante Quadra 1, com brasileiros em todos os jogos. Além dos times de Bruno Soares e Marcelo Melo, que são cabeças de chave 1 e 2, Bellucci e Monteiro jogam juntos antes de seu duelo nas simples, e André Sá tenta deslanchar na temporada 2017.


Rio, dia 1: Três jogos, três zebras e uma homenagem (quase) sem público
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Alexandre Cossenza

A edição de 2017 do Rio Open começou com uma programação que pouco empolgava na quadra central, mas que acabou com resultados interessantes. Nas três partidas marcadas para a maior arena do complexo, o azarão venceu. O primeiro deles foi o wild card Casper Ruud. Em seguida, o qualifier Arthur De Greef. Por último, o também qualifier Robert Carballés Baena.

As maiores atrações, no entanto, foram guardadas para a terça-feira. Tanto Kei Nishikori quanto Dominic Thiem, os dois principais cabeças de chave, vão estrear na segunda jornada. O mesmo vale para os brasileiros Thomaz Bellucci e Tiago Monteiro, que também estarão na quadra central. Até lá, no entanto, deixo com vocês o resumão do primeiro dia.

Rogerinho derrotado

O dia começou com uma derrota brasileira. Rogério Dutra Silva tombou diante do adolescente norueguês Casper Ruud (o rapaz da foto no alto do post), de 18 anos, atual número 208 do mundo: 6/3 e 6/4. Não foi um dia em que as coisas deram certo para Rogerinho, que não conseguiu sair de uma postura defensiva durante a maior parte do tempo no saque o adversário. Ruud, que entrou na chave graças a um convite da organização, esteve bem no serviço o tempo inteiro e deu pouquíssimas chances.

Após o jogo, Rogerinho disse que nunca se sentiu cômodo em quadra e que, sempre que achava que ia “entrar” no jogo, algo acontecia a favor do oponente. De fato, Ruud foi quase sempre preciso nos pontos importantes. Quando não foi, contou com uma pitada de sorte. E assim o convidado do torneio, agenciado pela IMG, avançou para a segunda rodada.

O campeão que perde 500 pontos

Pablo Cuevas foi a decepção do dia. Não só pelo resultado – porque o qualifier Arthur De Greef, #138 – mas pela atuação. O uruguaio, campeão dos dois ATPs brasileiros em 2016, esteve errático e vacilante em momentos importantes. Até parecia o tenista mais sólido em quadra no início do terceiro set, mas foi dando cada vez mais chances ao belga com o passar do tempo.

O game final foi uma síntese do que Cuevas mostrou em todo jogo. Abriu 40/15, cometeu uma dupla falta no 40/30 e perdeu um ponto fácil junto à rede quando teve mais um game point para forçar o tie-break. De Greef errou menos quando importava mais e terminou vitorioso por 6/3, 3/6 e 7/5.

A homenagem para quase ninguém

No meio da sessão noturna, o Rio Open manteve sua tradição de homenagear grandes nomes da história do tênis brasileiro. Nesta segunda, talvez para compensar a ausência do torneio feminino (até ano passado, o evento tinha um torneio da série International da WTA), o torneio prestou homenagens a Andrea Vieira, Gisele Miró, Patrícia Medrado e Teliana Pereira.

A lamentar, apenas, o minúsculo público que estava em quadra durante a pequena cerimônia. Não que a quadra central estivesse lotada para o jogo de Pablo Cuevas e Arthur De Greef, mas quando a homenagem começou, muitos espectadores que saíram (para banheiro, comida, etc.) ainda não haviam retornado à arena. Uma pena que tenha sido assim. Talvez tivesse sido uma ideia mais interessante fazer a homenagem na terça-feira, quando jogam Nishikori, Thiem, Bellucci e Tipsarevic. Certamente haveria mais gente nas arquibancadas.

A ressaltar: Niege Dias e Claudia Monteiro estavam na lista de homenageadas, mas não compareceram. Todas as cinco foram top 100.

Sousa também dá adeus

Se havia pouca gente na Quadra Gustavo Kuerten durante a homenagem, havia menos ainda quando João Sousa e Roberto Carballés Baena entraram para o último jogo do dia, pouco antes de 22h. E os bravos gatos pingados que nem foram recompensados com um belo jogo. Sousa, o mais cotado, jogou bem abaixo de seu melhor tênis e foi abatido por 6/3 e 6/1.

Kei Nishikori cansado

O japonês chegou hoje ao Rio – jogou e perdeu a final do ATP 250 de Buenos Aires no domingo) – e foi praticamente direto para a sala de entrevistas coletivas. Em seu inglês limitado, Nishikori afirmou que talvez vá curtir o carnaval se ganhar. O japonês admitiu que está cansado, mas falou que está “fisicamente okay”. Resta saber se será o bastante para entrar em quadra e confirmar seu favoritismo contra Thomaz Bellucci, que está descansado e mais adaptado à quadra central.

Nishikori também afirmou que será uma partida difícil. “Ele é um grande jogador no saibro, especialmente aqui eu sua cidade natal [na verdade, Bellucci é paulista]. Definitivamente, é um jogo duro. Jogamos na França a última vez e foi uma boa batalha. Estou esperando uma batalha dura desta vez.”

Dominic Thiem em cima da hora

Thiem nem foi tão longe assim no ATP 500 de Roterdã, na semana passada (caiu nas quartas diante de Herbert), mas também chegou ao Rio em cima da hora. O austríaco chegou falando da mudança de fuso horário e de piso (Roterdã foi em quadra dura), mas afirmou mais uma vez o quanto gosta de jogar no saibro. Ele enfatizou, inclusive, que se é para jogar em condições extremas como no Rio, quente e úmido, é melhor fazer isso na terra batida do que no piso sintético.

No dia 2

Pode muito bem ser o melhor dia de todo o torneio, com Thiago Monteiro, Kei Nishikori, Thomaz Bellucci, Dominic Thiem e Janko Tipsarevic na quadra central. Além disso, a Quadra 1 também é uma ótima opção, com Robredo x Fognini, Feijão x Carreño Busta e Ferrer x Dolgopolov. As duplas de Marcelo Melo e Bruno Soares ainda não estrearam e devem aparecer só na quarta.


Tipsarevic: ateu, questionador e irônico até nas tatuagens
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Alexandre Cossenza

Janko Tipsarevic não é um tenista comum. Ele pensa, fala e age diferente. Hoje com 32 anos, o sérvio já foi descrito como alguém que mais se assemelha a um professor universitário de filosofia do que a um tenista “comum”. Os óculos ajudam a dar essa impressão. A tatuagem no braço esquerdo, uma citação de um livro de Dostoiévski, reforça.

Não que os feitos tenísticos de Tipsarevic sejam ''comuns''. O sérvio foi top 10 em 2012 e acumulou mais de US$ 7 milhões ao longo da carreira. Quando sofreu sérias lesões que surgiram cerca de três anos atrás, poderia ter se aposentado com seus livros de filosofia. Preferiu passar por quatro cirurgias (duas no pé esquerdo, uma no joelho direito e um implante de células-tronco no tendão do mesmo joelho) e voltar. No período, ficou sem jogar por 18 meses. Retornou, jogou cinco meses e parou por outros nove.

O Rio Open, depois de dois resultados frustrantes em Quito e Buenos Aires, é o próximo passo desse retorno. Atual número 94 do mundo, Tipsarevic recebeu um wild card para o ATP 500 carioca e conversou comigo neste sábado, antes de saber que enfrentaria Dominic Thiem, cabeça de chave #2, na estreia. O papo foi … filosófico. Conversamos sobre os lados bom e ruim das sensações que o tênis desperta. Também falamos de Dostoiévski (ele falou, na verdade) e, brevemente, sobre moda – sua esposa é uma conhecida estilista. E, por fim, falamos de sua expectativa para o Rio Open.

A íntegra da entrevista está abaixo e espero que vocês curtam tanto quanto eu gostei de fazê-la.

Você já fez bastante no tênis e está bem resolvido financeiramente, casado e com uma filha, fora de quadra. Depois de duas lesões sérias e tanto tempo sem conseguir jogar, por que insistir?

Os problemas no meu corpo começaram quando eu tinha 29. Aposentar com 29 ou 30 anos, nesta época, eu acho que é cedo demais. Foi-se o tempo em que tenistas se aposentavam com 30. Muitos de nós estamos cuidando melhor de nossos corpos para que as carreiras sejam mais longas. Claro que existe um aspecto financeiro e todo mundo gosta de dinheiro, mas para mim não é isso. O que eu já ganhei investi inteligentemente, então a principal razão para eu voltar é acreditar que ainda posso jogar tênis. Vou ter o resto da vida para fazer outras coisas, mas eu posso jogar apenas mais duas, três ou quatro vezes em Wimbledon na vida inteira. Depois, nunca mais. O motivo principal é querer jogar mais tênis.

