Saque e Voleio

Bônus de Nadal
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Alexandre Cossenza

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“O homem é um monstro. Ele não deu uma, não. Ele deu três raquetes. O cara é sensacional mesmo.'' Foi assim que Marcelo Ruschel recebeu, via WhatsApp, a notícia na voz de Bruno Soares. Lembram que uma semana atrás Rafael Nadal havia prometido uma raquete para ajudar o projeto social WimBelemDon? Pois é… Quando encontrou o mineiro em Miami, o ex-número 1 do mundo entregou logo três raquetes e três camisas de jogo. Todas peças, claro, autografadas.

“Raquete nova, último modelo, zerada, autógrafo no cabo, nome dele na raquete… Tudo. Tudo. Sensacional, cara. Fiquei até pasmo quando ele veio com três. Fenômeno. Fenômeno'', contou Soares. A notícia realmente boa é que uma das raquetes já foi arrematada por R$ 25 mil – valor que logo deve entrar na soma do crowdfunding – a vaquinha virtual – Fixando Raízes promovido por Marcelo Ruschel para manter vivo seu projeto social. O fotógrafo gaúcho precisa de R$ 390 mil para comprar o terreno onde mantém as atividades do WimBelemDon. Até a manhã desta terça-feira, o total arrecadado somava pouco mais de R$ 110 ml.

Conversei com Ruschel na tarde desta segunda-feira, e o gaúcho já se mostrava muito mais otimista do que no nosso papo anterior, cerca de três semanas atrás. Com as raquetes estipuladas a R$ 25 mil cada (valor sugerido por Gustavo Kuerten) e as camisas a R$ 5 mil (uma delas também já foi arrematada), o projeto pode conseguir cerca de 25% do valor do terreno só com as peças cedidas por Nadal.

“Eu me sinto muito mais próximo do terreno. Agora já não tenho dúvida de que a gente vai conseguir''.

Mas tem mais. Os dias do Masters de Miami foram generosos com o fotógrafo. Além da ajuda do ex-número 1 do mundo, Ruschel vai receber duas raquetes de Marcelo Melo, mais duas de Thomaz Bellucci e outra do uruguaio Pablo Cuevas. E Bruno Soares, o encarregado de juntar tudo isso, ainda promete tentar a sorte com Andy Murray, Novak Djokovic e Tomas Berdych. Que tenha sorte?

Não conhece a história do WimBelemDon? Leia este post e fique por dentro.
Quer saber como ajudar? Clique aqui para ir até o crowdfunding do projeto.
Quer ajudar ainda mais? Divulgue este post de todas as maneiras possíveis!

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Dentro de quadra

A simplicidade que Rafael Nadal mostrou com um projeto social brasileiro está longe daquela que foi sua marca no circuito durante tanto tempo. Até agora, o espanhol faz uma temporada irregular, com ótimas atuações separadas por um punhado de partidas medianas e até um dia desastroso como o do último domingo, que terminou em derrota para o freguês Fernando Verdasco.

Na coletiva após o jogo, Nadal admitiu que não vem jogando com a calma necessária. Os momentos de nervosismo, que não eram muitos até alguns anos atrás, foram mais frequentes do que o desejado em 2015. O resultado traduz-se em muitas bolas sem profundidade, mais duplas faltas do que de costume e erros não forçados. O primeiro saque também vem deixando a desejar, bem distante do nível que Nadal atingiu em 2010 e 2013, quando ganhou o US Open.

Há quem veja a chegada da temporada de saibro como o momento em que Nadal finalmente vai combinar seu costumeiro tênis de altíssimo nível com uma atitude mental mais estável. É preciso lembrar, porém, que o espanhol já não fez uma bela temporada no saibro europeu em 2014 nem mostrou nada de especial em 2015, quando caiu na semifinal no Rio de Janeiro (perdeu para Fabio Fognini) e foi campeão em Buenos Aires (jogando apenas contra argentinos).

Não se pode deixar de levar em conta que, talvez por opção, talvez por necessidade e mais provavelmente por uma combinação de ambos, Nadal tenta jogar um tênis muito mais agressivo hoje em dia. No saibro, ele ainda opta por um estilo de menos risco – mas nem tanto. Na quadra dura, contudo, a estratégia não funciona consistentemente desde o US Open de 2013. Até no Australian Open do ano passado, quando avançou à final, Nadal teve atuações irregulares (sim, uma bolha na mão e a lesão nas costas tiveram sua parcela de culpa).

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A grande questão que parece incomodar o ex-número 1 é um dilema antigo, vivido por tantos e tantos tenistas que tentam sair de um tênis de porcentagem para um estilo mais agressivo. Atacar mais significa errar mais e, consequentemente, dar mais pontos de graça. O ponto é que nem todos tenistas se mostram mentalmente prontos para ceder tanto a um adversário. A nova postura exige um condicionamento psicológico. A margem para dias ruins diminui, e o número maior de erros frequentemente abala a confiança (e a tranquilidade!) de um atleta.

Mentalmente, jogar um 30/30 depois de dar dois pontos de graça é bem diferente de disputar um ponto com o mesmo placar, mas sabendo que o oponente teve de lutar pelos dois pontos que conquistou. O raciocínio do atleta deixa de ser “ele não vai conseguir jogar quatro pontos nesse nível” para “já dei dois pontos de graça, não posso errar mais.” Talvez não pareça tanto para quem nunca disputou um torneio. Para quem vive disso, entretanto, é uma diferença e tanto.

Já aconteceu com Jelena Jankovic e, mais recentemente, com Caroline Wozniacki, embora em medidas diferentes. Mas o quanto essa mudança de mentalidade está afetando Nadal? Só ele pode dizer. Joga a favor do espanhol algo em que ele parece acreditar cegamente, como disse em Miami, depois de ser eliminado. “Não tenho nada a perder. Neste ponto da minha carreira, já ganhei o bastante para dizer que não preciso ganhar mais, mas quero ganhar. Quero continuar competindo bem. Quero continuar tendo a sensação de que posso competir em cada torneio que jogo. Tenho a motivação para isso.”


Nadal dá raquete para ajudar a salvar projeto brasileiro
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Alexandre Cossenza

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Um projeto social gaúcho premiado internacionalmente corre sério risco de precisar fechar as portas, e Rafael Nadal se prontificou a ajudar. O tenista espanhol, ex-número 1 do mundo e dono de 14 títulos de Grand Slam, cederá uma raquete que será leiloada pelo projeto WimBelemDon na campanha de crowdfunding (a famosa “vaquinha”) chamada Fixando Raízes.

O WimBelemdon, que existe desde 2003, é capitaneado pelo fotógrafo Marcelo Ruschel, que trabalhou em mais de 30 confrontos de Copa Davis e é dos nomes mais conhecidos no tênis brasileiro. A iniciativa já recebeu três vezes o Prêmio Tênis e, no ano passado, foi reconhecida pela ATP com o prêmio Aces For Charity. Muitos dos melhores tenistas brasileiros apoiam anualmente, tamanha é a relevância de Ruschel e de seu WimBelemDon.

Este ano, no entanto, o gaúcho sofreu um susto. O dono da quadra alugado que recebe as atividades do WimBelemDon sinalizou que precisará vender o terreno. Ruschel, então, viu-se na obrigação de tentar adquirir o local permanentemente. Por isso, deu início à vaquinha virtual. Até agora, já juntou R$ 89 mil, uma bela quantia, mas que ainda não chega nem a 25% dos R$ 400 mil necessários para a aquisição. Por isso, tenistas e ex-tenistas brasileiros vêm ajudando.

Nesta semana, durante o Masters 1.000 de Miami, Bruno Soares vai à caça. Além de receber a raquete de Nadal – prometida desde o Rio Open, quando o mineiro fez o pedido -, o duplista tentará a sorte com a elite do circuito. Nomes como Federer, Djokovic e Murray estão na pauta. “Apesar de eu ter um relacionamento com esses caras, tem que explicar o propósito. Como é para um projeto social, eles (tenistas) costumam ser bem legais quanto a isso, mas tem que ser conversado, às vezes até com empresário. Isso eu vou fazer na primeira semana aqui em Miami. É correr atrás, explicar a situação e contar com a compreensão da turma.”

Entre os brasileiros, muita gente colaborou. Camisas, livros e raquetes vieram de nomes como Gustavo Kuerten, Bia Haddad, Gabriela Cé, Teliana Pereira e Fernando Meligeni. Fino, aliás, também dará uma clínica a quem contribuir com o projeto. Uma raquete cedida por Feijão após a Copa Davis também foi adquirida em poucas horas. Só que ainda falta muito, e o prazo para a compra do terreno se encerra no dia 30 de junho.

Por isso, para ajudar a divulgar a campanha e mostrar um pouco mais sobre a importância do WimBelemDon e a história de Marcelo Ruschel, fiz a entrevista abaixo com o fotógrafo gaúcho. Leiam, passem adiante e, se puderem, ajudem clicando neste link da vaquinha virtual.

