Saque e Voleio

Thiago Monteiro: sobre ascensão, confiança, inconformidade e pé no chão
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Alexandre Cossenza

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É difícil conversar com Thiago Monteiro e não sair do papo uma dose forte de otimismo. O cearense de 22 anos, atual 87º do planeta, fala de sua evolução com a confiança e a esperança de um jovem da sua idade, mas também com a consciência de um veterano de circuito.

Todas as palavras “certas” aparecem ao longo da entrevista abaixo. “Seguir melhorando”, “não me acomodei”, “pés no chão”, “não ficaria me gabando”, “investir na equipe”, “ajudar minha família”… Lendo assim, com todas essas expressões amontoadas, parece que Monteiro fez leitura dinâmica de um texto de autoajuda antes da conversa. Na real? Longe disso. O garotão é autêntico. Diz essas coisas todas sem ensaiar, sem forçar. É o jeitão dele, que acaba sendo o melhor jeito – o jeito necessário – para encarar o tênis.

A entrevista é sobre um pouco de tudo que envolveu uma temporada em que Monteiro começou no 463º posto, derrotou nomes como Tsonga e Almagro, entrou no top 100, estreou na Copa Davis e por pouco não se tornou número 1 do Brasil. Você, leitor, não vai encontrar declarações bombásticas, mas talvez vá conhecer um pouco mais sobre o jovem e certamente vai entender os motivos de sua ascensão em 2016. Ao fim da leitura, diga se o copo não parece meio cheio…

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Foi um ano muito “doido” no bom sentido, né? Começou o ano mais de 400 do mundo e entra agora já entre os 90. Muda muita coisa, não? Qual é a parte mais difícil desse ajuste?

Eu estou entrando num novo processo para tentar me firmar num nível maior, o nível ATP. É como se fosse uma segunda transição. Tem a transição do juvenil (para o profissional) e tem essa transição agora de manter no alto nível. Tive a experiência de jogar alguns ATPs este ano, poder treinar mais com melhores jogadores, fiz bons jogos e vai ser uma adaptação que a gente está fazendo que está andando de certa forma um pouco rápida, né? Mas são ajustes. Nesse tipo de torneio, a gente consegue identificar mais fácil (as dificuldades) e seguir melhorando. Adaptar melhor às quadras rápidas, a questão de devolução de saque, defesas… Isso a gente tem aprendido bastante nesses jogos e vem tentando evoluir o mais rápido para se firmar.

E a parte boa disso tudo? Óbvio que são mudanças legais, tanto no ranking quanto financeiramente, mas qual é a melhor parte dessa subida?

Acho que é mais a realização de um sonho de criança. Desde pequeno, eu vim almejando poder competir nesse alto nível, tentar me firmar como um jogador de tênis profissional mesmo. Poder viver esse sonho é um privilégio, uma felicidade que me motiva cada vez mais. Mantendo essa linha de trabalho, acho que estamos fazendo o caminho certo. Essa animação eu espero que fique para o resto da minha carreira e que cada vez eu me motive mais e siga nessa linha.

Tem também a parte de mais gente te reconhecer e querer te conhecer mais. Você já sente isso nos torneios?

Aqui no Brasil, o pessoal tem reconhecido mais, especialmente depois das semanas de Rio Open e de São Paulo, então eu comecei a aparecer um pouco mais. Também tem mais gente seguindo nas redes sociais, mandando apoio. É um reconhecimento legal. Agora eu pude jogar um Challenger em Santos com um apoio incrível do pessoal de lá. Foi um carinho muito grande e isso me motivava para seguir dando meu melhor para a torcida. Na verdade, eu não sei muito o que te dizer. Não é aquele assédio, não sou famoso nem nada. Eu passei a ser reconhecido no mundo do tênis, mas não tem acontecido de ser parado na rua.

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Depois daquele jogo contra o Tsonga (Monteiro derrotou o francês no Rio Open), você disse que foi uma vitória que mostrou que seu trabalho estava dando certo. Mas não foi algo passageiro. Você teve um tênis mais ou menos estável durante a temporada inteira. Já são sete meses disso. Por que esses resultados vieram agora? Foi algo diferente que você fez na preparação em comparação com os anos anteriores ou foi só sua evolução natural?

Na transição de dezembro para este ano, eu comecei a ser muito mais focado em questões de físico, de alongamento, de cuidar do corpo e da alimentação. Também fiz muito trabalho de meditação e visualização que mudou muito a minha forma de encarar o jogo em si e momentos tensos da partida. Isso me deixou mais tranquilo e muda muito, principalmente na recuperação de um dia para o outro e na qualidade do treino em si, na questão de conseguir ficar mais tempo concentrado no que você se propõe a fazer. Comecei a dar muito mais valor a essas coisas extraquadra e também a cada momento do treino em si.

Quando você fala de cuidar da alimentação, isso mudou especificamente o que para você?

É comer a coisa certa no momento certo, especialmente com carboidratos, que me ensinaram que mantêm a energia do corpo e que te fazem recuperar de um dia para o outro. São várias explicações, várias coisas complexas, que não sou nenhum especialista para te dizer, mas me passaram, e eu sou muito disciplinado. Venho seguindo isso, e isso faz uma diferença muito grande. São coisas que até evitam lesões, inflamações no corpo. Quando eu era mais novo, no período juvenil e um pouco depois, refrigerante e hambúrguer era todo dia (risos). Isso eu parei e desde que eu parei, as coisas começaram a dar certo. Juntando com tudo que eu vim fazendo, foi uma união de várias coisas que fizeram isso acontecer.

Tem também uma questão de confiança que veio com essas vitórias, né?

Comecei a entender o jogo de uma forma melhor. Meus treinadores, o Duda Matos e toda equipe da Tennis Route, sempre tentaram estabelecer isso na minha cabeça e sempre acreditaram muito mais no meu potencial muito do que eu acreditava em mim. Aos poucos, eu fui aceitando, fui acreditando mais, especialmente depois dessas duas semanas do Brasil. Realmente, eu vi que poderia competir em alto nível, que poderia estar estabelecido nos torneios maiores. Fui acreditando nisso, fui me dedicando, fui evoluindo bastante com o passar das semanas e mantendo os bons resultados. Independentemente dos bons resultados no Brasil, não me acomodei. Isso passou a me motivar a trabalhar mais duro e evoluir mais. Eu acabo perdendo um jogo ou outro e vejo que tenho muita coisa para evoluir ainda, e o nível que eu pretendo chegar ainda está um pouco longe. Sigo nessa mesma dedicação, tentando identificar essas falhas para tentar seguir evoluindo.

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Foi um ano olímpico, mas imagino que não estivesse nos seus planos estar nos Jogos. Só que no fim das contas, você acabou não ficando nem tão longe assim da zona de classificação. Como foi essa sensação?

Eu encarei de uma forma tranquila. Na verdade, não era o objetivo. Achei que era praticamente impossível de jogar uma Olimpíada. Eu janeiro, eu era 460 do mundo. Eu queria mesmo poder estar bem e disputando os torneios que disputei ali e fui bem. Não tinha expectativa nenhuma de entrar na Olimpíada. No final, ficou por pouco. Seria uma honra, a realização de um sonho. Todos que jogaram falaram que é algo diferente de qualquer coisa que já sentiram. Não foi este ano, mas quem sabe em Tóquio? Se conseguir manter esse bom nível e evoluir bem, quem sabe a gente consegue traçar um objetivo de estar em Tóquio?

Não teve Olimpíada, mas teve Copa Davis. Não foi um ambiente completamente novo porque você já esteve com a equipe antes, mas como foi sentir ser titular, a sensação do “eu vou jogar”?

Todos me receberam super bem, me passaram todas experiências de como é uma Davis, as sensações que eles tiveram a primeira vez que jogaram. Foram me tranquilizando aos poucos. Eu estava muito bem. Tive uma estreia bem dura contra o Goffin. Apesar de ele ter dominado o jogo de certa forma tranquila, eu acho que também não joguei mal. É que ele realmente está num nível acima ainda e mostrou por que está entre os 15 do mundo há uns dois, três anos já. Não é fácil se manter nesse nível. É um cara diferenciado. Mas foi uma experiência incrível, fiquei feliz de poder estar lá. Tentei dar o meu melhor, tive para mim uma estreia boa e espero poder futuramente voltar e me firmar na equipe.

Num jogo assim, em que você joga bem, mas vê que o outro está muito acima, é o tipo de jogo que te faz pensar “puxa, falta muito ainda para estar onde eu quero?” Foi assim que você encarou isso?

Não, não. Tem um pouco desse sentimento, mas o que fica mesmo é motivação mesmo. De realmente saber que por mais que eu tenha melhorado muito, esses caras são minha referência, é contra esses caras que quero continuar competindo. Eu pego como motivação para seguir nessa linha de trabalho, de pés no chão, de estar ciente de que eu tenho que trabalhar muito duro para manter nesse alto nível. Aprendi muito naquele jogo. Você percebe mais as deficiências do seu jogo.

Sobre essas deficiências, o que você vê como próximo passo no seu jogo? Qual seria a prioridade número 1 para você melhorar agora?

Uma das prioridades é a devolução de saque, sim. Eu posso ser mais sólido nas devoluções, mais agressivo também, especialmente nos segundos saques. E as transições, né? Ganhar a quadra um pouco mais rápido, conseguir fechar melhor o jogo na rede, matar nos voleios. São essas duas adaptações que eu preciso fazer bem no meu jogo e, de certa forma, eu vou conseguir pegar bem porque vou começar a jogar mais em quadras duras. Devo ter garantido (uma vaga na chave principal) o Australian Open com esse resultado (final em Santos). Joguei muito pouco em quadras duras. Dois ATPs e um Challenger este ano. Nunca tinha jogado torneios desse nível nesse tipo de quadra. Por mais que os resultados não tenham sido excepcionais, acho que fiz bons jogos e evoluí bastante nesses aspectos. Com o tempo, jogando mais, posso evoluir mais ainda.

Você ficou a uma vitória de ser o número 1 do Brasil. Quando um jornalista pergunta sobre isso, normalmente a resposta é que “número 1 do Brasil é só um número”. Você acha isso também?

Ah, acredito também que seja só um número. Não define nível, não define ninguém como jogador. Até porque o Thomaz, por mais que caia no ranking, vai ser o número 1 porque foi o último cara a estar ali perto dos 20 do mundo. Teve títulos de ATP, várias vitórias contra top 10, entre outros resultados incríveis que ele teve. Eu uso ele como referência, a gente tem treinado bastante junto, e por mais que tivesse acontecido em Santos, não seria algo que eu iria ficar me gabando. Acho que o nosso objetivo é outro e, sem dúvida, ainda tem muita coisa pela frente.

Você tem uma série de Challengers (Campinas, Buenos Aires, Santiago, Lima e Guaiaquil) pela frente agora e pouca coisa para defender. O objetivo mesmo é somar para se garantir nos ATPs do começo do ano e encarar uma sequência forte já no início de 2017?

Dependendo de como for a gira, de como forem as pontuações, eu pretendo realmente começar o ano nos ATPs mesmo e na chave do Australian Open. Se eu conseguir uma boa margem, dá para seguir se mantendo nos ATPs. A gente vai definir dependendo de como for essa gira, mas o objetivo é que comece nos ATPs e continue assim.

Vai ser o primeiro começo de temporada que você vai ficar despreocupado financeiramente, sabendo que vai poder viajar e jogar aqui e ali sem depender de resultado?

Ah, vai ser uma parte boa porque posso investir um pouco mais na equipe. Posso levar meu treinador. Como vai ser uma gira longa e com jogo de cinco sets, posso levar meu preparador físico também. Então acho que essas premiações têm me ajudado muito com isso. Eu prezo muito por investir nas pessoas que estão sempre ao meu lado, que trabalham comigo e que, sem dúvida, me fazem crescer no dia a dia para, quem sabe, ganhar mais ainda.

O Fabrizio (Gallas, assessor de imprensa da Tennis Route) me disse que você está procurando apartamento no Rio (Monteiro mora no alojamento da academia). Isso também faz parte desse processo, né? De um amadurecimento financeiro e como pessoa, digo…

Sim, sim. Quando eu morei seis anos no sul (em Camboriú, SC), nos últimos quatro anos eu alugava um apartamento, pagava minhas despesas, me sentia um homenzinho (risos) independente, então… Mas são coisas que o tênis proporciona. Eu tive que lutar muito por isso e também tenho a possibilidade de ajudar minha família. São essas coisas que me motivam a querer melhorar cada vez mais.


Davis, dia 2: tombo inesperado encerra fim de semana decepcionante
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Alexandre Cossenza

O golpe fatal veio de onde não se esperava. Ruben Bemelmans e Joris De Loore, a dupla escalada pela Bélgica mais para poupar David Goffin e Steve Darcis do que para ganhar de fato, acabou derrubando os favoritos Bruno Soares e Marcelo Melo em cinco sets. O tombo dos mineiros por 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4 completou um fim de semana decepcionante – mais pelas atuações do que pelo resultado final – para o time do capitão João Zwetsch, que mostrou pouco poder de reação e quase nenhuma variação tática nas simples de sexta-feira.

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Com o 3 a 0, a Bélgica continua no Grupo Mundial, a elite da Copa Davis, enquanto o Brasil volta para o Zonal das Américas, onde esteve em nove das últimas 11 temporadas. Neste sentido, não há grandes e novas conclusões a tirar. O Brasil continuará sendo favorito dentro do continente para alcançar os playoffs, mas ainda dependerá de um sorteio favorável (e o confronto contra a Bélgica não era nem de longe o pior dos cenários) e/ou da ascensão de um segundo simplista.

