Saque e Voleio

Aprendendo o caminho
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Alexandre Cossenza

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Por três anos, Thomaz Bellucci iniciou o trecho asiático do circuito mundial entrando de cara em um ATP 500. Em todos (Pequim em 2010 e 2011 e Tóquio em 2012), perdeu na estreia. E não teve muito sucesso no evento seguinte, o Masters 1.000 de Xangai. Nas três participações, venceu um jogo só. O ano mais duro foi 2011, quando deixou o evento chinês e rumou para a Basileia e, de lá, para o Masters de Paris. Não venceu nenhum jogo e, se somou alguma coisa naquele pós-US Open, foi graças ao convite para o Challenger Finals, onde ganhou 30 pontinhos. Não, o pós-US Open, jogado quase todo indoor e em quadras rápidas, não costuma ser o melhor momento do número 1 do Brasil.

Chegamos, então, a 2014. Com um ranking que não lhe permitia entrar nem nos ATPs 250, Bellucci mudou a programação. Nem tentou os qualis. Foi direto aos Challengers. De cara, fez uma final em Orleans, onde ganhou ritmo, derrotou dois top 100 (Sijsling e Mathieu) e foi vice-campeão. Depois, caiu na segunda rodada em Mons e na estreia em Rennes – derrotado pelo mesmo Marsel Ilhan nos dois eventos. Mas a sorte sorriu, e o paulista contou com desistências e entrou na chave do ATP 250 de Viena. Derrotou Mathieu mais uma vez, passou pelo espanhol Feliciano López (14 do mundo) e foi derrotado por Viktor Troicki nas quartas.

Só então, depois de quatro torneios em quadras cobertas e rápidas, é que Bellucci se aventurou em um ATP 500. Em Valência, jogou o quali e passou. Fez um jogo impecável e bateu Mikhail Youzhny (atual campeão) na primeira rodada. Depois, mais uma pitada de sorte: ganhou por WO de Roberto Bautista Agut, aquele mesmo que saiu derrotado na Copa Davis, no Ibirapuera. E assim, nas quartas de final de um ATP 500, Bellucci já consegue um número significativo: com os 220 pontos somados até agora (e nem coloquei na conta os pontos do quali de Valência), faz o melhor pós-US Open de sua carreira. Mesmo que perca nas quartas de final. Mesmo que encerre a temporada em Valência e não dispute o qualifying do Masters 1.000 de Paris, como ainda pretende.

Não, Bellucci não é um tenista espetacular em quadras duras e cobertas. E montar um calendário para este período do ano não é tarefa simples, já que o número 1 do Brasil sempre joga a Copa Davis, realizada logo depois do US Open e uma semana antes dos primeiros ATPs 250 na Ásia. A opção sempre foi a de descansar depois da Davis, mas era um caminho que exigia voltar a um piso nada favorável logo em torneios fortes. Nunca deu certo. Nem em 2011, quando a Davis foi na Rússia, em condições parecidas. A adaptação não é fácil, e as derrotas precoces acabam com qualquer esperança de adquirir ritmo. Em relação à maioria dos tenistas, Bellucci sempre chega “atrasado” ao circuito indoor. E paga o preço.

O caminho mais simples, ainda que parcialmente forçado, mostrou-se interessante. Após encerrar o US Open como número 83 do mundo, já tem praticamente garantida sua volta ao top 50 na próxima semana.

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Coisas que eu acho que acho:

- Bellucci terá 155 pontos descontados até o fim do ano. São 80 por um título no Challenger de Montevidéu e 75 por um vice em Bogotá. Ainda assim, mesmo que encerre a temporada após Valência, o número 1 do Brasil deve terminar 2014 entre os 70 melhores do mundo. No fim de 2013, Bellucci era o número 125.

- Roberto Bautista Agut vinha se queixando de dores. Durante a semana, disse à imprensa espanhola que o corpo estava pagando o preço por um calendário cheio – e muito jogos (ninguém chega ao top 15 com pouco tempo de quadra). Ainda assim, é de se imaginar o quanto a derrota na Copa Davis (e o quanto a Davis tornou-se tema sensível na Espanha!) pesou na decisão de Bautista Agut por não entrar em quadra nesta quinta-feira.

- Bellucci teve sorte de conseguir a vaga na chave em Viena e, depois, com a desistência de Bautista Agut. Sim, mas nem tanto. Primeiro porque não era nada improvável que o brasileiro conseguisse um lugar na chave em Moscou ou Viena. Nas semanas com três torneios (ainda havia Estocolmo), muita gente se inscreve em mais de um, e acaba sobrando vaga aqui e ali. E depois porque Bautista Agut não é nada, nada imbatível, certo?

- Mesmo com um calendário mais modesto, Bellucci teve dois resultados abaixo da expectativa: as duas derrotas para Ilhan, em Mons e Rennes. Ainda assim, supera a marca pessoal de número de pontos nesta época do ano. Imaginem quando (e se!) o paulista conseguir uma sequência de resultados consistentes…

- Para quem gosta de números e ficou curioso: desde 2009, quando passou a jogar os grandes torneios, Bellucci somou no pós-US Open 170 pontos em 2009, 150 em 2010, 50 em 2011, 205 em 2012 e 155 em 2013.


A mágica (dupla) de Dimitrov
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Alexandre Cossenza

Grigor Dimitrov saca, e o americano Jack Sock dispara uma devolução fortíssima, que quica perto da linha de fundo. O búlgaro, sem tempo de sair do lugar, passa o braço direito por trás do corpo, rebate a bola e faz um winner. Fantástico, não? E qual a chance de algo assim acontecer duas vezes em pontos consecutivos? Pois foi quase isso que aconteceu nesta sexta-feira, no ATP 250 de Estocolmo, na Suécia. Dá uma olhada no vídeo!

Atual número 10 do mundo, Dimitrov perdeu o primeiro set, mas venceu a partida: 5/7, 6/4 e 6/3. Classificado para as semifinais do torneio sueco, o búlgaro vai enfrentar agora o australiana Bernard Tomic, que passou pelo espanhol Fernando Verdasco por 0/6, 6/4 e 7/6(6).


