Saque e Voleio

Djokovic e o inteligente gerenciamento de riscos
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Alexandre Cossenza

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Entre os estranhos números da esquisita semifinal entre Novak Djokovic e Stan Wawrinka, dois me chamaram a atenção em especial. Ambos do sérvio. No terceiro set, vencido por 6/4, o número 1 do mundo disparou modestos quatro winners e cometeu dez erros não forçados. Na parcial seguinte, um 6/4 a favor de Wawrinka, Djokovic não fez nenhuma bola vencedora e cometeu 14 falhas.

Antes de ir adiante, é bom deixar claro que não dá para dizer que o sérvio teria vencido o quarto set se tivesse igualado a linha estatística da parcial anterior. Sim, seriam oito pontos de diferença (quatro a mais para um, quatro a menos para outro), mas não é uma ciência exata. O “quando'' do número de pontos importa tanto ou mais que o “quantos''.

Dito isto, é preciso considerar também que o líder do ranking ganhou menos pontos no ataque do que na defesa nesta sexta-feira. Consequência de um dia ruim? Sim, é inegável que Djokovic esteve bem abaixo de seu nível costumeiro – assim como Wawrinka. Só que também é resultado de um plano de jogo inteligente e calculado, que costuma dar certo contra o suíço (os dois suíços, aliás).

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A estratégia é interessante. É bem sabido Djokovic sabe se defender como poucos e, ao mesmo tempo, sustentar longas trocas com bolas consistentemente fundas. Contra Wawrinka, um tenista agressivo e disposto a correr riscos, Nole aposta que vai triunfar assim: sem dar pontos de graça, desafiando Stan a executar bolas improváveis.  Um bocado delas.

Mas não é só o plano. Não é só devolver bola. É a execução, o “como'', que faz a diferença. Contra Wawrinka, Djokovic evita os ângulos (o oposto do que faz com Nadal). O suíço agride com muito mais eficiência dos cantos da quadra. Quando precisa rebater do meio da quadra, Wawrinka se vê diante de duas opções. 1) Arriscar (mais do que o normal) na busca de ângulos para fazer Djokovic correr atrás da bola; ou 2) Seguir trocando bolas no meio, esperando uma bola mais curta para, enfim, atacar com tudo.

As duas opções são ruins para Stan. Na primeira, de dificílima execução, os riscos são altos. Com a velocidade de Nole no fundo de quadra, qualquer ataque precisa ser muito, muito preciso – e com muita potência. No segundo cenário, mais conservador, Wawrinka leva desvantagem no quesito consistência. Uma bola menos agressiva, uma bolinha que seja, e o suíço vai se ver correndo atrás do ponto. E Stan não se defende tão bem quanto o número 1.

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Djokovic, claro, também corre o risco de encontrar Wawrinka num dia inspirado. Só que aconteceu isso em 2013 e, nem assim, o suíço venceu. Mesmo no ano passado, em outra noite brilhante de Stanimal, Nole só perdeu quando cometeu erros bobos no fim do quinto set. Mais do que isso, o histórico dá a resposta: o sérvio venceu 17 de 20 encontros e, mais importante, acumula um placar de 6 a 1 desde (incluindo) aquele jogão de 2013 em Melbourne. Não é difícil entender porque Djokovic insiste nesse tipo de tática.

E tem mais: Djokovic sabe jogar no ataque. Se Wawrinka realmente estiver endiabrado, o sérvio tem jogo para sair lá de trás e agredir mais – o suficiente para, ao menos, forçar o adversário a recuar (ou agredir ainda mais e, consequentemente, correr mais riscos).

Muita gente prefere ver um Nole mais agressivo, distribuindo pancadas e fazendo marionetes dos adversários – como, repito, ele faz com Nadal. Mas cada bolo pede uma receita diferente. Dois jogos em Paris servem como exemplo. Em 2011, na melhor temporada de sua vida, Djokovic resolveu encarar Roger Federer na pancadaria em Roland Garros. Acabou lindamente derrotado. Foi seu primeiro revés em todo ano. Em 2012, suíço e sérvio se encontraram de novo no saibro parisiense, e Nole apostou na cautela. Venceu por três sets a zero.

Tática nenhuma ganha jogo por si só. O que diferencia Djokovic da maioria e lhe mantém na liderança do ranking é a capacidade de executar à perfeição seus planos de jogo. E, obviamente, a quantidade de armas de seu tênis, que permite uma dúzia de planejamentos e replanejamentos antes e durante as partidas. Logo, hoje em dia, faz-se necessária uma combinação improvável de fatores para que Djokovic saia de quadra derrotado.

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Coisas que eu acho que acho:

– Ainda sobre o jogo, vale lembrar outra estatística sobre o número de winners de Djokovic. Ao todo, eles foram 27 em 48 games. Dá um pouco mais de meio winner por game (0,56). Wawrinka, por sua vez, executou 42 bolas vencedoras (0,875 por game). Nem só de winners vive o tênis…

– Baseado só nas semifinais, alguém pode ficar tentado a apontar Andy Murray como favorito. Não vejo assim. O escocês joga seu melhor tênis em muito tempo (desde Wimbledon 2013, talvez?) e Djokovic vem de uma atuação nada inspirada, mas cada dia é um dia. A maneira de Nole atuar contra Môri é bem diferente.

– Sobre a semi entre Murray e Berdych, muitíssimo bem jogada por ambos, destaque para a reação de Murray, que perdeu o set inicial e respondeu com um pneu logo em seguida.


Zerou
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Alexandre Cossenza

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Eram 17 derrotas consecutivas. Uma das maiores sequências do tênis, mas também uma das mais difíceis de entender – ou explicar. Sim, Rafael Nadal é fantástico. E sim, o espanhol sempre encontrou uma maneira de não deixar Tomas Berdych à vontade o bastante para atacar do jeito que prefere.

Mas 17? Dezessete? Contra um tenista que tem todas as armas necessárias para derrotar qualquer um? Contra um um finalista de Wimbledon? Um cidadão que não sai do top 10 desde 2010? Sim, é um tanto difícil entender como uma das melhores devoluções do circuito encontrou tantos problemas (desde 2006!) diante de um segundo saque nada intimidador.