Sem tentar já ser muito filosófico, mas sempre gosto de perguntar a tenistas o que é que eles gostam mais no tênis. É a pressão de jogar um 30/40, um break point ou…

Não. Odeio! (risos de ambos) Não acho que exista uma pessoa que goste. Existem pessoas que lidam com isso melhor do que outras, mas não acho que ninguém goste dessa sensação nervosa antes de um jogo importante ou algo assim. Na quadra, você sente isso muito menos. É claro que às vezes você sente a pressão. Gosto um pouco de tudo no tênis. Tem o lado ruim e o lado bom. Se eu não jogasse tênis, não teria a chance de visitar todos esses lugares incríveis. Por outro lado, você está longe de casa, da família, da esposa e da filha.

É um equilíbrio difícil de encontrar…

É difícil de equilibrar. Por outro lado, sei que é um clichê e centenas de jogadores te disseram a mesma coisa, mas eu adoro jogar o jogo. Adoro competir. E mesmo com as partes ruins, no fim das contas é o que você ama fazer. Se você não ama, se você não consegue lidar com a pressão e o nervosismo, você precisa de aposentar.

Só para aproveitar o mesmo exemplo, quando você diz que não gosta de jogar um 30/40, a sensação é proporcionalmente inversa se você ganha esse ponto, não?

Durante a partida, acho que não se tem essas sensações. Mesmo nas quadras centrais, você não aprecia de verdade esses momentos até acabar a partida.

E se você ganha, né?

E se você ganha! Ou até mesmo se você perde. É aí que você tem a chance de admirar o que apreciar de verdade o que aconteceu nas últimas duas, três ou quatro horas. Porque o esporte é tão intenso que você não tem muito tempo para comemorar ou viver no momento de um belo winner em um ponto importante de uma partida. O ponto seguinte começa em 25 segundos ou você leva um point penalty. A boa sensação que tenho com o esporte é absorver toda a boa experiência depois que partida acaba. Depois de todo o drama. Sei que parece muito dramático na TV ou na arquibancada e que parece que estou me divertindo quando estou jogando bem, o que obviamente eu faço, mas o prazer de verdade vem quando tudo acaba. É aí que você consegue relaxar pelo menos por um dia ou dois e ver o que você realizou.

Muito se escreve que você gosta de ler sobre filosofia e…

(interrompendo) Eu costumava.

Sei que você diz que não se acha mais inteligente do que ninguém por ler sobre o assunto, mas é uma pergunta meio pessoal porque já li um bocado desses livros na faculdade e nenhum me interessou bastante. O que é que te atraía neles?

Embora minha família seja muito religiosa, eu sou ateu por natureza. No momento da minha vida em que eu estava lendo esses livros, eu era muito jovem para entender de verdade. Eu tinha 21, 22, 23 anos.

É uma época em que se questiona muitas coisas…

Eu questionava, mas não era um questionamento inteligente. As pessoas dizem e acredito que é verdade… O mesmo livro, se você ler a cada cinco ou dez anos, ele te deixa uma impressão completamente diferente. Então é diferente se você tem 25, 35 ou 45. Acho que é porque você tem experiências diferentes em partes diferentes da sua vida. O que me atraiu a esses livros foi… O que é filosofia? Não é a verdade. É a busca constante pela verdade. E o fato de que não só o livro, mas a humanidade por si própria está o tempo todo mudando e evoluindo, e a ciência está sempre se questionando e nunca dizendo “isso é verdade” porque daqui a dez anos aquilo pode mudar.

Tudo está mudando o tempo todo…

É por isso que hoje gosto de ler sobre sociologia moderna . É mais sobre relações humanas. Todos esses escritores que eu gostava de ler, como Nietzsche ou Schopenhauer… No fim da estrada, sempre existe dor, sempre existe tristeza, sempre existe escuridão. Não existe emoção como esperança ou crença ou nada do tipo porque não está no cérebro filosófico usar essas expressões para provar alguma coisa. E, na minha opinião, [a filosofia] não combina com o tênis porque embora o esporte seja muito complicado, você precisa simplificar as cosas e até acreditar em algumas coisas que talvez não sejam possíveis naquele momento. É preciso ter esperança por um futuro melhor e ter a esperança de que fazer e acreditar nas coisas certas vai levar a um futuro melhor. É por isso que não acredito que a filosofia “case” bem com o tênis.

“A beleza vai salvar o mundo” (frase que Tipsarevic tem tatuada no braço esquerdo). O significado disso mudou para você com o tempo?

Não. Não tem nada a ver com o tênis. É uma frase de um livro de Dostoiévski chamado “O Idiota”. Na verdade, é uma ironia do livro, onde o personagem principal, Michkin, acredita que a beleza vai salvar o mundo. No livro, isso significa que ser bom para outras pessoas vai fazer outras pessoas serem boas com ele, mas por causa dessa crença, ele morre no fim.

Você vive seguindo essa crença?

Eu, não. Eu, não. Na verdade, eu acho que ser bom para os outros é uma virtude. Embora eu seja ateu, eu pratico a regra de “não faça aos outros o que você não gostaria que os outros fizessem a si mesmos”. Mas a ironia do livro é que ele [Michkin] estava cegamente tentando ser bom para todo mundo e ser bonito para todo mundo porque isso salvaria o mundo se todos os outros fossem assim. Infelizmente, na sociedade em que vivemos, não importa de onde sejamos, não é assim que funciona. É preciso ser um pouco mais cuidadoso.

Mudando de assunto, sua esposa é estilista. Além de ser personagem de alguns ensaios, você se envolve, se interessa por moda, ajuda a desenhar algo?

Em termos de desenhar, não. Em termos de decidir um caminho até onde não só ela, mas nós como família queremos estar daqui a dez anos. São decisões de carreira. É nisso que ajudo. Mas decidir se algo deve ser branco ou preto ou o que seja, não. Não sou um guru da moda nem nada parecido. Ela às vezes pede minha opinião e digo o que acho, mas usei casacos de atleta a vida inteira. Ela diz que eu tenho um bom olho para decidir se algo está certo ou errado, mas talvez ela só esteja sendo simpática comigo. Em termos de tomar decisões, não sirvo de guia de modo algum. É um ramo traiçoeiro. Você ganha muito dinheiro, mas você também pode perder não só muito, mas tudo que você conquistou nos anos anteriores…

E muito rápido!

E muito rápido. É um negócio muito traiçoeiro. É por isso que eu tento ajudá-la a tomar decisões inteligentes no começo da carreira – até mesmo sacrificando algum lucro agora, mas por um bem maior. Com sorte, dentro de dez, 15 anos, uma renda alta vai começar a entrar.

E você pede conselhos sobre o que vestir?

Eu peço, eu peço.

E existe algo que ela recomende que você não gosta de vestir?

Ela gosta que eu me vista bem demais às vezes, o que eu não concordo. Não estou falando de paletós, mas digamos que ela goste de camisas de cores vivas, o que eu não gosto de forma geral. Eu me visto de maneira muito simples porque visto roupa de atleta a vida inteira, então esse é o única discordância que temos. No fim das contas, eu faço o que ela diz (risos).

É uma decisão inteligente.

Esposa feliz, vida feliz.

#whatsuprio #riodejaneiro #keeppushing #atpworldtour @atpworldtour @tipsarevicjanko @castjf

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Para terminar, um pouco de tênis. Como você está fisicamente hoje?

Estou me sentindo muito bem.

Não vi seu jogo contra o Dolgopolov em Buenos Aires, mas…

(interrompendo) Que bom que você não viu [Tipsarevic foi derrotado por 6/3 e 6/3]. (risos)

Mas eu vi seu jogo contra Bellucci em Quito. Mas Quito não é bem tênis. É algo que lembra tênis, mas muito diferente, não?

Acredito que em Quito, depois de Victor Estrella Burgos, Bellucci é o pior cara para se enfrentar. Eu gosto de altitude, mas esses dois caras são conhecidos no circuito por somarem a maior parte de seus pontos em Gstaad, Quito e esses torneios malucos. Mas eu errei ao não ir para Buenos Aires mais cedo. Eu decidi ficar em Quito e trabalhar no meu condicionamento por causa da altitude e cheguei em Buenos Aires no domingo à tarde. Por sorte, meu jogo foi só na terça, mas choveu no domingo e na segunda. E antes do jogo contra Dolgopolov, eu nem consegui me aquecer porque estava chovendo. São pequenas desculpinhas bobas, mas vindo de 2.800m de altitude e sem jogar outdoor por dois dias, enfrentar um adversário bom…

Que não dá ritmo nenhum!

Não. Eu senti que estava jogando bem, em forma e tudo mais, mas ele me matou.

E o que você espera do Rio Open, além de uma chave melhor, é claro? (a entrevista foi antes do sorteio da chave, que aconteceu na noite de sábado)

Eu gostaria de jogar contra alguém e que eu possa jogar algum tênis. Estou na América do Sul há três semanas, treinei bem por uma semana e na primeira rodada em Quito venci por abandono. Depois, contra Thomaz, não foi tênis de verdade. Foi luta uma por sobrevivência, colocando a bola na quadra de algum modo. E por 1h03min joguei contra Dolgopolov um total de seis pontos com mais de cinco golpes.

Só seis?