A maior expectativa agora fica por conta de Thiago Monteiro, que obteve ótimos resultados em 2016. Seria bom mesmo que o cearense de 22 anos desse outro passo adiante na carreira e se firmasse como tenista de nível ATP. Até porque entre os brasileiros mais novos que ele ainda não há ninguém mostrando tênis suficiente para defender o país internacionalmente.

O favoritismo era brasileiro, claro. Afinal, dois vencedores de Slam com muito tempo de quadra juntos enfrentariam jogadores que só haviam atuado juntos uma vez – uma derrota na primeira rodada de um Challenger. Um deles, De Loore, nunca havia vestido as cores do país na Copa Davis. O nervosismo ficou evidente. O jovem de 23 anos fez um foot fault e errou um voleio fácil logo no segundo game. A quebra veio, e os brasileiros não deram chance para reação. Os belgas não ameaçaram em momento algum e venceram apenas dois (dois!) pontos de devolução no primeiro set inteiro.

Se parecia um passeio de fim de semana, logo apareceu aquele engarrafamento que ninguém espera porque a PM montou uma blitz às 10h no único caminho até a praia. Bemelmans e De Loore acharam um ritmo melhor, sacaram espetacularmente (83% de aproveitamento de primeiro serviço) e arriscaram nas devoluções. Tiveram dois break points em games diferentes, mas De Loore, jogando no lado da vantagem, não conseguiu encaixar devoluções. No tie-break, a postura agressiva junto à rede que vinha dando certo saiu pela culatra. Bemelmans acertou um belo lob sobre Marcelo, e a Bélgica abriu 6/4. Foi o único mini-break do game, e os donos da casa empataram a partida.

O equilíbrio continuou, com pequenas chances para os dois lados. O terceiro set só teve um break point. Foi no décimo game, e Melo converteu com uma devolução vencedora (vide tweet acima). A quarta parcial começou com uma quebra da Bélgica, e o time da casa salvou dos break points em games diferentes antes de devolver o 6/4 anterior e mandar a decisão para o quinto set.

A essa altura, Bemelmans já tinha o tempo dos saques brasileiros e cravava devoluções impressionantes. Quando De Loore fazia o mesmo, significava perigo de quebra. Aconteceu no terceiro game, e Melo perdeu o saque. Os donos da casa abriram 3/1 e continuaram melhores nos games de serviço. O time mineiro tentou e ainda venceu um pontaço (vídeo abaixo), mas não conseguiu devolver a quebra. Game, set, match, Bélgica: 3/6, 7/6(5), 4/6, 6/4 e 6/4.

Uma temporada nada memorável

Se não voltarem a jogar juntos em 2016 (não há nada previsto até agora), Bruno Soares e Marcelo Melo terminarão a temporada com uma campanha de seis vitórias e quatro derrotas atuando juntos. Ainda que os mineiros tenham ficado a uma vitória de brigar pela medalha olímpica, trata-se de um histórico nada memorável para o potencial de ambos – especialmente considerando que três dessas vitórias aconteceram contra duplas irrelevantes no circuito: Fabiano de Paula/Orlandinho, Emilio Gómez/Roberto Quiroz e Nicolás Almagro/Eduardo Russi.


Davis, dia 1: Bélgica aproveita limitação brasileira
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Alexandre Cossenza

Thiago Monteiro ganhou uma batata quente de presente em sua estreia na Copa Davis. Thomaz Bellucci fez mais uma partida daquelas cheias de erros (35 não forçados, pela conta econômica da ITF) e sem variações táticas. O resultado foi uma péssima sexta-feira em Oostende, na Bélgica, onde o time da casa abriu 2 a 0 na série melhor de cinco que define quem jogará o Grupo Mundial da Copa Davis em 2017. Um dia que expôs a limitação dos simplistas brasileiros – e até do capitão – e que deixou o país sem margem para erro nos próximos dois dias.

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A superioridade

O dia começou com Thiago Monteiro soltando o braço e tentando incomodar David Goffin. Até conseguiu por alguns games no serviço do belga. Monteiro teve 0/30 no segundo game, um 30/40 no quarto e um 30/30 no sexto. O tenista da casa, contudo, venceu todos – sem exceção – pontos grandes do set. Depois de fechar a parcial por 6/2, jogou mais à vontade e dominou. Só perdeu mais dois games depois disso e fechou em 6/2, 6/2 e 6/0.

Ainda que haja uma clara diferença de nível e de experiência, não consegui ver uma tentativa de Monteiro de mudar taticamente o andamento do jogo. Era até esperado que ele entrasse em quadra adotando o bom e velho “entra sem pressão e solta o braço”, mas nesse nível, na primeira partida melhor de cinco sets de sua carreira, seria preciso um plano B. Não garantiria um resultado diferente, mas seria uma tentativa. Do jeito que a partida correu, Goffin não foi tão exigido assim.

A falta de recursos

No aspecto estratégico, o segundo jogo não foi muito diferente. Thomaz Bellucci entrou em quadra disposto a atacar primeiro e fazer Steve Darcis correr. O belga apostou em variações. Slices cruzados e paralelos, velocidades e altura de bola diferentes e paciência, muita paciência. Darcis trocava bolas e esperava chances para atacar na boa, com o forehand na paralela.

O #1 do Brasil fez um belo primeiro set, que teria sido até mais fácil não fosse um pavoroso sétimo game. Ainda assim, Bellucci venceu o tie-break e parecia firme no jogo. A coisa começou a desandar no quarto game do segundo set. Darcis aproveitou o quinto break point e deslanchou. O paulista desandou a errar. Errou curtinhas, voleios, forehands e tudo que podia errar. Em vários momentos, também subiu mal à rede e pagou o preço.

O problema, como quase sempre acontece com Bellucci, foi a execução. Contra um Darcis sólido e paciente, o brasileiro teria duas opções: ou tentar algo diferente ou executar melhor seu plano A. Não fez nem um nem outro. Para piorar, Darcis jogou mais solto e agressivo quando teve a dianteira. Sem plano B, restou ao paulista ficar em quadra esperando por um milagre que não veio. Darcis fez 6/7(5), 6/1, 6/3 e 6/3 e colocou seu país com uma enorme vantagem.

A esperança

Com uma dupla forte como a de Bruno Soares e Marcelo Melo, o mais provável é que o Brasil sobreviva ao sábado. Por enquanto, a Bélgica tem Ruben Bemelmans e Joris de Loore escalados para o jogo de sábado. O mais provável é que o capitão belga, Johan Van Herck, mantenha a formação e poupe seus titulares para o domingo, quando precisará de um pontinho para seguir no Grupo Mundial.

Para o capitão João Zwetsch, resta rezar para duas zebras. Primeiro, Bellucci precisará derrotar Goffin sem a torcida brasileira fazendo estrago no cérebro do belga. Depois, terá de contar com uma vitória do estreante Thiago Monteiro contra o veterano Darcis, 32 anos, que vem num ótimo momento na temporada e dois dias depois de uma atuação belíssima contra Bellucci. Possível? Sim. Num domingo qualquer, tudo pode acontecer. Provável? Nem tanto.


Quadra 18: S02E12
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Alexandre Cossenza

Stan Wawrinka derrubou Novak Djokovic mais uma vez, Angelique Kerber tomou posto de #1 das mãos de Serena Williams e Bruno Soares conquistou mais um título em um torneio do Grand Slam. Não faltou assunto neste episódio do podcast Quadra 18. Sheila Vieira, Aliny Calejon e eu conversamos sobre um pouco de tudo que aconteceu no US Open, desde a polêmica do pé sangrando de Djokovic até a “carta fantasma” de Wozniacki.

O programa ainda tem áudios especiais enviados por Bruno Soares após sua conquista, além de análises táticas, surpresas e decepções, exercícios bem humorados de “futurologia” e uma indagação curiosa sobre a Bel Pesce do tênis. Quer ouvir? É só clicar no player acima. Se preferir baixar e ouvir depois, clique neste link com o botão direito do mouse e selecione a opção “salvar como”.

Os temas

0’00” – Aliny apresenta os temas
01’00” – O quinto título de Slam de Bruno Soares
01’33” – Bruno e Marcelo causam divisão no podcast
02’45” – Os motivos do sucesso de Bruno Soares e Jamie Murray
06’08” – Bruno Soares fala da preparação e da dura estreia no US Open
08’00” – O tenso confronto de oitavas contra André Sá e Chris Guccione
09’13” – “Eu me identifico com o Guccione”
11’54” – Como Carreño Busta e García López chegaram na final
13’28” – Bruno Soares fala da sensação de ter cinco títulos de Slam no currículo
14’40” – Bruno Soares fala sobre a intenção de brigar para ser #1 do mundo
15’02” – As campanhas dos outros brasileiros na chave de duplas
17’50” – “Marcelo deve insistir na parceria com Dodig para 2016?”
20’15” – Quem seria um novo bom parceiro para Marcelo Melo?
22’58” – Don’t Lose My Number (Phil Collins)
23’45” – Wawrinka e seu terceiro título em um torneio do Grand Slam
24’00” – “Só falta Wimbledon mudar para o saibro!”
24’30” – Como explicar as 11 vitórias seguidas em finais de Stan Wawrinka?
25’55” – Uma semelhança entre Stan Wawrinka e Thomaz Bellucci
28’05” – O nível de Djokovic na final e a questão física
29’30” – O que vai ser da ATP? Djokovic terá seu #1 ameaçado?
31’15” – O momento de Rafael Nadal
32’25” – Stan pode fechar o Career Slam? E Bruno Soares?
35’15” – Stan vai manter a meta de um Slam por ano ou é melhor deixar a meta aberta e dobrar depois?
36’10” – Ouvinte: Wawrinka já é maior que Murray e Wawrinka?
39’05” – Djokovic acertou no plano de jogo na final do US Open?
42’15” – Opiniões sobre a polêmica do pé sangrando de Djokovic
46’54” – Djokovic precisa de um tempo parado para tratar as questões físicas?
47’30” – Djokovic estará no Rio Open em 2017? E Andy Murray?
48’53” – Andy Murray decepcionou no US Open?
52’21” – Rafael Nadal, sua eliminação
55’14” – Nadal teria sentido pressão na derrota contra Pouille?
56’00” – Raonic e Cilic, as grandes decepções do torneio masculino
58’13” – Monfils foi antiesportivo na partida contra Novak Djokovic?
60’21” – Monfils, o homem mais sortudo de 2016 e sua chave no US Open
62’04” – O título juvenil nas duplas de Felipe Meligeni
62’50” – Sheila e Cossenza contam histórias com Fernando e Felipe Meligeni
66’23” – Send Me An Angel (Scorpions)
66’54” – O título de Angelique Kerber
67’55” – Cossenza enumera as qualidades da campeã: “Virei fã da Kerber”
69’33”- Kerber como uma evolução de Wozniacki
70’30” – Angelique Kerber vai se manter como número 1 por algum tempo?
72’25” – O que fez Karolina Pliskova finalmente ir longe em um Slam?
75’15” – Acabou a era de domínio de Serena Williams?
76’34” – Patrick Mouratoglou paga para treinar Serena Williams?
78’18” – “Seria Patrick Mouratoglou a Bel Pesce do tênis?”
79’05” – Garbiñe Muguruza, a decepção do torneio feminino
80’18” – Ana Konjuh e Caroline Wozniacki, as surpresas do US Open
82’40” – A “carta fantasma” de Caroline Wozniacki
84’25” – Wozniacki voltará a ser um nome relevante na WTA?
87’30” – Angels (Robbie Williams)

Crédito musical

A faixa de abertura é chamada “Rock Funk Beast”, de longzijum.


NY, dia 14: três wezes Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis
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Alexandre Cossenza

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Num dia, o suíço está quebrando a cabeça e descontando a raiva na raquete enquanto leva uma virada do argentino Federico Delbonis. Duas semanas depois, faz uma das partidas mais memoráveis do ano e bate Novak Djokovic na final de Roland Garros. Num domingo, escapa por um ponto da eliminação diante de um jovem que nem no top 50 está. No outro, faz o número 1 do mundo correr por quatro horas até não conseguir ficar em pé – literalmente – e conquista o US Open. Eis Stan Wawrinka, o mistério mais sedutor do tênis mundial.

O difícil – difícil mesmo – ao ver um jogo do número 1 da Suíça e atual #3 do mundo é não soltar uma expressão de espanto, saudação, admiração e incredulidade – tudo ao mesmo tempo – a cada paralela, de forehand ou backhand, que voa pesada rente à rede, deixa uma marca junto a uma das linhas e morre no fundo da quadra, deixando o adversário frustrado, confuso, meio que desafiando Wawrinka a fazê-lo outra vez, mas ciente de que o suíço é capaz de repetir aquilo nos próximos segundos.

Wawrinka também é o homem que não se importa em estar fora do top 4. Tão consciente que é, sempre é ele mesmo o primeiro a dizer que está longe do grupo de de Djokovic, Murray, Nadal e Federer, não importa o ranking. E não está nem aí para isso. Quando lhe perguntam por que ele tem “só” um título de Masters 1.000, diz que “não sei e só posso dizer que estou feliz com esse troféu hoje.” Pouco importa. Ganhou três Slams, batendo Djokovic – duas vezes – e Nadal nessas finais. E, a cada resposta sobre o assunto, é como se Stan dissesse uma combinação de “e daí se não ganhei mais aqui ou ali?” com “não me encham o saco” da forma mais suíça imaginável.