Federer desafia a matemática
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Alexandre Cossenza

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Mais dois centímetros, e a discussão estaria encerrada desde o começo da última semana. Só que o backhand de Leo Mayer, com Roger Federer batido no lance, tocou na fita, subiu uns 15 centímetros e, quando caiu, voltou para o lado do argentino. O suíço, que salvou cinco match points naquele jogo, não voltou a ter uma atuação abaixo da média. Pelo contrário. Foi fantástico na vitória sobre Novak Djokovic, na semifinal, e completou o serviço no domingo, ao derrotar Gilles Simon, conquistar o Masters 1.000 da Xangai e, vejam só, aos 33 anos, reacender a luz da briga pelo posto de número 1 do mundo.

“O que é preciso para eu ser número 1? Não tenho certeza. Preciso olhar e ver o quão realista é. Está na raquete de Novak. Ele dita. Mesmo assim, vou jogar e torcer para jogar bem de novo.”

Como sempre faz, o suíço sabe que suas chances não são grandes e minimiza a disputa. Não quer criar uma grande expectativa. Bobagem. Seus fãs, empolgados com razão após a última semana, já simulam por aí uma dúzia de cenários nos quais Federer pode terminar mais uma temporada. E nem é tão improvável assim, já que há algumas circunstâncias incomuns nessa briga. Vejamos!

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A diferença entre sérvio e suíço, hoje, é de 2.430 pontos. Só que Federer tem quatro eventos a disputar. Djokovic, apenas dois. E talvez nem isso. Com a proximidade do nascimento de seu primeiro filho, especula-se que o número 1 fique fora do Masters de Paris, onde foi campeão ano passado. Assim sendo, a diferença cairia automaticamente para 1.430. E Nole também defende o título invicto do ATP Finals, o que equivale a 1.500 pontos. Como não joga mais, Djokovic não somará nada até o fim do ano. Na melhor das hipóteses, manterá a pontuação – o que já é um feito e tanto, convenhamos, e será suficiente para conservar a posição no topo do ranking.

Federer não tem tanto assim a defender. São 300 pontos pelo vice na Basileia, 360 pela semi de Paris e 400 pela semi do ATP Finals. Caso vença tudo, o suíço somará 2.165 pontos – e entram nessa conta os possíveis 225 pontos em jogo na final da Copa Davis. A Suíça, fora de casa, encara a França. Tudo bem, não é lá muito provável que alguém vença quatro eventos assim, mas convém não duvidar de Roger Federer. Nunca. Muito menos em quadras indoor.

A conta mais simples de se fazer é a seguinte: de agora até o fim da temporada, o suíço precisa fazer mil pontos a mais do que Djokovic para fechar 2014 como número 1. Nessa matemática, nem é mais preciso levar em consideração quem defende o quê nestes últimos torneios da temporada.

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No entanto, vale ficar de olho na defesa de pontos porque o calendário mudou, e tudo que foi somado do ATP Finals de 2013 será descontado antes do mesmo evento em 2014. Assim, o suíço pode assumir a ponta – ainda que provisoriamente – já depois de Paris. E esse cenário nem é dos mais improváveis. Basta que Federer seja campeão na Basileia e em Paris, e que Djokovic não passe das semifinais na França. Assim, o suíço chegaria a Londres e iniciaria o ATP Finals com 9.520 pontos contra 9.370 do atual líder do ranking.

E se Djokovic nem for a Paris, Federer só precisa ser campeão na Basileia e vencer dois jogos em Paris, alcançando as quartas de final. Assim, somaria 9.060, contra 9.010 do sérvio. E, pelo que o suíço mostrou em Xangai, parece fácil – para ele.


Feijão: “Se não me querem na Davis, não vai mudar minha carreira”
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Alexandre Cossenza

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Os últimos 12 meses foram tudo menos entediantes na vida de João Souza. Primeiro, o atual número 2 do Brasil e 89 do mundo, mais conhecido como Feijão, perdeu um patrocinador que o acompanhou por nove anos e viu seu CT trocar de endereço. Começou bem a temporada, mas uma lesão freou sua arrancada. Depois, quando tudo parecia se acertar, veio a frustração por ficar fora do time brasileiro que derrotou a Espanha na repescagem da Copa Davis.

E, durante tudo isso, o paulista de 26 anos evoluiu. Fez dez semifinais em torneios da série Challenger (seis seguidas), disputou três finais e conquistou um título. Voltou ao top 100, de onde saiu em abril de 2012, e já pensa mais alto. Na semana que tem de folga antes de embarcar para dois Challengers na Argentina, Feijão conversou comigo sobre tudo que aconteceu na atual temporada. Vitórias, derrotas, Copa Davis e objetivos para o ano que vem.

Como sempre, Feijão não ficou em cima do muro. Voltou a questionar a última escalação do capitão João Zwetsch e foi ainda mais longe, revelando a mágoa por ter sido substituído em um confronto contra o Uruguai, em 2010. Disse que “as coisas têm que ser mais limpas”. Por fim, afirmou ter optado por “passar a borracha” no episódio. As melhores partes da conversa estão editadas no texto abaixo. O vídeo tem a íntegra da conversa, sem cortes.