Vamos começar lá de trás? Como começou sua história com o tênis?
Eu fui criado do mais tradicional clube de tênis daqui de Porto Alegre, que é o Leopoldina Juvenil. Passava mais tempo lá do que em casa, então todos meus amigos jogavam tênis. Eu tive aula, mas nunca tive muita paciência. Aprendi a jogar, mas nunca pratiquei. A fotografia era hobby do meu avô, que me criou. Com 6 anos, ganhei minha primeira máquina, uma Kodak Instamatic. Aí entra a paixão pela fotografia. Algumas vezes eu fotografava os amigos jogando tênis, surfando no verão… Eu sempre curti muito a fotografia.

E quando isso virou profissão? Quando entrou o tênis?
Quando eu já estava decidido a virar fotógrafo profissional, houve a coincidência do início da Pro Tennis (uma das maiores promotoras de torneios do Brasil). Teve uma Copa Itaú, e um dos caras do clube sabia da minha paixão pela foto e insistiu: “por que tu não faz umas fotos, depois expõe aqui e vai vender, vai ganhar dinheiro…” Eu falei “essas coisas não vendem, ninguém vai comprar.” Ele insistiu e eu fiz isso. Na verdade, não vendeu quase nada, foi muito engraçado (risos). Mas o que aconteceu? O Ennio Moreira, o sócio dele e a jornalista que era editora precisavam de um free lancer fixo. Chamaram, e eu adorei, né? Já comecei minha carreira ali participando de todo o processo, vendo como se faz um layout para depois fazer o fotolito para ir para a gráfica. Eu acompanhava por paixão pela história, além de ter a responsabilidade de ser o fotógrafo do Jornal do Tênis, que circulava em todo Brasil. Depois entrou o João Pires na história. Ele me chamou a primeira vez para fazer um torneio com ele, aí todo evento grande da Koch Tavares ele me chamava. Beach soccer, vôlei de praia… Eram eventos grandes que o João Pires precisava de mais gente. Comecei a fazer não só no Rio Grande do Sul, mas em todo Brasil.

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E você acabou “fazendo” umas tantas Copas Davis. Quantas foram?
A gente ainda brincava que eu queria bater o Thomaz Koch (que participou de 44 confrontos). Eu não cheguei lá, mas acho que fiz 34 ou 35.

Sobre o WimBelemDon, quando veio a vontade de montar um projeto?
Essa data é complicada, eu não tenho muita noção. Sempre fui muito inquieto, sempre fui atrás das coisas, das ideias, de sonhos. Quando eu descobri que era fácil fazer as coisas, talvez uma outra linha do idealismo…. Talvez quando eu fiz trabalhos ligados a meio-ambiente. Sempre fui um defensor, não sei se dá para chamar de “ecologista”. Fiquei quatro anos como voluntário em um projeto ligado à baleia franca. Antes disso, totalmente sozinho, fiz um ensaio fotográfico na menor reserva ecológica do Brasil. Aliás, acho que fui o único fotógrafo que conseguiu permissão para ir na Ilha dos Lobos. Fica na praia de Torres. Ainda hoje vêm leões e lobos marinhos para se alimentar. Eles habitam aquela ilha, que é menor do que um campo de futebol. Fiz essa exposição, que ficou num dos grandes shopping centers daqui de Porto Alegre, foi um sucesso e foi aí que me dei conta, talvez…
Porque não era uma simples exposição de fotografia. Eu estava trabalhando ali com educação ambiental. Mais ou menos 70% dos gaúchos que visitaram aquela exposição não acreditavam que aquilo era no Brasil.

E isso mexeu com você?
Senti a obrigação de levar isso adiante, de levar a fotografia para educar. De usar a criatividade para educar, na verdade. Não é nem a fotografia. Quando vi uma notinha no Correio do Povo que mais um leão marinho foi encontrado morto com um tiro na cabeça, me senti que tinha que levar essa exposição adiante. Levantei essa bandeira, a exposição esteve em cinco capitais, cidades do interior do Rio Grande do Sul… Fiz um abaixo assinado pedindo proteção para a menor reserva ecológica do Brasil, que não tinha nem um barco para cuidar da ilha. Eu meio que fiz tudo isso sozinho. Quando eu vi, estava na frente do ministro Rubens Ricupero. Movimentei muita coisa e aí que descobri o poder da transformação. Fiz por instinto e, a partir daí, entrei no projeto de baleia e, por ter essa ligação que tu conhece com o tênis, que durou trinta e poucos anos, eu passava por essa quadra abandonada e achava que dava para fazer algo legal com o esporte, com educação. Mas não tenho noção de quanto antes começou.

O projeto, oficialmente, iniciou quando?
A gente considera o ato de assinar o contrato de longo prazo com a quadra (o que aconteceu em 31 de outubro de 2000). Mesmo não tendo ideia de como eu ia fazer, a gente considera isso o início oficial do projeto WimBelemDon. Eu já tinha até o nome. Na minha cabeça, nas minhas viajadas, eu acabei fazendo essa brincadeira com o nome do bairro.

Que é Belém Novo, em Porto Alegre…
Belém Novo é uma região afastada do centro de Porto Alegre. O gaúcho tem o hábito de achar que é muito longe, mas esse muito longe seria “do lado” em São Paulo. Fica a 30 quilômetros do centro da cidade. Em Porto Alegre, que tudo é perto, as pessoas acham aqui o fim do mundo. Foi uma vila pesqueira em 1930, depois começou a virar uma região de balneário, porque todos os bairros da zona sul de Porto Alegre foram, um dia, praia de rio. Depois, a cidade vai crescendo e vai se misturando como periferia. Hoje, ainda é um bairro muito bonito. É o único espaço que tem para onde a zona sul de Porto Alegre crescer. Hoje, tu anda por aqui e ainda tem pequenas propriedades rurais, parece que está no interior. Estão vindo muitos condomínios para cá. Mas, evidentemente, não sei há quanto tempo atrás, começou a ter aqueles bolsões de miséria. Vários becos, bastante pobreza, tem o esquema do crack, tráfico, essas coisas.

O projeto, hoje, atende 100 crianças. No começo, eram 40. Como era o processo para receber essa criançada lá no começo?
No início (as atividades começaram em março de 2003), por falta de know how, a gente pediu ajuda na maior escola do bairro, que é uma escola estadual. A gente achava que a escola conseguiria identificar as crianças mais necessitadas, em situação de vulnerabilidade social, mas vieram algumas crianças que não precisavam estar ali, que poderiam estar pagando uma academia. Tinha filho do dono da lotérica, filho do não-sei-do-quê, enfim… Mas a criança não tem culpa. Se você trabalha com inclusão social, ela já está, fica. Isso a gente foi acertando aos poucos. Hoje, já tem um critério rigoroso. A gente segue a Lei Orgânica da Assistência Social, então a família tem que preencher uma ficha, trazer todos os comprovantes de renda, de residência, dizer se a casa é própria ou alugada… Já tivemos, nesse caminho, muita mentira porque a mãe ou o pai queria porque queria ensinar tênis para o filho, sabe? Hoje, a gente tem psicólogos que fazem visita domiciliar para ver as condições da família. Aí entra outra história. Já fizemos visita domiciliar em todos, e os psicólogos começam a entender melhor as pessoas para poder interagir melhor e ajudar melhor a criança e a família.

Qual foi a maior dificuldade no início?
Talvez, Alexandre, com toda sinceridade, se eu soubesse das burocracias e do grau de dificuldade para fazer um projeto social quando eu aluguei lá, intuitivamente, a quadra, talvez eu não tivesse começado. Mas acredito que todo projeto social começa assim, com muita dificuldade. Só com o coração, sem nada de papel. Se tu não for sério, tu pula fora, que nem várias celebridades, inclusive esportivas, que brincam de fazer projeto social. Se tu for sério, vai tentar fazer alguma coisa, se dedicar a fazer alguma coisa. Hoje, para mim, pessoa física, o projeto é tudo. Muito mais do que um dia foi a fotografia.

Por isso esse tempo de mais de dois anos entre o aluguel da quadra e o início das atividades?
Foram dois anos e meio. Eu não sabia como fazer. E essa decepção foi porque pessoas que já tinham feito projetos ou tinham noção – que eu, como fotógrafo, não tinha – queriam me vender know-how. Eu já achava um absurdo. Questão de conceito. É um projeto social. As pessoas têm que se unir e, na minha cabeça, não existe concorrência. As pessoas têm que se ajudar. Na minha visão, até hoje, tem espaço para ter projeto social, usando tênis ou não, em qualquer esquina, em qualquer bairro. Hoje, tem muita gente que pensa ao contrário e leva conceitos do empresariado para um projeto social. Não é bem assim. Projeto social não visa lucro. Tu não pode ter os mesmos conceitos de uma organização com fins lucrativos. Não é por aí.

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E hoje o WimBelemdon é uma ONG respeitada e premiada…
Era para ser uma ONG desde o início, mas por desconhecimento, por cair numa errada de um advogado que auxiliou, o estatuto era totalmente errado. Eram só quatro pessoas. Aí tu não consegue formar, como a lei exige, um conselho deliberativo, um conselho fiscal. Daí tu não consegue captar recurso, se registrar nos conselhos de assistência social, de educação, enfim… Para poder buscar, participar de editais, captar recurso. Tu não consegue ser sério se tu for sozinho. Em algum momento da tua história, e isso eu digo para qualquer projeto social, tu tem que tentar te profissionalizar.