Wawrinka também é um mistério quando soma 11 vitórias seguidas em finais, algo que Djokovic, por exemplo, não conseguiu. E não seria tão espantoso assim se o consistente sérvio conseguisse. Federer fez isso lá atrás, em 2004-05. Nadal também somou mais de 11 em 2005-06. Mas Wawrinka, um homem que raramente joga bem duas semanas seguidas, vencer 11 finais em sequência? E incluir triunfos sobre Djokovic, Nadal e Federer nessa lista? Vai entender…

“Confiança” e “jogos de cinco sets”, explica Wawrinka como se as 11 finais fossem a estatística mais banal do mundo. O suíço diz que adquire confiança a cada vitória e que jogos mais longos lhe permitem errar mais. “Depois de uns games, começo a acreditar em mim mesmo, começo a entrar no jogo.” Simples, não? Na verdade, não. Nem um pouco. Mas Stan faz tudo soar assim, descomplicado, como se também fossem mundanas a violência e a precisão de seus golpes.

E agora, o que reserva o futuro para Wawrinka? Mais Slams? Uma eventual briga pela liderança do ranking? Ou um título esporádico aqui e outro ali? Pouco importa, acredito eu. E acho que ele mesmo concordaria. Seu poder de sedução está na dúvida. Stan é um homem que num momento segura o troféu como se fosse o melhor presente da vida e, poucos segundos depois, como se estivesse a entornar uma caneca da Oktoberfest.

Seu tênis é aquela colega de faculdade que se mostra disponível num momento e, no dia seguinte, dá a entender que não quer nada. Torcer por Wawrinka, então, é mergulhar de cabeça numa paixão avassaladora sem saber se aquilo vai terminar em relacionamento sério ou num coração em pedaços. Mas quem ousa dizer que todas essas sensações não são gloriosas?

A escolha tática de Djokovic

A questão já foi abordada no post pré-final, mas acho que vale lembrar. Novak Djokovic começou a final de maneira cautelosa, meio que pagando para ver o que Wawrinka tinha na mão. Valeu a pena no primeiro set – como valeu naquela final de Roland Garros – mas quando o suíço achou o tempo e calibrou seus golpes, o cenário mudou. O #1 não achou uma saída, um caminho que lhe desse vantagem consistentemente nas trocas de bola. O plano de jogo que deu certo contra Wawrinka na maioria das vezes falhou neste domingo.

Não me parece tão justo assim criticar a estratégia de Djokovic. Afinal, o sérvio ainda teve muitas chances no segundo e no terceiro sets, quando a partida ainda estava parelha. Foram três break points seguidos não convertidos no quinto game da segunda parcial (0/40), mais três no primeiro game do terceiro set e mais unzinho dois games depois. No fim das contas, a final foi muito mais decidida no velho quesito “chances aproveitadas” do que em planos de jogo.

Mesmo perdendo por 2 sets a 1, Djokovic ainda estaria bastante “dentro” de jogo não fosse pelos problemas nos dedos dos pés, que atrapalharam sua movimentação. Houve polêmica pelo momento em que o atendimento médico foi realizado (após um game par, antes do saque de Wawrinka), mas como o suíço não perdeu o serviço e acabou vencendo o duelo, o assunto perdeu força. Além disso, as imagens da transmissão de TV deixaram claro que o problema de Djokovic era real e bastante sério.

O ponto do jogo

Obrigado à Aliny Calejon por registrar o melhor ponto da partida. Foi, curiosamente, o único ponto vencido por Wawrinka no tie-break do primeiro set.

O top 10

As dez primeiras posições do ranking mundial ficaram assim:

1. Novak Djokovic – 14.040 pontos
2. Andy Murray – 9.485
3. Stan Wawrinka – 6.260
4. Rafael Nadal – 4.940
5. Kei Nishikori – 4.875
6. Milos Raonic – 4.760
7. Roger Federer – 3.745
8. Gael Monfils – 3.545
9. Tomas Berdych – 3.390
10. Dominic Thiem – 3.295

As mudanças mais significativas da lista foram a subida de Nadal do quinto para o quarto posto, o que faz uma diferença enorme no chaveamento de torneios; a ascensão de Monfils, que ganhou quatro postos; e a queda de Federer, que não disputou o US Open e perdeu três posições.


NY, dia 13: Kerber, campeã e ícone de um novo momento no tênis feminino
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Alexandre Cossenza

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Angelique Kerber colocou um ponto de exclamação em sua chegada ao topo do ranking feminino ao, neste sábado, conquistar o título do US Open. O número 1 já estava assegurado desde que Serena Williams caiu nas semifinais, mas a alemã voltou ao Estádio Arthur Ashe e derrotou Karolina Pliskova por 6/3, 4/6 e 6/4 para conquistar seu segundo título em um Slam na temporada.

A decisão foi mais uma demonstração de todas as (muitas) qualidades do tênis de Kerber. Agressividade na medida certa, paciência para trabalhar pontos, contra-ataques precisos, enorme capacidade defensiva e uma paralela de forehand (a alemã é canhota) que “quebra” qualquer adversário.

Andy Roddick, periscopando durante a final, foi muito feliz ao comparar Kerber com Tim Duncan, o ala-pivô aposentado que foi cinco vezes campeão da NBA pelo San Antonio Spurs. O ex-número 1 do mundo disse (em tradução livre) que “a grandeza de Tim Duncan estava em sua capacidade de dominar os fundamentos do jogo. Nada saltava aos olhos, nada era um highlight, mas ele foi jogador defensivo do ano, esteve no time defensivo da NBA, foi MVP, conquistou títulos e, ao mesmo tempo, parecia um cara normal. Angelique Kerber é igual. Ela domina os fundamentos. Ela mantém muito espaço entre ela e sua adversária, a não ser que seja de propósito…”, “…escolhe a hora certa para mudar a direção, põe em joga várias devoluções, varia bastante a trajetória em suas devoluções…” “Espero que se fale mais sobre seu QI tenístico. Acho que é altíssimo e que é maior do que era dois ou três anos atrás.”

O novo momento

O título de Kerber marca sua chegada ao topo e, ao mesmo tempo, parece que a temporada de 2016 ficará para a história como o ano do fim do domínio de Serena Williams. A americana, que completa 35 neste mês de setembro, ainda é a tenista mais completa do circuito. É quem tem mais armas e, em condições normais, é favorita a qualquer troféu. Serena, aliás, ainda tem boas chances de terminar o ano como número 1 do mundo, desde que não decida, como no ano passado, encerrar sua temporada mais cedo.

O ponto é que o enorme vão que a separava do resto do circuito encolheu com a ascensão da turma de Kerber, Muguruza, Halep e, quem sabe, Keys, Pliskova. Serena já não tem físico para jogar um calendário cheio. Disputou apenas oito eventos em 2016 e, mesmo assim, teve de lidar com lesões. Em dias abaixo de seu normal, já não consegue mais sair de buracos como antes. Foi assim em Melbourne e Nova York. Em Paris, foi diferente. O grande tênis de Muguruza sufocou a americana. Impensável tempos atrás. Hoje, nem tanto. O domínio, na plena acepção da palavra, não existe mais.

O top 10

Após o US Open, o ranking feminino tem dois nomes dentro do top 10 alcançando sua melhor posição na carreira. Além de Kerber, que assume a liderança, Pliskova salta para o sexto posto. A ordem fica assim:

1. Angelique Kerber – 8.730 pontos
2. Serena Williams – 7.050
3. Garbiñe Muguruza – 5.830
4. Agnieszka Radwanska – 5.815
5. Simona Halep – 4.801
6. Karolina Pliskova – 4.425
7. Venus Williams – 3.815
8. Carla Suárez Navarro – 3.330
9. Madison Keys – 3.286
10. Svetlana Kuznetsova – 3.250

Teliana Pereira, que ainda ocupa o posto de número 1 do Brasil, cairá para além do 150º posto. Paula Gonçalves não está muito longe e soma apenas 23 pontos a menos que a pernambucana. Enquanto isso, a suspensa Maria Sharapova ocupa o 93º posto, à frente de Francesca Schiavone (94) e Kristyna Pliskova (95).

Leitura recomendada:

Como foram duas semanas complicadas para mim, acabei deixando de lado esta seção de recomendações de artigos durante o US Open. Hoje, contudo, esbarrei num texto indicado pelo jornalista americano Ben Rothenberg e que foi publicado no Washington Post. Nele, a tenista universitária Allegra Hanlon conta como a federação americana (USTA) proíbe os jovens do país de gritar “Vamos!” ou qualquer outra palavra que não seja em inglês durante as partidas. Os relatos – Allegra não foi a única vítima da regra – são entristecedores.

O juvenil brasileiro campeão

Felipe Meligeni Rodrigues Alves, sobrinho do semifinalista de Roland Garros, conquistou o título de duplas juvenis do US Open. Ao lado do boliviano Juan Carlos Aguilar Peña, o brasileiro bateu os canadenses Felix Auger-Aliassime e Benjamin Sigouin por 6/3 e 7/6(4). Foi o último Slam juvenil do brasileiro de 18 anos, que abriu a semana como #40 do mundo em sua faixa etária.

A partir de 2017, Felipe entrará de cabeça no circuito profissional. Até agora, tentou a sorte em cinco ITFs e venceu um jogo – em São José do Rio Preto, em agosto de 2015. Em 2016, o campineiro jogou um Future e um Challenger. Perdeu para José Pereira no primeiro e para Carlos Eduardo Severino no segundo.


NY, dia 13: o enorme Bruno Soares conquista seu quinto título
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Alexandre Cossenza

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A conversa abaixo pode ou não ter acontecido entre um jornalista e o pai de um conhecido juvenil brasileiro antes deste US Open.

Jornalista: Oi, tudo bom? Estou esperando pra conversar com seu filho depois do treino.
Pai: Opa, e ai? Legal, mas ele não tá dando entrevista, não.

Ah, não? Poxa.
Não. A gente não quer que ele perca o foco. Desde que ele apareceu mais, digamos assim, muita gente procurou ele. Se ele falar com todo mundo, acaba perdendo o foco. E ele está numa idade importante, né?

Certamente. Então o senhor acha que dar entrevista atrapalha ele?
Claro. É um tempo que ele perde que poderia estar fazendo outra coisa.

Sim. Poderia estar no Facebook, no WhatsApp, caçando Pokémon, qualquer coisa.
Mas não é só o tempo, não. É muita pressão, sabe?

Pressão?
Claro. Ele é o melhor juvenil do país.

Mas tem muito jornalista escrevendo que espera muito dele?
Não, mas porque a gente não deixa ele dar entrevista. Tem que ficar quieto, né? Porque se ficar falando, a pressão só aumenta.

Não entendi. O senhor acha que a pressão aumenta se ele der mais entrevista?
Claro.

Sei. Mas essa pressão que o senhor diz que existe… Isso é porque o seu filho é bom tenista. Uma promessa, né?
É.

Não é todo tenista bom que tem isso?
Acho que sim, né?

Então talvez, de repente, só pensando alto aqui… Não seria melhor ele se acostumar logo com essa pressão que o senhor diz?
Ah, mas pressão só atrapalha.

Entendi. Quer dizer, acho que entendi.
A gente não pode deixar o menino muito exposto.

Bom, já que o seu filho não vai dar entrevista, vou indo. Um bom dia pro senhor.
É difícil trabalhar com tênis, né? Jogador não fala muito com jornalista, né?

Alguns até que falam, viu? Aliás, olha que coisa curiosa… O senhor sabe quem é o brasileiro que mais dá entrevista?
Quem?

Bruno Soares. Ganhou quatro Slams. Parece que ele não se incomoda muito com esse negócio de pressão…

O quinto título

A final-final foi hoje, neste sábado, mas Bruno Soares e Jamie Murray deram o maior dos passos rumo ao título do US Open quando venceram um duelo tenso com Nicolas Mahut e Pierre-Hugues Herbert. A decisão acabou sendo com Guillermo García-López e Pablo Carreño Busta, que deram uma força e eliminaram Feliciano López e Marc López.

De drama mesmo, só o primeiro game, quando Jamie teve seu serviço quebrado. Depois disso, brasileiro e escocês dominaram. Fizeram 6/2 e 6/3 e conquistaram seu segundo título na temporada. O circuito de duplas não via um time triunfar duas vezes no mesmo ano desde Bob e Mike Bryan, em 2013.

É o quinto título de Slam de Bruno Soares. Ganhou três nas mistas(US Open 2012 e 2014; Australian Open 2016) e dois nas duplas (Australian Open e US Open 2016). É o mais acessível dos tenistas brasileiros – e não só aos jornalistas. Sincero, simpático e campeão. Um enorme tenista. Uma pessoa gigante.

Observação: por um compromisso familiar, não verei a final feminina na noite deste sábado. Escreverei sobre a partida no domingo, depois de ver a gravação.


NY, dia 12: por meios incomuns, Djokovic e Wawrinka vão a mais uma final
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Alexandre Cossenza

Do indescritível – ou quase isso – duelo entre Novak Djokovic e Gael Monfils ao impressionante desempenho de Stan Wawrinka diante da fragilidade física de Kei Nishikori, a sexta-feira foi inusitada em Nova York. O dia chega ao fim com sérvio, sempre ele, e suíço classificados para a decisão de domingo. O resumaço de hoje relata as partidas, fala sobre o que esperar da final e ainda cita as duplas mistas e o brasileiro que alcançou a decisão nas duplas masculinas juvenis. É só rolar a página para ficar por dentro.

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Se as semifinais femininas de ontem foram partidas normais, o jogo entre Novak Djokovic e Gael Monfils foi o equivalente a Dorothy caindo na toca do Coelho Branco, tomando a pílula azul, acordando do lado de uma morena perdida, com uma chave azul, um monte de dinheiro na bolsa e um tigre no banheiro. Aí elas entram num Honda, atropelam um negão, brigam com um estuprador com uma espada de samurai, pegam a Chopper do Zed, cruzam um portal e vão parar numa realidade paralela onde a moto virou um cavalo que levava uma carruagem que virou abóbora.