Só que Berdych não é só mais uma devolução bonitinha na sua TV. É um dos melhores saques, é uma direita reta potentíssima, é uma esquerda velocíssima e difícil de ler. Perguntem só a Roger Federer, que tem retrospecto negativo nos últimos nove jogos contra Berdych – desde 2010. Ou a Andy Murray, que perdeu seis das dez partidas que fez contra o tcheco de 29 anos.

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É claro que há explicações técnicas e táticas para a superioridade de Nadal. O tênis com mais margem de segurança e os contragolpes fulminantes sempre pesaram. E, amiúde, a rara consistência do fundo de quadra fritava um ovo na cabeça de Berdych, que não resistia mentalmente. Mas de “explicar a superioridade'' a entender a enorme frequência da coisa… Não é minha ideia preferida de exercício. Prefiro fugir daquele urso na bicicleta da academia.

Só que o confronto desta vez tinha alguns elementos favoráveis ao, ahem, “azarão''. O Nadal de hoje, embora tão talentoso e veloz quanto sempre, investe em um tênis mais agressivo, com menos margem para erro. Talvez as seguidas lesões tenham cansado mentalmente o espanhol, que resolveu de vez não ficar mais em quadra por longos períodos. Talvez esteja sentindo que não consegue mais jogar tanto tempo na defesa. Talvez esteja sem paciência. Não importa o porquê. Eu divago.

O ponto é que o Nadal de hoje – pelo menos este das quadras duras, pré e pós-apendicite – é mais suscetível a dias ruins. E Berdych, sacando como nunca (ou como sempre!) e fazendo um grande torneio, só precisava de um diazinho abaixo da média do espanhol – aliás, escrevi sobre isso no dia em que Roger Federer foi eliminado. Berdych não parecia tão longe assim de interromper essa série.

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Assim, quando ficou claro que o melhor tênis de Nadal não passou pela portaria de Melbourne Park nesta terça-feira, Berdych assumiu o controle. E foi bonito de ver porque seu tênis é bonito de ver. Quando tudo se alinha para o futuro marido da dona Ester, Berdych é capaz de jogar de frigideira na mão e disparar winner sem quebrar ovo. Berdych resistiu, inclusive, à furiosa reação que Nadal sacou de algures no terceiro set. Salvou break points e matou o jogo no tie-break, quando tirou uma “daquelas'' devoluções quando o placar mostrava 4/5.

A pergunta que se faz agora não é nova: Berdych está pronto para ganhar um Grand Slam? Não acho a pergunta tão injusta quanto a resposta que frequentemente leio. O tcheco, hoje com 29 anos, é quase sempre julgado como o tenista do quase. Como se fosse fácil furar o Big Four. Não é tão diferente assim do que se diz de Andy Murray. E, mais grave, costumam esquecer o retrospecto de Berdych.

Sim, o cidadão jogou uma final de Wimbledon, duas quartas e uma semi no Australian Open, além de semi e quartas no US Open. Em todos esses (seis!) torneios, Berdych foi derrotado pelo campeão. Nadal, Djokovic, Murray, Wawrinka e Cilic. Vale a pena mesmo rotulá-lo como perdedor? Talvez, não.

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Sem colar essa etiqueta, ou melhor, sem colar qualquer etiqueta (este blog é uma grande campanha antirrótulos), a questão que se faz agora é sobre o futuro de Berdych neste Australian Open. Parece, mais uma vez, uma boa chance de, finalmente, dar o passo que resta e conquistar um Grand Slam.

Dito isto, talvez não seja a melhor das chances. Andy Murray pode não ser o poster child de uma campanha em prol da aplicação de flúor em crianças (olha eu brigando contra os rótulos outra vez), mas vive momento raro. Neste ano, mostra tênis agressivo, confiança e consistência. Lembra mais o perigosíssimo Murray de 2012, campeão olímpico e do US Open, do que o do ano passado – aquele ainda buscava voltar do desvio forçado por uma cirurgia nas costas. E ainda restam Djokovic, Nishikori e Wawrinka do outro lado (Raonic é grande azarão) da chave. Será?

Por hoje, por enquanto, vale comemorar o passo a mais de Tomas Berdych. O tcheco zerou a sequência e zerou Nadal por nove games. Zerou o jogo.


A volta de Venus e as quartas femininas
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Alexandre Cossenza

Serena Williams, Maria Sharapova e Simona Halep seguem firmes e fortes no Australian Open. As três principais cabeças de chave mais Eugenie Bouchard formam o grupo das quatro favoritas que confirmaram seu status até as quartas de final. A outra metade das oito inclui a atual vice-campeã, Dominika Cibulkova, a “estreante” Madison Keys, a russa Ekaterina Makarova e uma velha conhecida, agora de volta às quartas: Venus Williams. É hora, então, de avaliar o que vem pela frente na chave feminina.

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[1] Serena Williams x Dominika Cibulkova [11]

Maior e eterna favorita a qualquer coisa em qualquer galáxia que fabrique raquetes, Serena Williams foi finalmente testada nas oitavas, quando, mesmo não jogando mal, foi dominada por Garbiñe Muguruza no primeiro set. A número 1 do mundo, porém, elevou seu nível ao mesmo tempo em que a espanhola não conseguiu manter-se agressiva e precisa como antes. Uma boa prova de que Serena chega forte e, claro, favorita nas quartas. O retrospecto contra Cibulkova não atrapalha: quatro vitórias em quatro jogos, com apenas um set perdido. Não é por acaso que as casas de apostas pagam tão pouco (1:6 no caso da bet365).

Cibulkova, atual vice-campeã, do Australian Open, é a maior surpresa (para mim) deste grupo. Viveu um fim de ano nada animador em 2014 e abriu 2015 com uma vitória em três jogos. Em Melbourne, estreou contra a nada boba Kirsten Flipkens, que venceu o primeiro set. Quem achou (eu inclusive!) que a eslovaca ficaria pelo caminho bem cedo errou feio, errou rude. Ela não só virou o placar contra Flipkens como derrubou Pironkova e Cornet na sequência.

Seu maior momento, entretanto, veio nas oitavas, contra Victoria Azarenka. Vika já se colocava entre as favoritas após, superar, em sequência, Sloane Stephens e Caroline Wozniacki. Mas a bielorrussa não conseguiu se impor diante de Cibulkova. A diminuta Domi agrediu o tempo inteiro. Pressionou o saque de Azarenka e foi recompensada. Agora, nas quartas, chega confiante e, como ela mesma já afirmou em entrevistas, com a sensação de que Melbourne lhe faz muito bem – um elemento perigosíssimo para a campanha de Serena.