Você começou o ano como #140 do mundo. Ganhou o Challenger de São Paulo e seu ranking foi mais ou menos esse até o meio do ano. Ali, a coisa começou a andar. O que passou a dar certo?
Acho que desde o começo do ano que eu já estava… São Paulo me deu muita força, só que eu dei o azar de ter machucado no ATP, na segunda rodada. No jogo com o Haase eu estava me sentindo super bem e contra o próprio Montañés, que eu machuquei, particularmente acho que não perderia aquele jogo. Era um torneio que… Quartas de final, poderia tudo mudar ali. Seria Delbonis, depois o Thomaz. Não sei se eu ganharia ou não, mas eram boas chances. E aquela lesão me abalou muito. Até eu ir para a Europa, eu não tinha ganhado muito jogo. Fiquei um mês parado, perdi cinco semanas, quatro torneios nos Estados Unidos. Não tinha nada para defender. E isso mexe com qualquer um. Na Europa, foi uma escolha. Era para eu ter voltado depois de Paris, quando fiz três primeiras rodadas, mas escolhi ficar. Eu tinha Interclubes para jogar na Alemanha. Mudei os planos, resolvi ficar. Foi uma coisa nova para mim e isso me deixou forte. Acabei estendendo para 13 semanas direto na Europa. O Interclubes abriu muito a minha cabeça. Comecei a relaxar. É um dinheiro teoricamente fácil que entra. Até ali, eu não tinha ganhado nenhum jogo, mas deixei as coisas rolarem. Eu estava trabalhando duro, mas não estava conseguindo ganhar. Até que em Prostejov ganhei meu primeiro jogo na Europa. No meu quarto torneio. Foi um jogo duro, com o (Theodoros) Angelinos, o grego. Joguei mal, lutei e não-sei-o-que. Lembro que esse dia mandei mensagem para o meu psicólogo. Falei “ganhei, cara.” Ele falou “demais, que lindo que você ficou no jogo. Você não estava conseguindo ficar com a cabeça no jogo. Vamos dar continuidade. Joga solto amanhã.” Perdi na segunda rodada, um jogo de 6/3 no terceiro set, e a partir daí fui para a Itália. Minha namorada foi bem nesta semana que eu cheguei na semifinal. Ganhei do (Malek) Jaziri, embalei e comecei a jogar bem. O que eu tinha treinado, comecei a botar em quadra e a relaxar de cabeça. Um jogo, esse jogo de Prostejov, foi o jogo em que me soltei.

Você sai do top 100 na próxima semana porque caem os pontos do Challenger de São José do Rio Preto (Feijão, que foi campeão do evento em 2013, ainda deve ficar entre os 105 primeiros do ranking), mas sobram, em tese, cinco torneios na América do Sul. Você vai jogar os cinco?
Vou jogar os cinco. Viajo no sábado, jogo San Juan, Córdoba, volto uma semana, Bogotá, Guayaquil e o Challenger Finals. São cinco bons torneios, principalmente Bogotá, que é de US$ 100 mil. Guayaquil é de US$ 75 mil, e São Paulo dá 125 pontos para o campeão. E vai ser em quadra coberta, as condições vão ser melhores para mim. Jogando em casa, contra oito caras, o Thomaz (Bellucci) ou o (Guilherme) Clezar, um dos dois deve ganhar wild card, e a torcida vai estar totalmente a nosso favor. A galera vai comparecer. Fechar o ano assim, ganhando o torneio, é para fechar o ano com chave de ouro mesmo. Eu estou super confiante. O importante é que estou entrando em quadra relaxado. Estou mais competitivo do que nunca, eu acho. Estou com uma vontade, de dentro, que está me motivando cada vez mais a querer subir. Aconteceram algumas coisas fora da quadra que me motivaram muito. Por incrível que pareça, isso não me jogou para baixo.

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Eu ia chegar nesse ponto, mas já que você falou, vamos lá. A gente sabe o que você sentiu, mas o que te chateou mais por não ser convocado para a Copa Davis? Foi estar em um momento melhor que o Rogerinho e o Clezar, foi o João (Zwetsch) dizer que confiava mais no Rogerinho para uma partida longa, que parte te incomodou mais?
Eu acho que… No seu próprio blog, você citou todos os pontos que ele (João) deu que o Rogerinho tinha. E você teoricamente rebateu o que eu tinha. Por exemplo: se ele quisesse realmente ganhar no físico da Espanha, não botaria em São Paulo nem em quadra coberta. Aí já não teria sol nem altura. Botaria aqui no Rio de Janeiro, num lugar quente, úmido e mais lento. Ali eu acho que ele já se confundiu. Mas contra o Rogerinho e o Clezar eu não tenho nada. Os jogadores não têm nada a ver, mas eu acho que… Eu fiquei triste, cara. Estava em um momento que quase ganhei do Dominic Thiem uma semana antes. O moleque está aí como trinta e pouco do ranking, ganhando de todo mundo. Vinha super motivado, estava super confiante para jogar em São Paulo ainda, um lugar que eu adoro. Adoro jogar em São Paulo. Enfim, eu fiquei triste, cara. Como eu falei antes, até hoje a gente não sabe da onde ele tirou que eu não tenho preparo para jogar cinco sets….

(interrompendo) O João não te procurou depois do confronto?
Não. Nem antes nem depois. O Pardal (Ricardo Acioly, técnico de Feijão) que teve que ir atrás dele. Todo ano ele espera até o US Open para fazer a convocação, então a gente tem que esperar a vontade dele até o US Open. Depois, uma semana, já tem a Davis. E o Pardal que teve que ir atrás dele porque, até ali, a gente estava teoricamente achando que eu ia jogar. Pelo ranking, pelos resultados e pelo momento. Em termos de pontos e resultados este ano, eu tenho 60, 70 a menos que o Thomaz. Que o Thomaz! Este ano, eu tenho 85% de chance de terminar no top 100 se perder cinco primeiras rodadas seguidas. Se eu fizer zero ponto, eu termino no top 100, praticamente. Não tem muito o que comparar com o Rogério e com o Clezar. O Clezar machucou, o Rogerinho não tem jogado muito porque também machucou, foi pai agora, faz três dias. Outro ponto dele (Zwetsch) foi que o Rogerinho tem mais experiência do que eu. Ele jogou acho que duas ou três Copas Davis… Ele usou o jogo contra Pospisil para dizer que o Rogerinho ganhou no preparo físico… Eu achei que ele poderia me dar um crédito. Experiência eu não vou ganhar nunca se não jogar. Até mesmo pela idade. Eu tenho quatro anos a menos que o Rogério.