Mas eu divago. Na prática, o que aconteceu foi que Gael Monfils tentou jogar seu normal, viu que não daria certo e começou a se fazer de morto em quadra. O plano era desconcentrar Djokovic, o que até deu certo. O francês saiu de 0/5 para 3/5 e ainda teve mais dois break points no game em que o número 1 fechou a parcial.

O problema é que esse tipo de comportamento/tática/malandragem/catimba (escolha o substantivo que preferir) costuma ter prazo de validade, especialmente contra alguém do nível do sérvio. Djokovic passeou no segundo set e fez 6/2. Foi aí que o público de Nova York mostrou seu descontentamento com a postura “finjo que não tô nem aí” de Monfils e saltou uma sonora vaia.

O francês, então, voltou a jogar seu normal. Saiu de 0/2 para 5/2 no terceiro set, pediu uma Coca-Cola e até foi ao banheiro. Enquanto isso, Djokovic rasgou uma camisa, pediu atendimento no ombro direito e, depois, no ombro esquerdo. Os dois também faziam longas pausas entre os ralis. Segundo Djokovic, culpa da umidade, que causou um desgaste acima do normal, embora esperado.

No quarto set, Monfils não conseguiu bater a consistência de Djokovic. Não que o número 1 estivesse em um dia espetacular, o que seria mesmo difícil diante das circunstâncias. Mas a questão é que, ainda assim, a margem de erro para derrotar Djokovic é mínima. O francês não estava em nível tão alto assim. No fim, o placar mostrou 6/3, 6/2, 3/6 e 6/2.

O clima também afetou a segunda semifinal, assim como as chances aproveitadas por Kei Nishikori quando este ainda estava bem fisicamente. O japonês venceu o primeiro set, abriu a segunda parcial com uma quebra e, mesmo depois de perder o saque, teve seis break points. Não converteu nenhum e pagou o preço quando Stan Wawrinka soltou o braços nos games finais e empatou o jogo.

No terceiro set, com menos de 2h de jogo, Nishikori já dava sinais de cansaço. Sacava mal e acelerava a definição dos pontos, subindo à rede rapidinho. Wawrinka, que tinha uma quebra de vantagem, se desconcentrou com a mudança de postura do rival e perdeu a vantagem que tinha. Até o fechamento do teto ajudou o japonês, mas Wawrinka elevou seu nível a tempo de evitar um desastre. Salvou break point no nono game, quebrou Nishikori no décimo e fechou o set.

Se houve drama no quinto set, foi pela irregularidade de Wawrinka, que abriu 3/0, mas permitiu uma quebra quando tinha o controle do confronto. Ainda assim, o suíço, mais inteiro, foi melhor sempre que necessário. Quebrou o serviço outra vez antes que o japonês empatasse o jogo e levou a vaga na final: 4/6, 7/5, 6/4 e 6/2.

O que esperar?

Palpite para a final? Se é inegável que Djokovic é favorito contra qualquer um, é também fato concreto que Wawrinka é um dos poucos nomes capazes de derrotá-lo em uma final de Slam – vide Roland Garros/2015. O número 1 da Suíça será um teste físico para o número 1 do mundo. Djokovic ainda não precisou defender tanto neste US Open quanto costuma fazer quando enfrenta Wawrinka.

Será interessante ver a resistência do sérvio se o domingo for tão úmido quanto esta sexta-feira. Sem correr tanto, Djokovic saiu bem desgastado do jogo contra Monfils. Como seria diante dos forehands e backhands tão agressivos do suíço?

Minha maior curiosidade é saber se Djokovic apostará mais uma vez em uma postura cautelosa contra Wawrinka. A estratégia deu certo na maioria dos jogos, mas falhou na Austrália em 2014 e em Roland Garros, no ano passado. Em ambas ocasiões, o suíço foi campeão. É uma decisão enorme para Djokovic. Agredir correndo riscos ou esperar pelo nível de Wawrinka? Aguardemos…

Desconhecidos campeões

O roteiro não é tão raro assim, mas continua sendo curioso. Mate Pavic e Laura Siegemund se juntaram por força de ranking perto do fim do prazo para o fim das inscrições e foram juntos até o título de duplas mistas. Na entrevista pós-jogo, Siegemund admitiu que nunca tinha nem ouvido falar no nome de Pavic. Ele, por sua vez, disse que ficou amarrado a ela, já que não havia muitas opções. O título veio com um triunfo na final sobre Rajeev Ram e Coco Vandeweghe: 6/4 e 6/4.

O brasileiro juvenil

Felipe Meligeni Rodrigues Alves, sobrinho de Fernando, o campeão pan-americano de Santo Domingo 2003, está na final de duplas juvenis. Ele e o boliviano Juan Carlos Manuel Aguilar garantiram a vaga ao superarem o time formado pelo belga Zizou Bergs e o israelense Yshai Oliel: 4/6, 7/6(1) e 10/2.

Na final, Felipe e Juan Carlos vão enfrentar os canadenses Felix Auger Aliassime e Benjamin Sigouin, que são os cabeças de chave número 3 do torneio.


NY, dia 11: Bruno na final, o tombo de Serena e a nova número 1
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Alexandre Cossenza

Bruno Soares fará sua terceira final de Slam em 2016; Serena Williams tombou no Estádio Arthur Ashe diante de Karolina Pliskova; e Angelique Kerber, que entrou em quadra já com o número 1 do mundo garantido pelo revés da americana, fez um jogão e se garantiu em mais uma final de major na temporada. É seguro dizer que foi uma quinta-feira interessante em Flushing Meadows. Vejamos como foi:

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O brasileiro finalista

Bruno Soares está na decisão da chave de duplas. Em uma partida apertadíssima, com margens mínimas para erro, ele e Jamie Murray derrotaram a melhor dupla do ano – até agora – por 7/5, 4/6 e 6/3. Nicolas Mahut e Pierre-Hugues Herbert continuarão com o primeiro lugar na Corrida (ranking que conta só os pontos de 2016), mas Soares e Murray, que já estão classificados para o ATP Finals, assumirão a vice-liderança.

Sabadão é dia de final. #usopen2016 #brasilnasduplas #doublesisfun

A photo posted by Bruno Soares (@brunosoares82) on

A outra semifinal terminou com um resultado nada ruim para brasileiro e britânico. Seus adversários na decisão serão Pablo Carreño-Busta e Guillermo García-López, que surpreenderam os compatriotas Feliciano López e Marc López por 6/3 e 7/6(4). Feliciano e Marc vinham de vitória sobre os irmãos Bob e Mike Bryan. Além disso, López e López derrotaram Soares e Murray três vezes nesta temporada: Doha, Indian Wells e Barcelona.

E vale lembrar: será a terceira final de Slam para Bruno Soares em 2016. No Australian Open, ele foi campeão de duplas e duplas mistas. Seu currículo inclui ainda os títulos de duplas mistas do US Open em 2012 e 2014. O mineiro também fez a final de duplas do US Open em 2013, mas seu parceiro na ocasião, Alexander Peya, entrou em quadra com uma lesão nas costas. O time não teve chances diante de Leander Paes e Radek Stepanek.

O tombo de Serena

Na primeira semifinal da noite, Serena Williams cometeu um erro essencial: começou a partida tentando decidir os pontos rapidamente e, para isso, agrediu além da conta. Perdeu um saque com quatro boas devoluções de Pliskova e cometeu muitas falhas na tentativa de matar o ponto antes que a tcheca atacasse.

Era uma tática arriscada, a Serena pagou o preço. Com pontos curtos o jogo inteiro – à exceção de mais dúzia de ralis fantásticos – a americana jamais encontrou um ritmo em que se sentisse confortável. Serena e seu técnico, Patrick Mouratoglou, deveriam imaginar que não haveria margem para jogar meia dúzia de pontos longos, calibrar os golpes e se recompor. E não houve. Ao asir atrás, a cabeça de chave 1 teve de andar na corda bamba o tempo inteiro.

Pliskova, por sua vez, esteve mais perto de sua zona de conforto o tempo inteiro. Sacou bem durante a maior parte do jogo, atacou com mais inteligência e teve o enorme mérito de não perder o foco quando Serena esboçou uma reação na segunda parcial, gritando “come on”s e comemorando vários erros da oponente. Confirmou seu saque, largou na frente no tie-break e, de novo, manteve a calma quando Serena saiu de 0/3 para 4/3. A tcheca venceu um ponto enorme no 5/5 e, no match point, viu a rival cometer uma dupla falta. Game, set, match: 6/2, 7/6(5).

A tcheca agora chega à final do US Open com 11 vitórias nas costas. Desde a derrota para Simona Halep em Montreal, Pliskova encontrou um nível consistente para sua agressividade e colecionou uma lista invejável de vítimas: Serena, Kerber, Muguruza, Venus e Kuznetsova. São cinco top 10 em dois torneios.

A nova número 1

Se alguém não conhecia Angelique Kerber e decidiu ver seu jogo após a derrota de Serena, logo entendeu por que a alemã assumirá a liderança do ranking mundial depois do US Open. A campeã do Australian Open deu uma aula de tênis em Caroline Wozniacki, que joga um tênis parecidíssimo com o de Kerber. Quando a partida começou, contudo, ficou claro que a alemã joga uma espécie de versão turbinada do que a dinamarquesa faz/fazia quando foi número 1 do mundo.

Os dois sets foram parecidos. Kerber abriu duas quebras de saque em ambos. Wozniacki devolveu um, mas sempre sem muito tempo para reagir. A dinamarquesa tentou balões, recebeu instrução do pai (Kerber ouviu e relato à árbitra de cadeira) e tudo mais, mas não tinha mais o que tirar de sua (curta) manga. Kerber fez 6/4 e 6/3 e deu seu primeiro passo como número 1 do mundo.

As semifinais masculinas

Por questões pessoais, acabei não conseguindo escrever sobre as quartas de final masculinas, então deixo aqui o que acho sobre os quatro semifinalistas. As partidas serão disputadas nesta sexta-feira. Primeiro, não antes das 16h (de Brasília), Novak Djokovic enfrenta Gael Monfils. Em seguida, não antes das 17h30min, Stan Wawrinka encara Kei Nishikori.

Djokovic fez o básico. Venceu dois sets sobre um Jo-Wilfried Tsonga lesionado, que acabou abandonando a partida antes do início da terceira parcial. Depois de uma vitória por WO sobre Jiri Vesely na segunda rodada e da desistência de Mikhail Youzhny no primeiro set da terceira fase, o número 1 do mundo alcança a semi com apenas duas partidas completas. Mesmo sem o ritmo ideal de torneio, chega como favorito. Como sempre.

Gael Monfils, o homem mais sortudo de 2016 (favor conferir as chaves de Melbourne, Miami, Indian Wells, Monte Carlo e Nova York), fez um torneio competentíssimo. Só enfrentou um cabeça de chave, que foi Lucas Pouille. O compatriota chegou às quartas vindo de três jogos de cinco sets e na ressaca emocional de uma vitória triunfal sobre Rafael Nadal. Não lhe sobrou muito contra Monfils, que fez o dever de casa. Difícil avaliar suas chances contra o número 1. O francês ainda não perdeu um set neste US Open, mas tampouco foi testado em um nível sequer parecido com o que será exigido por Djokovic na semi.

O grande nome da quarta-feira foi Kei Nishikori. O japonês esteve perdendo por 2 sets a 1 e precisou sair de um 15/40 no quarto set para não deixar Andy Murray disparar no marcador. Quando quebrou o escocês, o japonês tomou o controle do jogo e não soltou mais. Disparou seguidos winners de devolução e tomou sempre a iniciativa do fundo de quadra, enquanto Murray tentava reencontrar uma zona de conforto que não se apresentou mais. Não foi uma atuação linear de Nishikori, que acabou dando um punhado de pontos de graça, mas talvez os riscos tenham sido necessários para fazer com que o escocês não dominasse as ações.

Stan Wawrinka, por sua vez, também chega às semis com uma vitória grade nas costas. Começou mal, mas terminou muito superior ao emocionante e emocionado Juan Martín del Potro. O suíço mostrou que aprendeu a lição em Wimbledon. Alongou ralis, fez o argentino trabalhar mais por cada ponto e acabou recompensado – e talvez até um pouco auxiliado pelo cansaço do oponente, mas Stan também merece valor por isso. Quando encontrou o jeito de jogar, virou o primeiro set e caminhou de jeito inteligente até a vitória. Quem é o favorito? Duríssimo dizer. Nishikori e Wawrinka oscilam um bocado. Pelo que vi nas quartas, vejo Nishikori com mais chances, mas ninguém sabe como esses dois entrarão em quadra. Afinal, pelo que vi antes das quartas, Murray também era favoritíssimo.


NY, dia 8: Murray domina, Serena bate recorde e Brasil vai a semifinal
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Alexandre Cossenza

Venus Williams e Agnieszka Radwanska ficaram pelo caminho, Karolina Pliskova finalmente chegou às quartas, e Del Potro contou com um problema físico para avançar sem se desgastar. Quanto aos principais candidatos a título no US Open, Serena Williams passeou e quebrou recorde, enquanto Andy Murray deu uma aula na sessão noturna. Ah, sim: e o Brasil terá um semifinalista na chave de duplas. O resumaço explica tudo. É só rolar a página!

2016 US Open - Day 8

O jogo do dia

Venus Williams (#6) jogou com o estádio inteiro lhe apoiando contra Karolina Pliskova (#11). Fez um bom primeiro set e parecia rumar para a vitória, não só porque abriu 3/1 na segunda parcial mas também porque Pliskova tinha um histórico de participações decepcionantes em Slams. Estar nas oitavas deste US Open já era a melhor campanha de sua carreira.

