Saque e Voleio

ITF aponta: mais de 80% dos tenistas pagam para jogar
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Alexandre Cossenza

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O número assusta, mas é isso mesmo: no circuito masculino, que tem 2.168 tenistas ranqueados, apenas os 336 primeiros não perdem dinheiro. A estatística faz parte de um estudo da Federação Internacional de Tênis (ITF), que anda preocupada com o desequilíbrio financeiro em seu esporte. O próximo objetivo da entidade agora é conseguir aumentar a premiação em dinheiro nos torneios “de entrada” do circuito mundial. É o que relata uma reportagem do “New York Times”.

O anúncio da ITF vem poucos dias depois de a ATP prometer um grande reajuste em seus torneios (vide o post anterior deste blog). Ainda segundo a reportagem, a pesquisa promovida pela ITF levou em conta mais de sete mil jogadores e analisou números dos últimos 14 anos para avaliar as diferenças nos gastos dos jogadores de diferentes faixas de ranking. O levantamento também considerou questões geográficas (onde moram e jogam os atletas), etárias e o decrescente (e preocupante) nível de sucesso entre jogadores em transição. Segundo a ITF, hoje em dia há mais gente competindo no juvenil, mas uma porcentagem muito menor desse grupo consegue alcançar um ranking profissional.

A ITF constatou que apenas 1% (ou seja, o top 50) dos tenistas que disputam o circuito masculino ficam com 60% da premiação em dinheiro que é distribuída por todos torneios ao longo do ano. No circuito feminino, os números não são muito diferentes. Lá, o 1% do topo embolsa 51% do dinheiro.

A ideia da entidade que regula o tênis mundial é aumentar o prêmio em dinheiro em todos os níveis de seus torneios. No circuito masculino, a ITF é responsável pelos Futures, que têm premiação de US$ 10 mil e US$ 15 mil. No circuito feminino, a entidade controla torneios que vão de US$ 10 mil a US$ 100 mil (a diferença básica é que a ATP regula os Challengers, eventos que dão de US$ 35 a US$ 125 mil, enquanto a WTA deixa esse mesmo nível de torneios a cargo da ITF).

Se a proposta for aprovada pela diretoria, os aumentos valerão a partir de 2016. Os torneios de US$ 10 mil passarão a valer US$ 15 mil; os atuais eventos de US$ 15 mil saltarão para US$ 25 mil; os de US$ 50 mil passarão a distribuir US$ 60 mil; os de US$ 75 mil pularão para US$ 90 mil; e os de US$ 100 mil vão a US$ 125 mil.

Em porcentagens, o reajuste é considerável: são 50% de aumento nos torneios de US$ 10 mil e 66% nos eventos de US$ 15 mil. Não vai solucionar de vez o problema, mas é um começo. Até porque o número que cito no começo do post preocupa: levando em conta gastos mínimos, um tenista, em média, deixa de perder dinheiro quando chega ao ranking de número 336 (254 entre as mulheres). Ou seja, dos 2.168 tenistas ranqueados 84,5% perdem dinheiro (e essa porcentagem seria mais alta de incluísse um bocado de gente que vem tentando a sorte no circuito, mas sem conseguir pontuar). Alguém consegue pensar em outra profissão com tanta gente pagando para trabalhar?


Masters 1.000 ameaçam processar ATP
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Alexandre Cossenza

O aumento no valor dos prêmios em dinheiro anunciado pela ATP (vide post de ontem) não deixou todo mundo satisfeito. Os nove torneios da série Masters 1.000, que terão de bancar um reajuste anual de 11% até 2018, estão ameaçando levar a entidade que controla o circuito masculino à justiça. Quem deu a notícia foi o Sports Business Daily, que teve acesso a uma carta enviada pelos diretores dos eventos.

Segundo a publicação, a carta endereçada a Chris Kermode, principal executivo da ATP, diz que “os Eventos não estão dispostos a colocar em risco suas atividades e concordar com as exigências insustentáveis buscadas pelos representantes do conselho de jogadores. Se a direção da ATP votar pela aprovação do aumento do prêmio em dinheiro nos Eventos sem um único voto a favor dos representantes dos torneios, então os Eventos não terão escolha a não ser examinar cuidadosamente e buscar seus direitos e medidas legais.”

E aconteceu exatamente o que os representantes dos Masters 1.000 previam no documento. O reajuste foi aprovado por 4 votos a 3, com três votos a favor vindo dos representantes dos atletas e três votos contra vindo dos representantes dos torneios. Kermode deu o voto decisivo a favor dos tenistas.

Os torneios ofereceram um aumento anual de 5,8% durante as próximas quatro temporadas além de uma divisão dos lucros vindo do contrato com a ATP Media. Segundo relata o Sports Business Daily, o total disso resultaria em 11% anuais. Os jogadores, por sua vez, pediram 17%, mas aceitaram os 11% quando Kermode prometeu votar a favor do reajuste. O chefão da ATP ainda prometeu dar 3% dos cofres da ATP, o que resultou nos 14% que foram aprovados. O detalhe é que os atletas não concordaram com a inclusão da verba da ATP Media na divisão. Assim, os 11% sairão inteiramente dos torneios.

Quando o politicamente correto sai caro

Segundo a reportagem, os torneios queriam encontrar uma maneira de aumentar o prêmio em dinheiro dos homens, mas não igualar no feminino. Por isso, a sugestão de incluir uma fatia proveniente da ATP Media. Caso os Masters combinados conseguissem a aprovação dos 5,8% sugeridos, precisariam apenas igualar os 5,8% na chave feminina – o dinheiro da ATP Media iria só para a chave masculina, obviamente. Da maneira com que o reajuste foi aprovado, todos os torneios com chave feminina terão, em nome do politicamente correto, que igualar os 11% para as mulheres.

A resposta da ATP foi tão forte quanto a carta enviada pelos Masters. Assinado por seu responsável por assuntos jurídicos, Mark Young, o texto diz que “não temos a intenção de responder a nenhuma das várias declarações expressas ou implícitas em sua carta, exceto para comunicar que a ATP espera que cada torneio integrante (do circuito) cumpra regras, resoluções ou acordos da ATP, incluindo, sem limitar-se a, quaisquer regras ou resoluções da ATP relacionadas a prêmio em dinheiro (ou qualquer outro assunto) pelo conselho da ATP.”

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ATP aumenta prêmios: uns mais iguais que os outros
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Alexandre Cossenza

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Cheia de pompa e orgulhosa de si, a ATP fez o anúncio na última sexta-feira: a premiação em dinheiro aumentará nos Masters 1.000 e ATPs 250 de 2015 a 2018. Assim, a premiação total ao longo ano ultrapassará os US$ 100 milhões na próxima temporada e alcançará US$ 135 milhões em 2018. E tudo lindo no mundo maravilhoso do tênis profissional, certo? Errado. Muito errado.

A conta não é difícil de fazer. Os Masters 1.000, frequentados normalmente por um grupo que envolve os 60-70 mais bem ranqueados, aumentarão seus prêmios em 14% anualmente até 2018. Os ATPs 250, torneios menores, em que atletas fora do top 100 conseguem ocasionalmente entrar sem qualifying, terão aumento de apenas 3% anuais. Parece justo. Os torneios com mais visibilidade e patrocinadores de mais peso devem pagar ainda mais, certo? Errado.