Madison Keys x Venus Williams [18]

Um confronto difícil de prever no começo do torneio. Keys, a menina que confirmou presença no Rio Open e depois mudou de ideia, jamais tinha ido tão longe num Slam, mas aproveitou a inconstância de Petra Kvitova e o buraco deixado na chave por Sam Stosur e Andrea Petkovic. No caminho contra Tsurenko, Dellacqua, Kvitova e Brengle, não perdeu um set sequer.

Venus não alcançava as quartas de um Slam desde 2010 (de 2011 até hoje, vem lutando contra a síndrome de Sjogren), mas mostra melhores condições físicas desde o segundo semestre do ano passado. Depois que a chave foi sorteada, não parecia nada improvável uma boa campanha da ex-número 1. Logo, sua chegada às quartas é uma zebra bem menor do que seu vestido nos leva a crer. E a vaga veio com vitórias sobre Torro-Flor, Davis, Giorgi e Radwanska. Nada mau.

As casas de apostas colocam Venus como favorita (4:7 contra 11:8 de Keys na bet365), mas tudo depende de como a veterana de 34 anos estará fisicamente. Keys precisa esticar as trocas de bola e deslocar a adversária. Não é fácil, mas não seria uma surpresa gigante se acontecesse.

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[10] Ekaterina Makarova x Simona Halep [3]

Makarova fez o básico e o fez muito bem. Semifinalista do último US Open, a russa de 26 anos vem atingindo uma maturidade em seu jogo e administrando melhor as inconstâncias – que, vez por outra, ainda se manifestam em momentos nada agradáveis. Até agora, contudo, Katia não perdeu sets numa chave em que enfrentou Mestach, Vinci, Karolina Pliskova e Goerges. Aliás, perdeu só 23 games desde o início do torneio.

Em números, Makarova é melhor até do que Simona Halep, que cedeu 24 games e tampouco perdeu sets contra Knapp, Gajdosova, Mattek-Sands e Wickmayer. E mais do que isso: a romena só perdeu um set no ano e acumula nove vitórias consecutivas, pois foi campeã em Shenzhen antes de ir a Melbourne.

A consistência de golpes e o equilíbrio emocional pesam bastante a favor de Halep, que é favorita aqui. Makarova, contudo, tem o tipo de jogo que pode, quando tudo dá certo, derrubar qualquer adversária. Por enquanto, no papel, um triunfo russo não parece lá muito provável.

[7] Eugenie Bouchard x Maria Sharapova [2]

Bouchard avançou sem sustos, a não ser por um soluço autoinduzido (e rapidamente automedicado) no segundo set contra Irina-Camelia Begu, nas oitavas. A canadense de 20 anos agora tentará manter uma escrita: jamais perdeu nas quartas de final de um Grand Slam. Em seus três desafios anteriores, derrotou Kerber, Suárez Navarro e Ivanovic. O obstáculo, desta vez, promete é  bem mais espinhoso e mais alto (literalmente), além de oferecer um tabu próprio.

Maria Sharapova venceu as três partidas que fez contra Bouchard. Uma em Miami, quando Bouchard nem era top 100 ainda, e duas em Roland Garros, onde a tenista russa obteve seus melhores resultados em Grand Slams nas últimas três temporadas. De certo modo, é de se esperar que Melbourne seja uma espécie de “campo neutro”, ainda mais com o Genie Army preparado para atazanar a atual número 2 do ranking mundial.

Nas cotações, Sharapova é favorita – como deve ser. Histórico, momento (oito vitórias seguidas) e experiência pesam a favor. Mas, com o tênis jogado por ambas recentemente, me parece ser um daqueles confrontos em que “ganha quem estiver melhor no dia” – uma frase carregada de minúcias e bem menos óbvia do que parece.

Coisa que eu acho que acho:

– Meus palpites para os jogos são Serena, Keys, Halep e Sharapova. Torço por Serena, Venus, Makarova e … pouco me importa esse Genie x Maria.


Sete homens e um Kyrgios
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Alexandre Cossenza

Oito nomes, sete cabeças de chave. Com a espetacular exceção de Roger Federer, todo mundo confirmou o favoritismo na chave masculina do Australian Open. E, fora o susto pregado pelo físico de Rafael Nadal e o não-tão-surpreendente quinto set de Milos Raonic contra Feliciano López, é justo dizer que todos os sete favoritos chegaram às quartas de final sem grande drama. Novak Djokovic e Tomas Berdych passaram por seus quatro obstáculos sem perder sets, enquanto Andy Murray só cedeu um – no jogão contra Grigor Dimitrov. Vejamos, então, como estão os cruzamentos daqui em diante e o que esperar deles.

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[1] Novak Djokovic x Milos Raonic [8]

Número 1 do mundo e favorito ao título, o sérvio leva óbvia vantagem aqui – pelo menos nos papeizinhos pré-jogo que contam as estatísticas, o currículo e o histórico dos duelos. Só que além do 3 a 0 no head-to-head, Nole ainda tem a seu favor o “aquecimento oficial'' com Gilles Muller, outro sacador, nas oitavas em Melbourne. Ok, o luxemburguês é canhoto, enquanto o canadense é destro, mas uma devolução já calibrada conta um bocado.

Para Raonic, o jogo precisa significar um pouco mais. Com 24 anos, um saque gigante e uma ótima direita, ele já chegou ao top 10 e somou belas vitórias. Ainda falta, porém, começar a derrubar os grandes-muito-grandes. Seu histórico contra Djokovic (3 a 0), Nadal (5 a 0) e Federer (8 a 1) precisa melhorar – e rápido, já que faz-se quase sempre necessário passar por um deles nos Grand Slams. Esse salto seria o próximo passo na carreira do canadense, mas será que ele consegue?