A tcheca, entretanto, mudou levemente a estratégia durante a segunda parcial. Parou de arriscar tanto e fez Venus jogar um pouco mais. Com menos pontos de graça, a tenista da casa também falhou mais, e Pliskova equilibrou a partida. Virou o segundo set e forçou um terceiro set cheio de variações.

Foram duas quebras para cada lado, um match point salvo fria e corajosamente por Pliskova, outros três match points salvos por Venus e um punhado de erros de juízes de linha. Resumindo, a coisa estava quente. O maior mérito da tcheca talvez tenha sido não se abalar com tudo contra. Nem com as oportunidades perdidas quando sacou em 6/5 e 40/0.

Pliskova entrou no tie-break como se nada tivesse acontecido e nem esquentou a cabeça quando a partida acabou-mas-não-acabou. No 6/2, um desafio corrigiu a chamada que havia dado a vitória à tcheca. No ponto seguinte, porém, Pliskova pôde finalmente comemorar: 4/6, 6/4 e 7/6(3).

Com o resultado, Pliskova não é mais a única top 20 a não ter no currículo uma passagem pelas quartas de final de um Slam. E o momento parece bastante favorável. Além das nove vitórias seguidas (A tcheca foi campeã em Cincinnati antes do US Open), Pliskova contou com a derrota de Agnieszka Radwanska (#4) nesta segunda. A polonesa tombou diante da croata Ana Konjuh (#92) por 6/4 e 6/4. E por que isso é especialmente bom para Pliskova? Porque em seis jogos contra Aga, a tcheca jamais havia vencido um set.

A melhor atuação do dia

Torneios não se ganham na segunda-feira, mas Andy Murray (#2) mostrou tênis de campeão no jogo que abriu a sessão noturna do Ashe. Concentrado e preciso desde os primeiros games, o escocês atropelou Grigor Dimitrov (#24): 6/1, 6/2 e 6/2. E Murray poderia ter perdido menos games.

Poderia ter sido um jogo perigoso – e o histórico entre eles indicava isso – mas a boa forma de Murray abafou a tentativa de Dimitrov de mostrar seu melhor tênis. No meio do segundo set, o búlgaro, que até mostrou sinais de evolução nos últimos meses, já parecia perdido em quadra. Soltou o braço, atacou aqui e ali, mas aparentemente sem propósito específico e, principalmente, sem a consistência necessária para bater o atual número 2 do mundo.

Murray, que enfrentará Nishikori nas quartas de final, segue como o tenista que foi mais consistente até agora. Repito: não, ninguém ganha título jogando bem na primeira semana. Até agora, contudo, o campeão de Wimbledon e medalhista de ouro olímpico, não deu sinais de que a boa forma vai desaparecer. Um momento brilhante que empolgou até a sóbria BBC (vide tweet acima).

A recordista

Se Venus não avançou, Serena Williams (#1) não teve lá grandes dificuldades para superar Yaroslava Shvedova (#52): 6/2 e 6/3. A líder do ranking não só avança às quartas de final como se mantém na briga pelo posto de número 1 com Angelique Kerber.

Serena também se tornou a maior vencedora de jogos em torneios do Grand Slam, deixando Roger Federer para trás. A americana agora acumula 308 triunfos, enquanto o suíço tem 307. Martina Navratilova somou 306.

Nas quartas, Serena terá seu primeiro grande teste deste US Open. O jogo contra Simona Halep (#5), afinal, poderia muito bem ser a decisão do torneio. A romena chega cheia de moral, tendo avançado em uma chave dificílima, que teve Flipkens, Safarova, Babos e Suárez Navarro. Babos inclusive teve uma quebra de vantagem no terceiro set, mas Halep escapou brilhantemente, mantendo a cabeça no lugar quando as coisas não andavam a seu favor.

Não que isso tudo faça da romena uma favorita contra Serena. A boa fase da número 1 e o retrospecto favorável (7 a 1) jogam o favoritismo inteiro para a dona da casa. Maaas como disse no começo do parágrafo anterior, será o primeiro obstáculo de peso para a americana neste torneio.

O jogão que não foi

Havia uma expectativa enorme para o confronto entre Juan Martín del Potro (#142) e Dominic Thiem (#10). Era o duelo que abriria quente a sessão diurna no Estádio Arthur Ashe. E até começou empolgante, com o austríaco quebrando na frente, enquanto o argentino pedia atendimento médico no ombro direito.

Del Potro, contudo, se recuperou, quebrou de volta e acabou vencendo a parcial por 6/3. O segundo set ainda estava mais ou menos caminhando para a metade quando Thiem começou a sentir dores. O austríaco acabou abandonando quando perdia a parcial por 3/2.

Dono do calendário mais lotado entre tenistas de ponta do circuito masculino, Thiem disse que vinha sentindo dores no joelho há três dias. Segundo o tenista, a lesão provavelmente foi consequência de bolhas no dedão de seu pé direito. Sem poder apoiar o pé como de costume, o austríaco teria começado a correr de forma diferente, o que teria causado o problema no joelho.

De qualquer modo, Del Potro avança rumo às quartas para o que promete ser um jogaço contra Stan Wawrinka (#3). Os dois se enfrentaram na segunda rodada em Wimbledon. O argentino venceu em quatro sets e saiu de quadra chorando de felicidade. Aquela partida, de certo modo, marcou a “volta” de Del Potro às vitórias em grandes palcos. Depois daquilo, a gente lembra bem, veio a prata nos Jogos Olímpicos Rio 2016 com direito a triunfos sobre Djokovic e Nadal.

Para chegar às quartas, Wawrinka teve de jogar quatro sets contra o ucraniano Illya Marchenko (#63): 6/4, 6/1, 6/7(5) e 6/3. Um dos momentos mais divertidos aconteceu quando o número 1 da Suíça destruiu uma de suas raquetes.

Os brasileiros

Um brasileiro estará nas semifinais de duplas. A vaga foi garantida nesta segunda-feira, quando Bruno Soares e o britânico Jamie Murray derrotaram Brian Barek e Marcus Daniell: 6/3 e 7/6(7). O resultado põe mineiro e escocês nas quartas de final contra André Sá e Chris Guccione.

Thomaz Bellucci e Marcelo Demoliner também entraram em quadra hoje em busca de um lugar nas quartas, mas foram superados por Feliciano López e Marc López: 6/3 e 6/3.


NY, dia 7: Nadal dá adeus, Wozniacki dá aula e Djokovic dá susto
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Alexandre Cossenza

Rafael Nadal está fora do US Open, Novak Djokovic deu mais um susto em seus fãs, Angelique Kerber continua sólida como sempre e Caroline Wozniacki deu uma aula tática em Madison Keys. Foi um domingo de jogos “grandes” e emocionantes – especialmente na dramática eliminação de Nadal, em jogo decidido no tie-break do quinto set. Nas duplas, destaque para o triunfo de André Sá, que volta às quartas de final de um Slam. O resumaço analisa tudo sobre a jornada!

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O jogo do dia

Rafael Nadal entrou em quadra levando consigo a melhor campanha da carreira nas três primeiras rodadas do US Open. Perdeu apenas 20 games. Ah, mas são só três rodadas, conta muito pouco. Sim, muito pouco. E Lucas Pouille (22 anos e #25) sabia disso. Entrou no Estádio Arthur Ashe soltando o braço, acelerando o jogo e apostando que conseguiria se plantar na linha de base antes do espanhol.

Ganhou a primeira mão com um 6/1 no set inicial. Nadal estava claramente desconfortável, jogando em um ritmo que não lhe agradava. Era forçado a atacar mais e mais cedo do que gostaria. Como não encontrou saída, topou o jogo do rival. Quando fez 6/2 no segundo set, parecia mais à vontade, mas perdeu o saque no primeiro serviço do terceiro set e voltou a correr atrás. E correu um bocado.

Nadal correu como só ele sabe fazer. Venceu o quarto set, abriu o quinto com uma quebra. Parecia estar com o jogo sob controle, mas perdeu o oitavo game depois de abrir 30/0. Pouille, mesmo cansado e tendo nas costas o peso de voleios errados que lhe custaram quebras, insistia em agredir rápido e de forma contundente. Forçou inclusive nos saques. Arriscou tudo, acertou apenas 46% dos primeiros serviços. E, ainda assim, sobreviveu.

Pouille salvou um último break point no 4/4 do quinto set e levou a decisão para o tie-break. Ah, o tie-break. Com a maior zebra do torneio masculino em jogo – e que jogo! – e o estádio pegando fogo, o US Open adota o tie-break no quinto set. É o coito interrompido do tênis, aquilo que decide em minutos a vitória que dois atletas buscaram por quatro horas (e hoje foram 4h06min).

O francês seguiu arriscando. Errou uma bola fácil no primeiro ponto, mas ganhou o quatro seguintes. Abriu 6/3, mas viu Nadal escapar de três match points. Com o placar em 6/6, Nadal teve um forehand fácil para matar e ter seu match point. Mandou na rede. Pouille não perdoou. No ponto seguinte, na primeira direita que teve à disposição, buscou a linha e foi preciso. Game, set, match.

Com o triunfo por 6/1, 2/6, 6/4, 3/6 e 7/6(6), Pouille avança para as quartas de final para encarar o compatriota Gael Monfils (#12), que vai entrando no top 10 após o triunfo de hoje contra Marcos Baghdatis. E se existia alguma dúvida sobre o tamanho da sorte de Monfils em 2016, está aí mais uma prova. Em vez de encarar Nadal, contra quem tem duas vitórias em 14 confrontos, vai enfrentar Pouille. O único jogo oficial entre eles até hoje terminou com Monfils comemorando.

Na coletiva pós-derrota, o tema quente foi a possibilidade de Nadal não estar lidando bem com a pressão em alguns jogos. O espanhol foi superado tanto nos Jogos Olímpicos Rio 2016 quanto em Nova York em tie-breaks. Em ambos, errando forehands não-tão-complicados em pontos importantíssimos. Nadal não gostou da pergunta e disse que não sentiria tal pressão depois de 14 títulos de Slam e tantos jogos importantes.

Não sei até onde a resposta foi sincera. O próprio Nadal já disse em outras ocasiões que não teve a calma necessária para lidar com certos momentos de partidas – especialmente em 2015, um ano péssimo para seus padrões. Essa falta de calma não seria uma consequência da pressão para vencer como antes? Talvez Nadal e o resto do mundo apenas tenham nomes diferentes para rotular a mesma sensação.

De qualquer modo, a análise do espanhol sobre a partida foi precisa. Deu mérito a Pouille e disse que jogou bem, mas não o suficiente para bater o francês. Nadal declarou também que precisa sacar melhor e causar mais ''dor'' aos adversários com seu melhor golpe. De fato, faltou um pouco de cada neste domingo. E também faltou o instinto matador dos velhos tempos, da época em que Nadal não deixava escapar uma liderança contra um tenista menos experiente.

O jogo feminino do dia

A expectativa era grande para o duelo entre Angelique Kerber (#2) e Petra Kvitova (#16) e é até justo dizer que a partida correspondeu. Não só na qualidade de jogo, mas também em termos de plano de jogo e resultado. A consistente Kerber apostou na regularidade, enquanto Kvitova partiu para o ataque disposta a ter o jogo em sua raquete. E se as duas fizeram o que se esperava, o resultado também foi o mais provável: vitória da alemã por 6/3 e 7/5.

Kerber não só conquistou uma vaga nas quartas de final para enfrentar Roberta Vinci (#8) como colocou mais pressão em Serena Williams (#1) na briga pela liderança do ranking mundial. A americana, que disputará sua partida de oitavas de final nesta segunda-feira, agora precisa pelo menos alcançar a final do US Open para continuar no topo.

A disputa ainda conta com Agnieszka Radwanska, como mostra o tweet acima, com a tabela divulgada pela WTA. A polonesa assumirá a liderança se for campeã em Flushing Meadows e se Kerber não chegar à decisão.

O sustinho

No último jogo do dia no Ashe, Novak Djokovic (#1) deu um pequeno susto em seus fãs. Depois de abrir 2 sets a 0 com folga sobre Kyle Edmund (#84), o sérvio pediu atendimento no cotovelo direito – o mesmo que foi tratado na estreia – e perdeu o saque logo em seguida. O número 1 do mundo, contudo, devolveu a quebra logo em seguida e manteve o terceiro set parelho até que seguidos erros de Edmund lhe deram a quebra decisiva: 6/2, 6/1 e 6/4.

O lado positivo é que Djokovic mostrou um tênis bem sólido para quem ficou quase uma semana sem jogar, o que faz muita diferença em um Slam. Entrou em ralis, se defendeu bem da pancadaria de Edmund e foi consistente como quase sempre. Avança para encarar Jo-Wilfried Tsonga (#11), que vem fazendo um belo torneio e será um desafio diferente. O francês certamente vai tentar resolver os pontos com menos trocas de bola. O #1 precisará estar com o tênis calibradíssimo.

Os brasileiros

André Sá está de volta às quartas de final de um Slam. Ele e Chris Guccione derrotaram Victor Estrella Burgos e Nicolás Almagro por 7/6(2) e 6/2 e avançaram ao grupo das oito melhores duplas. Sá não ia tão longe em um Slam desde o US Open de 2007, quando ainda jogava com Marcelo Melo.

Acho até que a vitória foi mais complicada do que o placar sugere. No primeiro set, Almagro e Estrella Burgos estiveram com uma quebra de vantagem duas vezes. O espanhol até chegou a sacar para o set em 6/5, mas perdeu o serviço.