Seis pontos com mais de cinco golpes! E ganhei todos os seis (risos). Então o que espero é jogar contra alguém que jogue tênis de saibro. Eu não me importo. Quer dizer, não é bem verdade. Não quero jogar contra Nishikori ou Thiem, mas tudo bem. Me deem alguém contra quem eu consigo jogar algum tênis.


Bruno Soares: vaidade, implante capilar e mais de quatro anos de tênis
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Alexandre Cossenza

Demorou um pouco mais do que o habitual, mas finalmente chega o momento de publicar o entrevistão anual com Bruno Soares. Quem lê o Saque e Voleio sabe que com o mineiro há sempre material interessante – desde sempre. A conversa deste ano foi um pouco diferente. Falamos de tênis, claro, mas também conversamos bastante sobre o implante capilar a que o mineiro se submeteu há pouco tempo. Bruno ainda anda de boné por toda parte porque evitar o sol é uma das precauções pós-operatórias.

O descontraído papo é sobre vaidade, temores e decisões, mas se você só quer ler sobre tênis, tem assunto para você também. Bruno lembra dos momentos marcantes de 2016, fala da sensação de começar o ano como dupla a ser batida, compartilha os planos para a carreira e avalia a chance de mudanças no circuito de duplas em breve. Tem assunto para todos os gostos. É só rolar a página…

A gente faz essas entrevistas desde 2012, se não me engano. Na primeira delas, seu objetivo era classificar pra Londres. Mais tarde, era ganhar um slam de duplas masculinas. Hoje, você já tem dois slams de duplas, três de mistas, terminou 2016 como dupla #1 do mundo, tem um filho, está bem casado e – dizem – bem de dinheiro. Qual a motivação pra continuar jogando com 34 anos, a dez dias de completar 35?

Tenho alguns objetivos ainda. O número 1 do ranking “individual” é um deles. A medalha olímpica é outro. Ganhar o Rio Open, outro. Tem um bocado de coisa ainda que eu posso conquistar, mas o principal disso tudo é que eu ainda amo jogar tênis. Acho que esse é o mais importante. Independentemente de objetivo e coisas que você quer alcançar, quando o prazer de ficar duas horas no sol acabar, aí a luzinha vai começando a apagar e aí é hora de repensar a carreira. Acho que isso é o principal. Os objetivos a gente vai traçando para ter um norte, para rumar naquela direção e conquistar. Eu, felizmente, venho conquistando a grande maioria das coisas que eu venho traçando, e espero… Quem sabe mais cinco grand slams nos próximos quatro anos? Tô feliz da vida!

No fim de quatro temporadas, você vai estar com 39?

É. Na próxima Olimpíada, eu estou com 38.

É essa conta que você faz agora? Jogar pelo menos até Tóquio 2020?

É essa conta. Em Tóquio, eu quero estar com certeza. Depois disso, vamos ver como estou de ranking, físico, vontade e tudo mais. Mas acho que me surpreenderia eu parar por minha vontade antes de Tóquio. Eventualmente, se o nível cai, você não aguenta tanto torneio, e uma série de coisas que podem acontecer nessa jornada, mas por vontade minha, estando bem ranqueado e jogando bem, acho muito difícil.

O ano passado começou muito bom, com dois slams (duplas e mistas) na Austrália, terminou como número 1 com um slam em Nova York, e no meio disso teve a medalha que não veio e o número 1 “individual” que escapou por um jogo. Foi uma temporada de altos muito altos e – não sei se baixos muito baixos, mas de sensações muito intensas?

De sensações, sim. Quando você tem um ano olímpico como no ano passado, no Rio, e juntando com as coisas que a gente conseguiu conquistar e estando muito perto do número 1, acho que foi um ano de grandes emoções. A gente pode definir assim. Umas, muito boas. Outras que acabaram muito perto de eu conquistar. É o que eu falo sempre. Quem está no circuito e está acostumado a jogar 25, 26, 27 torneios no ano e tem um torneio de uma semana que é a Olimpíada, todo mundo sabe que a variável é enorme. Você chega lá um dia, o cara mete uma bola na linha, você acorda mais ou menos… É um tiro que você tem. É cruel! Nesse esportes que vivem da Olimpíada, é muito cruel com a turma. O cara se prepara quatro anos, de repente ele acorda e está ventando… acabou!

E aí são mais quatro anos para tentar de novo.

Mais quatro anos para tentar de novo! O cara não tem circuito. Acabou. Isso que é o cruel das Olimpíadas. E a gente… Se você tem o sonho de conquistar a medalha olímpica, é a mesma coisa. É cruel também. Batemos na trave em Londres, batemos na trave no Rio, vamos tentar de novo em Tóquio.

Eu ia perguntar que sensação tinha sido mais doída, mas pelo que você falou, não conquistar a medalha foi muito mais forte do que o número 1 que não veio…

Acho que Olimpíadas, cara. Justamente por isso. Aquilo ali, a gente estava num momento muito bom, a gente estava na briga… Hoje eu estou mais longe do número 1. Perdemos dois mil pontos da Austrália, para chegar no número 1 é um processo de novo, mas a gente estava na boa. E Olimpíada é o que eu te falei. Você perde nas quartas, acabou. Quando é a próxima? Tóquio 2020. Você fala “puta merda”, acabou. É porque você faz muita coisa pelas Olimpíadas. São dois anos que a gente estava no planejamento. Tudo que a gente faz é pensando em Olimpíadas. Em tudo que a gente montou, as Olimpíadas estavam envolvidas também. Você passa um tempo muito grande martelando aquilo ali. Obviamente, é um negócio completamente diferente. Você tem vila olímpica, cerimônia de abertura, tudo aquilo, e quando acaba, você fala “acabou”. Mais quatro anos agora. Senta e espera.

E qual foi o alto mais alto? Aquelas 16 horas de Melbourne quando você tomou 12 xícaras de café? (Bruno foi campeão de duplas e mistas em dias consecutivos)

Acho que foi. Estou tentando comparar com o número 1, que foi do caralho também, mas aquele fim de semana de Melbourne foi algo. Porque foi meu primeiro grand slam de duplas masculinas, da forma que aconteceu… A gente acabou de madrugada, não consegui dormir, naquela pilha, adrenalina, entrevista, aquela loucura… E você para pra pensar, “o que você tem amanhã? Outra final de grand slam!” Então foi um negócio meio doido, na base da adrenalina mesmo. Pouquíssimos jogadores conseguiram ganhar dupla e dupla mista no mesmo torneio. Consegui colocar meu nome num lugar muito seleto e muito especial.

Você já falou bastante sobre o motivo do sucesso da parceria com o Jamie. O que acho interessante é que vocês ganharam em Melbourne, quando as duplas ainda estavam se encontrando, e ganharam de novo em Nova York, quando todo mundo já sabia quem era quem. E agora, começar o ano como #1, como umas das duplas a serem batidas, está sendo muito diferente?

Acho que eu vivi muito isso com o Alex [Peya]. A gente não ganhou um slam, mas se firmou como uma das melhores duplas do mundo muito rápido. Em 2012, a gente começou bem. Já saímos ganhando dois 500. A turma já tinha a gente como uma referência das duplas mais fortes. Obviamente, com o Jamie foi um negócio de ganhar dois grand slams, terminar número 1… Mas eu acho que de uma forma geral, é resultado do que a gente faz. Independentemente do resultado das duplas, a gente está estudando. O Alan [MacDonald, técnico de Jamie Murray], o Hugo [Daibert, técnico de Bruno] e o Louis [Cayer, técnico da federação britânica] vão lá e fazem vídeo, falam para a gente. A gente assiste aos jogos juntos depois. Eu acredito que os outros também estão fazendo, anotando. “O Bruno gosta da sacar ali, essa é a principal jogada deles.” Esse tipo de coisa todo mundo está fazendo. Aí é a hora que entra a qualidade do jogador de variar, se inventar. É a parte mental do jogo. O cara acha que eu vou sacar ali; eu sei que se eu sacar lá, ele vai bater ali. Então fica aquele negócio de quem vai fazer o que primeiro.

Agora, mudando de assunto, o que o pessoal comenta, mas anda meio sem graça de te perguntar… Você fez implante (de cabelo)?

Eu fiz! Vergonha zero de falar! Estou de boné o tempo inteiro porque não posso tomar sol. Eu tinha ido no médico no fim do ano, mas tem um processo que exige que você fique dez dias parado. É muito complicado pra mim. Quando eu machuquei [no Australian Open], liguei para essa médica, Dra. Maria Angélica Muricy, que está sempre com a agenda lotada, e falei. Eu chegava segunda à noite no Brasil. Quarta era feriado em São Paulo. Ela falou “eu não opero feriado e fim de semana, mas vem que eu te opero na quarta-feira.” Ela é nota 1000.

Como funciona isso?

Essa técnica chama “fio a fio”. Você coloca, o cabelo cresce um pouquinho, e em 25, 30 dias, esse cabelo cai. E aí em três meses, nasce o cabelo definitivo. Não, não tenho vergonha nenhuma! Até porque eu era careca, agora não sou mais! (risos) Não posso negar, né? Se o cara pergunta “você fez implante?”, não posso dizer “não, cresceu do nada!” (mais risos de ambos)

Cidade maravilhosa #rio #rioopen

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Mas estava te incomodando visualmente?