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(interrompendo) O João não ficou magoado porque lá atrás (em 2010), em Montevidéu, você iria estrear no domingo, mas tinha um Challenger para jogar e não ficou até o fim do confronto?
Eu já ouvi tanta coisa… Isso foi um acerto que a gente fez. Aquele duelo, por exemplo, era contra o Martín Cuevas e o (Marcel) Felder. Teoricamente, a gente iria passar o carro. O Thomaz ganhou, o Rogerinho ganhou, dois a zero. Eu estava escalado para jogar dupla com o Bruno. Não joguei. Iria ser minha estreia em Copa Davis. Eu não entendi até hoje como que ele me tirou da dupla contra o Martín e o Felder. Teoricamente, a gente não ia perder. Ele me tirou. Já fiquei muito, muito bravo. Triste, chateado. Não é possível. Como que eu não vou jogar um confronto com 2 a 0 no Uruguai, e caso a gente perdesse ainda tinha as duas simples para jogar no dia seguinte. Eu falei “João, já que você não vai me botar para jogar a dupla, eu preciso ir porque eu vou para Bogotá”. Era um torneio de US$ 125 mil, um lugar que eu precisava chegar antes, e eles iriam me colocar para jogar na terça-feira. Eu tentei pegar o voo no sábado para chegar à noite, treinar no domingo e jogar na segunda. E não fazia mais diferença eu jogar no confronto. E eu tenho certeza que não foi por causa disso. Tanto é que em nenhum momento ele citou que foi por causa daquela Davis passada. Era um confronto que estava ganho. Foi como eu te falei agora: como eu vou ter experiência se não jogo? Se eu não sinto, ali, como é… Tive que jogar contra a Colômbia porque estava quase nessa situação. Era um lugar que eu gostava de jogar, o Thiago (Alves) estava um pouco atrás de mim, eu tive que jogar contra a Colômbia. E o Thomaz salvou! Mas acho que não, tanto que ele nunca citou essa Davis contra o Uruguai. Se ele tivesse ficado chateado, teria que falar comigo. Acho que as coisas têm que ser mais limpas. Eu sou um cara muito aberto, gosto de falar as coisas na cara. Não fico escondendo. Às vezes eu sinto que escondem coisas. Não sei quem, mas acabam meio que sempre deixando as coisas no ar. Até hoje ele não me buscou depois da Davis. Mas como a semana seguinte eu acabei jogando com o Clezar, acho que isso….

(interrompendo de novo!) Eu iria chegar nesse ponto… A sua comemoração naquele jogo não foi normal de uma vitória de quartas de Challenger. Tinha coisa engasgada ali, né?
Tinha. Não contra o Clezar, porque a gente se dá bem, mas foi logo três, quatro dias depois da convocação. Ele chamou o Clezar e, na minha cabeça, era o Clezar que iria jogar. Acho que até acontecer esse jogo. Foi uma desculpa para ele não ter botado o Clezar. Por isso que ele acabou optando pelo Rogerinho. Durante o US Open, a gente, eu e o Pardal, ficou ouvindo “joga o Clezar, joga o Rogerinho”. Esse jogo foi meio a decisão para o Clezar não jogar, porque ele (Zwetsch) iria colocar o dele muito na reta. E eu estava muito engasgado. Eu entrei tenso, mas ele acabou entrando um pouquinho mais tenso que eu. Não foi um grande jogo. Foram bastantes erros não forçados dos dois lados, mas eu estava me sentindo bem. Estava com um “extra” nas costas, super motivado para ganhar o jogo. Aquele grito que eu dei, eu vi depois, nem tinha percebido na hora, mas foi um descarrego.

Passou a Davis e você continuou jogando bem. A não convocação não te deixou para baixo, embora fosse normal se tivesse acontecido…
(interrompendo) Acho que poderia ter acontecido, mas eu resolvi passar a borracha. E também não foi uma coisa de outro mundo. Se eles não me querem na Davis, ou agora ou depois, não vai mudar minha carreira, entendeu? Davis é legal, todo mundo tem esse objetivo, que nem a seleção brasileira de futebol, mas se eles não quiserem me botar, não posso ficar me remoendo. Se eles não quiserem, não posso fazer nada. Vou seguir minha vida, minha carreira. Tenho mais alguns bons anos de circuito, estou me encontrando cada vez mais, jogando cada vez melhor, ficando cada vez mais forte, e uma Copa Davis não vou deixar me derrubar, entendeu? Por causa de uma convocação aqui e ali…

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Você falou algumas vezes do psicólogo que viajou com você. O quanto ele fez parte desse momento?
Ah, ele me ajuda muito. Nessa coisa da Davis, a gente pensava muito em “meu, apaga e vamos jogar o dia seguinte”. Tem até outra coisa. A semana seguinte à da Davis foi em Quito. Eu não sei se eu chegaria tão bem depois de uma Copa Davis. Por exemplo, o Zeballos estava lá. Ele veio de Copa Davis contra Israel e na semana seguinte, em Pereira, estava com cãibra. Depois tomou segunda rodada em Cáli. Ele falou “tô esgotado, Copa Davis te desgasta muito.” Estou viajando com o Andrés Schneiter, o Gringo, desde Medellín. Ele falou “achei lindo você não ter ido porque tenho certeza que você não ficaria tão inteiro como ficou.” Você perde a semana anterior, a semana da Davis e a semana após porque te desgasta muito. Depois do confronto com a Colômbia, que eu joguei no domingo, fui jogar em Houston e estava com cãibra num jogo de dois sets com o Kevin Anderson. Desgasta muito. Se não foi dessa vez, para mim fez um bem danado para a minha carreira e para os torneios.