Mais tarde, Bruno Soares entrou em quadra ao lado de Yaroslava Shvedova e avançou às quartas nas duplas mistas. O mineiro e a cazaque derrotaram Timea Babos e Eric Butorac (que se aposentou – mais um para a conta de Bruno) por 6/3 e 7/5. Os próximos adversários serão a taiwanesa Yung-Jan Chan e o sérvio Nenad Zimonjic, que vêm de vitória sobre Lipsky e Kudryavtseva.

Inteligência e estatísticas de Wozniacki

Caroline Wozniacki chegou a este US Open como #74 do mundo e com um punhado de estatísticas jogando contra. Não ganhava quatro jogos seguidos desde fevereiro de 2015, não alcançava as quartas de final de um Slam desde 2014 e nunca tinha derrotado duas top 10 no mesmo Slam. Tudo isso acabou neste domingo, na vitória sobre Madison Keys (#9) por 6/3 e 6/4.

Foi, no fim das contas, uma vitória do tênis de porcentagem praticado por Wozniacki contra a pancadaria-quase-burra de Keys. Enquanto a americana tentava de todos modos decidir os pontos batendo mais forte na bola, a dinamarquesa usava top spin e tentava deslocar a oponente, mas sem correr riscos desnecessários – até porque Keys tentava agredir até quando estava desequilibrada.

Foi o mesmo tênis que levou Wozniacki ao topo do ranking e o mesmo tênis que ela sempre executou com perfeição – mesmo quando um jogo pedia mudanças táticas. A ex-número 1 pode não ser a tenista mais inteligente ou com a melhor leitura de jogo, mas é taticamente obediente como poucas. Na WTA de hoje, isso vale muito.

O único momento desconcertante para Wozniacki neste domingo veio na entrevista pós-jogo, quando lhe fizeram uma pergunta sobre a carta publicada recentemente no Players’ Tribune. A dinamarquesa não soube responder, dando a entender que não se lembrava da carta. Curioso, já que não foi um texto rotineiro. A circulou bastante e foi muito elogiada, aliás. De qualquer modo, parabéns ao ghost writer.

O tombo

Não causou lesão nenhuma, mas Nicholas Monroe foi ao limite da quadra (e um pouco mais) tentando devolver uma cruzada na chave de duplas.

Monroe e Donald Young acabaram perdendo a partida em questão. Pablo Carreño-Busta e Guillermo García-López avançaram por 4/6, 7/6(4) e 6/3.

A punição

No jogo contra Gael Monfils, Marcos Baghdatis levou uma advertência porque deu uma conferida no celular durante uma das viradas de lado. O argumento do cipriota foi engraçado. “E se eu quiser saber que horas são? Não posso ver as horas?” indagou, ignorando completamente o relógio no fundo de quadra.

E não, para quem não sabe, as regras não permitem que atletas tenham acesso a nenhum meio de comunicação eletrônico durante os jogos. Baghdatis poderia muito bem estar lendo mensagens de seu treinador sobre que táticas mudar durante a partida.


NY, dia 5: o descanso de Djokovic, a virada de Keys e o pontaço de Nadal
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Alexandre Cossenza

Outro dia interessante de US Open, com uma zebrinha aqui e outra ali e favoritos favoritando e sendo favoritados. O inusitado da jornada ficou por conta da vitória de Novak Djokovic por abandono. O #1 do mundo alcança, assim, as oitavas de final tendo disputado apenas quatro sets e meio. Enquanto isso, Nadal fez outra grande partida, Angelique Kerber somou mais uma vitória maiúscula para marcar um confronto interessantíssimo contra Petra Kvitova, e Madison Keys escapou por pouco de uma zebra. O resumaço desta sexta-feira descreve isso tudo e ainda traz vídeos de dois lances espetaculares.

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O repouso forçado do campeão

Novak Djokovic (#1) não entrava em quadra desde segunda-feira, quando venceu sua estreia no US Open. Na quarta, avançou por WO graças ao abandono de Jiri Vesely. Hoje, então, seria o dia de retomar o ritmo e testar não só o punho lesionado, mas o cotovelo que causou dor na primeira rodada. Pois é, seria. Mikhail Youzhny (#61), o oponente do dia, abandonou depois de seis games. Com o placar em 4/2 para o sérvio, o russo, que já havia recebido atendimento médico na perna esquerda, atravessou a quadra, cumprimentou Djokovic e abandonou.

Se serve de consolo para a falta de ritmo do atual campeão do US Open, Djokovic mostrou um bom tênis nos seis games que disputou nesta sexta-feira. Obviamente que é uma amostra muito pequena e parece óbvio que o sérvio gostaria de ter mais tempo de quadra a essa altura do torneio, mas também é fato que o desgaste reduzido ajuda no tratamento das duas lesões.

Ele agora enfrenta Kyle Edmund, que bateu John Isner nas oitavas de final, o que é até bom para quem busca ritmo de jogo. Contra Isner, independentemente do andar da partida, Djokovic entraria em menos ralis. Por esse ponto de vista, encarar o empolgado britânico pode ser melhor.

Os outros favoritos

Primeiro a entrar em quadra para a sessão noturna do Estádio Arthur Ashe, Rafael Nadal (#5) fez outra partida excelente. É bem verdade que também fez seu pior set no torneio, mas mesmo assim encerrou a segunda parcial encaixando três forehands indefensáveis. No fim, bateu o russo Andrey Kuznetsov (#47) por 6/1, 6/4 e 6/2 e avançou à terceira rodada.

Nadal também ganhou o ponto do dia. Levou um lob de Kuznetsov, se recuperou, devolveu com um espetacular lob por baixo das pernas, deixou a raquete cair no chão, pegou ela de volta e ainda ganhou o ponto com um smash do fundo de quadra. Coisa de gente grande.

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Após três partidas e nove sets jogados, Nadal soma apenas 20 games perdidos. Ele agora encara Lucas Pouille, que precisou de cinco sets para bater o espanhol Roberto Bautista Agut.

Por último, Angelique Kerber (#2) pareceu pouco se importar com a adversária da casa, jogando na sessão noturna e com torcida a favor. Desde o começo, ficou clara a diferença de nível entre e atual vice-líder do ranking e a promissora-porém-ainda-crua Cici Bellis, de 17 anos. A alemã fez 6/1 e 6/1 e avançou.

Kerber chega às oitavas com dois jogos e meio (venceu por abandono na estreia) nas costas e boas atuações. Agora terá, enfim, um teste de verdade. A adversária, Petra Kvitova (#16), ex-número 2 do mundo e bicampeã de Wimbledon, passou por três rodadas sem perder nenhum set, o que é incomum para a tcheca. Sinal de que Kerber pode ter muito trabalho para chegar às quartas.

O susto e a oportunidade

Madison Keys (#9) e Naomi Osaka (#81) dividem o prêmio “O Médico e o Monstro” do dia. Primeiro, a americana, favorita, tinha 7/5, 4/4 e 40/0. Perdeu sete pontos seguidos e viu Osaka fechar a segunda parcial. A japonesa, então, embalou e abriu 5/1 – com duas quebras de vantagem – na parcial decisiva. Sacou para o jogo duas vezes e esteve a dois pontos da vitória, mas não conseguiu fechar. Keys, que fez aquele jogo de pancadão do começo ao fim do encontro, venceu no tie-break: 7/5, 4/6 e 7/6(3).

A americana, então segue viva e encabeçando um “quarto” de chave intrigante. Nas oitavas, ela vai enfrentar Caroline Wozniacki (#74), que passou fácil por Monica Niculescu (#58): 6/3 e 6/1. A essa altura, nem é tão difícil imaginar a dinamarquesa dando trabalho e esperando erros de Keys, que ainda não desenvolveu um plano B eficiente para seu tênis. E quem ganhar esse confronto vai encarar Konta ou Sevastova nas quartas.

Cabeças que rolaram

O grande tombo do dia ficou por conta de Marin Cilic (#9). O croata, que foi campeão do Masters de Cincinnati há duas semanas e vinha de duas boas vitórias (nenhum set perdido) em Nova York, não encontrou seu tênis em momento algum contra Jack Sock (#27) e foi eliminado em menos de duas horas: 6/4, 6/3 e 6/3.

Foi a primeira vitória de Sock contra um top 10 em um torneio do Grand Slam. O americano ficou com o lugar nas oitavas para enfrentar Jo-Wilfried Tsonga. É desse jogo que provavelmente sairá o oponente de Djokovic nas quartas.

Correndo por fora

Jo-Wilfried Tsonga (#11) avançou em três sets em um jogo que poderia ter sido muito mais longo e complicado: 6/3, 6/4 e 7/6(4) em cima de Kevin Anderson (#35). É bem verdade que o sul-africano estava num dia ruim e, mesmo assim, teve chances de mudar o rumo da partida. Perdeu break points, cometeu duplas faltas em momentos delicados e facilitou o triunfo de um competente – mas não brilhante – Tsonga. Deu pra ver que o francês ficou bem feliz ao fim do jogo, não? E isso porque ele não sabia do que tinha acontecido no jogo entre Sock e Cilic…

Enquanto isso, Gael Monfils (#12), o tenista mais sortudo de 2016, vem tirando o máximo de sua generosa chave em Flushing Meadows. Nesta sexta-feira, passou por Nicolás Almagro (#48) sem grande drama. O espanhol pelo menos manteve os fãs entretidos com seu temperamento. O “abuso de bola” do vídeo abaixo deveria ao menos ganhar pontos de bônus por criatividade.

O próximo passo na estrada de tijolos de ouro também conhecida como chave de Monfils no US Open será um confronto com Marcos Baghdatis (#44) nas oitavas de final. O cipriota aproveitou o buraco causado pelas cãibras de Milos Raonic (#6) na segunda rodada e acabou com a alegria do americano Ryan Harrison (#120): 6/3, 7/6(4), 1/6 e 6/1.

Na chave feminina, vale manter a atenção em Roberta Vinci (#8), que navegou em uma chave tranquila, derrotou a brava Carina Witthoeft (#102) nesta sexta até agora e entra como favorita contra Lesia Tsurenko (#99). A ucraniana, porém, vem embalada após vitórias sobre duas cabeças de chave: Begu na estreia e Dominika Cibulkova (#13) na terceira rodada.

Johanna Konta (#14) também passou às oitavas com uma vitória maiúscula: 6/2 e 6/1 sobre Belinda Bencic (#26). A britânica também entre como favorita – no papel – contra Anastasija Sevastova (#48) nas oitavas. Não se pode esquecer, contudo, que a letã derrubou Garbiñe Muguruza e emendou a enorme zebra com um imponente 6/4 e 6/1 em cima de Kateryna Bondarenko (#59).

Os brasileiros

Mais boa notícia na chave de duplas. Thomaz Bellucci e Marcelo Demoliner, que já surpreenderam na estreia, quando eliminaram Benneteau e Vasselin, voltaram a vencer. Paulista e gaúcho salvaram quatro match points e superaram Yen-Hsun Lu e Janko Tipsarevic por 3/6, 7/6(5) e 7/6(4).

A parceria deve levar alguns dias para voltar a jogar, já que seus próximos adversários sairão da parte mais atrasada da chave. Quando Bellucci e Demoliner saíram da quadra nesta sexta, Marc e Feliciano López, principais cabeças de chave da seção, ainda estavam fazendo o primeiro set de sua estreia. Os espanhóis, aliás, são os favoritos para encontrar os brasileiros. Antes, porém, precisarão passar por Baghdatis e Gilles Muller na segunda rodada.

Os melhores lances

Um pontaço entre Ryan Harrison e Marcos Baghdatis terminou com o cipriota errando o golpe mais fácil do rali.


NY, dia 4: a fábrica americana, o brilho de Del Potro e Ferrer na madrugada
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Alexandre Cossenza

A chuva que chegou timidamente na noite de quarta-feira voltou e ficou na região de Flushing Meadows por mais tempo. Por isso, a organização do US Open foi forçada a encaixar partidas noite adentro nas quadras externas, enquanto durante o dia o público ficou preso quase exclusivamente à programação do Estádio Arthur Ashe e seu debutante teto retrátil.

Em termos gerais, a jornada não teve nenhum resultado muito espantoso. Ainda assim, quem entrou em quadra ajudou a deixar o cenário de expectativas um pouco mais claro rumo à segunda semana do Slam americano. Este resumaço também aproveita para comentar o grande momento de Juan Martín del Potro, o sucesso da “fábrica” americana de tenistas e a escalação brasileira na Copa Davis.

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Os favoritos

A primeira a entrar em quadra no Ashe foi Simona Halep (#5), que encarou um jogo perigosíssimo contra Lucie Safarova (#44), que poderia muito bem ser duelo de oitavas ou quartas de final em outras circunstâncias. Foi também uma partida nervosa, com 11 quebras de saque em 19 games e que terminou com vitória da romena por 6/3 e 6/4.

Não foi lá uma atuação de gala de Halep. Pelo contrário. A #3 do mundo esteve nervosa, descontou na raquete e terminou o duelo com nove winners e 20 erros não forçados. Safarova, que arriscou mais, também falhou mais. Foram 16 winners e 44 (!!!) erros da tcheca. De positivo, Halep leva uma vitória em condições adversas e contra uma oponente perigosa. É o tipo de triunfo que, quando vem no começo do torneio, fortalece o tenista que ruma à segunda semana.

Halep, que já havia somado uma vitória importante contra Kirsten Flipkens na estreia, agora enfrentará Timea Babos (#34), cabeça de chave 31, que vem de triunfos sobre Barbara Haas e Richel Hogenkamp.