Não vou dizer que sou zero vaidoso porque fiz essa parada, mas não tenho vergonha nenhuma de comentar. Mas o que aconteceu? Foi de uma hora para a outra! Eu nunca me incomodei pelo fato de estar ficando careca. Acho que ano passado eu apareci muito na TV e me vi muito e comecei a falar “eu tô careca pra caralho, velho.” Eu, pelo menos, senti isso, que fiquei muito mais careca no ano passado. Entrou demais e tal. Aí estou batendo papo com o Márcio [Torres, empresário], conversando sobre implante, mas o Márcio é cabeludo, não sabia nada. Mas o [pessoa cujo nome foi omitido em nome da amizade], que é nosso amigo, fez. Não sei nem se devia falar o nome dele porque ele pode estar escondendo. Aí mandei um WhatsApp pro cara. Ele falou “velho, zero dor, técnica nova”, e ele me explicou. Marquei uma consulta e, realmente, agora é uma técnica que você tira de trás, implanta na frente. Zero cicatriz, zero dor. É muito mais fácil.

Você então não sofreu bullying nem tem trauma de infância? Nada mesmo?

Zero, zero! Sabe por que eu animei? Porque quando eu falei com o [amigo], ele disse “zero dor”. Aí eu me animei. Fui lá, ela me explicou o processo e falei “ah, vou fazer essa porra antes que eu fique careca completamente.” Mas com quem quiser falar do implante, eu falo abertamente. Nunca tive trauma. Tanto que eu não sabia de nada [sobre o assunto antes do procedimento].

E a Bruna (esposa), o que achou?

A Bruna nunca falou um “a”. Quando eu voltei, ela perguntou, eu falei “vou operar.” Ela falou “o quê??? Não vai me consultar?” Não, já decidi, o trem é simples, vou fazer. Para ela, não muda nada com ou sem cabelo.

Pergunto porque vocês estão juntos há muito tempo, então ela acompanhou todo processo de queda, né?

Ela foi acompanhando o processo, mas quando você convive o tempo inteiro, a pessoa vai “carecando” e você vai acostumando. Você não toma um choque. Não é um cara que me viu com 18 anos e depois só me viu com 34. O cara olha e diz “ele tá carecaço.” Mas se você me vê todo dia, vai acostumando com aquela imagem visual. Mas ano passado me incomodou. No ATP Finals, tinha uns pôsteres enormes que eu olhava assim e falava “tô muito careca!” Mas aí, na conversa com o Márcio, quando ele disse que o [amigo de identidade preservada] fez… Essa técnica nova é outro nível.

Falemos de política um pouco pra fechar… O Andy Murray assumiu a presidência do Conselho dos Jogadores, e um dos primeiros assuntos que ele levantou foi o circuito de duplas. Principalmente o sign-in on-site (quando tenistas se inscrevem no torneio em cima da hora, pouco antes do fim do prazo para o fechamento)…

O lance do sign-in é muito complicado. Por que que existe o sign-in on-site?

Por causa deles, os simplistas, né?

Por causa deles. Mas por que que o Andy viu isso [Andy Murray reclamou do procedimento quando jogou o Masters de Paris em 2015]? Porque ele estava jogando com o [Colin] Fleming, então ele estava na boca do gol [correndo o risco de não entrar na chave por causa do ranking combinado]. Se ele estivesse jogando com o Ferrer, ele assinava e podia ir para o hotel dormir que ele ia entrar. Como ele precisava de conta, ele viu a loucura que é em cima da hora. Mas o sign-in foi feito para esses caras. Os caras que vão entrar mesmo… Ah, o Federer vai assinar com o Wawrinka. Ele assina e vai embora porque vai entrar. Os caras que estão na boca do gol é que ficam naquela loucura. E tem muita que é duplista e precisa entrar.

Como é essa loucura?

Eu vou assinar com você. Deu dois minutos, ele assinou. Deu três minutos, fulano assinou. Aí você tem que mudar. Eu já não estou mais com você porque senão a gente não entra. Então eu vou jogar com esse fulano…

Pode mudar depois que assina?

Pode! Rabisca e assina com outro. Acontece esse troca-troca. Mas é normal. É o seguinte: ou a gente faz tudo “advanced”, ou seja, inscreve no sistema e ninguém vê, igual nas simples, que era o formato mais normal, mas esse formato vai, de certa forma, fazer com que os jogadores de simples tenham que se programar. O Andy tem um ponto muito bom, que é organizar a situação. Todo mundo concorda. Mas tira uma das vantagens do on-site, que é atrair mais jogadores de simples de última hora.

E qual é o prazo pra inscrição de vocês?

Duas semanas. A grande maioria já está se programando. E hoje tem muito jogador de simples jogando dupla. Esses caras, antes, não se programavam. De uns dois anos para cá, isso mudou. Tirando o top 10, eles se programam. E o [Dominic] Thiem não assina on-site. Ele se programa.

E outra coisa que foi levantada, também por alguns duplistas, foi o formato da pontuação. Há um movimento ainda pequeno para que volte a pontuação anterior. Você acha possível?

Pela galera que joga e vive disso, com certeza mudaria. Mas uma das coisas que eu vejo que evoluiu muito foi trazer os jogadores de simples. Isso aconteceu. Todo torneio grande tem três, quatro top 10 e oito ou nove top 20. Mais do que isso, não dá. E tem a coisa de quadra central, mas isso está mudando. Eu até nem acho legal ter a dupla na quadra central, dependendo do torneio. Eu briguei muito por isso [no Conselho], pela possibilidade de a pessoa poder ver seu jogador favorito. A gente tinha um gap muito grande, que era só mostrar a quadra central. Com o stream, isso vai mudar. O torcedor vê quem ele quer, não quem só está na TV. Sobre o formato, acho que a mudança pode acontecer, mas principalmente da parte dos torneios, existe uma luta muito grande contra isso. Voltar ao normal, quase impossível. Mudar um pouquinho, eu vejo possível. Ou acabar o super tie-break ou acabar o no-ad, jogar dois sets normais e um super tie-break. Acho que vai ser coisa de experimentar e ver o que funciona melhor.


Caricaturas no Rio Open
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Alexandre Cossenza

O Rio Open deu de presente a todos tenistas tags (para malas, bolsas, raqueteiras e afins) com suas caricaturas. É uma lembrancinha a todos atletas que estão na chaves principais de simples e duplas do ATP 500 carioca.

As imagens são bem bacanas. Vi algumas e reproduzo abaixo. Acho até que ficariam bacanas se a galera imprimisse em tamanho real e levasse para a quadra central do Jockey Club Brasileiro. Vejam:

Volto amanhã com uma entrevista reveladora com Bruno Soares.


De Bellucci a Bouchard: um brasileiro na elite da preparação física
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Alexandre Cossenza

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Cerca de seis anos atrás, Cassiano Costa deixou de ser preparador físico de Thomaz Bellucci. Foi pouco antes disso que conversamos pela última vez – em fevereiro de 2011, quando o tenista queria ganhar massa muscular. A chegada do técnico Larri Passos, no entanto, fez a carreira de Costa tomar outro rumo.

Hoje, o paulista de 40 anos é um dos profissionais da preparação física mais conceituados do mundo. Depois de três anos a serviço da IMG, empresa que gerencia a carreira de vários tenistas de elite, Costa agora é preparador particular de Eugenie Bouchard, ex-top 5 e considerada um dos maiores talentos do tênis atual – são os dois na foto acima, a propósito. A canadense teve lesões em 2015 e 2016, ocupa hoje o 44º posto na lista da WTA e agora busca dar um fim aos problemas físicos para voltar a subir no ranking.

O brasileiro é peça fundamental nessa engrenagem. Cassiano Costa ajudou a desenvolver uma bebida especial para “Genie” se hidratar e vem fazendo a atleta ganhar massa muscular. A canadense confia tanto em seu trabalho que paga excesso de bagagem em todas viagens só para que Costa leve todo seu equipamento especial.

Batemos um papo por Skype sobre um pouco de tudo. Continuamos de onde “terminamos”, com o fim da parceria com Bellucci, falamos de sua passagem pela IMG e do atual período com Bouchard, mas também falamos de tênis em geral. Do que faz gente como Federer, Djokovic e Nadal se distanciar do resto, de como montar calendários e de quanto as exibições de fim de ano pesam (ou não) na integridade física de atletas da elite. A íntegra está abaixo:

Vamos começar por onde terminou a nossa última conversa, que foi no Brasil Open, quando o Larri estava começando o trabalho com o Thomaz. Naquela época, muita gente dizia que o Larri preferia trabalhar sozinho e você não ficaria na equipe. A sua saída (em abril) pegou de surpresa?