[4] Stan Wawrinka x Kei Nishikori [8]

Desde o começo, a chave de Wawrinka não era das mais complicadas. Só que ela ficou mais acessível ainda na medida em que os cabeças de chave foram caindo. Assim, o número 2 da Suíça alcançou as oitavas sem encarar um pré-classificado sequer. E só perdeu um set (para Guillermo García-López, nas oitavas). Nishikori será seu primeiro teste de verdade. E será um replay das quartas de final do US Open – um jogo que, embora o placar não conte essa história, esteve na raquete de Wawrinka a maior parte do tempo. É de se imaginar que o suíço tenha algo de revanche em mente quando entrar em quadra.

O japonês teve um caminho mais complicado (Almagro, Dodig, Johnson e Ferrer), mas sem nenhum adversário que o ameaçasse de verdade. Nishikori nem sempre jogou bem, mas avançou sem sustos – graças um pouco a Dodig, que bobeou quando esteve perto de forçar um quinto set. Em sua última apresentação, contra Ferrer, mostrou estar um passo à frente do espanhol. Os dois jogam um estilo parecido e se movimentam igualmente bem em quadra, mas o japonês tem um saque mais potente, uma esquerda mais agressiva e se defende melhor. Difícil apontar o vencedor aqui. Gostaria de ver Wawrinka enfrentar Djokovic mais uma vez, mas as casas de apostas colocam Nishikori como favorito – por muito pouco.

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[7] Tomas Berdych x Rafael Nadal [3]

Dezessete vitórias seguidas contra Tomas Berdych dão, não por acaso, algum favoritismo a Rafael Nadal. O espanhol é mais consistente e, embora não consiga tomar a dianteira na maioria dos pontos, consegue deslocar o tcheco o suficiente para forçar erros e fazer com que o oponente ataque fora de sua zona de conforto. A favor de Berdych, desta vez, pesa seu ótimo momento. Passou por um caminho cheio de cascas de banana (Falla, Melzer, Troicki e Tomic) sem perder sets e, nos últimos dois jogos, cedeu só um break point (salvo).

Poucos duvidam que Berdych, integrante permanente do top 10 desde julho de 2010, tenha jogo para ganhar um Slam. Só que ótimas chances já ficaram para trás. Foi assim em Melbourne no ano passado, na semifinal contra Wawrinka, e também no US Open, onde caiu diante de Marin Cilic, o eventual campeão. Ainda faltam vitórias grandes nos torneios grandes.

Nadal também tem nas costas, a seu favor, o jogo contra Kevin Anderson. Não é um estilo tão diferente do de Berdych. E vale ficar de olho nas devoluções de saque do espanhol. Contra o sul-africano, Nadal tentou se posicionar mais perto da linha de base. A estratégia não funcionou e, no fim do primeiro set, o número 3 do mundo estava lá de volta ao fundão da quadra, quase em Perth. Nadal é o claro favorito, mas não pela vantagem que o head-to-head sugere. O tcheco esteve perto de derrotá-lo em 2012, também na Austrália. Uma hora vai acontecer.

[6] Andy Murray x Nick Kyrgios

A boa notícia para os fãs do escocês é que ele levou para Melbourne seu forehand agressivo. Foi assim contra João Sousa e também no jogaço contra Grigor Dimitrov – o melhor do torneio até agora. O britânico não foi tão consistente assim nas oitavas, mas o excelente tênis do búlgaro exigiu um bocado.

Não que Kyrgios não vá exigir. O australiano tem um saque excelente (97 aces no torneio, com mais de 20 em todos os jogos) e uma direita capaz definir de definir qualquer ponto a qualquer momento. Logo, o adolescente (19 anos) tem chances se conseguir atacar primeiro – até porque existe a eterna e imprevisível possibilidade de Murray agarrar-se ao fundo de quadra e ficar lá defendendo e esperando erros enquanto se esquiva das cadeiras dos juízes de linha.

A chave para o escocês é agredir. Kyrgios, 1,93m de altura, além de não ser um defensor espetacular, vem com uma lesão nas costas e acaba de fazer uma partida nervosa de cinco sets. A torcida estará a favor, mas será o primeiro jogo do garotão na Rod Laver Arena. Não dá para prever como ele vai se encaixar nesse cenário.

Coisa que eu acho que acho:

– Nem todo mundo abraça essa teoria, mas há de se considerar o quanto vai prejudicar Djokovic a sequência de sacadores. Após dois jogos sem longas trocas de bola, o sérvio pode demorar a encontrar ritmo contra Nishikori ou Wawrinka nas semifinais. E se eu sempre digo que “pode” deve sempre vir acompanhado de “ou não”, acho que o mesmo vale aqui. Portanto… Ou não.


Kyrgios: arrogante ou super confiante?
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Alexandre Cossenza

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Ele tem 1,93m de altura, um “penteado” só para a sobrancelha e leva para a quadra um cordão nada discreto, pendurado no pescoço e caindo, propositalmente, fora da camisa. É difícil passar perto e não reconhecer Nick Kyrgios, 19 anos, número 53 do mundo. É igualmente improvável, ainda que sentado à mesa do café e dando garfadas em um muffin de framboesa, não notar algo de especial quando o garotão está na TV. O australiano de sobrenome grego gesticula, grita e chama a torcida. E seu tênis fala tão alto quanto seu visual.

Desde que conquistou o Australian Open juvenil, em 2013, Kyrgios soma um cartel de vitórias respeitável para alguém de sua idade. A maior delas foi sobre Rafael Nadal, em Wimbledon, onde alcançou as quartas de final no ano passado. Naquele torneio, o australiano também bateu Richard Gasquet. Mais tarde, no US Open, passou por Andreas Seppi e Mikhail Youzhny. Agora, em Melbourne, derrotou Federico Delbonis, Ivo Karlovic e Malek Jaziri. Nada mau.

Ao mesmo tempo em que galga postos no ranking, Kyrgios ganha a merecida atenção como principal esperança (tchau, Tomic) de um país que entende, gosta e acompanha tênis. Só que uma – talvez a mais cruel – das consequências é passar, inexoravelmente, a viver sob o pente fino do público e da imprensa até o fim dos dias. E a moda hoje é rotular o adolescente como arrogante.

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Não é difícil entender de onde vem essa percepção. Kyrgios não é adepto do discurso pronto. Recentemente, disse numa entrevista que riu quando o croata Borna Coric se autodenominou o melhor de sua geração. O jovem aussie também já disse que entrou em Wimbledon achando que poderia derrotar Nadal. Junte algumas declarações com seu comportamento nada convencional dentro de quadra e você vai encontrar um punhado de gente incomodada – ainda mais em um esporte que mantém tradições e tem uma base de fãs um tanto conservadores.