Sua ideia para o ano que vem já é montar um calendário já pensando em ATPs e Australian Open? Não sei se incluiria o Challenger de São Paulo porque você é campeão lá…
Eu não tenho nada para defender. Só São Paulo. Esse ano vai ter o ATP de Quito, um bom lugar, onde eu gosto muito de jogar, e não é qualquer um que sabe jogar em Quito, Bogotá, esses lugares de altura. Não tem muito o que mudar, na verdade, mas se o Aberto de São Paulo tiver a mesma premiação, com US$ 100 mil, talvez eu jogue São Paulo. Na Austrália eu vou estar garantido. Muito difícil eu ficar fora da chave. Também não me vejo jogando um quali antes lá porque entre jogar um quali e um de US$ 125 mil, eu não trocaria. Mas como não saiu o calendário, não tem como a gente saber. A princípio, meu objetivo é entrar nessas chaves dos ATPs da América do Sul e, depois, Indian Wells e Miami. Aí, sim, vai depender muito do começo do ano. A princípio, até Miami quero estar com o ranking por volta de 70, 75, para conseguir jogar só chave principal. Seria um belo começo de ano. Aí tem que ir encaixando conforme os resultados.


Fognini manda o dedo para a torcida chinesa
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Alexandre Cossenza

Fabio Fognini aprontou mais uma. O italiano, conhecido por reclamar com árbitros, adversários e consigo mesmo, desta vez descontou a raiva no público chinês. Depois de surpreendente ser eliminado do Masters de Xangai pelo desconhecido Chuhan Wang, número 553 do mundo, Fognini mandou o dedo médio para a torcida. Veja no finzinho do vídeo abaixo.

Há quem diga também que Fognini deu uma cotovelada no adversário logo depois de cumprimentá-lo. Não me pareceu o caso. No entanto, o vídeo está aí para quem quiser ver. (editado às 13h15min desta quarta-feira) A ATP multou Fognini em US$ 2 mil. Apenas a título de curiosidade, o italiano embolsou mais de US$ 14 mil pela participação no evento.


Marcelo Melo, o discreto número 3
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Alexandre Cossenza

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Marcelo Melo acordou nesta segunda-feira, 6 de outubro de 2014, para comemorar mais um passo, mais um feito. O mineiro é agora o número 3 do mundo, melhor posição na sua carreira. Também é a melhor posição já ocupada por um brasileiro. Posto que pode até ser considerado o número 1 entre os normais, já que os irmãos gêmeos Bob e Mike Bryan dominam o circuito e, nos últimos quatro anos, só perderam a liderança por algumas semanas.

Faço sempre questão de registrar os feitos de Marcelo Melo porque eles costumam ser ofuscados por Bruno Soares, que também foi número 3 do mundo de outubro do ano passado até agosto de 2014. Soares ganhou dois Grand Slams em duplas mistas, esteve a um ponto de ganhar outro em Wimbledon e é, de certa forma, mais “midiático”. Conversa com todo mundo, dá mais entrevistas, sorri mais, tem mais patrocinadores. É um boa praça natural. Não força para ser uma figura carismática e, por isso, aparece mais que o conterrâneo. E não há problema nenhum nisso.

Não que Marcelo seja mal humorado nem avesso a entrevistas. Pelo contrário. Só não é tão tagarela quanto Bruno. E também não força a barra para tentar ser mais simpático do que é. E isso é ótimo. Até suas comemorações são mais comedidas. Para festejar a marca, fez um tweet. Unzinho, sem estardalhaço. Agradeceu e compartilhou um link para uma imagem do ranking de duplas. E só.

A questão é que no circuito de duplas os resultados dos dois brasileiros são, de certa forma, equiparáveis. Bruno Soares e Alexander Peya disputaram a final do US Open do ano passado. Marcelo Melo e Ivan Dodig fizeram o mesmo em Wimbledon, dois meses antes. Aliás, vale lembrar que Dodig, parceiro habitual de Melo, não disputou nem Roland Garros nem Wimbledon este ano. Ressalte-se, então, que melhor ranking do mineiro vem após dois Slams ao lado de “estranhos”. Foi às oitavas com Jonathan Erlich em Paris e só parou nas quartas em Londres, onde atuou com o austríaco Julian Knowle. Não é pouco.

Em uma das vezes que Marcelo esteve à frente de Bruno no ranking, perguntei se ele não achava que a atenção dada aos dois era muito diferente. Ele não respondeu exatamente o que eu perguntei, mas brincou, dizendo que era bom porque lhe sobrava mais tempo livre. E a verdade é que Marcelo faz força para não chamar atenção. Foi algo que notei quando passei um par de dias em Belo Horizonte, acompanhando os dois mineiros em pré-temporada. Até quando trocou de carro pela última vez o Girafa se preocupou em não se destacar demais nas ruas. Já bastam os 2,03m de altura para chamar atenção.


Guga: cinco Roland Garros e uma pessoa comum
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Alexandre Cossenza

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“Eu teria chances reais de ganhar cinco Roland Garros. Muito provável.” Ao lançar sua biografia no Rio de Janeiro, na noite desta quarta-feira, Gustavo Kuerten falou sobre o que poderia ter sido de sua carreira não fosse uma lesão no quadril que abreviou seus dias dentro de quadra. E falou com a naturalidade de um catarinense pegando uma onda numa segunda-feira, longe das câmeras. Sem forçar para produzir uma frase de efeito. Sem exagerar. Guga realmente acredita que, com seu corpo funcionando 100%, poderia ter triunfado em Paris outras vezes. “ E “outros Grand Slams também. Esticar para ser número 1 do mundo por muitas semanas.”

E o lançamento do livro “Guga, um brasileiro” não foi só para falar do passado e do que teria sido. Na meia hora que conversou com a imprensa, o tricampeão de Roland Garros falou sobre a criação do livro e de como, ao longo do processo, percebeu o que conectava com milhões de fãs. E as mensagens de sua biografia estiveram todas presentes no bate-papo. Guga reforçou a ideia de que é uma pessoa comum e que qualquer um que enxergue suas oportunidades pode alcançar seus objetivos. Ressaltou também que tem um número 1 não garante a país algum o crescimento do esporte e deu um recado: com uma base em feita e investimento em profissionais capacitados, é possível ter cinco tenistas entre os 100 melhores do mundo. Veja (e ouça) abaixo os trechos mais interessantes.

Sobre o desafio de criar a biografia

“Eu sabia que queria contar a minha história, mas ao longo do caminho ficou muito claro que definitivamente o que eu queria passar era a minha sensação, a emoção que transcorria na minha cabeça durante todo esse tempo percorrido.”