A questão é que colocar mais dinheiro em jogo nos torneios maiores só aumenta o problema da distribuição de renda no tênis. Hoje, enquanto um quadrifinalista de Grand Slam recebe cerca de US$ 350 mil (foram US$ 370 mil no US Open), quem perde na primeira rodada leva para casa mais ou menos um décimo disso: US$ 35 mil era o valor pago no último US Open. Assim, ano após ano, a elite torna-se mais elite, enquanto o povo que ocupa a faixa entre 80-120 passa aperto o ano inteiro. Há quem possa viajar com estafe completo (técnico, preparador físico, psicólogo), mas também há quem precise de ajuda de sua confederação para conseguir pagar as contas e viajar o circuito o ano inteiro.

O panorama é mais complexo do que parece. Os tenistas passaram alguns anos reivindicando aumento nas premiações dos Grand Slams. Os quatro torneios repassavam aos atletas uma porcentagem ínfima de seus ganhos. Houve até uma ameaça velada de boicote, que não saiu das salas de reunião porque os Slams cederam. O reajuste veio, e com porcentagem maior para as primeiras rodadas. Era, afinal, uma maneira de compensar os míseros prêmios dos ATPs 250 e do Circuito Challenger. Para muitos dessa turma, US$ 35 mil significa o maior prêmio em dinheiro de toda a temporada.

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O renovado prize money dos Slams, no entanto, não resolveu o problema da “desigualdade social”. Suponhamos que os perdedores de primeira rodada, que ganhavam cerca de US$ 20 mil até pouco tempo atrás, recebessem aumento de 100%. Passariam a ganhar US$ 40 mil. Suponhamos também que os campeões, com prêmio de US$ 2 milhões, recebessem “só” 10% de reajuste. A recompensa pelo título subiria em US$ 200 mil. Uma diferença e tanto, não?

Não existe solução simples. O abismo de remuneração entre os tenistas do top 20 e aqueles que oscilam entre 70-80 e 150 só tende a assustar ainda mais com esse reajuste comemorado pela ATP. E, como se não bastasse, os torneios da série Challenger (onde está a maioria dos tenistas que tentam um lugar ao sol) seguem sem uma luz no fim do túnel. O que mudou nos últimos dez anos foi a premiação mínima, que saltou de US$ 25 mil para US$ 35 mil (a serem distribuídos entre todos participantes). No entanto, a premiação máxima segue estacionada em US$ 125 mil, mesmo valor máximo do circuito em 1994!

Aliás, essa é outra conta fácil – e interessante – de fazer. Enquanto a série Challenger paga o mesmo de 20 anos atrás (embora algumas temporadas tenham visto um par de torneios de US$ 150 mil, abolida pela ATP), a premiação dos Masters 1.000 quase triplicou. Monte Carlo, por exemplo, distribuía US$ 1,47 milhão em 1994. Hoje, paga US$ 3,6. Logo, 20 anos atrás, um Challenger equivalia a cerca de 8,5% de um Masters 1.000. Hoje, vale 3,47%.

A consequência máxima é que saltar de nível ficou muito mais difícil. Como competir em igualdade de condições se o adversário acima vem ganhando mais dinheiro e, portanto, treinando, viajando e se alimentando em condições mais favoráveis? O tênis nunca foi tão desnivelado quanto hoje, e nada indica que exista uma placa de retorno nos próximos quilômetros dessa estrada.

Coisas que eu acho que acho:

– O mundo dos Challengers ainda tem “obstáculos'' inesperados. Quem jogou o Aberto de São Paulo este ano (o torneio da foto acima) está sem receber a premiação até hoje.

– Os Masters 1.000 não estão nada felizes com o aumento que terão de dar nas próximas quatro temporadas. Escrevo sobre o assunto com mais detalhes amanhã.


Copa Davis: Orsanic, Del Potro e o pior dos cenários
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Alexandre Cossenza

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A notícia não recebeu a devida atenção aqui no Brasil, então é bom reforçar, até pelo que isso pode vir a significar. Na última quarta-feira, Daniel Orsanic foi anunciado oficialmente como novo capitão argentino da Copa Davis. Não é nada bom para o Brasil, e não só porque Orsanic foi técnico de Thomaz Bellucci e sabe bem os pontos fracos do número 1 brasileiro. O grande ponto da questão é que Orsanic é visto na imprensa argentina como o homem que vai colocar em prática o retorno de Juan Martín del Potro à Copa Davis.

A imprensa argentina já fala sobre isso desde o mês passado, quando o anúncio ainda não havia sido feito (leia aqui e aqui). Houve reuniões, conversas e até uma conveniente licença de quatro meses do vice-presidente da AAT (Associação Argentina de Tênis) Héctor Romani, com quem Del Potro não mantém boa relação, conta o jornal “La Nación”.

O “Olé”, por sua vez, conta que Del Potro também pedia um plano que envolvesse o desenvolvimento do tênis argentino. Isso também foi prometido ao campeão do US Open de 2009. Na AAT, fala-se até no nome de Marcelo Gómez, responsável por formar tenistas em Tandil – Juan Mónaco, Mariano Zabaleta, Máximo González e Diego Junqueira, além do próprio Juan Martín.

Ninguém ousa garantir o retorno de Del Potro ao time da Copa Davis, mas é um bom sinal para a Argentina que seu melhor tenista tenha optado por jogar em Acapulco (e não em Dubai) na semana anterior ao confronto com o Brasil, marcado para 6 a 8 de março. Não se sabe como o tenista de Tandil retornará após um ano de inatividade por causa de uma lesão séria e que exigiu uma cirurgia no punho esquerdo. Ainda assim, já se fala que há boas chances de o confronto acontecer no parque Tecnopolis, em Buenos Aires, com quadra coberta e piso duro. Nada, nada bom para o Brasil.


CBT: na ponta dos pés entre a legalidade e a legitimidade
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Alexandre Cossenza

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O assunto desta segunda-feira é Confederação Brasileira de Tênis porque não podia ser outro. Devido às acusações da última sexta-feira (leia aqui), é não se pode deixar o assunto morrer sem as devidas explicações de Jorge Lacerda. Sim, a CBT emitiu uma nota oficial, mas o texto foi mais uma defesa do que uma prestação de contas – literal e não-literal – à comunidade tenística.

Não conversei com Lacerda após a reportagem da ESPN e, para ser sincero, não sou eu que tenho que falar com ele. Não vi todas as provas e uma entrevista minha não sairia como precisaria ser. Imagino que o dirigente vá conversar com o canal. Imagino que o repórter José Renato Ambrósio, possivelmente o mais competente da ESPN, vai aparecer com algo interessante por aí. Até que isso aconteça, porém, há alguns pontos importantes a ressaltar.

Verba pública x privada = legalidade x legitimidade

Na nota oficial, a CBT faz questão de ressaltar que “recebe verbas de origem pública e privada” e que “nunca utilizou verba pública para o pagamento do auxílio-moradia” de Lacerda. É um ponto importante. Desvio de verba pública é crime, enquanto usar dinheiro privado para fins alheios ao maior interesse do tênis nacional é “apenas” ilegítimo, imoral. Minha opinião? É tão grave quanto. Só que é muito mais fácil de “justificar” algo assim numa assembleia de federações afiliadas onde há um bocado de outros interesses em jogo. Não é segredo.

Aconteceu algo parecido com a CBV um tempo atrás. Em 2006, Ary Graça, então dirigente-mor do vôlei brasileiro, levou convidados para passar o carnaval no Centro de Treinamento de Saquarema. O caso, denunciado pelo jornal “O Globo”, ficou conhecido como Aryfolia. Oficialmente, o Banco do Brasil (BB) pediu explicações, mas ninguém foi punido porque ninguém tinha como provar que a CBV usou verba pública para pagar aquelas contas.