Quando foi o grande passo para a profissionalização?
Foi quando a gente quase fechou, em 2008. A gente estava totalmente envolvido no projeto e consciente da importância que aquilo ali era para as crianças, e a gente resolveu que “não pode fechar”. Foi bem no ano da crise econômica internacional, lembra? Em 2008, 2009. A gente perdeu o único mantenedor. Para ti ter uma ideia do absurdo, a gente ganhava R$ 10 mil por ano da Copesul. A gente ficou sabendo por terceiros que naquele mês, em dezembro, eles não iam continuar. Ou seja, aquela “fortuna” de R$ 10 mil para o ano seguinte eu já não ia ter. Na minha desorganização, eu ficava botando dinheiro do meu bolso. A minha esposa que ficava “ó, vão cortar a luz”, aí eu “toma aqui” e entrava no cheque especial (risos).

Hoje em dia, até a questão do terreno aparecer, estava tudo 100%?
Hoje, a gente está num nível de organização que, para ti ter uma ideia da diferença, o projeto é diário, são cento e poucas crianças, são 15 funcionários com carteira assinada, trinta e poucos colaboradores ao todo, as crianças têm lanche todo dia, almoço todo dia, fora várias atividades. O tênis a gente usa como um meio, uma ferramenta de ele, sem perceber hoje porque está brincando, levar bons valores para a vida inteira. A gente usa esse gosto pelo tênis para produzir outras atividades, que são inglês, leitura, matemática, português, cinema… Tem uma oficina de bem-estar, já há dois anos, que é fantástica. As crianças aprendem a meditar, respirar, a se concentrar…

De onde vêm os recursos para manter o projeto?
Hoje, quase 90% do dinheiro que mantém o projeto WimBelemDon vem do imposto de renda. Vem de alguma pessoa física ou jurídica que não quer deixar, por menor que seja a porcentagem, que esse dinheiro de imposto de renda vá todo para Brasília. Então essas pessoas tentam destinar para alguma causa.

Só que não dá para comprar o terreno assim, né?
Hoje, aqui no Rio Grande do Sul, tu não consegue botar num projeto de Lei de Incentivo Fiscal a aquisição de um bem imóvel. Então qual é a empresa ou pessoa física que vai tirar do bolso R$ 400 mil e dizer “toma, Marcelo, compra o teu terreno”? Não tem. Ninguém tem verba de marketing tão grande e que vai investir 100% daquela verba na aquisição de um terreno de um projeto social, que, infelizmente, não é prioritário para aquela empresa.

Quando veio a ideia do crowdfunding?
Fui fazendo cursos e workshops de crowdfunding, vendo alternativas, só que a maioria dos cases de sucesso não tem um valor tão alto. Na nossa plataforma, o projeto social que mais captou foi R$ 140 mil. Estamos tentando outras maneiras, outras fontes, mas já tive alguns “nãos”. Eu sei que é difícil, principalmente porque tu sabe como está o pavor, o pânico no Brasil em função do mercado. É greve de caminhoneiro, vai faltar produto, inflação subindo… Tá complicado, meu amigo. As empresas estão com o freio de mão puxado. Não sei o que vai acontecer, mas eu não tinha outra alternativa. O contrato que a gente fez de compromisso de compra e venda, que ele (dono do terreno) me deu exclusividade na compra e fixou o preço, vai até 30 de junho. Não quer dizer que ele vá vender para alguém no dia seguinte, mas é o que eu digo: “só vou pensar no que fazer se não der quando não der.” Porque a tua mente vai viciando se tu pensar só nas coisas negativas. Tu tem que pensar que vai dar certo, botar toda tua energia no “vai dar certo”. Não posso pensar na hipótese de dar errado. Se der errado, vou correr para resolver da melhor maneira possível, mas agora 110% da minha cabeça tem que estar voltada para dar certo, concorda?

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Thomaz Bellucci, o tenista que o Brasil ama odiar
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Alexandre Cossenza

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O brasileiro, especialmente aquele que vê casualmente qualquer esporte que não seja futebol, gosta de criticar. O alvo preferido é o árbitro, que invariavelmente rouba o Brasil. Se não tem árbitro, tem sempre um adversário desonesto, violento, catimbeiro, antiesportivo ou até puxa-saco do(s) juiz(es). O brasileiro também gosta de culpar “o sistema”. O campo é horrível, a iluminação é péssima, a torcida “deles” é hostil e a federação nunca permitiria algo assim no Brasil. E, quando tudo se esgota, tudinho mesmo, o brasileiro reclama do brasileiro. É aí que entra a figura de Thomaz Bellucci. Apresento abaixo dez provas:

Não conheço as pessoas que escreveram os tuítes acima, não sei com que frequência acompanham esportes nem tenho a intenção de desqualificá-las. Os tuítes estão aqui apenas para dar substância ao que escrevo no primeiro parágrafo. O brasileiro “médio” gosta de reclamar do brasileiro (e isso nem vale só para o esporte, mas essa discussão fica para outro dia). Um dos autores acima, inclusive, para reclamar de Bellucci, criticou dois ginastas campeões mundiais, um cavalo campeão olímpico e uma levantadora campeã de Grand Prix e medalhista olímpica. Mas não é só ele. Já vi até um narrador de canal de esportes dizendo que o paulista deveria se aposentar e jogar sinuca.

Mas eu divago. O objetivo aqui é falar de Thomaz Bellucci e de como o brasileiro ama odiá-lo. Primeiro, aos fatos: o paulista já foi número 21 do mundo, conquistou três títulos no circuito mundial e passou mais de dois anos ininterruptos entre os 40 melhores do mundo. Até o último fim de semana, Bellucci somava 16 vitórias e dez derrotas em jogos de Copa Davis. Se você sabe alguma coisa de tênis, deve reconhecer (atenção: sem precisar comparar com ninguém!) que é um dos melhores currículos da história do tênis brasileiro.

Mais fatos: o paulista, hoje com 27 anos, é um tenista inconstante, que alterna momentos excelentes com sequências pavorosas. Bellucci não é só irregular tecnicamente. Aliás, nem oscila tanto assim em seus golpes. O aspecto mental de seu tênis é o que mais varia (e nem oscila tanto assim em Copa Davis). Sim, o atual número 2 do Brasil perde um bocado de chances e jogos ganháveis. E sim, Bellucci já desistiu mentalmente de partidas que não estavam tão perdidas assim (isso, aliás, também não acontece em jogos de Copa Davis).

Com um olhar superficial, é difícil entender como um atleta com golpes tão sólidos varia tanto. Até Rafa Nadal, em sua recente passagem pelo Rio de Janeiro, disse que não sabia por que Bellucci não tinha uma ranking mais alto. Mas tênis é uma combinação de técnica, mental e físico – outro ponto em que o paulista precisa evoluir. Atualmente no 85º posto do ranking mundial, Bellucci não consegue combinar todos esses ingredientes com a frequência necessária para brigar com os vinte primeiros da lista da ATP. É preciso mais.

Ainda assim, é admirável que um tenista com “tantas” falhas tenha alcançado tanto na carreira – e esse tanto inclui mais de US$ 3 milhões em premiações (sem contar a verba de patrocinadores). É um feito invejável. Por isso, me incomodou ler tantas críticas durante os últimos dias, enquanto o Brasil enfrentava a Argentina.

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Logo na Copa Davis, em que Bellucci costuma tirar o melhor de seu tênis. Nessa mesma competição, a “Copa do Mundo do Tênis”, Bellucci soma uma linda virada (perdia por 2 sets a 0) sobre Alejandro Falla, da Colômbia, uma vitória memorável em cima de John Isner, em quadra dura e fora de casa, e os dois recentes triunfos sobre a Espanha que colocaram o Brasil de volta na primeira divisão.

Só que reclamar é mais fácil do que clicar aqui ou ali para se informar. Pouco importou, aparentemente, que Bellucci chegou a Buenos Aires em má fase, vindo de quatro derrotas seguidas. Ou que Bellucci fosse enfrentar dois adversários de alto nível (Leo Mayer, 27º do mundo, e Federico Delbonis, 79º). Ou que a quadra propositalmente muito lenta fosse favorável aos tenistas da casa. Ou, ainda, que a torcida barulhenta fosse fazer diferença (como fez em São Paulo, em 2012, quando Bellucci derrotou o mesmo Mayer).

Nessas horas, o que importa para muitos é a fama – justa ou não. Quando Feijão, em uma atuação memorável, perdeu o quarto jogo para Leo Mayer depois de 6h42min, Bellucci, aquele mesmo que foi festejadíssimo em setembro, quando até salvou match point e comandou a vitória brasileira em cima da Espanha, voltava a ser o Bellucci sem raça, perdedor, amarelão. Porque Bellucci é, hoje mais do que nunca, aquele tenista que o país ama odiar.

Coisas que eu acho que acho:

– O Twitter é prova. Eu mesmo sou um dos primeiros a criticar quando Bellucci deixa de acreditar em um jogo e entrega metaforicamente os pontos antes da hora. Também sempre questiono seu preparo físico, responsável por um punhado de derrotas – também antes da hora. Mas critico porque ele é “sem sangue'', como dizem alguns? Ou porque ele está desonrando o país, talvez? Nem um nem outro. Apenas aponto o óbvio: que Bellucci tem golpes para fazer muito mais e que ganharia um punhado de jogos a mais se conseguisse administrar melhor os aspectos mental e físico.