Fosse na NBA ou a NFL, Kyrgios seria mais um. Ponto. Talvez, na melhor das hipóteses, seria festejado por seu swag à la Nick Young. Só que o mundo do tênis dos dias de hoje – o mesmo mundo que reclama da falta de “personalidades” e de declarações apimentadas – demora a aceitar e entender o diferente. E ainda condena sem direito a julgamento qualquer frase que não foi previamente ensaiada uma dúzia de vezes com assessores de imprensa. Caras novas são sempre bem-vindas, mas se o entrevistador pós-jogo pede uma viradinha para falar do vestido, já vira polêmica: gesto sexista ou inócuo?

Roger Federer já caiu nessa armadilha. Em 2007, quando ganhou o Australian Open sem perder nenhum set, o suíço foi indagado, na coletiva final, sobre sua genialidade. Respondeu que “podem me chamar de gênio porque estou superando muitos dos meus oponentes, meio que jogando de um jeito diferente, ganhando quando não estou jogando meu melhor. Tudo isto, talvez, signifique um pouco disso (genialidade).” No dia seguinte, veículos de todas latitudes e longitudes questionavam a arrogância da declaração. Mas eu divago.

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O ponto, aqui, é constatar quando a confiança se transforma em arrogância, algo tão fácil quanto localizar um dente no chão de uma arena de hóquei sobre o gelo. E, talvez, a mais resposta mais importante venha de outra pergunta: um tenista ganha ou perde mais jogos por causa de seu excesso de confiança? É bem possível que vejamos Kyrgios acumular uma pilha de reveses por ter pisado em quadra achando que nada lhe impediria de avançar. Mas o australiano teria derrotado Nadal se pensasse diferente?

Pouco antes deste Australian Open começar, Kyrgios deu entrevistas e tocou no assunto. Duas declarações, acho, valem destaque:

“Já fui criticado algumas vezes por ser um pouco confiante demais com as minhas palavras, mas todos atletas de sucesso do mundo têm uma dose extrema de confiança em si mesmos. Às vezes posso ser julgado como arrogante ou pretensioso, mas não me importo nem um pouco com a maneira que as pessoas me veem.”

“Acho que jogo meu melhor tênis quando encontro aquela linha tênue entre estar realmente positivo e estar calmo. Não quero me empolgar demais. Acho que vou amadurecer com a idade. Vou descobrir o que me ajuda mais em quadra. Obviamente, não vou ser um robô, sem mostrar emoção ou esse tipo de coisa. Acho que isso (a empolgação) definitivamente ajuda.”

São frases que casam com o que Kyrgios mostrou neste domingo, em Melbourne, na vitória em cinco sets contra Andreas Seppi. O australiano perdeu as duas primeiras parciais para um tenista que vinha de um triunfo memorável sobre Roger Federer. Ainda assim, seguiu acreditando. Depois do jogo, disse que pensou em Wimbledon, quando viu Gasquet abrir 2 a 0 e também virou. No fim, bateu o italiano por 5/7, 4/6, 6/3, 7/6(5) e 8/6 – com direito a um match point salvo no quarto set.

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Sim, Kyrgios teve suas oscilações. A mais perigosa delas veio no quinto set, quando saiu na frente e passou a acelerar o jogo mais do que devia. Acabou perdendo o serviço e precisando correr atrás de novo. Pareceu, contudo, mais afobação – normal para alguém da sua idade, ainda mais no cenário deste sábado, com tudo que envolve jogar oitavas de final de um Grand Slam em casa.

Arrogante ou super confiante? Qualquer que seja a resposta, é inegável que a postura do garotão não vem atrapalhando sua carreira – não até agora, pelo menos. Com 19 anos e 280 dias de vida, Kyrgios é o mais jovem quadrfinalista do Australian Open desde 1990 (Andrey Cherkasov, 19 anos e 208 dias). Também é apenas o nono adolescente a chegar às quartas do torneio na Era Aberta. E, mais do isso tudo: Kyrgios tornou-se hoje o primeiro adolescente a disputar duas quartas de finais de Grand Slam desde Roger Federer (Roland Garros e Wimbledon em 2001).

A próxima parada para o bonde do Kyrgão sem freio (porque Kyrgios poderia também ser jogador de futebol ou passista de escola de samba) será a Rod Laver Arena contra Andy Murray. O australiano será azarão, claro. Mas duvido que pise em quadra pensando que vai perder.


A versão Sabesp de Roger Federer
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Alexandre Cossenza

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Você entra no box, abre a torneira e… nada! Não tem água, aquele elemento básico e essencial do planeta, da vida. Não tem mais. Alguém, em algum lugar, decidiu, por mérito ou incompetência, que você não vai ter água. Não tem para tomar banho, para escovar os dentes, para beber. Acabou e ninguém sabe dizer até quando. A sensação, que mistura raiva, frustração, impaciência e quase sempre acaba em resignação, não pode ter sido muito diferente do que passou Roger Federer em Melbourne nesta sexta-feira.

Não acho que tenha sido uma partida fantástica de Andreas Seppi. Não mesmo. E faz-se necessária um explicação que seria nota de rodapé se blogs tivessem rodapés. Não é tirar mérito. O italiano fez um ótimo jogo, de verdade. Mas do ótimo ao fantástico há uma longa rota que Seppi não percorreu nesta sexta-feira – até porque não precisou. Sacou bem, manteve a calma o jogo inteiro e não perdeu a cabeça nem quando uma bola na fita quebrou seu saque no segundo set. Fez tudo de forma competente. Não há o que questionar. Mas eu, mais uma vez, divago.

Foi uma tarde ruim de Roger Federer. Ruim, não. Péssima. O suíço abriu a torneira, fechou e abriu de novo. Não adiantou. Por mais que resmungasse, corresse e gritasse, alguma força superior impediu que Federer usasse os elementos mais básicos de seu jogo. O saque não entrou com consistência, os forehands estavam descalibrados, os slices não incomodaram (Seppi não deixou) e muitas das subidas à rede foram precipitadas – mais na tentativa de “assustar'' Seppi do que como resultado da construção de um ponto.