“Foi bacana porque ao longo do caminho, foi ficando claro para mim. Foi isso que serviu para me ligar tão forte aos milhões de pessoas. De alguma forma, não em palavras, eu conseguia transmitir o que eu estava vivenciando: a minha paixão, aquela felicidade.”

“O livro tem muito disso. Fala do que eu represento, do que eu valorizo como importância”.

Sobre o porquê do nome “um brasileiro” para seu livro

“Essa história é fantástica, é uma façanha extraordinária, mas é um cara normal, uma pessoa comum! Eu me enxergo com muita facilidade assim e gosto de viver assim também. Demonstra, de uma forma até provocativa e conflitante, que está à disposição. Obviamente, eu tive minhas oportunidades, as pessoas ao lado, mas talvez passe na vida de muita gente e se não tiver vários passos adiante, se não conseguir enxergar, às vezes coisa que ninguém vê, o sonho pode passar batido ou nem aparecer na cabeça. No meu caso, foi construído dessa forma. Tinha situações que eu consegui sonhar quando tinha só 18. Fui construindo a minha força através de situações normais.”

“Acho que está à mercê das pessoas. Cada um com o seu horizonte e seus desejos, mas… dá pra fazer. Tem jeito de fazer. Se quiser de verdade, uma conquista ou realizar alguma coisa, tá aí. É possível. Se me contassem, eu não acreditava, mas como aconteceu comigo, fica mais fácil.”

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Sobre como seria sua carreira sem a lesão no quadril
(resposta brevemente interrompida pela visita de Carlos Arthur Nuzman)

“Isso vem naturalmente, diversas vezes, na minha cabeça. A minha carreira, se for ver, estava começando ali, com 25. Até os 30, ia melhorar a cada ano.”

“Eu teria chances reais de ganhar cinco Roland Garros. Muito provável. Outros Grand Slams também. Esticar para ser número 1 do mundo para muitas semanas. Ao mesmo tempo, eu vejo tudo que aconteceu e já foi infinitamente muito maior do que eu sempre sonhei. Mas tem que respeitar que essa sensação, ainda mais em um competidor, um cara que esteve lá em cima, de que ela pode flutuar na cabeça naturalmente. Até hoje, volta e meia eu pego no sono e vejo que, no sonho, dá para ganhar de um monte ali (risos).”

“Eu tive três anos dos oito ou dez que viriam pela frente do auge do meu tênis. Eu deixo tu fazer as contas, senão eu vou ficar meio ‘poxa, que pena mesmo’.”

Sobre suas Escolinhas e a Semana Guga Kuerten

“Eu mirei nos desafios de conseguir, aí sim, transformar a realidade do tênis”.

“Até mesmo ter um número 1 não significa nada para o esporte. Não vai transformar, ter ciclos de formação adequados e uma nova realidade. Foi momentâneo. Deu dez, 12 anos, já deu uma caída e realmente é incrível como ainda sustenta. Essa imagem ainda dá um segundo, um terceiro suspiro porque o último título que eu tive já faz 10, 15 anos – os grandes títulos que eu tive. Mas a coisa parece que está aí”.

“Independente disso, se se constrói uma base bem consolidada, com pessoas capacitadas, com conhecimento e investimento nos professores, aí acontece. Se um dia tiver 100, 150 escolinhas dessas boas… Aí, independente de quaisquer outras etapas, a gente vai ter uns cinco caras entre os 100 do mundo com certeza absoluta.”


A cautela que dá certo para Bellucci
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Alexandre Cossenza

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O pós-US Open é a parte mais difícil do calendário para Thomaz Bellucci. Ainda que dono de um bom saque e golpes potentes do fundo, o número 1 do Brasil é adepto do jogo no saibro, onde pode explorar o bom top spin gerado por seu forehand e tem mais tempo para preparar os golpes e trabalhar pontos. Quadras cobertas e mais rápidas nunca foram seu forte. Nesta época do ano, quando precisa enfrentar frequentemente tenistas que jogam com bola mais reta, o paulista costuma enfrentar problemas. Foram meses difíceis – sempre em fim de temporada – que culminaram com as demissões de João Zwetsch e Larri Passos.

Em média, Bellucci costuma disputar cinco torneios depois do US Open. E, de 2009 (quando conquistou seu primeiro título ATP) até hoje, nunca somou mais de 205 pontos no período. Sua melhor campanha veio em 2012, quando foi vice no ATP 250 de Moscou. Ainda assim, aquele torneio foi exceção. Não foi uma bela fase. Apenas um belo torneio. No mesmo ano de 2012, Bellucci venceu apenas uma partida nos outros quatro torneios pós-US Open.

De 2010 a 2012, sempre considerei o calendário do número 1 do Brasil um tanto ousado. Mesmo sabendo de suas dificuldades no piso, o paulista optou por começar sua viagem asiática por torneios fortes. Pequim (500) em 2010 e 2011, e Tóquio em 2012. Nunca estreou com vitória. Nunca tentou começar a gira asiática pelos ATPs 250, como Metz, São Petersburgo, Bangkok, Kuala Lumpur. Sim, Bellucci sempre disputa a Copa Davis e ficaria cansativo atuar no domingo e correr para estrear na terça do outro lado do mundo. Ainda assim, sempre houve a opção de descansar uma semana e jogar na Ásia com algum descanso.

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Este ano começou diferente. Sem ranking para disputar até os ATPs 250, Bellucci tinha a opção de tentar a sorte nos qualifyings, mas não quis. Quase que forçado a ser cauteloso, apostou em Challengers fortes. Seu calendário tinha Orleans, Mons e Rennes, seguidos pelo 250 de Moscou (ainda precisa de desistências para entar), o 500 de Valência (vai jogar o quali) e o Masters 1.000 de Paris (quali). E o que aconteceu? No primeiro Challenger, um vice-campeonato. São 75 pontos na conta. Para quem costuma somar 150 no período, não é nada mau.