– Nem o mental nem o físico, atualmente, faz de Bellucci, por definição, um perdedor, um amarelão, um tenista sem raça. A página da ATP está lá, com todos resultados, para provar. O site da Davis também tem tudo arquivadinho. Basta querer saber.

– Respeito quem discorda (educadamente). Há quem, mesmo lendo tudo isso que escrevi, vá continuar achando que Bellucci é um péssimo tenista. Tudo bem. Só que vale uma pergunta: se Bellucci é tão, mas tão ruim assim, como chegou a número 21 do mundo? Será que Bellucci é uma espécie de gênio por ter ido tão longe sendo tão ruim? Será que o paulista é o tenista mais sortudo da história? Será que conseguimos uma resposta?


Marcio Torres: médico, técnico e, agora, empresário de Bob e Mike Bryan
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Alexandre Cossenza

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Ele é mineiro, 34 anos, tem bom papo e circula fácil pelos bastidores dos maiores torneios. Formou-se em medicina esportiva, disputou torneios com sucesso moderado (foi número 132 do mundo em duplas) e foi técnico de Bruno Soares até que, meio por acaso, descobriu seu verdadeiro chamado no tênis. Marcio Torres passou de coach a empresário do amigo mineiro. A parceria deu tão certo que o manager passou, pouco depois, a administrar a carreira de Teliana Pereira, número 1 do Brasil. O sucesso chamou atenção internacional, e Torres agora também é quem dá as cartas nos novos contratos dos irmãos Bob e Mike Bryan, a dupla mais vencedora da história do tênis.

Quando sentamos para bater um papo durante o Rio Open, algumas semanas atrás, a ideia era falar sobre o sucesso comercial de Bruno Soares, mas uma coisa levou à outra (o homem é mesmo bom de papo) e a conversa só terminou dois dias depois, na beira da Quadra 1, vendo a partida de Feijão e André Sá contra Pablo Andújar e Oliver Marach. A maior parte da conversa rendeu essa reportagem para a Máquina do Esporte. Aqui no Saque e Voleio, publico a parte em que Torres conta sua transição das quadras para o empresariado e como, enfim, passou a manager da dupla mais importante do mundo.

Quando a gente se conheceu, você era técnico do Bruno e sócio da (fabricante de material esportivo) Solfire. Quando foi o salto definitivo para se tornar empresário?
Você quer ouvir a história toda?

Claro!
Eu conto uma versão resumida. Eu descobri que tenho uma perna maior do que a outra, estava tendo uma dor na bacia muito forte e fiquei um ano e meio parado. Foi quando fiz o MBA e voltei a jogar. Voltei com o ranking protegido, foi uma época que eu joguei com o Thiago Alves. A gente jogou Roland Garros e tal… Aí, depois de seis meses, comecei a sentir dor de novo. Eu parei, meu ranking caiu, teria que fazer fisioterapia e foi na época que o Bruno (Soares) saiu da equipe Centauro (fim de 2011). Eu morava nos Estados Unidos e vinha todos os anos fazer a pré-temporada com o Bruno e o Marcelo (Melo). E o Bruno falou “cara, seu ranking tá caindo, viaja comigo”. Foi uma ideia maluca dele, eu nunca tinha pensado. Eu joguei mais dois Challengers e comecei a viajar como técnico do Bruno no Brasil Open. E ele ganhou com o (Eric) Butorac! Falei “esse negócio é legal. Primeiro torneio oficial, já saí com o título.” Aí comecei a viajar com o Bruno e o Butorac e também com o Jamie Murray. Viajei com ele quase um ano como treinador. Ele jogava duplas com o Andy na época. A gente fez um embolado, eles dividiam as despesas e, para mim, era ótimo. Eu tinha três jogadores de ponta, um salário fixo, porcentagem dos três, então unia o útil ao agradável.

Por que largou, então?
Minha irmã e o marido dela são advogados nos Estados Unidos e eles ajudam os jogadores a fazer imposto de renda lá. A gente fazia isso há cinco anos. Eu estava mais ou menos no business. Chegou uma época que eu tinha mais ou menos 70 clientes jogadores. Muita gente, do mundo inteiro. Nesse ano, que eu estava com o Bruno de coach, foi o ano que ele começou a deslanchar mesmo. Começaram a surgir os patrocínios, e o Bruno falou “cara, me ajuda” e tal. E foi assim, natural. Todo mundo sempre falou que eu tinha jeito para isso. Eu jogava interclubes na Europa muitos anos e todos times eu enchia de amigo meu. O Marcelo jogou na Itália comigo, o Diogo Cruz também…O Grilli foi… Mas eram amigos. Eu ajudava, conseguia contratos para eles e não pedia nada em troca porque eu queria companhia.

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Qual foi o primeiro contrato?
O primeiro contrato foi a Solfire, na verdade. Eu era sócio da empresa. Ela era minha no Brasil e falei com o Bruno “vamos jogar de Solfire e você vira meu sócio no Brasil.” Eu já fazia o imposto de renda dele há muito tempo. Depois, vieram o BMG e a Asics. O primeiro contrato que fiz sozinho foi a Asics, que não é nada mau. Uma marca desse porte acreditou no Bruno desde cedo… Começamos bem. Eu estava como coach, fazendo os dois. No ano seguinte (2013), foi o boom dele. Eu adorava ser coach, ainda adoro e, quando precisar dar uns gritos, eu grito com ele (risos). E aí foi. Depois veio a Teliana e foram surgindo vários contratos. Foi uma transição natural e foi legal.

O Bruno, hoje, tem oito contratos de patrocínio. Mas de um cara que é famoso no país até a dupla mais famosa do mundo é um grande salto. Como foi?
Os Bryans são muito amigos do Bruno, treinam juntos direto. Esporadicamente, a gente vai jantar e tal… Bob mora em Miami há três anos. Como eu moro lá há 15 anos, sempre que ele está lá eu treino com ele. Aí, um dia, acho que o ego dele estava meio machucado, porque o Bruno estava cheio de propaganda na camisa, e ele disse “acho que você devia estar ajudando a gente”. Achei que ele estava de brincadeira. Eles estavam com a empresa deles (Lagardère) há muito tempo. Falei “vocês estão falando sério? É comigo?” Ele disse que sim, então começamos a namorar. Obviamente, não foi um processo não simples porque estavam com várias coisas em andamento. Perguntaram como eu trabalhava, o que eu poderia ver, e a gente começou a fazer algumas coisas. Aí eles decidiram sair da empresa. A Lagardère vai cuidar desses contratos em andamento e, a partir de agora, todos novos negócios são comigo.

E já deu para fechar algum contrato para eles?
Nesse meio tempo, a gente ficou mais próximo, e agora praticamente treino com o Bob sempre que ele está em Miami… A gente janta junto, ele vai lá em casa… Enfim, já estamos íntimos, já fechamos dois contratos, então o negócio está de vento em popa. Um é a Barracuda, que é a maior empresa do mundo de firewall. Eles estão entrando forte no tênis, vão patrocinar Indian Wells. E eu também fiz o contrato do livro que eles estão escrevendo. É bem recente, mas começamos com o pé direito.

E foi uma negociação difícil com a Barracuda?
Estávamos negociando, mas perdi contato com o cara deles. Meu pai estava me levando para o aeroporto, e o cara me liga. Eu falei “estou indo para Londres agora. O contrato é para começar dia 1º de janeiro, mas se você me der um email por escrito que a gente vai fechar, não precisa assinar contrato nem nada, estou confiando em você e te dou a manga (da camisa dos Bryans) do Masters de presente”. No dia seguinte, eu tinha que chegar e mandar fazer as camisas para eles jogarem naquela mesma noite. Cheguei em Londres, já estava confirmado. Peguei as camisas dos Bryans, mandei fazer e eles perderam o primeiro jogo. Trocaram de camisa porque acharam que estava dando azar, aí mandei fazer a preta, que era a camisa de treino, e eles ganharam a porcaria do torneio. Depois, mandamos a camisa assinada e a credencial para os caras (da Barracuda). E, no site da ATP, apareceu a manga. Enfim, não estava no contrato e demos um ATP Finals para os caras de graça (risos). Tinha uma manga vazia, não ia fechar nada de última hora, eu falei com os Bryans, e eles confiaram na minha palavra. Assinamos um contrato de um ano e agora, em fevereiro, eles já querem renovar.

Como é o seu processo de procurar empresas?
Geralmente, nas horas vagas, que são poucas, eu tento mapear as empresas multinacionais que já apoiam os torneios no mundo afora. Tento entrar em contato no Brasil, nos EUA e descobrir os presidentes, vice-presidentes e pessoas de cargo alto que têm a decisão, que gostam de tênis e que vão aos torneios. E são muitos porque tênis é um esporte de uma classe social legal. Tento unir o útil ao agradável. O cara que gosta de tênis, se ele tem a caneta e está assinando, ele tem a tendência de apoiar.