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Estatísticas nunca contam a história inteira, mas os erros não forçados do suíço dizem um bocado. Foram 55 deles. E vale uma ressalva: normalmente as estatísticas de falhas ganham versão super-size contra Nadal ou Djokovic, tenistas que defendem com a resiliência de um Scott Sterling. Contra Seppi, não. Muitas das bolas espirradas por Federer não tinham objetivo algum que não fosse a simples continuação do ponto.

A sequência final foi um microcosmo de tudo que esteve fora da ordem no planeta racionado de Federer. Com metade da quadra tomada pelo sol, o suíço fez uma dupla falta quando liderava o tie-break. E aqui não vale condená-lo, por favor. Um pouco mais cedo, na Hisense, Andy Murray espirrou um segundo saque nas mesmas condições: virado para o sol e com meia quadra na sombra. É duro sacar assim. Mas eu, inevitavelmente, tergiverso.

Com suas muitas qualidades racionadas, Federer não encontrou sequer volume morto. Sem confiança, chegou a, ainda no tie-break, executar um segundo saque a saraerraniescos 129 km/h – o normal seria algo na casa dos 165-170 km/h. Perdeu o ponto. E perdeu os dois seguintes. O último, uma mistura de golpe de vista com mesmo-que-eu-chegue-na-bola-vai-ser-difícil-de-acertar, o mandou de volta para casa a conferir de perto a valorização do franco suíço.

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Kyrgios se dá bem, Nadal nem tanto

E o que muda sem o número 2 do mundo no torneio? A notícia não deixa de ser boa para o garotão Nick Kyrgios, que tem de juventude o que tem de marra – o que não é necessariamente ruim (deixo esta explicação para outro post – assim me poupo de um terceiro devaneio). O campeão do Australian Open juvenil de 2013, hoje com 19 anos, encara Seppi nas oitavas com uma chance razoável de alcançar as quartas de um Slam pela segunda vez. Quem vencer este jogo vai encarar Andy Murray ou Grigor Dimitrov – outros dois beneficiados.

A chave só não muda mesmo é para Rafael Nadal, que não perde uma melhor de cinco para Federer desde 2007. Aliás, os fãs do espanhol, hoje em dia, devem temer mais Berdych e Murray do que qualquer outro antes da final. O número 3 do mundo fez duas grandes atuações – intercaladas com o episódio Tim Smyczek, que vai ganhar proporções mitológicas cedo ou tarde. Já li, inclusive, que ele vomitou em quadra. É o tipo de história que aumenta com o passar do tempo, na medida em que ninguém mais lembra exatamente o que aconteceu. Daqui a 15 anos, Nadal vai ter vomitado parte de seu apêndice.  Mas eu devaneio.

Voltando ao tema, meu ponto é que o tênis que Nadal joga hoje, mais agressivo e correndo mais riscos, é um tanto mais suscetível a dias ruins. Sem tanta margem para erro, o espanhol não pode se dar ao luxo de jogar contra Berdych o mesmo que mostrou, por exemplo, no terceiro set contra Dudi Sela. Aquele tênis fantástico do US Open de 2013 não acontece sempre na vida de um tenista. Vejo Anderson e Berdych com chances nada desprezíveis – bem maiores do que alguns anos atrás, me arrisco a dizer.

Coisas que eu acho que acho:

– Até agora, a chave não tem um jogo ruim nas oitavas. Eles são Berdych x Tomic, Anderson x Nadal, Murray x Dimitrov e Kyrgios x Seppi. Meu preferido é o duelo entre britânico e búlgaro. Falo sobre a metade de cima do quadro masculino depois dos confrontos deste sábado.

– O circuito mundial destes tempos é tão (im)previsível quanto Kim Jong-Un num filme de Seth Rogen. O favorito de hoje é candidato a sofrer um piripaque amanhã. Djokovic começou o torneio voltando de um problema estomacal, mas já apagou qualquer dúvida. Murray, a eterna incógnita, somou três atuações irretocáveis. Nadal, com poucas partidas nas costas, estreou bem, quase abandonou na sequência e, hoje, voltou a mostrar um ótimo tênis.


Sobre Andy Murray, rótulos, pesos e medidas
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Alexandre Cossenza

“Quando tive cãibras e ganhei no US Open ano passado, fui drama queen, estava fora de forma, precisava ver um psicólogo, fingi. Estranho…'' Foi só um tweet, mas não precisou mais. Andy Murray deu todo recado que precisava. E o mundo do tênis, concordando ou não, entendeu o recado.

Rafael Nadal, que teve tonturas, quase vomitou em quadra e derrotou Tim Smyczek em cinco sets, foi aclamado como herói. Aquele jogo, para grande parte dos fãs de tênis e da imprensa, foi mais uma demonstração hercúlea da força do espanhol. Quando Murray teve problemas físicos em sua estreia no US Open do ano passado, foi duramente criticado e até acusado de fingir dores para atrapalhar o adversário.

Andy Murray não está criticando Rafael Nadal. Longe disso. Está, sim, sendo irônico – algo que faz como poucos no circuito. E, mais do que qualquer coisa, está fazendo uma inequívoca crítica aos rótulos que levam à adoção de pesos e medidas diferentes para todo tipo de atleta. E o britânico, qualquer que seja o motivo, sempre cai do lado errado de qualquer polêmica.

O exemplo escolhido por Murray foi o melhor possível. Os dois casos são recentes e incomuns. Ambos envolvem atletas fisicamente privilegiados que sofreram problemas raros – em estágios iniciais de um Grand Slam – e venceram suas partidas. Só que o tribunal público, composto por jornalistas e integrantes de redes sociais, deu vereditos bem diferentes.

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Murray raramente culpa problemas físicos por derrotas ou atuações abaixo do esperado, mas tem o hábito de resmungar, se alongar e colocar a mão aqui e ali (como pessoas normais fazem quando sentem dores). O circuito inteiro sabe disso. O circuito inteiro também sabe que, quando a bolinha entra em jogo, Murray sempre se esforça ao máximo. Só que em algum momento e por algum motivo, o escocês ganhou fama de catimbeiro. E esse rótulo não sai com água.