Mas calma lá, não é um calendário medroso? Pouco ambicioso? Acho que não, e o melhor argumento para defender minha tese está nos parágrafos acima. Bellucci já tentou o caminho ousado e se deu mal. Em 2011, só conseguiu 50 pontos depois do US Open – e isto porque somou 30 ao entrar de convidado no Challenger Finais, aquele torneio sem pé nem cabeça organizado por sua ex-promotora. Mas tem mais: Orleans e Mons são Challengers fortes, com premiação de US$ 150 mil dólares e 125 pontos para o campeão. Não é nada incomum ver tenistas do top 100 nestes torneios. Rennes, outro evento de bom nível, paga US$ 100 mil. Logo, não é como se Bellucci estivesse voltando para a América do Sul para jogar torneios de US$ 40 mil (como os que Feijão vem jogando – e bem).

Além disso, para quem viu as atuações de Bellucci durante a semana em Orleans ficou clara a adaptação ao piso e a consequente evolução no nível de jogo. Uma coisa é começar a semana contra Marc Gicquel e Laurent Lokoli, tenistas que nem no top 200 estão. Dá para errar e seguir vivo no torneio. A margem para erro é muito menor nos ATPs 250. O brasileiro, que vinha de jogos no saibro, cresceu e foi à final de um evento que tinha oito top 100 como cabeças de chave. Dado o histórico nesta época do ano, é um ótimo resultado. Com os pontos de Orleans, subiu 11 posições e já aparece em 68º no ranking. A cautela deu certo.

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Coisas que eu acho que acho:

- Não dá para fazer um post sobre Challengers sem ressaltar o bom momento de Feijão. Se ficou chateado com a não convocação para a Copa Davis, o número 2 do Brasil não desanimou e vem mostrando resultados em quadra. Desde que ficou fora do time brasileiro, foi vice-campeão em Medellín, alcançou a semifinal em Quito e chegou a mais uma final em Pereira. Em três semanas, somou 132 pontos e garantiu sua volta ao top 100. Aparece como 93º na lista desta semana.

- Para não parecer injusto: antes do US Open e da Davis, Feijão já vinha jogando bem. Fez, em sequência, duas semifinais em Challengers (Scheveningen e Poznan) e passou pelo qualifying do ATP 250 de Kitzbühel. Em sete eventos, o único resultado que ficou abaixo da expectativa foi a eliminação na primeira rodada do quali em Flushing Meadows.

- Feijão ainda tem 105 pontos para defender até o fim da temporada, então não há garantias de que o Brasil terá dois top 100 no começo de 2015. Entretanto, João Souza ocupa hoje o terceiro posto no ranking dos Challengers de 2014. Se continuar entre os sete primeiros, ganha uma vaga no Challenger Finals, em São Paulo. O torneio sem pé nem cabeça distribui US$ 220 mil em prêmios e dá até 125 pontos para o campeão.


Guga revela cirurgia “secreta”
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Alexandre Cossenza

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“Guga, um Brasileiro” não é um livro de grandes revelações. É uma bela biografia de Gustavo Kuerten que traça o perfil do tricampeão de Roland Garros desde sua infância, recheada de casos pitorescos, mas com poucas novidades sobre o período de atleta. A não ser por uma, citada quase casualmente na página 345: Guga passou por três cirurgias no quadril, e não duas, como sempre afirmou (e como sempre foi dito por sua assessoria de imprensa).

A terceira operação foi realizada em março de 2006, na cidade de Vail, no estado americano do Colorado, pelo mesmo médico que conduziu o procedimento anterior: o americano Marc Philippon. No livro, Guga conta que o pós-operatório foram “os dois meses mais agoniantes da vida”. “Fazia um frio glacial no inverno americano de 2006. Mal dava para pôr o nariz para fora. Passava os dias no quarto minúsculo de um hotel de terceira categoria. Minha perna ficou inchada, parecia que tinha um elefante embaixo de mim. Por dois meses, não pude colocar o pé no chão. Dormia com a perna para cima, amarrada a uma roldana. Só saía do hotel três vezes por dia para as sessões intermináveis de fisioterapia, a primeira às sete, depois às onze, por fim às cinco da tarde, todas a peso de ouro, numa conta que chegava fácil a dez mil dólares por mês”.

O catarinense conta ainda que, assim como na segunda cirurgia (realizada em 2004), os médicos disseram que o procedimento havia sido um sucesso. Logo ficou claro – e hoje todo mundo sabe disso – que Guga nunca esteve sequer perto de retomar o nível atlético de antes. Isso e a frustração por estar esgotando os recursos na tentativa de voltar a jogar o tênis de antes fizeram com que o tricampeão de Roland Garros preferisse nunca falar abertamente sobre essa terceira cirurgia. A informação, até a publicação de “Guga, um brasileiro”, só era conhecida por pessoas íntimas e do meio do tênis.

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A mensagem
A biografia de Guga não é bombástica como a de Agassi. Pelo contrário. O catarinense sempre evitou polêmicas e não fez diferente agora. As únicas brigas políticas relatadas no livro são as que todo mundo já conhecia, como a disputa com o Comitê Olímpico Brasileiro antas dos Jogos de Sydney, em 2000, e o boicote à Copa Davis em 2004, em protesto contra a direção de Confederação Brasileira de Tênis. Vale pelas memórias, não pelas novidades.

Se há uma comparação que pode ser feita, é que o livro de Guga segue uma direção parecida com a da biografia de Rafael Nadal, escrita pelo inglês John Carlin. Enquanto lembra da infância e relata momentos que contribuíram para formar a personalidade de Guga como atleta e pessoa, a publicação conta, pelos olhos e com as palavras do tenista, seus maiores feitos dentro de quadra.

A intenção de Guga com o livro está estampada na capa, logo abaixo de seu nome. “Um brasileiro” significa que o catarinense é produto do país que nasceu e que “com suor, sorrisos e lágrimas, aconteceu comigo o que poderia acontecer com qualquer brasileiro”. Vale a leitura até para quem não é fã de tênis.