MarcioTorres_pessoal2_blog

Tênis tem essa vantagem…
O tênis, eu acho, é o melhor esporte do mundo para relacionamento. A área VIP aqui (no Rio Open) é de alto nível. Você vai no futebol, no vôlei… Não tem essa qualidade. Quando as empresas entram no tênis, é único. E se eles querem se associar com pessoas de alto nível, é uma plataforma perfeita. E uma coisa que a gente faz com os Bryans, o Bruno e a Teliana é… nos levamos o presidente da Asics em Londres (no ATP Finals), o presidente da Optimum Nutrition também foi… O (Nasser) Mohamad, que é um amigo nosso da Bayard, também foi.

Mas vocês têm alguma parceria com a Bayard?
Não, é um amigo. Se um dia não fechar nada, eu tenho um amigo que gosta de tênis. E todos foram para Londres com credencial. Levamos eles ao vestiário. Para eles e outras pessoas, é uma experiência única. O cara gosta de tênis, senta com a gente no box, toma café da manhã do lado do Nadal e do Federer e almoça do lado de todo mundo. Ainda mais no Masters de Londres, que todo jogo é uma final de Grand Slam. O (Rogério) Melzi, presidente da Estácio, também foi a Londres.

Você está falando de marketing de relacionamento, mas em um âmbito diferente. Não é uma empresa, mas um jogador fazendo isso…
Eu e Bruno tentamos fazer algumas coisas diferentes e entregar a mais. Obviamente, a equipe do Bruno tem preparador físico, fisioterapeuta, a família, mas a gente sempre tem uma credencial extra e tenta coordenar. Por exemplo, o Melzi tinha uma reunião em Londres. Ele foi dois dias antes e curtiu o torneio. Para um fã de tênis, sentar na primeira fila e ver Federer e Wawrinka, um jogo que terminou 7/5 na negra, e depois comer com os caras… Não tem dinheiro que pague. É uma coisa que não se pode comprar. O cara mais rico do mundo, se ele não tiver acesso aos jogadores, não pode ter isso. Ele vai sentar na primeira fila, com ingresso comprado, e vai ficar no sol.

E dá para fazer isso com os Bryans também?
Dá. Tanto que, por exemplo, no caso da Barracuda, eles têm escritório em 36 países. Em alguns países-chave eles gostariam de convidar os clientes. A gente avisa. No US Open, para os Bryans, é um torneio difícil. Tem família, enfim. Mas no Masters de Xangai, onde a Barracuda tem um escritório gigante, dependendo da semana, a gente planeja antecipado e tenta fazer. Nos torneios dos EUA, eles são deuses, podem sempre pedir uma forcinha a mais, igual à gente aqui no Brasil. E assim vai. Tentamos. Poucas pessoas fazem isso. A gente não coloca isso no contrato porque eu não posso garantir, mas sempre damos um jeitinho.

E, talvez, por não estar no contrato, você cativa ainda mais o patrocinador…
E tem uns jogadores que, por exemplo, o Jamie Murray e o Andy Murray são amigos nossos. Em Wimbledon, eles precisam de muitas credenciais. Se a gente tem alguma sobrando, o Bruno dá. Aí em Roland Garros, o Bruno vai ter mais gente eles dão uma. Tem muita troca. E vai assim. Aqui, o Peya deu todas as credenciais dele. O (Philipp) Oswald, o (Oliver) Marach, o Julian Knowle… A gente tem um ciclo de amizades muito grande e vai ajudando um ao outro. É legal.


Feijão: uma vitória sem match point
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Alexandre Cossenza

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Foram 11h39min em quadra, 807 pontos disputados, dez sets jogados, dez match points salvos e um recorde quebrado. João Souza deixa Buenos Aires com uma vitória improvavelmente fantástica contra Carlos Berlocq, a honra de ter disputado a partida de simples mais longa da história da Copa Davis (6h42min na derrota para Leo Mayer), e um currículo com a adição de, somando sexta-feira e domingo, um fim de semana épico, histórico, titânico… Boyhoodiano!

No que foi possivelmente a maior atuação de um brasileiro na Copa Davis desde Guga em Lérida/1999, Feijão não conseguiu dar a vitória ao time brasileiro, mas deixou em quadra muito mais do que isso. Mostrou coragem em pontos importantes, foi persistente (nas muitas e muitas vezes) quando tudo parecia perdido e teve raça quando o corpo não respondia mais. Apagou as dúvidas que (supostamente) existiam sobre seu preparo físico e, muito mais do que isso, deu à torcida alguém por quem ela pode ter orgulho de torcer – na vitória ou na derrota. Mesmo sem match point para chamar de seu, Feijão foi um vencedor.

Mayer, que lutou bravamente quando também estava exausto, mereceu vencer e estender o confronto. E seria igualmente justo se tivesse fechado a partida antes. Abriu 7/6(4), 7/6(5) e 3/0 e parecia estar no controle das ações. Só não contava com uma furiosa reação do número 1 do Brasil. Onde muitos tenistas veriam areia movediça, João Souza enxergou uma escada. Virou um set quase perdido, ganhou mais um e forçou a quinta parcial. Então, lutando contra as limitações do corpo, salvou match point atrás de match point. Foram dez ao todo.

O único pecado, tão perdoável quanto soa injusto chamar de pecado qualquer falha nessas condições, foi não confirmar o serviço quando teve 6/5. Paciência. Se chegou à chance de fechar a partida foi porque, antes, anulou muitas e muitas chances do adversário. Àquela altura, tudo parecia lucro. O curioso – e elogiável – é que agora, pós-ponto derradeiro, a sensação não é muito diferente. Ninguém vai enfatizar o 12º game que escapou nem a direita que saiu quando Mayer sacava em 15/30 no 27º game. A imagem que fica é a do “lucro”. Da batalha, da raça, da fé, da esperança, do orgulho de torcer. Feijão foi hercúleo e é isso que importa.

#feijãomágico

Coisas que eu acho que acho:

– O quinto ponto foi suspenso quando Thomaz Bellucci perdeu o primeiro set para Federico Delbonis por 6/3. O número 2 do Brasil começou mal, viu o tenista da casa abrir 5/1 e, quando “entrou” no jogo, já era tarde. A partida recomeça às 11h desta segunda-feira, e o Brasil continua a três sets das quartas de final da Davis.

– Logo que a última partida começou, li muitas críticas a Bellucci nas redes sociais. Tidas acentuadas, claro, pelo contraste de estilos e pelo fim de semana espetacular de Feijão. Entendo até certo ponto, mas não acho justo usar o brilho de um para ofuscar o outro. Criticar a postura de Bellucci na Davis é esquecer de atuações memoráveis como a virada sobre Alejandro Falla, os dois triunfos sobre a Espanha e a vitória sobre John Isner nos Estados Unidos. Feijão foi monstruoso, sim, mas isso não faz de Bellucci nem mais nem menos.

– Uma derrota brasileira significaria uma repescagem dura, mas provavelmente em solo brasileiro. Entre os possíveis cabeças de chave da repescagem estão República Tcheca, Suíça, Itália, Estados Unidos, Alemanha, Croácia e Japão/Canadá. E ainda existe a possibilidade de a Espanha alcançar os playoffs via Zonal da Europa. Não seria nada fácil para o Brasil.


Melo, Soares e o ponto de (des)equilíbrio
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Alexandre Cossenza

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Entra Copa Davis, sai Copa Davis, e o Brasil tem uma certeza: Marcelo Melo e Bruno Soares vão triunfar no sábado. É assim há oito confrontos, e até os irmãos Bob e Mike Bryan já foram vítima. Não foi diferente em Buenos Aires. Por 3 sets a 0, com parciais de 7/5, 6/3 e 6/4, os dois mineiros derrotaram Carlos Berlocq e Diego Schwartzman e colocaram o Brasil novamente à frente no confronto: 2 a 1. Agora, o time do capitão João Zwetsch está a um ponto de avançar no Grupo Mundial pela primeira vez desde 2001.

Tirando o primeiro game de saque do segundo set, que teve três duplas faltas de Bruno Soares e acabou com a primeira quebra a favor da Argentina, foi um jogo sem sustos. E nem foi uma atuação espetacular da parceria brasileira. O primeiro set foi um pouco instável, e a quebra só veio no 12º game, quando Schwartzman – serviço mais vulnerável da dupla da casa – foi quebrado com uma devolução vencedora de Soares.

O único tropeço veio no começo do segundo set, mas a liderança de Berlocq e Schwartzman não demorou muito. Três games depois, Schwartzman foi quebrado novamente. Mais dois games e, dessa vez, foi Berlocq quem perdeu o serviço. Soares ainda teve o saque ameaçado outra vez, mas o time brasileiro salvou um break point no nono game e fechou a parcial três pontos depois.

Até que o público tentou. Os argentinos se levantaram, pularam, gritaram e aplaudiram, mas o jogo já parecia em piloto automático para os brasileiros. Com Marcelo Melo mais uma vez jogando uma monstruosidade – não é o número 3 do mundo e 1 do país por acaso – foi questão de tempo para que ele e Soares fechassem a partida. E sem drama.