É o caso inverso de Roger Federer. O suíço é o melhor exemplo possível de gentleman. Suíço, educado, dono de golpes plásticos e uma movimentação baryshnikovesca. Raramente pede tempo médico (porque raramente se lesiona – uma relação que poucos fazem), quase nunca reclama com árbitros e jamais bate boca com um adversário. Mas quando, malandramente, pediu para ir ao banheiro em uma partida que perdia (a sombra em quadra lhe incomodava, e o tempo de paralisação foi o suficiente para que a sombra desaparecesse), foi chamado de “gênio até na privada''. Dois pesos, duas medidas.

É inegável que há uma questão de reputação. Novak Djokovic, quando galgava postos no ranking mundial, abandonou um punhado de partidas. Victoria Azarenka tem um passado não muito diferente. Se um dos dois, hoje, entra em quadra com dores e abandona, o currículo é logo levantado por alguém. Djokovic já entrou em quadra lesionado (Monte Carlo, lembram?) só para não passar por isso. Vika foi pior. Agravou uma lesão séria porque se recusou a deixar a partida no meio. Não queria ouvir as queixas de sempre. Passou um bom tempo sem jogar.

Rafael Nadal, provavelmente o top 10 com mais lesões na história do tênis, vive um dilema não muito diferente. É acusado sempre de fingir e culpar lesões quando perde (ao mesmo tempo em que ignora-se a lógica que aponta que um tenista de seu nível não perde muitas vezes quando está bem fisicamente). Mas vale lembrar: não foi o espanhol que culpou o joelho em sua única derrota em Roland Garros. O mundo só soube da lesão algum tempo depois, quando ele desistiu de Wimbledon.  No dia daquele revés para Soderling, ninguém mencionou nada. Fast forward para um ano depois. Em Wimbledon/2010, Tomas Berdych eliminou Federer. Na segunda resposta da entrevista coletiva, sem ser indagado sobre alguma espécie de lesão, o suíço falou que não conseguiu jogar seu melhor porque tinha dores nas costas e nas pernas. Um gesto deselegante que a reputação do gentleman suíço praticamente apagou da história.

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O que incomoda (e me incomoda um bocado no caso específico de Andy Murray) é  o surgimento dessa fama. De onde veio? É porque Murray não sorri durante as partidas? Será que é porque ele não dança após as vitórias? Ou porque nunca publicou videozinhos engraçadinhos no YouTube? Ou será que é porque ele não desiste mesmo quando sente alguma espécie de desconforto? Neste caso, qual é o caminho? Para que lado fica a saída? É melhor desistir e ser chamado de frouxo ou continuar em quadra e ganhar o rótulo de catimbeiro? Não tem saída nesse beco.

O resumo dessa história toda é que o tweet de Andy Murray pode servir para despertar muita gente. “Por que este tenista aqui é um Oscar winner, e aquele lá, a reencarnação de Perseu?'' é a pergunta que todos deveriam se fazer a cada caso desses.  Não que isso vá mudar a percepção dos fãs. Haters gonna hate, já diz o poeta. O mesmo torcedor que suspeita de uma apendicite orgulha-se da mononucleose mais curta e mais branda da Era Aberta. Mas eu divago. Murray deu a deixa. Cabe a todos, especialmente comentaristas e jornalistas, usar a balança antes de emitir uma opinião.

Coisas que eu acho que acho:

– Não acho (mesmo!) que nenhum dos tenistas citados neste post seja desonesto, catimbeiro ou mentiroso. Acho, sim, que todos eles já se aproveitaram das regras para tirar algum tipo de vantagem. Isto, contudo, não faz de ninguém um mau caráter incorrigível.

– O benefício da dúvida deve ser concedido a todos. Não somente aos sorridentes, dançarinos e videomakers. Que ninguém precise pagar o preço por optar manter um mínimo de autenticidade.


Sharapova, Nadal e o intangível
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Alexandre Cossenza

São mais ou menos 3.500 nomes nos rankings de ATP e WTA. Some a esse povo um bocado de gente que nunca pontuou e chegamos a umas quatro mil almas tentando ganhar a vida com o tênis. Só que destas quatro mil pessoas, só um punhadinho, daqueles de contar nos dedos de uma das mãos, conseguiria sair de buracos como Maria Sharapova e Rafael Nadal fizeram nesta quarta-feira em Melbourne. Ela com uma impressionante capacidade de, no momento mais crítico de um jogo, ajustar seu modo de pensar e salvar dois match points. Ele com uma força de vontade rambônica para lutar contra seu próprio corpo. Porque grandes atletas, quando desafiados, aparecem com esse tal de intangível.

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Sharapova d. Panova – 6/1, 4/6 e 7/5

Parecia uma vitória banal, daquelas muitas que a gente nem lembra um mês depois. Maria Sharapova abriu a partida fazendo 6/1 sobre a número 150 do mundo. Só que aí veio o segundo set e, com ele, 23 erros não forçados da vice-líder do ranking. Panova, que se alternava entre atacar e esperar por falhas da rival, abriu 5/2 e ainda perdeu um serviço antes de fechar em 6/4.

Ainda parecia uma zebra improvável. Não por acaso, Sharapova tem um histórico espetacular em terceiros sets. Mas eis que a favorita permitiu à desafiante abrir 4/1, com duas quebras de vantagem. Panova perdeu um serviço, mas confirmou o seguinte e abriu 5/3. Quando sacou em 5/4, parou de atacar. Resumiu-se a esperar erros de Sharapova. Vieram três deles. Match point. Parálise por análise? Nada disso. Sharapova funciona ao contrário.

“Minha maneira de pensar durante a partida, até aquele ponto, foi muito negativa. Acho que estava pensando demais nos erros, no que estava fazendo de errado. Eu não estava no presente, algo que normalmente faço bem. Naquele ponto, quando você está atrás e sente que está errando muito, que não encontra um bom ritmo, só tentei jogar um ponto de cada vez, pensar positivo e mudar minha maneira de pensar um pouco. Quando outras coisas não dão certo, talvez o lado mental ajude. Acho que, no fim, foi o que fiz”, disse Sharapova na coletiva após o jogo.

E foi isso. Sharapova salvou-se do primeiro match com um winner de devolução. Depois de outro erro, escapou de novo match point com outra bola vencedora. Quebrou o saque. O placar, naquele momento, mostrava 5/5, mas a Rod Laver, Panova e o mundo sabiam como acabaria.