Lembro bem porque acompanhei a história quando trabalhava no jornal “Lance!”. O balanço publicado pela CBV continha uma dúzia de contas bancárias diferentes. Quem iria provar em quais daquelas contas havia dinheiro do BB? O resto da história é de conhecimento público. Ary Graça foi eleito presidente da Federação Internacional de Vôlei (FIVB), e a Confederação passou mais sete anos até que Lúcio de Castro surgisse com o Dossiê Vôlei na ESPN.

Não é tão diferente assim o caso atual da CBT. Será que Katia Mueller, a contadora autora das denúncias, consegue provar que foram utilizadas verbas públicas? E se não conseguir, o que acontece? Repito: para mim, a questão moral é tão importante quanto a legal (e sempre volto ao que escrevi neste post). O que justifica contratar e demitir domésticas com verba da CBT? Como explicar um recibo de R$ 20 mil de auxílio-moradia?

O silêncio dos jogadores

A postura dos atletas é preocupante. Nenhum dos tenistas relevantes brasileiros em atividade se manifestou (publicamente, pelo menos) sobre as denúncias desde sexta-feira. Nem Bruno Soares nem Marcelo Melo nem Thomaz Bellucci nem Feijão. Nada. Nenhuma palavra. Nem André Sá, presidente da comissão de atletas, usou suas redes sociais para levantar uma questãozinha que fosse. Ninguém entrou em quadra com nariz de palhaço.

Nem Gustavo Kuerten, que, lembremos, apoiou Lacerda quando uma assembleia de federações afiliadas mudou o estatuto e aprovou a possibilidade de um terceiro mandato do dirigente. Naquela ocasião, também lembremos, Guga, Soares, o capitão João Zwetsch e técnico Daniel Melo se manifestaram publicamente.

Para não deixar dúvida: não se sabe se houve questionamentos internos por parte dos atletas. Só me preocupa ver tanta gente importante e influente usando suas redes sociais para falar do treino de domingo, da IPTL, de Gabriel Medina e do MasterChef, sem mencionar um pingo de preocupação com o que vem sendo dinheiro com a verba (pública ou não!) que entra no tênis brasileiro.

As poucas críticas costumam vir, coincidência ou não, de ex-tenistas e gente que não usa um logo dos Correios na camisa. É o caso, como sempre, de Fernando Meligeni, um dos poucos nomes que nunca aparecem nas listas de convidados dos eventos da CBT. “Os atletas que 10 anos atrás sonharam com mudanças mais uma vez se sentem um pouco culpados. Afinal, a mudança era para ser em todos os sentidos e, se realmente for tudo verdade, fica claro que cometemos uma dupla falta no pé da rede”, escreveu em sua conta no Facebook.

A sequência de “eventos políticos”

Lacerda costuma dizer que denúncias contra sua gestão geralmente surgem às vésperas das assembleias. Desta vez, foi a nota da CBT que se referiu ao caso como “evento político”. Ainda assim, preocupa que a entidade esteja envolvida em seguidas questões com problemas em prestações de contas.

Foi assim com o Projeto Olímpico e com o Grand Champions, torneio realizado pela promotora do ex-tenista Dácio Campos. Este último, realizado com verba captada pela CBT junto à Lei de Incentivo ao Esporte (LIE), acabou com a entidade precisando devolver cerca de meio milhão de reais aos cofres públicos.

Como tudo isso vai acabar? Difícil saber. O Ministério Público provavelmente vai abrir uma investigação. Por enquanto, independentemente de questões jurídicas, legais e/ou criminais, fica no ar a esperança de que Lacerda venha a público e dê explicações ao mundo do tênis. E que elas convençam, claro. Porque, nunca é demais repetir, o legítimo é tão importante quanto o legal.


Contadora coloca Lacerda nas cordas
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Alexandre Cossenza

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A reportagem da ESPN faz um desagradável, mas importante e necessário barulho no tênis brasileiro. O presidente da Confederação Brasileira de Tênis (CBT), Jorge Lacerda, é acusado de pagar contas de luz e gás com verba da entidade, além de distribuir verba restante de contratos de patrocínio entre funcionários.

As acusações não vêm de algum grupo de oposição, mas de uma ex-funcionária, a contadora Katia Mueller. “''É claro que existia tudo. Desvio de verba, sim. Enriquecimento pessoal, sim. Pagava todas as contas lá dentro (da confederação), pedia para transferir… Ele tem auxílio moradia estipulado em tal valor mensal, aquilo que excedia ele pedia para distribuir em outras contas, isso foi feito. Ele não é remunerado. Ele tinha além dessa verba, passagem, outras contas. E pedia para tirar a nomenclatura dele de todas as contas'', diz a ex-funcionária da CBT, na reportagem da ESPN. Leiam a íntegra aqui.

A reportagem foi ao ar no SportsCenter segunda edição, na tarde desta sexta-feira, e foi complementada por comentários de Andre Kfouri e Fernando Nardini. Este, inclusive, chamou atenção para a questão do auxílio-moradia de Lacerda, que tem um valor aprovado em assembleia de cerca de R$ 11 mil mensais. Ainda assim, há recibos de até R$ 20 mil.

O que acontece agora? O Ministério Público vai decidir se aceita a denúncia feita pela contadora (tudo aponta para uma resposta afirmativa) e, a partir daí, dá sequência às investigações. A CBT, que se encontra em recesso desde o dia 5 de dezembro (vai até 5 de janeiro), ainda não se manifestou sobre as acusações.

Quem acusa quem?

Vale lembrar que Lacerda passou os últimos dias usando sua conta no Twitter questionando um torneio realizado pelo Instituto Sports com dinheiro da Lei de Incentivo ao Esporte.

Por definição, é um questionamento válido. É importante saber que as promotoras ligadas ao tênis não estão abusando da Lei de Incentivo ao Esporte (LIE) e, consequentemente, prejudicando a imagem do tênis. Mas quando quem questiona é o sujeito de acusações tão graves, parece que o momento para nós, fãs, é de colocar tudo em perspectiva.

E não esqueçamos que foi na gestão de Lacerda que a CBT teve de tirar meio milhão de reais de seus cofres porque um torneio realizado pela promotora do ex-tenista Dácio Campos, com dinheiro captado pela CBT junto à LIE, não teve suas contas aprovadas. Lacerda sempre culpou a LIE, dizendo que o legislador não compreendia as peculiaridades do tênis, mas repito a pergunta que sempre faço: será que não era a CBT que não conhecia o processo de prestação de contas e de justificação de gastos?

Uma última observação: que ninguém trate a senhora Katia Maria Freitas Mueller como coitadinha ou salvadora do tênis nacional. Ela denuncia agora e faz um grande favor ao esporte, mas se todas suas afirmações forem comprovadas, isso também significa que ela fez, silenciosamente, o trabalho sujo de Lacerda por cerca de três anos. Não é pouco.

(post atualizado às 21:20 desta sexta-feira)

Em resposta à reportagem, a CBT divulgou a seguinte nota oficial:

“Em respeito à matéria veiculada sobre a Confederação Brasileira de Tênis, o presidente da entidade, Jorge Lacerda, refuta veemente informações inverídicas que constam na mesma.