Assim, mais uma vez, a dupla mineira, o ponto de equilíbrio e segurança do time brasileiro, desequilibrou um confronto. Foi assim contra a Rússia em 2011, contra a Colômbia em 2012, e contra Equador e Espanha em 2014. Todos esses confrontos terminaram a sexta-feira empatados. Em todos eles, Marcelo Melo e Bruno Soares colocaram o Brasil na frente. Agora só falta um.

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Coisas que eu acho que acho:

– Em tese, o primeiro jogo deste domingo, às 11h (de Brasília), será entre Feijão e Leonardo Mayer. Mas será que Orsanic teria a ousadia de substituir o número 1 do país? No saibro, com Feijão sacando aberto e alto, o backhand de Mayer pode se mostrar um tanto vulnerável. Foi assim em São Paulo, quando o paulista levou a melhor. Por esse lado, talvez Schwartzman, mais consistente do fundo de quadra, fosse uma opção interessante para a Argentina, mas será que Orsanic, em sua estreia como capitão, ousaria tanto ao tirar o número 1 do país no domingo?

– E quanto a Berlocq, que jogou 4h57min na sexta e voltou à quadra neste sábado? Será que Orsanic insiste com ele no caso de um quinto jogo? Ou Delbonis estaria sendo guardado para a ocasião?

– Não custa lembrar. A última vez que o Brasil passou da primeira rodada no Grupo Mundial foi em 2001, quando o time do capitão Ricardo Acioly derrotou Marrocos, no Rio de Janeiro, por 4 a 1. Aquela equipe tinha Gustavo Kuerten, Fernando Meligeni, Jaime Oncins e Alexandre Simoni (os dois últimos fizeram o ponto das duplas e fecharam o confronto já no sábado).

– Não seria bacana se o Brasil fechasse o confronto em 3 a 2, com uma vitória de Bellucci? Um resultado assim seria, ao menos, simbólico de um time que, hoje em dia, pode vencer qualquer dos pontos, seja com Feijão, Bellucci ou a dupla. Equipes assim, com uma pitada de sorte na chave, podem ir bastante longe.

– A Sérvia, que já abriu 3 a 0 em cima da Croácia, vai enfrentar o vencedor de Brasil x Argentina. Djokovic e companhia jogarão em casa se o Brasil triunfar. Em caso de vitória argentina, os hermanos escolherão a sede.


Feijão: para apagar dúvidas e salvar o dia
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Alexandre Cossenza

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Em um breve instante, ficou muito claro. Feijão perdia o jogo por 2 sets a 1 e vivia seu pior momento, sacando em 1/3 e 15/40 na quarta parcial. O poço parecia fundo demais. Já se passavam 4h de duelo. Foram dois break points salvos e quatro igualdades, mas o número 1 do Brasil confirmou aquele saque. No último ponto, uma comemoração intensa. Olhos bem abertos, punho fechado. Não era alívio, era vontade de continuar ali. Ali, naquele segundinho, deu para ver. Feijão poderia perder a partida, mas não se entregaria mental nem fisicamente.

O atual número 1 do Brasil comportou-se como seu posto de líder exige. Ficou em quadra e brigou até que, depois de outras duas igualdades, devolveu o saque de Carlos Berlocq e empatou o set. Mas teve mais. Feijão ainda salvou um break point antes de abrir 4/3 e embalar para quebrar de zero o argentino. O que faltou de decisão no terceiro set (Feijão teve três set points – dois no saque – e não fechou) sobrou no quarto. Sacando em 5/3, o paulista ainda escapou de duas chances de quebra antes de fazer 6/3 e adiar a decisão para o quinto set.

Berlocq abriu a parcial decisiva vibrando e chamando a torcida. Uma tática inteligente contra um Feijão que disputava seu primeiro quinto set na vida. No fim das contas, mostrou-se uma estratégia desesperada. Além das 4h de jogo, o argentino não tinha mais físico para correr atrás dos forehands de Feijão como vinha fazendo até então. Tentou dar curtinhas e até teve sucesso moderado, mas ninguém vive disso. Tentou, então, agredir um pouco mais, só que também errou um pouco mais. Enquanto isso, Feijão, inteiro no fundo de quadra, seguia distribuindo pancadas. No fim, sem piscar, o brasileiro comemorou uma vitória maiúscula por 6/4, 3/6, 5/7, 6/3 e 6/2.

Mais do que um lindo resultado e mais até do que um importantíssimo ponto em Grupo Mundial de Copa Davis, Feijão deu ao país inteiro uma prova de sua maturidade como tenista. Em seu primeiro jogo fora de casa vestindo as cores do Brasil, jamais se deixou atrapalhar pela torcida, mostrou força mental para superar um momento duríssimo e deixou claro que tem condições físicas de encarar partidas longas, sob forte calor, chegando ao fim melhor do que o adversário. Uma atuação para apagar quaisquer dúvidas que o capitão João Zwetsch (ou qualquer outra pessoa na CBT) ainda tivesse sobre sua capacidade de defender o país.

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Um brilha, um oscila

O primeiro ponto, conquistado por Feijão, fez-se mais importante ainda na medida em que Thomaz Bellucci não fez um grande começo de jogo contra Leo Mayer. Enquanto o tenista argentino mostrava-se mais sólido e no controle da maioria dos ralis, o número 2 brasileiro pouco brilhava. Um lampejo no terceiro set, impulsionado por um momento instável de Mayer, deu sobrevida a Bellucci, que conseguiu forçar um quarto set.

Só que o paulista nunca teve o controle das ações. O tenista da casa, número 29 do mundo, voltou a mostrar um tênis mais sólido e aproveitou a porta que Bellucci lhe abriu depois de fazer 40/0 no oitavo game. No fim, o placar de 6/4, 6/3, 1/6 e 6/3 refletiu bem a superioridade de Mayer.

Coisas que eu acho que acho:

– Contra quem quer que seja, a dupla brasileira será favorita. Acredito que a escalação (ou não) de Berlocq neste sábado vai dizer um bocado sobre as intenções de Orsanic para o domingo. Caso Charly entre em quadra para as duplas, deve ser substituído no domingo. Se descansar, aumentam suas chances de estar em quadra no último dia do confronto.

– É aí que entra em jogo a força do conjunto argentino. Diego Schwartzman e, principalmente, Federico Delbonis são duas ótimas opções para as simples. Orsanic não tem um tenista que desequilibre um confronto, mas pode trocar nomes aqui e ali e não perder poder de fogo.


Copa Davis: Argentina, Brasil e quatro jogos imprevisíveis
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Alexandre Cossenza

Nesta sexta-feira, às 11h (de Brasília), começa um dos confrontos mais interessantes dos últimos tempos envolvendo o Brasil na Copa Davis. E não digo isso só pela óbvia importância de valer pelo Grupo Mundial. O rival, a Argentina, e o palco, Buenos Aires, dão um ar especial. A rivalidade existe. O ambiente para as partidas promete ser fantástico. E não é nada mau (a não ser para os times) que quatro das cinco partidas sejam equilibradíssimas no papel. Vejamos, então, o que pode fazer diferença nos próximos três dias.

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Jogo 1. Carlos Berlocq x João Souza

O sorteio ajudou a Argentina aqui. Berlocq, número 3 do país e 67 do mundo, foi escalado pelo capitão Daniel Orsanic por sua experiência. Em Copas Davis, já são 11 confrontos, sempre pelo Grupo Mundial. Feijão, por sua vez, fez duas partidas – e perdeu a única que realmente valia. Somemos isso à torcida e ao barulho, e Berlocq entra como favorito.

Feijão tem a seu favor a vitória no único jogo entre eles. O encontro foi no saibro, mesmo piso de Buenos Aires, mas no distante ano de 2011, em um Challenger. Não serve como parâmetro. O número 1 do Brasil também vive ótimo momento no circuito, o que sempre conta, mas o piso mais lento de Buenos Aires (comparado com as condições de São Paulo e Rio de Janeiro) deve ajudar Berlocq.

As variações

Ainda sobre este duelo, Berlocq talvez não fosse o nome ideal para Orsanic escalar contra Feijão. Talvez fosse mais interessante para a Argentina ter Berlocq enfrentando Bellucci e forçando uma partida longa (e no calor!) para, em seguida, Diego Schwartzman enfrentar Feijão – Schwartzman, lembremos, venceu os três jogos entre eles. Só que Dieguito está quatro posições acima de Berlocq no ranking, o que significa que se Orsanic escalasse os dois para o primeiro dia, Schwartzman teria de enfrentar Thomaz Bellucci, o número 2 brasileiro.

Aliás, a grande vantagem argentina no duelo é ter uma equipe relativamente homogênea, com quatro tenistas que podem atuar nas simples e ganhar. Não será surpresa alguma se Orsanic recorrer a Schwartzman no domingo para enfrentar Feijão, deixando Berlocq para encarar Bellucci em um eventual jogo decisivo.

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Jogo 2. Leonardo Mayer x Thomaz Bellucci

No ranking, Mayer, 29º do mundo, é o favorito. Trata-se, porém, de uma vantagem pouco ou nada palpável. Bellucci tem mais bola e, em um dia normal, leva vantagem sobre o rival em alguns aspectos importantes. O retrospecto de três vitórias em cinco jogos (um dos triunfos de Mayer foi no longínquo ano de 2007, em um Challenger) reflete essa superioridade do brasileiro.