Logo depois de Halep, foi a vez de Andy Murray (#2) entrar para enfrentar Marcel Granollers (#45) e anotar mais um triunfo sólido, sem grande drama – apesar da quebra de vantagem desperdiçada no primeiro set: 6/4, 6/1 e 6/4. O escocês, que mandou no jogo, somou 34 winners e 28 erros não forçados, além de cinco aces e três duplas faltas. Vale destacar o alto aproveitamento tanto nos pontos vencidos com o segundo serviço (65%) quanto na conversão de break points (42%).

A curiosidade do dia ficou por conta do barulho. Não o som dos torcedores, que já gerou reclamações nas sessões noturnas. Hoje, a questão foi o barulho da chuva batendo no teto. Murray disse que não conseguia ouvir a bola.

De qualquer modo, o campeão de Wimbledon e dos Jogos Olímpicos Rio 2016 segue firme e favoritíssimo na metade de baixo da chave. A próxima rodada será contra o italiano Paolo Lorenzi – que bateu Gilles Simon.

À noite, ninguém esperava que Serena Williams (#1) fosse muito exigida pela diminuta Vania King (#87 e generosos 1,65m segundo o site da WTA). E não foi. Em apenas 1h04min, a líder do ranking despachou a compatriota por 6/3 e 6/3, sem ceder break points, somando 13 aces e 38 winners, com 28 erros não forçados.

A vitória desta quinta-feira foi a 306ª da carreira de Serena Williams em torneios do Grand Slam. Ela iguala Martina Navratilova como a maior vencedora de jogos em eventos desse porte. Um recorde que vai cair logo, logo.

Foi também a segunda vitória seguida em que Serena não precisou enfrentar um break point sequer. É de se esperar que os próximos encontros sejam igualmente descomplicados, já que todas cabeças de chave dessa seção caíram, e a #1 pode chegar às quartas sem encarar uma pré-classificada. Seu jogo de terceira rodada será contra Johanna Larsson, e o duelo de oitavas vai ser diante da vencedora do jogo entre Yaroslava Shvedova e Shuai Zhang. Está tranquilo? Está favorável?

O jogo da “polêmica”

Antes mesmo de Juan Martín del Potro (#142) receber um wild card para o US Open, o americano Steve Johnson (#22) se posicionou contra. Disse que muitos fãs americanos ficariam chateados se o argentino recebesse o convite. Pois Del Potro não só recebeu o convite como o destino colocou os dois frente a frente na segunda rodada do Slam americano. A declaração de Johnson, é claro, deu um atrativo a mais para o encontro.

Com a bola em jogo, Del Potro foi superior, especialmente depois de vencer a primeira parcial no tie-break: 7/6(5), 6/3 e 6/2. Aliás, não deixa de ser admirável o nível de tênis que o argentino vem mostrando desde o Rio de Janeiro, onde derrubou gente do nível de Novak Djokovic e Rafael Nadal. Seu próximo adversário em Nova York será David Ferrer, que sobreviveu a um jogão de cinco sets contra Fabio Fognini que só acabou além da meia-noite em Nova York. Será outro desafio enorme para Del Potro. A pergunta que se faz com mais frequência a cada vitória é: até onde será que ele vai neste US Open? Ao que parece pelo demonstrado até agora, nada é impossível.

Mais um adolescente americano

Jared Donaldson (#122), 19 anos, não ganhou wild card para a chave principal, mas furou o quali e, quem diria, já está na terceira rodada. Depois de superar David Goffin na estreia, bateu Viktor Troicki (#32) nesta quinta-feira: 7/5, 6/3 e 6/3. Com o resultado, Donaldson provavelmente vai entrar no top 100, o que só chama mais atenção para o número de jovens americanos que vêm subindo no ranking.

Só no circuito masculino, a lista de americanos com até 21 anos entre os 300 do mundo tem Taylor Fritz (18, #53), Donaldson (19, #122), Francis Tiafoe (18, #125), Stefan Kozlov (18, #154), Noah Rubin (20, #193), Ernesto Escobedo (20, #201), Tommy Paul (19, #213) e Reily Opelka (19, #292).

A geração é fruto de um trabalho de base que foi reestruturado no fim da década passada, quando a USTA contratou técnicos estrangeiros e montou um programa para que seus jovens aprendessem a jogar no saibro. A intenção era fazer com que os garotos aprendessem a trabalhar pontos em vez de ficarem limitados à combinação saque+forehand e apostando demais na potência de golpes. Não há como questionar que o trabalho, embora com tropeços aqui e ali (o caso da jovem Taylor Townsend foi o mais conhecido), está dando resultado.

Cabeças que rolaram

A lista de quedas do dia tem Samantha Stosur, superada por Shuai Zhang; Timea Bacsinszky, eliminada por Varvara Lepchenko; Feliciano López, derrotado por João Sousa; Gilles Simon, que tombou diante de Paolo Lorenzi; e Alexander Zverev, que não passou por Daniel Evans.

Correndo por fora

Entre os favoritos que confirmaram o favoritismo, Venus Williams, Agnieszka Radwanska, Karolina Pliskova, Kei Nishikori, Dominic Thiem, Nick Kyrgios e David Ferrer. Eu encaixaria Stan Wawrinka – que também venceu hoje – na seção sobre favoritos, mas não vi seu jogo, então não posso fazer a avaliação que gostaria de fazer.

Os melhores lances

O vídeo de hoje é cortesia de Fabio Fognini, que estava fora da tela quando defendeu um smash de David Ferrer com uma paralela vencedora.

Os brasileiros

Sem nenhum brasileiro em quadra, a CBT anunciou hoje o time que disputará a Copa Davis contra a Bélgica, na casa do time europeu, pelos playoffs do Grupo Mundial. A equipe, que já havia sido revelada pelo site da própria Copa Davis, terá a estreia de Thiago Monteiro. Ele se juntará ao trio-base formado por Thomaz Bellucci, Bruno Soares e Marcelo Melo.

A Bélgica ainda não anunciou o time, mas vale lembrar que o #1 do país, David Goffin (#14) não anda exatamente em grande fase. Depois de perder para Thomaz Bellucci nos Jogos Olímpicos Rio 2016, o belga venceu sua estreia no Masters de Cincinnati (contra Nikoloz Basilashvili, então #107) e perdeu os dois jogos seguintes. O primeiro para Bernard Tomic e o último para o americano Jared Donaldson (#122), na primeira rodada do US Open.


NY, dia 3: Raonic e Muguruza tombam, Nadal impõe respeito
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Alexandre Cossenza

Terceiro dia de US Open, e dois reais candidatos ao título já ficaram pelo caminho. Nesta quarta-feira, Milos Raonic e Garbiñe Muguruza deram adeus, deixando buracos na chave e abrindo oportunidades para quem quiser/puder aproveitá-las. A rodada também foi cheia de brasileiros nas duplas – inclusive com uma derrota inesperada -, teve um susto médico com Johanna Konta e, no fim do dia, Nadal impondo respeito com o teto retrátil fechado.

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Os tombos

Finalista em Wimbledon, Milos Raonic faz parte do time que apostou em não ir ao Rio de Janeiro. Primeiro, deu a desculpa do zika. Depois, abriu o jogo e afirmou que queria estar bem fisicamente no US Open. Não foi o caso. O canadense (#6) teve cãibras desde o terceiro set e acabou derrotado por Ryan Harrison (#120): 6/7(4), 7/5, 7/5 e 6/1. A descrição de Raonic foi curiosa: “Foram várias coisas: o braço esquerdo; o antebraço direito no fim do terceiro set; as duas coxas; um pouco no quadril esquerdo.”

Raonic disse também não lembrar da última vez que perdeu um jogo por causa de cãibras e que o motivo do problema físico foi provavelmente “um pouco de estresse”, mas não faz diferença agora. A consequência imediata é o buraco deixado na chave. Harrison vai enfrentar Baghdatis (#44), que derrotou Benoit Paire (#34 – outro cabeça eliminado) por 6/2, 6/4, 3/6 e 6/4. E o vencedor desse jogo vai encarar Monfils ou Almagro nas oitavas. Ou seja, desse grupo sairá o quadrifinalista que enfrentará possivelmente Rafael Nadal.

Mais tarde, na abertura da sessão noturna do Estádio Arthur Ashe, foi Garbiñe Muguruza (#3) quem se despediu. Diferentemente de Roland Garros, quando a espanhola tomou um susto na estreia, mas acordou rápido e venceu tudo até o título, desta vez Muguruza emendou uma atuação abaixo da média com uma derrota. Sua algoz foi a letã Anastasija Sevastova (#48), que fez 7/5 e 6/4.

A favorita parecia que tiraria uma reação fantástica da cartola quando saiu de 1/5 e devolveu duas quebras no segundo set, mas não conseguiu confirmar seu serviço no décimo game e deu adeus quando um forehand cruzado da rival foi fora de seu alcance. Na entrevista ainda em quadra, Sevastova admitiu que tremeu, mas festejou a enorme vitória e a vaga na terceira rodada.

Enquanto a espanhola perde também a chance de assumir a liderança do ranking (a possibilidade existia), a letã ocupa a mesma seção que já está “desfalcada” de Mónica Puig e vai encarar Kateryna Bondarenko (#59) na terceira rodada. Quem vencer enfrentará a vencedora de Bencic x Konta.

Os favoritos

Entre os candidatos que avançaram, Rafael Nadal (#5) mostrou força novamente. Abriu a partida contra Andreas Seppi (#87) vencendo seis games seguidos e jogando um tênis agressivo, bem perto da linha de base e sacando de forma eficiente. Terminou com um triunfo por 6/0, 7/5 e 6/1, dando mais sinais de que será difícil derrotá-lo em Flushing Meadows este ano.

Valem, é claro, as ressalvas de sempre, afinal são apenas dois jogos, mas o histórico indica que Nadal raramente cai antes da hora quando abre um Slam em tão boa forma. E não custa lembrar que sua chave não é das mais duras. O bicampeão do US Open (2010 e 2013) enfrentará Andrey Kuznetsov na terceira rodada e, se avançar, Pouille ou Bautista Agut nas oitavas. Além disso, seu provável oponente de quartas de final seria Raonic, que já ficou pelo caminho.

Hoje, o espanhol é favoritíssimo para chegar pelo menos à semifinal, que pode ser contra Novak Djokovic (#1). O sérvio, aliás, passou para a terceira fase sem entrar em quadra. Jiri Vesely, seu adversário nesta quarta, desistiu do torneio por causa de uma lesão no antebraço esquerdo.

Na chave feminina, o outro nome de peso do dia, Angelique Kerber (#2), avançou e se manteve na briga pelo posto de número 1 do mundo. A alemã teve dificuldades no segundo set e precisou salvar três set points (um no décimo game, outros dois no tie-break) antes de fechar em 6/2 e 7/6(7) a partida contra Mirjana Lucic-Baroni (#57). Kerber agora vai enfrentar a sensação adolescente CiCi Bellis, de 17 anos.

O teto e o barulho

Um dos assuntos recorrentes dos primeiros dias do US Open vem sendo o barulho feito pelo público nas sessões noturnas no Estádio Arthur Ashe. Sim, só à noite, o que se explica porque durante o dia o estádio nem fica perto de estar lotado – muita gente prefere as quadras externas, com partidas quase sempre mais parelhas.

Quem já assistiu a uma sessão noturna no Ashe sabe que sempre foi assim. Muita gente – especialmente nos setores mais longe da quadra – compra ingresso apenas para estar lá e mal presta atenção ao jogo. É normal isso acontecer em Nova York na primeira semana, quando os jogos valem menos e são menos equilibrados.

A questão é que a estrutura montada para o teto retrátil faz com que o barulho desse povo todo seja mais ouvido agora. E ficou ainda mais óbvio depois que o teto retrátil foi fechado pela primeira vez, durante Nadal x Seppi.

O susto

O “susto” de hoje não é um cabeça de chave que quase perdeu, mas um susto de saúde mesmo. Johanna Konta (#14) passou mal no segundo set da partida contra Tsvetana Pironkova (#71) e precisou ser atendida no meio da quadra. “Meu corpo inteiro parecia em choque. Comecei a tremer. Meu coração disparou”, explicou durante o atendimento.

Foi impressionante, mas Konta acabou vencendo por 6/2, 5/7 e 6/2 e avançando à terceira rodada. Será, aliás, um dos jogos mais interessantes da rodada, já que Konta vai enfrentar a suíça Belinda Bencic (#26).

Mais uma cabeça que rolou

Outro resultado notável desta quarta-feira foi a vitória de Caroline Wozniacki (#74) sobre Svetlana Kuznetsova (#10). Nem tanto pelo ranking de ambas, mas pelo início da partida. A russa abriu a partida fazendo 4/0, mas a dinamarquesa venceu sete games seguidos e jamais voltou a estar atrás no placar. Fez 6/4 e 6/4 e passou à terceira fase para duelar com Monica Niculescu.

A ex-número 1, que começou mal em suas duas partidas, agora se vê em uma parte nada ruim da chave. Se bater Niculescu, enfrentará Keys ou Osaka nas oitavas. Keys, cabeça 8, ainda é a favorita na seção, mas a experiência de Wozniacki pode pesar, ainda que a dinamarquesa não esteja em sua melhor fase.

Correndo por fora

Vale manter os olhos e ouvidos abertos para gente que corre por fora e, em uma segunda semana inspirada, pode aprontar. É o caso de Petra Kvitova, Roberta Vinci e Belinda Bencic, que venceram em dois sets nesta quarta. Também não convém descartar Dominika Cibulkova, que venceu de virada.