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Nadal d. Smyczek – 6/2, 3/6, 6/7(2), 6/3 e 7/5

Fast forward para a rodada noturna, com Rafael Nadal encontrando problemas com a umidade de Melbourne. Depois de uma hora de jogo, o número 3 do mundo não era o mesmo. Mostrou-se fraco, sentiu tontura, perdeu dois sets para o americano Tim Smyczek, número 112 do mundo, e quase vomitou.

“Eu me senti muito cansado. No fim do primeiro set, senti meu corpo muito mal, muito cansado. Fiquei muito preocupado. Então, quando saquei para o terceiro set, quase vomitei. Sofri muito na quadra por três horas e meia. Sofri muito. A partida de hoje não foi divertida”, analisou.

Mas, de algum modo, encontrou um jeito de continuar no jogo. Quebrou o adversário, fechou o quarto set e esticou a partida. Sacou atrás em todo o quinto set. Resistiu bravamente. Depois do jogo, deu os parabéns pelo fair play de Smyczek e disse que esteve perto de abandonar. Com as tonturas, temeu perder o equilíbrio e desmaiar em quadra. Mas segue vivo.

Coisas que eu acho que acho:

– A lista de inusitados do dia também teve o misterioso caso da dormência em um dos dedos de Roger Federer. O problema não foi grave, e o suíço, que pediu atendimento médico depois do primeiro set, virou a partida contra o italiano Simone Bolelli: 3/6, 6/2, 6/2 e 6/2.

– Entre os resultados mais interessantes dia estão as vitórias dos australianos Bernard Tomic e Nick Kyrgios. Tomic bateu o o cabeça 22, Philipp Kohlschreiber, por 6/7(5), 6/4, 7/6(6) e 7/6(5), enquanto Kyrgios, que levou 40 aces de Ivo Karlovic, triunfou por 7/6(4), 6/4, 5/7 e 6/4.

– Outro nome a observar (escrevi isso no guiazão uns dias atrás) é o Viktor Troicki, que derotou o argentino Leonardo Mayer por 6/4, 4/6, 6/4 e 6/0. O sérvio agora vai enfrentar o tcheco Tomas Berdych. Promessa de jogo interessante.


O raro gesto de Smyczek
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Alexandre Cossenza

“Não são muitos que fariam isso num 6/5 de quinto set.” Rafael Nadal foi preciso ao comentar o gesto de Tim Smyczek. A dois pontos da derrota, com o espanhol sacando em 30/0, o tenista americano, número 112 do mundo, permitiu que o adversário repetisse um primeiro serviço. Um fã havia gritado bem no momento do saque, e Nadal, errado o serviço. Veja abaixo.

Justiça divina, carma ou qualquer que tenha sido o motivo, Smyczek perdeu aquele ponto, mas não perdeu o jogo ali. Nadal abriu 40/0, errou uma bola fácil e permitiu que o americano igualasse o game. Só depois de mais dois winners é que o atual número 3 do mundo fechou a partida e avançou.

Falarei mais sobre o jogo no próximo post. Até lá.


Ferrer e a Framboesa de Ouro
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Alexandre Cossenza

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Imagine, caro leitor, uma vaca de Louboutins atravessando um lago de gelo fino. É frágil assim a margem que um tenista tem quando David Ferrer ocupa o território do outro lado da rede. Thomaz Bellucci, que não tinha Waze nem rota alternativa à disposição, tentou atravessar esse lago. Escorregou e não se levantou mais. Só que toda história tem dois lados, e não dá para descrever a atuação do número 1 do Brasil sem um merecido prólogo dedicado ao espanhol.

Contra um tenista muito bom – um top 50-70, digamos – Bellucci tentaria se reerguer arriscando menos e trocando umas bolas a mais. Recuperaria confiança, voltaria a agredir e equilibraria as ações outra vez. E David Ferrer até projeta uma ilusão de que é possível jogar assim contra ele. Sem um saque ou um forehand dominante, o espanhol trabalha minuciosamente todos os pontos até ver a chance de atacar.

É parte necessidade, parte inteligência. Ferrer sempre fez o melhor purê com as batatas que recebeu. Mas eu divago. A noção de que Ferrer é um devolvedor de bolas não é mais do que uma ilusão. Quem tenta só “passar bola” contra Ferrer se descobre, segundos depois, correndo atrás da amarelinha e recorrendo a golpes kamikazes para sair da defesa ou ganhar um pontinho.

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Em quadras e pisos diferentes, esse roteiro já foi filmado, refilmado, exibido e reprisado até esgotar a paciência de um programador do SBT, que comprou um filme depois de meia dúzia de aparições na imortal Sessão da Tarde. Pois Bellucci foi o personagem da vez. Numa cena sem cortes e de 54 angustiantes minutos, o brasileiro, depois de 15 games impecáveis e uma vantagem de 7/6(2) e 2/0, deu três pontos de graça, perdeu o saque quando podia abrir 3/0, e tornou-se o ator da vez no papel acima. Um papel de tantos atores, tantas locações, tantas plateias…

Não que todos esses integrantes de companhias mambembes fossem perder 12 games consecutivos – como aconteceu com o brasileiro. Bellucci foi um ator ruim, que não gostou do roteiro e desistiu no meio das filmagens. Só que a película foi rodada assim mesmo. Foi exibida em poucas salas, só na madrugada, para plateias pequenas. Os atores, contudo, não escapam dos críticos. Ferrer foi competente. Bellucci ganhou a Framboesa de Ouro.

Coisas que eu acho que acho:

– Registrando o placar: Ferrer venceu por 6/7(2), 6/2, 6/0 e 6/3. Bellucci, que era mesmo azarão antes da partida, segue com uma estatística desagradável: desde Roland Garros/2011, não alcança a terceira rodada de um Grand Slam.

– Feijão também deu seu adeus ao torneio na madrugada desta terça-feira. Caiu diante de Ivan Dodig por 6/4, 7/5 e 6/4. O número 2 do Brasil perdeu chances valiosas no segundo set, quando abriu 4/0, depois teve 5/2 e ainda desperdiçou quatro set points. É bem verdade que Dodig, sacando em 5/4 e 15/40 no terceiro set, pediu um tempo médico maroto no meio do game, mas também é verdade que um punhado de vitórias escaparam de Feijão desde o Challenger Finals.