No entanto, como em tudo que envolve Bellucci, há aspectos intangíveis que podem fazer diferença. O primeiro é o calor. Em um dia ensolarado e com muita umidade, o paulista costuma sofrer. Foi assim contra a Índia, na Copa Davis, e no Australian Open do ano passado. Os episódios que mais preocupam, entretanto, aconteceram justamente no ATP de Buenos Aires, nesta mesma época do ano.

Em 2014, Bellucci abandonou na primeira rodada do quali, ainda no segundo set, mesmo tendo vencido o primeiro. Seu adversário naquele dia era o desconhecido venezuelano David Souto, 222 do ranking. Este ano, o paulista estreou na chave principal contra o italiano Paolo Lorenzi. Já no fim do segundo set, estava esgotado, movimentando-se mal e dando pancadas suicidas. Ganhou a parcial no tie-break, mas só venceu um game no set seguinte. O que, então, esperar em um jogo melhor de cinco sets?

Canal do tempo

Antes que você comece a torcer por um dia nublado e com pouca umidade, aqui vai a previsão para os próximos três dias: sol (alta de 27 graus) com 73% de umidade na sexta-feira, sol (alta de 28 graus) com 69% de umidade no sábado, e sol (28 graus) com 70% de umidade no domingo. Não parece o mais agradável dos ambientes para se jogar um bom tênis.

De consolo, vale lembrar que Mayer não é exatamente conhecido por longas trocas de bola. Seu jogo é baseado em um ótimo saque e pancadas do fundo de quadra. E , especialmente neste caso, quanto menos demorarem os pontos, melhor para Bellucci. Outro ponto para não esquecer: Leo Mayer abandonou sua primeira partida no ATP 500 do Rio de Janeiro (calor, umidade, vocês sabem…) por desidratação. Caso a previsão se confirme, Buenos Aires não estará tão quente quanto a Cidade Maravilhosa, mas vale prestar atenção.

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Dupla é do Brasil

Se um dos cinco jogos previstos para o fim de semana tem um favorito, é este aqui. Marcelo Melo e Bruno Soares, invictos há sete jogos na Copa Davis (sofreram apenas uma derrota na competição), são uma dupla bastante superior a quem quer que entre em quadra pela Argentina. Orsanic escalou provisoriamente Delbonis e Schwartzman para o sábado, mas o mais provável é que haja uma mudança até lá. Não quer dizer que seja um ponto fácil para o Brasil, mas é bobagem esconder o favoritismo de Bruno e Marcelo.

O curioso aqui é apontar o contraste entre os dois mineiros. Enquanto Melo desembarca em Buenos Aires como número 3 do mundo, vindo de um título em Acapulco, Soares é o 12º do ranking, sua pior posição em quase dois anos. Ele e seu parceiro habitual no circuito, Alexander Peya, perderam quatro dos últimos seis jogos que disputaram. Vale conferir se o momento de Soares, que já falou sobre a falta de confiança para vencer jogos, será uma dificuldade a mais na Argentina ou se a atuação ao lado de Melo será um trampolim para dias melhores no circuito.

E o favorito?

O favoritismo é, sim, da Argentina. O time de Daniel Orsanic é mais homogêneo e com mais opções para as partidas de simples. Se é verdade que os quatro jogos são equilibrados – e eu escrevi isto lá no alto do post -, também é fato que o time da casa está mais equipado para os intangíveis. Em caso de lesão ou desgaste de um simplista, a Argentina tem duas peças de reposição confiáveis. E, não esqueçamos, o clima e a torcida da casa jogarão a favor dos hermanos.

Feijão e Bellucci, claro, têm condições de vencer qualquer dos quatro confrontos de simples. Ainda assim, uma vitória brasileira será considerada surpresa. Assim está sendo nas casas de apostas. A bet365, por exemplo, paga 2:7 (dois dólares para cada sete apostados) em caso de vitória argentina. Se der Brasil, o apostador recebe 5:2. Na australiana Sportsbet, não é muito diferente. As cotações são de 1,31:1 para triunfo argentino e 3,21:1 para vitória brasileira.

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Coisas que eu acho que acho:

– Já expliquei brevemente no Facebook, mas acho que é o caso de deixar claro aqui também. Por causa de um problema de saúde na família (algo delicado, mas nada grave, felizmente), o blog andou parado por uns dias. Passei quatro das últimas seis noites em hospitais. Sem internet – a não ser a do celular – e com outras prioridades, tive pouco tempo para postar. Fiz meus poucos comentários tenísticos em um punhado de tuítes. Não sei se conseguirei ver todas as partidas nem se poderei postar todos os dias, mas tentarei o possível. Agradeço aos que compreenderem, assim como aos que já enviaram mensagens desde ontem.


Copa Davis: enfim, Feijão
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Alexandre Cossenza

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No último dia do prazo para o anúncio dos times que disputarão a primeira rodada do Grupo Mundial da Copa Davis, a Confederação Brasileira de Tênis confirmou a (inevitável) escalação que todos sabiam há semanas (desde que José Nilton Dalcim divulgou): João Souza, Thomaz Bellucci, Marcelo Melo e Bruno Soares.

O complicado confronto em Buenos Aires, contra a Argentina, em uma quadra de saibro, possivelmente com muito calor e umidade, marca a volta de Feijão ao time brasileiro. O paulista de 26 anos é atualmente o número 77 do mundo e será o mais bem ranqueado simplista do país na semana do duelo. Só que mais do que rankings e números, a convocação vem para coroar oito meses de belo tênis. Desde as ótimas campanhas em Challengers no segundo semestre do ano passado até as vitórias em torneios de nível ATP em 2015.

O Feijão de hoje é um tenista mais qualificado e, principalmente, mais equilibrado. Não só na parte técnica, na qual seus pontos fracos (a movimentação e o backhand) já não são tão fracos, mas também na questão mental. João Souza, hoje, deixa se incomodar com muito menos facilidade do que anos atrás. E se às vezes ainda mostra instabilidade e perde chances (como no voleio fácil que errou quando teve match point contra Blaz Rola no Rio de Janeiro), também mostra capacidade de recuperação maior (vide a reação no terceiro set do mesmo jogo).

O Feijão de hoje, repito, é mais maduro do que aquele de 2011, que deixou já decidido o confronto contra o Uruguai, em Montevidéu, quando soube que não iria jogar. É também mais experiente do que o João Souza de 2012, que treinou brilhantemente, mas não rendeu o mesmo quando estreou na competição contra Santiago Giraldo, da Colômbia.

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A Argentina continua sendo um time mais forte. Ganhável, porém mais forte do que o Brasil. Com Daniel Orsanic (ex-técnico de Bellucci) no posto de capitão, os hermanos jogarão com Leonardo Mayer, Federico Delbonis, Diego Schwartzman e Carlos Berlocq. Nenhum cracaço, nenhum tenista imbatível, mas uma equipe homogênea que dá muitas opções ao capitão. Um exemplo? Mayer, 29 do mundo e mais bem ranqueado entre os argentinos, vem de derrota para Feijão em São Paulo. Schwartzaman, por sua vez, é o 64º na lista da ATP, mas derrotou João Souza nos dois últimos encontros.

Orsanic, que optou por deixar o mais experiente Juan Mónaco fora do time (segundo Orsanic, a dúvida era entre ele e Schwartzman), deve saber que jogará como azarão na partida de duplas (Berlocq e Mayer, que jogaram juntos no Australian Open, em São Paulo e no Rio são uma opção), mas sabe que tem chance de ganhar os outros quatro jogos de simples.

A favor da Argentina, obviamente, pesarão a barulhenta torcida e o calor. A combinação de altas temperaturas e umidade são cruéis para Bellucci, que teve problemas recentemente em Buenos Aires. Em 2014, esgotado, abandonou seu primeiro jogo no qualifying. Nesta semana, voltou a sofrer e dava sinais de exaustão já no fim do segundo set. Como talvez precise jogar até cinco na Copa Davis, sua condição física será sempre uma preocupação brasileira.

Coisas que eu acho que acho:

– A polêmica na Argentina fica por conta da ausência de Mónaco. Como relatei acima, Orsanic afirmou que estava na dúvida entre ele e Schwartzman. Contudo, um grande ponto de interrogação paira no ar. Juan Martín del Potro fez as pazes com a federação argentina e já se mostrou disposto a voltar ao time. Mónaco, por sua vez, não esconde de ninguém que nem fala com Delpo. E agora?

– Dada a insegurança com a durabilidade de Thomaz Bellucci, talvez fosse, no mundo ideal, o caso de Zwetsch convocar mais um simplista. O problema é que incluir Guilherme Clezar, André Ghem, Rogerinho, Fabiano de Paula ou quem quer que seja significaria abrir mão de um duplista e, consequentemente, colocar em risco o ponto mais provável do Brasil no confronto. Além disso, no mundo ideal o Brasil teria mais um simplista capaz de ganhar jogos neste nível. E ninguém além de Feijão e Bellucci vem mostrando tênis para isso.