O pessoal falava isso já. O Larri é uma pessoa legal pra caramba, uma pessoa fantástica e um profissional que teve um resultado brilhante com o Guga, criou o sistema e metodologia dele e tinha dificuldade de deixar outras pessoas penetrarem. Não foi novidade isso. Só que eu também tinha minha metodologia, meus resultados e, para nada atingir o Thomaz, nós acabamos decidindo que era melhor cada um seguir seu caminho. Isso acontece muito no tênis. Não é exclusividade do Larri. O pessoal fica massacrando ele, mas isso é do tênis. É difícil às vezes a comunicação entre o preparador físico e o treinador. Às vezes, quem paga o preço é o atleta, mas no nosso caso, a gente detectou rápido, e era mais fácil era mais fácil eu ver outras coisas que já estavam acontecendo e eles continuarem.

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Nenhum problema na relação, então?

Continua tudo bem com todo mundo. Encontrei com o Larri agora no Australian Open, foi super gentil. Com o Thomaz nós jantamos várias vezes em Sydney. O João [Zwetsch] também é um cara com quem me dou super bem, então não foi tanta surpresa. É um pouco praxe isso no tênis. Está melhorando isso agora.

Esse rompimento foi em abril de 2011. Você foi contratado pela IMG em 2012. Como foi esse processo?

A história é longa. Em 2006, quando eu tive um pequeno intervalo com o Saretta, eu trabalhei com a [americana] Jamea Jackson. O treinador dela é um brasileiro que está nos EUA há muito tempo, o Rodrigo Nascimento, e a gente fez uns três, quatro meses juntos. Ela era agenciada pelo Ben Crandell, que é da IMG. Em 2009, o Rodrigo era treinador do [tenista português] Gastão Elias, e ele teve que se afastar do tênis por quase um ano. Ele teve uma lesão bem séria na coluna, e o Rodrigo me procurou. Foi um projeto exitoso porque alguns médicos tinham falado que ele não ia poder mais jogar. O Ben Crandell era o agente dele também. Em 2010, o Ben me recomendou para a [Vera] Zvonareva, e também foi um bom ano. Ela foi número 2 do mundo, então eu tinha uma boa imagem para o Ben. A IMG decidiu contratar alguém específico para o tênis, e ele me recomendou.

Entendi.

E foi uma coisa de timing. Eu teria que ir aos EUA para fazer o processo seletivo. Na época, eu estava ajudando um garoto chamado Roberto Afonso, e ele estava indo para a IMG fazer um semestre lá. Ele falou “você não quer vir comigo as duas primeiras semanas?” E calhou que o processo seletivo era na semana que nós chegávamos. Então foi um baita timing. Tudo estava encaminhado para acontecer. Já no voo de volta, eu tinha a mensagem de voz deles, dizendo que eu tinha sido selecionado. No dia 3 de setembro de 2012, eu fiz meu primeiro dia lá como preparador geral do tênis.

E esse trabalho era com todos os tenistas da IMG que não tinham preparador particular? Como funcionava?

Na verdade, eu era beeeeem ocupado. A IMG tem a academia normal, para crianças que vão desde o iniciante até o nível avançado, então são crianças de 7 até 18 anos de idade. São grupos grandes, 300 alunos por semestre. Eu tomava conta de todos esses – claro que tinha pessoas que me ajudavam, mas eu era o coordenador desse trabalho. Junto, tem os “campers”, que são as pessoas que vão fazer de uma a três meses, que é outro grupo grande, que tinha que toar conta. E os atletas que elas chamam de “junior elite”, que na época eram o Michael Mmoh, Yoshihito Nishioka, a Fanny Stollar, a Natalia Vikhlyantseva, todo mundo que aí está agora figurando entre os 100, cento e pouquinho. Esse grupo já era bem específico, cheguei a fazer algumas viagens com eles. E a gente tomava conta dos profissionais que ou não tinham preparador ou que tinham preparador que não viajava com tanta frequência, além de gente que vinha só fazer pré-temporada.

Então era bastante coisa mesmo.

Essa era a parte do tênis. Eu tinha que cuidar da parte de velocidade do futebol, uma parte específica que a gente desenvolveu lá. Quando eu saí da IMG, era assistente geral da preparação física de todos os esportes. Estava bem ocupado lá (risos). Fiquei de setembro de 2012 a 31 de dezembro de 2015.

E se somar esse período todo, então você trabalhou com mais de 30 jogadores que estiveram nos Jogos Olímpicos do Rio?

Mas não é que todos fizeram tratamento integral comigo. Alguns fizeram avaliação, alguns fizeram dois treinos, alguns fizeram dois meses, mas tivemos 34 ou 36 na chave da Olimpíada, estou sem o número preciso aqui, mas de alguma forma nós auxiliamos. É que aqui nos EUA eles contam muito o “trabalhei com atleta olímpico”, então a IMG deu um número para mim com “X jogadores que estiveram aqui no seu período.”

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Hoje, dentro do circuito, como você vê a importância que o os tenistas de elite dão ao aspecto físico? Ainda tem muita gente jogando além do que deve ou já existe uma consciência geral de que não dá para “entupir” o calendário?

Acho que o Dominic Thiem [foto acima] está sendo um pouquinho a exceção da regra agora.

(risos) Se você não falasse, eu ia perguntar sobre ele.

Acho que ele é um cara que é novo, quis se meter no top 10 e, enfim, sai um pouco da regra. A maioria dos atletas bem ranqueados ficam na casa dos 20 a 24 torneios por ano, não muito mais do que isso – o que ainda pode ser considerado alto, mas eles têm a obrigação de jogar 18 torneios de qualquer forma. Eu vejo que os atletas europeus, na maioria, e os americanos estão começando a reduzir o número de jogos e torneios, estão começando a selecionar melhor. Para nós, sul-americanos, e para os asiáticos, é muito mais complicado. Boa parte do tour é nos EUA/Canadá ou na Europa, então quem perde volta para casa, tem uma situação melhor para treino. Nós, não. Você vai para jogar na Europa, tem que jogar tudo. Se você perder, vai ter que pagar quadra de treino, hotel e tudo. É melhor você estar num torneio, que te salva dois, três dias desses custos, do que ir só treinar por conta própria. Então nós acabamos jogando um pouco mais por uma logística complicada. Com a Bouchard, se a gente vai jogar Washington… Deus que me livre, mas se ela perde a primeira rodada, volta para casa. Volta para treinar, para descansar. Um brasileiro tem que colocar um torneio na segunda semana, tem que entrar na dupla, tem que fazer um samba para não ficar tão caro.

Além do custo, o quanto essa viagem de 10h, 11h, 12h atrapalha fisicamente?

Essa é outra parte porque… O que vai acontecer? O europeu perde um torneio, viaja de trem uma hora e está em casa. Imagina nós, 11h, 14, 16h, jet lag, tem que voltar em menos de uma semana. Tem custo, logística, a parte física e a parte mental também. As viagens longas não são algo que todo mundo faz com bom humor, né?

Exibição no fim do ano atrapalha muito fisicamente? Os diretores de torneio reclamam que fizeram um calendário mais enxuto porque os tenistas queriam mais férias. Só que eles pegam as férias e vão jogar IPTL ou exibição em algum lugar qualquer. E aí os diretores ficam putos porque é dinheiro que circula fora do circuito. Mas e fisicamente?

Ah, eu, particularmente, não gosto muito da ideia. Entretanto, você às vezes tem que respeitar as decisões da equipe toda. Você tem a expectativa de várias pessoas dentro de uma equipe. Você tem, primeiro, o trabalho do agente, que vai tentar explorar a imagem do atleta dele e captar recursos financeiros em troca disso. Muitas vezes, nos torneios, por os atletas estarem muito envolvidos com a competição, não se tem muita chance de fazer isso. Nas exibições, você tem uma oportunidade melhor. Junto com isso, o appearance fee [cachê], em geral é altíssimo, então chama atenção do atleta. Para nós, preparadores, claro que preferiríamos que o atleta investisse esse tempo em repouso ou treinamento. O que tem sido feito agora é que os atletas fazem uma pausa anterior ou você tem mais transições durante o ano para já incluir no calendário as exibições.

Entendi.

Se você pergunta “o atleta gosta de jogar?”, ele gosta de jogar. A verdade é essa. Eu ia ficar surpreso se o cara chegasse e dissesse “eu adoro fazer agachamento, ficar dando sprint”. Mas eles estão entendendo também a necessidade de se preparar melhor para o ano, então já não jogam todas as vezes. A liga asiática [IPTL], a maioria do pessoal que está indo acaba não jogando tantos torneios antes de Melbourne ou tiram fevereiro para treinar. Eles estão adaptando o calendário. Quem não fica feliz é o pessoal da ATP e da WTA? Quem está se favorecendo são os empresários das exibições.

Mas causa muito desgaste para quem joga?