No Rio de Janeiro
Guga, que lançou seu livro em São Paulo, durante a semana que antecedeu a Copa Davis, fará uma noite de autógrafos quarta-feira, no Rio de Janeiro. O evento será na Livraria da Travessa do Shopping Leblon a partir das 18h. Recomendo que cheguem cedo. A fila de autógrafos em São Paulo era de contornar o quarteirão. A quem quiser comprar desde já, segue o link.

Tags : Guga livro


Muy caliente
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Alexandre Cossenza

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Primeiro, os fatos. A Espanha perdeu para o Brasil em São Paulo e foi rebaixada para a segunda divisão da Copa Davis. Será a primeira vez do time ibérico no Zonal Europeu desde 1996. Em seguida, Carlos Moyá pediu demissão. Disse que não continuaria como capitão, mas que voltaria ao cargo se o cenário fosse outro. Entra em cena Gala León. A moça, diretora esportiva da RFET, a federação espanhola, foi promovida a capitã. E aí começou a confusão.

Alguns tenistas disseram publicamente que não conheciam Gala León. Rafael Nadal foi um pouco mais longe e disse que a nomeação era estranha. Até porque o presidente da RFET, José Luís Escañuela, não consultou os jogadores. Toni Nadal, língua solta como sempre, foi mais longe. Disse que não era muito apropriado ter uma mulher como capitã da Davis e falou que havia gente mais qualificada e preparada para o cargo do que Gala León.

O ápice da confusão veio na noite de terça-feira, quando Toni e Gala concederam entrevista por telefone a José Ramón de la Morena, no programa “El Larguero”. O papo começa amistoso, mas logo fica un poquito caliente. Vejam abaixo alguns trechos:

TN: Há quanto tempo é diretora esportiva?
GL: Desde julho
TN: Desde julho, é curioso que não tenha ligado a Rafael para ver como se encontrava. Não falou com nenhum jogador. É curioso.

TN: Que sua passagem como capitã seja a melhor possível, mas creio que há gente, e estou no meu direito evidentemente de opinar, que está mais preparada do que você. Nada mais. Simples assim. Isso não creio que seja motivo de ofensa, absolutamente.
GL: A mim, pessoalmente, não ofende.
TN: Minha vontade nunca foi essa.
GL: De verdade. Pode opinar ou não opinar. Eu soube lhe respeitar. Cada um tem seu ponto de vista.
TN: Para ser capitão da Davis, o normal é conhecer o tênis masculino. Para mim, se oferecessem o posto de capitão da Fed Cup a Rafael, creio que não seria o mais indicado.
GL: Mas continua sendo um ponto de vista.

TN: Que eu acredite que não está suficientemente preparada, é meu direito. Provavelmente esteja esteja no tênis feminino, porque saberá quem é a jogadora número 30, 40, 50 do mundo. Com os homens… porque eu nunca lhe vi em um torneio masculino! É só isso.

GL: É sua opinião. Ele fala de mim como se conhecesse por toda a vida.
JRDLM: Não, Gala. Ele está dizendo que não lhe conhece. É o contrário.
TN: Não se confunda. Não te digo em nenhum momento que te conheço há uma vida inteira. Não te conheço absolutamente. Rafael não te conhece porque falei com ele. Falei com Feliciano López e me disse exatamente o mesmo. Falei com outros jogadores, e o mesmo.
GL: Feliciano não me conhece?
TN: Desde que é diretora esportiva, não entrou em contato com ele. Estamos falando de outro tipo de conhecimento.

TN: Quem você acha que está mais preparado para dirigir uma equipe da Copa Davis? Juan Carlos Ferrero ou você?
(silêncio)
TN: O que você acha?
GL: Obviamente, não entrarei em mais polêmicas.
JRDLM: Não há nenhuma polêmica. Aqui…
TN: Não é polêmica, Gala.
GL: Entendo a posição da RFET, vou olhando para a frente e sigo trabalhando….
JRDLM: Tudo isso é fenomenal, mas se trata de explicar às pessoas o porquê e qual é o seu projeto. E não está explicando nada!

A entrevista inteira dura 22 minutos e pode ser ouvida neste link. Mas e aí, quem tem razão? Não é muito questão de ter ou não razão – e vou ignorar a parte em que Toni Nadal fala que seria um incômodo ter uma mulher no vestiário porque não faz sentido algum. Sua argumentação no programa de rádio vai por outra linha e, essa sim, merece debate tenístico.

Talvez seja estranho para quem não conhece um pouco do meio, mas tenistas são “paneleiros” por definição. Para esse tipo de atleta, é sempre difícil aceitar alguém “de fora”. Seja dando opiniões (como é o caso de nós, jornalistas) ou, pior ainda, entrando em quadra. Gala León é tenista, óbvio, mas viveu outro circuito. Não tem uma relação estreita com os tenistas. Tanto que afirmam publicamente que a nomeação é estranha.

Mais do que isso: Gala León tem um currículo dentro de quadra bem inferior a outros possíveis capitães da Espanha. Toni Nadal cita Juan Carlos Ferrero, Sergi Bruguera e Alberto Berasategui como exemplos. Gente que viveu o circuito masculino e tem relação mais próxima com quem quer que esteja na próxima equipe espanhola da Copa Davis.

O grande problema mesmo com a nomeação de Gala León para o cargo de capitã é que a polêmica tirou o foco do real problema do tênis espanhol: como fazer com que seus melhores tenistas voltem a jogar pelo país?Até agora, só uma certeza: o nome de Gala León nem sequer começa a resolvê-lo.

O grande trunfo para a Espanha, no entanto, são os Jogos Olímpicos. Pelo regulamento utilizado para Londres, cada tenista precisa fazer-se disponível (não precisa necessariamente ser convocado) para defender o país em duas temporadas (e uma delas precisa ser 2015 ou 2016). Logo, quem não atua desde 2012 e tem ambições olímpicas precisará colocar-se à disposição da capitã ou de quem quer que seja em breve. Aí eu quero ver…