A entidade sempre agiu de forma transparente, sendo a primeira entidade a aprovar um estatuto completamente dentro do nova Lei do Esporte, inclusive com representação de atletas.

A CBT recebe verbas de origem pública e privada. Lacerda recebe um auxílio-moradia aprovado em Assembleia Geral da entidade. Esse valor mensal era usado para o pagamento dessas contas. As contas da entidade são aprovadas anualmente por vários órgãos e por auditoria independente, inclusive o valor referente ao auxílio-moradia.

A CBT afirma com ênfase que nunca utilizou verba pública para o pagamento do auxílio-moradia, aprovado pela Assembleia.

A CBT repudia fatos políticos como esse, contendo inverdades. O presidente da Federação Cearense de Tênis, Ricardo Rodrigues, comunicou que não assinou procuração alguma para a advogada Marisa Alija, conforme a matéria afirma.

A CBT irá responder a todos os questionamentos específicos que forem realizados. A entidade está em recesso coletivo neste período, mesmo assim irá esclarecer qualquer questionamento específico.''


Teliana: “As meninas são muito fechadas”
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Alexandre Cossenza

Foi um ano de experiências novas e de barreiras quebradas para Teliana Pereira. A número 1 do Brasil e atual 107 do mundo disputou pela primeira vez um Grand Slam – e acabou jogando logo os quatro -, montou um calendário com mais de uma dúzia de torneios de nível WTA e aprendeu um bocado. Na conversa que tivemos antes da coletiva de lançamento do Rio Open 2015, no Rio de Janeiro, falamos pouco sobre aspectos técnicos. A ideia era saber de Teliana como foi sua chegada nos torneios maiores. Que ambiente encontrou, quais as principais dificuldades e coisas do gênero. Acabou sendo um papo divertido (difícil não ser com Teliana), no qual a número 1 do Brasil ressaltou o quão frio é o ambiente nos torneios maiores. A pernambucana disse que ainda hoje é difícil conseguir parceiro de treino e que é quase impossível ter acesso às melhores do mundo.

O papo também passou por sua relação com Renato Pereira, seu irmão e técnico, e uma lembrança especial do Rio Open 2014 que, segundo Teliana, foi o momento em que ela passou a acreditar que era mesmo possível competir de igual para igual nos torneios de nível WTA. Leia!

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Vamos falar um pouco menos sobre tênis?
Você quer falar de quê? Futebol? Não sei se sou boa nisso! (risos)

Não, é também sobre tênis, mas um pouco menos. É que já li entrevistas suas falando sobre 2014 e de como foi um ano diferente, jogando os quatro Grand Slams pela primeira vez e mais WTAs. Mas o quanto isso muda a sua vida pessoal, fora das quadras? O quanto ela foi diferente em 2014?
Não mudou muita coisa (risos). Não mudou nada (pensativa). Eu venho fazendo minhas coisas normalmente e, para ser bem sincera, não tem nada que eu possa falar que teve uma grande mudança.

Imagino que financeiramente tenha sido o melhor ano da sua carreira…
Aí eu já não sei, tem que perguntar para o Alexandre (Zornig, namorado e manager). (risos) Mas com certeza foi um ano muito bom. Só de você pensar que eu joguei os quatro Grand Slams (com premiação média de US$ 35 mil para tenistas eliminados na primeira rodada), já dá uma…

O que você se dá ao luxo de fazer hoje e não podia antes?
Hoje, eu tenho mais condições de… né? Na verdade, eu não sou de esbanjar. Sou muito tranquila, sou caseira pra caramba. Fico com a minha família. Mas não teve nada assim…

Mas por exemplo… O que você fez com seu primeiro prêmio de Grand Slam?
Guardei!

Guardou?
Claro (risos)! Estou pensando no meu futuro! Não fico… Até porque não é tanto dinheiro assim. Estou guardando para o meu futuro. Pretendo construir a minha vida, ajudar meus irmãos, minha família, então estou guardando mesmo.

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Não foi seu primeiro ano jogando torneios de nível WTA, mas este ano foram 14 eventos. Você já está à vontade?
Estou super à vontade.

Não é um impacto mais, então?
Não. O bom de tudo isso é que as coisas, antes, eram tudo novidade. Chave de Grand Slam era novidade, jogar um WTA era… nossa, wow! Ainda mais quando eu fiz a semifinal em Bogotá, que parecia uma coisa de outro mundo. Hoje em dia, não. É normal, eu me sinto muito à vontade. Porque na verdade você acaba frequentando e conhecendo as jogadores. A entrada é um pouquinho difícil e estranha porque você não conhece muito as meninas, mas agora eu me sinto super à vontade. Conheço todas as meninas do circuito. Isso se tornou algo normal, não é nada de outro mundo.

A gente sabe que existe uma diferença grande de estrutura, mas o ambiente é muito diferente também?
O ambiente é mais profissional, com certeza.

Mais frio?
Isso. A estrutura é muito melhor. Eu sei porque jogo WTA e ITF também. Não tem nem como comparar. No WTA, eu sinto que as meninas são mais (pensando)… Cada uma vive mais na sua, sabe? Cada um faz o seu treino e vai embora. Na verdade, tênis não tem muita amizade, né? No WTA, não muda muito isso.

Isso era outro assunto que eu tinha na lista aqui. A Sharapova já falou algumas vezes, e a Bouchard falou também algo do tipo “a gente não está aqui para fazer amizade. A gente está aqui para competir.” Mas dá para ter amizade?
Dá para ter amizade, mas o que você tem que ver é que ali você está competindo. Não adianta falar “não estou ali para fazer amizade” e ter o teu ambiente de trabalho desagradável. Tem que ser agradável. Não vou te falar que tenho melhores amigas, mas me dou bem com a Mariana Duque, com todas brasileiras e outras jogadoras. A Niculescu é uma menina que é muito simpática e estou sempre treinando com ela, eu me dou bem com a Paula Ormaechea… Eu não sou muito difícil de lidar, eu acho (risos). Agora… Ter melhores amizades… Realmente, isso é difícil porque a gente treina, está cansado, perde e quer ir embora, não quer ficar ali, sabe? Quando você chega no hotel, desliga um pouquinho. Você fala com a sua família, namorado, o que seja. Então eu não vou à procura de ficar conversando. Sou mais na minha.

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Nos primeiros WTAs, foi difícil conseguir parceiro de treino?
É difícil.

Ainda é?
Ainda é. As meninas são muito fechadas. Principalmente as melhores. Elas raramente treinam entre elas. Cada uma tem lá… Quando não está viajando com sparring, tem no torneio, que eles dão. Então às melhores não tem como ter acesso. Mas as outras meninas, que você já conhece dos outros torneios, você marca treino. Mas depois chega um nível em que você acaba se fechando um pouquinho mais. Eu, por exemplo, tento fazer um período com meu irmão, um período jogando set com as meninas. Não dá para ficar só fazendo treino com as outras jogadoras porque às vezes você quer trabalhar uma coisa que não é boa para aquela pessoa. Aí não bate o treino, né?

E Grand Slam é muito diferente? Digo na parte de relacionamento…
Não. É bem parecido, só que fica um pouquinho mais… Sinto que as pessoas ficam um pouquinho mais distantes pelo fato de ser muita gente, aquela loucura. Querendo ou não, é um entra e sai de vestiário, é um negócio bem louco assim. Mas é bem parecido com os WTAs.