O risco de lesão é iminente a temporada toda. Não seria a exibição que aumentaria sozinha esse risco. A minha maior questão é como é tratada a temporada como um todo. Se você me fala “o cara não jogou o ATP Finals no fim do ano” e teve uma pausa de duas, três semanas, aí treinou uma semana e meia, duas, foi para exibição e volta para dar continuidade em mais duas, três semanas de preparação… Na verdade, é um bom plano. Não é um plano que vai por tanto em risco em risco a integridade dele. Ou o cara joga o ATP Finals, tira duas semanas de descanso, vai jogar a liga ainda no ritmo que ele teve do ano. Passa a liga, tira três semanas de preparação, joga Melbourne e aí descansa mais umas duas semanas, se prepara em fevereiro e vai jogar Indian Wells… Não é um mau plano. É só um plano que talvez a gente não esteja tão acostumado. A gente estava mais vinculado àquele “termina em novembro, descansa umas semanas em dezembro, prepara e joga no começo do ano.”

Tudo é questão de planejamento, então…

Exato. Pra mim, é complicado se a exibição chega sem muito aviso prévio e você está sobrecarregando o atleta. Aí, sim, eu acho que põe em risco. Eu peguei ela [Bouchard] já no começo da pré-temporada, mas já se tinha em mente que existia a possibilidade dela jogar a Ásia [IPTL], então já havia um plano para aquilo. Ela já sabia, sei lá, desde julho/agosto. Não é algo que foi forçado no calendário dela. Já estava planejado.

Falando mais especificamente sobre a Genie, então… Vocês começaram a trabalhar quando?

Nós começamos a pré-temporada na segunda semana de dezembro de 2016. Em 2015, eu a ajudei por uma semana, enquanto ela estava numa transição de preparadores físicos, e ela foi treinar na IMG. treinamos ela por uma semana, mas ela deu sequência com a equipe dela. Aí agora a gente começou oficialmente na pré-temporada.

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E esta parceria de agora veio por causa daquele trabalho de 2015?

É. O Thomas Högstedt, treinador dela… A gente se conhecia da IMG, ele tem duas afilhadas que jogam juniores e elas treinam na IMG. Eu as treinava, aí a gente começou a conversar, estabelecer uma relação, etc., e quando ele treinou a Genie em dezembro de 2015 até março de 2016, sempre falou no interesse de trabalhar junto comigo. Quando eu disse para ele que não tinha mais interesse de continuar no Strykers [Fort Lauderdale Strykers, time de futebol], ele ainda estava com a Madison Keys, que tinha seu próprio preparador físico. E quando ele fechou contrato com a Genie, ele lançou a ideia, ela foi positiva e surgiu a oportunidade.

Como foi a primeira conversa de vocês? Ela já tinha algo em mente sobre o que queria fisicamente?

Foi engraçado porque um pouco do que ela sentia eu, de vê-la jogando, já compartilhava a ideia. A gente só refinou essa ideia. Nossos três pontos principais são os seguintes: o primeiro – isso aí é um pouco regra geral – é deixar ela saudável o suficiente para não ter lesão na temporada. Ela teve em 2015 e 2016 umas pequenas lesões que incomodaram, que não deixaram ela jogar no top dela. O segundo é aumentar um pouco a massa muscular dela. Para não dizer que ela só quer ficar grande, não é bem isso. Ela se sente mais confortável jogando com o peso um pouco acima do que ela estava no começo da pré-temporada. Ela se sente mais forte e, na linha do treinamento físico, a gente sabe que a força é um grande componente da potência, que vai auxiliar os jogadores a não terem lesão, e às vezes, para desenvolver a força, existe um pequeno aumento de massa muscular. Nada grande, nada que vai transformar ela numa Serena Williams. As coisas não acontecem assim. Mas ela vai aumentar uns dois, três quilos de peso total corporal. Visualmente, vai haver uma diferença. Sei que muitas das pessoas do tênis dizem que ela vai ficar mais pesada, é mais massa para carregar. Também não é verdade. Os corredores de 100 metros, que são os mais velozes do mundo, são caras com boa estrutura física. Tudo isso é coordenado. Ganho de massa, tonificação… Não é que a gente está só aumentando o peso dela, mas é algo com o que ela se senta mais confortável jogando. E o terceiro ponto, que eu dialoguei mais com o Thomas e ela concordou, é que nós achamos que existem alguns pontos do footwork que ainda existem chance de melhora, e vai ser outro ponto que a gente vai atacar. Não é que não seja bom, mas a gente quer deixar em um nível ainda mais alto. Ela é uma menina rápida, então dá para explorar isso bastante.

Não sei se foi impressão minha, talvez pelo que ela vestiu em Sydney e Melbourne, mas eu já achei ela mais forte neste começo de ano. Pelo menos o bíceps foi algo que me chamou atenção. Isso já é resultado desse trabalho ou foi só impressão?

Já é. É até um ponto legal porque ela viu uma das fotos dela… Eu e o Thomas já falávamos para ela. “Sua perna já está mais forte”, mas ela dizia que olhava algumas fotos e não percebia. Aí ela viu a primeira foto do primeiro jogo no Australian Open e falou “caramba, não tinha essa impressão”. É mais ou menos o que o pessoal vai vendo. Não vai fugir muito daquilo. Uma coisa que nós percebemos é que em Sydney ela fez semifinal e perdeu um pouquinho de peso na semana. Aí a gente conseguiu recuperar. Em Melbourne, ela também perdeu um pouquinho de peso, então a gente só vai fazer um controle para que aquela imagem do primeiro jogo seja bem similar à do último jogo.

A bebida que ela toma durante os jogos foi desenvolvida também por você, não? Como foi esse processo? O que você pode contar sem revelar o segredo?

A maior preocupação que a gente tem nos EUA, principalmente, é que os atletas tendem a sofrer muito na umidade. Muitos chegando a ter cãibra de corpo inteiro ou síndrome de exaustão ao calor. A Genie nunca teve, mas como outras jogadoras, é uma condição que ela não joga tão confortável. Sendo um pouquinho científico para entender, uma das propriedades que uma bebida precisa é facilitar a entrada das substâncias que ela carrega na passagem pelo estômago, indo para o intestino. Isso depende de um conceito chamado osmolaridade, que é uma troca de pressão entre as moléculas de uma substância. Resumindo: a gente precisa de algo que empurre as coisas para dentro do estômago – ou que facilite isso. A bebida que foi desenvolvida aqui nos EUA, curiosamente, por um grupo de argentinos, tem a osmolaridade diferenciada. Isso ajuda a hidratação. Quando comparada com outras bebidas – que eu não vou citar o nome – ela tem um melhor resultado na hidratação geral. Então a gente adaptou uma outra bebida conhecida para hidratação de crianças, a gente adaptou para o nível de esporte. A gente testou com ela, testou com o [Vasek] Pospisil, e ele é uma pessoa que eu treinei bastante aqui e tinha o interesse de testar. Tivemos bons resultados. Eu levei isso para o futebol, tivemos bons resultados no Strykers. E aí ela [Genie] se interessou em tomar. É uma bebida que, sozinha, não vai fazer todo o segredo. A gente mistura com outras coisas. No caso dela, que é uma atleta patrocinada pela Coca-Cola, a gente mistura com Powerade, então fica tudo organizado.

Quando você fala de hidratação, não consigo não pensar no Thomaz [Bellucci], que é um cara que tem muito problema quando joga em lugar úmido. Já havia essa situação quando vocês trabalharam juntos?

Não. Infelizmente, até a linha de estudo que estava sendo conduzida, o Thomaz seguiu por um tempo e foi muito bom, era uma linha voltada para déficit vitamínico e etc. O grande mérito aí é do Dr. Ronaldo Abud, que ajudou. Por um tempo, surtiu grande efeito. Depois, eu já não estava com ele na equipe, não sei que aconteceu depois, mas uma vez a gente bateu um papo e ele disse “as vitaminas já não são suficientes”, mas eu também não tinha nem muito conceito sobre isso.

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Voltando à Genie, o Daniel [Costa e Silva, assessor de imprensa de Cassiano], me contou que ela paga excesso de bagagem para você levar uma mala com seus equipamentos. O que tem de especial nessa mala?

Tem tudo, cara. Primeiro, tem o convencional, que todo jogador de tênis leva ou deveria levar. Corda para pular, borracha elástica para fazer exercício, uma medicine ball leve para usar no aquecimento, uma escadinha… Aí eu levo algumas particularidades. A gente tem umas luzes chamadas fit light, que trabalham reação visual e coordenação óculo manual. Numa característica mais próxima do tênis, eu consigo controlar o tempo, então viajo com isso. A gente tem outros dois sistemas. Um que numa peça sozinha eu consigo fazer vários movimentos feitos numa academia, com maior fundamento para o tênis, para trabalhar aceleração e desaceleração. E, por fim, eu tenho um aparato biomecânico para avaliar se os movimentos dela estão corretos. Fica uma mala extra porque se eu fosse misturar na minha, não ia nem caber, e ela tem muito interesse, então falou “não tem problema, vamos levai isso aonde nós formos.”

Por estar no meio dessa elite, você vê que gente como Federer e Djokovic faz algo especial em preparação física ou só o fato de terem mais dinheiro já ajuda o bastante, com a possibilidade de preparadores físicos e equipes maiores?