Entre os homens, Gael Monfils (#12) vem se consolidando como o homem mais sortudo de 2016 (basta ver várias chaves da temporada). Hoje, bateu o tcheco Jan Satral (#226) por 3 sets a 0 e vai duelar com Nicolás Almagro. Outra notícia boa para o francês, como já citei no alto do post, foi a queda de Raonic. Assim, Monfils pode chegar às quartas sem enfrentar um cabeça de chave sequer.

Marin Cilic também manteve seu bom momento e venceu mais um jogo em sets diretos. Campeão do Masters 1.000 de Cincinnati, o croata soma oito vitórias seguidas no circuito. Agora, no entanto, a coisa começa a complicar para o campeão do US Open de 2014. Ele enfrenta Jack Sock na terceira rodada e, se avançar, pega o vencedor de Jo-Wilfried Tsonga x Kevin Anderson.

Os brasileiros

Com todos simplistas eliminados, resta ao público brasileiro torcer por seus duplistas. A quarta-feira foi boa para a maioria, mas uma derrota veio de forma inesperada. Marcelo Melo e Ivan Dodig, cabeças de chave #2, foram eliminados pelos americanos Nicholas Monroe e Donald Young: 7/5 e 7/6(2).

NY Vibes #usopen2016

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De resto, só vitórias. Bruno Soares, aliás, venceu duas vezes. Ao lado de Jamie Murray, triunfou em uma partida complicada contra os portugueses Gastão Elias e João Sousa: 6/3, 6/7(3) e 7/5. Mais tarde, ao lado da cazaque Yaroslava Shvedova, avançou também nas duplas mistas. Os dois bateram Yi-Fan Xu e Aisam Ul-Haq Qureshi por 6/4, 3/6 e 10/8.

André Sá e o australiano Chris Guccione também passaram para a segunda rodada. Eles fizeram 6/4 e 6/4 sobre os convidados americanos John McNally e Jeffrey John Wolf. Só que o resultado mais espantoso do dia veio mesmo com Thomaz Bellucci e Marcelo Demoliner derrubaram os franceses Julien Benneteau e Edouard Roger-Vasselin, cabeças 11: 7/6(4) e 6/3. Paulista e gaúcho têm até uma boa chance de alcançar as oitavas. Seus próximos oponentes serão Yen-Hsun Lu e Janko Tipsarevic.


NY, dia 2: Serena e Murray dominam, Karlovic faz 61 aces e Tomic xinga fã
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Alexandre Cossenza

Foi um belo segundo dia de torneio em Nova York. Favoritos como Serena Williams e Andy Murray mostraram ótimo tênis, mas a jornada também teve um recorde de aces quebrado, um australiano desbocado (e adoro como a expressão ''australiano desbocado'' não deixa claro quem foi) ofendendo um torcedor, uma vitória esperada há três anos por Tipsarevic, nomes de peso que ficaram pelo caminho e até a “derrota do milhão” de Teliana Pereira. O resumaço do dia 2 do US Open está aqui. É só rolar a página e ficar por dentro.

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Os favoritos

Campeões são assim, né? Até dão uma vacilada em uma ou outra estreia, mas quando sabem que existe perigo real na primeira rodada, levam a coisa muito a sério. Serena Williams (#1) fez justamente isso nesta terça, abrindo a sessão noturna do Estádio Arthur Ashe. Dominou a russa Ekaterina Makarova (#29), fez 6/3 e 6/3 e avançou à segunda rodada.

Quanto às dores no ombro e o pouco tempo de treino antes do torneio, 12 aces talvez tenham dado uma resposta favorável. Na entrevista pós-jogo, Serena fez o habitual mistério e disse que só saberia na manhã seguinte. De qualquer modo, a número 1 não deve ter muitos problemas contra Vania King na próxima rodada. E talvez nem na terceira fase, contra Allertova ou Larsson.

Abaixo, deixo um link para um gamezinho bobo no qual o usuário precisa ganhar os 22 match points de Serena Williams em seus títulos de torneios do Grand Slam. Quem não conseguir acessar pelo tweet pode acessar por aqui.

Stan Wawrinka (#3) fez uma estreia bastante digna diante de um oponente perigoso como Fernando Verdasco (#46). Teve problemas com o primeiro serviço, mas de modo geral a ideia de sempre arriscar no fundamento não lhe prejudicou. Fez 7/6(4), 6/4 e 6/4, sem perder o saque – salvou quatro break points, inclusive um no último game da partida.

Nunca é demais dizer (e eu digo sempre) que é cedo para tirar conclusões sobre o quão longe um tenista pode ir no torneio, mas é justo afirmar que Wawrinka já fez piores estreias em Slams. Enfrentará Alessandro Giannessi (#243) na segunda rodada antes de um possível confronto com Alexander Zverev (#28) na terceira, onde Stanimal deve ser mais exigido.

Por último, encerrando a noite no Ashe, Andy Murray (#2) jogou firme do começo ao fim para derrotar Lukas Todo-Mundo-Te-Odeia Rosol (#81): 6/3, 6/2 e 6/2. O britânico não cedeu um break point sequer, executou 11 aces e somou 27 winners e apenas 17 erros não forçados. Uma atuação de respeito, sem oscilações, para deixar seus fãs otimistas neste começo de US Open.

O desbocado

Bernard Tomic (#19), aquele que acha ruim quando dizem que ele não será top 10 mas que continua a agir como se não levasse a carreira a sério, aprontou mais uma. Durante a partida contra Damir Dzumhur (#72), após ouvir algo que não gostou de um torcedor, respondeu com a sequência de frases “chupe minhas bolas”, “vou colocar minhas bolas na sua boca” e “vou lhe dar algum dinheiro para você se sentir bem”.

A sequência aconteceu no primeiro set, quando Dzumhur sacava para fechar a parcial. O bósnio saiu vencedor por 6/4, 6/3, 4/6 e 7/6(0), dando o troco pelo resultado do ano passado. Em 2015, os dois também se encontraram na primeira rodada, mas Tomic foi o vencedor, também em quatro sets.

O recordista

O número mais espetacular do dia chega via Ivo Karlovic (#23), que disparou 61 aces na vitória de cinco sets sobre Yen-Hsun Lu (#73): 4/6, 7/6(4), 6/7(4), 7/6(5) e 7/5. O número é o recorde do torneio, superando a marca anterior, que pertencia a Richard Krajicek. O holandês executou 49 aces em uma vitória sobre Yevgeny Kafelnikov em 1999. Ao ler um tweet de Nick Kyrgios sobre os 61 aces, Karlovic rebateu com sua ironia habitual. “É, tenho uns problemas no ombro.” Gênio.

Cabeças que rolaram

Ana Ivanovic (#31) chegou ao US Open vindo de quatro derrotas seguidas – uma delas para Ekaterina Alexandrova, #223, em Wimbledon – mas ostentando uma vaga de cabeça de chave e com uma estreia acessível. Nem assim as coisas foram para o lado da sérvia. A tcheca Denisa Allertova (#89) fez 7/6(4) e 6/1 e despachou a ex-número 1 do mundo.

Ivanovic agora vive a maior sequência de derrotas da carreira (cinco reveses), mas não vai perder pontos porque também foi eliminada na estreia no US Open do ano passado. Aliás, seu histórico recente em Nova York não é nada bom. São quatro derrotas nos últimos cinco jogos. A vitória mais recente veio em 2014, sobre a americana Alison Riske, na primeira rodada.

Entre os homens, a queda mais significativa foi a de David Goffin (#14), que venceu o primeiro set, mas perdeu os três seguintes para o qualifier americano Jared Donaldson (#122): 4/6, 7/5, 6/4 e 6/0. O resultado deixa uma seção com Karlovic, Young, Troicki e Donaldson. Um deles estará nas oitavas para enfrentar – caso não haja zebras – Kei Nishikori.

Além disso, assim como no primeiro dia do torneio, houve várias cabeças rolando, mas sem grandes consequências para a chave. No torneio feminino, Kiki Bertens (#22) foi superada por Ana Konjuh (#92) e Daria Kasatkina (#24) tombou diante de Qiang Wang (#62).

O retorno

Entre os homens, outro cabeça a dar adeus foi Sam Querrey (#30), o algoz de Novak Djokovic em Wimbledon. Curiosamente, quem lhe derrotou nesta terça foi outro sérvio: Janko Tipsarevic (#250), que fez 7/6(4) 6/7(0), 6/3 e 6/3.

Its been a long…long time….Idemo bre💪👍💪

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Tipsarevic, ex-top 10, não vencia em um Grand Slam há três anos. Com 32 anos, o sérvio tenta um retorno após sofrer uma lesão no pé que exigiu três cirurgias. O próximo obstáculo para o veterano será um jogo de segunda rodada contra Pablo Carreño Busta. Qualquer que seja o resultado, Tipsarevic não parece ter muitas expectativas. Seu objetivo é ''ser o velho Janko ano que vem, no Australian Open.''

Para isso, o sérvio sabe que precisa da movimentação que teve até sofrer a lesão no pé. E já começou a trabalhar um professor de biomecânica. O objetivo é melhor sua defesa, e Tipsarevic diz que está readquirindo a confiança em seu corpo para se defender nos momentos mais importantes dos jogos.

Derrota e processo

Vale apontar também a derrota de Eugenie Bouchard, que não é cabeça de chave mas é ex-top 5, finalista de Slam e, mesmo sem jogar o mesmo de dois anos atrás, ainda tem um tênis melhor que seu ranking. A canadense (#39) perdeu em três sets para Katerina Siniakova (#72): 6/3, 3/6 e 6/2. Ah, sim: continua em andamento o processo que Bouchard abriu contra o US Open após a concussão sofrida no ano passado. A canadense levou um tombo ao entrar no vestiário escuro e, por isso, precisou abandonar o torneio. A reportagem do New York Times, linkada no tweet abaixo, dá detalhes sobre o andamento do processo.

Correndo por fora

Simona Halep (#3) é a “primeira da fila”, ou seja, é talvez a melhor tenista de hoje que ainda não ganhou um Slam. A romena sabe disso e até largou os Jogos Olímpicos para apostar pesado no US Open. Seu começo em Flushing Meadows foi impressionante: um triunfo por 6/0 e 6/2 sobre Kirsten Flipkens, simplificando uma estreia nada simples. O próximo passo será outro duelo enjoado, agora contra Lucie Safarova (#44), que anotou uma vitória importante sobre Daria Gavrilova (#45) também nesta terça: 6/4 e 6/4.

A chave feminina também teve: a vitória apertada de Venus Williams (#6) sobre Kateryna Kozlova (#93) por 6/2, 5/7 e 6/4; o triunfo tranquilo de Agnieszka Radwanska (#4) sobre Jessica Pegula (#138) por 6/1 e 6/1; e o avanço de Karolina Pliskova (#11), que passou pela convidada Sofia Kenin (#243) por 6/4 e 6/3.

Entre os homens, a lista de vencedores teve: Juan Martín del Potro (#142), que bateu o compatriota Diego Schwartzman (#69) por 6/4, 6/4 e 7/6(3); Kei Nishikori (#7), que passou por Benjamin Becker (#96) por 6/1, 6/1, 3/6 e 6/3; Nick Kyrgios (#16), que avançou ao aplicar um triplo 6/4 sobre Aljaz Bedene (#77); e Dominic Thiem (#10), que esteve perdendo por 2 a 1 e precisou de cinco sets para eliminar John Millman (#66) por 6/3, 2/6, 5/7, 6/4 e 6/3.

A brasileira e a ''derrota do milhão''

A participação brasileira nas chaves de simples acabou com uma nota melancólica. Teliana Pereira (#136) levou uma bicicleta (6/0 e 6/0) da espanhola Carla Suárez Navarro (#12). Mais do que a diferença no nível técnico, foi duro de ver a brasileira atuando de forma tão incomum e praticamente desistindo do jogo já no início da segunda parcial. Teliana era a última brasileira viva nas simples. Na chave masculina, Thomaz Bellucci, Rogerinho e Guilherme Clezar foram eliminados na primeira rodada.

Se serve de consolo (e não deveria servir), Teliana embolsou US$ 43.313 por entrar na quadra nesta terça-feira. Esse valor é o que recebe cada tenista derrotado na primeira rodada do US Open. E juntando esse prêmio, Teliana agora soma mais de US$ 1 milhão na carreira. Profissional desde 2013, a pernambucana chegou a Nova York acumulando US$ 989.031. Só na atual temporada, com cinco vitórias e 21 derrotas, mas jogando quase sempre torneios de nível WTA, Teliana já soma pouco mais de US$ 280 mil (valores listados no site da WTA).

Os abandonos

O dia foi cheio de problemas físicos. Philipp Kohlschreiber (#26) perdia por 6/3, 7/5 e 1/0 para Nicolas Mahut (#42) quando abandonou o confronto. O alemão disse ter uma fratura por estresse no pé direito quando desistiu antes de entrar em quadra para a segunda rodada dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Esperava-se, na ocasião, que ele nem disputasse o US Open.

Quem também abandonou foi Alexandr Dolgopolov (#57), que chegou a sacar para fechar o primeiro set contra David Ferrer (#13). O ucraniano abandonou logo depois de ser quebrado pela segunda vez consecutiva, quando o espanhol fez 6/5, ainda na primeira parcial. O motivo informado foram “problemas estomacais”.

O descanso coloca Ferrer em ótima posição para a segunda rodada, quando enfrentará Fabio Fognini (#38), que ficou 4h47min em quadra para virar o jogo e derrotar Teymuraz Gabashvili (#105) por 6/7(9), 3/6, 7/6(5), 7/5 e 6/4.

A terceira desistência do dia veio com Borna Coric (#41), que vencia Feliciano López (#18) por 4/3 ainda no primeiro set. O croata sentiu dores fortes no joelho e deixou a quadra mesmo estando com uma quebra de serviço de vantagem.