Chega ao ponto de afetar o jogo da pessoa? Acontece de você, por não estar se sentindo à vontade no ambiente, entrar na quadra meio tímida também? Já aconteceu com você?
Não, nunca aconteceu comigo. Às vezes acontece de você entrar e não conseguir jogar porque é uma coisa nova. WTA, torneio grande, então… Eu lembro que fiquei muito tensa. Apesar de que é bobeira. Se você for pensar, é só mais um jogo na sua vida, não vai mudar grande coisa. Mas acho que é isso. Faz parte.

Mas isso te incomoda? Ou é questão de acostumar com o ambiente?
É uma questão de acostumar. Não me incomoda nem um pouco, até porque eu também estou sempre viajando com o Alexandre ou com meu irmão (Renato Pereira, seu técnico). Nunca estou sozinha. O ruim é quando a menina viaja sozinha, mas são poucas que fazem isso porque você acaba ficando numa solidão. As meninas não dão muita abertura, né? Mas eu estou super acostumada. Eu sou assim, mais quietinha, também.

Fala um pouquinho agora da sua relação com o Renato. O quanto de influência dele tem no seu jogo?
Bastante.

Em que parte tem mais?
Quando eu era pequena, eu sempre admirava o jogo dele. Eu sempre gostei. Querendo ou não, ele jogava muito parecido comigo. Claro que eu dou palpites porque sou eu que jogo e estou dentro da quadra, mas se você for ver, é bem parecido. Mas eu escuto 100% o que ele fala. A gente tem um relacionamento muito bom. É claro que irmão e técnico é difícil separar. Às vezes a gente estava se desentendendo um pouquinho na quadra e, duas horas depois, almoçando junto em casa… Ele é casado, eu moro com meus pais, só que ele passa o dia inteiro lá em casa, praticamente (risos). Então é um pouquinho isso. Ele é a-pai-xo-na-do, doente por tênis, ele só fala de tênis. E eu às vezes em casa não estou a fim de falar de tênis. Quero mudar um pouco. Essa parte é um pouco difícil, mas a gente está se dando super bem e… Ah, a gente é muito próximo. Nós somos em sete irmãos e todo mundo se dá muito bem. Eu tenho muita sorte de ter a família que eu tenho porque a gente é muito grudado.

Em cada momento, em cada fase de um tenista, o técnico cobra mais um aspecto do jogo. Hoje, o que o Renato vem cobrando mais?
É legal isso que você falou porque as jogadoras estão trocando muito de técnico e, querendo ou não, cada um trabalha um pouquinho mais uma coisa. O fato de o Renato me conhecer há tento tempo… Ele sabe o que eu gosto, e a gente não fica naquela de “ah, hoje vamos trabalhar isso?” Não tem não saber o que fazer. O que ele cobra muito, muito mesmo, é a parte de agressividade. Ele quer que eu seja muito mais agressiva, mas ao mesmo tempo sem perder a minha característica. Eu corro na quadra, devolvo tudo. E acho que é isso mesmo. Ele vem cobrando bastante eu sair de trás um pouquinho e ir entrando aos poucos (na quadra). Isso falta um pouquinho. E ritmo de jogo, né? Hoje em dia, o tênis está tão rápido que você tem que ter velocidade de bola e muita regularidade. É isso que estou trabalhando bastante agora, nessa pré-temporada.

A Teliana de hoje é melhor tenista que a começou 2014? Tecnicamente ou mentalmente?
(faz pausa para pensar) Eu venho tentando melhorar. Acho que tecnicamente eu melhorei bastante. Tenho muito ainda que melhorar, ainda bem, né? Acho que o ponto que eu mais melhorei foi a parte mental. Eu ganhei muita experiência este ano. O fato de ter jogado os Grand Slams, de ter jogado aqui no Brasil e ter passado por coisas muito novas… Eu não estava acostumada com isso! E o fato de ter passado por toda aquela dificuldade do joelho, de não saber se ia voltar a jogar ou não… E agora de novo eu tive que parar por um tempo… Eu estou mais madura, me adapto melhor às situações.

Eu fiz mesma pergunta para o Thomaz (Bellucci)… A gente está aqui numa coletiva de anúncio do Rio Open e é um torneio que deixou boas lembranças suas em 2014. Você jogou com torcida a favor, com clima a favor, muita coisa legal a favor, e você fez uma semifinal. Qual é a lembrança mais forte?
Com certeza, foi meu segundo jogo, com a austríaca (Patricia Mayr-Achleitner, 81 do mundo na época – veja no vídeo acima), que eu dei muita sorte. A rodada atrasou, e o Nadal jogava logo depois do meu jogo. Aquele jogo foi algo assim… Que eu nunca vou esquecer. Tinha muita gente assistindo, aquela quadra gigaaaaante e… Não sei! Foi o momento que mais me soltei. Estava olhando o vídeo ontem e falei “caramba, nunca imaginei que eu ia fazer aquilo, sabe?” Foi, com certeza, o momento mais especial. Depois, o fato de ter feito uma semifinal, foi um baita resultado. Eu andava, as pessoas vinham falar comigo, me reconheciam… Isso levantou a estima e, querendo ou não, me ajudou muito a poder elevar meu nível no ano e ver que eu também estava ali, no meio das melhores, sabe? Que eu poderia ir bem. Tanto que depois fui super bem em Charleston (derrotou a romena Sorana Cirstea, 27 do mundo, e alcançou as oitavas de final), fui só melhorando. Pena que eu não consegui terminar o ano (por causa de uma lesão no joelho), mas aprendi muito aqui. Espero que o ano que vem seja melhor!


Bellucci: “Algumas necessidades não foram preenchidas”
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Alexandre Cossenza

Depois de abrir a temporada na 125ª posição do ranking mundial e fechar 2014 no 65º posto, Thomaz Bellucci ficou sem técnico. O espanhol Francisco Clavet, com quem trabalhou desde outubro de 2013, pediu o fim da parceria. Restou ao número 1 do Brasil ir em busca de outro treinador. Nesta quarta-feira, pouco antes da coletiva de anúncio do Rio Open, o paulista de 26 anos bateu um papo comigo sobre o processo, que já está em andamento. Sem revelar com quem já vem conversando, mencionou as dificuldades impostas pela distância ao trabalhar com um técnico europeu e disse que “algumas necessidades não foram preenchidas''. Ainda assim, ressaltou que veio do espanhol a iniciativa de terminar a relação.

Bellucci também disse que tem necessidades diferentes das de quatro anos atrás e afirmou que hoje em dia, há mais profissionais dentro do Brasil capazes de atuar ao lado de um tenista de alto nível. No fim, o número 1 do país também falou sobre o quão diferente é, no aspecto mental, começar uma temporada com um ranking que lhe permite evitar os qualifyings. Veja como foi a conversa.

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Quando você procura um técnico, por que lado você vai mais? É melhor um cara que vai te acrescentar mais na parte técnica e tática ou é mais importante alguém com uma personalidade que vai casar com a sua porque é alguém com quem você vai precisar conviver por tanto tempo?
Acho que os dois são importantes. A personalidade é essencial. Se você não está do lado de alguém com quem você se sente bem, que é seu amigo mesmo, não tem como trabalhar junto. Tenista tem uma coisa muito peculiar que é ficar praticamente 24 horas com seu técnico. Se ele não for mais do que seu técnico e seu amigo, não tem como trabalhar junto. Lógico que o cara como profissional tem que ser bom também, mas tem que ter os dois. Tem que ser um cara bem companheiro fora da quadra, que entenda o que você precisa e, como profissional dentro da quadra, te dê tudo preciso para evoluir seu jogo.