Tem vários pontos. O primeiro que você levantou é muito bom. O fato de ter condição de investir num time faz uma diferença tremenda. Por exemplo, não é todo mundo que tem a conveniência de pagar cem ou duzentos dólares numa mala para viajar o mundo inteiro. “Mas só 100, 200?” Quando você multiplica por todas semanas, vira um número grande. É um exemplo chulo, mas é verdade. Então, sim, essa turma tem condição de se preparar melhor já pela logística. Segundo e que eu vejo como característica tremenda que vejo neles, é o nível de profissionalismo e seriedade que eles têm com as coisas. Não que outros não tenham, mas o deles é acima da média. O cara entende o benefício que as coisas vão trazer para ele, e ele vai fazer no seu máximo. Vejo muitos atletas que reclamam “ah, mas não consigo”, “ah, mas o dinheiro” e quando você vê a aplicação da pessoas em todos os aspectos, falhou aqui, falhou ali e justifica. Outra coisa: eles têm uma energia mental muito boa. Alguns deles trabalhando meditação, mental coaching ou algo natural como o Nadal. Mas uma característica similar a todos eles é uma estabilidade e uma força mental, uma capacidade de reagir. Para mim, sendo sincero, em nível técnico tenho a impressão de que Federer e Djokovic desenvolvem um pouco mais do que a maioria, mas a força mental e, depois, a força física é onde vejo que as coisas fazem uma diferença tremenda.

Verdade.

Eu tive a oportunidade de ver o Federer aquecendo para o segundo jogo dele em Melbourne, e você vê que o cara está bem relaxado, conversando com o pessoal, vendo os outros jogos e tranquilo. Aí o técnico fala “vamos lá, vamos aquecer”, e o cara “bum”, se fecha no momento dele, com muita confiança, muita concentração. Acho que nisso a grande maioria ainda está longe. A força mental desses caras é de outro mundo.

Eu acabei esquecendo de perguntar lá no começo, mas você saiu do futebol para o mundo do tênis em 2006, a convite do Raí. E como foi essa transição? Qual foi a maior dificuldade?

Eu tive muita sorte de ter o [Flávio] Saretta como primeiro atleta por vários motivos. Um dele foi ele ser um cara que estava num nível altíssimo e teve a paciência de me ensinar o esporte corretamente. Eu não tinha jogado tênis. Eu não tinha noção de grip, tensão de corda, nada. E são coisas que, no futuro, você vê quanta diferença faz. Mas eu fui ler muito a respeito, perguntei para muita gente, mas quem me ensinou muito foi o Saretta. Ele via que eu fazia uma coisa errada, aí ele vinha e dizia “presta atenção nisso daqui, você tem que saber isso daqui. Eu sei que no futebol é assim, mas no tênis é daquele jeito.” Depois, quando o Jaime Oncins integrou a equipe dele, foi outra pessoa a quem eu devo muito. Esses dois caras foram muito pacientes em me ajudar na transição. Só para você ter uma ideia, o primeiro jogo do Saretta que eu fui ver foi o Aberto de São Paulo. O árbitro chamou uma bola ruim, e eu reagi que nem futebol. Ele e o Jamie me olharam e falaram “calma, calma, o ambiente aqui é diferente.” (risos) Mas é um esporte bárbaro, hoje é minha verdadeira paixão, gosto mais do que de futebol – espero que meus amigos do futebol não leiam isso (risos). É incrível porque reune muitas ações de coordenação, muita agilidade, muito timing, poder de concentração. Você tem que estar atento à forma que o cara joga, a forma que ele segura a raquete… A mínima mudança no serviço pode trazer um monte para o corpo dele, então você tem que estar no topo disso e reagir junto com o atleta. Mas foi um período engraçado (risos). O primeiro mês foi um desastroso feliz. Acho que errei muita coisa, mas o Saretta relevou e mostrou o caminho. Foi um período engraçado. Outro dia, estava lendo uma planilha de treino de 2006 e falei “caramba, que loucura!” Como, graças a deus, eu evoluí.


O que falta para o Centro Olímpico ser mesmo do tênis brasileiro?
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Alexandre Cossenza

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No último fim de semana, a CBV realizou, em parceria com a TV Globo, um evento de vôlei de praia no Centro Olímpico de Tênis. Cerca de 280 toneladas de areia foram colocadas na quadra central, transformando o palco da final entre Andy Murray e Juan Martín del Potro em uma praia tropical, com direito a pequenas palmeiras e tudo mais.

Visualmente, ficou tudo muito bonito – como mostra a foto acima. Mas a imagem também levanta uma série de perguntas:

– Por que a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) está usando as instalações do tênis, enquanto a Confederação Brasileira de Tênis (CBT), que tanto falou em usar o local como sua casa, acaba de levar sua sede de São Paulo para Florianópolis?

– Por que a Asics, que tanto investiu no tênis recentemente, optou por não renovar os contratos de quase todos seus tenistas (só Bruno Soares foi renovado) e levar seu dinheiro para o vôlei?

Seria porque a CBV tem um CEO profissional? Ou porque tem um CT organizado e bem estruturado? Ou porque tem um trabalho de base eficiente, que gera novos talentos a cada ano? Ou porque organiza uma bela liga profissional? Ou porque simplesmente conquista resultados em nível mundial? Ou porque seu presidente não é réu em um processo na Justiça Federal?

Nos últimos dias, procurei CBT, CBV, Asics e Ministério do Esporte. Também consultei pessoas do meio que falaram em condição de anonimato. As respostas, infelizmente, trazem poucas novidades. A CBT continua falando em “intenções”, com nenhum resultado prático. O Ministério do Esporte ainda trabalha para estabelecer procedimentos. De prático mesmo, só as ações e o evento da CBV. Vejam quem disse o quê:

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Gigantes da Praia

Por que a CBV teve direito a usar a quadra central para seu evento? Porque foi competente e reconheceu no espaço uma oportunidade. Procurou o Ministério do Esporte, fez uma proposta e teve sucesso. Em vez de gastar mais de R$ 1 milhão de reais em um evento na praia, fez tudo com um orçamento de aproximadamente R$ 500 mil no Centro Olímpico. No espaço do tênis, a CBV deixou de gastar com montagem de estrutura e com taxas pagas à União pelo uso do espaço na praia. No fim das contas, uma economia estimada em mais de 50%.

Em troca pelo uso do local, a CBV se comprometeu a instalar alguns guarda-corpos, a fazer a limpeza do Centro Olímpico de Tênis e a dar retoques de pintura na instalação. A entidade que comanda o vôlei também prometeu tomar todos cuidados para não danificar a quadra de tênis. Usou três camadas de lona de alta resistência para cobrir o espaço que recebeu a areia, evitando contato direto; instalou um tablado no percurso onde a mini carregadeira passava levando areia; e vedou o sistema de escoamento com mantas impermeáveis para evitar que chuva ou vento levassem areia aos dutos.

A operação de montagem da arena de vôlei de praia contou com 11 pessoas e durou quatro dias. Números e informações foram passadas ao autor deste blog pela própria CBV.

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CBT: ainda só na intenção

Se há uma possibilidade de usar o Centro Olímpico como casa do tênis, por que a CBT se apressou tanto ao levar sua sede de São Paulo para Santa Catarina no fim do ano passado? Será mesmo que a entidade quer se basear no Rio? Há tempos, o presidente da CBT, Jorge Lacerda, fala em aproveitar o Centro Olímpico. No entanto, não se viu nada de prático até hoje. Enviei perguntas à CBT e obtive as respostas abaixo – assinadas por Lacerda.

A CBT ainda tem interesse de usar o COT como sede da entidade?
A CBT foi a primeira Confederação a buscar o diálogo com as entidades então responsáveis, demonstrando total interesse desde sempre.

Que medidas a entidade tomou junto ao Ministério?
Tivemos uma conversa produtiva hoje (segunda-feira, dia 6 de fevereiro) com o ministro Leonardo Picciani e vamos buscar avançar na parceria e viabilidade de absorção do legado olímpico de tênis.

O que falta para que o COT venha a ser, de fato, a sede da CBT?
O Ministério assumiu no dia 23/12/16 a administração do Parque Olímpico. Embora recente, o ME já está buscando conversar com as Confederações, inclusive a CBT para, em conjunto, encontrar a melhor solução de forma que o parque olímpico do tênis seja dirigido pela CBT.

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Ministério: fase de estudos

O Ministério do Esporte, que passou a ser o responsável pelo Parque Olímpico em dezembro, ainda não definiu um conjunto de procedimentos para o uso das instalações. Segundo a assessoria de imprensa do órgão, que enviou as respostas abaixo (reproduzidas na íntegra), tudo ainda está em fase de estudos.

Qual o procedimento para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Havendo interesse de alguma entidade/órgão em utilizar qualquer uma das arenas sob responsabilidade do Ministério do Esporte, deverá enviar um ofício manifestando interesse e data do evento.

Qual o custo por dia?
Ainda não há definição de custo. O Ministério está elaborando uma proposta de custos por meio de estudos da legislação específica. Os eventos testes servem para ajustar os parâmetros de cobrança a serem estabelecidos.