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– Não sei qual o critério adotado pela CBT, mas o timing do anúncio, especialmente nesta convocação, acabou sendo o pior possível. Todos no meio do tênis sabiam que Feijão seria convocado (José Nilton Dalcim publicou a informação semanas atrás), e o tenista, proibido de revelar, teve de passar duas semanas dando respostas idiotas à imprensa. Nos últimos dias do Rio Open, o próprio Feijão ria das respostas toda vez que incluía um “se eu for chamado”.

– Para quem não sabia que Feijão seria convocado, o anúncio pós-Brasil Open e Rio Open pode passar a impressão de que João Zwetsch não queria o atleta, mas teve de engolir a boa fase de um jogador que foi equivocadamente preterido (vide o desempenho de Rogerinho) no confronto anterior. Não foi o que aconteceu (pelo menos na parte que diz respeito aos ATPs brasileiros), mas a CBT deveria trabalhar para não dar margem a esse tipo de pensamento.

– Por que alguém pensaria como o que sugeri no parágrafo acima? Por causa de toda polêmica do confronto contra a Espanha. Para quem não lembra, Zwetsch explicou mal a opção por Rogerinho (alegou questões físicas, depois falou em recompensa pela atuação contra o Equador); Feijão reclamou e inclusive afirmou que o capitão da Davis não deveria ser treinador de outros atletas; Ricardo Acioly, ex-capitão da Davis e técnico de Feijão, criticou duramente a postura de Zwetsch; e Zwetsch culpou “fantasmas” pela má atuação de Rogerinho.


Tutorial: como se programa uma rodada de um torneio grande
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Alexandre Cossenza

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O Rio Open, torneio ATP 500 e WTA International, terminou com mais elogios do que críticas e, é justo dizer, talvez tenha sido o mais bem organizado evento de tênis nos últimos anos em solo brasileiro. O evento, no entanto, terminou teve sua polêmica. A longa (e quente!) sexta-feira começou às 13h, com reclamações sobre o horário de início do jogo entre Sara Errani e Bia Haddad, e só terminou às 3h18min, quando Rafael Nadal eliminou Pablo Cuevas.

Em entrevista coletiva, Lui Carvalho, diretor do torneio, deu suas explicações. Depois, ao fim do torneio, conversou só comigo e explicou tudo, detalhe por detalhe, que foi levado em consideração na montagem da programação daquela sexta-feira. E como muitos leitores (e até jornalistas) não sabem como é o processo, faço este post, que acaba sendo uma espécie de tutorial de como se monta um dia de um torneio grande.

Primeiro, lembremos a resposta oficial sobre a polêmica da sexta-feira. Muitos levantaram a hipótese de que a partida entre Fabio Fognini e Federico Delbonis (penúltima do dia na Quadra Central) deveria ter sido transferida para a Quadra 1 (menor, com capacidade para cerca de mil pessoas). Na coletiva de domingo, Carvalho deu a seguinte explicação.

“O que aconteceu foi um caso daqueles que acontecem uma vez em um milhão. Os jogos se prolongaram por muito mais do que normalmente. Naquele dia, a WTA teve o heat policy (regra que dá aos tenistas dez minutos de intervalo entre o segundo e o terceiro sets em dias com muita sensação de calor) no jogo da Bia… O jogo parou por dez minutos… Muitos jogadores pedindo fisioterapeutas, toilet breaks, essas coisas. Essas paradas acontecem, estão dentro das regras, mas não são tão comuns do jeito que aconteceu. O que vem se discutindo bastante era a decisão do torneio de mover o jogo do Fognini para a Quadra 1. A gente foi acompanhando a situação, mas sobre a nossa decisão, a gente reforça que foi acertada por alguns motivos. Primeiro: o jogo que poderia ter sido mudado, na verdade, nas condições que a gente estava, era o do Nadal (contra Pablo Cuevas), mas obviamente que a gente não moveria o jogo do Nadal para uma Quadra 1, onde cabem mil espectadores, existem vários riscos de segurança, não tinha TV, coisas desse tipo. O segundo: como o jogo do Fognini não poderia ter sido mudado naquele momento, e ele estava entrando na quadra às 9h da noite. Se você falar para mim ‘são dois jogos a partir das 9h da noite’, não é nada absurdo. Acontece que o jogo do Fognini se arrastou por muito mais do que a gente previa e aconteceu o que aconteceu (Nadal só foi pidar na Quadra Central à 1h). E também na Quadra Central nós temos TV, temos um contrato de televisão (com a ATP Media) que nos força a mostrar as quatro quartas de final e, naquela situação, com o jogo entrando às 9h da noite, a gente achou que a decisão mais correta era manter o Fognini na Quadra Central. Enfim, foi um incidente que aconteceu, o jogo se arrastou um pouco mais, e o Nadal acabou entrando tarde. Mas nada que não tenha sido comunicado claramente com os jogadores no momento.”

Agora, sim, vamos ao tutorial, que vai dar detalhes de como a programação daquela sexta-feira foi estabelecida. E, para que fique tudo bem claro, é preciso lembrar da programação de quinta-feira. Veja ela abaixo.

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É importante saber a programação de quinta porque a reunião que estabelece os horários do dia seguinte é sempre realizada por volta das 17h. É quando se sentam à mesma mesa o diretor do torneio, o supervisor da ATP, o supervisor da WTA, os tour managers e um representante da TV (no caso, da ATP Media, que envia as imagens para o mundo inteiro). E muita coisa entra nessa balança.

A chave de duplas é uma delas. Notem que na quinta-feira, Pablo Andújar jogaria sua partida de simples às 19h e a de duplas um pouco depois (de descansar). Logo, a organização, que montou o calendário às 17h, precisava considerar a hipótese de o espanhol avançar nas duas chaves. Se isto acontecesse, como manda a regra, Andújar não poderia fazer o último jogo de simples, já que precisaria também jogar duplas (o regulamento da ATP manda que um tenista sempre jogue sua partida de simples antes da de duplas).

Como Andújar enfrentava Fognini na quinta-feira, o vencedor daquele jogo foi escalado para a penúltima partida da sexta-feira, o que significava deixar como último confronto o vencedor de Nadal x Carreño Busta contra Pablo Cuevas. Até aí, nenhum problema, já que o próprio Nadal pediu para jogar no último horário (a organização não é obrigada a atender os pedidos). E vale lembrar que escalar Andújar/Fognini x Delbonis mais cedo causaria outro tipo de problema. O vencedor deste jogo teria muito mais tempo de descanso do que Nadal/Cuevas. Sim, tudo isso precisa ser levado em consideração.

“O Ferrer jogou primeiro porque estava livre desde quarta-feira à noite. A partir do momento que passa a segunda rodada, você começa a pensar na seção (da chave) para não dar vantagem. Se, por exemplo, Nadal jogar quinta de manhã e o oponente jogar quinta à noite, é injusto porque um tem muito mais tempo de descanso. Segunda e terça, você nem pensa tanto na seção, mas a partir de quarta você já começa a juntar as seções. Uma vai de dia (a metade de baixo, com Ferrer) e a outra vai de noite (com Nadal)”, explicou Carvalho.

Logo, a programação oficial de sexta-feira saiu assim:

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E ainda há algumas coisas a ressaltar. Segundo Carvalho, o regulamento da ATP diz que, em casos assim, apenas a última partida pode ser levada para outra quadra. Foi, aliás, o que aconteceu com a partida de duplas na noite de sábado. Quando Marach, Andújar, Oswald e Klizan entraram em quadra, havia apenas uma pessoa lá (a Aliny Calejon, que contou tudo em seu site, o Match Tie-Break).

Alguém pode indagar o porquê de se fazer a programação antes do fim da rodada, mas o motivo é simples. É preciso dar tempo para que os tenistas – especialmente aos que atuarão na sessão diurna – se preparem. Todos horários na vida de um atleta profissional são programados de acordo com o horário de um jogo.

Um ponto que ratifica o raciocínio de Carvalho no que diz respeito ao timing dos jogos foi o próprio andamento do torneio. De segunda a quinta-feira, o Rio Open teve seis partidas na Quadra Central, com a primeira delas começando às 11h. Não houve nenhum problema quanto a horário. A sexta-feira, que tinha um jogo a menos, começou às 13h. Não havia como imaginar uma sessão tão longa.

Coisas que eu acho que acho:

– Foi impressionante o número de pessoas que ficaram no Jockey Club Brasileiro madrugada adentro até a partida entre Nadal e Cuevas. A estimativa era de mais de 4 mil pessoas no clube. E foi bom ver, como escrevi no post anterior, que os estandes de comida e seguiram ficaram até além da meia-noite.

– A quem diz que foi um erro escalar Bia Haddad e Errani por causa do calor, a WTA passou uma informação importante. A sensação de calor na Quadra Central era maior às 16h do que ao meio-dia. Logo, não é justo culpar a organização pelas cãibras da brasileira.

– O torneio de Acapulco, que acontece esta semana, tem dilemas parecidos. É um evento grande, com chaves masculina e feminina, e precisa lidar com o calor. Por isso, começa a programação diariamente às 16h. A grande diferença é que o torneio mexicano usa seis quadras enquanto o evento brasileiro aproveitou, no máximo, quatro (três na sexta-feira).