Deu para desenvolver isso com todos técnicos com quem você trabalhou?
Alguns mais, alguns menos, mas a maioria deles, hoje em dia, eu sou amigo. Nunca tive nenhum problema pessoal com eles. Os que eu deixei de trabalhar foi pelo aspecto profissional mesmo, eu achei melhor interromper. Mas com todos eu tive amizade. O Dani (Daniel Orsanic), por exemplo, eu dormia na casa dele quando ia treinar na Argentina, passei Natal e Reveillon com a família dele… Muitas vezes a gente estava junto em momentos que não eram profissionais. Todos meus técnicos, na verdade, eu cheguei a ser amigo, frequentei a casa deles, tive amizade com a família, nunca tive problema quanto a isso.

Quando conversei com o Lui (Carvalho, diretor do Rio Open e manager da carreira de Thomaz Bellucci) na semana passada sobre o fim da sua parceria com o Pato (Francisco Clavet), ele disse que a ideia era ter um técnico brasileiro. Depois de trabalhar com um argentino e um espanhol, dá para dizer que é muito diferente trabalhar com um brasileiro?
Ah, muda bastante coisa. Quando é sul-americano, não muda muito. Mais quando é europeu. Com o Pato, eu senti um pouco este ano. Muitas vezes, eu queria que ele estivesse mais próximo de mim, mas ele estava na Espanha e eu estava em São Paulo. Algumas necessidades não foram preenchidas. Ele tinha a família dele, não podia viajar muito. A gente já viajou bastante. Foram seis, sete meses durante o ano. É diferente. A cultura é diferente. A questão do deslocamento pesa bastante, já que a gente está cada semana em um lugar diferente… Muda bastante. Mas não foi essa a razão de eu terminar com ele. Foi mais pelas razões pessoais dele. Ele que quis terminar a parceria. Acho que hoje eu busco alguém dentro do Brasil, mais perto de mim. Nos últimos anos, isso foi uma complicação. Uma coisa que eu consegui melhorar nos últimos meses deste ano foi contratar o Eric Gomes, que é um cara de São Paulo. Muitas vezes, quando não estava com o Pato, o Eric me ajudava, me dava os treinos. Isso eu não tive no primeiro semestre. Eu só viajava com o Pato e treinava sozinho quando estava em São Paulo. É complicado ficar treinando muito tempo sozinho. Muitas vezes não é produtivo. No segundo semestre, acho que isso foi uma mudança que fez efeito no meu jogo. Comecei a trabalhar com Eric em junho, julho, e em agosto, quando fui para o US Open, já estava jogando um pouco melhor, com um pouco mais de confiança e segurança dentro de quadra. Aí o Pato conseguia me pegar nos torneios um pouco mais preparado. Para o ano que vem, se eu conseguir melhorar isso, com o Eric em São Paulo e outro técnico um pouco mais perto, isso pode ser bom para a minha carreira.

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É um momento da sua carreira em que você não precisa mais de um técnico que fique 24 horas com você?
Não que eu não precise de técnico. Acho que todo mundo precisa. Mas acho que as necessidades que eu tenho hoje são diferentes das que eu tinha há três, quatro anos. Eu era um jogador em desenvolvimento, tinha muita coisa a aprender, não tinha certeza do que eu queria num técnico, não tinha certeza das coisas que eram boas para mim antes de um jogo ou durante um jogo. Hoje em dia, tenho tudo mais claro. Sei o que precisa ser feito numa pré-temporada, do que eu preciso de um técnico… Hoje em dia, tenho necessidades diferentes e é isso que vou buscar num técnico novo.

A gente está falando de três, quatro anos atrás. Nessa época, chegar num ATP sem um técnico te deixava um pouco mais inseguro do que fazer isso hoje?
Acredito que sim. Mesmo sem um técnico, é sempre bom você ter a presença de um preparador físico, um fisioterapeuta, um amigo até. É legal ter alguém te apoiando e ajudando nas coisas básicas. Marcar treino, massagem, falar com um diretor de torneio… Isso tudo faz diferença. Você às vezes demora muito tempo para fazer as coisas. Hoje em dia, lógico. Se eu vou sozinho, consigo me virar melhor do que quatro anos atrás. Antes eu precisava de um cara que me atendesse em tudo. Hoje, eu já consigo fazer algumas coisas eu mesmo. São épocas diferentes da minha carreira.

Quando comentei no Twitter que você queria um técnico brasileiro, teve gente que lembrou daquela entrevista polêmica (Bellucci disse que havia poucos técnicos no Brasil) em… 
Foi no final de 2010. Quatro anos atrás, eu acho.

Isso! E o Lui argumentou que são muitos os nomes no Brasil hoje. Ele disse que tem Ricardinho, Marcos Daniel e citou um monte de gente, inclusive o Eric. Você também vê por aí? Tem muito mais opção no Brasil hoje?
Comparado há quatro anos, o Brasil tem mais opção. O Ricardinho e o Marcos Daniel, por exemplo, naquela época não eram treinadores. O Eric parou de jogar faz também quatro anos. Está mudando um pouquinho isso. O Júlio Silva, hoje, é técnico. Alguns ex-jogadores estão começando a entrar na carreira de técnico. Mudou um pouquinho isso. Hoje em dia, você tem um pouco mais de opção de técnicos de alto rendimento. O que eu falei naquela época é que não tinha muitos técnicos para o meu nível. Alguns caras preparados, com experiência, para treinar um cara top 50, top 100. Hoje em dia, você tem mais. Isso que eu falei que foi mal interpretado. Você tem técnicos, mas não para certos níveis de jogadores. Para esse nível, o técnico tem que ter experiência nesse meio. Não adianta o cara que nunca jogou tênis conseguir ser técnico nesse nível. São muito poucos que conseguem formar um jogador sem ter sido jogador de alto nível.

Aproveitando que a gente está aqui para uma coletiva no Rio Open, qual a lembrança mais marcante que você tem do torneio deste ano?
Mais marcante?

É. Você não estava num momento bom de ranking, ganhou jogos difíceis, de virada, teve torcida a seu favor o tempo inteiro… O que te vem mais à sua cabeça quando você pensa naquele torneio?
Acho que tudo foi marcante. Desde eu vir de Buenos Aires, de um desastre que tive lá, perdi na primeira do quali. Desde a preparação. Vim uma semana antes, fiquei aqui no clube treinando… Nem tinha jogador aqui no clube ainda… Mas acho que o momento mais marcante foi a primeira vitória. Foi muito forte porque eu estava num momento complicado, estava fora do top 100. Era um jogo que ele (Santiago Giraldo) era favorito, estava jogando melhor do que eu. Comecei mal o jogo. Estava nervoso, tenso, e consegui dar a volta por cima. Foi o momento mais marcante. Depois de lá, eu dei uma soltada, sabe? Saiu o peso das minhas costas. Consegui ganhar um joguinho no Rio Open. Depois passei a jogar melhor.