Qualquer empresa (pública ou privada) pode alugar o local?
Nas áreas de propriedade da União a permissão de uso é aberta para todos (empresa pública ou privada). No caso do Parque Olímpico, em posse do Ministério do Esporte, os estudos avançam para a utilização dos mesmos parâmetros das áreas de propriedade da União.

Que requisitos são necessários preencher para que alguém tenha o direito de usar o Centro Olímpico de Tênis?
Consideramos que estamos na fase de estudos para definição de critérios objetivos, estamos realizando eventos testes exclusivamente com entidades do desporto.

A CBT já procurou o Ministério para negociar o uso do Centro Olímpico de Tênis como sede da entidade?
Positivo, inclusive a CBT na data de hoje [segunda-feira, 6 de fevereiro] formalizou sua intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis. A negociação ainda está em andamento.

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Banana Bowl: é possível?

É inevitável mencionar o Banana Bowl, importante evento juvenil realizado pela CBT e que mudou de sede novamente este ano – foi levado para Criciúma e Caxias do Sul, onde está sendo realizado nesta semana. Seria fantástico – e simbólico inclusive – se um evento desse porte fosse realizado no Centro Olímpico. Seria o maior dos legados. Uma instalação herança dos Jogos Olímpicos sendo usada para o benefício de jovens atletas.

É óbvio que não é simples assim. As quadras do Centro Olímpico são de piso duro, e o Banana Bowl é jogado em saibro – inclusive está encaixado em uma parte do calendário internacional que prioriza a terra batida. Mas será que um dia poderíamos ver algo assim acontecendo? Seguem respostas de Jorge Lacerda sobre o assunto:

Por que o Banana Bowl foi levado para Caxias e Criciúma?
O Banana Bowl não tem sede fixa. É um torneio que possui um caderno de encargos robusto, e que exige a necessidade que a CBT busque parceiros para a realização do mesmo. As Federações gaúcha e catarinense, juntamente com os clubes e governos locais, que estão recebendo as categorias 14/16 (Recreio da Juventude/Caxias) e 18 anos (Sociedade Recreativa Mampituba/Criciúma), estão engajadas nesse processo e viabilizando parceiros locais, mantendo a qualidade do evento e minimizando os custos.

O que seria necessário caso a CBT desejasse realizar o Banana Bowl no Centro Olímpico de Tênis? Quais seriam as formalidades junto à ITF?
A CBT sempre vai buscar equacionar as questões financeiras com a melhor entrega do evento para os tenistas, técnicos e espectadores. Para encontrar a fórmula ideal, é necessária a participação das entidades regionais, inclusive os Governos Estaduais e/ou Municipais. Não há dúvidas de que uma vez tendo estas questões dirimidas, o Centro Olímpico de Tênis tem todas as condições de receber o Banana Bowl. De qualquer forma, a CBT nunca falou em fazer o Banana Bowl neste ano no COT, pois a decisão teve que ser tomada no ano passado, época em que o COT ainda estava sobre posse da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, sem definição de quando poderia ser utilizado.

É viável financeiramente fazer o Banana no COT?
É viável, mas são necessárias as parcerias citadas anteriormente. O Banana Bowl demanda, por regra, oferecer hospedagem, alimentação e transporte para todos os técnicos e jogadores, em hotel padrão 4 estrelas, só para citar um dos exemplos de custos que se tornam elevados para a promoção do mesmo.

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Asics: os números e a opção pelo vôlei

O grande elefante na sala é a Asics, fabricante de material esportivo que deixou o tênis no fim de 2016 para investir pesado no vôlei. O porquê da mudança? Algum porta-voz da empresa poderia ter escolhido um dos motivos que listei no quinto parágrafo deste texto. No entanto, a assessoria de imprensa da Asics informou que a marca não se pronunciaria sobre o assunto.

Sem uma posição oficial, recorri a contatos com bom trânsito no meio e que tiveram acesso a detalhes de conversas contratuais. Segundo essas pessoas, que falaram em condição de anonimato, a decisão foi tomada unicamente pelo atual presidente da Asics Brasil, Gumercindo Moraes Neto, que assumiu o cargo em agosto de 2015. Na época, os contratos do tênis estavam em curso. Ao fim de 2016, quase nenhum compromisso foi renovado na modalidade (Bruno Soares é exceção).

Gumercindo Moraes Neto é visto no meio como uma pessoa “de números” e com pouca intimidade com o esporte. Com essa visão, é fácil entender o investimento em um esporte com mais visibilidade em TV aberta, que traz medalhas e todo tipo de resultados e que, segundo todas pesquisas, é a segunda modalidade mais praticada no país. Mas será que a volta ao vôlei precisava significar a saída quase total do tênis?

Coisas que eu acho que acho:

– Pode ser paranoia ou pessimismo (e meu pessimismo não é segredo nenhum), mas me preocupa o fato de a CBT insistir em dizer que tem interesse em usar o Centro Olímpico como sua sede, mas o Ministério do Esporte responder que a CBT fala “na intenção em construir um calendário futuro para a utilização do Centro de Tênis”. Mas se você é otimista, a ausência da palavra “sede” na resposta do Ministério não deve indicar nada.

– Com a CBV deixando bastante claro o quanto se economiza ao aproveitar as instalações prontas do Centro Olímpico de Tênis, fica mais difícil para a CBT justificar, no futuro, a realização de um confronto de Copa Davis fora do Rio de Janeiro. Digo “mais difícil”, não “impossível”. Afinal, já ouvimos explicações, digamos, “criativas” durante a gestão de Jorge Lacerda.

– O Centro Olímpico também poderia ser palco do torneio WTA que a CBT realizou em Florianópolis nos últimos anos. Após uma primeira edição promissora, a entidade não conseguiu atrair nomes e transformou um evento internacional em um torneio minúsculo, com apelo apenas regional. O último, realizado na semana anterior aos Jogos Olímpicos, beirou a insignificância. O evento foi vendido pela CBT e será realizado em outro país.

– A nota triste do fim de semana fica por conta do furto de uma câmera e uma lente do fotógrafo Alexandre Loureiro, que trabalhou no Gigantes da Praia, no Centro Olímpico de Tênis. São deles, inclusive, as primeiras imagens deste post.

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Uma bolada violenta e uma doída desclassificação
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Alexandre Cossenza

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A gente já viu isso quase acontecer em vários níveis e com personagens diferentes. O tenista, irritado, isola uma bolinha, que passa perto da cabeça de alguém. O árbitro, então, pune com uma advertência: “abuso de bola”. Ou o cidadão, frustrado com a perda de um ponto, atira a raquete, que quica e passa pertinho de acertar um juiz de linha ou um espectador. Novak Djokovic protagonizou um par de cenas assim recentemente. A punição é uma advertência por “abuso de material”.

Só que de vez em quando, muito raramente, acontece um desastre como o deste domingo, no confronto entre Canadá e Grã-Bretanha pela Copa Davis, em Ottawa. Denis Shapovalov, 17 anos, tenista da casa, perdia o quinto jogo contra Kyle Edmund. O britânico tinha 2 sets a 0, já com o triunfo encaminhado, quando o adolescente, irritado, descontou na bolinha. E a amarelinha foi, violenta, morrer no rosto do árbitro de cadeira. Desclassificação imediata.

Parece claro que não foi intencional. Não teria por que ser. Shapolavov imediatamente pediu desculpas a Arnaud Gabas, o árbitro de cadeira. Já era tarde. O Canadá acabou perdendo o confronto naquele momento, o que só não foi mais grave porque a partida rumava para um triunfo de Edmund por 3 sets a 0 – ou assim se desenhava até o momento do incidente.

Nesta segunda, foi anunciada uma multa de US$ 7 mil para Shapovalov. O valor máximo é de US$ 12 mil, mas que só seria aplicada em caso de agressão proposital. E aí entra outra questão, que foi levantada pelo ex-chefe de arbitragem da ATP Richard Ings. Ele argumenta que o canadense deveria ser suspenso porque poderia ter cegado o árbitro e que a punição deveria ser proporcional à gravidade da lesão causada (leia mais no Bola Amarela).

Mas e aí, será que as entidades que regem o tênis deveriam fazer alguma alteração na regra? Por um lado, estabelecer uma suspensão no papel intimidaria os tenistas, que pensariam duas vezes antes de quebrar uma raquete ou atirar uma bolinha para longe. Por outro lado, não seria um exagero?

E como medir essa suspensão? Uma bolada no pé do árbitro renderia o mesmo gancho que uma raquete batendo no nariz de um torcedor? Como estabelecer essa distinção na letra fria da lei? Difícil. Tão difícil quanto estabelecer que uma suspensão seja proporcional à gravidade da lesão. Como medir a dor? Que tipo de contusão valeria um dia de suspensão? E uma semana?

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Minha opinião? Moralmente, a desclassificação já é punição suficiente. Até por ser em Copa Davis, com o país inteiro sendo eliminado junto. Vai demorar para Shapovalov superar o momento e voltar a dormir tranquilo. Mas há casos e casos. Se acontecer no circuito, com o tenista jogando por conta própria, a desclassificação não terá o mesmo peso. E você, leitor, o que acha? Sinta-se à vontade para dar uma opinião.