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Começar uma temporada como 65 do mundo é muito diferente de abrir o ano estando fora do top 100 por toda questão de calendário e planejamento. E mentalmente, muda o quê?
Muda tudo! Ano passado eu comecei o ano 130, 125. Eu tinha a metade dos pontos que eu tenho hoje. De 130 para entrar no top 50, é muito ponto. Pra sair de quali pra entrar no top 50, você precisa fazer um primeiro semestre muito bom. Ano passado, eu fiz um primeiro semestre não tão bom, o que me dificultou muito para entrar no top 50. Eu tinha que jogar quali, tinha que jogar os torneios menores. Este ano, vai mudar completamente. Já consigo jogar os torneios maiores no começo do ano, já vou conseguir me poupar nos menores. Em Buenos Aires, por exemplo, não preciso jogar quali. No Rio, tomara que não precise de convite. Em São Paulo e Quito, se eu quiser jogar, entro direto. É completamente diferente. O jogador já está na chave, não precisa chegar cinco dias antes para, de repente, pegar três jogos difíceis no quali… Muda muita coisa. Eu não sou um cara que precisa passar quali para ganhar ritmo. Eu sei que quando estiver na chave consigo ganhar de qualquer jogador. Hoje em dia, é importante eu chegar no torneio confiante que eu posso ir bem independentemente de quantos jogos eu faça.

Mas você joga menos ansioso? O quanto isso afeta o seu tênis? Por exemplo: você chega para um torneio com uma conta na cabeça do tipo “preciso ganhar três, quatro jogos para somar X…”
É diferente você entrar no torneio sabendo que se você ganhar dois jogos você está nas quartas do que você ganhar três e só estar na chave. Você soma 12 pontos, praticamente nada. Então é diferente entrar com a expectativa de dois jogos ou cinco jogos, mesmo que os do quali sejam mais fáceis.


Um Rio Open melhor e mais caro
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Alexandre Cossenza

O Rio Open 2015 foi lançado nesta quarta-feira com muita pompa. Globais no palco, os melhores tenistas do Brasil disponíveis para entrevistas e meia dúzia de patrocinadores (numa longa introdução) dizendo de seis maneiras diferentes como é importante a parceria com o evento, que continuará com sede no Jockey Club Brasileiro. Na parte prática, a que interessa para o fã de tênis, nenhum nome de peso foi anunciado (Rafael Nadal já está confirmado há algum tempo), mas os preços foram revelados e algumas mudanças no complexo estão encaminhadas.

Comecemos pelos valores, que estão no quadro abaixo. Ver o torneio do ano que vem sairá mais caro. Em 2014, para comprar todas sessões o fã teria de desembolsar, no mínimo, R$ 1.140. Em 2015, o menor preço possível é de 1.620. É uma diferença considerável – fiz o cálculo desconsiderando meia-entrada e usando o valor das cadeiras laterais em todas as sessões.

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Na prática, a diferença é um pouco menor (mas só um pouco) porque este ano não haverá a cobrança de taxa de conveniência. Lui Carvalho, com quem conversei após a coletiva, explica o reajuste:

“Quando se precifica um ingresso pela primeira vez, você não tem parâmetro. A gente podia ter colocado aquele valor e não ter vendido nada, e a imprensa iria falar que era muito caro. Vendeu super bem, mas a gente não acredita que vendeu super bem porque o preço dos ingressos estava baixo. Vendeu super bem porque no builup no evento, as pessoas começaram a falar bem. A gente tinha Nadal, a estrutura era incrível. Agora, com um ano nas costas, a gente entende o valor do evento. É uma acomodação que você tem. Você faz o primeiro ano, bota um preço e começa a comparar com os outros eventos e com o que eles entregam, que jogadores têm, qual é a estrutura. Então poxa, a gente tem que elevar nosso patamar. A gente está onde está o 500 de Pequim, o 500 de Valência, que é um evento super top. A gente precisa elevar e encontrar nossa zona de conforto de preço de ingresso. É elevado porque a gente sabe que tem Nadal, a gente sabe que vai entregar uma área de comida incrível… O evento é top. Mas mesmo assim, os ingressos não estão caros. Eles subiram, mas a gente não cobra mais taxa de conveniência. Você já joga 10% abaixo. Tem taxa de entrega (fixa, de R$ 29, em vez da do ano passado, que era cobrada a cada ingresso adquirido), mas se você quiser que entregue na sua casa. Vai ter a opção de pegar aqui. Então os ingressos subiram de 30 a 50%, mas se você tira os 10%, já fica de 20 a 40%. A inflação está 9%. O número, 30 a 50%, dá uma assustada, mas se você comparar nossos eventos com os outros, a gente está na linha do que os outros estão cobrando.”

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Vamos, então, às outras mudanças anunciadas na coletiva:

– Uma quadra a mais (serão nove no total). Faz uma boa diferença. E Carvalho prometeu, inclusive, que isso facilitará a inclusão de jogos de duplas dos brasileiros na quadra central – algo que foi motivo de polêmica na edição deste ano.

– Uma arquibancada nova. Ficará no fundo da quadra 2 (vide mapa). Melhorará o acesso de quem quiser acompanhar os treinos dos principais tenistas.

– Melhorias na área de alimentação

– Novo acesso, com caminho mais curto desde a entrada até a área de jogo.

Umas das preocupações quando o torneio acabou em 2014 (e essa entrevista explicou muito na época) dizia respeito aos muitos assentos vazios, embora não houvesse mais bilhetes disponíveis ao público. Lui Carvalho explicou que muito daquilo aconteceu porque entradas ficaram nas mãos de patrocinadores que não preencheram os espaços. Nesta quarta-feira, o diretor do torneio mostrou-se mais esperançoso para a edição 2015.

“No primeiro ano, é difícil para o patrocinador fazer uma logística de distribuição de ingresso. Agora ele entende melhor o evento. Não vão ficar muitos assentos vazios. Mas algumas coisas é impossível fazer. A gente não vende ingresso com visão parcial (alguns fãs deixaram assentos vazios nas laterais da quadra e mudaram-se para assentos com visão parcial, que não foram colocados à venda – o que provocou parte dos “buracos” nas arquibancadas). Outros eventos fazem, mas a gente não vai fazer isso. E alguns ingressos a gente tem que reservar para efeito de alguma emergência, do tipo alguém que senta em uma cadeira quebrada e precisa trocar de ingresso. A gente vai melhorar. É difícil consertar 100% de um ano para o outro, mas a gente vai melhorar.”

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Coisas que eu acho que acho:

– Não deixa de ser um pouco preocupante, mas na coletiva do Rio Open do ano passado, também realizada no dia 3 de dezembro, dois grandes nomes já estavam confirmados (Nadal e Ferrer). Este ano, apenas Nadal é presença certa (se outra lesão não vier, claro). Será que ainda vem mais gente de peso? E será que teremos casa cheia “só” com Nadal?

– O torneio de 2015 será disputado de 16 a 22 de fevereiro, com os primeiros dias durante o Carnaval (dia 17 marca a terça-feira do feriado). A organização do evento e o o secretário de turismo do Estado do Rio, Antônio Pedro Figueira de Mello (também presente) acham que os dois eventos se complementam. Dá para concordar. Já vi um belo Brasil Open em São Paulo no mesmo período. Lá, com o trânsito mais leve, o acesso foi ainda mais fácil. No Rio, com tantos blocos de rua na Zona Sul, talvez não seja tão simples chegar ao Jockey Club. Aguardemos para ver.

– Falando em acesso, nem tudo melhora no Rio Open. O torneio continuará sem estacionamento, pedindo ao público que use transporte público. Foi assim em 2014. Os táxis, nem sempre fáceis de encontrar, fizeram a festa.


Quem ajuda o esporte?
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Alexandre Cossenza

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Há duas semanas, estive em Florianópolis a convite dos alunos de direito da Universidade Federal de Santa Catarina para compor uma mesa de debates com o tema “crise no esporte”. Gostaria, então, de compartilhar aqui alguns dos tópicos que foram levantados na ocasião. Afinal, muitos deles estão presentes no dia a dia do tênis brasileiro.

Coordenada por Rodolfo Prado, a mesa foi composta pelo professor Paulo Murilo, ex-técnico de basquete profissional e autor do blog Basquete Brasil, pelo Doutor Felipe Ezabella, sócio-fundador do Instituto Brasileiro de Direito Esportivo, pelo advogado Martinho Neves Miranda, coordenador jurídico da candidatura olímpica do Rio 2016, e pelo Doutor Rodrigo Bayer, que é mestre em Direito pela UFSC e presidiu os trabalhos.

Conversamos sobre diversos aspectos do esporte no Brasil. Desde a falta de uma política esportiva para crianças até as falhas no alto rendimento. Abordamos o processo vicioso em que a escassez de atletas de ponta (proporcionalmente à população brasileira) gera a falta de técnicos de alto nível. Falamos também sobre os muitos recursos jurídicos existentes para beneficiar o esporte, de como eles são mal aproveitados, e da ausência de uma agência reguladora.

Por fim, em um belo texto de encerramento, o Doutor Rodrigo Bayer ressaltou quanto tempo havíamos passado (foram três horas de mesa) abordando aspectos morais – mais de legitimidade do que de legalidade. E é justamente aí que o tênis tropeça. O que sinto (e disse isso na mesa) é uma Confederação Brasileira bem intencionada, mas que esbarra, vez por outra, em questões pessoais e na arrogância para destratar quem ousa emitir uma opinião diferente.

Aconteceu comigo há pouco tempo. Incomodado com uma menção feita neste blog aos tamanhos dos bancos de reservas brasileiros na Copa Davis (neste post), o assessor de imprensa da CBT me enviou mensagens, dizendo que eu havia feito uma comparação “ridícula” (e nem havia comparação no texto). Depois, quando relatei o episódio no Twitter, mandou outra mensagem mal educada. Conduta que passa longe do que qualquer um gostaria de ver em uma pessoa que veste o uniforme da entidade que controla o tênis brasileiro.

Discorda de algo? Tudo bem, conversamos educadamente. Já fiz isso com atletas, dirigentes e assessores. Tenho um blog há sete anos, opiniões diferentes não me incomodam. Pelo contrário. Debates são saudáveis e podemos discutir o tempo que for sobre o banco da Copa Davis, quem está ou deixa de estar lá. Acho que gente demais atrapalha. Não acho que seja lugar de assessor de imprensa. Não acho que seja lugar para presidentes, dirigentes ou empresários/managers. Quanto mais pessoas ali, maior a chance de algo desagradável acontecer. Ou alguém achou bacana ver Jorge Lacerda, presidente da CBT, dirigente máximo do tênis brasileiro, dizendo impropérios para Mike Bryan (ou era Bob?) naquele confronto em Jacksonville, contra os Estados Unidos? Mas há quem discorde. E tudo bem, quando o diálogo se dá civilizadamente.

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Mas eu divago. A CBT comprou algumas brigas pequenas nos últimos anos. Ameaçou punir clubes, árbitros, treinadores e atletas que participassem do Circuito de Tênis Escolar Universitário, patrocinado pelo Itaú e realizado pela Try Sports, cujo dono é Nelson Aerts, com quem Lacerda tem diferenças. A entidade fez ameaças semelhantes lá atrás, no Nike Junior Tour, outro evento da Try Sports (que se defendeu assim). Aliás, na última semana Lacerda inclusive usou o Twitter para questionar um torneio juvenil no Rio de Janeiro realizado pelo Instituto Sports (IS). Segundo ele, o IS captou mais de R$ 1 milhão para o evento. O valor é alto, e é bom mesmo que todos, sem exceção, sejam fiscalizados. Foi assim que a CBT teve de desembolsar meio milhão de reais após captar verba para um torneio promovido pelo ex-tenista Dácio Campos.

A CBT também negou credenciamento na última Copa Davis à jornalista Diana Gabanyi, ex-assessora de Guga que já chefiou WTA Finals, trabalhou para a ITF em Copas Davis e é credenciada em qualquer Grand Slam. Por quê? Oficialmente, a CBT respondeu que houve muitos pedidos e nem todos foram atendidos. Mas que critério deixou uma das jornalistas mais experientes do Brasil fora de uma Copa Davis? Essa explicação, qualquer que seja, não vai convencer.

Diante do que foi colocado neste post, valem mais do que nunca as perguntas. Qual dessas condutas ajuda o tênis? Em que momento o esporte saiu ganhando? De novo: não questiono as intenções ou a competência da CBT. Tem gente boa, que sabe o que faz, por lá. Mas o quanto se perde no caminho, diante de brigas pessoais e da dificuldade em receber críticas? E por que alguém precisaria vincular-se à CBT para ajudar o tênis? Mas é assim que a entidade enxerga o esporte.

Atrapalha?

Já faz algum tempo que Fernando Meligeni posta, em sua conta no Facebook, vídeos de dicas. São gravações curtas que abordam diversos aspectos do tênis. Como lidar com tal tipo de adversário, que tipo de preparação fazer antes de uma partida, o que fazer para tirar o máximo de seu equipamento, etc.. São vídeos sem produção, gravados em casa, sem patrocinador, nada. Simples até demais. E é aí que reside a beleza da coisa toda.

Quem viu todos esses vídeos já tem uma clínica inteira de tênis sem sair de casa. Fosse outra pessoa (e não é indireta pra ninguém, é bom dizer), pensaria algo nas linhas de “não vou fazer isso de graça, vou guardar para as clínicas que me pagam para fazer''. Não é o caso do Meligeni. Os vídeos estão lá, de graça, de coração. E basta ver 30 segundos para entender que ele faz aquilo com sinceridade. A recompensa é o feedback que recebe de tenistas amadores por toda parte.

Ainda assim, já ouvi mais de uma vez, inclusive de Jorge Lacerda, que Meligeni não ajuda o tênis. Porque não está ligado à entidade. Porque faz críticas quando acha necessário. E não estou fazendo aqui a defesa de um campeão pan-americano, semifinalista de Roland Garros e número 25 do mundo – ele não precisa. Mas não é só via CBT que se ajuda o tênis. Professores de clubes, presidentes de projetos sociais, ex-tenistas que “só'' dão clínicas, promotores de torneios, patrocinadores, comentaristas, jornalistas, tenistas profissionais em atividade… Todos contribuem, direta ou indiretamente, para o esporte.

Só que cada um escolhe sua maneira de ajudar. O dever de todo mundo, e acredito que principalmente da CBT, é entender que nem todo mundo é obrigado a colaborar por meios “oficiais''.

Coisas que eu acho que acho:

Acho até que é uma discussão interessante: é legítimo (seja por CBT, Instituto Sports ou federações) utilizar verba pública para a realização de torneios de veteranos, Challengers e ATPs? Dá um bom debate. O projeto olímpico, a meu ver, tinha muito mais razão de ser, embora vendê-lo como “olímpico” tenha sido mais marketeiro do que qualquer coisa – no tênis, quase ninguém sai do juvenil para se tornar atleta olímpico em três anos. Mas foi outra iniciativa que ficou pelo caminho. A CBT alegou “falta de conhecimento da fiscalização vigente sobre a realidade da modalidade”, mas também pode se dizer que a entidade desconhecia os mecanismos legais e de fiscalização quando deu início ao projeto.